A copa como ela é
2. Uma Copa, muitas agendas
Dia 6 de dezembro de 2013. O sorteio das chaves da Copa do Mundo na Bahia servia como uma espécie de termômetro da expectativa mundial que iria se criar para o evento em junho de 2014. Afinal, aquele momento definiria os adversários das seleções e traçaria o caminho que cada uma delas teria até a grande final no Maracanã.
Os sorteios foram sempre coloridos, marcados por polêmicas, debates e curiosidades. Em 1978, por exemplo, o então presidente da Fifa, João Havelange, levou ao palco do sorteio seu neto, Ricardinho. Na verdade, Havelange apenas estava repetindo o gesto que, em 1938, Jules Rimet inaugurou na história das Copas. No sorteio para aquele Mundial às vésperas da Segunda Guerra Mundial, o então mandachuva do futebol levou ao palco Yves, seu neto, para fazer o sorteio.
Em 1950, no Brasil, a ausência de algumas seleções atrapalhou o sorteio. Mas houve quem se beneficiou. O Uruguai acabou ficando no grupo 4, sozinho com a Bolívia, já que os demais times de seu grupo optaram por não viajar até o distante Brasil. A própria Fifa hoje se pergunta: um programa mais leve para a Celeste na primeira fase teria facilitado a vida do Uruguai na vitória do Mundial?
Há também inúmeras acusações de sorteios manipulados. Sophia Loren, em 1990, não disfarçava sua alegria ao sortear para enfrentar a sua Itália os times da Tchecoslováquia, Estados Unidos e Áustria, num grupo considerado como fácil para os donos da casa. A acusação no dia seguinte foi de que ela usava um anel magnetizado e que atrairia as “bolas corretas”. Em 2006, na Alemanha, Lothar Matthäus foi acusado de ter sido orientado a procurar as bolas frias que haviam sido colocadas num congelador antes do evento para garantir um grupo mais fraco para o time da casa.
Nenhuma dessas acusações jamais foi provada e os rumores apenas contribuíram para alimentar uma espécie de magia que se forma cada vez que o Mundial se aproxima.
Mas, no caso do sorteio na Bahia, a polêmica não dizia respeito a como ele foi realizado. O debate começou quando percebeu-se o que aquelas tabelas acarretavam para os times. Treinadores, cartolas e torcedores estrangeiros se deram conta de que, em apenas um mês de torneio no Brasil, seriam obrigados a percorrer longas distâncias entre os jogos, passando ocasionalmente de um clima tropical a um inverno num espaço de três dias.
A seleção mais afetada foi a dos Estados Unidos, que terá de viajar 15 mil quilômetros, quase metade da circunferência do planeta. Os italianos percorrerão outros 14 mil. A França, por exemplo, joga dia 15 de junho contra Honduras em Porto Alegre. Cinco dias depois, estará em Salvador para enfrentar a Suíça e, no dia 25, termina a primeira fase no Rio de Janeiro. A Nigéria joga na abafada Cuiabá no dia 21 de junho contra a Bósnia e, quatro dias depois, entra em campo na fria Porto Alegre contra a Argentina.
Na cabeça de muitos, a mesma pergunta: quem é que montou esse calendário?
Inútil buscar uma resposta nas regras do futebol ou mesmo em considerações esportivas. Acima de tudo, a Copa do Mundo é um projeto político e, portanto, não é de se estranhar que a definição de seu calendário, jogos e sedes sejam resultados de arranjos políticos. Mesmo que isso signifique que o sacrificado seja o futebol. O fator que definiu o calendário da Copa do Mundo no Brasil é apenas um: as alianças políticas.
Lembro-me perfeitamente do dia em que o Brasil foi escolhido pela Fifa para ser a sede da Copa, em 30 de outubro de 2007. Dos lugares que a Fifa havia reservado para a imprensa em uma das salas de conferência, via-se um cenário que dificilmente conseguiria ser repetido no Brasil.
No palco, ao lado da réplica da taça da Copa do Mundo, a comitiva brasileira que comemorava a designação do País não era composta por jogadores ou ex-craques. Mas sim por Teixeira, rodeado como um rei por um grupo desconcertante formado pelos governadores Eduardo Braga (AM), Alcides Rodrigues (GO), Ana Júlia Carepa (PA), José Serra (SP), Sérgio Cabral (RJ), Aécio Neves (MG), Binho Marques (AC), José Roberto Arruda (DF), Jacques Wagner (BA), Cid Gomes (CE ), Blairo Maggi (MT) e Eduardo Campos (PE). Isso, claro, além de Lula e alguns de seus ministros.
O sorriso escancarado no rosto daqueles políticos e os aplausos efusivos a Teixeira e a Blatter mostravam a força daquele evento como trampolim eleitoral. Ali já estava a chave para se entender a magia pela qual a Fifa — entidade que deve zelar pelo futebol — aceitou que o maior evento esportivo do planeta obrigue seleções a viajar o equivalente à metade do planeta em apenas um mês.
CANDIDATO ÚNICO
No fundo, não apenas o calendário da Copa, mas a própria escolha do Brasil para sediar o evento em 2014 foi resultado de um acerto entre os cartolas. Não restam dúvidas hoje de que a escolha do Brasil como sede foi, acima de tudo, uma definição política e resultado de um acordo e de barganhas que impediram que o país sequer enfrentasse um concorrente para sediar o maior evento coletivo da sociedade moderna e o torneio mais cobiçado do mundo do esporte.
Tudo começou em 2000. A Fifa havia decidido voltar a adotar o sistema de rodízio entre os continentes e, depois de mais de trinta anos, a Copa retornaria para a América do Sul. Estava dado o primeiro passo para garantir que o Brasil fosse a sede. Numa reunião da Conmebol em 2003, em Assunção, algo inédito aconteceria. As dez federações sul-americanas anunciariam que dariam todo o apoio para que o Brasil fosse a sede da Copa de 2014. O maior evento do mundo ocorreria sem que houvesse mais de um candidato, algo inexplicável aos olhos do resto do mundo.
Teixeira, naquele momento, já apontava que a escolha do Brasil com onze anos de antecedência permitiria ao país criar a infraestrutura básica para ter uma Copa. “Normalmente, os países só sabem que vão sediar a Copa seis anos antes, isso nos dá uma grande vantagem”, disse. “Temos muito tempo para trabalhar e podemos realizar isso aos poucos. O Brasil está à altura do desafio”, concluiu Teixeira.
De fato, nenhum país no mundo jamais teve onze anos para se preparar para uma Copa, e tudo isso sem o temor de perder a vaga para um concorrente. Ao longo dos anos, ficaria claro que o único adversário do Brasil seria sua própria classe política e seus cartolas-coronéis.
Na época, chegou-se a cogitar que a Federação Peruana de Futebol poderia apresentar um projeto para uma Copa Andina, envolvendo Colômbia, Equador, Peru e Bolívia. O projeto se revelaria impraticável. Primeiro porque isso exigiria que todas as quatro federações envolvidas participassem da Copa, num continente que tem apenas cinco vagas. Outro fator que inviabilizava o projeto era a questão das grandes altitudes das capitais andinas.
Mas a escolha do Brasil como candidato único seria, acima de tudo, um feito de Ricardo Teixeira, presidente da CBF. Costurando alianças, distribuindo favores e prometendo apoios, ele simplesmente anulou qualquer concorrente. O contexto regional também ajudaria. A Argentina vivia momentos complicados em sua economia e uma instabilidade política num país onde o drama dos tangos imita a realidade. Já a Colômbia enfrentava o auge da guerra contra o narcotráfico e a guerrilha. O Brasil ainda tinha um argumento forte: o país do futebol não sediava a competição havia mais de meio século.
O resultado foi um apoio unânime à CBF que, em troca, garantia para o presidente da Associação de Futebol Argentino, Julio Grondona, sua manutenção como vice-presidente da Fifa e seu comando de fato sobre as finanças da Conmebol. Naqueles mesmos anos, a CBF ainda aprovaria uma ampliação da Copa Libertadores para atender equipes menores do continente e abriria mão de organizar a Copa América por três décadas. A última vez que o país recebeu o evento regional foi em 1989, e uma nova competição continental somente ocorreria no Brasil depois da Copa do Mundo de 2014, mais especificamente em 2019.
Na Fifa, a escolha do Brasil como sede também caía como uma luva para seu presidente, o suíço Joseph Blatter. O cartola havia assumido o comando da entidade em 1998 das mãos de Havelange. Mas não escondia de pessoas próximas que seu grande temor era o poder de outro brasileiro: Ricardo Teixeira. Bem mais jovem que o suíço, dono da maior seleção do mundo e ex-genro de Havelange, o presidente da CBF era visto como uma real ameaça em futuras eleições. Dar a Copa ao Brasil, portanto, serviria para “engessar” Teixeira na CBF por pelo menos dez anos. Blatter, assim, poderia se concentrar em vencer eleições e acumular mandatos, sem ter de temer o poder do brasileiro. E de fato foi isso que ocorreu. Depois de já ter sido reeleito uma primeira vez em 2002, o suíço voltaria a vencer em 2007 e em 2011.
Mas nem tudo sairia como planejado. Blatter, ao longo dos anos, acabaria em parte lamentando seu apoio incondicional ao Brasil, justamente por se dar conta de que, sem um concorrente, a CBF poderia apresentar um projeto vazio para sediar a Copa do Mundo e, ainda assim, levaria o Mundial. Os mais irônicos dentro da Fifa apontam que o real problema de não ter um concorrente contra o Brasil era a incapacidade dos cartolas da entidade de “barganhar” seu voto entre diferentes países. Ou seja, fazer um leilão com seu apoio à candidatura que oferecesse as melhores condições para o cartola.
Manipulador, Blatter passaria a lançar alertas contra o Brasil, ainda que sempre soubesse que o Mundial ficaria com o país. Em cada entrevista dada, ele apontava que não havia garantias de que o Brasil seria a sede da Copa e que, antes, o país precisaria provar que tinha condições de realizar o Mundial. Outra de suas estratégias foi convidar outros países a furar o compromisso da Conmebol e apresentar candidaturas alternativas à do Brasil.
Em uma entrevista que me concedeu em 2005, o suíço lançaria uma polêmica: ele propunha que Argentina e Chile lançassem uma candidatura conjunta para 2014, mesmo que ele tivesse declarado apenas dois anos antes que jamais repetiria o “erro” de dar uma Copa a dois países — no caso o Mundial de 2002 no Japão e Coreia do Sul.
No mesmo dia em que Blatter lançou a proposta, os governos de Buenos Aires e de Santiago enviariam cartas à Fifa alertando que não tinham qualquer intenção de acatar a sugestão. Ao me encontrar com Blatter semanas depois, ele me confessaria que não imaginava que a reação dos dois governos seria tão negativa.
Ele finalmente conseguiria que o Canadá expressasse interesse em sediar a Copa do Mundo de 2014. Mas, por não estar na América do Sul, o país apenas entraria na briga se o Brasil se mostrasse incapaz de produzir uma candidatura. Blatter faria a mesma sugestão em relação aos EUA, apontando que o país estava pronto para receber o evento.
A única real ameaça à CBF viria de uma iniciativa pessoal do então presidente da Colômbia, Álvaro Uribe, que anunciou em julho de 2006 que o país se candidataria para ser sede do Mundial de 2014. O registro da candidatura ocorreria no último dia do prazo, em dezembro, e faltando apenas horas para o encerramento das inscrições. Ao cruzar com Teixeira naqueles dias em Zurique, comentei com o cartola a notícia que chegava de Bogotá. “Você tem certeza?”, questionava. “Quando aconteceu isso?”, insistia, visivelmente irritado. Ao perceber que a notícia era real, Teixeira passou à segunda parte de sua estratégia: menosprezar e ridicularizar qualquer adversário. “Aquele governo sequer controla seu território. Vamos ter as Farc sediando jogos também?”
Curiosamente, Blatter, que tanto buscou uma alternativa ao Brasil, foi quem enterrou as chances dos colombianos. Em março de 2007, ele acusaria a proposta de Uribe de ser apenas uma “jogada de relações públicas”. De fato, o presidente colombiano anunciou que pretendia sediar não apenas a Copa, mas o concurso de Miss Universo.
Blatter estava disposto a tudo. Menos a um coadjuvante que usasse seu evento para fins pessoais e que permitisse que o Brasil saísse com a sensação de vencedor, sem sequer ter um orçamento ou projeto para a Copa. Para o suíço, a meta dos colombianos não era a de receber o Mundial, mas de usar o evento e a campanha para mostrar ao mundo que, apesar da guerrilha, a Colômbia era um país que caminhava para a normalidade a ponto de poder receber uma Copa. Ainda estava na mente dos cartolas da Fifa o fiasco da Copa América de 2001 na Colômbia. Por conta da violência, a seleção argentina sequer compareceu ao torneio.
Os comentários de Blatter caíram como uma bomba nas ambições de Bogotá e, no dia 11 de abril de 2007, a Federação Colombiana de Futebol enviou um comunicado para a Fifa anunciando que estava desistindo de sua candidatura e apoiando incondicionalmente o Brasil como sede do Mundial de Futebol.
A disputa internacional havia sido evitada. Teixeira e a CBF poderiam se dedicar a leiloar os jogos da Copa dentro do Brasil aos governadores, prefeitos, empreiteiras e clubes.
A DISPUTA DOMÉSTICA
Para chegar ao mirabolante calendário dos 64 jogos espalhados por doze estádios, o trabalho da Fifa e da CBF não foi nada fácil. No total, 57 versões do que seria a Copa do Mundo foram produzidas, até que as promessas políticas fossem atendidas e que o organograma respeitasse também o interesse das televisões e patrocinadores. Enfim, todos foram consultados. Menos o futebol.
Em sua inspeção de 2007, a Fifa deixava claro: a Copa no Brasil ocorreria em oito sedes. Pelo menos dois motivos eram considerados naquele momento. O primeiro era justamente a questão da distância. Na última vez em que a Fifa realizou uma Copa num país continental, em 1994, nos EUA, um limite de nove sedes foi estabelecido. Ainda assim, o número apenas foi autorizado porque cinco delas ficavam no Nordeste americano. O segundo motivo era o temor de que, com doze sedes, as chances de que a Fifa fosse acusada de erguer elefantes brancos eram multiplicadas.
Mas a CBF e a classe política brasileira convenceram a Fifa de que, uma vez mais, as regras deveriam ser revistas para a Copa no Brasil. Oficialmente, o argumento era de que, com doze sedes, a Copa iria a todos os rincões do País e que, ao contrário da Copa de 1950, não seria justo um Mundial apenas para algumas regiões. A realidade é que apenas com doze sedes a CBF e o governo federal poderiam atender a todos os seus aliados políticos. Quem também comemorou foram as empresas de construção que, no lugar de reformar ou erguer apenas oito estádios, poderiam atuar em doze cidades diferentes. Nove deles seriam novos. Todos ganhavam. Menos o futebol.
Nos bastidores, a disputa por quem seria sede da Copa começou imediatamente depois de o Brasil ter sido escolhido, numa corrida desenfreada entre políticos para seduzir a CBF e o governo federal. Não apenas mais de uma dezena de governadores e ministros foram até Zurique, em 2007, como a CBF reuniu um total de 22 cidades que se apresentavam como potenciais candidatas para o evento.
Oficialmente, Teixeira e mesmo o governo federal insistiam que a escolha seria realizada com “critérios técnicos”. O que se viu nos meses seguintes foi uma disputa política que pouco tinha a ver com o futebol e que envolveu diretamente até mesmo o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Belém, Belo Horizonte, Brasília, Campo Grande, Cuiabá, Curitiba, Florianópolis, Fortaleza, Goiânia, João Pessoa, Maceió, Manaus, Natal, Porto Alegre, Recife/Olinda, Rio Branco, Rio de Janeiro, Salvador, São Paulo, Teresina e Campinas iniciaram um lobby que envolvia não apenas viagens frequentes até Brasília, mas promessas de apoio a Teixeira no Rio de Janeiro. O cartola havia conseguido para ele e para a CBF tudo o que Blatter, com a candidatura única do Brasil, não conseguiu para a Fifa: o poder de barganhar com cada um que quisesse ser sede da Copa.
Se a decisão de dar a Copa ao Brasil foi tomada em Zurique, parte da história do Mundial ocorreu no gabinete do então líder do PMDB no Senado, Renan Calheiros (AL), que em diversas ocasiões cedeu seu escritório quando Ricardo Teixeira estava na capital e precisou se reunir com deputados, governadores e senadores. O local foi testemunha de bajulações de deputados que defendiam que suas cidades fossem sede da Copa, num exercício que, embora legítimo, consistia em dar sinais implícitos de que iriam poupar Teixeira de qualquer tipo de acusação ou investigação. Calheiros e a CBF ainda mantinham outro ponto de aliança: o então diretor de Assuntos Legislativos da CBF, Vandenberg Machado, havia sido um servidor do Senado e chefe de gabinete de Calheiros nos anos em que o senador foi o Ministro da Justiça, entre 1995 e 1998. O diretor também já havia servido anos antes como assessor do presidente José Sarney.
O número de deputados com algum tipo de relação com a CBF também era expressivo. A entidade já tinha, inclusive, um escritório em Brasília. Na verdade, pode-se dizer de tudo do endereço da CBF na capital. Menos qualificá-lo de “escritório”.
Na mansão alugada desde 1997 do Lago Sul, na chácara 17 da QI 15, não era difícil no início dos anos 2000 encontrar políticos e seus assessores, cartolas, presidentes de federações e lobistas desfrutando da piscina na casa de dois andares. Uma vez por semana, eles ainda eram convidados a um animado rachão num gramado perfeito. O dia não terminaria sem um churrasco oferecido pela CBF, regado a bebida. Oficialmente, a explicação para a existência da mansão era a necessidade de cuidar de passaportes de jogadores na Polícia Federal e manter o diálogo com embaixadas estrangeiras. Mas ninguém escondia que o lobby para defender diante dos legisladores os interesses da CBF era sua principal atividade.
No mesmo período, a CBF passou a fazer doações para campanhas eleitorais de deputados, prefeitos e vereadores. A entidade liderada por Teixeira, por exemplo, financiou as campanhas dos deputados Darcísio Perondi (PMDB), José Rocha (PFL-BA) e Eurico Miranda (PPB-RJ), todos membros da comissão que, em 2001, formaria uma CPI para investigar os contratos entre Teixeira e a Nike. Eurico, o folclórico ex-presidente do Vasco da Gama, recebeu em 1998 cerca de R$ 50 mil da CBF, que, na prática, bancou metade dos custos de sua candidatura. Anos depois, ele seria o vice-presidente da CPI cuja finalidade era a de investigar a CBF. Os senadores do PMDB Gilvam Borges (AP) e Renan Calheiros (AL) também foram financiados na época pela CBF.
A distribuição de “gentilezas” da CBF ainda envolvia as federações estaduais onde presidentes e cartolas apoiassem Teixeira. Um levantamento feito pelo então deputado Silvio Torres e outros congressistas indicou que a entidade doou R$ 12,5 milhões às federações e políticos entre 1998 e 2000. Constatou-se que, em momentos eleitorais, o volume de dinheiro crescia. “Em 1998, as doações intensificaram-se no período eleitoral, a partir de setembro, e chegaram ao máximo em dezembro desse ano, estendendo-se até janeiro de 1999, num valor total de R$ 1 885 768,00. Em 1999, as doações se mantiveram iguais durante o restante do ano, na faixa de R$ 300 mil por mês. Em 2000, ano das eleições municipais, novamente as doações intensificaram-se depois de agosto”, indicou o informe.
Um dos objetivos era justamente financiar a campanha de cartolas para que pudessem se eleger para cargos públicos. O futebol não apenas era um palanque para futuros políticos, mas financiava suas campanhas. Em 1998, por exemplo, o presidente da Federação do Acre, Antônio Aquino Lopes, recebeu R$ 57,5 mil para sua campanha eleitoral. Em troca, segundo o informe, a CBF apenas esperava um apoio político a Teixeira.
A prática continuaria nas eleições em 2006, quando um total de oito candidatos receberam R$ 500 mil para suas campanhas da CBF, entre eles Roseana Sarney, com R$ 100 mil. Seu irmão, Fernando Sarney, ocupou cargos na CBF.
O investimento de Teixeira conseguiu render frutos por anos e o blindou de uma ação que poderia ter derrubado o cartola anos antes de sua saída da CBF, em 2012. Em mais de uma ocasião, a “Bancada da Bola” no Congresso evitou passar projetos de leis que complicariam a vida da CBF e dos clubes, impediu a criação de CPIs e fez questão de atuar nos bastidores para abafar qualquer tipo de críticas a Teixeira.
Nos últimos anos de seu mandato, não era raro ver o presidente da CBF em Brasília, inclusive em reuniões no Palácio do Planalto, chegando a ser recebido pelo ex-ministro das Relações Institucionais de Lula, Luiz Sérgio. O objetivo central era sempre o de impedir a criação de uma CPI para investigar a condução da entidade nos preparativos da Copa de 2014. Teixeira atuou de forma intensa para convencer o governo federal a dar instruções à sua base aliada para não aderir a qualquer tipo de CPI. Enquanto o cartola não estava em Brasília, era o representante da CBF na capital, Vandenberg Machado, quem percorria os corredores do Congresso, articulando formas para impedir a criação de uma CPI e fazendo promessas.
Parte dessa ação teria um resultado positivo para os interesses da oligarquia do futebol brasileiro. Em 2013, por exemplo, a CBF conseguiu derrubar uma emenda que exigia transparência no esporte. O texto do projeto de lei obrigava um cartola ou um clube que recebesse recurso público a assegurar uma gestão transparente do clube beneficiado. Mas, para a CBF, isso era pedir demais e a emenda à Medida Provisória (MP) 615 foi retirada do relatório elaborado pelo senador Gim Argello (PTB-DF). O político admitiu naquele momento que, misteriosamente, não havia conseguido o apoio da base do governo para sua proposta e que, de fato, a ordem do Palácio do Planalto era para que a emenda fosse abolida. Em seu lugar, entraria uma proposta que iria justamente no sentido inverso: ela permitiria que os clubes continuassem a receber dinheiro de projetos como a loteria Timemania, mesmo devendo para a Receita Federal e sem se comprometer com a transparência de suas contas.
Em outra iniciativa de sucesso da CBF, o Congresso aprovou uma lei isentando os dirigentes esportivos de qualquer responsabilidade se seus clubes se afundassem em dívidas. Coincidência ou não, o projeto foi apresentado pelo deputado José Rocha (PR-BA) que, segundo os registros do TSE, recebeu mais de R$ 150 mil para suas campanhas eleitorais justamente dos cofres da CBF.
A aprovação dessas leis ou a blindagem a Ricardo Teixeira não têm uma relação direta com a Copa do Mundo. Mas, diante dessas relações incestuosas entre Brasília e a CBF, fica claro que nenhuma decisão referente à Copa do Mundo seria tomada sem levar em consideração interesses políticos e eleitorais. É por esse prisma, portanto, que precisamos olhar para entender a forma pela qual as sedes no Brasil foram escolhidas. A primeira definição viria dois anos depois da escolha do país para sediar o evento.
Em 31 de maio de 2009, a Fifa abandonou sua ideia de apenas oito sedes e anunciou que doze cidades receberiam a Copa do Mundo no Brasil. A entidade havia entrado em um acordo com a CBF e com o governo federal ampliando os dividendos que Teixeira e o próprio governo Lula teriam em 2009, com mais quatro estados agraciados. Em troca da ampliação da Copa, a Fifa recebeu garantias do Palácio do Planalto que haveria dinheiro público nesses estádios.
O pacote estava fechado: de um lado, Brasília e a CBF ampliariam o número de aliados e, de outro, o governo abriria as torneiras do BNDES para assegurar que não faltaria dinheiro.
Nas semanas que antecederam a escolha, o que se viu foi uma movimentação intensa entre Brasília, as capitais estaduais e a CBF. Teixeira recebeu todos os governadores e prefeitos das cidades candidatas.
Algumas já haviam ficado pelo caminho. João Pessoa, Maceió, Teresina e Campinas retiraram suas candidaturas. Na última rodada, ficaram de fora Florianópolis, Rio Branco, Belém, Campo Grande e Goiânia.
Assim, a Copa de 2014 ocorreria em doze cidades: Porto Alegre, Curitiba, São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Brasília, Cuiabá, Salvador, Recife, Fortaleza, Natal e Manaus.
Em seu congresso anual de 2009, nas Bahamas, a Fifa se apressou em tentar explicar que a definição das sedes havia sido técnica. “Não ouvimos interferências políticas. Houve gente que disse que deveríamos ir aqui ou ali. Mas pensamos no esporte”, garantiu Blatter.
Longe dali, dirigentes comemoravam e davam declarações efusivas à imprensa, demonstrando que a opção fora, acima de tudo, política. Se oficialmente fazia sentido uma Copa em todo o território nacional, impedindo que o evento ficasse concentrado no Sudeste, esse argumento escondia a intenção de políticos e cartolas de usar a Copa como um instrumento para atender interesses clientelistas, além de escancarar a lógica eleitoral de apoio entre o governo federal e seus aliados estaduais.
Um dos casos mais polêmicos foi a escolha de Manaus, por exemplo, em detrimento à candidatura de Belém, considerada pelos informes técnicos como a terceira melhor do país. A CBF acabou optando pela capital do Amazonas e abriu um verdadeiro tiroteio por parte das autoridades de Belém. A cidade paraense havia gasto R$ 2,5 milhões na época para viabilizar sua campanha. Apesar de já ter um estádio que poderia apenas ser reformado para a Copa, a cidade perdeu para Manaus, que foi obrigada a construir sua arena do zero. Parte da explicação estaria no gabinete do então governador do Amazonas, Eduardo Braga, e de um partido — o PMDB — que formava parte da base de sustentação do governo Lula. O Palácio do Planalto precisava atender seus aliados e a distribuição de jogos da Copa não ficou de fora dessa lógica política.
Entre os mais inconformados pela derrota de suas cidades, não faltaram nem mesmo as teorias da conspiração para tentar explicar o motivo pelo qual Manaus levou a Copa. Até hoje, políticos de Belém insistem que outro ponto também teria pesado: o fato de que tanto a Sony quanto a Coca-Cola, patrocinadoras da Fifa, contam com fábricas em Manaus. As empresas jamais comentaram a decisão.
Até mesmo os políticos de cidades e estados que perderam a Copa tentaram se beneficiar com o clima de expectativa que se formava naquele momento. Mesmo sabendo que deveria ficar de fora da lista de doze sedes, o governo da paraense Ana Júlia Carepa organizou uma festa para acompanhar o anúncio das cidades em 2009. O evento reuniu mais de 20 mil pessoas, com direito a trio elétrico, distribuição de bebidas e tudo animado por grupos musicais.
De fato, de Norte a Sul do Brasil, a realidade é que, no momento do anúncio das doze sedes em 2009, a escolha se transformou imediatamente em um cabo eleitoral para os governos, prefeitos, deputados, senadores e vereadores que se autoproclamaram os responsáveis por suas cidades terem sido as escolhidas para a Copa, mesmo que Blatter tenha rejeitado essa versão.
Um palanque foi montado em Manaus dentro do estádio Vivaldo Lima para acompanhar o anúncio. As 40 mil pessoas que foram até o local puderam escutar da parte dos políticos como eles haviam garantido a cidade no mapa da Copa. Só a festa daquele dia custou quase R$ 800 mil aos cofres públicos.
Na cidade de Cuiabá, que acabou batendo Campo Grande, aliados do governador Blairo Maggi (PR) se apressaram em mostrar à população que a escolha da Fifa fora fruto da ação nos bastidores do político que, desde 2007, visitava Zurique e a CBF cada vez que a Copa era assunto. No estado vizinho, o prefeito de Campo Grande, Nelson Trad Filho, esperou a eliminação de sua cidade para desmentir Blatter e confessar: “a decisão foi política”.
Em Salvador, dias antes do anúncio, o mesmo deputado José Rocha que estava na folha de pagamentos da CBF confessaria que a capital da Bahia seria uma das escolhidas para receber a Copa. Ele chegou a declarar que a entidade com sede no Rio de Janeiro havia pedido que ele organizasse uma festa no Barradão (o estádio do Vitória) para marcar o fato.
Se os vencedores estavam gratos a Teixeira e passaram a acumular uma dívida política com o cartola, a CBF sabia que não poderia abandonar as demais candidatas. Habilmente, Teixeira iniciaria quase que imediatamente uma campanha para não criar adversários nas cidades preteridas. Ele passou a distribuir pelo Brasil o restante dos eventos da Fifa, como os seminários de árbitros e os centros de treinamento que receberiam as seleções. O cartola sabia já em 2009 que não poderia se dar ao luxo de criar inimigos.
A CBF rapidamente comunicou aos líderes partidários no Congresso que já tinha planejado uma forma de compensação e chegou a indicar ao governador do Espírito Santo, Paulo Hartung (PMDB), que Vitória poderia até mesmo receber a Seleção Brasileira para o período de preparação. A dezenas de outros, a promessa é de que poderiam ser “subsedes” da Copa, uma garantia dada pela CBF que não significaria muito, mas que poderia ser usada por políticos locais a seus eleitores para mostrar que o estado não havia sido excluído. No total, mais de oitenta cidades foram selecionadas como subsedes para eventualmente receber as 32 seleções da Copa.
A peregrinação ao gabinete de Teixeira não pararia, nem mesmo com a definição das sedes. Marconi Perillo, governador de Goiás, chegou a viajar até o Rio de Janeiro para colocar o estado à disposição, caso houvesse algum problema com uma das doze cidades escolhidas.
Nos bastidores, a Fifa passou a acusar abertamente o governo federal e o ex-ministro dos Esportes, Orlando Silva, por ter barganhado benefícios políticos na escolha de cidades que receberiam os jogos. Assessores que trabalhavam com o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva ainda confirmaram que ele se envolveu nos debates das sedes, interveio e fez questão de colocar aliados políticos nos planos da Fifa. Mas, finalmente, as sedes da Copa estavam definidas. Ou pelo menos isso era o que pensava a Fifa em 2009.
A VEZ DOS GOVERNADORES
A entidade máxima do futebol acreditava que finalmente poderia passar a se concentrar nas obras dos estádios, que já naquele momento davam sinais claros de atrasos. A Fifa descobriria que os problemas estavam apenas começando, e pelo menos outros dois anos foram necessários para que um calendário conseguisse ser desenhado.
Parte significativa das sedes escolhidas não tinha como pedir ao setor privado que bancasse a construção das arenas. Manaus, Natal e Cuiabá corriam o risco de erguer elefantes brancos, e seus times locais dificilmente teriam um público suficiente em seus jogos para justificar que os clubes ou outras empresas bancassem as obras.
A conta acabou caindo na mesa de governadores e prefeitos que, depois de fazer o lobby para trazer a Copa a suas cidades, agora teriam de abrir seus cofres, sempre com a ajuda do BNDES. O problema era justificar diante da população gastos milionários em estádios para receber três ou quatro jogos de seleções eventualmente fracas e sem qualquer apelo aos torcedores.
Assim, uma segunda rodada de lobby começou: quais das doze sedes receberiam a Seleção Brasileira e quais delas ficariam com as outras grandes seleções da Copa, como Espanha, Argentina ou Alemanha?
Já em 2007, num almoço na Fifa que contou com Lula, o então governador de São Paulo, José Serra, e Sergio Cabral do Rio, ficou estabelecido que a capital paulista abriria a Copa e que o Maracanã encerraria o evento. Faltava definir os outros 62 jogos.
Nos bastidores, governadores e prefeitos iniciaram uma pressão que beirou a chantagem: se não recebessem jogos de peso na Copa, não liberariam verbas para erguer os estádios. Era o troco dos governadores a uma CBF que, até então, havia leiloado a Copa pelo Brasil.
A solução uma vez mais foi política e o calendário foi anunciado apenas em 2011, quatro anos depois de o Brasil receber o direito de sediar o Mundial, algo jamais visto pela Fifa.
Ao contrário da história das Copas, não haveria mais a separação de grupos por regiões de um país. Seleções não ficariam mais apenas em um estado e todos teriam de viajar por todo o Brasil. Se isso não fazia sentido em termos esportivos, pouco importava. Governadores receberiam seleções de diversos pesos e o perigo de sediar apenas uma partida entre Bósnia e Irã estava afastado.
A Fifa havia apelado ao Brasil para montar um esquema que dividisse o país em quatro regiões, concentrando cada grupo e evitando viagens de longa distância para os times e torcedores. De fato, em 2010, Teixeira daria uma coletiva de imprensa no Soccer City Stadium de Johanesburgo confirmando que existia o plano de dividir o país em quatro regiões, justamente para evitar que as seleções tivessem que percorrer um continente durante um mês e, ao mesmo tempo, apresentar o melhor de seu futebol.
Mas, quando o calendário foi apresentado em 2011, todas as promessas e as considerações esportivas foram ignoradas. A própria plateia do evento sediado em Zurique mostrou a dimensão política do calendário. Mesmo sem ser convidados pela Fifa, os governadores do Distrito Federal e representantes de Pernambuco e Minas Gerais viajaram até a cidade suíça. Nenhum dos governadores tinha sequer uma agenda a ser seguida na Fifa. Mas ainda assim estavam lá. Os jogadores e ex-estrelas foram mantidos longe do evento.
Depois de desenhar 57 versões diferentes do calendário para a Copa, Teixeira anunciaria um cronograma com um forte cunho político. A divisão do país por regiões estava abolida e todos teriam de atravessar o país.
Dois anos depois, em 2013, no sorteio das chaves da Copa na Bahia, estava confirmado o plano: praticamente todas as cidades receberiam grandes seleções, um alívio para seus governadores.
Os investimentos de São Paulo no novo estádio do Corinthians estavam justificados com a abertura entre Brasil e Croácia, além de outros cinco jogos com Uruguai, Inglaterra, Holanda e uma das semifinais.
Belo Horizonte também comemorou seus seis jogos, inclusive uma semifinal, além da passagem de Argentina e Inglaterra pela cidade. Mesmo Manaus, questionada, acabaria recebendo quatro jogos, de equipes como a da Inglaterra, Itália e Portugal de Cristiano Ronaldo.
Brasília, depois de erguer um dos estádios mais caros da história no mundo, acabaria ficando com sete jogos, inclusive com uma partida da Seleção Brasileira.
O Nordeste também saiu valorizado e um terço da Copa ocorrerá na região, um forte contraste com a Copa de 1950, que destinou apenas um jogo para os estados nordestinos. Em 2014, das 64 partidas que serão disputadas, 21 acontecerão no Nordeste. Natal, uma das últimas a entrar na Copa, receberá quatro jogos, inclusive as seleções do Uruguai e Itália. Salvador acumularia seis jogos, com Alemanha, Espanha, Holanda, França e Portugal. Já Fortaleza será a única cidade a ver o Brasil duas vezes, além de Alemanha e Uruguai.
Apenas Cuiabá não teve sorte, mesmo diante do conchavo político. A cidade ficará sem receber pelo menos um campeão mundial. A capital mato-grossense terá quatro partidas, envolvendo seleções como Chile, Austrália, Rússia, Bósnia e Colômbia.
CALOR? QUE CALOR?
Superado o leilão político da Copa, restava apenas mais um elemento para a Fifa estabelecer o calendário do evento: os horários dos jogos. O trabalho não seria fácil. Afinal, a entidade teria de adequar as promessas políticas a um organograma que atendesse ao formato também das televisões e a interesses comerciais.
O resultado não poderia ter sido mais desastroso para o futebol: a Copa vai colocar seleções para jogar nos momentos mais quentes do dia.
Em Brasília, cinco jogos começarão às 13 horas, incluindo uma partida das oitavas e outra das quartas de final. Em Fortaleza, outra cidade-sede quente, uma das partidas também será neste horário e pode ser da Seleção Brasileira. Caso a equipe se classifique em segundo lugar do grupo A, jogará as oitavas de final no Castelão logo no início da tarde.
Dois jogos em Salvador, ambos da primeira fase, começarão às 13 horas. As seleções que jogarão em Natal e Recife também terão de se preparar melhor, pois três partidas estão previstas para começar no horário mais quente do dia.
A Fifa insiste que levou em consideração a temperatura nas cidades-sede para marcar os horários dos jogos. Mas a realidade é que nem mesmo os campeonatos regionais nesses estados contam com jogos nessas horas do dia. Ainda que julho seja um mês de inverno no Brasil, o Nordeste marca temperaturas elevadas nos horários estabelecidos.
A Federação Internacional de Jogadores se queixou da decisão e enviou para a Fifa um dossiê completo sobre os riscos que atuar nesses horários representaria. A pressão de seleções também foi intensa e a Fifa acabou modificando o horário de duas partidas por conta do calor: Camarões x Croácia e EUA x Portugal foram adiadas das 16h para as 19h em Manaus.
Mas acabou vencendo o lobby das transmissoras de tevê que pagaram verdadeiras fortunas para ter o direito de transmitir os jogos e insistem em mostrar as partidas das seleções europeias em horário nobre na Europa, e não no meio da madrugada.
Assim, a partida entre Inglaterra e Itália que ocorreria às 22h em Manaus foi antecipada para 19h, o que permitiria que fosse exibida nos canais europeus em um horário mais favorável. Espanha x Chile foi antecipado de 19h para 16h, também para beneficiar a audiência espanhola.
O ajuste não ocorre por acaso. Hoje, metade da renda que a Fifa obtém da Copa vem dos contratos assinados para a transmissão do evento aos quatro cantos do mundo. Para a Copa de 2014, a entidade irá arrecadar US$ 2,2 bilhões em receitas de direitos de transmissão. A realidade é que a Fifa conseguiu multiplicar seus lucros com o evento.
A Copa da Itália de 1990, por exemplo, teve uma renda obtida com as emissoras de US$ 95 milhões. Quatro anos mais tarde, o valor chegou a US$ 110 milhões, passando para US$ 135 milhões em 1998, US$ 1,3 bilhão na Copa de 2002. Entre ingressos, direitos de TV e marketing, a Copa de 2006 gerou US$ 1,7 bilhão.
Em 2010, quatro mercados — Reino Unido, França, Alemanha e Espanha — pagaram juntos à Fifa 1 bilhão de euros pelos direitos de TV. Nos Estados Unidos, a ABC e a ESPN se uniram para pagar US$ 100 milhões pela transmissão das copas de 2010 e 2014, esta última sem sede definida à época do contrato. Ainda no mercado americano, a Univision Communications Inc. pagou US$ 325 milhões pelos direitos de transmitir apenas em espanhol as duas próximas copas do mundo, inclusive por celulares.
Em resumo: entre 1990 e 2014, a arrecadação da Fifa com as emissoras aumentou em mais de vinte vezes. E não seriam detalhes como o calor em sedes escolhidas por motivos políticos que iriam impedir a entidade de colocar jogos em horários nobres para as audiências mais ricas.
Para a Copa de 2018, porém, a Fifa já aprendeu com o Brasil e prometeu que não vai deixar que a mesma disputa política se repita na definição dos jogos. A Rússia organizará a Copa apenas na parcela ocidental do país e com uma distância máxima entre cidades de apenas duas horas de voo. A definição das sedes ocorreu no mesmo ano em que os russos foram selecionados.
A Fifa nunca escondeu que realizar uma Copa em um país sem democracia é mais fácil. Afinal, bastaria uma definição de cima e as coisas aconteceriam, sem o questionamento de governos estaduais e, principalmente, sem ter de prestar contas à população.
O problema no caso do Brasil é que não foi a democracia que atrasou o processo de escolha de sedes e definições, mas justamente o fato de o poder público e os cartolas-coronéis terem se apoderado da Copa para transformar o evento em um instrumento eleitoral e de barganha política. Quem perdeu não foi só o futebol, mas também os cidadãos que jamais foram consultados.