A Conquista

Jude Deveraux · Capítulo 2 de 5 · parte 2/3

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A Conquista

Olhando o homem, seus cabelos, suas vestes…

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

— Pode ser que meu irmão não deseje a mão dessa dama— replicou orgulhosa, recordando muito bem as palavras de Lady Anne a propósito de Severn.

— O pai da dama está mais favorável ao meu patrão, não gosta da imundície dos Peregrine.

A cólera que Zared guardava por dias saltou fora. A espada de Severn estava apoiada em um pau não muito longe: tomou e se lançou sobre o moço, como se estivesse decidida a matá-lo.

Porém, Tearle a agarrou pela cintura levantando-a do chão, dizendo:— Solte essa espada.

— Já tenho o suficiente de suas insinuações! — gritou Zared — Quero calá-lo para sempre.

O jovem estreitou ainda mais sua cintura quase a impedindo de respirar e a desarmou, enquanto ordenava a Jaime — Vá até onde está o seu patrão!— e o moço foi correndo.

— Combate sempre a cólera com uma arma?— perguntou o jovem a Zared. — Não é capaz de pensar?

— Faço justamente como você!— balbuciou ela. — Esse moleque…

— É um moleque — interrompeu-a o jovem e suspirando prosseguiu: — Deveria estar agradecida que não estivesse de acordo com ele, de esperar que Colbrand vença…

— Contra meu irmão? Colbrand poderá vencer sem dúvida todos outros, mas não vencerá um Peregrine.

Tearle estava contente em ouvir que a moça não teria traído o seu irmão por esse tolo do Colbrand. Não disse nada mais e voltou para o campo.

Ao meio-dia as lutas se interromperam; todos os participantes deixaram o campo para comer, e Zared sabia que teria outro longo almoço durante o qual teria que servir seu irmão. — Está preparado?— perguntou a Severn.

O irmão a olhou e logo olhou para Tearle às suas costas, e recordou o modo que na noite anterior o homem segurou em seus braços a sua irmã e se perguntou se Zared lembrava do acontecido. Passou uma mão entre os cabelos da moça, dizendo: — Vá com Smith ver o que oferecem os mercados.

— Quer que eu vá? Mas quem te servirá a comida?

— Não morrerei de fome. Vá, antes que mude de ideia.

Zared não o fez repetir duas vezes, deu a volta e se afastou do campo antes que Severn concluísse a frase, quase tropeçando num homem que vinha caminhando com dois porcos amarrados nas costas.

A mão de Tearle posou com firmeza em seu ombro.

— Me solte!— disse. — Não necessito de uma babá.

— Este passeio entre as pessoas será divertido como o de ontem? Afastou-se logo e foi se sentar sozinha no bosque.

— É o que eu desejava fazer! — Replicou ela levantando o queixo. — Estava cansada e a multidão e…e…

— Está bem, — interrompeu-a evidentemente incrédulo. Não necessitava de muito para adivinhar porque na noite anterior a jovem chorou. — Se permitir, eu a acompanharei.

Zared não estava entusiasmada ante a ideia de ir com ele, mas recordou quão só havia se sentido a noite passada. Possivelmente um Howard era melhor que nada; não muito melhor, mas melhor do que estar sozinha. — Está bem— disse — pode me acompanhar.

— É muito gentil, Lady Zared— disse Tearle em voz baixa.

— Lady — pensou Zared, e ao som dessas palavras se sentiu satisfeita.

Odiava admitir, sim odiava seriamente admitir que a companhia desse Howard não a desgostava. O jovem a escoltou entre as barracas do mercado situadas um pouco mais longe e mostrou tudo o que teria que ver. A jovem parou diante de um banco que vendia objetos religiosos e admirou um belo crucifixo.

Logo a conduziu a um joalheiro e a um vendedor de brinquedos. As poucas horas que faltavam para o início do combate passaram depressa e Zared estava relutante em voltar.

— Certamente é uma mulher!— exclamou Tearle rindo. — Como resistiu à tentação de comprar essas coisas?— Se não para você, para sua deliciosa cunhada.

— Os Howards nos privaram de nossa riqueza — replicou ela, que odiava que lembrassem sua pobreza.

Tearle deixou de sorrir; não tinha a intenção de lembrá-la da pobreza de sua família, só quis brincar.

— Olhe — disse — olhe o que vende este homem.

Enquanto observava os objetos de uma bandeja que o homem segurava pendurado pelo pescoço, Zared sentiu desaparecer sua própria ira: tratava-se de luvas, maravilhosas luvas bordadas. Eram de tecido branco ou café, ou de seda pintada e seus bordados brilhavam ao sol.

— Pode tocá-los — disse Tearle — e também cheirá-los.

— Cheirá-los?— perguntou ela e levantando um belo par de luvas, levou-as ao nariz.

Cheirava a rosas! Olhou para Tearle contente e perguntou: — Como é possível?— Apenas sabia que das luvas sempre emanava aroma de cavalo ou a suor.

— Antes de cortar a pele do curtume, enfiavam-na sob pétalas de flores. Tem um par perfumado com jasmim?— perguntou ao vendedor.

O homem observando o estranho casal, procurou entre sua mercadoria e tirou um par de luvas amarelas bordadas com fios de ouro; enquanto pensava que esses dois falavam como se fossem um homem e uma mulher, e no entanto se tratava de dois homens, um dos quais: alto, de aspecto aristocrático, e o outro um moço de cabelos avermelhados, com uma bochecha suja de lodo.

— Escolha um par para você e outro para Lady Liana, e talvez um par para cada uma de suas damas…

— Liana gostaria destes, — disse Zared observando as cores, avaliando a suavidade das luvas. Mas os devolveu retrocedendo.

— Faça sua escolha— ele a estimulou.

Olhou-o. Não queria admitir diante do vendedor que não tinha dinheiro e não podia se permitir um objeto frívolo como um par de luvas, e menos ainda comprá-los para dar de presente.

Tearle leu o seu pensamento e disse: — Pretendo pagar por tudo o que queira adquirir.

Zared apertou os punhos e a mandíbula. A raiva que a invadiu impedia que falasse, por isso deu meia volta e se afastou.

Tearle fez uma careta. Começava a entender o orgulho dos Peregrine. Levantou o tecido de sua túnica, procurou a bolsa que pendia de sua cintura e extraiu uma moeda de ouro. Colocou-a na bandeja do vendedor, que o olhava com a boca aberta, recolheu as luvas, todas as luvas, e seguiu Zared.

A moça caminhava depressa, mas a alcançou facilmente. Não tratou de fazê-la raciocinar, mas a puxou por um braço e a levou para uma muralha impedindo-a de mover-se.

Zared o olhou com os braços cruzados sobre o tórax e disse: — Os Peregrine não aceitam a caridade dos Howard. Não aceitamos a caridade de ninguém, embora nossas terras tenham sido roubadas, nós…

Viu-se obrigada a parar de falar porque Tearle a beijou. Não a tomou entre seus braços, limitou-se inclinar-se sobre ela beijando-a com força. Quando levantou a cabeça, Zared só conseguiu olhá-lo piscando e antes que estivesse em condições de pensar, passaram vários minutos. Passou uma mão sobre a boca e continuou a olhá-lo.

— É agradável pensar que ficou sem palavras — disse Tearle.

— Tenho muitas, pelo contrário — replicou, tentando empurrá-lo. —Deixe-me passar.

— Não, até que me escute.

— Não escutarei nada.

— Então a beijarei de novo.

Zared se imobilizou. O beijo não tinha sido desagradável, produzira-lhe um estremecimento.

— Escutarei só para pôr fim a esta degradação.

Tearle sorriu e a olhou de um modo que a obrigou a olhá-lo.

— Diga o que tem que dizer.

— Antes de mais nada, olhe — murmurou, e extraiu da túnica um par de luvas de seda vermelhas, com bordados que representavam flores.

Embora ela pegasse as luvas pouco antes na frente ao vendedor, não podia prová-las, mas agora o fez.

Eram muito belas, suaves e lustrosas. — Nunca vi uma coisa mais bela que isto — murmurou.

— Nem como estas? Ou estas? — perguntou, extraindo outro par ….e outro mais.

Zared pegou as luvas, mas quando ele continuou a tirar mais luvas da túnica começou rir.

— O que fez? Roubou-as?

— Dei ao vendedor uma moeda de ouro dos Howard, — disse olhando-a fixamente.

A risada de Zared desapareceu.

— Tome-as, são suas— Dando-se conta que a moça estava por atirá-las ao chão, voltou a pegá-las.

— Não aceito caridade.

— Se a terra dos Howard pertence aos Peregrine, então a moeda de ouro que gastei seja, na realidade, dinheiro dos Peregrine. É como se você mesma tivesse adquirido as luvas.

Zared refletiu um momento. Estava zombando dela!

Entretanto, em suas palavras havia algo certo. As terras dos Howard pertenciam aos Peregrine. Moveu os braços, das luvas emanou um perfume delicioso e se sentiu invadida por uma onda de desejo.

Ela gostaria muitíssimo de possuir algo belo, alguma coisa feminina, como um par de luvas e também gostaria muito de dar um presente a Liana e a suas damas.

Estas últimas, muitas vezes a tinham olhado com uma expressão afetuosa porque sabiam que era uma mulher, embora os homens que dependiam de seus irmãos não soubessem. Se tivesse dado a elas essas belas luvas, sua expressão teria mudado.

De repente Tearle perguntou:— Qual prefere?

— Eu…não sei — respondeu ela, observando-as. O par acima dos demais era de cor branca, e seus bordados representavam mariposas amarelas.

— Provavelmente deva conservá-las todas. Adquiriremos outro presente para sua cunhada.

— Oh, não…um par é suficiente, porque não posso usá-las.

— Não pode…ah, claro, entendo. O que fará com suas luvas?

— Esconderei. Tenho um esconderijo…atrás de uma pedra móvel na parede. Porei quando estiver sozinha.

O jovem se afligiu e sentiu certa culpa. Era o ódio de seu irmão pelos Peregrine que obrigava uma moça a esconder um belo acessório. E teve uma ideia. Talvez mais tarde, durante o torneio, teria a oportunidade de lhe dar o que desejava.

Levantou uma mão para tocar sua face e percorreu o dedo até a parte inferior do rosto.

— Eu gostaria que pudesse usar as luvas livremente.

Zared pensou que poderia cuspir em seus olhos, mas não o fez. Sua imaginação pregava uma peça, ou esse homem parecia diferente do que quando o conheceu? Parecia mais atraente. Sempre tinha pensado que seus olhos eram pequenos…mas na realidade eram bem grandes e belos.

— Acredito…acredito que seja hora de voltar — disse em voz baixa. — Severn precisa de mim.

— Sim — concordou Tearle e depois de ter deslizado a mão da face até o ombro, se afastou.

Zared corou e abaixou a cabeça para que ele não percebesse.

— Deixe-me passar, Howard — Murmurou.

— Sim, Milady— replicou Tearle em voz baixa, e se inclinou para permitir que passasse.

Ao caminhar de volta para o acampamento, Zared foi na frente. Nas últimas horas tinha ocorrido algo, mas não conseguia entender o que era. Havia pensado que enterraria de boa vontade uma adaga no seu peito, mas agora não seria capaz de fazê-lo. Tinha sido muito gentil com ela mostrando todos as barracas; tinha explicado cada uma delas, sem nunca demonstrar sinais de estar aborrecido ou impaciente ante sua ignorância.

Certamente era diferente de seus irmãos. Severn e Rogan sempre a tratavam com superioridade, tal como tinham feito seus outros irmãos. Uma vez, zombaram dela porque tinha trançado uma coroa de flores e a colocado na cabeça. Eram insuportáveis também, quando ela ficava muito lenta. Nunca tinham tempo para nada, a não ser para a guerra ou para o treinamento de guerra.

Desde que Liana tinha entrado em sua família, suas vidas se tornaram um pouco mais cômodas, mas Rogan e Severn não tinham conseguido encontrar tempo para ela.

Rogan passava suas horas livres com sua esposa, Severn com sua amante, e Zared sempre estava sozinha.

Voltou-se para olhar Tearle que caminhava atrás dela e perguntou: — Diga-me, na França as mulheres usam luvas como estas? É lá que soube que são perfumadas?

— Não sei. Nunca as tinha visto — Agora o olhava, não como um inimigo, mas sim como um homem. Para dizer a verdade já não parecia um fracote, mas como podia conhecer tantas coisas a respeito de vestuário feminino? Seus irmãos não sabiam nada disso.

— Quando estava na França passava muito tempo em companhias femininas? É por isso que sabe tantas coisas a respeito do vestuário feminino e nada a respeito de vestuário masculino?

— Conheço isso também — replicou Tearle ligeiramente perplexo e na defensiva.

Essa moça sempre lhe provocava a sensação de ter que defender sua masculinidade.

Zared se sentia confusa. Recordou que Liana tinha observado que nos homens não contava só sua habilidade para a luta, mas…era esse o tipo de homem que se referia sua cunhada? Esse homem era perito em luvas femininas e desmaiava ante uma pequena ferida. Os homens então se dividiam em duas categorias? Homens como seu irmão Severn e homens como Tearle Howard?

— Por que me olha desse modo?— perguntou, não sem se sentir satisfeito pela atenção que lhe dispensava.

— Não é um homem, entretanto, parece sê-lo — respondeu, pensativa.

— Não sou um homem?— Estava atônito.

— Não. Não luta como fazem os homens. Desmaia com um só arranhão. É alto, concordo, mas eu que sou muito mais baixa, lutei com você e o venci.

— Venceu-me?— murmurou o jovem. Logo recordou seu primeiro encontro, quando ela o tinha ferido com a adaga e compreendeu finalmente do que estava falando.

Tinha decidido deixá-la ir, apenas porque percebeu que era uma mulher. E agora entendeu: Zared acreditava havê-lo “obrigado” a deixá-la ir.

— Sim, lutei com você. Se alguém tivesse ferido meu irmão, ele teria matado seu oponente.

— Se fosse uma pequena mulher também?

— Provavelmente não, mas não teria se deixado vencer tão facilmente. Não, meu irmão não se deixaria superar, nem tampouco Colbrand o faria — acrescentou depois de uma pequena dúvida.

— Mas Colbrand não teve a inteligência de perceber que não é um moço— rebateu Tearle, ressentido.

— Talvez. Você tem cérebro, vejo isso. Parece que sabe muitas coisas, como as luvas ou a qualidade das esmeraldas… mas não sabe nada do que os homens devem saber.

— Sinceramente?— Tearle tentava controlar sua própria ira. — E o que a faz pensar isso?

— Teria tomado parte no torneio, se não dedicasse seu tempo a ser babá e servente. Liana disse que Oliver Howard é rico a ponto de poder contratar homens para que lutem em seu nome. Talvez na França contratasse homens para que lutassem em seu lugar nos torneios, enquanto você permanecia tranquilamente sentado com as damas.— Seu rosto se iluminou. — Sim, deve ser assim, e é por isso que sabe tão pouco dos homens e tanto das mulheres.

Por alguns momentos o jovem foi incapaz de falar. Zared parecia uma menina, virava-se para olhá-lo e sorria como se houvesse resolvido um grande problema. Decidira que como ele sabia de tecidos, de joias e de vestidos femininos, não podia ser um homem.

Não lhe passava sequer pela mente que no mundo havia mais homens como ele do que como seus irmãos, os quais pensavam somente em guerra.

Abriu a boca para dizer o que pensava, mas de repente viu um homem que galopava de costas para jovem, tentando controlar seu cavalo descontrolado. O animal avançava a toda velocidade. Tearle não hesitou, saltou sobre Zared, atirou-a no chão, cobrindo-a com seu próprio corpo. Quando o animal estava sobre ele, golpeando-o com os cascos, manteve a cabeça baixa, procurando protegê-la, encurvando os ombros.

Em poucos instantes foram rodeados por pessoas que gritavam, o cavalo foi detido, mas não antes que pisasse em Tearle. Este permaneceu imóvel, tratando respirar profundamente, não conseguia perceber se suas costelas estavam a salvo ou não.

Debaixo dele Zared começou a mover-se para liberá-lo do seu peso e por sua vez respirar.

— Está ferido?— gritou um homem, e virando-se para outros ordenou: — Vão procurar uma maca. Nós o levaremos.

Tearle se moveu com esforço e rodou para um lado, de modo a permitir que a jovem se levantasse e olhando-a, compreendeu que não podia permitir que o levassem para a tenda. Não podia dar a Zared outro motivo para pensar que não fosse grande coisa como homem. Respirou profundamente e rolou sobre um lado.

— Irei procurar Severn.— Exclamou a moça. Não conseguiu dizer mais, só podia pensar que um Howard provavelmente havia salvo a vida de uma Peregrine. Iria procurar Severn, ele saberia agir com um homem ferido.

— Estou bem — disse Tearle, falando com dificuldade. Tinha a impressão que o lado direito de seu corpo estava esmagado.

— Severn pode…

— Não!— interrompeu-a fechando os olhos para se defender da dor e fazendo um enorme esforço, conseguiu sentar-se.

— Está ferido— disse Zared. — Vou procurar ajuda e…

— Não!— interrompeu-a de novo.

Enquanto isso, ao seu redor se reuniu gente e todos estavam surpreendidos pelo fato que um homem que tinha sido golpeado de maneira tão brutal por um cavalo, pudesse comportar-se como se nada tivesse ocorrido.

Com grande esforço Tearle ficou de pé. Novamente respirou de forma profunda e lentamente, pensou que parecia que suas costelas estavam intactas. — Devemos voltar para acampamento— disse.

— Mas você deve…

— Devo o quê?— perguntou olhando-a fixamente.

— Nada — respondeu ela zangada. — Não quero que faça nada. Se estivesse ferido gritaria. Quanto a mim, devo voltar para o meu irmão.

Afastou-se o deixando livre para segui-la ou não. Não gostava do modo que seus joelhos tremiam depois do ocorrido. O corpo de Tearle havia protegido completamente o dela e não tinha visto o cavalo, mas sentiu o impacto dos cascos quando o golpeara.

Protegera-a com o seu corpo, por quê? O que queria dela, esse Howard? Voltou a olhar para ver se a estava seguindo.

Tearle caminhava, mas rígido. Havia dito que não estava ferido, mas não podia ser assim. Devia pedir que a deixasse examinar suas feridas?

Ela, uma Peregrine, precisar de sua ajuda? Por outro lado a salvara. Por que a salvara? Por que não deixou que o cavalo a pisoteasse? Isso faria desaparecer um Peregrine da terra.

Devia querer algo dela. Devia ter um motivo para desejar que ela vivesse. Tinha falado de um matrimônio entre eles, um matrimônio que uniria suas famílias. Que aconteceria se encontrassem os documentos que comprovassem que os verdadeiros proprietários das terras dos Howard eram os Peregrine? Provavelmente Oliver Howard tinha encontrado esses documentos e enviou o irmão caçula para cortejar a única Peregrine de sexo feminino. Isto podia explicar o desejo de Tearle de que ela se mantivesse com vida. Se a única Peregrine tivesse morrido, as duas famílias não poderiam unir-se; se os documentos fossem encontrados, Oliver Howard perderia as terras pelas quais tinha assassinado.

Começou a sentir-se um pouco menos fraca, tudo começava a fazer sentido para ela. Esse Howard a queria viva e bem de saúde, e queria que ela consentisse em desposá-lo. Isso explicava o motivo pelo qual lhe deu às luvas…era uma tentativa de agradá-la.

Não conseguirá, pensou. Nunca será capaz de conseguir qualquer coisa que tramar.

Se está ferido, o que aconteceu foi por seus motivos egoístas. Endireitou os ombros e caminhou depressa para o terreno do torneio. Já não se sentia culpada porque um Howard a protegera.

Capítulo Sete Tearle conseguiu caminhar em direção ao terreno do torneio com a cabeça erguida e mantendo as costas retas, perguntando-se ao mesmo tempo de que raça de mulher era Zared. Um homem tinha arriscado a vida para salvá-la e isso parecia deixá-la indiferente.

Parou na tenda para deixar as luvas, e logo a seguiu. No terreno do torneio, Severn estava preparado para lutar, evidentemente de péssimo humor por algo que devia ter acontecido durante a refeição. Repreendeu Zared por seu atraso e o primeiro homem que enfrentou foi abatido duramente por sua lança que caiu e rolou na poeira. A multidão aplaudiu, mas o mau humor persistiu.

Tearle, afastado, observava Zared que corria de um lado ao outro para levar as lanças ao irmão e fazia o que podia para ser útil. Fez uma única tentativa para falar com a moça, mas somente obteve uma resposta ácida.

— Acredita que pode me impressionar, Howard? - Murmurou. — Acredita que aceitarei me casar com você para unir nossas famílias? Espera com isso assegurar-se de ter as terras que pertencem a minha família?

A parte direita do corpo de Tearle doía de morrer por ter tentado salvá-la, e ela falava de terras, de propriedades.

Olhou-a atônito enquanto corria para ajudar Severn, que se preparava para lutar com Colbrand.

Viu-a sorrir com doçura para este último, inclusive enquanto ajudava o irmão, e pensou que se arriscou a morrer por essa menina que nem sequer o agradecera, enquanto Colbrand que não tinha feito nada, recebia sorrisos e gentilezas.

Continuou a manter-se afastado e olhou os dois combatentes que se colocavam um em direção ao outro. Ambos eram ótimos combatentes e a menos que um dos dois tivesse mais sorte que o outro, o duelo teria como resultado um empate. No quarto ataque, Tearle começou a sofrer observando que Zared retinha a respiração com os olhos fixos em Colbrand, temendo que pudesse ferir-se.

— Não se importa que os cascos do cavalo tenham me pisoteado, mas teme que uma simples lança de madeira golpeie o corpo de Colbrand, protegido pela armadura — murmurou.

Quando Severn rompeu a quarta lança contra Colbrand, exatamente como este despedaçou outras quatro contra seu adversário, Tearle fez com que Zared se movesse e ele mesmo levou água e lança para Severn. Enquanto este bebia disse: — Colbrand abaixa muito a lança e a coloca mais para a esquerda. Acredito que pode ganhar levantando a sua, desviando-se para a esquerda.

Severn o olhou zangado. — Minha irmã parece interessada nesse Colbrand. Deseja que o desmonte?

— Eu gostaria de vê-lo comer pó.

Severn sorriu e ao tomar a lança que o outro lhe estendia replicou: — De acordo, farei o melhor que puder.

Pouco depois rompeu uma lança contra a armadura de Colbrand que não conseguiu romper a sua, e Tearle não pôde deixar de dizer a Zared: — Pelo que se vê, seu invencível cavalheiro está perdendo.

— Só com meu irmão — rebateu ela. — Só contra um Peregrine. Ninguém mais pode vencê-lo. Nenhum outro homem da Inglaterra.

— Eu...— Tearle começou a dizer, mas parou.

— Você…o que?— Perguntou, olhando-o. — Não quer dizer que poderia vencê-lo. — Ela sorriu com brincadeira. — Os Howards não sabem combater nobremente.

Afastou-se dele e alcançou Severn que se dirigia para a tenda dos Peregrine. De repente Tearle sentiu que já tinha o suficiente. Sempre teve mais mulheres do que desejou. Nunca foi difícil obter seus favores e agora essa garotinha conseguia fazer com que duvidasse de si mesmo.

Parou um menino que passava, deu-lhe uma moeda de cobre e disse que levasse uma mensagem à Lady Anne, que estava sentada na tribuna. Pouco depois viu que Anne se inclinava para escutar o menino e logo disse algo ao seu pai, antes de afastar-se em direção ao castelo, e a seguiu a distância.

Quando a viu subir a escada, continuou a segui-la e no segundo andar entrou atrás dela em uma sala e fechou a porta.

— Está em perigo?— perguntou-lhe a jovem.

— Queria matar uma mulher— respondeu.

— E eu queria matar um homem — declarou Anne.

— Colbrand?

— Não, trata-se de seu inimigo, esse Peregrine.

— Severn?— perguntou Tearle começando a soltar o cinturão e tirar a túnica.

— O que aconteceu?

— Um cavalo passou em cima de meu corpo, quero que dê uma olhada na ferida. O que Severn tem feito a você?

Anne começou a ajudar seu amigo a despir-se e explicou:

— Sabe que pretende casar-se comigo? Está decidido a fazê-lo. Hoje durante a refeição, meu pai o fez sentar-se ao meu lado, e ele me disse que veio para obter minha mão. Parece estar convencido que se trata de uma grande honra para mim… e ao que parece, o mesmo pensa meu pai, agora que viu como combate.

Tearle sentiu compaixão por Anne…não era fácil entender os Peregrine. Quando se libertou da camisa de linho, Anne sufocou uma exclamação.

— Está cheio de machucados…Tearle, o cavalo não se limitou a passar em cima… ele o golpeou com seus cascos. Tem outros hematomas? Tire o resto da roupa, quero ver.— Assim dizendo abriu a porta e pediu a um servente que passava, que trouxesse ataduras e água quente.

Tearle sorriu, pensando que as mulheres deveriam ser todas como Anne. As mulheres deviam ser doces e gentis criaturas capazes de consolar um homem. As mulheres deviam fazer coisas de mulheres e não afiar o fio de uma espada.

Tirou o resto das roupas ficando só com as meias postas, se deitou na cama e pouco depois Anne, a doce Anne, tão feminina, curava suas feridas com salvia.

— Fale-me dela—, disse a jovem.

Tearle começou a dizer que não podia, que seria perigoso, mas sabia que podia confiar em sua amiga. Depois de tudo, confiara sua própria vida; se houvesse dito a Severn quem era verdadeiramente o homem que se chamava Smith, o irmão de Zared certamente o teria assassinado.

Assim contou tudo desde o começo…de quando os homens de Oliver tinham capturado o mais jovem dos Peregrine e que ele percebeu que se tratava de uma jovem.

Contou que esta o detestava, que ele estava apaixonado e do que tinha planejado fazer para estar perto dela.

— Mas ela gosta de Colbrand — disse amargamente. — Para salvá-la a protegi com meu corpo, mas não consegue ver-me como um homem.

— Poderia combater com o Colbrand e vencê-lo, e também a Severn….como vê, gostaria de vê-lo derrubado na terra!— exclamou Anne com os olhos brilhantes . — Hoje, depois da refeição, tentou me beijar.

Sorriu: — Mas eu me defendi.

Tearle fez uma careta: — Pelo que vejo temos os mesmos objetivos. Seu pai não a obrigará a casar-se com um homem que não é capaz de vencer um torneio…— Sorriu. — E eu gostaria de vencer Colbrand….gostaria de desmontá-lo.

— Se não tivesse decidido adotar este tolo disfarce, poderia combater contra eles e vencê-los. Vi-o combater e é melhor que esses dois.

— Sim—admitiu Tearle tristemente, sentando-se para que Anne pudesse enfaixá-lo. — Se não tivesse que continuar a fingir ser Smith….— Interrompeu-se e a olhou fixamente: — Poderia combater agora!

— Sim— exclamou Anne, vivamente. — Não há nenhuma razão para que não possa fazê-lo. Anuncie que é um Howard e participe dos duelos nos dois próximos dias. Os Peregrine não ousarão atacá-lo enquanto estiver sob o teto de meu pai.

— Não...— replicou Tearle, pensativo. — Não baixarei no mesmo nível que Oliver. Muita gente me viu com os Peregrine, serão considerados loucos por ter acolhido um Howard entre eles.

— Mas são uns loucos!— exclamou veemente a jovem.

Tearle olhou o delicado rosto dela. Não estava se queixando muito? E disse: — Não tenho a impressão que Severn desgoste às mulheres….

— É um mal-educado, um grande mal-educado; acredita que uma mulher pode ser possuída sem seu consentimento….como um objeto…

— Mas não é desagradável de olhar, — replicou Tearle. — Monta muito bem a cavalo.

— Queria vê-lo cair desse cavalo. Queria que fizesse um papelão, queria….

— Entendo—, interrompeu-a Tearle, incapaz de ocultar sua própria diversão.

— Se você se atrever a rir de mim, eu….

— Rir de você? — exclamou Tearle com falsa inocência. — Eu, um homem ferido por causa dos Peregrine, rir de uma pessoa que lhes deseja o pior?

A fisionomia de Anne relaxou e a jovem pensou que Tearle a conhecia há muito tempo para não entender imediatamente o que passava por sua mente. Quando esse homem fedendo a suor e cavalo a empurrou para um lugar escuro, num primeiro momento respondera ao seu beijo. Era estranho esse homem. Parecia dar por certo que ela estava contente, até impaciente para casar-se com ele. Durante a refeição seu pretendente falou com Hugo Marshall em tom confidencial, como se já fossem parentes, e Hugo respondera no mesmo tom enquanto Anne era ignorada, sentada entre os dois. Peregrine repetidamente estendeu o braço diante dela para servir-se de comida, e ela teve que lutar para que não a tocasse com os cotovelos. Tinha conversado com seu convidado exatamente como se ela não estivesse presente, discutindo naturalmente, sempre e só sobre armas.

Por isso sabia que nesse homem não havia nada refinado. Colbrand, o outro pretendente que não desgostava o seu pai, tinha boas maneiras e sabia conversar com ela.

Peregrine era incapaz disso. Estudou-a da cabeça aos pés, com uma expressão vulgarmente apreciativa e logo não a dignou com um só olhar.

Depois da refeição partiu com Hugo. Anne quis retirar-se mas seu pai ordenou que o acompanhasse, queria que mostrasse alguns falcões para Peregrine. Anne, obediente seguiu-os com duas de suas damas sem falar e sem lhe dirigir uma só palavra.

Perto dos estábulos, o homem a levou a um rincão e a beijou. Tinha respondido ao seu beijo, talvez porque estivesse muito zangada, mas se recompôs imediatamente.

Levantou um joelho e o jogou com força entre suas pernas. Ele a afastou de si, furioso.

Anne, não querendo que ele percebesse que estava assustada, permaneceu imóvel.

Depois de um breve silêncio Severn disse:— Volte com seu pai! — e a deixou ali mesmo. Tinha que admitir que aquela não era a reação que esperava. Mas estava contente por deixá-lo zangado. Provavelmente renunciaria a aspirar sua mão.

— Tomarei parte do torneio, com um disfarce — Tearle estava dizendo.

— Um disfarce?

— Sim….como o Cavalheiro Negro. Pode me proporcionar uma armadura pintada de negro? Desafiarei os participantes que até hoje foram os melhores.

— Vale dizer a Colbrand e a esse Peregrine. Ninguém parece estar em condições de fazê-lo.

Tearle recordou o modo como Zared olhava para Colbrand cada vez que aparecia diante dela e sentiu que o invadia uma onda de orgulho. — Eu os vencerei— disse em voz baixa. — Por você vencerei Severn, e por mim mesmo farei com que Colbrand se arrependa de ter vindo ao mundo.

Anne sorriu. — Encontrarei a armadura. Espere-me no jardim a meia-noite, entregarei todo o necessário. E verei se consigo arrumar as coisas com meu pai…a ideia de um cavalheiro misterioso que lutará com seu campeão o agradará.

Tearle se levantou, agora as costelas doíam menos. — E se em prêmio me conceder sua mão?

Anne sentada na borda da cama, olhou-o: — Aceitarei— disse.

Tearle lhe devolveu o olhar. A jovem era tão formosa, tão fina e sabia que seu dote era vultoso. O fato de unir a família dos Howard a dos Marshall seria algo muito sábio; Oliver certamente aprovaria esse matrimônio….sem dúvida utilizaria o dote da cunhada para adquirir mais armas em sua obsessão de destruir os Peregrine.

Olhando o rosto de Anne, em seus olhos apareceu o de Zared. Era bela, mas é claro não podia competir com a beleza de Anne….entretanto tinha uma inocência que Anne nunca teria. Recordou a expressão da moça quando provou uma das luvas. Desejava mostrar-lhe um mundo de coisas novas e distintas.

De repente pensou que talvez se sentisse fascinado precisamente pela falta de experiência dela. Talvez porque ele tenha vivido intensamente, a inocência de Zared lhe parecia deliciosa. Até os olhares de adoração que dirigia a Colbrand o deixavam perplexo.

Anne e as mulheres como ela estavam acostumadas a flertar com os homens, mas nunca deixavam vislumbrar seus sentimentos.

Tearle sabia que se Anne amasse um homem, não daria a entender, a menos que lhe fosse conveniente. Mas Zared…se Zared amasse um homem, o protegeria com sua própria vida.

— Em tal caso considerarei sua decisão como uma grande honra — disse, e ao pronunciar essa mentira, sorriu.

Anne também sorriu, sabendo que não foi sincero.

— Agora se vista. Sairei primeiro, de maneira que ninguém me veja perto de um homem semidesnudo, embora pudesse ser meu pai.— Tearle lhe lançou um olhar intenso. Depois de confrontar-se com Zared, era agradável ser observado como um homem.

— A meia-noite, então— disse enquanto ela alcançava a porta.

Anne assentiu e saiu da sala.

Zared deixou o campo mais confusa que nunca. Estavam acontecendo muitas coisas. Continuava a recordar, a sentir o corpo de Howard enquanto o cavalo o atropelava….enquanto a protegia: entretanto mais tarde tinha recusado qualquer ajuda da parte dela.

Salvara-a por alguma outra razão? Queria seriamente unir os Peregrine com os Howard? Se o seu irmão encontrou os documentos que comprovavam que os Peregrine eram os proprietários das terras nas mãos dos Howard, Oliver Howard devia ter destruído todos eles. Não precisava enviar seu irmão ao torneio com a finalidade de unir ambas as famílias.

Colocou as mãos nos ouvidos, para deter o curso de seus pensamentos tumultuosos. O que esse homem queria dela?

Porque não ia e a deixava sozinha e …. Colbrand?

Pensando no cavalheiro, Zared decidiu vê-lo. Talvez a visão do homem loiro a faria esquecer o moreno que começava a obcecá-la. Diante da tenda de Colbrand foi recebida com desprezo por parte de Jaime, o escudeiro.

— Está aqui para nos insultar?— perguntou.

— Não, eu…— Refletiu por um momento. — Desejava somente….ver Colbrand.

— Seu irmão teve a sorte do seu lado. O cavalo do meu patrão patinou.

— Não foi assim!— protestou ela. — Severn lutou melhor, isso é tudo.

— Não supera em nada o meu patrão! — gritou Jaime. — Meu patrão combate muito melhor, é mais refinado que seu irmão; ao final vencerá e obterá a mão de Lady Anne.

Zared estava muito perturbada pelos acontecimentos do dia para conter sua língua e disse:

— Meu irmão desposará Lady Anne .

Jaime estalou em uma gargalhada zombeteira. — Lady Anne detesta o seu irmão. Faz caretas quando ele não a vê, mas outros a veem. Hoje depois da comida, golpeou-o.

Zared olhou o moço. Sabia que suas palavras correspondiam à verdade. Mas ao mesmo tempo o odiava por tê-las pronunciado. O escudeiro era de baixa estatura e magro, pensou que poderia esmagá-lo como se esmaga um inseto.

Deu um passo em sua direção, mas Colbrand chegou nesse momento, pondo uma mão no ombro.

— Estão brigando de novo, vocês dois?— perguntou divertido.

— Disse que você pretende casar-se com Lady Anne— Falou Jaime amuado.

— Ah, sim…a deliciosa Anne…seu pai deseja para ela um marido muito forte.

— E portanto dará preferência ao Peregrine!— exclamou Zared.

— E fará uma boa escolha — disse Colbrand.

Zared sorriu. Esse cavalheiro não só era belo e amável, mas também generoso.

Queria responder, mas nesse momento Severn chegou zangado, puxou-a pela orelha e a empurrou em direção a sua tenda.

— O que está fazendo?— perguntou assustada, sem obter resposta.

Soltou-a somente quando chegaram ao destino.

— Onde está Smith?— perguntou.

— Não sei — replicou Zared massageando o ouvido dolorido. — Ele é meu guardião, não eu o seu.

Severn se serviu de um pouco de vinho: — Me disseram o que aconteceu hoje. Salvou a sua vida e para protegê-la se deixou golpear por um cavalo.

Zared olhou para outro lado. — Tinha boas razões para fazê-lo.

— Sim …creio que está apaixonado por ti.

A moça abriu os olhos, atônita : — Apaixonado? Por mim?

— Não está menos surpreendida que eu, mas ele te olha exatamente como Rogan olha para Liana. — E Severn pensou que ele nunca olharia para uma mulher desse modo.

— Equivoca-se — replicou Zared. — Esse homem não sente nenhum afeto por mim.

— Deu-se conta que é uma mulher, aproxima-se quando chora na noite e agora te salvou a vida.

Essa conversa enchia Zared de horror. Nunca tinha falado de amor, nem nenhuma emoção com seus irmãos. — É o que pensa?— perguntou, desconfiada.

— Acredito que Liana tenha em mente te casar com esse homem. Deve havê-lo enviado para que a corteje.

— Liana não o …

— Não o terá… o que?

— Não pensa em fazer com que se case comigo — respondeu, incapaz de revelar algo mais. — O que importa com quem me case?

— Esse homem conhece as armas. Deu-me bons conselhos, graças aos quais pude vencer Colbrand.

— Entendo— disse friamente Zared. — Quer que me case com ele para ter alguém que o ajude a combater os outros homens nos torneios.

— Alguém que ajude a nossa família a vencer os Howard.

— Esse homem não o ajudará!— murmurou ela, e logo para defender-se atacou: — Porque não se casa você, para ajudar a nossa família? Está me empurrando para me casar porque acredita que não obterá a mão de Lady Anne? Soube que o feriu.

Severn se avermelhou de cólera: — O que eu faço com uma mulher não é coisa sua.

— E minha vida no entanto é sua?— Não consegue encontrar esposa e quer me dar por marido um homem do qual nada sabe?

— Sei que a quer, coisa que nenhum outro homem demonstrou desejar— soltou Severn.

Era certo, era dolorosamente certo, pensou a jovem. Só um homem a desejava e era o inimigo jurado de sua família. Afastou-se de seu irmão, escapulindo quando ele tentou agarrá-la, e saiu da tenda. Correu e só parou quando chegou ao arroio. Sentou-se na borda, inclinou a cabeça sobre seus braços e começou a chorar. Por que para ela a vida não era simples como parecia sê-lo para outros? Naturalmente outros sabiam que eram varões ou mulheres.

Não soube quanto tempo permaneceu ali chorando em silêncio, mas enquanto secava o nariz com sua manga, sobressaltou-se porque de pé ao seu lado viu o odioso Howard.

— Não tem nada para fazer?— balbuciou.

O jovem se sentou a seu lado — Não tenho nada para fazer…sou um dos Howard bons para nada, não se lembra?

Zared o olhou, pensando nas palavras de Severn….esse homem a desejava.

— Eu me lembro da maneira que seu irmão capturou Jeanne, a primeira esposa de Rogan e mais tarde também capturou Liana.

— Então devia ser só uma menina— disse. — Como pode se lembrar de Jeanne? Em todo caso é a melhor coisa que fez em sua vida.

Zared olhou a luz da lua refletida na água e disse: — Liana fala muita bem dela…— Baixou a voz: — Ama muito o seu irmão? - Nunca havia falado com ninguém, mas a história da primeira mulher de Rogan a fascinava; o irmão mais velho decidiu que Rogan se casaria porque a família necessitava do dote. Rogan havia desposado uma jovem mulher de nome Jeanne, e poucos meses depois do matrimônio Oliver Howard a raptara.

Continuar: parte 3 de 3