A Companhia Negra
Capítulo Quatro | Sussurro
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 2 partes.
Capítulo Quatro
SUSSURRO
A quela foi a batalha que nos proporcionou o maior ganho pelo menor esforço, de todas que eu consigo lembrar. Foi pura sorte que transcorreu completamente a nosso favor. Foi um desastre para os rebeldes. Tudo aconteceu porque estávamos em fuga do Saliente, onde as defesas da Dama tinham desmoronado quase da noite para o dia. Levávamos conosco 500 ou 600 soldados do exército imperial que tinham perdido suas unidades. Pensando na velocidade, o Capitão havia escolhido cortar direto pela Floresta da Nuvem até Lordes em vez de seguir a longa estrada sul que a contornava.
Um batalhão da força principal dos rebeldes vinha um ou dois dias atrás de nós. Poderíamos ter nos virado e enfrentado os inimigos, mas o Capitão preferiu despistá-los. Eu gostava da forma como ele pensava. A luta ao redor de Rosas tinha sido brutal. Milhares morreram. Com tantos soldados extras se juntando à Companhia, eu estava perdendo homens por pura falta de tempo para tratá-los.
Nossas ordens eram para nos apresentar ao Rastejante em Lordes. O Apanhador de Almas achava que Lordes seria o alvo da próxima investida rebelde. Cansados do jeito que estávamos, esperávamos ver mais combate amargo antes que o inverno reduzisse o ritmo da guerra.
— Chagas, olhe aqui!
Branquelo foi correndo até onde eu estava sentado com o Capitão, Calado e mais um ou dois outros. Ele carregava uma mulher nua jogada sobre o ombro. Ela poderia ser atraente se não tivesse sido tão completamente abusada.
— Nada mal, Branquelo, nada mal — comentei e voltei a meu diário.
Atrás do Branquelo os urros e gritos continuavam. Os homens colhiam os frutos da vitória.
— São bárbaros — observou o Capitão, sem rancor.
— Temos que deixá-los soltos às vezes — eu o lembrei. — Melhor aqui do que com o povo de Lordes.
O Capitão concordou com relutância. Ele não tinha muito estômago para pilhagem e estupros, por mais que fizessem parte de nossos negócios. Acho que ele é, secretamente, um romântico, pelo menos quando mulheres estão envolvidas.
— Elas pediram por isso, pegando em armas — afirmei, tentando animá-lo um pouco.
— Há quanto tempo isso tudo vem acontecendo, Chagas? — perguntou-me ele, lúgubre. — Parece que há uma eternidade, não é? Você consegue se lembrar de quando ainda não era soldado? Qual é o objetivo disto? Por que estamos aqui? Vencemos batalha atrás de batalha, mas a Dama está perdendo a guerra. Por que eles simplesmente não encerram tudo isso e vão para casa?
Ele estava parcialmente correto. Desde Forsberg tinha sido uma retirada atrás de outra, ainda que estivéssemos indo bem. O Saliente havia ficado em segurança até Metamorfo e o Manco se meterem na história.
Nossa última retirada nos trouxera até ali, onde esbarramos com esta base rebelde. Presumimos que era o principal centro de treinamento e preparo para a campanha contra o Rastejante. Felizmente, vimos os rebeldes antes que eles nos vissem. Cercamos o lugar e atacamos antes do amanhecer. Estávamos em severa desvantagem numérica, mas os rebeldes não lutaram muito. A maioria era de voluntários verdes. O mais espantoso era a presença de um regimento de amazonas.
Já tínhamos ouvido falar nelas, é claro. Havia várias no leste, em volta de Ferrugem, onde o combate é mais violento e contínuo do que aqui. Este era nosso primeiro contato. Deixou os homens desdenhosos de mulheres guerreiras, apesar de elas terem lutado melhor que os compatriotas do sexo oposto.
A fumaça começou a ser soprada em nossa direção. Os homens estavam incendiando os alojamentos e prédios do comando.
— Chagas, vá garantir que esses idiotas não vão tacar fogo na floresta inteira — murmurou o Capitão.
Eu me levantei, peguei minha bolsa e fui na direção do estardalhaço.
Havia corpos por todos os lados. Os idiotas provavelmente se sentiram completamente seguros. Não tinham erguido uma paliçada sequer ou cavado trincheiras ao redor do acampamento. Burros. É a primeira coisa que você faz, mesmo quando sabe que não há inimigo algum num raio de 100 quilômetros. Você bota um telhado sobre a cabeça mais tarde. Antes molhado que morto.
Eu deveria estar acostumado a isto. Já estou com a Companhia há muito tempo. E, de fato, me incomoda menos do que antes. Pus uma armadura de aço sobre meus pontos fracos morais. Mas ainda tento evitar olhar para as piores partes.
Você, que vem depois de mim, escrevinhando estes Anais, já deve ter percebido que evito retratar a completa verdade sobre este nosso bando de canalhas. Você sabe que eles são malévolos, violentos e ignorantes. São bárbaros completos, vivendo suas fantasias mais cruéis, com o comportamento suavizado apenas pela presença de alguns homens decentes. Eu não costumo mostrar tal lado porque esses homens são meus irmãos, minha família, e me ensinaram a não falar mal dos parentes. As lições mais antigas são as últimas a morrer.
Corvo ri quando lê meus registros.
— Água com açúcar — ele brinca, então ameaça tomar os Anais e escrever as histórias da maneira como as vê acontecer.
Corvo durão. Zombando de mim. E quem foi que vagueou pelo acampamento, detendo os homens que estavam se divertindo com um pouco de tortura? Quem tinha uma menina de 10 anos em seu rastro como uma velha mula de carga? Não era o Chagas, irmãos. Não o Chagas. O Chagas não é um romântico. Essa é uma paixão reservada ao Capitão e ao Corvo.
Naturalmente, o Corvo se tornou o melhor amigo do Capitão. Eles se sentam juntos como duas rochas, conversando dos mesmos assuntos que os penedos conversam. Estavam contentes em simplesmente compartilhar da companhia um do outro.
Elmo liderava os incendiários. Eles eram homens mais velhos da Companhia que já tinham saciado suas ânsias menos intensas da carne. Aqueles que ainda estavam atracados às damas eram quase todos nossos jovens novatos do exército.
Os soldados da Dama tinham lutado bravamente contra os rebeldes em Rosas, mas o inimigo fora forte demais. Metade do Círculo dos Dezoito se reuniu para nos atacar lá. Nós tínhamos apenas o Manco e o Metamorfo a nosso lado. Esses dois passaram mais tempo tentando sabotar um ao outro do que ajudando a repelir o Círculo. O resultado foi o fracasso. A derrota mais humilhante que a Dama sofreu numa década.
O Círculo se mantém unido a maior parte do tempo. Eles não gastam mais energia abusando um do outro do que gastam contra os inimigos.
— Ei! Chagas! — chamou Caolho. — Venha se divertir!
Ele jogou uma tocha acesa pela porta de um alojamento, que imediatamente explodiu. As pesadas venezianas de carvalho das janelas voaram. Uma língua de chamas envolveu Caolho, que saiu correndo, os cabelos desgrenhados fumegando sob a aba de seu esquisito chapéu molengo. Eu derrubei o feiticeiro e usei o chapéu para apagar as chamas em seus cabelos.
— Tudo bem, tudo bem — resmungou ele. — Não precisa se divertir tanto.
Incapaz de conter um sorriso, ajudei Caolho a se levantar.
— Você está bem?
— Chamuscado — respondeu, assumindo aquele ar de falsa dignidade que os gatos adotam depois de algum ato particularmente atrapalhado. Algo do tipo “Era isso mesmo que eu queria fazer o tempo todo”.
O fogo rugia. Pedaços de sapé subiam e dançavam sobre o prédio.
— O Capitão me mandou aqui para evitar que vocês palhaços comecem um incêndio florestal — observei.
Foi então que Duende chegou, contornando o prédio flamejante. Sua boca larga estava aberta num sorriso maroto.
Caolho viu a cara do outro e berrou.
— Seu cabeça de verme! Você armou para mim! — Lançou um uivo de arrepiar e começou a dançar. O rugido das chamas se aprofundou, tornando-se rítmico. Logo tive a impressão de ver algo saltitando dentre as chamas detrás das janelas.
Duende também viu. Seu sorrisinho desapareceu. O gorducho engoliu seco, empalideceu e começou uma dancinha própria. Duende e Caolho uivavam, crocitavam e praticamente ignoraram um ao outro.
Um cocho de água descarregou seu conteúdo, que voou num arco pelo ar e atingiu as chamas. A água de um barril fez o mesmo em seguida. O rugido do fogo enfraqueceu.
Caolho saltitou até Duende e o cutucou, tentando quebrar sua concentração. Duende se esquivou, pulou, crocitou e continuou dançando. Mais água atingiu o fogo.
— Mas que dupla!
Eu me virei. Elmo tinha vindo assistir.
— Que dupla mesmo — concordei.
Criando confusão, brigas e reclamações, eles poderiam ser uma alegoria dos feiticeiros mais poderosos do ramo. Exceto que o conflito daqueles dois não era intenso e completo, como aquele entre Metamorfo e Manco. Quando você sopra a névoa, descobre que esses dois são amigos. Não há amigos dentre os Tomados.
— Tenho algo a lhe mostrar — disse Elmo. Não falou mais nada. Concordei com a cabeça e o segui.
Duende e Caolho continuaram a peleja. Duende parecia estar ganhando. Parei de me preocupar com o fogo.
— Você já descobriu como ler esses rabiscos nortistas? — indagou Elmo. Ele tinha me levado ao prédio que parecia ser o quartel-general do acampamento inteiro. Indicou uma montanha de papéis que seus homens haviam empilhado no chão, evidentemente como isca para um novo incêndio.
— Acho que consigo decifrar.
— Pensei que você poderia encontrar algo nessa tralha.
Escolhi uma folha aleatoriamente. Era uma cópia de uma ordem instruindo um batalhão específico da força principal rebelde a se infiltrar em Lordes e desaparecer escondido nas casas de simpatizantes locais até que fossem chamados a atacar os defensores de Lordes pelas costas. Estava assinado Sussurro. Uma lista de contatos estava anexada.
— Minha nossa! — exclamei, subitamente sem fôlego. Aquele pedaço de papel solitário entregava meia dúzia de segredos rebeldes, e implicava em vários outros. — Minha nossa!
Peguei outro. Assim como o primeiro, eram ordens para uma unidade específica. Assim como o primeiro, era uma janela para penetrarmos no coração da estratégia rebelde atual.
— Chame o Capitão — pedi a Elmo. — Chame o Duende, o Caolho, o Tenente e quem mais deveria...
Eu provavelmente estava com uma cara muito esquisita. Elmo tinha uma expressão estranha, nervosa, quando me interrompeu.
— O que, com mil demônios, é isso, Chagas?
— Todas as ordens e planos para a campanha contra Lordes, a estratégia de batalha completa. — Mas isso não era o principal. O mais importante eu iria guardar para o próprio Capitão. — E corra com isso. Os minutos podem ser vitais. E mande todo mundo parar de queimar coisas. Merda, mande todo mundo parar. Achamos o pote de ouro. Não taquem fogo nele.
Elmo saiu batendo a porta. Ouvi seus berros desaparecendo ao longe. Um bom sargento, o Elmo. Ele não perde tempo fazendo perguntas. Grunhindo, sentei-me no chão e comecei a examinar os documentos.
A porta rangeu. Não ergui o olhar. Estava febril, olhando os documentos tão rápido quanto conseguia arrancá-los do monte, e distribuindo-os em pilhas menores. Botas lamacentas surgiram no limite de meu campo de visão.
— Você consegue ler estes papéis, Corvo? — Eu tinha reconhecido seu passo.
— Se eu consigo? Claro.
— Então me ajude a ver o que temos aqui.
Corvo se sentou à minha frente, do outro lado da pilha, que praticamente nos impedia de ver um ao outro. Lindinha se posicionou atrás dele, onde não o atrapalharia, mas permanecendo à sombra da proteção que Corvo lhe proporcionava. Seus olhos calados e mortiços ainda refletiam os horrores daquela vila tão distante.
De várias maneiras, Corvo é um paradigma da Companhia. A diferença entre ele e o resto de nós é o fato de ele ser um pouco mais de tudo, um pouco de exagero. Talvez, sendo o recém-chegado, o único irmão do norte, ele fosse um símbolo de nossa vida a serviço da Dama. As agonias morais dele se tornaram nossas agonias morais. A recusa silenciosa dele em uivar e bater no peito perante a adversidade também é nossa. Preferimos falar com a voz metálica de nossas armas.
Chega. Por que se aventurar no significado de tudo? Elmo tinha achado o veio de ouro. Cabia a mim e Corvo escavar as pepitas.
Duende e Caolho apareceram. Nenhum dos dois sabia ler o alfabeto nortista. Eles começaram a se divertir mandando sombras sem origem perseguir umas às outras pelas paredes. Corvo olhou feio para os dois. As palhaçadas e briguinhas incessantes dos dois podem ser cansativas quando se tem preocupações sérias.
Os dois olharam para Corvo, pararam com a brincadeira e se sentaram silenciosamente, como crianças que tinham levado uma bronca. Corvo tem esse dom, essa energia, esse impacto de personalidade, capaz de fazer homens mais perigosos que ele estremecerem ao vento sombrio e gélido que ele soprava.
O Capitão chegou, acompanhado por Elmo e Calado. Pela porta eu vi vários outros homens desocupados. Engraçado como eles sempre sabem quando há algo interessante acontecendo.
— O que temos aí, Chagas? — indagou o Capitão.
Concluí que ele já teria extraído tudo que podia de Elmo, então fui direto ao ponto.
— Estas ordens — indiquei uma das pilhas. — Todos estes relatórios — mostrei outra. — Tudo assinado por Sussurro. Estamos chutando as alfaces na horta particular de Sussurro. — Minha voz soava extremamente aguda.
Por um instante ninguém disse nada. Duende soltou alguns guinchos quando Manso e os outros sargentos chegaram apressados. Finalmente, o Capitão perguntou a Corvo:
— É isso mesmo?
Corvo confirmou com a cabeça.
— Julgando pelos documentos, ela esteve aqui várias vezes desde o começo da primavera.
O Capitão juntou as mãos e começou a andar de um lado para o outro. Ele parecia um velho monge cansado a caminho das preces noturnas.
Sussurro é a mais famosa de todos os generais rebeldes. Sua genialidade teimosa tinha mantido o front oriental sólido apesar dos melhores esforços dos Dez. Ela também é a mais perigosa do Círculo dos Dezoito. É conhecida pelo grau de detalhamento das campanhas que planeja. Numa guerra em que frequentemente se tem a impressão de que o caos armado governa os dois lados, as forças de Sussurro se destacam por sua sólida organização, disciplina e clareza de propósito.
— Ela supostamente estaria comandando o exército rebelde em Ferrugem, correto? — indagou o Capitão.
A luta por Ferrugem já durava três anos. Os rumores davam conta de centenas de quilômetros quadrados de terra devastada. Durante o inverno passado, os dois lados foram forçados a comer os próprios mortos para sobreviver.
Confirmei com a cabeça. A pergunta do Capitão era retórica. Ele estava pensando em voz alta.
— E Ferrugem tem sido um campo de massacre há anos. Sussurro não fraqueja. A Dama não recua. Mas, se Sussurro está vindo para cá, então o Círculo decidiu deixar Ferrugem cair.
— Significa que estão passando de uma estratégia oriental para uma setentrional — acrescentei. — O oeste está prostrado. Os aliados da Dama governam os mares ao sul. O norte vem sendo ignorado desde que as fronteiras do império alcançaram as grandes florestas ao norte de Forsberg. Foi no norte que os rebeldes conquistaram seus sucessos mais espetaculares.
O Tenente observou:
— Eles têm a vantagem, com Forsberg tomada, o Saliente conquistado, Rosas destruída e Centeio cercado. Há tropas rebeldes de elite a caminho de Desejo e Jane. Serão detidas, mas o Círculo já sabe disso. Então estão dançando outra música e indo na direção de Lordes. Se Lordes cair, eles estarão à beira da Planície dos Ventos. Atravesse a Planície dos Ventos, suba a Escada das Lágrimas e de lá se descortina Talismã, a 150 quilômetros.
Continuei examinando e separando papéis.
— Elmo, talvez fosse bom você dar uma olhada por aí e ver se consegue achar algo mais. Ela pode ter escondido algumas coisas.
— Use Caolho, Duende e Calado — sugeriu Corvo. — Mais chance de achar segredos.
O Capitão aprovou a proposta.
— Encerre essa confusão toda lá fora — disse ele ao Tenente. — Carpa, você e Manso vão preparar os homens para a partida. Pederneira, dobre a guarda do perímetro.
— Senhor? — perguntou Manso.
— Você não quer estar aqui quando Sussurro voltar, quer? Duende, volte aqui. Entre em contato com o Apanhador de Almas. Estas informações vão direto ao topo. Agora.
Duende fez uma careta horrível, então foi até o canto e começou a murmurar para si mesmo. Era uma feitiçariazinha silenciosa... no começo.
O Capitão continuou.
— Chagas, você e Corvo empacotam esses documentos quando terminarem. Vamos levar tudo.
— Talvez seja melhor separar o mais importante para o Apanhador — comentei. — Algumas destas coisas vão exigir atenção imediata se nós quisermos aproveitá-las. Digo, teremos que agir antes que Sussurro possa espalhar as notícias.
Ele me interrompeu.
— Certo. Vou mandar uma carroça. Não enrole. — O Capitão parecia meio carrancudo ao sair.
Um novo grau de terror permeou os gritos e berros lá fora. Estiquei minhas pernas doloridas e fui até a porta. As tropas estavam arrebanhando os rebeldes até o campo de treinamento. Os prisioneiros entenderam a súbita ansiedade da Companhia em encerrar tudo e partir. Eles acharam que estavam prestes a morrer minutos antes de a salvação chegar.
Balançando a cabeça, continuei a minha leitura. Corvo me olhou de um jeito que poderia significar que compartilhava minha dor. Por outro lado, poderia ter exibido desprezo por minha fraqueza. É difícil saber, com Corvo.
Caolho chegou correndo, foi até mim e largou uma braçada de volumes embrulhados em oleado. Torrões de terra úmida ainda estavam grudados a eles.
— Você estava certo. Escavamos esses aqui atrás dos alojamentos dela.
Duende soltou um longo berro agudo, tão arrepiante quanto a voz de uma coruja quando você está sozinho na floresta à meia-noite. Caolho correu para ajudá-lo.
São momentos assim que me fazem duvidar da suposta inimizade deles.
— Ele está na Torre — gemeu Duende. — Está com a Dama. Eu vejo pelos olhos dele... os olhos... os olhos... As trevas! Oh, Deus, as trevas! Não! Oh, Deus, não! — As palavras dele se distorceram num grito de puro terror, que se reduziu novamente: — O Olho. Eu vejo o Olho. Está fitando através de mim.
Corvo e eu trocamos olhares e franzimos os cenhos. Não sabíamos do que ele estava falando.
Duende parecia estar regredindo até a infância.
— Faz ele parar de me olhar. Faz ele parar, eu fui bom. Faz ele ir embora.
Caolho estava ajoelhado junto a Duende.
— Está tudo bem. Está tudo bem. Não é real. Vai ficar tudo bem.
Troquei olhares com Corvo. Ele se virou, fazendo gestos para Lindinha.
— Mandei ela buscar o Capitão.
Lindinha partiu relutante. Corvo pegou outra folha da pilha e voltou a ler. Frio como rocha, o Corvo.
Duende gritou por mais um tempo, então ficou quieto como a morte. Eu me virei de súbito. Caolho ergueu a mão para indicar que eu não era necessário. Duende tinha terminado de mandar a mensagem.
Duende relaxou lentamente. O terror deixou o rosto dele. Sua cor melhorou. Eu me ajoelhei, toquei a carótida dele. O coração martelava, mas estava desacelerando.
— Fico surpreso de ele não ter morrido desta vez — comentei. — Já foi tão ruim assim antes?
— Não. — Caolho largou a mão de Duende. — Melhor não usarmos ele da próxima vez.
— É progressivo?
Meu ramo margeia as beiradas sombrias do deles, mas só de leve. Eu não sabia dizer.
— Não. Ele vai precisar de algum tempo para recuperar a autoconfiança. Parece que pegou o Apanhador de Almas bem no coração da Torre. Acho que isso deixaria qualquer um abalado.
— Perante a presença da Dama! — exclamei.
Não conseguia conter minha empolgação. Duende tinha visto o interior da Torre! Pode ter visto a Dama! Apenas os Dez que Foram Tomados já saíram da Torre um dia. A imaginação popular preenche seu interior de mil possibilidades horrendas. E eu tinha uma testemunha viva!
— Deixe ele em paz, Chagas. Ele vai contar quando estiver pronto. — Havia uma nota de dureza na voz de Caolho.
Eles riam de minhas pequenas fantasias, diziam que eu tinha me apaixonado por uma assombração. Talvez estivessem certos. Às vezes, meu interesse me assusta também. Está chegando ao ponto de uma obsessão.
Por um instante esqueci meu dever para com Duende. Por um momento ele deixou de ser um homem, um irmão, um velho amigo. Tinha se tornado uma fonte de informações. Então, envergonhado, me recolhi a meus papéis.
O Capitão chegou, confuso, arrastado por uma Lindinha determinada.
— Ah, entendo, ele fez contato. — Ele observou Duende. — Já disse alguma coisa? Não? Acorde-o, Caolho.
Caolho começou a reclamar, pensou melhor e chacoalhou Duende de leve. O feiticeiro demorou a acordar. O sono era quase tão profundo quanto um transe.
— Foi difícil? — perguntou-me o Capitão.
Eu contei. Ele grunhiu
— A carroça está chegando. Um de vocês comece a empacotar.
Comecei a arrumar minhas pilhas.
— Um de vocês quer dizer Corvo, Chagas. Você fica aqui de plantão. Duende não parece muito bem.
Ele não parecia mesmo. Tinha empalidecido outra vez. A respiração estava cada vez mais rasa e rápida, ficando ofegante.
— Dê um tapa nele, Caolho — aconselhei. — Ele pode estar achando que ainda está lá.
O tapa resolveu. Duende abriu os olhos cheios de pânico. Reconheceu Caolho, estremeceu, respirou fundo e guinchou.
— Eu tive que voltar para isto? Depois daquilo?
Mas a voz dele entregou a mentira daquele protesto. O alívio era denso o suficiente para se cortar com uma faca.
— Duende está bem — concluí. — Ele consegue reclamar.
O Capitão se agachou. Não disse nada. Duende iria falar quando estivesse pronto.
O feiticeiro levou vários minutos para se recompor e então falou:
— O Apanhador de Almas mandou a gente dar o fora daqui. Rápido. Ele vai nos encontrar no caminho de Lordes.
— Só isso?
Sempre é só isso, mas o Capitão insiste em esperar por mais. O jogo não parece valer a pena quando você vê o que Duende tem de aguentar por ele.
Eu fitei o feiticeiro. Era uma baita tentação. Ele me olhou de volta.
— Mais tarde, Chagas. Me dê um tempo para arrumar essas coisas em minha cabeça.
Eu concordei e disse:
— Um chazinho de ervas vai te animar um pouco.
— Ah, não. Você não vai me dar aquele mijo de rato do Caolho.
— Não é o dele. É o meu.
Medi uma quantidade suficiente para uma dose forte, entreguei a Caolho, fechei meu kit e voltei aos papéis assim que a carroça parou lá fora.
Enquanto carregava minha primeira leva, percebi que os homens estavam no estágio dos golpes de misericórdia no campo de treino. O Capitão não estava para brincadeiras. Ele queria colocar o máximo de distância entre si e o acampamento antes que Sussurro voltasse.
Não posso culpá-lo. A reputação dela é absolutamente vil.
Não mexi nos pacotes de oleado até estarmos viajando novamente. Eu me sentei ao lado do condutor e abri o primeiro, tentando futilmente ignorar o chacoalhar selvagem do veículo sem molas.
Li os pacotes duas vezes, ficando cada vez mais nervoso.
Um dilema real. Deveria contar ao Capitão o que tinha acabado de descobrir? Deveria contar a Caolho ou Corvo? Todos eles ficariam interessados. Deveria guardar tudo para o Apanhador de Almas? Sem dúvida, ele iria preferir isso. Minha pergunta era se aquela informação se localizava dentro ou fora de minhas obrigações para com a Companhia. Eu precisava de um conselheiro.
Pulei da carroça e deixei a coluna passar por mim até Calado aparecer. Ele era responsável pela guarda do centro. Caolho estava na ponta e Duende na retaguarda. Cada um deles valia um pelotão de batedores.
Calado me olhou do alto do cavalão negro que cavalga quando está de mau humor. Ele fez cara feia. De todos os nossos magos, ele é o que chega mais perto do que se poderia chamar de mau. Porém, como tantos de nós, ele ladra mais do que morde.
— Eu tô com um problema — falei. — Um problemão. Você é o melhor ouvinte. — Eu olhei em volta. — Não quero que ninguém mais escute isto.
Calado concordou. Ele fez gestos complicados e fluidos, rápidos demais para acompanhar. Subitamente, eu não conseguia ouvir mais nada além de 1,5 metro de distância. É espantoso quantos sons você não percebe ouvir até que eles somem. Contei a Calado o que tinha encontrado.
É difícil abalar Calado. Ele tinha visto e ouvido de tudo. Mas pareceu apropriadamente espantado desta vez.
Por um momento, achei que ele iria dizer alguma coisa.
— Você acha que devo contar ao Apanhador de Almas?
Aceno afirmativo e vigoroso com a cabeça. Muito bem. Não tinha duvidado disso. A novidade era grande demais para a Companhia. Ela nos consumiria por dentro se tentássemos guardá-la conosco.
— E quanto ao Capitão? Caolho? Alguns dos outros?
Calado demorou mais a responder, com menos decisão. O conselho foi uma negativa. Com algumas perguntas e a intuição que se desenvolve após uma longa exposição, entendi que o Apanhador de Almas iria querer dar a notícia apenas a quem precisasse saber.
— Certo, então — respondi. — Obrigado. — Comecei a trotar coluna acima. Quando saí da vista de Calado, perguntei a um dos homens: — Você viu o Corvo?
— Lá na frente, com o Capitão.
Fazia sentido. Voltei a trotar.
Depois de um momento de reflexão, tinha decidido obter um seguro. Corvo era a melhor apólice que eu poderia imaginar.
— Você lê alguma das velhas línguas? — indaguei a ele.
Estava difícil conversar ali. Ele e o Capitão estavam montados, e Lindinha vinha logo atrás. A mula dela insistia em tentar pisar em meus calcanhares.
— Algumas. Tudo parte de uma educação clássica. Por quê?
Corri alguns passos à frente.
— Vamos jantar ensopado de mula se você não tomar cuidado, animal. — Eu juro que a besta fez uma careta. Voltei a falar com Corvo. — Alguns dos papéis não são recentes. Aqueles que Caolho escavou.
— Então não são importantes, são?
Dei de ombros e segui ao lado dele, escolhendo minhas palavras com cuidado.
— Nunca se sabe. A Dama e os Dez, eles têm um longo passado.
Soltei um ganido, girei e corri para trás, segurando meu ombro onde a mula tinha me mordiscado. O animal parecia inocente, mas o sorriso de Lindinha era de um diabrete.
Quase valeu a pena a dor, apenas para vê-la sorrir. Ela o fazia muito raramente.
Cortei a coluna e fui ficando para trás até emparelhar com Elmo.
— Tem alguma coisa errada, Chagas? — perguntou ele.
— Hum? Não, está tudo bem.
— Você parece assustado.
Eu estava assustado. Eu havia levantado a tampa da caixinha só um pouco, apenas para ver o que tinha lá dentro, e descobri que era sordidez. Eu não conseguiria esquecer as coisas que lera.
Quando vi Corvo novamente, o rosto dele estava acinzentado como o meu. Talvez mais. Caminhamos juntos enquanto ele resumiu o que tinha descoberto nos documentos que eu não sabia ler.
— Alguns daqueles papéis pertenciam ao mago Bomanz — contou ele. — Outros datam da Dominação. Alguns são TelleKurre. Só os Dez ainda usam essa língua.
— Bomanz? — perguntei.
— Isso. O cara que acordou a Dama. Sussurro pôs as mãos nos documentos secretos dele, de alguma forma.
— Ah!
— De fato. Sim. Ah!
Nós nos separamos, cada um sozinho com os próprios medos.
O Apanhador de Almas chegou sorrateiramente. Vestia roupas parecidas com as nossas, e não seus couros costumeiros. Misturou-se à coluna sem chamar atenção. Quanto tempo ele esteve entre nós eu não sei. Percebi a presença dele assim que deixávamos a floresta, após três dias de 18 horas de marcha pesada. Eu colocava um pé diante do outro, dolorido, murmurando que estava ficando velho, quando uma suave voz feminina perguntou:
— Como vai você hoje, médico? — Ela soava melodiosa com divertimento.
Se eu estivesse menos exausto naquele momento poderia ter pulado 3 metros, berrando. Naquele estado, porém, apenas dei o passo seguinte, virei a cabeça e murmurei:
— Finalmente apareceu, hein? — A apatia profunda era a ordem do dia.
Uma onda de alívio chegaria depois, mas naquele instante meu cérebro estava tão lento quanto meu corpo. Depois de passar tanto tempo em fuga, era difícil botar a adrenalina em ação. O mundo não continha mais qualquer terror ou animação súbitos.
O Apanhador de Almas marchava a meu lado, acompanhando cada passo, olhando ocasionalmente para mim. Eu não conseguia ver seu rosto, mas sentia seu divertimento.
O alívio chegou, enfim, e foi seguido por uma onda de espanto perante minha própria temeridade. Eu tinha retrucado como se o Apanhador fosse um dos rapazes. Era a hora de o relâmpago me atingir.
— Então, por que não damos uma olhada naqueles documentos? — perguntou ele. Parecia muito animado. Eu o levei até a carroça. Subimos a bordo. O condutor nos lançou um olhar esbugalhado, então se concentrou em olhar para a frente, tremendo e tentando se tornar surdo.
Fui direto aos pacotes que tinham sido enterrados, e tentei escapar.
— Fique — ordenou ele. — Eles não precisam saber de minha chegada ainda. — O Apanhador percebeu meu medo e riu como uma garotinha. — Você não corre perigo, Chagas. De fato, a Dama lhe mandou um agradecimento pessoal. — Ele riu novamente. — Ela queria saber tudo sobre você, Chagas. Tudo. Você conquistou a imaginação dela também.
Outra martelada de medo. Ninguém quer chamar a atenção da Dama.
O Apanhador se divertia com meu sofrimento.
— Ela poderá lhe conceder uma entrevista, Chagas. Ah, céus! Você está tão pálido. Bem, não é obrigatória. Vamos ao trabalho, então.
Nunca vi alguém ler tão rápido. O Apanhador devorou os velhos do-cumentos e a seguir os novos.
— Vocês não conseguiram ler isto tudo — afirmou ele. Usou a voz feminina de negócios.
— Não.
— Nem eu. Alguns só poderão ser decifrados pela Dama.
Estranho, pensei. Esperava mais entusiasmo. O confisco dos documentos representava uma vitória para ele, que teve a sabedoria de se alistar na Companhia Negra.
— O quanto vocês entenderam?
Falei dos planos rebeldes para uma ofensiva contra Lordes e sobre o que a presença de Sussurro implicava.
Ele riu.
— Os documentos antigos, Chagas. Fale-me dos documentos antigos.
Eu estava suando. Quanto mais suave e gentil ele ficava, mais eu sentia que precisava temer.
— O velho mago. Aquele que acordou todos vocês. Alguns desses papéis eram dele. — Merda. Eu sabia que tinha falado demais antes de terminar. Corvo era o único homem na Companhia capaz de identificar de quem tinham sido os papéis de Bomanz.
O Apanhador de Almas riu e me deu um tapa camarada no ombro.
— Eu pensei a mesma coisa, Chagas. Não tinha certeza, mas pensei a mesma coisa. Não achei que você fosse resistir e deixar de contar a Corvo.
Eu não respondi. Queria mentir, mas ele sabia.
— Não há outro jeito de você ter descoberto. Você comentou com ele as referências ao nome verdadeiro do Manco e, então, ele teve que ler tudo que podia, certo?
Mesmo assim, continuei em paz. Era verdade, mesmo que meus motivos não tivessem sido inteiramente generosos. Corvo tinha suas dívidas a cobrar, mas o Manco queria todos nós.
O segredo mais violentamente guardado de qualquer feiticeiro, é claro, é seu verdadeiro nome. Um inimigo armado com isso pode golpear, atravessando qualquer magia ou ilusão, e atingir o centro da alma.
— Você só pôde estimar a magnitude do que encontrou, Chagas. Assim como eu. Mas as consequências são previsíveis. O maior desastre militar de todos, para os rebeldes, e muitos tremores e estremecimentos dentre os Dez. — Ele bateu em meu ombro de novo. — Você fez de mim a segunda pessoa mais poderosa do império. A Dama sabe os verdadeiros nomes de todos nós. Agora eu sei outros três, e recuperei o meu próprio.
Não era de se admirar que ele estivesse efusivo. Esquivou-se de uma flecha que não sabia que estava vindo e teve a sorte de conseguir uma enorme vantagem sobre o Manco ao mesmo tempo. Tinha esbarrado no pote de poder no fim do arco-íris.
— Mas Sussurro...
— Sussurro precisa sumir. — A voz que ele usou era profunda e gélida. Era a voz de um assassino, uma voz acostumada a pronunciar sentenças de morte. — Sussurro tem que morrer rápido. Senão não teremos nada a ganhar.
— E se ela contou a mais alguém?
— Ela não contou. Ah, não. Eu conheço Sussurro. Lutei contra ela em Ferrugem antes de a Dama me mandar a Berílio. Lutei contra ela em Andros. Eu a persegui por entre os menires falantes do Vale do Medo. Eu conheço Sussurro. Ela é um gênio, mas é solitária. Se vivesse durante a primeira era, o Dominador a teria tomado. Sussurro serve à Rosa Branca, mas o coração dela é negro como as noites do inferno.
— O Círculo inteiro me parece ser assim.
O Apanhador riu.
— Sim. Cada um deles é um hipócrita. Mas não há nenhum como Sussurro. Isto é incrível, Chagas. Como ela conseguiu descobrir tantos segredos? Como conseguiu meu nome? Eu o tinha escondido perfeitamente. Eu a admiro. De verdade. Que esperta. Que audácia. Um ataque por Lordes, através da Planície dos Ventos, subindo a Escada das Lágrimas. Incrível. Impossível. E teria dado certo, não fosse pelo advento da Companhia Negra, e você. Será recompensado. Eu lhe garanto. Mas já chega. Tenho trabalho a fazer. Rastejante precisa destas informações. A Dama tem que ver estes papéis.
— Espero que você esteja certo — resmunguei. — Vamos arrebentar, e depois descansar. Estou exausto. Estamos ralando e lutando há um ano.
Comentário imbecil, Chagas. Senti a frieza do cenho franzido dentro daquele morrião. Há quanto tempo o Apanhador de Almas estaria ralando e lutando? Uma era.
— Pode ir, agora — disse-me ele. — Falarei com você e Corvo mais tarde. — Voz fria, gélida. Dei no pé imediatamente.
Tudo estava acabado em Lordes quando chegamos lá. Rastejante tinha se movido rápido e golpeado forte. Não dava para ir a lugar algum sem se deparar com rebeldes pendurados em árvores e postes. A Companhia entrou no quartel esperando um inverno quieto e tedioso, e uma primavera empregada em perseguir restos de rebeldes de volta das grandes florestas setentrionais.
Ah, foi uma doce ilusão enquanto durou.
— Tonk! — exclamei, batendo as cinco cartas reais que recebi. — Ahá! O dobro, gente. O dobro. Podem pagar.
Caolho grunhiu, rosnou e empurrou as moedas na mesa. Corvo riu. Até mesmo Duende se animou o suficiente para sorrir. Caolho não tinha vencido uma rodada a manhã inteira, mesmo quando trapaceou.
— Obrigado, cavalheiros. Obrigado. Pode dar as cartas, Caolho.
— O que você está fazendo, Chagas? Hein? Como você está fazendo?
— A mão é mais rápida que o olho — sugeriu Elmo.
— Levando uma vida saudável, Caolho. Uma vida saudável.
O Tenente irrompeu pela porta, com o rosto transfigurado numa carranca feroz.
— Corvo. Chagas. O Capitão quer ver vocês. Agora. — Ele esquadrinhou todos os jogos de cartas. — Seus degenerados.
Caolho fungou, então abriu um sorriso pálido. O Tenente é um jogador ainda pior que ele.
Olhei para Corvo. O Capitão era seu amiguinho. Mas ele apenas deu de ombros, jogando as cartas na mesa. Enchi os bolsos com meus ganhos e o segui até o gabinete do Capitão.
O Apanhador de Almas estava lá. Nós não o víamos desde aquele dia no limite da floresta. Eu tinha torcido para que ele ficasse ocupado demais para vir falar conosco. Olhei o Capitão, tentando prever nosso futuro por seu rosto. Vi que ele não estava feliz.
Se o Capitão não estava feliz, então eu também não estava.
— Sentem-se — mandou. Duas cadeiras nos esperavam. Ele andou de um lado para o outro, nervoso. Finalmente, continuou: — Temos ordens para nos movermos. Vieram direto de Talismã. Nós e a brigada de Rastejante inteira. — O Capitão indicou o Apanhador de Almas com um gesto, passando a explicação a ele.
O Apanhador de Almas parecia perdido em pensamentos. Quase inaudível, ele finalmente perguntou:
— Quão bom você é com o arco, Corvo?
— Razoável. Nenhum campeão.
— Melhor que razoável — retrucou o Capitão. — Bom mesmo.
— E você, Chagas?
— Eu era bom. Não puxo uma corda há anos.
— Pratique um pouco. — O Apanhador começou a andar também. O gabinete era pequeno. Eu esperava uma colisão muito em breve. Depois de um minuto, o Apanhador de Almas continuou: — Houve novos acontecimentos. Tentamos pegar Sussurro no acampamento dela. Nós a perdemos por instantes. Ela farejou a armadilha. Ainda está lá fora, se escondendo. A Dama está mandando tropas de todos os lados.
Isso explicava o comentário do Capitão. Mas não explicava por que eu deveria melhorar minha habilidade com o arco.
— Pelo que podemos dizer — continuou o Apanhador de Almas —, os rebeldes não sabem o que aconteceu. Por enquanto. Sussurro ainda não teve coragem de informá-los de seu fracasso. É uma mulher orgulhosa. Parece que pretende se recuperar primeiro.
— Com o quê? — indagou Corvo. — Ela não conseguiria montar um pelotão.
— Com memórias. Memórias do material que vocês encontraram enterrado. Não acreditamos que ela sabe que nós o temos. Ela não chegou perto de sua base antes que o Manco nos denunciasse e ela fugisse para a floresta. Só nós quatro e a Dama sabemos dos documentos.
Corvo e eu balançamos a cabeça. Agora entendíamos a ansiedade do Apanhador. Sussurro sabia seu verdadeiro nome. Ele estava com um alvo pintado nas costas.
— O que você quer conosco? — inquiriu Corvo, desconfiado.
Ele temia que o Apanhador pensasse que nós tivéssemos decifrado o nome. Chegara a sugerir que matássemos o Tomado antes que ele nos matasse. Os Dez não são imortais, nem invulneráveis, mas são bem difíceis de alcançar. Eu não queria, jamais, ter que atacar um deles.
— Temos uma missão especial, nós três.
Corvo e eu nos entreolhamos. Será que estava nos levando a uma armadilha?
— Capitão — disse o Apanhador —, você se importaria em nos dar licença por um minuto?
O Capitão saiu lentamente pela porta. Essa interpretação de urso dele é só um pequeno espetáculo. Não acredito que ele tenha percebido que nós já sacamos isso há anos. Ele continua insistindo, tentando nos impressionar.
— Não vou levar vocês dois para longe, para matá-los em silêncio — afirmou o Apanhador de Almas. — Não, Corvo, não acho que vocês conseguiram decifrar meu verdadeiro nome.
Assustador. Abaixei minha cabeça. Corvo sacou uma faca num gesto floreado. Começou a limpar as unhas já imaculadas.
— O acontecimento chave foi o seguinte: Sussurro subornou o Manco depois que o fizemos de tolo no episódio Rasgo.
— Isso explica o que aconteceu no Saliente — deixei escapar. — Nós o tínhamos em nossas mãos. Tudo desmoronou da noite para o dia. E Manco foi um merda na batalha de Rosas.
Corvo concordou.
— Rosas foi culpa dele. Mas ninguém achou que fosse traição. Afinal, ele é um dos Dez.
— Exato — disse o Apanhador. — Explica muitas coisas. Mas o Saliente e Rosas foram ontem. Nosso interesse agora é o amanhã. É nos livrar de Sussurro antes que ela nos presenteie com mais um desastre.
Corvo olhou para o Apanhador, depois para mim, cuidou de sua manicure inútil. Eu também não estava acreditando muito na história do Tomado. Nós, meros mortais, não somos nada além de joguetes e ferramentas para eles. Os Dez são o tipo de gente que exuma os ossos da avó para ganhar pontos com a Dama.
— Esta é nossa chance contra Sussurro — explicou o Apanhador de Almas. — Sabemos que ela concordou em se encontrar com o Manco amanhã...
— Como? — inquiriu Corvo.
— Eu não sei. A Dama me contou. O Manco não sabe que sabemos dele, mas sabe que não vai mais durar muito tempo. Ele provavelmente vai tentar fazer um acordo para que o Círculo o proteja. Sabe que, se não fizer isso, está morto. O que a Dama quer é que os dois morram juntos para que o Círculo pense que ela estava se entregando ao Manco, ao invés do contrário.
— Não vai colar — resmungou Corvo.
— Eles vão acreditar.
— Então nós vamos apagar o cara — concluí. — Eu e o Corvo. Com arcos. E como vamos encontrar os dois?
O Apanhador não iria pessoalmente, não importava o quanto ele falasse. Tanto o Manco quanto Sussurro sentiriam a presença dele muito antes de ele estar perto o bastante para disparar uma flecha.
— O Manco estará com as forças avançando pela floresta. Como não sabe que é suspeito, não se esconderá do Olho da Dama. Espera que os movimentos dele sejam considerados parte da busca. A Dama vai informar a localização dele a mim. Eu colocarei vocês na pista dele. Quando os dois se encontrarem, vocês os atacam.
— Claro — zombou Corvo. — Claro. Vai ser como faca quente na manteiga. — Ele atirou a faca, que se cravou fundo na esquadria da janela. Corvo saiu pisando forte.
A proposta me pareceu igualmente ruim. Fitei o Apanhador de Almas e debati comigo mesmo por uns dois segundos antes de deixar que o medo me empurrasse no rastro de Corvo.
A última imagem que vi do Apanhador foi uma pessoa cansada, mergulhada em infelicidade. Acho que é difícil para eles viver com a própria reputação. Todo mundo quer ser amado.
Eu estava escrevendo uma de minhas historinhas de fantasia sobre a Dama enquanto Corvo sistematicamente cravava flechas num pano vermelho preso num alvo de palha. Eu tive dificuldade em atingir a palha em minha primeira rodada, quanto mais o pano. Corvo parecia ser incapaz de errar.
Desta vez eu estava considerando a infância dela. É algo que gosto de analisar em qualquer vilão. Que nós e reviravoltas ocorreram no fio que atava a criatura em Talismã à garotinha que já foi um dia? Considere as crianças pequenas. Poucas delas não são fofas, adoráveis e preciosas, doces como mel batido na manteiga. Então, de onde vêm as pessoas ruins? Eu ando por nossos alojamentos e me pergunto como um bebezinho risonho e curioso pode ter se tornado um Três Dedos, um Fanfarrão ou um Calado.
Garotinhas são duas vezes mais doces e inocentes que meninos. Não conheço uma cultura que não as defina assim.
Então, de onde vem uma Dama? Ou, enfim, uma Sussurro? Eu estava especulando sobre essa questão em minha última história.
Duende se sentou a meu lado. Leu o que eu tinha escrito.
— Eu acho que não — comentou. — Eu acho que ela tomou uma decisão consciente desde o início.
Eu me virei lentamente para ele, profundamente ciente de que o Apanhador de Almas estava parado alguns metros atrás de mim, observando as flechas voarem.
— Eu não acho realmente que foi assim, Duende. É só... Bem, você sabe. Se quer entender algo, você constrói de um jeito que consegue compreender.
— Todos fazemos isso. No dia a dia é chamado de inventar desculpas.
É verdade, as motivações reais e cruas são amargas demais para engolirmos. Quando as pessoas alcançam minha idade, elas já ocultaram suas motivações com tanta frequência e habilidade que perderam completamente o contato com elas.
Percebi uma sombra em meu colo. Ergui os olhos. O Apanhador de Almas estendeu a mão, me convidando para assumir minha vez de treinar com o arco. Corvo tinha recuperado as flechas e estava parado, esperando que eu ficasse em posição.
Minhas três primeiras flechas se cravaram no pano.
— Que tal? — exclamei, me virando para fazer uma mesura.
O Apanhador de Almas estava lendo minha fantasia. Ele me fitou.
— Sério, Chagas! Não foi nada assim. Você não sabia que ela assassinou a irmã gêmea aos 14 anos?
Ratos com garras de gelo subiam por minha espinha. Eu girei de volta e disparei uma flecha. Ela foi parar bem longe, à direita do alvo. Lancei mais algumas, e não consegui nada além de irritar os pombos ao fundo.
O Apanhador pegou o arco.
— Seus nervos estão péssimos, Chagas. — Num borrão de movimento ele cravou três flechas num círculo com menos de 3 centímetros. — Continue treinando. Você estará sob uma pressão muito maior lá fora. — Ele me devolveu o arco. — O segredo é a concentração. Finja que está numa cirurgia.
Fingir que eu estava numa cirurgia. Certo. Eu já tinha executado uns belos trabalhos de emergência nos campos de batalha. Certo. Mas isto era diferente.
A boa e velha desculpa. Sim, mas... Isto é diferente.
Eu me acalmei o suficiente para acertar o alvo com o resto das setas. Depois de recuperá-las, dei o lugar a Corvo.
Duende me entregou minha redação. Irritado, amassei minha fábula.
— Precisa de alguma coisa para os nervos? — perguntou Duende.
— Sim. As raspas de ferro ou seja lá o que for que o Corvo come. — Minha autoestima estava bem abalada.
— Use isto.
Duende me ofereceu uma pequena estrela de seis pontas pendurada numa correntinha. No centro havia uma cabeça de medusa em azeviche.
— Um amuleto?
— Sim. Achamos que você iria precisar disto amanhã.
— Amanhã? — Ninguém deveria saber o que iria acontecer.
— Temos olhos, Chagas. Esta é a Companhia. Talvez a gente não saiba exatamente o quê, mas sempre percebemos quando alguma coisa vai acontecer.
— É. Acho que sim. Obrigado, Duende.
— Eu, Caolho e Calado, todos nós trabalhamos nisto.
— Obrigado. E quanto ao Corvo?
Quando alguém faz um gesto daqueles, eu me sinto mais confortável mudando de assunto.
— Corvo não precisa de um. Ele é o próprio amuleto. Sente-se. Vamos conversar.
— Eu não posso contar o que vai ser.
— Eu sei. Achei que você iria querer ouvir sobre a Torre. — Duende não tinha falado da visita ainda. Eu já tinha desistido.
— Muito bem. Conte-me. — Fitei Corvo. Flechas e mais flechas se cravavam no pano.
— Você não vai anotar?
— Ah, sim. — Preparei papel e pena. Os homens ficam tremendamente impressionados pelo fato de eu manter estes Anais. A única imortalidade para eles é aqui. — Ainda bem que não aceitei a aposta.
— Com quem?
— Corvo queria botar dinheiro em nossa mira.
Duende fungou.
— Você está ficando esperto demais para cair num truque velho desses? Prepare a pena. — Ele começou a história.
Duende não acrescentou muita coisa aos rumores que eu tinha ouvido aqui e ali. Descreveu o lugar que havia visto como um aposento grande, como uma caixa onde venta muito, escuro e poeirento. Mais ou menos o que eu esperava da Torre. Ou de qualquer castelo.
— Como ela era?
Essa era a parte mais intrigante do quebra-cabeça. Eu tinha uma imagem mental de uma bela mulher de cabelos negros, sem idade definida, com uma presença sexual que atinge os mortais com o impacto de uma clava. O Apanhador de Almas me dissera que ela era bonita, mas eu não tinha nenhuma corroboração exterior.
— Não sei, não lembro.
— Como assim, você não lembra? Como pode ter esquecido?
— Não fique irritado, Chagas. Não consigo lembrar. Ela estava ali, na minha frente, então... tudo que eu podia ver era aquele olho gigante amarelo que ficava maior e maior e maior, e que me atravessava, vendo cada segredo que já tive um dia. É tudo que me lembro. Ainda tenho pesadelos com aquele olho.
Suspirei, frustrado.
— Pois é, eu deveria ter esperado isso. Sabe, eu acho que ela poderia muito bem passar por aqui e ninguém saberia que era ela.
— Eu penso que é isso mesmo que a Dama quer, Chagas. Se tudo mais realmente desmoronar, do jeito que parecia que ia acontecer antes de você encontrar os papéis, ela pode simplesmente ir embora. Apenas os Dez podem identificá-la, e ela daria algum jeito neles.
Duvido que fosse assim tão simples. Pessoas como a Dama têm dificuldades de assumir um papel menor. Príncipes depostos continuam agindo como príncipes.
— Obrigado por se dar ao trabalho de me contar, Duende.
— Sem problema. Eu não tinha ninguém mais para contar. O único motivo para eu ter demorado é que isso me atormentava muito.
Corvo terminou de buscar as flechas. Ele veio até nós e disse a Duende:
— Por que você não vai botar uma barata no colchonete do Caolho ou coisa assim? Temos trabalho a fazer. — Ele estava nervoso com minha mira inconstante.
Tínhamos de depender um do outro. Se qualquer um dos dois errasse, nós provavelmente morreríamos antes que uma segunda flecha pudesse ser lançada. Eu não queria pensar nisso.
Porém, pensar nisso melhorou minha concentração. Acertei quase todas as flechas no pano na segunda vez.
Foi um tremendo pé no saco fazer aquilo, logo na noite de véspera dos perigos que aguardavam a mim e ao Corvo, mas o Capitão se recusou a abandonar uma tradição de quase trezentos anos. Ele também se recusou a ouvir os protestos quanto à nossa convocação pelo Apanhador de Almas, ou as exigências relativas ao conhecimento adicional que ele obviamente possuía. Afinal, eu entendia o que o Apanhador queria que fizéssemos, e também o motivo, mas não via o menor sentido em sua exigência de que eu e Corvo executássemos a missão. O fato de o Capitão apoiá-lo me deixava ainda mais confuso.
— Por que motivo, Chagas? — inquiriu finalmente o Capitão. — Porque eu lhe dei uma ordem, esse é o motivo. Agora saia daqui e faça sua leitura.
Uma vez por mês, à noite, a Companhia inteira se reúne para que o Analista possa ler algo escrito pelos predecessores. As leituras supostamente têm o objetivo de colocar os homens em contato com a história e as tradições da tropa, que se estendem por séculos passados e milhares de quilômetros.
Coloquei minha seleção num pódio improvisado e comecei com a fórmula de costume.