A Conquista
A encantadora Zared Peregrine era o orgulho…
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
Zared se perguntava que aspecto teria Lady Anne e se combinaria com Rogan e sua esposa. Não pensava que Severn pudesse não obter a mão da dama… estava convencida que o irmão sempre obtinha o que desejava.
Foi a primeira a ouvir o cavalo que se aproximava. Sabendo o que tinha que fazer, emitiu um baixo e penetrante assobio em direção a Severn, correu para a arvore mais próxima e segurando um ramo mais baixo, içou-se.
Não gostava muito do fato que seus irmãos a obrigassem a esconder-se ante o mínimo sinal de perigo, mas depois de seu recente encontro com a família inimiga, não pensava em desobedecer.
Quando o cavalo se aproximou, já próxima da árvore, viu que montada no cavalo havia uma dama que não estava em condições de dominar o animal. A moça quis deixar seu esconderijo, mas não se atreveu por temer seu irmão.
Olhou através dos ramos e viu Severn e seus homens com as espadas prontas para lutar.
Severn estava coberto de barro da cabeça aos pés, mas Zared percebeu a maneira como olhava a amazona que se aproximava cada vez mais. Esse olhar só podia significar que a mulher devia ser formosa. Levantou os olhos ao céu, pensando que provavelmente deveria ficar escondida durante a tarde toda, esperando que seu irmão parasse de admirar a desconhecida.
Por sua vez, Severn se lançou sobre o cavalo e lhe tirou as rédeas.
— Quer matar-se!
A voz que vinha de baixo assustou Zared de tal modo que esteve a ponto de cair.
Olhou em sua direção e viu três damas e dois cavalheiros vestidos de forma muito elegante. Estava tão preocupada em olhar Severn que não os tinha ouvido e nem os vistos chegar.
— O que importa?— perguntou um dos cavalheiros. — É somente um camponês.
Seu companheiro replicou: — Sua morte importará, pelo contrário...se o vestido de minha dama se manchar de sangue — Todos riram.
Sem refletir, Zared extraiu a arma que tinha escondida na bota e se preparou para saltar. No entanto, pensou e permaneceu imóvel onde estava, olhando para baixo, tentando ver os rostos dos desconhecidos.
— Oh, olhem — disse uma das damas — Esse homem conseguiu tomar as rédeas do cavalo. É valente para ser um camponês. Acreditam que Lady Anne o recompensará?
Através das folhas, Zared observou a mulher a cavalo, mas esta lhe dava as costas e não pôde ver seu rosto. O rosto de Severn no entanto, refletia a mesma tola expressão de minutos antes.
— Obrigado— disse Lady Anne.
— Foi um prazer salvar um pescoço tão belo…— replicou o jovem.
— Que insolência!— exclamou o homem ao pé da árvore. — Ensinarei…
— Não me parece o tipo que suportaria as chicotadas— interrompeu-o o segundo cavalheiro — e notou os quatro bufões que farejam entre as árvores?
— Bufões! - Pensou Zared. Gostaria que esse mequetrefe se encontrasse com Severn no torneio no dia seguinte...perceberiam que não era um camponês!
— Amanhã no torneio, apresente-se a mim — disse Lady Anne. — Eu o recompensarei.
— Certamente o farei e terei minha recompensa— replicou Severn, com os olhos brilhando.
A dama se afastou e Severn se virou para olhar seus homens.
Enquanto isso Lady Anne, chegando perto de seus companheiros, disse: — Deixaram-me sem defesa, à mercê desse…disso…
— Parecia muito interessado em você, Milady .
— Acredito que a teria tocado, se tivesse demonstrado mais interesse...farei com que limpem as rédeas onde colocou suas mãos…
— Mas… salvou-a, Milady— disse uma das damas em voz baixa.
— Sei — admitiu a jovem. — E agora deverei recompensá-lo. O que lhe darei?
— Um banho, talvez?— perguntou um dos cavalheiros, rindo.
Lady Anne não riu, mas replicou: — Talvez John, devesse pedir a você que o lave. Parece mais adequado para trabalhos femininos do que masculinos, pois não foi capaz de ajudar uma dama que corria o risco de ser desmontada e morrer…— Assim dizendo esporeou o cavalo e se afastou.
Zared permaneceu na árvore e observou longamente o grupo. Então, essa era Lady Anne, a mulher que chegaria a ser sua cunhada. Não parecia uma pessoa que faria mais fácil a vida dos Peregrine, como Liana tinha feito. Não, na realidade essa mulher parecia ter um péssimo caráter.
— Então, não me ouve?
Sobressaltada, Zared olhou para baixo e viu seu irmão que ria.
— Chamei-a, mas estava sentada imóvel e não me ouviu.
Assim dizendo o jovem se virou e Zared começou a descer da árvore.
— Viu-a?— É esplêndida…é bela como uma rosa.
— As rosas têm espinhos — disse Zared saltando ao seu lado.
— O que quer dizer?
— Estava fazendo uma constatação. Disse que é como uma rosa e repliquei que as rosas têm espinhos. Talvez essa mulher não seja somente bela.
— E conhece muito bem as mulheres e a vida?— perguntou Severn em tom irônico.
— Mais do que você, parece.
O homem esteve aponto de zangar-se, mas logo sorriu: — Eu a perdoo porque é jovem. Vamos, nos ajude, devemos pensar em acampar.
— Acampar? Mas esta noite devemos nos encontrar na zona do torneio e amanhã nos apresentaremos no desfile.
— Faremos como está previsto, mas não quero que Lady Anne me veja imediatamente. Surpreender-se-á quando se der conta que sou seu salvador.
— Então, espero que as rédeas de seus cavalos tenham sido limpas, — murmurou Zared; e em voz alta perguntou: — Talvez não fique muito contente ao vê-lo, ou pelo menos não tão contente como pensa.
Severn pôs suas mãos sobre os ombros da irmã e a olhou com expressão séria. — Não viu seu rosto e nem o modo como me olhou…— riu ligeiramente— Há certas coisas que um homem e uma mulher trocam: um olhar , um gesto... coisas que você não conhece, mas eu que tenho um pouco de experiência, conheço. Essa mulher…bem, como posso dizer? Essa mulher me quer.
— Para fazer o quê? Para que cuide de seus cavalos? Se enxergue… nem sequer pôde ver seu rosto porque está coberto de lodo. Nem te reconhecerá, quando estiver limpo.
Severn mudou de expressão: — Não fale de coisas que não entende. Sei o que li no rosto dessa mulher… era desejo. E agora se mova e nos ajude como já disse que fizesse.
Zared obedeceu, pensando que talvez seu irmão tivesse razão.
Talvez Lady Anne tenha realmente o olhado com desejo e dito aquelas palavras a seus companheiros para fazê-los acreditar que achou antipático o homem coberto de lodo. Sacudiu os ombros. Estava certa que Severn, a propósito de damas, torneios e desejos, sabia mais do que ela.
Capítulo Quatro Zared montava seu cavalo com as costas rígidas, sabendo que de outra forma explodiria em lágrimas. Diante dela, sobre seu cavalo de batalha estava Severn, sob o peso de sua armadura, e ela não podia imaginar o que pensava ou quais eram suas emoções. Ao redor deles, os homens que os acompanhavam estavam silenciosos, mas fora do grupo a multidão ria trocando frases de escárnio.
Zared nessa manhã cavalgara orgulhosa ao lado de seu irmão, orgulhosa de levar o estandarte dos Peregrine, pararam a pouca distância da propriedade dos Marshall e do campo preparado para o torneio.
Na frente deles vinham fileiras de cavalheiros que vestiam armaduras ricamente adornadas, brilhantes ao sol, e usavam elmos adornados com plumas.
Zared os observou admirada e logo olhou o grupo dos Peregrine. A armadura de seu irmão estava embolorada e amassada, seu cavalo não estava coberto por mantos, só levava a sela. As armaduras de seus homens estavam em condições ainda piores e ela vestia uma túnica rasgada em diferentes pontos e coberta de manchas.
— Não podemos desfilar no cortejo — sussurrou ao irmão.
Este levantou a viseira de seu elmo: — Não é o belo vestuário o que faz de um homem um bom combatente. É uma Peregrine, lembre-se— E assim dizendo, baixou de novo a viseira e virou a cabeça.
Sim, sou uma Peregrine, pensou a jovem e endireitou ainda mais as costas. Severn abateria a todos esses cavalheiros, que importância poderia ter as vestimentas?
Severn levantou a mão e seus homens, reunidos ao seu redor, dirigiram-se ao terreno destinado ao torneio. Pelo caminho, camponeses que percorreram muitas milhas para assistirem ao espetáculo, admiravam imóveis os cavalheiros suntuosamente adornados, mas quando viram os Peregrine começaram a rir. — Que me importa? Pensou Zared. O que contava era o iminente êxito.
Ao entrar no terreno destinado ao torneio, todos os participantes pararam e um arauto dos Marshall gritou o nome do primeiro participante para que se apresentasse a família Marshall e ao rei.
Zared tinha pensado que o cortejo se reduzia a um desfile diante da tribuna, mas o que viu lhe fez ficar com a boca aberta: estava tão surpreendida como os camponeses presentes.
O primeiro cavalheiro a entrar no campo era um homem chamado Grenville. Vestia uma túnica de veludo negro e uma armadura dourada, estava rodeado de seis jovens pajens também vestidos de negro e ouro. Diante deles desfilavam quatro trompetistas, anunciando a chegada de Granville e atrás destes últimos, caminhavam quinze formosas jovens vestidas de amarelo, que pulverizavam sobre a terra pétalas de rosas.
— Os cavalos pisarão nas rosas— riu Severn e Zared o imitou. Procurava a maneira de sentir-se superior, mas quando olhou ao redor e viu que também os mercadores estavam mais bem vestidos que os Peregrine, preferiu que não tivessem permitido que assistisse o espetáculo de armas.
Enquanto o cortejo continuava a avançar, percebeu que o grupo de Granville era um dos mais modestos. Outros cavalheiros estavam precedidos por um número determinado de músicos e outros por verdadeiras orquestras. Viu uma carruagem puxada por seis esplêndidos cavalos negros; sobre o carro havia um homem vestido como São Jorge lutando contra os dragões.
A cada figura que passava, Zared se sentia cada vez mais inquieta. Talvez, ela pensou, se fechasse os olhos e expressasse um desejo, se encontraria em casa e em segurança, longe da humilhação que estava por enfrentar. Os ocupantes das tribunas aplaudiam a passagem de cada novo grupo: quando desfilassem os Peregrine, ririam?
Ouviu uma voz: — Ei você!
Zared se virou e viu que um jovem mais ou menos de sua idade a estava olhando, notou que lhe oferecia uma bela túnica de veludo vermelho. —O que significa isso?— perguntou.
— O meu patrão a envia— respondeu o moço em tom zangado. — Disse para entregar-lhe.
Por piedade, pensou Zared e de novo se sentiu humilhada. — Diga a seu patrão que não necessito de nada.
— Olhando-a diria que necessita de tudo — replicou o jovem.
Zared não pensou em comportar-se como uma vilã, mas foi mais forte que ela: tirou um pé do estribo e o golpeou no peito, fazendo-o cair no chão.
— Se comporte como deve!— gritou-lhe Severn, desafogando sua própria cólera sobre o cortejo.
— Mas ele me ofendeu…— ela começou a protestar, interrompendo-se quando viu que um homem se inclinava para levantar o moço. Era o homem mais belo que já tinha visto: loiro, com a pele clara e olhos azuis. Vestia uma armadura de prata coberta de malha com rosas bordadas com fio de prata.
Abriu a boca e o olhou fixamente.
— Perdoe o meu escudeiro — disse o homem e sua voz pareceu a Zared doce como o mel. — Efetivamente fui eu quem enviou a túnica, pensando que talvez, por causa de um incidente, tivesse perdido sua bagagem. O meu gesto foi somente de cortesia.
— Eu…nós…— Zared balbuciou. Nunca tinha pensado que os homens pudessem ser tão belos.
— Não necessitamos de caridade! — gritou Severn ao estranho. — Temos tudo o que necessitamos para lutar. Não sou um mequetrefe que precisa estar coberto de flores— prosseguiu zombeteiro.
O moço que Zared fez cair exclamou, raivoso: — Não sabe com quem está falando! Este cavalheiro é Colbrand; ele o desmontará antes que possa fazer seu ingresso.
— Jaime! — exclamou Colbrand, seco. — Deixe-os.
O moço lançou um olhar de desafio a Zared e se afastou.
— Pode perdoá-lo? — prosseguiu o cavalheiro voltando-se para Severn. — É jovem e é a primeira vez que assiste a um torneio.
Severn não respondeu, limitando-se a olhar zangado para o seu interlocutor.
Este sorriu para Zared que quase caiu do cavalo, tão emocionada que estava. Esse sorriso era como um raio de sol em um dia chuvoso.
— Não era minha intenção ofendê-los. Boa sorte a todos vocês.
A moça olhou ele se afastar. Cavalgava em um cavalo branco, coberto com um manto branco, também bordado com rosas de prata.
Tinha ainda a boca semiaberta e o queixo inclinado: Severn bateu em suas costas com força.
— Pare de olhá-lo desse modo! — balbuciou.
Zared tentou obedecer, mas não era fácil e continuou observando Colbrand que seguia o cortejo. Era antecedido por seis músicos de harpa e seis com trompetes. Seguiam seis cavalheiros montados em cavalos brancos que transportavam as armas de Colbrand.
Colbrand desfilava sozinho, seguido por seu escudeiro e alguns serventes.
Todos seus homens, dos músicos até os cavalheiros estavam vestidos de branco e prata, Zared pensou que certamente era o mais belo e suspirou, pensando que não só era muito belo, mas podia dizer o mesmo de seu cavalo, de suas vestimentas e…
— Vamos, volte conosco — disse Severn, e em sua voz havia cólera. A moça endireitou as costas, pensando que era melhor terminar com essa história.
Severn estava muito zangado. Foram os últimos a serem chamados para entrar no cortejo e viu que as pessoas nas tribunas começavam a afastar-se. Era quase hora de jantar, olharam a pista e ao se darem conta que os Peregrine não tinham uma bagagem suntuosa como outros, decidiram que não valia à pena ficar.
Então era assim? As pessoas julgavam os homens pela beleza de seu vestuário e não pela sua capacidade no combate? Desde quando a capacidade de um homem era apreciada pelo que vestia em vez de seu modo de agir?
O gesto de caridade por parte desse homem, Colbrand, havia sido a gota que tinha transbordado o copo. Severn não via a hora de lançar-se contra esse efeminado e imaginou vê-lo cair, para em seguida rir e depois vencê-lo.
Fez um sinal para seus homens segui-lo e esperou que o arauto desse o sinal para que os Peregrine pudessem por fim apresentar-se ante as tribunas. Viu que olhou na direção destes últimos, esperando que a família Marshall se retirasse antes de dar o sinal.
Quando Severn viu que Lady Anne estava se levantando para ir embora, decidiu que não iria esperar mais. Se ninguém queria vê-lo, sabia que ela o desejava. Não lhe prometera uma recompensa por tê-la salvo?
Ignorando os gritos do arauto e as risadas das pessoas que o rodeava, atirou o elmo no chão e esporeou seu cavalo, concentrando-se no fato de alcançar a bela Lady Anne.
Ao som de trovão que faziam os cascos de seu cavalo de guerra, todos pararam virando-se para olharem. Severn pensou ter visto um homem de pé ao lado de Anne, mas não olhou em sua direção. Inclinou-se sobre a tribuna, agarrou a jovem pela cintura e a apoiou em sua própria sela. Tentou beijá-la, mas estava suado por ter passado horas ao sol com o elmo na cabeça e só conseguiu roçar sua bochecha.
Ao final do campo parou e a colocou no chão, triunfante. — Tomei minha recompensa! — disse em voz alta a todos os que estavam observando a cena.
Os olhos de Lady Anne brilhavam, parecia a ponto de dizer algo, mas Severn não deu a oportunidade porque partiu galopando, pensando que ela, mais tarde, teria todo o tempo para lhe sussurrar palavras de amor.
Afastou-se sem se virar para avaliar a impressão que provocara. Ninguém ria: deixara-os estáticos.
Zared observando seu irmão transgredindo as regras, partir a galope, agarrar Lady Anne arrancando-a literalmente do pai, rogou morrer imediatamente.
A prece não foi ouvida. Que se passava na mente de Severn? A moça conhecia muito pouco de etiqueta, mas se deu conta que seu irmão a quebrara.
Teriam que passar tranquilamente diante das tribunas e talvez suas vestimentas causassem algum pequeno comentário, mas depois…
Olhou Lady Anne, que estava de pé no mesmo lugar em que Severn a deixou, com as mãos apoiadas nos quadris, os olhos furiosos e percebeu que estava fora de si pela raiva.
Os presentes estavam atônitos para fazer o mínimo comentário. Calaram-se. Então, a direita, ao ouvido de Zared chegou o som de uma risada zombeteira. Virou-se e viu Jaime. Ali estava com sua túnica e meias brancas tão limpa, tão puro... e Zared foi atacada pela raiva. Esporeou o cavalo em direção ao menino, baixou o estandarte dos Peregrine como se fosse uma lança e atacou. Os olhos de Jaime se abriram pelo terror e ele começou a correr.
Zared não conseguiu alcançá-lo porque o estandarte se arrastava sobre a terra, entre as patas do cavalo, fazendo-a tropeçar. Inclinando-se na sela, a moça esporeou ainda mais o animal e voou sobre a cabeça deste, caindo e rolando no chão. Por alguns segundos não foi capaz de respirar e nem de pensar, permaneceu sobre o solo com o olhar no céu.
A primeira coisa que ouviu foi o riso.
Inclinado sobre ela estava Jaime, com as mãos nos joelhos… olhava e ria.
Estava muito confusa para se mover ou fazer algo mais.
Ouviu uma voz que dizia: — Pare! E viu Colbrand, semelhante a um anjo em sua túnica branca e prata.
— Está ferido, moço?
Zared conseguiu mover a cabeça e quando o cavalheiro estendeu a mão para ajudá-la, sorriu.
— Bem — disse Colbrand, devolvendo o sorriso.
Pôs as mãos em seus ombros e a ajudou a se levantar. Começou a limpar o pó de suas costas. Essa sensação fez Zared pensar que teria morrido de prazer. Olhou-o e sentiu que os joelhos tremiam.
— Acredito que está ferido— murmurou Colbrand e assim dizendo tomou-a nos braços.
Era muito para Zared, então perdeu os sentidos.
Anne Marshall lavou o rosto com água fresca e olhou sua própria imagem refletida no espelho da parede. Suas bochechas estavam ainda vermelhas devido ao roçar a que foi submetida e tratou de limpar o suor do homem. Sentia dor nas costelas, devido à força com que a tinha estreitado contra sua armadura, enquanto ele a colocava sobre o chão.
Por um momento ainda, pareceu ouvir as gargalhadas das pessoas depois que aquele…aquele…não podia encontrar um insulto adequado para esse homem. Ele a humilhou, colocando-a em ridículo diante de centenas de pessoas. Até o odioso indivíduo, que há poucas horas se convertera no marido de Catherine, riu dela.
Olhou-se de novo no espelho e viu que seus olhos já não brilhavam de raiva, mas sim de lágrimas. Se tivesse podido permanecer na França com sua mãe…se não tivesse vindo a esse país bárbaro onde os homens eram pouco mais que animais. Se só…
Não concluiu seu pensamento porque a porta se abriu com violência e seu pai entrou. Não se preocupava em bater antes de entrar, nunca se preocupava em demonstrar o mínimo de respeito por nenhuma de suas filhas.
— Os convidados estão na mesa e querem ver minha filha que ainda não está casada — informou.
— Não me sinto bem— disse Anne e era sincera. — Não posso comer.
— Comerá, ainda que tenha que obrigá-la. Não permito que uma filha minha se sinta mal porque um homem a tocou.
Anne se sentiu invadida pela cólera: — Um homem! Esse bárbaro, esse pagão! E o chama de homem? Encontrei cães dotados de maior sensibilidade.
— Não sabe distinguir um homem de um cão — ironizou Hugo — Vocês mulheres consideram os torneios, que são preparatórios para a guerra, como manifestações da moda. E quando assistem a um torneio, premiam o homem que se apresenta com o maior número de plumas ou de bordados…o moço é um Peregrine, não é…
— Peregrine!— interrompeu-o Anne. — É um Peregrine? Devia ter adivinhado. É o irmão do homem que se casou com a pobre Liana. Não é de se estranhar que…
— Está casada com ele faz dois anos, já lhe deu um filho e lhe dará um segundo em poucos dias. O pai desses Peregrine trouxe para o mundo só filhos varões.
— Na vida há muitas outras coisas, além de filhos varões!— gritou Anne.
Hugo Marshall deu um passo em direção à filha, que não se permitiu assustar.
— Se fosse você, não seria tão caprichosa. Quem sabe, tal como sua amiga Lady Liana, traga ao mundo filhos para os Peregrine.
— Não — murmurou para si — Pai, eu peço-lhe…— começou a dizer, mas parou.
Não rogaria ao seu pai. Endireitou os ombros lembrando a si mesmo que contra o poder dele devia usar o cérebro. Em vez de pedir, disse: — Se deseja netos estúpidos só terei que me casar com esse homem. Sem dúvida gostaria que o rei convidasse um dos Peregrine para sentar-se a sua mesa… pelo que vi hoje compreendi que essa gente não é adequada para viver na corte… mas isso não significa nada para você. Estou certa que gostaria de ver seus netos feitos de bobo diante do rei…deve pedir à Sua Majestade se deseja de verdade que um Peregrine esteja sentado ao seu lado…
Hugo olhou sua filha. Detestava as mulheres inteligentes, detestava que uma mulher dissesse coisas que ele não tinha pensado. A mãe da moça era assim, sua língua se movia duas vezes mais depressa que o cérebro do marido. Quando pediu permissão para voltar à França com seus parentes, sentiu-se feliz em deixá-la ir.
Mas não permitiria que sua filha percebesse que suas palavras o confundiram.
— Se você não se comportar gentilmente com esse homem, eu a farei lamentar — disse abandonando o quarto, pensando que se não tivesse que considerar outros fatores, a daria em matrimônio ao mais tosco dos homens. Anne necessitava de um marido que freasse sua língua, mas sabia que necessitava de netos. Não tinha sido capaz de ter um filho varão, pelo menos queria ter netos varões. Incomodava reconhecer, mas a moça tinha razão. Não queria netos dos quais as pessoas zombassem nos torneios. Até o rei riu ante a vista dos esfarrapados Peregrine.
Fez uma careta de desgosto. Ao diabo sua filha, se havia algo que detestava mais que uma mulher inteligente, era… uma mulher que tinha razão. Desceu as escadas, jurando a si mesmo que dentro de três dias encontraria um marido para Anne e se livraria dela. Já não suportava mais sua língua afiada e seu cérebro agudo, deixaria para outro a tarefa de ocupar-se dela.
Depois que seu pai saiu, Anne suspirou com alívio. No momento tinha sido capaz de enfrentá-lo, mas enquanto terminava de vestir-se pensou que nem sempre seria assim.
Hugh era estúpido e mesquinho e não escutaria a razão, mas sim o instinto. Anne sabia que tinha que escolher um marido e arranjar um jeito de seu pai aprovar sua escolha.
Devia encontrar um homem que pudesse substituir o sujo Peregrine na mente de seu pai.
Pegou o formoso enfeite alto em forma de cone e o colocou na cabeça, arrumando o véu e pela última vez se olhou no espelho. Queria aparecer sob seu melhor aspecto, estava preparando-se para ir à caça. A caça de um homem.
Quando Zared recobrou os sentidos, estava deitada em uma das camas da tenda do irmão e através da abertura viu que o sol já estava se ocultando. Sentindo-se adormecida, não tentou se levantar. A última coisa que recordava claramente era de Colbrand que a estreitava entre seus braços fortes.
Sorriu e recordou seu aspecto, seu olhar, seu…
—Então, você despertou.
A moça virou lentamente a cabeça para olhar o homem inclinado sobre ela. Mas estava contra a luz e não pôde vê-lo muito bem.
— Há alguma coisa para comer? Tenho fome.
O homem riu. — Então terminou de fingir?
— Fingir?— Curiosa, entreabriu os olhos e olhou o desconhecido. Havia algo familiar nele…mas recomeçou a pensar em Colbrand…havia sonhado? Talvez não existissem homens como ele.
— Tome — disse o homem colocando diante dela uma bandeja com carne e pão.
Zared pegou a comida, apoiou-se no cotovelo e começou a comer, enquanto o homem se sentou em um tamborete ao lado da cama. De fora vinha o som de armas que se entrecruzavam.
— Começou!— exclamou Zared sentando-se. — O torneio começou, Severn necessita de mim— Fez menção de levantar-se, mas uma grande mão pousou um pouco abaixo de sua garganta, obrigando-a a sentar-se de novo.
— O que pensa que vai fazer— começou a dizer, logo olhou o homem que estava na sua frente. Era o mais jovem dos Howard! — Você! - Balbuciou e imediatamente tentou pegar a adaga que escondia em sua bota.
— Não está em seu lugar— disse o jovem com calma. — Privei-a de todas as armas e devo dizer que me diverti em procurá-las.
Zared inclinou a cabeça e o golpeou no peito. O homem emitiu um gemido e tomando-a nos braços a levantou.
— Severn!— gritou ela.
Pôs uma mão sobre sua boca. — Seu irmão está no campo, com o efeminado do Colbrand.
A moça parou de se mexer: — Colbrand não é efeminado.
— Conhece-o bem, certo? Viu-o combater muitas vezes?
— Deixe-me ir. Meu irmão o destroçará. O…
— Sim, sim, já me disse isso.
Zared percebeu que o homem estava brincando com ela, enquanto a balançava, como um pai brinca com seu filho, mas suas mãos deslizavam por seus quadris e coxas.
Com um puxão se soltou, levantou o queixo e o olhou.
— Faça-me prisioneira, mas deixe em paz o meu irmão. Se não fizer mal a ele, eu o seguirei. Farei tudo o que quiser, mas ordene a seus homens que não ataquem Severn.
Tearle a olhou longamente, sabendo que tinha falado sério. Estava penteada e vestida como um moço, mas era uma mulher, capaz de sacrificar tudo por amor.
— Não estou aqui para fazer lhe mal. Seu irmão acredita que me chamo Smith e fui enviado aqui por Lady Liana.
Zared o olhou fixo: — Liana o enviou?
— Naturalmente que não. Agora coma e logo contarei tudo.
— Não comerei nada que venha dos Howard.
— Como quiser, mas morrerá de inanição, pois pelos próximos três dias devo me encarregar de você e de seu irmão.
— Encarregar-se? Um Howard encarregar-se de um Peregrine? Quer dizer que deseja nos envenenar.— Começou a se levantar, mas o jovem a deteve novamente e ela não reagiu.
— Onde está Severn?— murmurou. — Se lhe fez algum mal, Rogan lhe…
— Está sedenta de sangue. Não machuquei ninguém. Seu irmão está no campo, esperando atirar no chão algum idiota…
— Como atirará você— ela o interrompeu. — Sabe bem o que pode fazer a adaga de um Peregrine — disse referindo-se a ferida que lhe havia feito.
— Ainda dói. Ainda me deve isso.
— Nenhum Peregrine é devedor de um Howard — replicou. Ouviu-se um ruído vindo de fora e quando Tearle se virou, Zared aproveitou para saltar da cama e dirigir-se a porta. O jovem a deteve com o pé, mas a segurou antes que caísse.
— Aonde vai?
— Onde está meu irmão, para escapar de você, para advertir ao rei, para advertir a qualquer um!
— Se chamar o seu irmão, ele matará um homem desarmado, e então meu irmão assaltará aquele montão de pedras dos Peregrine e matará a todos. Vamos, é livre para chamar Severn. Diga-lhe que me mate, mas peça que o faça depressa. Não desejo uma morte lenta.
Zared entrecerrou os olhos e olhando-o teve a impressão de ter perdido sua primeira batalha. Tearle havia dito a verdade: se Severn o matasse, isso significaria a morte de todos os Peregrine.
Sentindo os membros cansados, sentou-se na cama e murmurou: — O que é que você quer? Por que está aqui?
— Vim ajudá-la— respondeu alegremente. — Pelo que ouvi de sua família, eu achei que viriam aqui cobertos de trapos.
— Não vestimos trapos!— exclamou Zared, indignada.
O jovem baixou o olhar para a túnica dela, cheia de manchas e graxa. — Trapos — repetiu. — Há alguns dias enviei um de meus homens para buscar algumas roupas. Sinto muito que não tenha chegado a tempo para evitar o desastre desta manhã, pois agora seu irmão vestiria roupas mais adequadas.
Zared só agora começava a se recuperar do duro golpe de ter visto um Howard inclinado sobre ela, quando retomou a consciência. Aproximou-se da abertura da tenda e observou o exterior.
Em um extremo do campo viu seu irmão, de pé. Sobre a armadura vestia uma túnica negra. Não estava certa, devido à distância, mas teve a impressão que a túnica estava bordada em ouro.
— Meu irmão…— murmurou — meu irmão veste uma túnica que foi dada por um Howard?
— Sim, mas não sabe. Acredita que a túnica foi enviada por sua preciosa cunhada.
Zared se sentou de novo. — Diga-me tudo — pediu-lhe.
— Depois que se comportou como uma tola com esse insignificante, tolo e efeminado Colbrand, eu...
— Quando desejar a opinião de um Howard, eu pedirei — interrompeu-o. — Agora me conte todo o engodo que organizou.
— Engodo? Eu? Fui generoso e gentil, enquanto que seu Colbrand…de acordo, contarei tudo. Quando perdeu os sentidos, eu vim salvá-la e a resgatei antes que aquele débil...
— Você me tocou? Um Howard me tocando?
— Eu a toquei desde que a encontrei.
— Tomarei um banho. Continue!
Sorriu. Como gostava de provocar-lhe a paixão! — Não havia uma tenda dos Peregrine, assim a levei para outra.
— A tenda de Colbrand?— perguntou esperançosa.
— Não, não nessa, teria preferido atirá-la a um poço cheio de víboras.
— Eu também teria preferido, em vez de permanecer com um Howard.
Tearle não fez caso de suas palavras: — Sabia que não seria fácil, que se rebelaria, portanto lhe fiz beber um gole de…
— Envenenou-me — murmurou ela. — Quanto tempo eu tenho de vida? Devo avisar meu irmão. Ele também morrerá!
Já estava quase fora da tenda, mas Tearle tomou-a pelos ombros e se inclinou sobre ela:
— Não quer entender? Ninguém foi ferido. Não vim aqui para lhe causar mal. Dei-lhe um sonífero para fazê-la dormir e assim poder fazer meu trabalho sem ser interrompido por você.
— Para que não desse o alarme — ela o interrompeu, escapando de seu abraço.
— Também por isso— replicou Tearle. Sua voz se adoçou : — Venha para cá, sente-se e coma.
— Nunca comerei o que foi tocado por um Howard.
Tearle pegou o prato, partiu pedaço um pedaço de pão e comeu, logo cortou um pedaço de carne. — A comida não está envenenada.
Zared ainda não estava convencida, embora tivesse muito apetite. — Por que está aqui?— repetiu.
— Vim…— o jovem vacilou, porque nem ele mesmo conhecia o motivo de sua presença. De um lado desejava o fim do ódio entre sua família e a dos Peregrine, mas por outro lado sabia que se não fosse por essa jovem tão zangada, não lhe importaria o que aconteceria entre seu próprio irmão e os irmãos dela. Não compreendia por que essa moça lhe interessava tanto… havia muitas mulheres mais formosas que ela, mais ricas que ela… e com um caráter mais maleável. Entretanto, ali estava, certamente não se encontrava em condições de ir embora, nem se o quisesse.
— Vim para pôr fim a esta luta entre nossas famílias — disse ao final.
— Para pôr fim…— Zared, atônita, sentou-se na cama.
— Veja, meu irmão está literalmente obcecado pelo ódio. Seus irmãos e você mesma não sabem pensar em outra coisa. Não, não o negue. Você também só fala deste ódio, e vi o modo que vocês são prisioneiros naquele castelo pestilento.
Zared achou absurda a ideia de que se pudesse pôr fim à luta. Sabia que Tearle era vil, um fraco, mas era também estúpido? — E como propõe fazê-lo? Quer restituir a terra que sua família nos roubou? Dará a meu irmão Rogan o título de duque que deveria ser seu por direito?
— Na realidade…— Tearle começou a dizer e nesse momento teve uma ideia. — Porei fim à luta fazendo com que um Howard e um Peregrine se casem. Isso unirá a nossas famílias.
— Tem alguma meio-irmã escondida em algum lugar e pretende dá-la por esposa a Severn? Uma irmã idiota que trataria de enganar o meu atraente irmão?
Sorriu-lhe: — Pensei que talvez pudesse me casar com você.
Zared tentou respirar e rir ao mesmo tempo: foi um engano porque esteve a ponto de se sufocar.
Tearle bateu com a mão em suas costas e lhe deu um copo de vinho misturado com água. A moça bebeu um gole, afastando-se dele.
— Comigo?— disse por fim. — Casar-se comigo? Eu me casar com um Howard?
Tearle ficou rígido. — Que coisa melhor poderia esperar uma Peregrine? Não tem dote.— Assim dizendo a olhou da cabeça aos pés. — Nem sequer é uma verdadeira mulher.
— Sou o suficiente para desejar um homem!— balbuciou ela. — Sabe o que meus irmãos fariam se falasse que desejo me casar com um Howard? Meu irmão Rogan…
— Entretanto pensei que Severn poderia casar-se com minha irmã, se tivesse uma, o que não é assim.— Tearle falou de matrimônio impulsivamente, mas desde que o fez considerou que não era uma questão para rir. Afinal, era uma ótima ideia e a melhor parte era que colocaria suas mãos no corpo miúdo dela.
Zared pensou que o homem, na realidade, era um tonto. — Se meu irmão se casasse com uma Howard, ela viveria conosco. Se me casasse com você, um simples segundo filho, deveria ir viver sob as ordens de seu irmão. Acredita verdadeiramente que Oliver Howard me trataria bem? Ou não acredita que seria feliz de ter uma Peregrine para submetê-la a suas torturas?
Tearle se sobressaltou. Imaginava muito bem a reação de seu irmão: ante a perspectiva de ter uma Peregrine sob seu próprio teto, ele riria. Pensou que fazer isso com Zared não cessaria a luta, ao contrário, a pioraria.
— Assim, veio para se casar comigo. — exclamou sem parar de rir. — Como fará para agradar meu irmão?
— Já falei. Trouxe-lhe os trajes — respondeu Tearle que já não estava contente.
Até agora nunca propusera matrimônio a nenhuma mulher, e nenhuma jamais o teria rechaçado. Que mais essa menina queria dele? Era o irmão de um duque, atraente, era...
— Não pensou que seria tão louca em aceitar ser sua esposa! — disse Zared. — Seria como me transformar em uma prisioneira. Quero conhecer o verdadeiro motivo de sua presença neste lugar.
Tearle tratou de recuperar sua própria dignidade. Sorriu e sacudiu os ombros. — Não pode me culpar por ter tentado. Não menti ao dizer que quero pôr fim à luta. Estou cansado de tanto ódio e pensei que talvez pudesse fazer amizade com seu irmão...
— Fazer amizade?— Como pode um Howard ser amigo de um Peregrine?
— Já fiz algum progresso. Trouxe os trajes, entreguei a Severn uma esplêndida armadura de prata. É a minha…temos mais ou menos a mesma altura.— Queria sublinhar o fato que ele também era forte, robusto e fazê-la entender que não era a mulherzinha que acreditava. Mas a moça parecia não compreender.
Zared se levantou e foi para uma esquina da grande tenda — Trouxe vestimentas e armadura, roupa e armadura de um Howard e meu irmão aceitou tudo sem perguntar?
Zared começava a ter dúvidas com respeito ao seu irmão. Havia declarado ter participado de vários torneios, demonstrando entretanto, não saber nada sobre os desfiles. Dissera que sabia tudo sobre mulheres, mas não tinha entendido que Lady Anne não desejou ser tratada daquele modo diante de todos.
— Foi mais fácil do que imaginei. Parecia que o seu irmão esperava esses trajes por parte de Lady Liana.
— Não, não os esperava, mas Liana…— Zared se calou. Não diria nada a esse homem, seu inimigo. Não era próprio de Severn acreditar em um estranho, mas talvez nessa manhã estivesse um pouco transtornado. — Assim realizará as funções de servente de meu irmão? É o que me disse, se não me equivoco. E se chamará Smith, e você um homem rico, injustamente rico porque suas terras pertencem a minha família, mas em todo caso rico, preocupa-se com a nossa comida? Esvaziará também os urinóis?
— Vigiarei esses frouxos que são seus serventes para que façam bem seu trabalho.
Zared não acreditou em nenhuma de suas palavras: — Agora que os Howards sabem que existe uma mulher Peregrine…que intenções têm?
— Não disse a ninguém que é uma mulher, como não disse que sou um Howard.
— Alguém o reconhecerá. Alguém o apontará como um Howard, e nesse momento Severn matará você, e seu irmão…
— Cale-se! — quase gritou. — Não sou o monstro que você imagina. Sou simplesmente um homem que não quer passar a vida com o ódio no coração. Pensei em um plano para chegar a ser amigo dos Peregrine e o pus em ação. Aqui ninguém me conhece, salvo Anne e ela…— Calou-se porque havia falado muito.
— Anne? Lady Anne? A mulher que Severn quer por esposa?
— Anne, casar-se com um homem tosco como seu irmão? Estou certo que antes…
Zared o esbofeteou.
— Bem, pequena…— disse aproximando-se dela.
— Então acordou!— exclamou nesse momento Severn, entrando na tenda. — Conheceu Smith? Foi Liana que o enviou.— Alcançou a cama e pegou um pouco de comida da bandeja de Zared, mas antes que pudesse comer um bocado a irmã tirou de sua mão.
— É meu— disse. — Quero dizer que está destinado a mim.
Severn a olhou, estupefato: — De acordo. Smith, me traga um pouco de comida.
— Não!— gritou Zared deixando a bandeja cair. A comida se esparramou pelo chão enquanto ela se colocava entre o Tearle e a pequena mesa na qual havia outra comida.
— O que está acontecendo?— perguntou Severn.
— Bom, eu…— Não estava em condições de pensar depressa.
— Acredito que o moço está preocupado com a ideia de que esta comida não seja boa como aquela proporcionada pelos Marshall. Está fria e com muita gordura, enquanto na casa estão servindo sopas quentes.
Severn pareceu ainda mais confuso. Quando sua irmã se preocupou com a comida?
Na realidade, na casa dos Peregrine ninguém fazia caso.
— Quero que você tenha…o melhor — disse Zared — para que conserve seu vigor para a batalha.
Severn coçou a cabeça: — Está bem, irei a casa, mas você permanecerá aqui com Smith e guarde os trajes que Liana nos enviou. Olhe se há algo que sirva para você.
— Os trajes que uso são mais do que adequados para um Peregrine, — replicou ela, observando a túnica de pesada seda negra de seu irmão; na arena ela ressaltava um bordado de dragões em ouro e prata, e prosseguiu: — Nem todos precisamos parecer pavões reais.
Severn lançou um olhar severo: — Não faça com que eu me zangue, e você, Smith, vigie meu escudeiro.— Dizendo assim saiu da tenda.
Zared girou e olhou Tearle: — Pela primeira vez em minha vida tenho a oportunidade de ver o mundo, e sou submetida à vigilância de um Howard. E deverei permanecer com você a cada instante para evitar que faça mal ao meu irmão.
— Em todo instante?— repetiu Tearle, e ante essa perspectiva sorriu.
Capítulo Cinco Zared observou Tearle Howard sair da tenda e ir em direção ao carro buscar os trajes e as armas que havia trazido. Morria de fome e aguçou o ouvido ante o ruído de armas e os gritos da multidão que atiçavam e aplaudiam os duelistas. Severn já havia competido? Quem tinha sido seu rival? E Colbrand?
Não sabia nada do que acontecera, porque Howard a mantivera longe do campo de torneio e a fizera dormir o dia todo.
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