A Conquista
A encantadora Zared Peregrine era o orgulho…
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
— Vinho…— sussurrou o jovem. — No alforje de minha sela há uma garrafa de vinho.
Zared apertou os dentes, seus irmãos a estavam procurando e ela estava ali, servindo de enfermeira para um Howard. A contra gosto se dirigiu para o cavalo, do alforje tirou uma pesada moringa de couro e estendeu ao ferido. Este entretanto, estava muito fraco para sentar-se sem ajuda e nem estava em condições de levar a garrafa aos lábios.
Esse era um inimigo? Esse homem assustado e fraco era um inimigo a temer?
Afastou a garrafa dos lábios e disse: — Devo ir agora, deixarei a garrafa perto e….
— Fique — disse o ferido, tomando novamente a mão. — Rogo que fique ao meu lado. Tenho medo.
Zared levantou os olhos para o céu. Estava sentada no chão e o jovem literalmente agachado junto dela.
— Morrerei, se você não ficar.
— Não, não morrerá! — balbuciou a jovem: — Deveria ter um pouco de coragem. A ferida parou de sangrar e eu preciso ir. Meus irmãos estão me procurando e é melhor que não me encontrem… aqui, claro.
— Entendo…quer dizer…em companhia de um Howard. Sabe que sou um Howard, certo?
— Sabemos muitas coisas dos Howard. São nossos inimigos.
Tearle suspirou e apoiando-se ainda mais nela disse: — Eu, certamente, não sou seu inimigo.
— É um Howard, não tem como não ser um inimigo de um Peregrine.
— Entretanto, voltou para estar ao meu lado.
— Fiz isto para evitar um posterior encontro entre nossas famílias. Se tivesse morrido, seu irmão teria assaltado meus queri…..— Dizendo assim Zared tentou se separar, mas ele não o permitiu.
— Voltou somente por esse motivo?
— E por qual outro motivo você acredita que voltei?
O jovem tomou-lhe a mão e a levou aos lábios. — Talvez saiba tudo sobre nós, mas nós não sabemos muito dos Peregrine. Não sabíamos que o menor deles era uma jovem, uma jovem deliciosa…— Roçou com os lábios o dedo da mão e depois outro. — Por acaso não voltou por causa do meu beijo, há pouco?
Antes que Zared desse conta do significado das palavras transcorreram alguns minutos, depois disso começou a rir. Sem cessar de fazê-lo, conseguiu libertar-se de seu abraço, levantou-se e inclinou a cabeça para olhá-lo.
— Acredita que um beijo é importante para mim? Acredita que um beijo de um Howard seria suficiente para me fazer esquecer que sua família matou quatro de meus irmãos? Tem de mim uma opinião muito medíocre, se pensa que posso trair a minha família por algo que um Howard possa me dar! Poderia lhe cortar a garganta neste momento, mas sua morte provocaria outra briga e não quero que isso aconteça. — Seu sorriso se transformou em cólera. — Vocês Howard são menos que nada para mim. Não demonstrei o que o seu beijo significava para mim?— E assim dizendo indicou a bandagem que cobria sua ferida.
Saiu do seu lado e olhou-o com desprezo. — Talvez eu gostasse do beijo de um homem, mas o de um ser fraco, sem espinha dorsal como você? Estou certa que Oliver Howard se envergonha de seu jovem irmão, e nesse caso tem razão.
Aproximou-se do cavalo e saltou na sela. — Deixarei o cavalo no limite do bosque, não quero que meus irmãos me vejam cavalgando um de seus animais. Não falarei da atitude de seus homens e nem da sua, que se atreveu a me tocar. Mataram por muito menos que isso.
Lançou-lhe um último olhar: —Nem sequer os Howard merecem um meio homem como você é.
Tearle deu um saltou e ficou em pé enquanto a jovem saia em seu cavalo. Mas não conseguiu alcançá-la, já tinha desaparecido entre as árvores.
Ele, Tearle Howard, um homem fraco? Na França tinha participado de torneios desde sua adolescência… ganhando sempre.
As mulheres caíam em seus braços… suspiravam por seus beijos ou algo mais, e esta moça-garoto tinha afirmado que ele não era um homem! Como se tivesse sido beijada por outro… como se fosse uma perita em beijos. Sabia dela que era perita em armas e… que sabia muito de cavalos. Devia ser uma mulher para saber julgar se um beijo era dado por um homem, ou não… deveria…
De repente interrompeu seu silencioso desabafo e começou a rir em voz baixa.
Talvez lhe parecesse muito fraco de verdade. Porém tinha sido agradável tê-la perto.
Quando a sentiu perto de seu peito pensou que certamente devia enfaixar os seios para parecer um moço.
Mas sua tentativa era inútil, porque tudo nela dizia que era uma mulher. Como acreditar no contrário?
Um moço certamente não teria retornado para assegurar-se que seu inimigo não tinha morrido.
Tearle se apoiou no tronco de uma árvore e fechou os olhos um momento. Que estranha essa moça…era toda paixão e fúria, no entanto era doce. Certamente não percebia o quanto podia agradar aos homens… era tão diferente das outras mulheres que amavam flertar e fazer promessas. A jovem Peregrine jamais seria uma coquete e nunca zombaria de ninguém, sempre diria o que pensava.
O jovem se afastou da árvore, pensando que provavelmente nunca mais a veria.
Começou a caminhar. Possivelmente encontraria os homens de seu irmão. Se havia alguém que pudesse conhecer os planos dos Peregrine, esse alguém era Oliver. Ele ficaria feliz ante a ideia de que seu irmão caçula sentisse interesse pela família Peregrine.
Zared olhou pela janela e começou a observar as pessoas que se moviam lá embaixo. Assustara seus irmãos e como castigo fora encerrada na torre, a pão e água.
Quando chegou ao castelo coxeando, Severn a repreendeu duramente, gritando por uma hora. A reação de Rogan foi pior, foi ele quem a encerrou.
Ante as recriminações de Severn, a moça se limitou a murmurar que havia desejado fazer uma cavalgada… o cavalo do irmão a desmontara e se viu obrigada a voltar a pé.
Afirmou que sentia muito ter perdido o cavalo de Severn, mas que as coisas poderiam ter sido muito piores. Somando tudo, dois dias na torre não era um castigo tão terrível. Só temia que seus irmãos não permitissem que participasse do torneio. E jurou que, se por culpa dos Howard tivesse que renunciar a essa alegria, mataria com suas próprias mãos o chorão, fraco e covarde Tearle.
Sobressaltou-se: alguém estava abrindo a porta e virando-se, viu Liana que entrava segurando uma cesta coberta com um pano. A moça conteve um sorriso: Liana, apesar de parecer superficial, era boa e sem dúvida tinha pensado que Zared havia morrido, depois de dois dias de jejum.
— Trouxe algo para comer — disse a jovem mulher, — embora não mereça, porque pôs em perigo toda a família.
— Estou envergonhada — replicou Zared, estendendo a mão para a cesta. — É muito bondade sua me trazer comida quando não mereço isso.— Dizendo isto se sentou na borda da mísera cama.
— Não podia deixá-la morrer de fome. — disse Liana, sentando-se e olhando ao redor. — Este quarto é simplesmente horrível.
Zared não achava sua prisão insuportável: é certo que havia alguns insetos e ratos, mas tudo era tolerável. Observou sua cunhada. Sabia que Liana tinha o poder de decidir enviá-la ou não ao torneio, porque Rogan escutava sua esposa e se ela dissesse que a moça poderia ir, ele consentiria.
— Acha que chegou o momento de me casar?— perguntou Zared mordendo um pedaço de carne.
Liana a olhou, estupefata: — Eu pensei, mas não acreditava que você ou seus irmãos poderiam pensar.
— Ultimamente tenho refletido — replicou Zared. — Talvez fosse bom que tivesse uma casa minha e filhos. Talvez fosse bom me afastar um pouco daqui.— Agitou a mão e prosseguiu — E dos Howard.
— Oh Zared… Nada me daria uma alegria tão grande. Se tivesse uma família sua, a vida seria muito diferente. Isso ajudaria também seus irmãos a esquecer seu ódio com os Howard, se entrasse para alguma outra família.
— Sim… neste caso, tem alguém em mente para me propor por marido?
— Não — respondeu Liana devagar. — Estamos tão isolados, aqui…nunca vemos ninguém. Mas talvez minha madrasta possa nos ajudar.
— Talvez Severn encontre alguém no torneio — disse Zared, embora o assunto a importasse muito pouco. — Ou talvez eu mesma possa procurar alguém por lá.
— Você pensa que se fosse ao torneio na qualidade de escudeiro, poderia encontrar um marido sozinha?
Zared pensou que a cunhada não só era boa, mas também inteligente e exclamou:
— Liana, eu te peço. Permita que eu vá. Nunca estive em lugar nenhum. Eu gostaria muito de conhecer pessoas que não sejam parentes ou dependentes de meus irmãos.
O rosto de Liana refletia a tortura da indecisão. — É perigoso para você. Os Howard…
— Ora!— exclamou Zared, levantando-se. — Os Howard! Esses covardes sem espinha dorsal! Não merecem, sinceramente, serem levados em consideração.
— O que sabe dos Howard para chamá-los de covardes? O que aconteceu quando se afastou montada no cavalo de Severn? Em sua calça havia sangue, mas você não estava ferida.
— Deve ter sido sangue do cavalo… provavelmente se feriu caindo — Zared respondeu depressa.
— Não estou muito segura de que essa seja a verdade.
— O que poderia ter acontecido então? Acredita que acaso fui capturada pelos Howard?— Assim dizendo, Zared riu. — Bem, segundo você, capturaram-me e logo me soltaram, seguindo os impulsos de seus ternos corações. Que ideia mais divertida!
— Eu a vi usar a adaga— disse Liana em voz baixa. — Poderia ter fugido depois da captura.
Zared atravessou o quarto, tomou um pedaço de pão e começou a comê-lo dizendo:
— Este pão é delicioso. Quando me casar, espero ser uma dona de casa pelo menos a metade do que você é. Desde que encontre um marido, ou se Severn me encontrar um. Estou segura de que o fará.
— Está bem, guarde seu segredo — disse Liana. A jovem mulher tinha vivido o suficiente com os Peregrine para saber que não revelavam nada sobre eles mesmos, a menos que fossem obrigados a fazê-lo. Suspirou resignada. — É óbvio que Severn escolherá um homem que seja capaz de lutar contra os Howard, um homem que tenha sobre seus ombros anos de experiência — Olhou a sua cunhada e prosseguiu: — Mas você necessita de mais amor do que guerra.
— Amor?— repetiu a moça em tom desdenhoso. — Tenho meus irmãos, meu Deus, não necessito de outro amor.
Liana olhou a sua graciosa cunhada. Estava certa que um dia Zared amaria um homem. Se não sabia muito dos Peregrine, sabia que eram pessoas apaixonadas, odiavam com paixão, lutavam com paixão e amavam com paixão. A moça não dava importância e não se preocupava com o homem que desposaria, mas se casasse com um homem indigno de seu respeito, merecedor de seu desprezo, Zared o odiaria a ponto de o pobre ter bons motivos para temer por sua vida.
Liana sabia que se dissesse a Rogan para não enviar Zared ao torneio, seu marido a escutaria, mas algo a detinha. Zared estaria mais segura em sua casa, mas o que aconteceria se sua paixão se transformasse em ódio? Mais ódio pelos Howard que a impediam de afastar-se de sua casa-prisão e inclusive ódio por ela, Liana.
— Permanecerá sempre ao lado de Severn? — perguntou em voz baixa, pensando se voltaria a ver sua cunhada.
— Oh, sim, sim! — exclamou Zared, iluminando-se pela alegria.
— Como desejaria poder ir também! Providenciarei alguns vestidos para você, de cor verde e azul. Seria tão bela caso se preocupasse um pouco consigo. Oh Zared, um torneio é tão belo. Conceda seu favor a um cavalheiro e ele…
— Preferiria lutar — interrompeu Zared. — Preferiria montar a cavalo, segurar uma lança e desmontar um adversário. Eu não gostaria de ficar sentada me contentando somente em olhar.
— Sim, acredito.— Liana pôs ambas as mãos sobre seu grande ventre. Faltava pouco tempo para o nascimento de seu segundo filho para que pudesse se afastar do castelo.
Possivelmente era melhor que não visse a jovem irmã de seu marido nas funções de escudeiro, preocupada em limpar os estábulos, manter limpos os cavalos e mover-se entre os duelistas para oferecer novas lanças.
A jovem mulher se levantou: — Não acredito que seja a melhor coisa que se possa fazer, mas talvez esteja suficientemente segura. É possível que seu irmão tenha razão e Oliver Howard não ouse atacá-los enquanto o rei está presente. Direi a Severn que pode contar com seu escudeiro…— Assim dizendo se dirigiu para a porta e Zared perguntou: — Liana, quando se encontrou com Oliver Howard, que aspecto ele tinha? É de verdade um grande combatente?
Liana sorriu: — Não, não é nada. É maior que seus irmãos e tende a engordar. Porém, ele não precisa combater, porque é muito rico e pode contratar quantos homens desejar.
— E seu irmão?
— Irmão? Nunca ouvi falar de um irmão. Temo não conhecer os Howard como sua família conhece. O que sabe deste irmão?
— Nada, nada. Só que…— Olhou Liana e prosseguiu: — Vi muito pouco do mundo e conheço somente meus irmãos.
Sorriu orgulhosa: — São fortes, belos e ninguém pode vencê-los em batalhas. São homens muito incomuns? Ou existem muitos homens como eles?
Liana refletiu um instante antes de responder: — Não acredito que existam muitos homens como seus irmãos. Zared, deve saber que em um homem, não é importante que seus braços sejam fortes, apenas. Não se escolhe um marido só por sua força física. Existem qualidades como a inteligência, a generosidade e o que mais importa é que ame sua esposa e seus filhos.
— E proteja a sua família dos inimigos.
— Sim, também isto é importante, mas….— Liana não sabia explicar àquela jovem que existia um modo de viver diferente do que tinha conhecido. Até aquele momento Zared tinha vivido em uma guerra privada contra outra família. Para protegê-la, tinham-na criado como um moço. Não sabia o que significava sentar-se ao sol ao lado de um belo jovem tocando o alaúde e cantando para sua companheira. Nenhum homem nunca beijara sua mão, dizendo que a luz do sol fazia brilhar seus cabelos. Zared nunca compartilhou sorrisinhos com as amigas, não flertou e nem fez o que normalmente todas as jovens faziam. Ela era perita em espadas e cavalos, era capaz de cantar canções pitorescas em coro com os homens. Mas não sabia distinguir o cetim do brocado ou o arminho do vison. E o que era pior, sem contar os seus irmãos, não conhecia nenhum homem.
— Não encontrará um marido que se pareça com seus irmãos, — disse-lhe com voz doce.
— Nesse caso nunca me casarei— replicou Zared com a segurança da juventude.— Permanecerei virgem até o fim de meus dias.
Essas palavras fizeram Liana rir e o menino que levava se moveu bruscamente: permanecer virgem, um Peregrine? Não estava mau como brincadeira. A jovem sabia, muito melhor do que Severn e Rogan, que o dia que descobrisse seus impulsos sexuais, seria impossível detê-la. Se Severn não a vigiasse no torneio, e se encontrasse um homem atraente capaz de chamar sua atenção…
Preferia não pensar nas possíveis consequências; se um homem ousasse tocar sua irmãzinha, os dois irmãos Peregrine o matariam, quem quer que ele fosse.
— Estou convencida de que estou cometendo um engano, deixando-a ir ao torneio.
— Tudo correrá bem, — replicou Zared. — Obedecerei Severn, permanecerei ao seu lado e não me meterei em nenhuma confusão. Eu juro, Liana. Tem minha palavra de Peregrine.
A jovem mulher sorriu e suspirou ao mesmo tempo. — Os Peregrine nasceram para meter-se em confusões. Estou certa que tanto você como seu irmão provocarão uma das suas. Jure-me que Severn não matará ninguém e que não voltará para casa esperando um filho.
Zared abriu a boca. — Um filho?
— Jure-me isso ou de outra maneira não a deixarei partir.
Zared fez uma careta. Sua cunhada não entendia nada. Severn ia em busca de esposa, não para matar alguém. Quanto a ela, conheceria lugares novos. Além disso, as pessoas pensavam que ela era um rapaz, por isso nenhum homem pensaria em engravidá-la. Por um momento pensou no jovem Howard e no beijo que lhe dera. Ele havia percebido que era uma mulher, mas provavelmente isso tinha acontecido porque ele mesmo era como metade mulher, que desmaiava com um pequeno corte!
— Eu juro — disse para a cunhada.
— Muito bem. Esta noite trate de dormir bem, porque amanhã partirá com seu irmão.
Zared sorriu, feliz. — Sim, certo e obrigado Liana, muito obrigado. Honrarei o nome dos Peregrine.
— Não diga isso, ou pensarei que quer dizer que pretende voltar para casa com uma dúzia de cabeças trespassadas nas lanças. Boa noite, Zared. Rezarei todo dia por você— E com estas palavras Liana se foi, fechando a porta as suas costas.
Zared permaneceu imóvel uns instantes e logo saltou de alegria, tocando com as mãos o teto do quarto. Tinha a clara sensação que no dia seguinte sua vida mudaria.
Capítulo Três
Durante dois dias inteiros Tearle escutou Oliver, que continuava falando dos Peregrine. A maior parte do que dizia o jovem já conhecia, entretanto, fingia escutar com interesse. De qualquer maneira soube que a garota por ele libertada se chamava Zared e que segundo Oliver, esse “moço” nunca estaria à altura de seus irmãos.
Na tarde do segundo dia Oliver foi informado do fato que Severn Peregrine participaria do torneio dos Marshall, e que queria a mão de Lady Anne.
A notícia o tinha alegrado: — Eu o farei prisioneiro lá.
— Na presença do rei?— perguntou Tearle com um bocejo. — Não acredito que o pai de Anne apreciaria muito uma coisa similar em suas terras.
— Anne, você disse?— perguntou Oliver, curioso. — Conhece essa mulher?
— Só de vista. Viveu na França por certo período.
— Então, você também irá ao torneio?
— Para espiar de que maneira fazem a corte?
— Claro — Os olhos de Oliver brilhavam. Observará e me informará a respeito deles.
— Eles?— Tearle sobressaltou-se. — Quem irá ao torneio, além do irmão de Rogan?
— O moço que será seu escudeiro, — riu Oliver. —Severn não pode se permitir um verdadeiro escudeiro, por isso se fez acompanhar do mais jovem da família. Certamente farão um papelão: são sujos, toscos e os Marshall são pessoas muito refinadas. Como eu gostaria de assistir a humilhação dos Peregrine!
— Irei— disse Tearle.
Oliver sorriu: — Lutará com ele. Como queria assistir essa cena! Um Howard desmontando um Peregrine. O rei e o mundo inteiro verão que um Howard…
— Não lutarei com ele— Tearle o interrompeu. Sabia que caso se apresentasse como um Howard, nunca teria a ocasião de entreter-se com a mais jovem dos Peregrine, então decidiu que se apresentaria com nome falso. Antes que Oliver pudesse replicar e conhecendo a obsessão do irmão, prosseguiu: — Eu os vigiarei, é claro. Na Inglaterra ninguém sabe de minha volta e por isso me apresentarei sob o nome de Smith, assim poderei vigiar melhor os Peregrine.
Oliver olhou o jovem e sua expressão mudou.
— Não estava certo que compreendesse — disse — Mas sabia que o bom sangue não mente.
Tearle devolveu o olhar com um sorriso. Não estava arrependido por enganar seu irmão, seu ódio pelos Peregrine não merecia nenhum respeito. E prometeu protegê-los, procurar uma maneira para que nada de mau lhes acontecesse, que ninguém fizesse brincadeiras como atirar pedras nos telhados, ou cortar as correias das montarias.
Encontraria um modo de protegê-los do ódio dos Howard.
— Não tem por que duvidar de mim— disse — Eu nunca mudei.
Oliver ficou carrancudo, mas sorriu. — Já o vi. Sempre foi digno do nome dos Howard. Quando partirá?
— Agora —respondeu Tearle, levantando-se. Não queria continuar escutando mais frases venenosas de Oliver, mas sobretudo tinha pressa para encontrar Anne Marshall.
Quando disse ao irmão que apenas a conhecia, havia mentido. Na realidade a conhecia há muito tempo: a teve em seus joelhos quando somente era uma menina, secou suas lágrimas quando estava triste, contou-lhe histórias de fantasmas antes de dormir, recebendo as recriminações de sua mãe porque a menina despertava gritando a noite.
Anne, quando cresceu, havia confortado Tearle, no momento em que perdeu sua mãe.
Pensava que caso fosse se apresentar no torneio com falso nome, antes teria que encontrar Anne para informá-la de seu plano.
Sentado na muralha do jardim, Tearle observava Anne e suas damas passearem.
Uma das damas, segundo o costume, lia em alta voz. Tearle muitas vezes zombou de sua amiga por sua paixão pela cultura: estava sempre imersa em livros.
Apoiou-se em um dos ramos da velha macieira e sorriu. As damas com seus vestidos coloridos e seus penteados adornados de joias e véus, ofereciam uma visão muito agradável, mas Anne destacava-se entre todas: era uma bela entre as belas. Pequena de estatura, por vaidade sempre se rodeava de mulheres mais altas. Parecia uma joia preciosa e as mulheres que a dominavam com sua estatura, pareciam o engaste dessa joia.
Estava certo de que se aproximasse do muro, Anne teria dado conta de sua presença. Suas companheiras provavelmente não teriam levantado o olhar, mas a ela nada escapava: era tão inteligente quanto bela, além disso sua língua era afiada como uma espada. Várias vezes ele manteve discussões com ela e nunca saía vitorioso.
Quando a jovem o viu demonstrou surpresa, mas somente por um momento. Estava surpresa, mas não assustada, porque os homens não a assustavam. Tearle sorriu e ela desviou o olhar para outro lado.
Pouco depois se despediu de suas damas, encarregando-as de várias tarefas e virando-se para muro, olhou para cima.
Tearle com um salto ficou ao seu lado, tomou a frágil mão entre as suas e a beijou, dizendo: — A lua comparada a você não é bela; quando você passa as flores se escondem, envergonhadas, e as mariposas escondem suas asas; os pavões reais não se atrevem mostrar-se; as pedras preciosas cessam de brilhar, e o ouro…
— O que você quer Tearle?— perguntou Anne retirando sua mão.—O que é que o induz a esconder-se no jardim de meu pai? Talvez esteja apaixonado por alguma de minhas damas?
—Fere-me — replicou ele, levando a mão à altura do coração e assim fazendo sentou-se em um banco de pedra e sorriu. — Vim somente para vê-la; perdoarei suas acusações se sentar-se em meus joelhos, como fazia faz há algum tempo.
A severidade desapareceu dos olhos de Anne que sorriu: — Esqueci que é um ótimo orador. Não sabe que aqui na Inglaterra as pessoas são um pouco…obtusas?
— Muito obtusas. Meu irmão, por exemplo, é…— Interrompeu-se.
— Sei de tudo. Minha irmã me contou todas as intrigas locais. Ao que tudo indica, sua família está em luta com outra.
— Sim, os Peregrine.
— Ouvi falar deles— disse Anne. — Minha irmã estava presente no casamento do mais velho deles com Lady Liana — Estremeceu ligeiramente.
— Não são tão maus…— Tearle estava a ponto de falar de Zared à sua amiga, mas calou-se. Não queria revelar a ninguém o fato que ela era uma mulher. Se o povo não estava em condições de descobri-lo, não merecia ser informado. Em vez disso, disse: — O segundo irmão participará do torneio e pretende pedir sua mão.
Anne o olhou, surpreendida: — Pedir minha mão? Um Peregrine? Como suas famílias são inimigas você deveria conhecê-los bem. São toscos e ignorantes. O irmão mais velho nem sequer assistiu a festa organizada para seu matrimônio, estava mais ocupado em contar o dinheiro que sua esposa havia trazido como dote. A madrasta de Liana se zangou tanto ao ponto de voltar para casa com sua filha, mas ele pegou a sua esposa e a levou ao andar de cima onde …onde…—Interrompeu e olhou para o outro lado. — É mais animal que homem.
— É o que me disseram — replicou Tearle. — Mas os vi lutar. O que fará aqui, se destacará durante o torneio.
— Você também pode ganhar?
Tearle sorriu. — Eu não participarei dos duelos. Preciso lhe pedir um favor.
— Ah, então não veio somente para ver as flores inclinarem suas cabeças por causa de minha beleza?
— Isto, naturalmente, é o primeiro motivo pelo qual estou aqui. - Tomou sua mão, mas a jovem a retirou.
— Acreditaria em seus galanteios se já não os tivesse ouvido quando tinha oito anos. Sinceramente, Tearle, é muito superficial. Necessita de uma mulher que seja capaz de resistir a suas frases galantes.
— Uma mulher como você? Poderia ser feliz se consentisse em casar-se comigo.
— Casarei com um homem que use o cérebro e não as armas. Um homem com o qual possa falar. Se falar somente sobre diferentes tipos de armaduras e lanças, eu dormiria.
Tearle sorriu com doçura. Se ela falava assim, Anne não o conhecia absolutamente.
—Se fosse seu marido, juro que não dormiria. E lhe daria bons motivos para fazer outras coisas, em vez de falar.
— Estou cansada de seus galanteios. Agora diga o que quer de mim.
— Desejo ajudar os Peregrine e não quero que saibam que sou um Howard. Portanto fingirei me chamar Smith.
Anne o olhou, severamente. Seus olhos escuros como seus cabelos, podiam queimar uma pessoa se decidisse fazê-lo.
— Está pedindo para pôr em perigo um homem que será hóspede na casa de meu pai?— Levantou-se, fitando-o. — Nunca teria esperado algo semelhante de sua parte.
Estava afastando-se, mas Tearle a deteve. — Disse que desejo ajudar os Peregrine, esta é a verdade. - Não falou mais nada e a olhou nos olhos, esperando ser acreditado.
— Porque — perguntou à jovem, — Por que quer ajudar aquela gente tão vulgar? Que afirmam que suas terras lhes pertencem? Quer me fazer acreditar que quer ajudar pessoas que estão decididas a empobrecê-lo?
— É difícil acreditar, mas é assim. Não conheço sequer os dois irmãos. Vi-os somente de longe, mas não os odeio como meu irmão. Só quero…— Não podia dizer mais, nem encontrar mais desculpa aceitáveis, a menos que contasse sobre Zared .
— Nesta história está envolvida uma mulher— afirmou Anne.
Tearle estremeceu, pensando que sua amiga era verdadeiramente muito inteligente. — Uma mulher? Porque nesta história deveria estar envolvida uma mulher, segundo você? Ao torneio virão dois dos irmãos: o primeiro para participar dos duelos e o segundo na qualidade de escudeiro. Meu irmão odeia estes Peregrine e estou cansado de escutar falar desse ódio. Meu amor pelo próximo me leva a tratar de pôr ponto final a esta guerra e voltar a encontrar a paz entre as duas famílias.
— Como se chama a moça?
Tearle entrecerrou os olhos— Retiro minha proposta de matrimônio. Conheço-a desde que nasceu e você duvida de minhas boas intenções. Desonra a mim e a minha família.
Anne sorriu com o aspecto de alguém a quem nada escapa — Está apaixonado por ela como estava pela jovem esposa daquele conde?
— Tratava-se de uma história bem distinta. Era uma mulher casada com um moço. Mas como eu disse, neste caso não tem nada a ver com uma mulher. — Tearle esperava logo poder contar cada detalhe para sua amiga, mas prosseguiu— Estou ofendido e diria que não me estima muito.
— De acordo — disse Anne. — Ganhou. Saberei guardar seu segredo, mas prometo que se você tiver intenções de enganar esse Peregrine, eu o delatarei.
Tearle não replicou porque não era possível nenhuma réplica. Não sabia qual era seu interesse por essa jovem que se vestia de homem, e que pertencia a uma família que há muitos anos estava em guerra com a sua; muitos de seus membros tinham sido assassinados pelos irmãos dela. De fato, deveria odiá-la, deveria sentir-se contente quando os homens de Oliver a tinham capturado.
Mas assim não foi e mais tarde, quando ela enfaixou sua ferida, desejou segurá-la.
Olhou Anne e sorriu pensando que talvez houvesse reagido desse modo só porque Zared era uma mulher. Havia possuído muitas mulheres que se vestiam de forma elegante; talvez inconscientemente havia pensado que seria agradável deitar com uma mulher que de manhã trocaria a roupa com a dele.
— Não há nada que revelar — disse a amiga. — Só quero ajudar as pessoas infelizes, incompreendidas.
Anne lançou um olhar malicioso. — Faça o que quiser, mas mantenha os Peregrine longe de mim. Não penso cometer a mesma tolice que Lady Liana. E agora vá, antes que alguém o veja e corra para contar ao meu pai.
Tearle olhou preocupado em direção à casa dos Marshall. — Obrigado — disse beijando-lhe a mão depressa e pouco depois deixou o jardim saltando para o lado oposto do muro.
Sozinha, Anne se sentou no banco sorrindo para si. Era agradável estar perto de alguém que sabia rir, que sabia levar a vida com leveza, como faziam as pessoas que tinha conhecido na França.
A mãe de Anne levara suas filhas para aquele país, que era o seu, quando Anne tinha cinco anos e sua irmã Catherine tinha seis, e as meninas haviam crescido com seus parentes, rodeadas de risada, cultura e beleza. Nessa casa eram livres para dizer o que queriam, estimuladas a usar seu espírito e sua inteligência. Tinham sido admiradas por sua beleza, pelo modo como sabiam jogar cartas, montar a cavalo e ler em voz alta.
Relembrando o passado, Anne se dava conta de não ter apreciado o suficiente esses anos de liberdade e felicidade, que agora pareciam longínquos.
Quando Catherine completara dezessete anos e Anne dezesseis, Hugo Marshall tinha pedido a sua esposa para retornar a Inglaterra com as filhas, dizendo que era hora de lhes encontrar um marido. Nem Anne, nem Catherine lembravam de seu pai, não o temiam e se prepararam com alegria para a viagem de volta à pátria, murmurando excitadas conversas a propósito de seus eventuais maridos.
Mas ante aquele pedido de Hugh, a saúde de sua esposa começou a definhar. Em pouco tempo seu rosto perdeu seu esplendor e o cabelo embranqueceu. No começo, as duas moças, muito imbuídas pelas mudanças que experimentavam em sua vida, não se deram conta da deterioração da mãe, mas quando subiram a bordo do navio que as levaria de volta à Inglaterra, notaram que sua mãe tinha emagrecido e envelhecido.
Para conhecer as causas deste estado de ânimo e das condições físicas, bastou às moças duas semanas de vida sob o teto paterno. Hugo Marshall era um homem sem sentimentos, sem nenhuma educação, que administrava suas riquezas com o terror e a força bruta; tratava de aplicar esse método também a sua mulher e as suas duas filhas.
Desde sua volta a Inglaterra, não estava rodeada de risadas e é obvio que ninguém tinha apreciado sua beleza. Hugo Marshall não fazia nada para esconder sua desilusão sobre o modo que a mãe criara às duas jovens.
— Só foi capaz de me dar filhas!— reprovava a sua mulher que continuava a definhar — e além disso, encheu suas cabeças de tolices, com todas essas leituras. Ambas procuram me contrariar, me desafiar!
Quando Catherine havia dito que não aprovava o homem que ele escolheu para ela como marido, esbofeteou-a e prendeu-a em seu quarto por duas semanas. Ao final, a pobrezinha, chorando amargamente, concordara em se casar com o odioso ancião. O homem escolhido por seu pai era rico, mas desejava mais riquezas, sobretudo ansiava pelo poder: tinha sonhos de grandeza, esperava sentar-se à direita do rei. Casar-se com a filha de um conde, que era parente distante do rei, faria com que fosse recebido na corte.
Seis meses depois de voltar à Inglaterra, a mãe das moças morreu. Hugo Marshall não manifestou a mínima dor por essa perda, dizendo que na realidade, essa senhora nunca tinha sido uma verdadeira esposa para ele, e que só tinha sido capaz de dar à luz a duas inúteis mulheres. Quando soube que não poderia lhe dar mais filhos, permitira que voltasse para a França, considerando-a como um objeto inútil. Imediatamente após sua morte, começou a fazer projetos para voltar a casar-se, para unir-se a outra mulher capaz de lhe dar pelo menos uma meia dúzia de filhos varões.
Anne, de pé diante da tumba de sua mãe, sentira nascer dentro de si um profundo ódio por seu pai, por ser ele o causador da morte dela.
Depois do funeral e do noivado de Catherine, Anne declarou guerra ao pai. Posto que, em certo aspecto, não dava muita importância ao que pudesse lhe acontecer, ousava desafiá-lo manifestando abertamente suas ideias.
Sabia que seu pai a teria usado como uma moeda no jogo de sua própria vida, assim como utilizou Catherine, mas esperava obter algo mais do que sua irmã. Usou todos seus conhecimentos, fazia uso de toda sua sabedoria para convencer o pai a realizar um torneio por ocasião do matrimônio da irmã. Pensava escolher um marido durante o torneio.
Porque não permitiria que seu pai a desse em matrimônio a um homem que ela não escolhesse, como estava fazendo com Catherine.
Olhou para a casa paterna e fechou os olhos. Desde aquele momento entre ela e seu pai, declarou-se uma guerra aberta e toda sua vida dependia do modo como iria lutar.
Se Hugo Marshall queria dá-la por esposa a um homem semelhante a ele, passaria o resto de seus dias de maneira mais triste do que viveu depois de voltar da França.
No torneio veria o que a Inglaterra tinha para oferecer e talvez conhecesse um homem que gostasse dela, como também seu pai.
Quando ouviu que suas damas estavam de volta, virou-se e nesse momento recordou a visita de Tearle. Estava contente que o jovem não participasse do torneio: seu pai teria gostado do jovem. Era o segundo na linha de sucessão de seu irmão duque e sua família era riquíssima.
Mas Anne não desejava casar-se com Tearle. Era jovem, atraente, rico e adequado, mas era superficial com respeito a ela e um pouco frouxo. Se tivessem se casado, provavelmente dentro de um ano teriam se destroçado reciprocamente.
— Milady...é possível que tenha recebido más notícias?
Anne olhou sua acompanhante — Não, não soube nada que já não soubesse. Preciso caminhar para esclarecer minhas ideias.
Zared de longe, observava os homens de seu irmão que tentavam empurrar o carro fora do barro. Viajavam desde o dia anterior e estavam a poucas horas do final. A moça muito inquieta, foi incapaz de dormir e não deixou de atormentar Severn com centenas de perguntas.
Em qualquer outra ocasião Severn a teria ameaçado para que ficasse quieta, mas aparentemente, ele tampouco conseguia fechar os olhos. Em dado momento, Zared pensou que ele estava preocupado, mas sabia que não podia ser assim. Acaso ele não havia participado de outros torneios?
— Você sempre ganha?
— Ganho...o que?
— Nos torneios que participa. Ganhou todos os prêmios?
Severn observou o rosto ansioso de sua irmã refletido pela lua. Nunca em sua vida havia participado de nenhum torneio.
Passou sua adolescência lutando contra a família rival.
— Claro que não — respondeu e viu que no rosto dela refletia a desilusão. — Rogan ganhou alguns.
Zared sorriu: — Devem ser esplêndidos esses cavalheiros com suas armaduras…sim devem ser maravilhosos.
— Não exagere— advertiu Severn. E depois, baixando a voz:— Como posso te proteger e impedir que outros descubram que é uma mulher, se olhar com olhos lânguidos para cada cavalheiro?
— Não sou uma boba — ela murmurou. — Não olharia jamais …
— E o que me diz de Ralph?— interrompeu-a Severn em tom de brincadeira. — O pobrezinho acreditava estar a ponto de desejar o meu irmão .
— Desejar-me? Tem certeza? O que ele disse?— Ante a risada do irmão, parou e logo prosseguiu com altivez: — Seu desejo não me interessa. Esse jovem não representa nada para mim.
— Ehm…ehm.— replicou Severn. — No caso do torneio, sua conduta deverá ser irrepreensível, para não desonrar o nome dos Peregrine.
— Pense em honrar nosso nome na arena, que eu farei minha parte — exclamou um pouco ofendida ante a ideia de seu irmão a considerar capaz de desonrar o nome da família, mas logo relaxou. — Descreva-me um torneio. Muitas pessoas assistem? Liana me disse que todos vestem trajes estupendos, que inclusive cobrem os cavalos com ricos drapeados. Talvez devêssemos ter trazido as coisas que ela havia preparado.
— Ora!— disse Severn. Quando Liana lhe mostrou um manto bordado de brocados que deveria cobrir seu cavalo, rira na cara dela. Que importância tinha o vestuário de um homem quando lutava? O que importava era ganhar e não impressionar o seu adversário.
— Quero que os assistentes vejam a mim e não o meu cavalo — ele rebatera sua cunhada e se afastara. Não permitiria que uma mulher lhe dissesse como deveria vestir-se e, nem tampouco deixar Liana saber que não tinha a mínima ideia do que um cavalheiro vestia em um torneio.
— Os homens que não sabem lutar se veem obrigados a adornar seus cavalos— afirmou em tom decidido. — Eu não necessito de um manto dourado para ser um homem — Respirou profundamente, expandindo o tórax: — Sei por experiência que, quanto melhor é o combatente, menos deve vestir-se como um pavão para impressionar os outros.
Zared refletiu um momento. Estava certa que seu irmão tinha razão (tanto ele como Rogan pareciam ter razão na maioria das coisas), mas ainda tinha alguma dúvida.
— Se os cavalos dos outros cavalheiros estão enfeitados, os cavalos dos Peregrine não parecerão muito ruins?
A ideia também passara pela mente de Severn e durante a viagem, perguntou-se mais de uma vez se não teria se equivocado repelindo a oferta de sua cunhada. O elmo com plumas ou a túnica de veludo negro cairiam bem. Mas não, ele era um lutador, não um ator de Londres.
— Os Peregrine se destacarão como uma fatia de porco sobre uma mesa coberta de pasteizinhos…— Ao pronunciar estas palavras sorriu, porque gostou da imagem. — verá que as pessoas se lembrarão de nós.
Zared sorriu na escuridão. — Para nós é suficiente sermos lembrados por Hugo Marshall, de modo que dê como prêmio sua rica filha. Acredita que sua esposa se comportará igual à de Rogan?— Seu tom traía a esperança porque amava Liana e, em particular, gostava do modo como nos dois anos, ela havia transformado o horrível e velho castelo de Moray.
Ante suas palavras Severn fez uma careta. Pessoalmente não estava satisfeito pelo modo como Liana tinha transformado seu irmão. Não gostou do modo como o matrimônio adoçou seu irmão mais velho. Antes de casar-se tinha sido um homem de fogo, sempre preparado para lutar, agora pregava a prudência. Em vez de lutar, preferia sentar-se ao lado de sua esposa e escutar o canto das damas. Agora achava os primeiros passos de seu filho mais agradáveis que os exercícios com as armas. Severn estava certo que um dia ou outro, os Howard os atacariam e assassinariam todos, enquanto Rogan estivesse no quarto de sua esposa.
— Minha esposa não será como a de Rogan!— balbuciou. — E agora me deixe dormir e não me aborreça mais com suas perguntas. Saberá o que é um torneio quando assistir.
Zared não perguntou mais nada, mas passou muito tempo antes que adormecesse.
No dia seguinte permaneceu observando os homens que se aproximavam para tirar as rodas da lama. Viajavam com quatro cavalheiros, quatro servidores e dois grandes carros cheios de armaduras e armas. Também havia algumas tendas. Ao pé das árvores pastavam os preciosos cavalos de Severn, atrás dos de seus cavalheiros.
Fazia uma hora que os homens estavam trabalhando e Zared os olhava impaciente.
Encontravam-se a pouca distância da propriedade dos Marshall; estava ansiosa para chegar ao local e montar as tendas no acampamento. Durante os três dias de torneio, a alimentação seria proporcionada por Hugo Marshall. De manhã aconteceria o desfile, todos os cavalheiros desfilariam diante da tribuna, montados em seus esplêndidos cavalos para saudar Hugo Marshall e suas filhas.