A Companhia Negra

Glen Cook · Capítulo 3 de 7

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A Companhia Negra

Capítulo Três | Rasgo

Capítulo Três

 

RASGO

 

O vento saltava, girava e uivava ao redor de Meystrikt. Diabretes árticos davam risadinhas e sopravam seu hálito gélido pelas frestas nas paredes do meu alojamento. A luz do meu lampião tremulava e dançava, mal se mantendo acesa. Quando meus dedos endureciam, eu envolvia a chama com eles e os deixava torrar.

O vento era um golpe duro vindo do norte, carregado de neve fina. Naquela noite, tinha nevado 30 centímetros. O mau tempo ia continuar, e a neve traria mais miséria consigo. Tive pena de Elmo e sua turma. Estavam lá fora, caçando rebeldes.

Fortaleza de Meystrikt. Pérola das defesas do Saliente. Congelante no inverno. Pantanosa na primavera. Um forno no verão. Profetas da Rosa Branca e tropas de elite rebeldes eram os menores dos nossos problemas.

O Saliente é uma longa ponta de flecha apontando para o sul, entre cordilheiras montanhosas. Meystrikt fica bem na extremidade. Inimigos e tempo ruim se afunilam até a fortaleza. Nossa missão é guardar esta âncora das defesas setentrionais da Dama.

Por que a Companhia Negra?

Nós somos os melhores. A infecção rebelde começou a se infiltrar pelo Saliente logo após a queda de Forsberg. O Manco tentou contê-la e falhou. A Dama nos mandou arrumar a bagunça do Manco. A única outra opção seria abandonar outra província.

Do portão soou uma trombeta. Elmo estava chegando.

Não houve pressa para recebê-lo. As regras pedem uma aparência de tranquilidade, que a gente finja que as tripas não estão emaranhadas de preocupação. Portanto, os homens espiam de esconderijos a chegada, se perguntando do destino dos irmãos que foram caçar. Alguém morto? Alguém gravemente ferido? Nós conhecemos um ao outro melhor do que nossos parentes de sangue. Lutamos lado a lado por anos. Nem todos eram amigos, mas eram família. A única família que se tinha.

O guarda do portão martelou o cabrestante, arrancando gelo. Berrando em protesto, o portão levadiço subiu. Como historiador da Companhia, eu podia ir receber Elmo sem violar as regras implícitas. Como o idiota que sou, saí no vento e no frio.

Um grupo miserável de sombras surgiu dentre a neve que era soprada para dentro. Os pôneis arrastavam as patas. Os cavaleiros estavam caídos sobre as crinas enregeladas. Animais e homens encolhidos, tentando escapar das garras afiadas do vento. Nuvens de respiração se erguiam das montarias e dos soldados, e eram levadas para longe. Essa cena, numa pintura, teria feito um boneco de neve sentir calafrios.

De toda a Companhia, apenas Corvo tinha visto neve antes daquele inverno. Que bela boas-vindas à nova equipe da Dama.

Os cavaleiros se aproximaram. Pareciam mais com refugiados que com irmãos da Companhia Negra. Diamantes de gelo cintilavam no bigode de Elmo. Trapos escondiam o resto de seu rosto. Os outros estavam tão embrulhados que eu não saberia dizer quem era quem. Apenas Calado cavalgava resolutamente ereto. Ele olhava reto para a frente, desdenhando do vento impiedoso.

Elmo acenou com a cabeça ao passar pelo portão.

— Nós estávamos começando a nos perguntar — falei. “Perguntar” é sinônimo de preocupação. As regras exigem uma demonstração de indiferença.

— A viagem foi dura.

— Como foi lá?

— Companhia Negra 23, rebeldes zero. Nada de trabalho para você, Chagas, exceto Jojo, que está com alguns dedos congelados.

— Vocês pegaram Rasgo?

As profecias sinistras, a feitiçaria habilidosa e a astúcia em batalha de Rasgo tinham deixado o Manco com cara de idiota. O Saliente estava quase desmoronando quando a Dama mandou que assumíssemos o controle. A decisão lançou ondas de choque por todo o império. Um capitão mercenário tinha recebido o controle de forças e poderes geralmente reservados apenas aos Dez!

Considerando o inverno brutal do Saliente, só uma chance de pegar Rasgo faria o Capitão mandar essa patrulha para longe.

Elmo descobriu o rosto e sorriu. Não ia me contar. Depois teria de falar tudo de novo ao Capitão.

Considerei Calado. Nada de sorriso em seu longo e lúgubre rosto. O feiticeiro respondeu com um leve movimento da cabeça. Então, mais uma vitória, que era o mesmo que uma derrota. Rasgo tinha escapado de novo. Talvez ele fosse nos botar para correr atrás do Manco, camundongos guinchantes que ficaram grandes demais e desafiaram o rato.

Ainda assim, eliminar 23 homens da hierarquia rebelde local contava alguma coisa. Não tinha sido um mau dia de trabalho. Melhor que qualquer um dos dias do Manco por aqui.

Homens vieram pegar os pôneis da patrulha. Outros se serviram de quentão e comida quente no salão principal. Fiquei com Elmo e Calado. Eles logo contariam a história.

O salão principal de Meystrikt é só um pouco menos ventoso que os alojamentos. Cuidei de Jojo. Os outros atacaram as refeições. Banquete encerrado, Elmo, Calado, Caolho e Nodo se reuniram ao redor de uma mesa pequena. Cartas de baralho se materializaram. Caolho fez cara feia para mim.

— Vai ficar aí parado com o dedão metido na bunda, Chagas? Precisamos de mais uma pessoa!

Caolho tem pelo menos 100 anos de idade. Os Anais mencionam os ataques de fúria vulcânicos do pequeno e encarquilhado homem negro ao longo de todo o último século. Não sabemos quando se alistou. Setenta anos dos Anais se perderam quando as posições da Companhia foram varridas na Batalha de Urban. Caolho se recusa a iluminar os anos perdidos. Ele diz que não acredita em história.

Elmo deu as cartas. Cinco para cada jogador e uma mão para uma cadeira vazia.

— Chagas! — berrou Caolho. — Você vem?

— Não. Mais cedo ou mais tarde Elmo vai falar. — Bati com a pena em meus dentes.

Caolho estava muito inspirado. Fumaça saía dos ouvidos dele. Um morcego guinchante saiu de sua boca.

— Ele parece irritado — observei. Os outros sorriram. Provocar Caolho é um de nossos passatempos favoritos.

Caolho odeia trabalho de campo. E odeia ainda mais ficar de fora. Os sorrisos de Elmo e os olhares benevolentes de Calado o convenceram de que tinha perdido alguma coisa boa.

Elmo redistribuiu as cartas, espiando-as a centímetros de distância. Os olhos de Calado reluziam. Não havia dúvidas. Eles tinham uma surpresa especial.

Corvo tomou o assento que tinham me oferecido. Ninguém reclamou. Nem mesmo Caolho reclama de qualquer coisa que Corvo decida fazer.

Corvo. Mais frio que o clima. Uma alma morta agora, talvez. Ele pode fazer um homem estremecer com um olhar. Emite um fedor sepulcral. Ainda assim, Lindinha o ama. Pálida, frágil, etérea, ela pousou a mão no ombro de Corvo enquanto ele organizava as cartas. Ela sorriu para ele.

Corvo é um bem valioso em qualquer jogo que inclua Caolho. O feiticeiro trapaceia. Mas nunca quando Corvo joga.

— Ela está parada na Torre, olhando para o norte. Suas mãos delicadas estão unidas diante Dela. Uma brisa suave penetra por Sua janela. Toca a seda crepuscular de Seus cabelos. Lágrimas de diamante cintilam na suave linha de Seu rosto.

— Isso aí!

— Ah, uau!

— O autor! O autor!

— Que uma porca dê à luz em seu colchão, Willie. — A rapaziada se empolga com minhas fantasias sobre a Dama.

Os rascunhos são um jogo que faço comigo mesmo. Raios, até onde eles sabem, minhas invencionices poderiam ser completamente reais. Apenas os Dez que Foram Tomados já viram a Dama. Quem sabe se ela é feia ou bonita?

— Lágrimas de diamante cintilando, é? — comentou Caolho. — Gostei dessa. Acha que ela está apaixonada por você, Chagas?

— Pare com isso. Eu não faço troça de seus jogos.

O Tenente entrou, se sentou, olhou para todos nós com uma careta sombria. Ultimamente, sua missão na vida era reprovar.

Sua chegada indicava que o Capitão estava a caminho. Elmo guardou suas cartas, se recompôs.

O lugar ficou silencioso. Homens apareceram como se magicamente.

— Travem aquela maldita porta! — resmungou Caolho. — Se eles continuarem entrando assim, minha bunda vai acabar congelando. Faça sua jogada, Elmo.

O Capitão chegou e assumiu seu lugar de costume.

— Vamos ouvir sua história, sargento.

O Capitão não é um dos nossos personagens mais animados. Muito quieto. Muito sério.

Elmo baixou as cartas, arrumando todas numa pilha perfeita, organizando os pensamentos. Ele às vezes fica obcecado por brevidade e precisão.

— Sargento?

— Calado detectou uma linha defensiva ao sul da fazenda, Capitão. Contornamos pelo norte. Atacamos após o crepúsculo. Eles tentaram se espalhar. Calado distraiu Rasgo enquanto cuidávamos dos outros. Trinta homens. Pegamos 23. Gritamos muito sobre tomar cuidado para não ferir nosso espião. Rasgo escapou.

A furtividade é o que faz a Companhia funcionar. Queremos que os Rebeldes acreditem que suas fileiras estão lotadas de informantes. Isso dificulta suas comunicações e tomadas de decisões, e torna a vida menos perigosa para Calado, Caolho e Duende.

O rumor plantado. A armação. O toque de suborno ou chantagem. Essas são as melhores armas. Só optamos pela batalha quando colocamos nossos oponentes numa armadilha. Pelo menos esse é o ideal.

— Vocês voltaram diretamente à fortaleza?

— Sim, senhor. Depois de queimar todas as construções da fazenda. Rasgo camuflou bem a própria trilha.

O Capitão observou as vigas acima enegrecidas pela fumaça. Apenas o barulho de Caolho brincando com as cartas rompia o silêncio. O Capitão baixou o olhar.

— Então, por favor, me contem por que você e Calado estão sorrindo como dois retardados?

— Orgulhosos por terem chegado de mãos vazias — resmungou Caolho.

Elmo sorriu mais ainda.

— Mas não chegamos assim.

Calado meteu a mão dentro da camisa imunda e retirou a bolsinha de couro que sempre leva pendurada no pescoço por um cordão. A bolsa de truques. Está cheia de cacarecos horrendos como orelhas apodrecidas de morcego ou elixir de pesadelo. Desta vez ele tirou uma folha de papel dobrada. Lançou olhares dramáticos a Caolho e Duende e abriu o pacotinho, dobra por dobra. Até mesmo o Capitão se levantou e se aproximou da mesa.

— Contemplem! — anunciou Elmo.

— Isso aí é só cabelo.

Cabeças foram balançadas. Pigarros soaram. Alguém questionou a conexão de Elmo com a realidade. Mas Caolho e Duende juntos tinham três olhos arregalados como vacas. Caolho fez ruídos inarticuladamente e Duende guinchou algumas vezes, mas, até aí, Duende está sempre guinchando.

— É dele mesmo? — finalmente conseguiu dizer. — Dele mesmo?

Elmo e Calado radiavam a arrogância de conquistadores eminentemente bem-sucedidos.

— Absolutamente, porra — respondeu Elmo. — Bem do topo da cabeça dele. A gente tinha agarrado o cara pelas bolas, e ele sabia disso. Deu no pé daquela casa tão rápido que bateu com a cachola no batente da porta. Eu mesmo vi, e Calado também. Deixou esses aí na madeira. Caramba, o sujeito sabe correr.

E Duende, dançando de empolgação, falou uma oitava acima de seu guinchar costumeiro de dobradiça enferrujada:

— Cavalheiros, ele é nosso. Já está praticamente pendurado num gancho de açougueiro. — Então miou para Caolho: — O que você acha disso, seu ridículo?

Um enxame de minúsculos insetos relampejantes escapou de uma das narinas de Caolho. Como bons soldadinhos que eram, todos entraram em formação, escrevendo as palavras “Duende é uma bichona”. As asinhas murmuravam as palavras, para sorte dos analfabetos.

Era tudo uma grande mentira. Duende é completamente heterossexual. Caolho estava tentando criar confusão.

Duende fez um gesto. Uma grande silhueta de sombra, parecida com o Apanhador de Almas, mas grande o suficiente para tocar as vigas do teto, se abaixou e apontou um dedo acusador para Caolho.

— Foi você quem corrompeu o rapaz, pederasta — afirmou uma voz sem origem.

Caolho fungou, balançou a cabeça, balançou a cabeça e fungou. Seus olhos ficaram embaçados. Duende deu uma risadinha, se controlou e deu outra risadinha. Girou para longe, dançando uma dancinha louca de vitória diante da lareira.

Nossos camaradas menos intuitivos resmungaram. Alguns cabelos. Com isso e 2 tostões de prata você teria 2 tostões de prata.

— Cavalheiros! — O Capitão havia entendido.

O show de sombras cessou. O Capitão observou os feiticeiros. Pensou. Andou de um lado para o outro. Balançou a cabeça para si mesmo.

— Caolho, são suficientes? — perguntou finalmente.

Caolho riu, um som incrivelmente grave para um homenzinho tão diminuto.

— Um fio de cabelo, senhor, ou uma lasca de unha cortada já bastam. Ele é nosso, senhor.

Duende continuou com a dancinha esquisita. Calado ainda sorria. Loucos de pedra, todos eles.

O Capitão pensou mais um pouco.

— Não podemos cuidar disto sozinhos. — Deu a volta no salão, com passos assombrosos. — Vamos precisar chamar um dos Tomados.

Um dos Tomados. Naturalmente. Nossos três feiticeiros são nosso recurso mais precioso. Precisam ser protegidos. Mas... O frio entrou e nos congelou. Um dos discípulos sombrios da Dama... Um daqueles senhores das trevas aqui? Não...

— Não pode ser o Manco. Ele quer ferrar com a gente.

— O Metamorfo me dá arrepios.

— O Rastejador é pior.

— E como você sabe? Nunca viu ele.

— Nós conseguimos dar conta, Capitão — afirmou Caolho.

— E os primos do Rasgo vão cair sobre vocês como moscas numa fruta podre.

— Apanhador de Almas — sugeriu o Tenente. — Ele é nosso patrono, de certa forma.

A sugestão foi aceita.

— Entre em contato com ele, Caolho. Fique pronto para agir quando ele chegar.

Caolho concordou, sorrindo. Estava apaixonado. Esquemas sujos e complexos já tomavam conta de sua mente distorcida.

Deveria ter sido uma missão para o Calado, na verdade. O Capitão a confiou a Caolho porque não consegue se conciliar com a recusa de Calado em falar. Isso o assusta, por algum motivo.

Calado não protestou.

Alguns de nossos servos nativos são espiões. Sabemos quais, graças a Caolho e Duende. Permitimos que um deles, que não sabia nada sobre os cabelos, fugisse com a notícia de que estávamos montando um quartel-general de espionagem na cidade livre de Rosas.

Quando você têm os menores batalhões, você aprende a ter astúcia.

Todo governante faz inimigos. A Dama não é exceção. Os Filhos da Rosa Branca estão por todos os lados... Quem escolhe um partido baseado na emoção vai parar nos rebeldes. Eles estão lutando por tudo que os homens afirmam honrar: liberdade, independência, verdade, o que é certo... Todas as ilusões subjetivas, todas as palavras eternamente incendiárias. Somos lacaios do vilão da peça. Confessamos a ilusão e negamos a substância.

Não há vilões autoproclamados, apenas regimentos de santos autoproclamados. Historiadores vitoriosos decidem de que lado estão o bem e o mal.

Nós abjuramos rótulos. Lutamos por dinheiro e por um orgulho indefinível. Políticas, ética, moral, tudo isso é irrelevante.

Caolho tinha falado com Apanhador de Almas. O Tomado estava vindo. Duende contou que o espectro havia uivado de alegria. Farejou uma chance de valorizar o nome dele perante a Dama e estragar o do Manco. Os Dez brigam e discutem mais que crianças mimadas.

O inverno deu um curto descanso em seu cerco. Os homens da Companhia e serviçais nativos começaram a limpar os pátios de Meystrikt. Um dos nativos desapareceu. No salão principal, Caolho e Calado jogavam baralho com uma expressão arrogante no rosto. Os rebeldes estavam sendo informados exatamente do que eles queriam.

— O que está acontecendo na muralha? — indaguei. Elmo tinha montado um sistema de roldanas e trabalhava na remoção de uma pedra das ameias. — O que vocês vão fazer com aquele bloco?

— Uma linda escultura, Chagas — respondeu Caolho. — Arranjei um novo hobby.

— Certo, não me conte. Veja se me importo.

— Essa atitude não vai lhe ajudar muito. Eu ia chamar você para ir atrás do Rasgo com a gente. Para poder anotar tudo direito nos Anais.

— E incluir algumas palavrinhas sobre sua genialidade, Caolho?

— Temos que dar crédito onde ele é merecido, Chagas.

— Então Calado merece um capítulo, não?

Ele gaguejou, resmungou, praguejou.

— Quer jogar um pouco? — Só havia três pessoas na mesa, e um desses era Corvo. Tonk era muito mais interessante com quatro ou cinco.

Venci três mãos seguidas.

— Você não tem nada melhor para fazer? Extrair uma verruga ou algo assim?

— Foi você que o chamou pra jogar — observou um soldado intrometido que estava assistindo.

— Você gosta de moscas, Otto?

— Moscas?

— Vou te transformar em sapo se você não calar a boca.

Otto não se impressionou.

— Você não conseguiria transformar nem um girino em sapo.

Eu dei uma risadinha.

— Você pediu por isso, Caolho. Quando o Apanhador de Almas vai aparecer?

— Quando ele chegar.

Não havia lógica ou razão aparente na forma como os Tomados fazem as coisas.

— Você está mesmo um raiozinho de felicidade hoje, hein? Quanto ele já perdeu, Otto?

Otto apenas sorriu.

Corvo ganhou as duas mãos seguintes.

Caolho parou de falar. Sem chance de eu descobrir o que era aquele projeto. Provavelmente era melhor assim. Qualquer explicação seria entreouvida por espiões rebeldes.

Seis fios de cabelo e um bloco de granito. Que diabos aquilo significava?

Por dias Calado, Duende e Caolho se revezaram trabalhando naquela rocha. Visitei os estábulos ocasionalmente. Eles me deixavam olhar e reclamar quando não respondiam minhas perguntas.

O Capitão, também, às vezes metia a cabeça no estábulo, dava de ombros e voltava aos alojamentos. Ele estava atarantado com estratégias para uma campanha militar de primavera que jogaria todo poder imperial disponível contra os rebeldes. Os aposentos dele eram impenetráveis, de tantos mapas e relatórios que continham.

Nós iríamos atingir feio os rebeldes quando o clima virasse.

Pode parecer cruel, mas a maior parte de nós gosta do que faz, e o Capitão mais do que todos os outros. É o jogo favorito dele, enfrentar alguém como Rasgo numa disputa de inteligência. Ele é cego para os mortos, as aldeias incendiadas, as crianças famintas. Assim como os rebeldes também são. Dois exércitos cegos, incapazes de ver algo além de um ao outro.

Apanhador de Almas chegou nas altas horas da madrugada, em meio a uma tempestade de neve que humilhou aquela que Elmo tinha enfrentado. O vento gemia e uivava. A neve se acumulava no canto nordeste da fortaleza, alcançando as ameias e transbordando. Os estoques de madeira e feno estavam se tornando um problema. Os nativos diziam que era a pior nevasca da história.

Quando a tempestade de neve estava em seu ápice, o Apanhador de Almas chegou. O bum-bum-bum do bater dele à porta acordou todos em Meystrikt. Trombetas soaram. Tambores rufaram. Os vigias da entrada berravam contra o vento. Não conseguiam abrir o portão.

O Apanhador de Almas veio por sobre a muralha com a ajuda do vento. Caiu, quase desaparecendo na neve solta do pátio. Não era uma chegada digna para um dos Tomados.

Apressei-me em chegar ao salão principal. Caolho, Calado e Duende já estavam lá, com o fogo que ardia alegremente. O Tenente apareceu, seguido do Capitão. Com ele, Elmo e Corvo chegaram.

— Mandem o resto de volta para a cama — ordenou o Tenente.

O Apanhador de Almas chegou, tirou um pesado casaco negro e se agachou diante do fogo. Um gesto humano calculado?, eu me perguntei.

O corpo magro do Apanhador de Almas está sempre coberto de couro preto. Ele veste aquele morrião negro que encobre a cabeça, além de botas e luvas negras. Apenas alguns distintivos prateados quebram a monotonia. A única cor nele é o rubi bruto que forma o pomo da adaga. Cinco garras seguram a gema ao cabo da arma.

Curvas pequenas e suaves interrompem a planura do peito do Apanhador de Almas. Suas pernas e seus quadris têm um ar um tanto feminino. Três dos Tomados são mulheres, mas só a Dama sabe quais. Chamamos todos de “ele”, pois o sexo deles não significa nada para nós.

O Apanhador de Almas afirma ser nosso amigo, nosso campeão. Mesmo assim, sua presença trouxe um frio diferente ao salão. Sua gelidez não tem nada a ver com o clima. Até Caolho treme quando ele está por perto.

E Corvo? Eu não sei. Corvo parece ser incapaz de sentir qualquer coisa, a não ser no que diz respeito a Lindinha. Algum dia aquele grande rosto pétreo vai desmoronar. Espero que eu esteja lá para ver.

O Apanhador de Almas virou as costas para o fogo.

— Então. — Bem agudo. — Que belo tempo para uma aventura. — Barítono. Sons estranhos se seguiram. Risadas. O Tomado tinha feito uma piada.

Ninguém riu.

Não era para rirmos. O Apanhador de Almas se virou para Caolho.

— Conte-me. — Desta vez num tenor, lento e suave, com um quê de abafado, como se viesse através de uma parede fina. Ou, como diz Elmo, do além-túmulo.

Não havia vaidade ou exibicionismo em Caolho agora.

— Vamos começar do começo. Capitão?

— Um de nossos informantes ficou sabendo de uma reunião dos capitães rebeldes. Caolho, Duende e Calado seguiram os movimentos dos rebeldes conhecidos...

— Vocês deixam eles correrem soltos por aí?

— Assim eles nos levam a seus amigos.

— É claro. Um dos pontos fracos do Manco. Nada de imaginação. Ele mata os rebeldes assim que os encontra, assim como quem estiver em volta. — Aquela risada estranha de novo. — É menos eficaz, não é? — Houve outra frase, mas em alguma língua que me é desconhecida.

O Capitão concordou com a cabeça.

— Elmo?

Elmo contou sua parte como tinha feito antes, palavra por palavra. Passou a narrativa a Caolho, que rascunhou um plano para pegar Rasgo. Eu não entendi, mas o Apanhador de Almas captou a ideia na hora. Ele riu uma terceira vez.

Pelo que eu consegui entender, nós iríamos liberar o lado negro da natureza humana.

Caolho levou o Apanhador de Almas para ver a pedra misteriosa. Nós nos aproximamos do fogo. Calado pegou um baralho. Ninguém se interessou.

Às vezes me pergunto como os soldados do exército permanecem sãos. Eles estão perto dos Tomados o tempo todo. O Apanhador de Almas é um doce de coco perto dos outros.

Caolho e o Apanhador de Almas voltaram rindo.

— Farinha do mesmo saco — resmungou Elmo, numa rara declaração de opinião.

O Apanhador recapturou a atenção de todos.

— Muito bem, cavalheiros. Muito bem-feito. Criativo. Isso poderia derrotar os rebeldes no Saliente. Partiremos para Rosas quando o tempo mudar. Um grupo de oito, Capitão, incluindo dois de seus bruxos. — Cada frase era seguida por uma pausa. Cada frase era dita numa voz diferente. Bizarro.

Já ouvi que essas são as vozes de todas as pessoas cujas almas foram capturadas pelo Apanhador de Almas.

Mais corajoso do que de costume, eu me ofereci para a expedição. Queria ver como Rasgo poderia ser pego por fios de cabelo e um bloco de granito. O Manco tinha falhado com todo o seu poder furioso.

O Capitão pensou no assunto.

— Está bem, Chagas. Caolho e Duende. Você, Elmo. E escolha mais dois.

— Isso só dá sete, Capitão.

— Com Corvo são oito.

— Ah, Corvo, é claro.

É claro. Corvo, silencioso e mortal, seria o alter ego do Capitão. A ligação entre aqueles dois homens ultrapassava a compreensão. Acho que isso me incomoda porque Corvo anda me assustando para valer ultimamente.

Corvo trocou olhares com o Capitão. A sobrancelha direita dele subiu. O Capitão respondeu com um aceno de cabeça quase imperceptível. Corvo mexeu um ombro. Qual seria a mensagem? Não pude adivinhar.

Alguma coisa estranha soprava com o vento. Aqueles que sabiam o que era estavam deliciados. Por mais que eu não pudesse deduzir, sabia que seria algo astuto e mortal.

A tempestade cedeu. Logo a estrada para Rosas estava aberta. O Apanhador de Almas se irritou. Rasgo tinha duas semanas de vantagem. Nós levaríamos uma semana para alcançar Rosas. Os rumores plantados por Caolho poderiam perder a eficácia antes de chegarmos.

Partimos antes da alvorada, com o bloco de granito numa carroça. Os magos não tinham feito nada além de escavar uma simples concavidade do tamanho de um grande melão. Eu não conseguia imaginar o valor daquilo. Caolho e Duende faziam um estardalhaço em volta da rocha, como um noivo conhecendo sua esposa. Caolho respondeu minhas perguntas com um grande sorriso. Maldito.

O tempo se firmou. Ventos mornos sopravam do sul. Encontramos longos trechos de estrada lamacenta. E eu testemunhei um acontecimento escandaloso. O Apanhador de Almas desceu sobre a lama e empurrou a carroça com o resto de nós. Aquele grande lorde do império.

Rosas é a grande cidade do Saliente, uma metrópole, um lugar livre, uma república. A Dama decidiu não revogar a tradicional autonomia. O mundo precisa de lugares onde homens de todas as estirpes e castas possam escapar das restrições tradicionais.

Então. Rosas. Sem nada a dever a qualquer mestre. Cheia de agentes, espiões e todos aqueles que vivem no lado negro da lei. Naquele ambiente, afirmou Caolho, o plano iria prosperar.

As muralhas vermelhas de Rosas se ergueram adiante, escuras como sangue velho à luz do sol poente, quando chegamos.

Duende entrou no quarto que tínhamos ocupado.

— Encontrei o lugar — guinchou a Caolho.

— Ótimo.

Curioso. Eles não tinham trocado xingamentos em semanas. Normalmente, uma hora sem brigas era um milagre.

O Apanhador de Almas se mexeu no canto sombrio onde estava plantado como um arbusto fino e negro, uma multidão debatendo suavemente consigo mesma.

— Prossiga.

— É uma velha praça pública. Uma dúzia de becos e ruas que entram e saem. Mal-iluminada à noite. Nenhum motivo para tráfego após o pôr do sol.

— Parece perfeita — aprovou Caolho.

— E é mesmo. Eu aluguei um quarto com vista para ela.

— Vamos lá dar uma olhada — decidiu Elmo.

Todos nós sofríamos com uma síndrome de confinamento. Um êxodo se iniciou. Apenas o Apanhador de Almas ficou parado. Talvez entendesse nossa necessidade de sair.

Duende estava certo quanto à praça, aparentemente.

— E agora? — indaguei. Caolho sorriu. Eu perdi a paciência. — Vocês estão sempre calados! Parem de jogos!

— Esta noite? — perguntou Duende.

Caolho concordou.

— Se o velho espectro der a ordem.

— Estou ficando frustrado — anunciei. — O que está acontecendo? Tudo que vocês palhaços fazem é jogar baralho e ficar vendo Corvo afiar as facas. — Isso às vezes durava horas, o movimento das pedras de amolar pelo aço me dando arrepios na espinha. Era um sinal. Corvo só faz isso quando espera que as coisas fiquem feias.

Caolho fez um barulho de corvo crocitando.

Saímos com a carroça à meia-noite. O cavalariço nos chamou de loucos. Caolho abriu um de seus famosos sorrisos. Ele conduziu a carroça. O resto foi a pé, cercando a carroça.

Algumas coisas estavam diferentes. Algo tinha sido acrescentado. Alguém havia gravado uma mensagem na pedra. Caolho, provavelmente, durante uma de suas saídas misteriosas do quartel-general.

Sacos de couro volumosos e uma forte mesa de madeira tinham sido reunidos à rocha. A mesa parecia capaz de sustentar o bloco. As pernas eram de madeira escura e polida. Havia símbolos gravados nelas, em prata e marfim, muito complexos, hieroglíficos, místicos.

— Onde vocês conseguiram a mesa? — perguntei. Duende guinchou e riu. Eu grunhi. — Por que diabos vocês não podem me contar agora?

— Certo — respondeu Caolho, rindo maldosamente. — Nós a construímos.

— Para quê?

— Para botar nossa rocha em cima.

— Você não está me contando nada.

— Paciência, Chagas. Tudo a seu tempo. — Maldito.

Tinha algo de estranho em nossa praça. Estava cheia de névoa. Não havia nevoeiro em nenhum outro lugar.

Caolho parou a carroça no meio da praça.

— Hora de descarregar a mesa, rapazes.

— Hora de descarregar você — cacarejou Duende. — Acha que pode embromar a gente numa hora dessas? — O feiticeiro se virou para Elmo. — O maldito aleijado sempre tem uma desculpa.

— Ele tem razão, Caolho.

Caolho protestou.

— Desça essa bunda daí — exclamou Elmo.

Caolho fitou Duende com raiva.

— Vou te pegar um dia, seu gordo. Praga da impotência. O que acha disso?

Duende não se impressionou.

— Eu rogaria uma praga da burrice em você, se achasse que poderia melhorar o trabalho da natureza.

— Descarreguem a maldita mesa — mandou Elmo.

— Está nervoso? — perguntei. Ele nunca se irrita com briguinhas, considera-as como parte da diversão.

— Estou. Você e Corvo, subam lá e empurrem.

A mesa era mais pesada do que parecia. Foi preciso que todos ajudássemos para que ela fosse tirada da carroça. Os grunhidos fingidos e pragas de Caolho não ajudaram. Eu perguntei como eles a tinham posto ali.

— Nós montamos a mesa aqui em cima, paspalho — respondeu, então ficou de frescura, mandando a gente mover a mesa alguns centímetros para cá, alguns centímetros para lá.

— Deixe assim — ordenou Apanhador de Almas. — Não temos tempo para isto. — O aborrecimento dele teve um efeito salutar. Nem Duende nem Caolho disseram mais uma palavra.

Deslizamos a pedra para cima da mesa. Dei um passo atrás, enxugando o suor do rosto. Estava encharcado, no meio do inverno. A pedra irradiava calor.

— As bolsas — disse o Apanhador de Almas. A voz dele soou como a de uma mulher que eu gostaria de conhecer.

Peguei uma bolsa. Grunhi. Era pesada.

— Ei, isto é dinheiro.

Caolho deu uma risadinha. Joguei a bolsa numa pilha sob a mesa. Uma maldita fortuna, ali. Nunca tinha visto tanto dinheiro junto, para falar a verdade.

— Cortem as bolsas — mandou o Apanhador de Almas. — Rápido!

Corvo rasgou os sacos. Tesouro escorreu para os paralelepípedos. Ficamos olhando, com cobiça no coração.

O Apanhador de Almas segurou o ombro do Caolho e o braço do Duende. Os dois feiticeiros pareceram encolher. Então os três se viraram para a mesa e a pedra.

— Tirem a carroça — instruiu o Apanhador.

Eu ainda não tinha lido a mensagem imortal que eles haviam gravado na pedra. Corri para dar uma olhada.

AQUELE QUE DESEJA ESTA FORTUNA

DEVE ASSENTAR A CABEÇA DA CRIATURA

RASGO

NESTE TRONO DE PEDRA

Ah. Ahá. Palavras simples. Direto. Descomplicado. Bem o nosso estilo. Rá.

Dei um passo atrás, tentando estimar a magnitude do investimento do Apanhador de Almas. Pude ver ouro em meio à montanha de prata. Uma das bolsas sangrava gemas brutas.

— Os cabelos — exigiu o Apanhador.

Caolho pegou os fios. O Apanhador os colocou nas laterais da cavidade, que tinha o tamanho de uma cabeça. Deu um passo atrás e deu as mãos a Caolho e Duende.

Eles fizeram magia.

Tesouro, mesa e pedra começaram a emitir um brilho dourado.

Nosso arqui-inimigo era um homem morto. Metade do mundo ia tentar receber aquela recompensa. Era grande demais para resistir. Até seu próprio pessoal ia se virar contra ele.

Eu vislumbrei uma única e mínima chance para Rasgo. Ele poderia roubar o tesouro para si mesmo. Seria difícil, porém. Nenhum profeta rebelde conseguiria derrotar as magias de um Tomado.

Eles completaram o encantamento.

— Alguém teste o feitiço — pediu Caolho.

Houve um estalo maligno quando a ponta da adaga de Corvo penetrou o plano das pernas da mesa. Ele praguejou, fez uma careta para a arma. Elmo estocou com a espada. Crack! A ponta da lâmina emitia um brilho branco.

— Excelente — concluiu o Apanhador de Almas. — Levem a carroça daqui.

Elmo designou um soldado. O resto fugiu para o quarto que Duende tinha alugado.

Primeiro nós nos ajuntamos na janela, esperando que alguma coisa acontecesse. Isso ficou chato muito rápido. A cidade de Rosas só foi descobrir a condenação que preparamos para Rasgo depois do amanhecer.

Empreendedores cautelosos encontraram cem maneiras de tentar faturar o dinheiro. Multidões vieram apenas para assistir. Um bando dedicado começou a escavar a rua para chegar ao local por baixo. A polícia os expulsou.

O Apanhador de Almas se sentou ao lado da janela e não saiu dali.

— Tenho que modificar os feitiços. Não antecipei tamanha engenhosidade — disse-me certa vez.

Surpreso com minha própria audácia, perguntei:

— Como é a Dama? — Eu tinha acabado de escrever um dos meus rascunhos de fantasias.

Ele se virou devagar e me fitou brevemente.

— Algo que morderá aço. — Era uma voz de mulher despeitada. Uma resposta estranha. Então: — Tenho que impedi-los de usar ferramentas.

E lá se foi minha chance de conseguir um testemunho em primeira mão. Eu deveria ter imaginado. Nós mortais somos apenas meros objetos para os Tomados. Nossas curiosidades lhes são supremamente indiferentes. Eu me retirei para meu reino secreto e seu círculo de Damas imaginárias.

O Apanhador de Almas modificou as magias protetoras naquela noite. Na manhã seguinte havia cadáveres na praça.

Caolho me acordou na terceira noite.

— Temos um cliente.

— Hum?

— Um cara com uma cabeça. — Ele estava satisfeito.

Cambaleei até a janela. Duende e Corvo já estavam lá. Nós nos esprememos em um canto. Ninguém queria chegar muito perto do Apanhador.

Um homem atravessou a praça abaixo. Uma cabeça pendia da mão esquerda dele, presa pelos cabelos.

— Eu me perguntei quanto tempo ia demorar antes que isso começasse — comentei.

— Silêncio — sibilou o Apanhador. — Ele está lá fora.

— Quem?

Ele era paciente. Extraordinariamente paciente. Outro dos Tomados teria me castigado ali mesmo.

— Rasgo. Não denuncie nossa posição.

Eu não sabia como ele sabia. Talvez preferisse não saber. Essas coisas me assustam.

— Uma visita sorrateira tinha sido prevista — sussurrou Duende, guinchando. Como ele conseguia guinchar sussurrando? — Rasgo tem que descobrir o que está enfrentando. E não pode fazer isso de nenhum outro lugar. — O homenzinho gorducho estava orgulhoso.

O Capitão diz que a natureza humana é nossa lâmina mais afiada. A curiosidade e a vontade de sobreviver atraíram Rasgo a nosso caldeirão. Talvez ele fosse virar a mesa contra nós. Temos um monte de pontos fracos também.

Semanas se passaram. Rasgo veio várias vezes, aparentemente contente em observar. O Apanhador de Almas mandou que o deixássemos em paz, não importando o quanto ele se fizesse de alvo fácil.

Nosso mentor pode nos tratar com consideração, mas tem um traço de crueldade. Ele parecia querer atormentar Rasgo com a incerteza do destino que o aguardava.

— Esta cidade está ficando louca por recompensas — guinchou Duende, em seguida fazendo uma de suas dancinhas. — Você deveria sair mais, Chagas. Estão transformando Rasgo numa indústria. — Ele me chamou até o canto mais afastado do Apanhador de Almas e abriu uma carteira. — Olhe só — sussurrou.

Ele tinha dois punhados de moedas. Algumas eram de ouro.

— Você vai acabar andando torto com esse peso — observei.

Duende sorriu. Seu sorriso é uma visão inesquecível.

— Faturei isto vendendo dicas de onde encontrar o Rasgo — murmurou ele. Depois olhou para o Apanhador e acrescentou: — Dicas falsas. — Duende pôs a mão em meu ombro. Teve de se esticar para conseguir. — Dá para ficar rico lá fora.

— Eu não sabia que estávamos nesta para ficarmos ricos.

Duende fez uma careta que deixou o rosto pálido e redondo dele coberto de rugas.

— O que é você? Algum tipo de...?

O Apanhador de Almas se virou.

— Só uma discussão sobre uma aposta, senhor. Só uma aposta — coaxou o pequeno homem.

Eu ri alto.

— Muito convincente, balofo. Por que você não se enforca, simplesmente?

Duende amarrou a cara, mas não por muito tempo. Ele é irrepreensível. O humor dele consegue superar até as situações mais difíceis.

— Merda, Chagas, você deveria ver o que o Caolho está fazendo — murmurou ele. — Vendendo amuletos. Eles garantem que se tiver um rebelde por perto, você está protegido. — Outra espiada para o Apanhador. — E funcionam mesmo. Mais ou menos.

Balancei a cabeça.

— Pelo menos ele poderá pagar as dívidas de carteado. — Isso era típico do Caolho. Passou uma temporada ruim em Meystrikt, onde não havia espaço para as costumeiras negociações de mercado negro. — Vocês deveriam estar plantando rumores. Mantendo a agitação, e não...

— Shhh! — Ele olhou o Apanhador de novo. — Estamos fazendo isso. Todos os botecos da cidade. Diabos, o disse me disse está completamente selvagem, lá fora. Venha, vou lhe mostrar.

— Não. — O Apanhador de Almas estava falando cada vez mais. Eu tinha esperanças de conseguir uma conversa de verdade.

— Azar o seu. Eu conheço um agenciador que aceita apostas de quando Rasgo perderá a cabeça. Você tem informações privilegiadas, sabe.

— Caia fora daqui antes que você perca a sua.

Fui até a janela. Um minuto depois Duende passou apressado pela praça abaixo. Ele nem olhou para nossa armadilha.

— Deixe que brinquem com os joguinhos deles — disse o Apanhador de Almas.

— Senhor? — Minha nova abordagem. Puxar o saco.

— Meus ouvidos são mais afiados do que seu amigo imagina.

Esquadrinhei o rosto daquele morrião negro, tentando capturar alguma pista dos pensamentos por trás do metal.

— Não é relevante. — Ele se ajeitou um pouco, fitando algo atrás de mim. — O submundo está paralisado pelo desespero.

— Senhor?

— A argamassa que sustenta a casa está apodrecendo. Vai desmoronar em breve. Isso não aconteceria se tivéssemos capturado Rasgo imediatamente. Eles o teriam transformado num mártir. A perda os entristeceria, mas eles teriam perseverado. O Círculo substituiria Rasgo em tempo para as campanhas de inverno.

Eu fitei a praça. Por que o Apanhador de Almas estava me contando isso? E tudo numa voz só. Seria a voz verdadeira do Apanhador de Almas?

— Porque você achou que eu estava sendo cruel por prazer.

Eu pulei.

— Como você...?

O Apanhador de Almas fez um barulho que passava por uma risada.

— Não, não li sua mente. Sei como as mentes funcionam. Eu sou aquele que apanha almas, já esqueceu?

Será que os Tomados se sentem solitários? Anseiam por companhia? Amizade?

— Às vezes. — Isso foi dito numa das vozes femininas. Era sedutora.

Eu dei meia-volta e olhei para a praça, assustado.

O Apanhador de Almas leu esse gesto também. Voltou a falar de Rasgo.

— A mera eliminação nunca foi meu plano. Quero que o herói de Forsberg acabe desacreditado.

O Apanhador de Almas conhecia nosso inimigo melhor do que suspeitávamos. Rasgo estava jogando o jogo de nosso patrono. O rebelde já tinha feito duas tentativas espetaculares e vãs de desarmar nossa armadilha. Esses fracassos haviam arruinado a reputação dele com os colegas viajantes. Pelo que ouvíamos falar, Rosas fervilhava com um sentimento pró-império.

— Ele se fará de tolo, e então os esmagaremos. Como um besouro nojento.

— Não o subestime. — Que audácia! Dando conselho a um dos Tomados. — O Manco...

— Isso eu não farei. Não sou o Manco. Ele e Rasgo são farinha do mesmo saco. Nos velhos tempos... O Dominador o teria feito um de nós.

— Como ele era? — Ponha ele para falar, Chagas. Do Dominador é só mais um passo até a Dama.

A mão direita do Apanhador de Almas se virou de palma para cima, se abriu e lentamente fez uma garra. O gesto me abalou. Imaginei aquela garra rasgando minha alma. Fim da conversa.

Mais tarde comentei com Elmo:

— Sabe, aquela grana lá fora nem precisava ser verdadeira. — Qualquer coisa teria funcionado se a multidão não pudesse pegar.

— Errado. O Rasgo tinha que saber que era real — interveio o Apanhador de Almas.

Na manhã seguinte, recebemos notícias do Capitão. Algumas novidades gerais. Alguns partidários rebeldes estavam entregando as armas em resposta a uma oferta de anistia. Alguns soldados da força principal que tinham vindo ao sul com Rasgo estavam se retirando. A confusão chegara ao Círculo. O fracasso de Rasgo em Rosas os preocupava.

— E por que isso? — perguntei. — Ainda não aconteceu nada palpável.

— Está acontecendo do outro lado — explicou o Apanhador de Almas. — Nas mentes das pessoas. — Haveria um tom de arrogância ali? — Rasgo, e por extensão o Círculo, passa uma imagem de impotência. Ele deveria ter entregado o Saliente a outro comandante.

— Se eu fosse um general dos grandes, provavelmente também não admitiria uma cagada — comentei.

— Chagas! — exclamou Elmo, surpreso. Eu geralmente não dizia o que pensava.

— É verdade, Elmo. Você consegue imaginar qualquer general, nosso ou deles, pedindo a alguém que assumisse seu lugar?

O morrião negro me encarou.

— A fé deles está morrendo. Um exército sem fé em si mesmo está mais derrotado que qualquer força vencida em batalha. — Quando o Apanhador de Almas escolhe um assunto, nada o faz mudar de ideia.

Eu tinha uma sensação curiosa de que ele seria o tipo capaz de ceder o comando a alguém mais bem-preparado para exercê-lo.

— Agora vamos aumentar a pressão. Todos vocês. Falem nas tavernas. Sussurrem nas ruas. Enterrem-no. Pressionem-no. Empurrem-no com tanta força que ele não terá tempo de pensar. Quero que ele fique tão desesperado a ponto de tentar alguma coisa idiota.

Eu pensei que o Apanhador de Almas estava no caminho certo. Este pedaço da guerra da Dama não seria vencido em um campo de batalha. A primavera se aproximava, mas os combates ainda não haviam começado. Os olhos do Saliente estavam todos voltados à cidade livre, esperando pelo resultado do duelo entre Rasgo e o campeão da Dama.

— Não é mais necessário matar Rasgo — observou o Apanhador de Almas. — Sua credibilidade está morta. Agora vamos destruir a confiança do movimento dele. — O Tomado voltou à sua vigília na janela.

— O Capitão disse que o Círculo mandou Rasgo sair — contou Elmo. — Ele não aceitou.

— Ele se revoltou com a própria revolução?

— Ele quer derrotar esta armadilha.

Mais uma faceta da natureza humana que trabalha a nosso favor. O orgulho excessivo.

— Peguem um baralho. Duende e Caolho andaram roubando viúvas e órfãos de novo. Hora de passar o rodo neles.

Rasgo estava sozinho, perseguido, assustado, um cão açoitado fugindo pelos becos da noite. Ele não podia confiar em ninguém. Eu tive pena dele. Quase.

O sujeito era um idiota. Só um idiota insiste em nadar contra a maré. A maré contra Rasgo estava piorando a cada hora que passava.

Eu apontei para as sombras perto da janela com meu polegar.

— Parece que está acontecendo uma reunião da Irmandade dos Sussurros.

Corvo deu uma olhada por sobre meu ombro e não disse nada. Estávamos jogando Tonk um contra um, ou seja, um passatempo bem tedioso.

Uma dúzia de vozes murmurava ali.

— Sinto o cheiro. Você está errado. Está vindo do sul. Acabe com isso agora. Ainda não. Chegou a hora. Ainda precisa de mais tempo. Abusando da sorte, o jogo pode virar. Cuidado com o orgulho. Está aqui. O fedor vem à frente como o bafo de um chacal.

— Queria saber se ele já perdeu uma discussão consigo mesmo.

Corvo continuou calado. Em meus dias mais ousados eu tentava fazê-lo falar. Sem sorte. As coisas iam melhor com o Apanhador de Almas.

O Tomado se levantou de repente, com um som raivoso emergindo de suas profundezas.

— O que foi? — indaguei. Eu estava cansado de Rosas. Estava enojado com Rosas. O lugar me entediava e me assustava. O preço de se sair naquelas ruas sozinho era a própria vida.

Uma daquelas vozes de fantasma estava certa. Estávamos nos aproximando do ponto em que o resultado da espera viria. Eu mesmo estava desenvolvendo um respeito relutante por Rasgo. O homem se recusava a se render ou fugir.

— O que foi? — perguntei de novo.

— O Manco. Está em Rosas.

— Aqui? Por quê?

— Ele sente o cheiro de uma grande presa. Quer roubar o crédito.

— Você quer dizer que ele veio se meter em nossa briga?

— É seu estilo.

— E a Dama, não...?

— Estamos em Rosas. Ela está bem longe. E não se importa com quem vai matá-lo.

Politicagens entre os vice-reis da Dama. É um mundo estranho. Não entendo as pessoas fora da Companhia.

Levamos uma vida simples. Não é necessário pensar. O Capitão cuida disso. Nós apenas seguimos ordens. Para a maioria de nós, a Companhia Negra é um esconderijo, um refúgio do passado, um lugar para se tornar um novo homem.

— E o que nós vamos fazer? — indaguei.

— Eu cuido do Manco. — Ele começou a organizar as vestimentas e os apetrechos.

Duende e Caolho entraram cambaleando. Estavam tão bêbados que precisavam se apoiar um no outro.

— Merda — guinchou Duende. — Tá nevando de novo. Mas que porra de neve. Achei que o inverno tinha acabado.

Caolho irrompeu a cantar. Alguma coisa sobre a beleza do inverno. Eu não conseguia entender a letra. Sua fala estava pastosa, e ele tinha esquecido metade dos versos.

Duende caiu numa cadeira, esquecendo Caolho, que desabou a seus pés e vomitou em suas botas, em seguida tentando continuar a canção.

— Cadê todo mundo? — murmurou Duende.

— Estão todos por aí. — Troquei olhares com Corvo. — Você acredita nisso? Esses dois enchendo a cara juntos?

— Aonde você vai, velho espectro? — guinchou Duende para o Apanhador de Almas. O Tomado saiu sem responder. — Maldito. Ei, Caolho, amigão. Não é isso mesmo? O velho espectro é um maldito, não é?

Caolho se sentou no chão e olhou em volta. Acho que ele não conseguia ver nada com o único olho que tinha.

— Isso mermo. — Fez uma careta para mim. — Mardito. Tudo mardito. — Algo do que ele disse soou muito engraçado para Caolho, e ele riu.

Duende se juntou a ele. Quando percebeu que Corvo e eu não tínhamos entendido a piada, assumiu uma expressão de muita dignidade e disse:

— Esses caras não são dos nossos, amigão. Estava mais caloroso lá fora, na neve. — Duende ajudou Caolho a se levantar, e os dois saíram cambaleando.

— Espero que não façam nada idiota. Ou mais idiota. Como se mostrar. Vão acabar sendo mortos.

— Tonk — disse Corvo e baixou as cartas. Por sua reação, era como se aqueles dois sequer tivessem aparecido.

Dez ou 15 mãos depois, um dos soldados que tínhamos trazido entrou correndo.

— Vocês viram Elmo? — inquiriu.

Dei uma olhada nele. A neve derretia em seus cabelos. Ele estava pálido, assustado.

— Não. O que aconteceu, Hagop?

— Alguém esfaqueou o Otto. Acho que foi o Rasgo. Eu botei ele pra correr.

— Esfaqueou? Ele morreu? — Comecei a procurar meu kit. Otto precisaria de mim mais do que de Elmo.

— Não. Mas foi um corte feio. Sangue pra caramba.

— Por que você não o trouxe de volta?

— Não consegui carregar.

Hagop estava bêbado também. O ataque ao amigo o tinha deixado um pouco mais sóbrio, mas aquilo não iria durar.

— Você tem certeza de que foi o Rasgo? — Será que o velho idiota estava tentando revidar?

— Claro. Ei, Chagas, vamos lá. Ele vai morrer.

— Estou indo, estou indo.

— Esperem. — Corvo estava remexendo suas coisas. — Eu vou junto. — Ele pesou nas mãos um par de facas extremamente afiadas, tentando escolher uma. Deu de ombros e meteu as duas no cinto. — Pegue um manto, Chagas. Está frio lá fora.

Enquanto eu procurava uma capa, Corvo interrogou Hagop quanto ao paradeiro de Otto e mandou que ele ficasse quieto no alojamento até Elmo aparecer.

— Vamos, Chagas.

Descemos as escadas. Chegamos à rua. O andar de Corvo é enganador. Ele nunca parece estar com pressa, mas você precisa ser muito rápido para acompanhá-lo.

Dizer que estava nevando era um eufemismo. Até mesmo nas ruas iluminadas mal dava para ver além de 5 metros de distância. Já tinha caído uns 15 centímetros de neve. Daquela pesada, úmida. Mas a temperatura estava baixando e um vento soprava cada vez mais forte. Outra nevasca? Merda! Já não tivemos o bastante?

Encontramos Otto meio quarteirão além de onde deveria estar. Tinha se arrastado até debaixo de uns degraus. Corvo foi direto até ele. Como o sujeito soube onde procurar, eu jamais saberei. Carregamos Otto até a luz mais próxima. Ele encontrava-se indefeso, estava inconsciente.

— Bêbado como um gambá — funguei. — O único perigo era morrer congelado.

Estava coberto de sangue, mas o ferimento não era grave. Alguns pontos de sutura dariam conta, e só. Carregamos Otto de volta ao quarto. Eu o despi e me pus a costurar antes que ele pudesse reclamar.

O comparsa de Otto estava dormindo. Corvo o chutou até que acordasse.

— Quero a verdade — exigiu Corvo. — O que aconteceu?

Hagop insistiu.

— Foi o Rasgo, cara. Foi o Rasgo.

Eu duvidei dessa história. Corvo também. Mas quando terminei a sutura, Corvo me chamou.

— Pegue sua espada, Chagas. — Ele estava com um olhar de caçador. Eu não queria sair de novo, mas queria menos ainda discutir com Corvo naquele humor. Peguei meu cinturão.

O ar estava mais frio. O vento, mais forte. Os flocos de neve, menores e mais ardidos quando acertavam meu rosto. Eu me esgueirei atrás de Corvo, me perguntando o que diabos estávamos fazendo.

Ele encontrou o lugar onde Otto fora esfaqueado. A neve nova ainda não havia apagado as marcas na velha. Corvo se agachou, olhou. Eu me perguntei o que ele via. Não havia luz suficiente para descobrir nada, até onde eu podia ver.

— Talvez ele não estivesse mentindo — concluiu Corvo, afinal. Ele fitou as sombras do beco de onde o atacante tinha vindo.

— Como você sabe?

Ele não respondeu.

— Venha. — E lá foi Corvo beco adentro.

Eu não gosto de becos. Eu os odeio ainda mais em cidades como Rosas, onde eles abrigam todos os males conhecidos pelo homem, e provavelmente alguns ainda desconhecidos. Mas Corvo estava indo em frente... Corvo queria minha ajuda... Corvo era meu irmão na Companhia Negra... Mas, merda, um fogo na lareira e um vinho quente teriam sido bem melhores.

Acho que não dediquei mais de três horas explorando a cidade, no total, e Corvo tinha passado ainda menos tempo nas ruas que eu. Mesmo assim, ele parecia saber exatamente aonde ir. Corvo me guiou por ruas laterais e becos, atravessando avenidas e pontes. Rosas é cortada por três rios, e uma teia de canais os conecta. As pontes são uma das razões pelas quais Rosas é famosa.

As pontes não me interessavam naquele momento. Eu estava ocupado tentando acompanhar Corvo e me manter aquecido. Meus pés eram pedras de gelo. A neve entrava em minhas botas, e Corvo não estava disposto a parar toda vez que isso acontecia.

E lá fomos nós. Quilômetros e horas. Nunca vi tantos cortiços e ensopados...

— Pare! — Corvo meteu o braço na minha frente.

— O quê?

— Calado.

Ele forçou a audição. Eu forcei a audição. Não escutei nada. Não tinha visto muita coisa em nossa corrida desabalada, também. Como poderia Corvo estar rastreando o atacante de Otto? Eu não duvidava de que ele o fazia, só não conseguia entender como.

Para falar a verdade, nada do que Corvo fazia me surpreendia. Nada, desde o dia em que o vi estrangular a esposa.

— Nós quase o alcançamos. — Ele espiou a neve que soprava. — Siga direto em frente, na velocidade em que estávamos andando. Você o pegará em uns dois quarteirões.

— O quê? Aonde você vai? — Eu estava reclamando com uma sombra que sumia. — Maldito. — Respirei fundo, praguejei de novo, saquei a espada e fui em frente. Tudo que eu conseguia pensar era em como explicaria isto se pegássemos o homem errado?

Então eu o vi à luz da porta de uma taverna. Um homem alto e magro caminhando desanimado, inconsciente do que se aproximava. Rasgo? Como eu poderia saber? Elmo e Otto eram os únicos que tinham participado do ataque à fazenda.

Chegou a alvorada. Só os dois poderiam identificar Rasgo para o resto do nosso grupo. Otto estava ferido e Elmo não dava notícias desde... Onde estava? Sob uma camada de neve em algum beco, frio como aquela noite horrenda?

Meu medo se retirou perante minha raiva.

Embainhei a espada e saquei uma adaga. Eu a mantive oculta debaixo do manto. A pessoa adiante nem olhou para trás quando o ultrapassei e emparelhei.

— Noite difícil, não, velho?

Ele grunhiu qualquer coisa. Então olhou para mim, estreitando os olhos, quando passei a caminhar a seu lado. O homem se afastou e me observou, atento. Não havia medo em seus olhos. Era alguém confiante. Não como os velhos que você encontrava vagando pelas ruas dos cortiços. Eles estão sempre com medo da própria sombra.

— O que você quer? — Era uma pergunta calma e direta.

Ele não precisava ficar assustado. Eu estava com medo suficiente por nós dois.

— Você esfaqueou um amigo meu, Rasgo.

Ele parou. Um brilho estranho surgiu em seus olhos.

— A Companhia Negra?

Confirmei com a cabeça.

Ele me fitou, estreitando os olhos pensativamente.

— O médico. Você é o médico. Aquele que chamam de Chagas.

— Prazer em conhecê-lo. — Tenho certeza de que minha voz soou muito mais forte do que eu me sentia.

E então pensei: o que diabos faço agora?

Rasgo abriu o manto num movimento súbito. Uma espada curta de estoque veio em minha direção. Eu deslizei para o lado, abri meu próprio manto, me esquivei de novo e tentei sacar minha espada.

Rasgo se paralisou. Nossos olhares se encontraram. Os olhos dele pareceram crescer, crescer... Eu estava caindo em um par de lagos cinzentos... Um sorriso repuxou os cantos de sua boca. Rasgo deu um passo em minha direção, erguendo a espada...

E grunhiu de repente. Uma expressão de espanto absoluto surgiu em seu rosto. Eu me livrei do feitiço, dei um passo atrás, assumi uma posição defensiva.

Rasgo se virou lentamente, encarando as trevas. A faca de Corvo estava cravada em suas costas. O rebelde a arrancou. Um miado de dor lhe escapou dos lábios. Rasgo olhou a faca com raiva e, lentamente, começou a cantar.

— Mexa-se, Chagas!

Um feitiço! Idiota! Eu tinha esquecido o que Rasgo era. Eu ataquei.

Corvo o alcançou no mesmo momento.

Olhei para o corpo.

— E agora?

Corvo se ajoelhou e puxou outra faca, que tinha a borda serrilhada.

— Agora alguém vai receber a recompensa do Apanhador de Almas.

— Ele vai ficar furioso.

— Você vai contar?

— Não. Mas o que vamos fazer com o tesouro? — Houve ocasiões em que a Companhia Negra prosperara, mas nunca fora rica. A acumulação de dinheiro não é nosso propósito.

— Posso usar uma parte. Velhas dívidas. O resto... vamos dividir. Mandar de volta a Berílio. O que vocês acharem melhor. O dinheiro está lá. Por que deixar que volte aos Tomados?

Dei de ombros.

— Você que sabe. Só espero que o Apanhador de Almas não ache que nós passamos a perna nele.

— Só eu e você sabemos. Eu não vou contar. — Corvo limpou a neve do rosto do velho. Rasgo estava esfriando rápido.

Corvo usou a faca.

Sou um médico. Já amputei membros. Sou um soldado. Já vi campos de batalha sanguinários. Mesmo assim, fiquei abalado. Decapitar um homem morto não parecia certo.

Corvo ocultou o troféu macabro dentro do manto. A cabeça não o incomodava. Em certo momento, no caminho de volta a nosso lado da cidade, perguntei:

— Por que fomos atrás dele, afinal?

Corvo não respondeu imediatamente.

— A última carta do Capitão mandou que encerrássemos o assunto se tivéssemos chance — respondeu, enfim.

Perto da praça, Corvo falou outra vez:

— Suba ao quarto. Veja se o espectro ainda está lá. Se não estiver, mande nosso soldado mais sóbrio buscar a carroça. Então volte para cá.

— Certo. — Suspirei e corri até nosso alojamento. Faria qualquer coisa por um pouco de calor.

A neve chegava a 30 centímetros agora, e eu temia que meus pés estivessem permanentemente danificados.

— Onde diabos você estava? — inquiriu Elmo quando entrei pela porta. — Cadê o Corvo?

Olhei em volta. Nada do Apanhador de Almas. Duende e Caolho estavam de volta, mortos para o mundo. Otto e Hagop roncavam como gigantes.

— Como está Otto?

— Tudo bem com ele. O que você andou armando?

Eu me sentei ao lado do fogo, tirei as botas. Meus pés estavam azuis e dormentes, mas não congelados. Logo formigaram dolorosamente. Minhas pernas doíam por toda aquela andança pela neve, também. Contei a história a Elmo.

— Vocês mataram ele?

— O Corvo falou que o Capitão quer encerrar o projeto.

— É. Não imaginei que o Corvo iria cortar a garganta do cara.

— Cadê o Apanhador de Almas?

— Ainda não voltou. — Ele sorriu. — Vou buscar a carroça. Não conte a mais ninguém. Fofoqueiros demais por aí. — Elmo vestiu o manto e saiu.

Minhas mãos e meus pés pareciam humanos de novo. Eu me arrastei até a cama e peguei as botas de Otto. Ele tinha meu tamanho e não ia precisar delas.

Saí na noite outra vez. Era manhã, quase. A aurora logo chegaria.

Se esperava uma bronca de Corvo, me decepcionei. Ele apenas me olhou. Acho que chegou a tremer de frio. Lembro de ter pensado que talvez ele fosse humano, afinal.

— Tive que trocar de botas. Elmo foi buscar a carroça. O resto do pessoal estava desmaiado.

— E o Apanhador de Almas?

— Ainda não voltou.

— Vamos plantar esta semente. — Ele saiu para os flocos que giravam. Eu me apressei em segui-lo.

A neve não tinha se acumulado em nossa armadilha. Estava ali, brilhando, dourada. A água se empoçava sob ela e escorria até se tornar gelo.

— Você acha que o Apanhador de Almas vai ficar sabendo quando essa coisa for desativada? — perguntei.

— É bem provável. Duende e Caolho também.

— O prédio poderia queimar até virar cinzas que eles nem iriam se mexer.

— Mesmo assim... Shh! Tem alguém por perto. Vá por ali. — Corvo avançou na direção oposta, contornando.

Por que estou fazendo isto?, foi o que me perguntei enquanto me esgueirava pela neve, com a espada em riste. Deparei-me com Corvo.

— Viu alguma coisa?

Corvo fitou as trevas, furioso.

— Alguém esteve aqui. — Ele farejou o ar, virou sua cabeça lentamente para a esquerda e para a direita. Deu uma dúzia de passos rápidos e apontou para o chão.

Ele tinha razão. A trilha era fresca. A metade em fuga parecia apressada. Olhei para as marcas.

— Não gosto nada disso, Corvo. — A pista de nosso visitante indicava que ele arrastava o pé direito. — O Manco.

— Não sabemos com certeza.

— E quem mais poderia ser? Onde está Elmo?

Voltamos à armadilha do Apanhador de Almas e esperamos impacientes. Corvo andava de um lado para o outro. Resmungava. Não me lembrava de já ter visto o sujeito assim tão alterado.

— O Manco não é o Apanhador de Almas — disse ele num determinado momento.

Realmente. O Apanhador de Almas é quase humano. O Manco é do tipo que se diverte torturando bebês.

Um tilintar de correias e o guincho de rodas mal-engraxadas invadiram a praça. Elmo e a carroça surgiram. Ele parou o veículo e pulou.

— Onde diabos você andou? — O medo e o cansaço me deixaram irritado.

— Leva um tempo para achar um cavalariço e preparar uma parelha. O que foi? O que aconteceu?

— O Manco esteve aqui.

— Merda. E o que ele fez?

— Nada, ele só...

— Vamos logo — ralhou Corvo. — Antes que ele volte.

Corvo levou a cabeça do Rasgo à pedra. Os feitiços protetores não o detiveram. Ele encaixou nosso troféu na concavidade. O brilho dourado se apagou. Flocos de neve começaram a se acumular na cabeça e na pedra.

— Vamos — exclamou Elmo. — Não temos muito tempo.

Peguei um saco e coloquei na carroça. Elmo, precavido, tinha estendido uma lona para impedir que moedas soltas caíssem por entre as tábuas.

Corvo me mandou recolher os tesouros espalhados sob a mesa.

— Elmo, esvazie alguns desses sacos e entregue-os ao Chagas.

Eles levantaram os sacos. Eu catei tudo que estava no chão.

— Um minuto se passou — afirmou Corvo. Metade dos sacos estava na carroça.

— Muita coisa solta — reclamei.

— Vamos deixar aí, se precisarmos.

— E o que vamos fazer com o ouro? Como vamos escondê-lo?

— No feno do estábulo — explicou Corvo. — Por enquanto. Depois colocamos numa cama falsa na carroça. Já foram dois minutos.

— E quanto à trilha da carroça? — perguntou Elmo. — Ele vai poder segui-la de volta ao estábulo.

— E por que ele se importaria com isso? — indaguei em voz alta. Corvo me ignorou.

— Você não os escondeu quando veio para cá? — inquiriu ele a Elmo.

— Não pensei nisso.

— Merda!

Todos os sacos estavam a bordo. Elmo e Corvo me ajudaram com o resto.

— Três minutos — anunciou Corvo e então: — Quietos! — Ele escutou. — O Apanhador de Almas não poderia já ter chegado, poderia? Não. É o Manco de novo. Vamos. Você dirige, Elmo. Vá para uma rua principal. Se misture ao tráfego. Vou seguir você. Chagas, tente esconder a trilha do Elmo.

— Cadê ele? — perguntou Elmo, fitando a neve que caía. Corvo apontou.

— Temos de despistá-lo. Ou ele levará tudo. Vamos, Chagas. Mexa-se, Elmo.

— Eia! — Elmo estalou as rédeas. A carroça saiu rangendo.

Eu me enfiei debaixo da mesa e enchi meus bolsos, então fugi da direção de onde Manco viria, segundo Corvo.

Não sei se tive muita sorte em encobrir a trilha de Elmo. Acho que fomos mais ajudados pelo tráfego matinal do que por qualquer coisa que fiz. Porém, me livrei do garoto do estábulo. Dei a ele uma meia cheia de ouro e prata, mais do que ele ganharia em anos de trabalho com cavalos, e perguntei se ele poderia sumir. Para bem longe de Rosas, de preferência. Ele me disse que não iria nem buscar suas coisas. Largou o forcado e saiu, para nunca mais ser visto novamente.

Eu voltei a nosso quarto.

Todos estavam dormindo, menos Otto.

— Ah, Chagas — disse ele. — Tava na hora.

— Dor?

— É.

— Ressaca?

— Também.

— Deixe-me ver o que posso fazer. Há quanto tempo você acordou?

— Uma hora, acho.

— O Apanhador de Almas esteve por aqui?

— Não. O que aconteceu com ele, afinal?

— Não sei.

— Ei, essas botas são minhas. O que diabos você acha que está fazendo, usando minhas botas assim?

— Pega leve. Beba isto.

Ele bebeu.

— Vamos lá. O que você está fazendo com minhas botas?

Eu tirei as botas e as coloquei perto do fogo, que tinha ficado bem fraco. Otto continuou me perturbando enquanto eu botava mais carvão.

— Se você não sossegar, vai arrebentar os pontos.

Uma coisa eu tenho de admitir. Os rapazes prestam atenção em mim quando o conselho é de natureza médica. Por mais furioso que estivesse, Otto se reclinou e se obrigou a ficar quieto. Mas não parou de me xingar.

Tirei minhas roupas molhadas e vesti um camisolão que achei largado. Não sei quem era o dono. Era curto demais. Botei uma chaleira no fogo e, então, me virei para Otto.

— Vamos dar uma olhada. — Levei meu kit até ele.

Eu estava limpando ao redor do ferimento e Otto praguejava baixinho quando ouvi o som. Arrasta-bate. Arrasta-bate. Parou diante de nossa porta.

Otto sentiu meu medo.

— O que foi?

— É o...

A porta se abriu atrás de mim. Dei uma olhada. Eu tinha adivinhado certo.

O Manco foi até a mesa, se sentou numa cadeira, examinou o quarto. O olhar dele me trespassou. Perguntei-me se ele se lembrava do que eu tinha feito a ele em Remo.

— Acabei de botar água para o chá — eu disse, ridiculamente.

Ele fitou as botas e o manto molhados, e em seguida cada um dos homens no aposento. Depois me olhou novamente.

O Manco não é grande. Se você o encontrasse na rua, sem saber quem ele era, não se impressionaria. Como o Apanhador de Almas, ele veste uma única cor, um marrom pobre. Estava esfarrapado. O rosto, escondido por uma surrada máscara de couro, meio torta. Mechas emaranhadas de cabelo escapavam da borda do capuz e da máscara. Eram grisalhas, com alguns fios negros.

Ele não disse nada. Apenas ficou sentado, olhando. Sem saber mais o que fazer, terminei de cuidar de Otto e preparei o chá. Servi três canecas de lata, dei uma a Otto, pus outra diante do Manco e fiquei com a terceira.

E agora? Eu não tinha mais nenhuma tarefa para me distrair. Nenhum lugar para me sentar a não ser àquela mesa. Ah, merda!

O Manco tirou a máscara. Ergueu a caneca de lata...

Eu não conseguia desviar o olhar.

Ele tinha o rosto de um morto, de uma múmia malpreservada. Os olhos estavam vivos e eram malignos, porém logo abaixo de um deles havia um pedaço de pele que tinha apodrecido. Abaixo do nariz, no canto direito da boca, uma grande parte do lábio estava faltando, revelando a gengiva e dentes amarelados.

O Manco bebericou o chá, me encarou e sorriu.

Eu quase me mijei todo.

Fui até a janela. Havia alguma luz lá fora e a neve estava diminuindo, mas eu não conseguia ver a pedra.

Passos de botas soaram na escada. Elmo e Corvo entraram de supetão.

— Ei, Chagas — grunhiu Elmo. — Como diabos você se livrou...? — As palavras dele sumiram quando ele reconheceu o Manco.

Corvo me lançou um olhar questionador. O Manco se virou. Eu dei de ombros quando ele ficou de costas para mim. Corvo foi para o canto, começando a tirar as roupas molhadas.

Elmo captou a ideia. Ele foi para o outro lado e começou a se despir junto ao fogo.

— Caramba, é muito bom tirar essas roupas. Como está, Otto?

— Tem chá fresco — falei.

— Tá doendo tudo, Elmo — respondeu Otto.

O Manco espiou cada um de nós e também Caolho e Duende, que nem tinham se mexido.

— Então o Apanhador de Almas trouxe a elite da Companhia Negra. — A voz dele era um sussurro, mas preencheu o aposento. — Onde ele está?

Corvo o ignorou. Vestiu calças secas, sentou-se ao lado de Otto, conferiu meu trabalho.

— Ótima sutura, Chagas.

— Eu tenho muitas oportunidades de praticar com essa tropa.

Elmo deu de ombros em resposta ao Manco. Esvaziou a xícara, serviu chá para todos e então encheu a chaleira com uma das jarras. Plantou uma bota nas costelas de Caolho enquanto o Manco olhava furioso para Corvo.

— Você! — exclamou o Manco. — Não esqueci o que você fez em Opala. Nem durante a campanha em Forsberg.

Corvo se sentou de costas para a parede. Pegou uma das facas mais assustadoras e começou a limpar as unhas. Sorriu para o Manco, com zombaria no olhar.

Será que nada assustava aquele homem?

— O que vocês fizeram com o dinheiro? Não era do Apanhador de Almas. A Dama o deu a mim.

Eu extraí coragem da atitude desafiadora de Corvo.

— Você não deveria estar em Olmo? A Dama mandou você sair do Saliente.

A raiva distorceu aquele rosto horrendo. Uma cicatriz lhe descia pela testa e pela bochecha esquerda. Ela se destacou. Supostamente, ela continuava até o lado esquerdo do peito dele. O golpe havia sido dado pela própria Rosa Branca.

O Manco se levantou.

— Você tem um baralho, Elmo? — perguntou o maldito Corvo. — A mesa está livre.

O Manco fez uma careta. O nível de tensão estava subindo rapidamente.

— Quero aquele dinheiro — exclamou ele. — É meu. Suas escolhas são cooperar ou não. Acho que vocês não vão gostar da segunda opção.

— Se você o quer, então vá buscá-lo — retrucou Corvo. — Pegue Rasgo. Corte-lhe a cabeça. Leve-a até a pedra. Isso deveria ser fácil para o Manco. Rasgo é só um bandido. Que chance ele poderia ter contra o Manco?

Achei que o Tomado iria explodir. Mas não o fez. Por um instante, ficou confuso.

Manco não ficou surpreso por muito tempo.

— Muito bem, se vocês preferem o jeito mais difícil... — O sorriso dele era largo e cruel.

A tensão estava à beira do ponto de explosão.

Uma sombra se moveu na porta aberta. Uma silhueta magra e sombria surgiu, fitando as costas do Manco. Suspirei de alívio.

O Manco girou. Por um momento o ar pareceu crepitar entre os Tomados.

Pelo canto do olho percebi que Duende estava se sentando. Os dedos dele dançavam em ritmos complexos. Caolho, virado para a parede, sussurrava para o colchonete. Corvo inverteu a faca para se preparar para um arremesso. Elmo segurou a chaleira, pronto para atirar água fervente.

Não havia nenhum projétil a meu alcance. O que diabos eu poderia fazer para ajudar? Uma crônica posterior à pancadaria, se eu sobrevivesse?

O Apanhador de Almas fez um pequeno gesto, e contornou o Manco, alojando-se na cadeira de costume. Ele usou a ponta do pé para puxar uma das cadeiras da mesa para perto e botou os pés nela. Encarou o Manco, com os dedos unidos diante da boca.

— A Dama mandou uma mensagem, para o caso de eu esbarrar com você. Ela quer vê-lo. — O Apanhador de Almas usou apenas uma voz. Uma voz dura de mulher. — Ela quer lhe perguntar sobre a revolta em Olmo.

O Manco estremeceu. Uma das mãos, estendida sobre a mesa, estava com um tique nervoso.

— Revolta? Em Olmo?

— Os rebeldes atacaram o palácio e o quartel.

O rosto desfigurado do Manco ficou pálido. O tique da mão se intensificou.

— Ela quer saber por que você não estava lá para rechaçá-los — continuou o Apanhador de Almas.

O Manco ficou conosco por mais três segundos. Neste tempo, o rosto dele ficou ainda mais grotesco. Eu raramente vi um medo tão nu. Então ele girou e fugiu.

Corvo atirou a faca. Ela ficou presa no batente. O Manco nem percebeu.

O Apanhador de Almas riu. Não era a risada dos primeiros dias, mas uma gargalhada profunda, áspera, sólida, vingativa. Ele se levantou e se virou à janela.

— Ah, alguém reivindicou nossa recompensa? Quando isso aconteceu?

Elmo mascarou sua reação indo fechar a porta.

— Jogue minha faca, Elmo — pediu Corvo.

Eu me aproximei do Apanhador de Almas e olhei para fora. A neve tinha parado de cair. A pedra estava visível. Fria, baça, recoberta com 3 centímetros de brancura.

— Eu não sei. — Torci para ter soado sincero. — Nevou bastante a noite inteira. Na última vez que olhei, antes de ele ter aparecido, não conseguia ver nada. Talvez seja melhor eu ir até lá.

— Não se dê ao trabalho. — Ele ajeitou a cadeira para que pudesse vigiar a praça. Mais tarde, depois de ter aceitado e tomado o chá que Elmo serviu, virou-se de costas para esconder o rosto e comentou: — Rasgo eliminado. Os ratos dele em pânico. E, mais doce de tudo, o Manco humilhado novamente. Não foi um mau trabalho.

— Era verdade? — indaguei. — A revolta em Olmo?

— Cada palavra — disse, numa voz brincalhona e feérica. — É de se perguntar como os rebeldes sabiam que o Manco estava fora. E como o Metamorfo foi informado dos problemas a tempo de aparecer e esmagar a revolta antes que ela desse em alguma coisa. — Outra pausa. — Sem dúvida, o Manco vai ponderar sobre essas questões enquanto estiver se recuperando. — Ele riu outra vez, mais suave e sombriamente.

Elmo e eu preparamos o café da manhã para não ficarmos desocupados. Otto geralmente cuidava das refeições, então tínhamos uma desculpa para alterar nossa rotina.

— Não há mais motivo para vocês ficarem aqui. As preces de seu Capitão foram atendidas — comentou o Apanhador de Almas, depois de algum tempo.

— Podemos ir? — perguntou Elmo.

— E por que vocês ficariam aqui?

Caolho tinha motivos. Nós o ignoramos.

— Comecem a fazer as malas após o café da manhã — decidiu Elmo.

— Vocês vão viajar com este tempo? — argumentou Caolho.

— O Capitão nos quer de volta.

Levei um prato de ovos mexidos ao Apanhador de Almas. Não sei por quê. Ele raramente comia, e quase nunca o café da manhã. Mas ele aceitou, virando-se de costas.

Olhei pela janela. A turba tinha descoberto a novidade. Alguém havia limpado a neve do rosto de Rasgo. Os olhos dele estavam abertos, parecendo vigiar. Estranho.

Homens lutavam debaixo da mesa, disputando as moedas que deixamos para trás. A multidão se remexia como vermes num cadáver pútrido.

— Alguém deveria honrá-lo — murmurei. — Ele foi um tremendo oponente.

— Você tem seus Anais — respondeu o Apanhador de Almas. — Só um conquistador se dá ao trabalho de honrar um inimigo caído.

Eu estava a caminho de meu próprio prato, então. Perguntei-me o que ele queria dizer, mas uma refeição quente era mais importante naquele momento.

Os outros estavam todos no estábulo, exceto eu e Otto. Iam buscar a carroça para o soldado ferido. Eu dei algo a ele para que aguentasse os trancos que viriam.

Eles estavam demorando bastante. Elmo queria arrumar uma cobertu-ra para proteger Otto do mau tempo. Eu jogava paciência enquanto esperava.

— Ela é muito bonita, Chagas — disse o Apanhador de Almas, do nada. — Jovem. Viçosa. Estonteante. Com um coração de aço. O Manco é um cãozinho fofo, em comparação. Reze para que ela nunca perceba que você existe.

O Apanhador de Almas fitava pela janela. Eu queria lhe fazer perguntas, mas nenhuma me ocorreu no momento. Merda. Eu realmente desperdicei uma chance ali.

Qual era a cor do cabelo dela? Dos olhos? Como ela sorria? Tudo isso significava muito para mim, quando eu não tinha como saber.

O Apanhador de Almas se levantou e vestiu o manto.

— Só pelo Manco já valeu a pena — afirmou. Parou à porta e me cravou um olhar. — Você, Elmo e Corvo. Façam um brinde a mim. Escutaram?

E então se foi.

Elmo chegou um minuto depois. Pegamos Otto e partimos de volta a Meystrikt. Meus nervos ficaram em frangalhos por um bom tempo.