A copa como ela é

Jamil Chade · Capítulo 5 de 6

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A copa como ela é

4. Os donos da bola

 

“Se a senhora um dia tivesse que definir a malandragem, no bom sentido, claro, ela se chamaria Ricardo Teixeira.” A frase foi dita por João Havelange à jornalista Daniela Pinheiro, publicada pela revista piauí em meados de 2011. A definição do ex-presidente da Fifa sobre aquele que havia sido seu genro e seu herdeiro político poderia até parecer um elogio. E de fato essa era exatamente a intenção de Havelange.

Isso se não tivesse vindo da boca de um dirigente que teve de renunciar a seus cargos de presidente de honra da Fifa e membro do Comitê Internacional Olímpico para evitar uma condenação pública por fraude e corrupção. Um dirigente esportivo que flertou abertamente com ditadores em todo o mundo e que não hesitou em emprestar a Seleção Brasileira aos militares em Brasília nos piores anos do regime militar.

Havelange tinha razão em muitos sentidos. Teixeira provaria ser um dos cartolas mais hábeis do futebol brasileiro. Multiplicou os lucros da CBF, levou o Brasil a ganhar Copas do Mundo e trouxe o Mundial ao país. Mas, para ele, tão importante quanto o desenvolvimento do futebol no Brasil era sua carreira e interesse pessoal. Em mais de vinte anos no comando, ele tornou o futebol brasileiro um negócio privado e não escondia isso. Para Teixeira, a CBF não devia explicações a ninguém. Afinal, era uma entidade privada.

Teixeira havia também planejado a Copa de 2014 para ser o seu trampolim. Um trampolim para ser presidente da Fifa, um trampolim para abafar todas as acusações que existiam contra ele por corrupção e um trampolim para colocá-lo na história do futebol brasileiro. O projeto pessoal de Teixeira havia começado muito antes de qualquer pedra ter sido colocada na construção dos estádios no Brasil.

Teixeira ocupava a presidência da CBF desde 1989 e passou a comandá-la com um estilo que marcaria a gestão do futebol nacional por quase um quarto de século. Não eram raras as eleições com apenas um candidato, com processos questionados na Justiça comum entre acusações de corrupção e compra de votos. Teixeira, a cada quatro anos, conseguia superar os obstáculos e os adversários. No total, ele venceria seis eleições.

Mas seriam os seus últimos anos como presidente da CBF que escancarariam sua obsessão pelo poder e o fato de ele ter privatizado e personificado tanto a entidade que controla o futebol brasileiro quanto a própria Copa do Mundo.

Nessa obsessão pelo poder, tudo era planejado nos mínimos detalhes. Em 2006, um ano antes de o Brasil ganhar da Fifa o direito de sediar a Copa, Teixeira já selava seu próprio futuro. Naquele ano, por unanimidade, a assembleia anual da CBF aprovou uma proposta feita pelo presidente que prolongaria seu mandato por mais sete anos, algo inédito na história da entidade.

Sua proposta era clara: quem estivesse ocupando o cargo de chefia da entidade da CBF no momento em que o Brasil fosse eleito para sediar a Copa de 2014 ficaria no cargo até o evento. Segundo Teixeira, a prorrogação de um mandato ainda serviria para garantir a “continuidade” dos projetos da Copa, evitando atrasos nas obras.

Mesmo o mês da eleição havia sido cuidadosamente planejado. Ela ocorreria antes da Copa de 2014, ainda que o novo presidente assumisse a entidade apenas depois do evento. A lógica era simples: se o Brasil não vencesse o Mundial, as críticas seriam de tal proporção que dificilmente ele conseguiria se eleger ou apontar seu sucessor. Assim, ficou estabelecido que a eleição ocorreria antes de a bola rolar.

O plano estava traçado. Ele e o mundo sabiam que o Brasil seria escolhido para sediar a Copa. Ou seja, sabia que iria permanecer no comando da CBF por mais sete anos. Sua manobra, se a CBF fosse um governo, poderia bem ser chamada de um “golpe brando”. Mas, sem qualquer disposição de ser classificado como um cartola adepto ao tapetão no futebol, Teixeira tentou dar uma explicação racional. “Quem for eleito em 2007 terá o mandato definido até depois da Copa. Não é prorrogação. Não estamos mudando nada neste mandato agora”, justificou Teixeira na época. Poucos saíram convencidos de que aquilo não era um golpe.

Sérgio Rangel, premiado repórter da Folha de S. Paulo no Rio de Janeiro, revelaria os bastidores daquela reunião que prorrogaria o poder de Teixeira. A presidência da assembleia havia ficado nas mãos de Delfim Peixoto, presidente da Federação de Santa Catarina. O catarinense tinha dois motivos para comemorar ao final do encontro. O primeiro foi o de ter conduzido o processo evitando crises internas e, claro, aprovando a proposta que Teixeira o havia instruído a seguir. Mas Peixoto também comemorava o fato de ter sido premiado no sorteio realizado após a reunião pela própria CBF. Claro, por total coincidência. A entidade escolheu dez presidentes de federações para assistir à Copa de 2006 na Alemanha. O pacote incluía voos, hospedagem e ingressos para os jogos. Todos com direito a um acompanhante. Peixoto foi um dos “sorteados”.

Pelas novas regras, Teixeira ficaria no comando do futebol brasileiro até 2014 e a Copa seria sua plataforma para chegar até a presidência da Fifa, cuja eleição ocorrerá justamente em 2015. O plano era perfeito. Se chegasse ao final, ele se transformaria no cartola que mais tempo ocupou o poder no futebol brasileiro: 26 anos. Ele superaria até mesmo Havelange, que comandou a antiga CBD por dezesseis anos, de 1954 a 1978.

Assim, quando a Fifa deu sem surpresas a Copa ao Brasil, a entidade também estava garantindo Teixeira no comando do futebol brasileiro por outros sete longos anos.

Centralizador, Teixeira passaria a controlar todo o futebol brasileiro e a acumular cargos. Não apenas mandava na CBF como também passou a ser o presidente do Comitê Organizador Local da Copa, uma entidade que, nos outros Mundiais, era sempre presidida por uma pessoa que não acumulava as funções de direção da federação local. Afinal, uma coisa é ser o presidente da federação responsável por organizar campeonatos, cuidar da Seleção Brasileira e desenvolver o futebol de base no Brasil. Outra coisa é presidir sobre a organização da Copa do Mundo e a construção de estádios. Ele era ainda o representante do Brasil no Comitê Executivo da Fifa e, num caso único em décadas, a realidade é que Teixeira acumulava todos os cargos de relevância do futebol nacional.

Na prática, Teixeira mandava no calendário do futebol, nas regras dos campeonatos, controlava a Seleção Brasileira, decidia quem seria seu técnico, fechava ou cancelava acordos comerciais e, com a Copa, decidia também quais cidades e quais clubes teriam novos estádios. Na Fifa, influenciava as decisões mundiais do futebol, suas regras, a distribuição de dinheiro entre federações, elegia as próximas sedes das Copas e manobrava até parcerias comerciais. Enfim, um monopólio avassalador no futebol brasileiro que nem mesmo escândalos pareciam ameaçar. E esses escândalos não foram poucos.

Teixeira contaria à jornalista Daniela Pinheiro que, apesar das intensas críticas, colocava em prática uma velha máxima de que uma notícia que não seja veiculada na TV Globo simplesmente não existe para o público brasileiro. “Não ligo. Aliás, caguei. Caguei montão”, disse na entrevista quando foi questionado sobre o que achava das críticas veiculadas nos demais jornais do país. “Só vou ficar preocupado, meu amor, quando sair no Jornal Nacional.”

A reportagem da piauí dá o tom de como era a relação entre a TV Globo e Teixeira. “Durante a CPI da Nike, em 2001, a rede levou ao ar uma reportagem no Globo Repórter sustentando que a renda de Ricardo Teixeira era incompatível com o seu patrimônio e padrão de vida. A CBF anunciou pouco depois, do nada, uma mudança no horário de transmissão de uma partida Brasil x Argentina, clássico sul-americano que costuma bater recordes de audiência. Em vez de ser exibido no horário de praxe, depois da novela das oito, o jogo foi marcado para as 19h45, contou a reportagem.

“Pegava duas novelas e o Jornal Nacional. Você sabe o que é isso?”, cochichou Teixeira à jornalista. “Como a Globo transmitiu a partida, amargou o prejuízo de deixar de mostrar diversos anúncios no horário nobre, o mais caro da programação. A partir daí, não houve mais reportagens desagradáveis sobre o presidente da CBF na Globo”, completou a revista.

E esse acordo seria mantido até o fim da gestão de Teixeira na CBF. O cartola renunciaria ao cargo de presidente da CBF em março de 2012. Naquela noite, o Jornal Nacional dedicaria vários muitos a uma reportagem apontando o cartola como responsável por ter resgatado o futebol brasileiro, praticamente um mecenas moderno.

“No comando da CBF, Ricardo Teixeira organizou o calendário do futebol nacional e instituiu a fórmula dos pontos corridos para o Campeonato Brasileiro. Foram medidas benéficas para a economia dos clubes, que passaram a ter atividade o ano inteiro”, indicou o Jornal Nacional. “Teixeira assumiu a Confederação Brasileira de Futebol quando a seleção tinha apenas dois patrocinadores. Deixa a seleção com dez patrocinadores e a CBF com o faturamento anual de R$ 271 milhões — números de 2010”, indicou. “Sua última realização à frente do futebol brasileiro não foi alcançada no gramado. Em 2007, Ricardo Teixeira comandou a campanha vitoriosa que fez a Fifa conceder ao Brasil o direito de organizar a Copa do Mundo de 2014”, contou a emissora.

O Jornal Nacional admitiu o que todos sabiam: que Teixeira era acusado na Justiça por corrupção. Mas, na reportagem que marcaria sua despedida, apenas uma parcela da história foi contada. “Ao longo da carreira, Ricardo Teixeira foi alvo de denúncias. Diante de todas elas, Teixeira sempre disse que as acusações eram falsas e tinham caráter político”, afirmou. “A denúncia mais contundente foi a de que ele e um grupo ligado à Fifa teriam recebido dinheiro de forma irregular nas negociações de uma empresa de marketing esportivo, em 1999. Viu os processos serem arquivados pela Justiça”, disse a reportagem do Jornal Nacional.

O que a TV Globo não contou foi o motivo pelo qual o processo foi arquivado: Ricardo Teixeira e João Havelange pagaram uma indenização de mais de R$ 5 milhões depois de terem sido formalmente acusados pela Justiça suíça de terem fraudado a própria Fifa. A decisão de arquivar o caso não veio da constatação de que os brasileiros eram inocentes. Muito pelo contrário. Eles haviam montado um verdadeiro banco paralelo à Fifa, por onde passaram milhões de dólares em propinas durante mais de vinte anos. E sempre de forma impune.

 

O CAIXA 2 DA FIFA

Aquela de fato seria uma das maiores dores de cabeça da história da Fifa. Mas, na origem da disputa, ninguém jamais poderia ter imaginado o terremoto que ela causaria, anos depois.

Tudo começaria com uma briga interna pelo poder, como é frequentemente o caso em entidades, governos e empresas.

Em 2002, o então secretário-geral da Fifa, Michel Zen-Ruffinen, abriu um processo contra seu próprio chefe, Joseph Blatter. As alegações vinham às vésperas de mais uma eleição na Fifa e Blatter estava convencido de que precisava de um segundo mandato. Nos meses precedentes ao voto, o suíço até mesmo aumentou o salário de cada um dos membros do Comitê Executivo para US$ 50 mil ao ano, tentando apaziguar as diferenças. Seu concorrente vinha da África: Issa Hayatou, que já havia feito campanha contra Blatter em 1998 e liderava a Confederação Africana de Futebol, com mais de cinquenta votos.

As acusações de Zen-Ruffinen caíam como uma luva para o africano. “A Fifa é hoje dirigida como uma ditadura”, afirmou o secretário-geral em uma entrevista no dia 5 de maio de 2002 à CBC Sports. O número de acusações era imenso. Elas apontavam desde a ação de Blatter para comprar aliados e até mesmo pagar outros para garantir a “morte” de seus inimigos diante de revelações bombásticas.

O ex-árbitro nigeriano Lucien Bouchardeau, por exemplo, seria acusado de ter recebido dinheiro para levar evidências contra o vice-presidente da Confederação Africana de Futebol, Farah Addo. Addo havia sido um dos críticos da gestão de Blatter e a forma pela qual ele teria manipulado os votos já nas eleições de 1998. “O presidente (Blatter) lhe deu diante de dois empregados da Fifa um cheque de US$ 25 mil indicando que Bouchardeau receberia outros US$ 25 mil se as informações que trouxesse servissem aos objetivos do presidente”, afirmou Zen-Ruffinen.

Entre várias acusações, a principal delas se referia à falência da empresa de marketing ISL. A companhia havia sido criada justamente para negociar acordos de transmissão da Copa do Mundo, um dos negócios mais rentáveis do planeta. Mas, misteriosamente, a empresa quebrou.

Naquele momento, não eram poucos os que acreditavam que os dias de Blatter na Fifa estavam contados. O suíço, segundo seus inimigos, teria conduzido a entidade à beira da falência. Blatter foi pressionado a pedir demissão, mas se recusou e alegou que tudo aquilo não passava de acusações políticas. Mostrando mais uma vez sua habilidade em contornar as maiores crises, Blatter reconstruiu sua rede de aliados e garantiu mais uma vitória nas eleições da Fifa de 2002.

Um desses “amigos fiéis” seria o então presidente da Confederação de Futebol da América do Norte, Central e Caribe, Austin Jack Warner. Figura polêmica, Warner começou como professor de História nos colégios de Trinidad e Tobago. Mas logo descobriria o poder do futebol. Ele passou a ser o dono do time Joe Public F.C., ganhou espaço no futebol caribenho, foi eleito como membro do Comitê Executivo da Fifa já em 1983 e até mesmo ocupou cargos de Ministro de Estado em seu país.

Seu envolvimento no futebol e na Fifa também representava lucros. Nos anos 1980, Warner recebia os direitos de transmissão dos Mundiais da Fifa e pagava um simbólico US$ 1,00 pelo contrato. Mas os revendia a preço de ouro para as televisões da região do Caribe. Na Fifa, Warner praticamente controlava 35 votos nas eleições e, para completar, era um dos vice-presidentes da entidade.

Outro fiel aliado de Blatter era Mohamed Bin Hammam, uma das maiores fortunas do Catar e que chegou a ceder seu jato para que o suíço saísse em campanha pelo mundo. Uma década depois, Blatter retribuiria os favores com uma humilhação pública a Bin Hammam, que justamente havia decidido concorrer à presidência da Fifa em 2011. Mas, pelo menos naqueles anos, o xeque era um dos maiores cabos eleitorais do suíço. Com amigos como Warner e Bin Hammam, Blatter sobreviveria no cargo.

Ninguém poderia imaginar as consequências daquela briga. Zen-Ruffinen havia formalizado sua denúncia num tribunal suíço, como forma de pressionar Blatter. Numa estratégia quase suicida para tentar mostrar que não tinha nada a temer, o próprio Blatter decidiu abrir um processo na Justiça, argumentando que esperava recuperar cerca de US$ 122 milhões da quebra da ISL. Essa iniciativa seria usada dezenas de vezes por ele para se defender publicamente. “Por que é que eu tenho de temer algo que fomos nós quem começamos”, afirmou em fevereiro de 2008, quando questionado se estava preocupado com o processo.

Mas tudo aquilo não passava de um teatro. Na Fifa, ninguém queria que uma auditoria externa ou a Justiça começasse a vasculhar as contas da entidade, um verdadeiro buraco negro. Tanto Blatter quanto Zen-Ruffinen acabariam retirando seus casos da Justiça quando a turbulência política passou e as eleições foram definidas. Para quem estava na Fifa naqueles anos, o fim das eleições, a vitória de Blatter, a demissão de Zen-Ruffinen e o arquivamento dos casos davam a sensação de que a paz voltaria a reinar na Fifa.

A realidade é que a história estava apenas começando e o ato mais inesperado viria desta vez da própria Justiça suíça. O Ministério Público decidiu que não fazia sentido encerrar a investigação sem antes entender o que estava acontecendo com uma entidade com sede na Suíça, presidida por um suíço e que esteve à beira de uma falência.

Em 2002, Thomas Bauer, responsável pela liquidação da ISL, investigou o caso e se deparou com a constatação da existência de volumosos subornos para cartolas da Fifa. Ele escreveu então uma carta sigilosa a vinte membros da entidade pedindo que devolvessem o dinheiro da propina. Sem receber respostas, abriu um processo. No final, conseguiu um acordo, os envolvidos pagaram milhões em multas e o caso foi encerrado sem a publicação dos nomes das pessoas que receberam o dinheiro.

Para se entender a importância da quebra da ISL para o futebol e o impacto da descoberta de subornos em sua relação com o futebol, é necessário entender como a Fifa operava no que se referia à venda dos direitos de transmissão dos Mundiais. Desde o início dos anos 1990, é a renda dos contratos de televisão que sustenta o futebol mundial e a própria Fifa. Tratar da empresa que cuidava desse segmento significa investigar a coluna vertebral do futebol. Hoje, mais da metade do dinheiro arrecadado com uma Copa vem das televisões, num dos maiores negócios do esporte mundial.

No centro desse esquema estava justamente a ISL. Ela havia sido fundada em 1982 pelo presidente da Adidas, Horst Dassler, o mesmo que apoiou Havelange e depois Blatter em suas eleições. Ele foi provavelmente um dos primeiros a entender o esporte como um veículo de publicidade para seus produtos. Por anos, a Adidas vem sendo a parceira inseparável da Fifa e seus representantes passaram a fazer parte do círculo mais íntimo da entidade. O assistente direto de Dassler, Jean-Marie Weber, conhecia Blatter desde os anos 1970. Depois da morte de Dassler em 1987, Weber ficou como responsável pelo relacionamento com a Fifa dentro da Adidas. Para muitos, era conhecido simplesmente como “o homem da mala”, por seu suposto papel em levar e trazer dinheiro de comissões.

Mas, em 2001, às vésperas da Copa do Mundo no Japão e Coreia e das eleições na Fifa, a ISL decreta sua falência, deixando uma dívida de US$ 300 milhões. Era a segunda maior falência da história corporativa da Suíça. Na visão do Ministério Público do país alpino, não havia como deixar que o caso fosse resolvido apenas entre cartolas sem que se entendesse o que estava por trás de um fenômeno inexplicável em termos empresariais.

Assim, seria a partir da pequena cidade de Zug, no interior da Suíça, que o terremoto sobre a Fifa começaria a ser formado, com um segundo processo. As investigações do procurador Thomas Hildbrand mostrariam um grande esquema de corrupção, com inúmeras evidências. Sua suspeita era de que a empresa teria sido usada para fazer pagamentos paralelos para cartolas que, em troca, garantiam contratos para grupos de mídia transmitirem a Copa. A empresa não faliu porque não dava lucro. Ela teria falido porque, na prática, era um banco paralelo.

Para chegar a esse resultado, Hildbrand viajou ao Brasil e a vários outros países para coletar informações. Uma de suas constatações foi de que parte do dinheiro que teria sido desviado teria vindo também de pagamentos de redes de televisão no Brasil para cartolas da Fifa, justamente para garantir que, em concorrências com outras redes, saíssem vitoriosos nas disputas para transmitir as Copas do Mundo.

Hildbrand denunciou os dirigentes da empresa por fraude, desvio de dinheiro e falência fraudulenta, pedindo inclusive a prisão de alguns deles. Só isso, segundo ele, explicaria como a empresa ISL coletou 2,2 bilhões de francos suíços na venda dos direitos de transmissão da Copa de 2002 e 2006 e, mesmo assim, faliu. As contas não fechavam.

O caso se arrastaria por anos. Mas, finalmente, em março de 2008, a corte de Zug acusou formalmente a ISL de pagar propinas por meio de uma fundação em Liechtenstein. Seis executivos teriam distribuído milhões de dólares a pessoas envolvidas em negociações de direitos de transmissão para vários eventos e poderiam pegar até quatro anos de prisão, se condenados. A fraude ainda chegava a pelo menos US$ 98 milhões.

A investigação ainda mostrou que duas fundações foram abertas justamente para receber e distribuir a propina. A NUNCA e a Sunbow — a primeira registrada em Liechtenstein e a segunda nas Ilhas Virgens Britânicas — serviriam como canais de pagamento da corrupção.

A Sunbow abriu suas contas no banco LGT e, em maio de 1999, 32 milhões de francos foram depositados na conta 193.223.31, com apenas uma informação: “Custos de aquisição de direitos”. Dessa conta, 18,1 milhões de francos teriam sido transferidos para pessoas envolvidas em contratos com a ISL. O restante do dinheiro foi distribuído para uma série de fundações registradas em Vaduz, capital de Liechtenstein. Pelas leis do paraíso fiscal vizinho à Suíça, os donos de fundações podem manter seu anonimato e nem mesmo um endereço precisam fornecer às autoridades locais.

O escândalo representava um dano considerável para a reputação da entidade. Afinal, o caso culpava os executivos da empresa, mas deixava claro que eles haviam recebido o dinheiro do mundo do futebol. O que representava um alívio para a Fifa era o fato de que o tribunal havia optado por não revelar os nomes dos dirigentes esportivos que estavam implicados na corrupção. O fenômeno, assim, poderia ser tratado como um caso “condenável”, mas sem repercussões práticas. A direção da entidade poderia se esconder no fato de que os nomes dos envolvidos não eram conhecidos. No fundo, a Fifa saía arranhada. Mas não os interesses pessoais de cada um dos cartolas.

Existia algum risco de esses nomes virem a público. Um homem que saberia quem eram esses dirigentes era Jean-Marie Weber, justamente a pessoa de confiança da Adidas e que chegou a ocupar também o cargo de vice-presidente da ISL. No momento da falência, ele não tinha um contrato escrito, mas recebia cerca de US$ 870 mil por ano. Ele, ao lado dos seis executivos da empresa, seria indiciado e, dentro da Fifa, o temor era de que Weber acabasse revelando detalhes de quem recebeu dinheiro. Mas, em seu depoimento, Weber optou pelo silêncio total sobre quem teria feito os pagamentos e quem os recebeu. Coincidência ou não, o executivo acabaria voltando nos anos do processo para os círculos mais íntimos da Fifa. No hotel Baur au Lac, em Zurique, não foram poucas as vezes que cruzei com Weber no saguão, esperando para ter uma palavra com os dirigentes. Em 2009, em Copenhague, vi Weber circulando tranquilamente entre chefes de Estado, entre eles Luiz Inácio Lula da Silva e o rei Juan Carlos, na festa inaugural do Congresso do COI. Durante a Copa de 2010 na África do Sul, fui convidado para um café da manhã com Issa Hayatou, o chefe do futebol africano, num evento promovido pela Adidas. Surpreendentemente, quem entrou na sala e se sentou ao lado de Hayatou foi justamente Weber. Ele mostrou-se um fiel aliado dos cartolas e jamais os entregou para a Justiça.

Por algum tempo, Blatter e a Fifa acreditavam que o caso estava encerrado. O suíço não se cansava de anunciar que a Justiça tinha arquivado o processo e que os culpados da ISL já tinham sido condenados. Ele dizia com um orgulho que beirava a ironia: ninguém da Fifa estava mencionado no processo.

Mas, para a Justiça, o caso não estava concluído. Depois de processar os executivos da ISL, o Ministério Público suíço decidiu abriu um processo justamente para investigar os subornos e quem os teria recebido. Hildbrand, em Zug, mais uma vez se transformaria num pesadelo para a entidade. Em 2010, a Justiça confirmaria que propinas milionárias haviam sido pagas em troca de contratos de transmissão dos Jogos da Copa de 2002 e 2006.

Os documentos do processo confirmavam que cartolas da Fifa admitiram diante do tribunal que receberam subornos milionários nos anos 1990. “Nos procedimentos, os acusados negam responsabilidade criminal, mas não o recebimento dos fundos”, afirmou um dos documentos do Tribunal de Zug.

Enquanto o planeta acompanhava a Copa do Mundo de 2010 na África do Sul, longe dos gramados, os advogados dos dirigentes fechavam na surdina um acordo com a Justiça suíça para que os nomes dos envolvidos fossem lacrados para sempre. Para isso, estavam dispostos a pagar uma indenização milionária à Fifa por terem fraudado a organização.

O acordo seria possível porque, pela lei suíça, receber subornos não era um crime ainda nos anos 1990, justamente quando a prática dominava os bastidores da entidade. Portanto, os cartolas não estavam errados legalmente ao garantir que não haviam cometido crimes. Mas, para barrar um escândalo público, chegaram a um acordo que foi aceito pela Justiça.

Uma vez mais, os cartolas acreditavam que tinham conseguido evitar uma humilhação pública, blindando os nomes dos envolvidos e salvando suas honras. Na Fifa, o acordo era comemorado por todos. O esquema de corrupção e fraude que tanto ameaçava a entidade estava enterrado de vez. Pelo menos para a Justiça. Os próprios procuradores suíços consideraram a blindagem dos nomes uma aberração. Mas nada podiam fazer se a multa havia sido paga e se, antes da condenação, a Fifa e os corruptos haviam fechado um acordo extrajudicial.

Pouco a pouco, porém, as informações começaram a ser vazadas para a imprensa. A BBC colocaria no ar um programa que abalaria as estruturas da entidade, ainda que incompleto e apenas com o que provaria ser a ponta do iceberg de um esquema de corrupção muito maior. Ainda assim, a revelação da televisão britânica era das mais fortes. Os envolvidos no caso de subornos na ISL e na Fifa eram nada mais nada menos que o todo-poderoso presidente da Fifa durante o período investigado, João Havelange, e seu ex-genro, Ricardo Teixeira.

O nome de Teixeira, por exemplo, aparecia em um documento ao lado de uma menção à Adidas, com um valor de US$ 100 mil. A revelação foi ao ar enquanto Joseph Blatter, presidente da Fifa, insistia em discurso no Japão que a entidade era “limpa”.

Dados publicados no jornal de Zurique, Tages-Anzeiger, também apontaram que Teixeira teria recebido pagamentos de US$ 9,5 milhões da ISL entre agosto de 1992 e 28 de novembro de 1997, em uma conta secreta em Liechteinstein. As remessas eram de US$ 250 mil cada, em uma empresa fantasma registrada num paraíso fiscal. Uma empresa de fachada em Liechtenstein teria sido criada para receber os recursos. A empresa era a Sanud Establissement, registrada na cidade de Domizil, em Liechtenstein.

No Brasil, publiquei uma série de reportagens revelando de que forma Teixeira e Havelange estavam envolvidos no esquema de corrupção, detalhes dos processos e indicações claras de representantes da Justiça de que, de fato, os envolvidos eram os dois cartolas brasileiros.

A reação da CBF diante das reportagens era a de intimidação e punição. A entidade me acusou de estar escrevendo “ficção”, em discursos sempre permeados pela truculência de seus funcionários, numa clara tentativa de humilhar os jornalistas diante dos demais profissionais. Também não foram poucas as vezes em que a direção da CBF decidiu fechar as portas a entrevistas com jogadores da seleção como punição pela publicação de determinadas histórias. O jogo era claro: quem não estivesse ao lado da CBF simplesmente não teria como realizar uma cobertura decente da seleção em campo, com entrevistas exclusivas com o craque daquele ano ou o técnico do time.

A direção da entidade parecia acreditar plenamente que estava ainda nos anos da censura e da ditadura. Nos anos 1970 e mesmo nos anos 1980, jogos da Seleção Brasileira no exterior eram acompanhados por rádios levadas pela CBF com tudo pago, em troca de uma cobertura “positiva” da Seleção Brasileira. No fundo, para uma pequena parte da imprensa, isso não mudou até hoje. Lembro-me de estar em um táxi com um outro colega jornalista durante a Copa da África do Sul e escutar a seguinte pergunta: “Jamil, quanto você ganha?”.

Nem mesmo comecei a dar uma resposta e fui interrompido. “Quando é que você vai entrar no esquema? Precisamos encontrar uma boquinha para você. Não dá para continuar vivendo com o salário de jornalista.”

Um ano antes, na festa em Copenhague da comemoração da vitória do Rio de Janeiro para sediar os Jogos Olímpicos de 2016, um ex-ministro não poupou palavras ao me abordar. “O que é que você está fazendo ainda na Suíça?”, disse. “Volta para o Brasil. Estamos ganhando muita grana. Você está ficando de fora.”

Prova de que esse pensamento de que cartolas podem “comprar” a imprensa ainda existe foi uma situação constrangedora que eu e outro colega brasileiro vivemos em 2012, quando Marco Polo Del Nero e José Maria Marin foram para suas primeiras reuniões da Fifa. Esperamos por sete horas a chegada dos cartolas na porta do hotel Baur au Lac, em Zurique. Eles finalmente apareceram. Deram as entrevistas que solicitamos, responderam às perguntas e, ao final, Del Nero nos indagou com muita educação: “Vocês têm hotel? Querem ficar aqui? Podemos arranjar tudo”, fazendo com a mão o sinal de que pagaria.

Imagino que nossa reação de surpresa diante da proposta indecente e a recusa imediata de ambos ficaram claras. O cartola rapidamente tentou consertar. “Claro, vocês trabalham para jornais grandes”, ponderou.

O que a CBF certamente não entendia é que já não poderia mais controlar a imprensa. E essa talvez tenha sido uma das principais lições do caso da ISL.

Se em 2012 todos já sabiam que Teixeira e Havelange eram os nomes citados no esquema de corrupção, a realidade é que o caso apenas explodiria de fato quando os nomes fossem identificados claramente em documentos oficiais da Justiça suíça.

E, uma vez mais, a imprensa teve um papel fundamental nesse processo. Os nomes dos cartolas apenas seriam confirmados depois que a BBC e quatro jornais suíços, liderados pelo jornalista Jean François Tanda, decidiram entrar com um recurso para ter acesso aos documentos do caso que havia sido encerrado com o pagamento de uma multa e o arquivamento do processo. O recurso dos jornalistas chegou ao Tribunal Superior da Suíça, e a verdade é que, para os jornais locais, não era exatamente o nome de um ilustre desconhecido Ricardo Teixeira que interessava, mas a transparência na Justiça do país. Afinal, um caso de corrupção e pagamento de propinas precisava ser esclarecido, mesmo que não houvesse um condenado. Os jornalistas sustentavam que a revelação dos nomes era de “interesse público”, uma tese que era compartilhada pelos procuradores do caso.

Inicialmente, a Fifa, Havelange e Teixeira fizeram de tudo para impedir que os nomes e os detalhes do processo fossem revelados. Uma série de recursos foi apresentada e o caso se arrastou. Uma vez mais, seriam os interesses políticos e as brigas internas na Fifa que acabariam determinando os acontecimentos.

Pressionado a agir contra a corrupção e diante de novas eleições em 2011, o presidente da Fifa, Joseph Blatter, retiraria naquele ano sua oposição à publicação dos nomes dos envolvidos no processo da ISL. Na prática, ele estava declarando guerra ao então presidente da CBF, Ricardo Teixeira, e ao mesmo tempo tentando dar a impressão de que era favorável à transparência, num dos momentos mais críticos da história da entidade. Na Fifa, e mesmo na CBF, não foram poucas as vozes que acusaram Blatter de cinismo. Afinal, ele havia sido o braço direito de Havelange durante os anos em que essa propina era paga. Além disso, Havelange é que o colocara no cargo de presidente da Fifa em 1998. Agora, o suíço retribuiria entregando seus velhos padrinhos políticos a uma humilhação pública.

Blatter tentou se defender em uma entrevista concedida para seu próprio site, com perguntas combinadas e com respostas lidas por advogados antes de serem publicadas.

“O senhor supostamente sabia (do pagamento de propinas)?”, questionou o site da Fifa. “Saber o quê? Que comissões eram pagas? Naquela época, tais pagamentos podiam ser deduzidos até mesmo de impostos, como gastos de negócios”, respondeu Blatter. “Hoje, eles seriam punidos pela lei. Mas não se pode julgar o passado com base nos padrões de hoje. Caso contrário, acabaria como justiça moral. Eu não poderia saber de uma ofensa que na época não era ofensa”’, defendeu-se.

O que Blatter não diz é que os juízes também acusaram a Fifa de omissão, de não ter controlado o fluxo de dinheiro irregular e de ter usado a empresa ISL como caixa 2 durante décadas. A Fifa foi obrigada a pagar pelos custos do processo e os juízes indicaram que a entidade também foi responsável pela existência do esquema de corrupção. Pelos documentos, ficava claro que Blatter sabia de tudo e que ainda havia defendido na corte os brasileiros.

Mas o suíço não perdeu um só segundo em usar o caso como um poderoso instrumento político contra seus inimigos. De um lado, ele mostraria que estava agindo contra a corrupção e, ao mesmo tempo, daria um golpe duro em Teixeira e em suas pretensões para as eleições de 2015.

“Não há nenhum suíço envolvido. Apenas estrangeiros”, afirmou. “Esse caso já causou muita perturbação. Decidimos que o dossiê deve ser aberto e esse assunto será esclarecido”, disse Blatter.

Com a virada de mesa da Fifa, era apenas uma questão de tempo até que os documentos fossem publicados. Nas semanas que antecederam esse anúncio, recebi telefonemas praticamente diários de representantes da CBF com uma informação: a entidade e Teixeira estariam preparando um dossiê devastador contra Blatter como forma de contra-atacar o suíço caso ele fosse adiante com seu projeto de divulgar os nomes dos envolvidos. Os representantes da CBF dispararam ligações a todos os principais jornais, sempre com a mesma: a de que o jornalista com quem estavam falando naquele momento havia sido o “escolhido” para fazer a revelação sobre Blatter. Cheguei a escutar que Teixeira, de fato, tinha muito apreço pelo meu trabalho, algo que sinceramente não sabia se recebia como uma ofensa ou um elogio sincero. Descobriria meses depois que o comentário quase sedutor fora feito a cada um dos jornalistas contatados pela CBF naquela “operação abafa”. A meta era clara: tentar atrair a imprensa, evitar que ela “comprasse” apenas a versão de Blatter e, sempre, insinuar que favores seriam dados ao jornalista que optasse por passar para o lado da CBF. O dossiê secreto sobre Blatter, porém, jamais surgiu.

Poucas semanas mais tarde, o Tribunal Federal da Suíça entendeu que o assunto era de “interesse público” e, em 42 páginas avassaladoras, mapeava um esquema de corrupção que tomou conta da Fifa por anos. Um sistema de subornos havia sido montado por Havelange e Teixeira para tirar milhões do futebol e usar a Fifa praticamente como um banco privado.

Nada disso era “ficção”, como diziam os assessores da CBF ao me atacar publicamente meses antes. Não se tratava de uma campanha para sujar a imagem de um dirigente. O que a Justiça revelava era a realidade dos bastidores da poderosa Fifa, uma entidade mergulhada na corrupção.

Segundo os documentos oficiais da Justiça da Suíça, Havelange e Teixeira receberam subornos no valor de, pelo menos, R$ 45 milhões. De acordo com a Justiça, os brasileiros cometeram “enriquecimento ilícito”, causaram prejuízo para a entidade e colocaram seus interesses pessoais acima dos interesses do futebol. As provas estavam todas ali, detalhadas em movimentações bancárias e depoimentos.

No total, o pagamento de comissões da ISL a cartolas pelo mundo chegava a US$ 122,5 milhões (R$ 225 milhões). Como regra geral, segundo a Justiça, a propina teria sido paga a Teixeira e Havelange para que influenciassem a Fifa na decisão de quem ficaria com os direitos de transmissão das Copas de 2002 e 2006, inclusive no mercado brasileiro. Uma emissora de televisão com atuação no Brasil é citada como uma das envolvidas no suborno, ainda que seu nome tenha sido mantido em sigilo. Para os suíços, o serviço dos dois foi “comprado” por empresas que queriam manter relações com a Fifa.

O documento revela uma movimentação milionária na conta desses cartolas. Os subornos eram depositados em contas em paraísos fiscais e ocorreram entre 1992 e 2004. Diante dessa constatação, o tribunal havia decidido processar os brasileiros por “atos criminosos em detrimento da Fifa”. “Eles causaram prejuízos para a Fifa por seu comportamento e enriqueceram ilicitamente.”

Parte substancial da denúncia era dirigida a Havelange, acusado de não repassar pagamentos aos cofres da Fifa. Havelange era ainda acusado de “administração desleal”. “Havelange usou ilegalmente ativos confiados a ele para seu próprio enriquecimento em várias ocasiões”, aponta o documento. A Justiça não deixava dúvidas inclusive de sua atuação no Brasil. O cartola agiu para garantir o contrato de empresas para a transmissão da Copa de 2002 e recebeu propinas de uma delas para garantir o contrato para a transmissão do Mundial no mercado brasileiro naquele ano. Havelange “embolsava o dinheiro” e empresas o pagavam para usar sua influência como presidente da Fifa para garantir contratos.

A investigação conduzida pelo procurador Thomas Hildbrand ainda evidenciou um esquema de corrupção que fazia parte da Fifa desde os anos 1970, quando Havelange assumiu o poder. Testemunhas contam que a ISL foi usada como caixa 2. Abriu contas em paraísos fiscais como Liechtenstein e Ilhas Virgens Britânicas para receber e pagar propinas.

Teixeira também foi alvo das propinas, que recebia de empresas interessadas em usar seus serviços. Segundo a Justiça, ele presidia a federação de futebol “mais poderosa” do mundo. Com um pagamento de propina a ele, a empresa conseguia dois objetivos: influência na Fifa e garantia de contratos no Brasil.

O pagamento ao ex-presidente da CBF ocorria por meio de uma empresa que ele estabeleceu em Andorra, outro paraíso fiscal. Um intermediário era usado para transferir, em nome do brasileiro, o dinheiro para suas contas. O agente retirava os ativos em espécie e alimentava contas de Teixeira. Antes da Copa de 1998, o Brasil fez uma parada em Andorra para jogar um amistoso contra a seleção local. Pessoas que faziam parte daquela comissão técnica confirmaram ao Estado que o jogo foi uma forma de Teixeira agradecer aos atravessadores locais pelo serviço de suposta lavagem de dinheiro. O uso de Andorra pelo ex-dirigente teria perdurado até 2004.

“Teixeira usou ilegalmente ativos confiados a ele para seu próprio enriquecimento em várias ocasiões”, apontou o documento, indicando como ele agia em nome da Fifa, mas acabava embolsando o dinheiro. Só entre 1992 e 1997, recebeu US$ 12,7 milhões (R$ 25,4 milhões). O dinheiro viria de comissões de acordos entre empresas e a Fifa, para o uso do nome da Copa do Mundo, assim como para “a transmissão da Copa de 2002 no Brasil”.

Para tentar se defender, os advogados contratados pela Fifa apresentaram à Justiça um argumento que era tão impactante quanto a confirmação do esquema de corrupção montado por Teixeira e Havelange. Em um dos trechos do processo, o tribunal relatava como os advogados da Fifa tentavam convencer os juízes em uma audiência de que não viam problemas na atitude de Teixeira e Havelange e alegavam que a proposta da Justiça de que os cartolas devolvessem US$ 2,5 milhões para os cofres da organização seria impossível de ser implementada. Entre os vários motivos para não pedir o dinheiro de volta, os advogados da Fifa apresentaram um argumento surpreendente: o de que a “maioria da população” de países da América do Sul e África tem nos subornos e propinas parte de sua renda “normal”.

“Os representantes legais da Fifa são da opinião ainda que implementar a devolução do dinheiro seria quase impossível”, indicou o documento. “Eles justificam isso, inter alia, com o argumento de que uma queixa da Fifa na América do Sul ou África dificilmente seria aplicada, já que pagamentos de subornos pertencem ao salário recorrente da maioria da população”. Ou seja, Teixeira não devolveria o dinheiro porque, em nossa suposta “cultura”, todos temos parte da renda completada por subornos.

Não vamos confundir as coisas. A corrupção existe e é endêmica no Brasil, assim como na África. Mas também existe na civilizada Suíça, na gigante Siemens da Alemanha ou nos Estados Unidos.

Mas querer justificar a dificuldade em receber o dinheiro de volta alegando que somos todos corruptos no Brasil não é apenas surpreendente como argumento legal, mas uma ousadia que beira o preconceito. Curiosamente, esse argumento sobre o suborno vem de uma entidade que sempre soube do esquema montado por Havelange e que, por anos, Blatter optou por abafar.

Quando Jérôme Valcke sugeriu que o Brasil recebesse um “chute no traseiro” pelos atrasos na Copa, um vice-presidente do COI chegou a me dizer que a Fifa havia sido “racista”, adotando um ar de superioridade. Na época, achei que ele exagerava e que não poderia haver lugar para um racismo tão escancarado assim. Mas, lendo o comentário dos advogados diante de um tribunal, me dei conta de que algum tipo de preconceito parece ainda existir, ainda que não seja baseado em raça.

As surpresas geradas pela publicação daqueles documentos da Justiça suíça pareciam não estar limitadas às 42 páginas do processo. No momento da publicação do informe, eu estava em um trem entre a Basileia e Genebra. Lia cada uma daquelas páginas do processo sem saber se ficava surpreendido diante das revelações ou com o sentimento de que aquilo era tudo o que já havíamos constatado.

Durante aquele trajeto de trem de pouco menos de três horas, eu receberia uma ligação de um número desconhecido do Brasil. Uma voz de mulher me anunciava que o senhor Antenor Madruga queria falar comigo. Eu conhecia Madruga dos tempos em que ele era o responsável no Brasil por justamente procurar o dinheiro de corruptos no exterior, bloqueá-lo e repatriá-lo aos cofres públicos nacionais. Em Genebra, em mais de uma ocasião, nos encontramos para trocar informações sobre casos como o de Paulo Maluf e suas contas na Suíça e Jersey.

Seu percurso era mesmo impressionante. Segundo seu próprio site, “entre 1996 e 2007, foi Advogado da União, tendo ocupado diversos cargos, como Secretário Nacional de Justiça, Diretor do Departamento de Recuperação de Ativos e Cooperação Internacional (DRCI) do Ministério da Justiça, Adjunto do Procurador-Geral da União, membro do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (COAF) e coordenador da Estratégia Nacional de Combate à Corrupção e à Lavagem de Dinheiro (ENCCLA)”.

Ele ainda foi presidente do Grupo de Peritos em Cooperação Internacional e Vice-Presidente da Conferência das Partes da Convenção das Nações Unidas contra o Crime Organizado Transnacional. “Chefiou a delegação brasileira nas negociações de tratados de assistência mútua judiciária em matéria penal entre Brasil e Alemanha, Espanha e China, tendo participado da negociação de vários outros tratados. Foi Consultor do Escritório das Nações Unidas contra Drogas e Crime (UNODC).”

Quando Madruga entrou na ligação, sua voz tímida em nada me lembrava a pessoa que eu conhecia. Logo entenderia: ele se apresentava como advogado de Ricardo Teixeira e ligava justamente para dar a versão do cartola. Segundo ele, nunca houve uma condenação e o acordo impediu até mesmo que o processo fosse adiante. A defesa do ex-dirigente brasileiro também apontava que não houve nem mesmo confissão de culpa. Anotei tudo. Mas não podia deixar de me surpreender. Teixeira havia contratado simplesmente o maior especialista brasileiro em crimes de fraude no exterior para defendê-lo no maior caso conhecido de fraude e corrupção na cúpula da Fifa.

Como bem disse Havelange, a própria definição de malandragem era Teixeira.

 

FIM MELANCÓLICO

Para todos os cartolas envolvidos, aquelas revelações seriam divisores de águas em suas carreiras. Mas elas seriam especialmente impactantes para Havelange, considerado por anos como o cartola mais poderoso do mundo e o homem que, de certa forma, transformou a Fifa em um poder paralelo. Havelange, ainda nos anos 1970, entendeu rapidamente o processo de descolonização da África e da Ásia e foi buscar seus aliados naquelas regiões do mundo. Aqueles novos Estados que nasciam depois de guerras sangrentas e de milhares de mortos precisavam de uma bandeira e de um hino. Mas também de uma seleção de futebol que representasse a independência conquistada nos campos do mundo e enfrentasse de igual para igual as ex-colônias. Havelange entendeu essa necessidade e ofereceu a esses Estados um lugar em sua entidade, que logo se expandiu. Em troca, recebeu a gratidão eterna de cartolas espalhados pelo mundo, numa relação clientelista das mais básicas. Não por acaso, ele venceria cinco eleições na Fifa, justamente enquanto expandia também os lugares na Copa do Mundo de dezesseis seleções nos anos 1970 para 32 times.

Mas, mesmo com todo seu poder, ele não resistiria às revelações de sua corrupção milionária. Havelange renunciou a seu cargo de presidente de honra da Fifa, num fim melancólico para quem já chegou a ser recebido como um chefe de Estado pelo mundo. A renúncia em abril de 2013 foi feita em silêncio total e não foi comunicada nem pela Fifa e nem pelo próprio cartola até dias depois da entrega de sua carta abandonando a entidade. Fui o primeiro a publicar a história, mas apenas dez dias depois da renúncia.

Sua saída, porém, não era apenas uma queda, mas também um acordo entre ele e Blatter para que jamais fosse investigado, punido ou expulso pela própria Fifa. O Comitê de ética da Fifa, uma farsa em si mesmo, explicou na época que, como o brasileiro havia renunciado a seu cargo, não haveria como punir o cartola. Pelas leis, apenas funcionários e pessoas envolvidas com a entidade podem ser alvos de processos internos.

Assim, Havelange não seria punido e a saída foi justamente uma forma de evitar ser expulso. A decisão de renunciar encerrava de vez o caso e dispensaria a necessidade de que a entidade tivesse de passar pelo constrangimento de expulsá-lo.

Era o fim de uma era no futebol. Mas a impunidade dava sinais claros de continuar reinando. Não havia como não sentir frustração diante da constatação de que tais cartolas sempre conseguiriam escapar de alguma forma da Justiça.

A realidade é que Havelange adotaria a mesma tática no Comitê Olímpico Internacional.

O brasileiro era um dos membros da entidade que, por conta das revelações de corrupção, foi obrigada a abrir um processo contra ele. A investigação levaria a uma punição de Havelange pelo COI e, acima de tudo, a uma repreensão pública, com a possibilidade de expulsão da entidade. Uma semana antes de o resultado do processo ser anunciado ao público, o brasileiro enviou uma carta ao COI em Lausanne informando que ele estava renunciando a seu cargo por “motivos de saúde”. Assim, a investigação foi obrigada a ser arquivada, já que o estatuto da entidade impede que uma pessoa de fora da organização seja alvo de um processo interno.

Jacques Rogge, o então presidente do COI, foi outro aliado fiel de Havelange. Pressionado pela imprensa de todo o mundo a explicar sua atitude de arquivar o processo, o belga sustentaria que Havelange havia renunciado por questões de saúde. “Não tenho porque duvidar de seus motivos para justificar a renúncia”, disse. Em mais de uma ocasião, Rogge fez questão de rasgar elogios ao papel que o brasileiro teve para o esporte mundial.

Ainda que sem uma punição, Havelange caminha para o fim melancólico de uma carreira de poder e influência, mas também de atitudes polêmicas. Em seu livro Foul, o inglês Andrew Jennings conta parte dessa história, com revelações de como o ex-presidente da Fifa teria usado a Seleção Brasileira para obter votos das federações e se tornar o presidente da entidade em 1974.

De acordo com o autor do livro, o então presidente da CBD levava a seleção tricampeã do mundo na época para jogar em “países amigos” e deixava a renda das partidas inteiramente para os organizadores do amistoso. O livro ainda faz questão de mostrar como Havelange mantinha boas relações com diversos regimes militares no mundo, inclusive o brasileiro. Segundo Jennings, o presidente da Fifa “prometia dar um pouco de prestígio ao regime desacreditado (no Brasil) e os generais estavam prontos a fazer todo o possível para ajudá-lo”.

Enquanto o mundo criticava a Copa de 1978 por ser realizada em um dos períodos mais duros da ditadura argentina, Havelange afirmava que o Mundial mostrava “finalmente a verdadeira cara da Argentina”. Em outro episódio, o livro mostra que ele enfrentou organizações de direitos humanos ao designar a Nigéria, durante o regime de Sani Abacha, para realizar o Mundial de Juniores em 1997.

Havelange também teria descoberto, já nos anos 1970, o poder de suas alianças com os patrocinadores. O livro de Jennings, escritor consagrado e que provocou a demissão de membros do Comitê Olímpico Internacional graças a suas revelações nos anos 1990, narra que Havelange teve o apoio fundamental da Adidas para ser eleito para o cargo na Fifa nos anos 1970. Horst Dassler, presidente da Adidas, decidiu apoiar o brasileiro contra o então presidente da Fifa, o britânico Stanley Rous. Na noite anterior ao voto, Dassler teria colocado por baixo da porta dos quartos do hotel onde se realizava o evento envelopes com dinheiro aos delegados indecisos para que votassem por Havelange. Assim, o brasileiro venceu as eleições por 68 votos contra 52, criando uma surpresa internacional. Em pouco tempo a Adidas foi recompensada. Dassler ganhou o poder exclusivo de comercialização dos direitos da Fifa. Em 1976, Dassler foi quem conseguiu levar a Coca-Cola para patrocinar os projetos de Havelange, entre eles o de ampliar a Copa do Mundo. A Adidas ainda seria recompensada com acordos para fornecer uniformes para dezenas de seleções pela África.

Quarenta anos depois, Havelange viveria uma situação radicalmente diferente ao ter de renunciar a seus cargos para tentar de forma desesperada salvar pelo menos sua dignidade. Seu esquema de propinas seria revelado não apenas no Brasil, mas seu nome ficaria marcado em toda a imprensa internacional como sinônimo de corrupção e de um estilo de comandar o futebol baseado na personificação do poder e no coronelismo.

Nem a Fifa e nem o COI o puniram. De fato, a Fifa continua pagando sua aposentadoria, apesar da constatação de que ele fraudou a entidade. Mas a realidade é que seu último troféu pode também ser retirado: o estádio que será usado para a Olimpíada de 2016 e que leva seu nome.

Já em Londres nos Jogos de 2012, uma coletiva de imprensa concedida pelo Brasil para anunciar como seria o evento quatro anos depois acabaria sendo marcada pelo ataque feroz de dezenas de jornalistas estrangeiros, que queriam saber como o COB e o Rio mantinham o nome de Havelange no estádio, mesmo depois de todos os escândalos. Carlos Arthur Nuzman, presidente do COB, insistia que não via qualquer problema nisso e que Havelange era “um grande brasileiro”.

 

EXÍLIO DOURADO

Já Ricardo Teixeira optaria por outra via para escapar da humilhação pública, confirmando a tese de Havelange de que ele era a definição mais exata de malandragem. No dia 12 de março de 2012, Teixeira anunciou sua renúncia do cargo de comando do futebol brasileiro. Na verdade, ele sequer anunciou sua saída. No momento da revelação de que seu reinado havia terminado, ele já estava em sua mansão em Boca Raton, na Flórida, longe da sede da CBF no Rio de Janeiro.

A realidade é que Teixeira começou a preparar sua saída meses antes de qualquer suspeita de que ele fosse deixar a entidade. De um lado, ele sabia que não tinha mais aliados na Fifa. Blatter estava disposto a ver seu principal adversário ser exposto por conta da corrupção. Bin Hammam, que apoiaria Teixeira, havia sido excluído da Fifa ao ser pego dando dinheiro a cartolas para votarem por ele nas eleições de 2011. O xeque era a aposta do brasileiro para frear qualquer processo público. Não por acaso, Teixeira foi um dos cartolas da Fifa que deu seu voto para que o Catar recebesse a Copa do Mundo de 2022, uma candidatura considerada um escândalo em todos os sentidos.

No Brasil, sua situação também já não era das mais cômodas depois do fim do governo de Luiz Inácio Lula da Silva, um político que soube usar e abusar do futebol. Teixeira tinha em Lula um aliado e em mais de uma ocasião tentou retribuir o favor. O presidente da CBF chegou a contratar certos funcionários que serviam ao Palácio do Planalto quando o mandato do presidente terminou.

Todavia, ao contrário do presidente corintiano que abriu suas portas para o dirigente da CBF , Dilma Rousseff ordenou que sua equipe mantivesse distância de Teixeira. Em todo seu mandato, não o recebeu em nenhuma ocasião. Ela se recusava a sair em fotos com o cartola e, na prática, fechou o Palácio do Planalto para Teixeira.

Já as denúncias, polêmicas e todo tipo de acusações continuavam a se proliferar, inclusive com insinuações de que o Ministério Público poderia mergulhar de cabeça nos negócios do cartola. Vendo que seu barco estava afundando e que politicamente não contava com o mesmo apoio dos últimos anos, Teixeira passou a planejar cuidadosamente seu exílio.

A preparação começaria seis meses antes do anúncio de sua renúncia, renúncia essa que já era conhecida pela Fifa. Em um primeiro momento, a Fifa recebeu a informação de que Teixeira deixaria de acumular as funções de presidente da CBF e presidente do Comitê Organizador da Copa, o que acabou ocorrendo ainda em 2011.

A esperança dentro da entidade era de que, com a mudança, a relação entre os cartolas em Zurique e o governo fosse facilitada. A decisão de Dilma Rousseff de fechar suas portas para Teixeira estava impedindo qualquer diálogo entre os organizadores da Copa, a Fifa e o governo. Na preparação da Copa do Mundo, os problemas se acumulavam e os atrasos já eram evidentes em 2012.

Três meses antes da renúncia, a Fifa também seria informada do próximo passo de Teixeira e de sua ida para Miami. Para a entidade em Zurique, a meta era a de ter garantias de que os acordos e compromissos verbais com a CBF seriam mantidos para a Copa. Jérôme Valcke, ao contrário de Blatter, havia construído uma relação de amizade com Teixeira, chegando a ir a sua fazenda no Brasil em helicóptero. Em coletivas de imprensa em Zurique, Valcke combinava com Teixeira antes do evento o que diria para os jornalistas, assumindo que falava em nome da Fifa pontos que, no fundo, eram defendidos pelo brasileiro. O caso da exclusão do Morumbi da Copa em 2010 e a construção do Itaquerão com a ajuda de Lula, por exemplo, havia sido uma decisão pessoal e política de Teixeira. O estádio do São Paulo em si jamais foi o único problema. Ele apenas foi instrumentalizado. Mas a CBF convenceu a Fifa a anunciar que a opção de excluir o estádio do São Paulo havia sido da organização.

Para a Fifa, naquele momento de crise, o importante na transição era ter um novo dirigente que representasse uma continuidade, pelo menos em termos comerciais, e que não colocasse em questão os arranjos entre a entidade e a CBF. Teixeira também ocupava um cargo no Comitê Executivo da Fifa e um substituto para ele teria de ser encontrado. Não por acaso, a escolha do novo representante foi negociada com antecedência. A continuidade também interessava para Teixeira. O objetivo seria o de não perder o espaço do Brasil dentro da organização e, ao mesmo tempo, manter uma pessoa na cúpula da Fifa que defenderia os interesses do cartola, inclusive o blindando de eventuais novos processos.

O nome de Marco Polo Del Nero, presidente da Federação Paulista de Futebol, foi indicado semanas antes da queda de Teixeira e seria confirmado pela Fifa dias depois da renúncia. Como recompensa por ter sido um fiel aliado de Teixeira, Del Nero seria indicado à vice-presidência da CBF.

Durante o ano de 2012, Del Nero deu mais de uma demonstração de que mantinha um posicionamento parecido ao de Teixeira em temas dentro da Fifa. Logo em sua primeira reunião, declarou à imprensa que não acreditava que a Fifa teria de passar por reformas profundas depois dos escândalos de corrupção. Ele defendeu acordos assinados por Teixeira com parceiros comerciais da seleção e manteve uma postura crítica, nos bastidores, em relação ao governo, exatamente como seu antecessor.

Em uma ocasião, no lobby de entrada da Fifa em Zurique, escutei do próprio Del Nero a dimensão do confronto que os cartolas mantêm com o governo. Numa conversa reservada com o dirigente uruguaio, Eugênio Figueredo, Del Nero foi taxativo. “Nós temos um ministro do Esporte que é um comunista alucinado”, disse, em relação a Aldo Rebelo. Ao ver que eu estava ao lado, o cartola pegou no braço do uruguaio e o afastou para continuar a conversa. O “comunista alucinado” foi um dos que, uma década antes, tentava fortalecer a CPI para investigar os contratos da CBF com a Nike.

Entre os parceiros comerciais, o trabalho de Teixeira para costurar uma transição sem prejuízos também levou meses. Já em julho de 2011, agentes que atuam em acordos comerciais entre seleções foram informados de que uma transição estaria ocorrendo. Entre os parceiros da CBF, a corrida foi para perpetuar contratos e assegurar lucros, mesmo com Teixeira oficialmente fora.

Em novembro, no Catar, Teixeira aproveitou uma partida amistosa da Seleção Brasileira contra a Argentina para renegociar acordos até 2022. Um deles deu o direito à empresa árabe ISE de realizar os amistosos da seleção por dez anos e, curiosamente, por um preço inferior ao que pagava desde 2006. A empresa teria monopólio sobre a seleção. No Natal de 2011, executivos e intermediários ainda viajariam até a fazenda de Teixeira no Brasil para redesenhar os acordos que ainda estavam vigentes e permitir que a transição de poder não afetasse os entendimentos.

Faltava apenas encontrar um cartola que estivesse disposto a assumir a presidência da CBF sem questionar absolutamente nada, sem mudar uma só linha dos acordos comerciais e sem abrir qualquer tipo de investigação sobre o passado da entidade. O escolhido foi José Maria Marin, ex-governador de São Paulo e praticamente um aposentado.

Em mais de uma ocasião questionei Marin se ele não mudaria o contrato que a CBF mantinha com a ISE, assinado por Teixeira semanas antes de ele deixar o poder e ampliando os direitos sobre a Seleção Brasileira para os árabes por dez anos. Marin apenas dizia: “Não podemos. Temos que cumprir contratos”.

O contrato deixado por Teixeira com a ISE era de fato surpreendente. Em 2006, a CBF vendeu os direitos de que amistosos fossem organizados para a seleção por US$ 1,15 milhão por jogo realizado. Em 2012, na renovação do acordo, o acordo passou a prever que a CBF receberia 15% a menos até 2022. Isso tudo num período em que o Brasil era o foco da atenção mundial e num momento de Copa do Mundo no Brasil. Só isso já daria à CBF espaço para conseguir um acordo com valores superiores aos de 2006. Nem mesmo a inflação nesse período foi contabilizada para renovar o contrato. No mundo dos esportes, a pergunta que todos fariam era simples: por que motivo Teixeira assinou um acordo renovando os direitos sobre a seleção por um preço mais baixo e sabendo que deixaria o poder?

Meses depois, eu entenderia que, de fato, a organização de amistosos havia se transformado numa máquina de fazer dinheiro, enquanto as partidas eram vendidas ao público como “testes importantes” na preparação do Brasil para a Copa do Mundo.

Cartolas passaram a desviar milhões de dólares a partir da organização de jogos, transferindo renda de bilheteria entre paraísos fiscais e revelando um lado obscuro da globalização do futebol.

Contratos secretos que eu obtive revelam um esquema de enriquecimento de alguns dirigentes graças à Seleção Brasileira e seus amistosos. Não é de hoje que se desconfia que partidas da seleção serviam muito mais para atender a motivos financeiros do que esportivos. O que esses documentos mostravam é que parte do dinheiro pago à CBF como cachê para enfrentar a seleção não era depositada em contas no país, mas sim em empresas registradas em paraísos fiscais. Assim, nem todo o dinheiro que saía das federações estrangeiras, direitos de imagem, bilheteria ou governos de outros países para receber a seleção era enviado ao Brasil. O dinheiro não servia para fortalecer a CBF ou o futebol nacional. A renda ia para o bolso de dirigentes, sem qualquer tipo de controle.

Questionei Marin em um hotel de luxo na Basileia sobre o que ele sabia desses contratos. Nervoso e sem deixar que eu continuasse a falar, o cartola apenas repetia. “Desconheço, desconheço”, enquanto segurava meu braço.

Mas o documento que eu tinha em mãos não deixava qualquer dúvida sobre a existência dos desvios de dinheiro. O sistema era relativamente simples.

A ISE detinha o monopólio dos direitos sobre a Seleção Brasileira. Em troca de explorar a marca e vender a emissoras de todo o mundo o direito de transmitir jogos do Brasil, a empresa era obrigada a encontrar um estádio e um adversário para enfrentar a seleção. A cada jogo, a CBF receberia cerca US$ 1,1 milhão em pagamento da ISE. Mas a renda real era bem maior e o restante do dinheiro — cerca de US$ 450 mil — não era contabilizado na entidade e era depositado em contas secretas.

Pelo contrato, um terço de rendas de 24 jogos da seleção a partir de novembro de 2006 era redirecionado para a Uptrend Development, uma empresa com sede nos EUA. O documento era assinado por um certo Alexander R. Feliu, ou mais conhecido no mundo do futebol como Sandro Rosell, velho parceiro de Teixeira, chefe da Nike no Brasil no momento do acordo com a CBF e, mais recentemente, o presidente do poderoso e milionário Barcelona.

No contrato, assinado entre a ISE e Rosell, fixava-se cerca de US$ 450 mil que, a cada jogo da Seleção, seriam transferidos para Rosell, sem qualquer serviço prestado em troca. No total, US$ 8 milhões acabaram sendo repassados para o dirigente catalão.

O percurso do dinheiro era de fato rocambolesco. A ISE, registrada nas Ilhas Cayman, passaria o dinheiro para a empresa de Rosell, sediada em New Jersey, nos EUA. Fui procurar o endereço da empresa americana e me deparei com outra surpresa: a companhia sequer existia fisicamente. Seu endereço era apenas de fachada.

Oficialmente, a Uptrend ficava na pequena cidade de Cherry Hill, a 140 km de Nova York, no estado de New Jersey. É um prédio de salas de aluguel, e a empresa responsável fornece uma secretária para pegar recados. Mas ela trabalha para uma dezena de companhias que alugam o mesmo serviço, criando assim escritórios virtuais, uma boa alternativa para quem apenas usa o nome de uma empresa para desviar dinheiro ou legitimar pagamentos.

No endereço do registro, a empresa de Rosell ficaria no escritório número 105 da Church Road, número 811. Segundo informou a empresa que aluga o local, o escritório 105 é apenas uma sala de reuniões que qualquer um pode alugar para promover seus encontros. “Essa empresa não existiu fisicamente”, garantiu a secretária do local, que pediu para não ser identificada. “Eu trabalho aqui há dez anos e garanto que eles não existem fisicamente”, insistiu. Em outros documentos, a Uptrend aparece como tendo sido criada em março de 2006 já nesse endereço na cidade de 69 mil habitantes em New Jersey. O registro da empresa teria sido cancelado em abril de 2013.

Na realidade, a Uptrend nem sequer recebia o dinheiro dos amistosos nos EUA. A empresa solicitava à ISE que fizesse grande parte dos depósitos de seu acordo milionário em Andorra, um paraíso fiscal com leis que permitem o sigilo de contas bancárias e seus proprietários. O destino do dinheiro, segundo os documentos, foi o ANDBANK , que conta ainda com escritórios em São Paulo.

A ligação de Andorra com Teixeira e a CBF não era uma novidade. Os documentos da Justiça suíça de 2012 apontam que, no caso da empresa de marketing ISL, Teixeira recebia as propinas justamente em Andorra. Um intermediário era usado para então transferir, em nome do brasileiro, o dinheiro para suas contas. O agente retirava os ativos em espécie e alimentava contas de Teixeira.

No total, a Justiça suíça identificou transferência de mais de US$ 4,7 milhões para a conta 4004028 em nome do cartola em Andorra. Os subornos ainda eram alimentados por outras quatro contas abertas entre 1998 e 2001, indicadas apenas com os códigos CQUE 206-P0078232.0, CQUE 206-P0078233.0, CQUE 206-P704605.60L e CQUE 206-P790860.70P.

Mas as ligações entre a CBF e Rosell não terminariam no acordo de 2006. Um contrato para realizar dez amistosos da Seleção Brasileira em 2012 garantiu o desvio de mais 3 milhões de euros. O primeiro jogo do esquema foi realizado no dia 14 de novembro de 2011, entre Brasil e Egito. O técnico Mano Menezes levou um time com jogadores que seriam testados, entre eles Jonas, Bruno Cesar e Elias.

O local da partida entre Brasil e Egito seria o Catar, justamente o país que mantinha acordos milionários com Rosell. Foi o mesmo cartola que havia rompido décadas de tradição e colocado uma publicidade da Qatar Foundation na camisa do Barcelona.

O “pacote” de dez amistosos incluiu jogos do Brasil contra a Bósnia, contra a Dinamarca em Hamburgo e uma turnê de três jogos nos Estados Unidos. Mas foram dois jogos que chamaram a atenção. A CBF levou a seleção ao interior da Polônia para um jogo contra o Japão, em plena semana e num horário de trabalho da população local. Não por acaso, quando a Seleção entrou em campo, o estádio estava praticamente vazio. O horário foi escolhido não para atender à população local, mas para que as televisões no Japão mostrassem a partida em um horário nobre.

Outro jogo no mesmo esquema foi contra o Iraque, naquele momento comandado pelo técnico Zico. O problema: o jogo ocorreu na Suécia, na cidade de Malmo, e teve um dos menores públicos da história da Seleção. Na época, até Zico se queixou da partida. “Eu pedi para jogar contra o País de Gales e me deram o Brasil”, atacou, insistindo que a partida “não fazia o menor sentido.”

Em apenas uma semana, o Brasil jogou contra o Japão no interior da Polônia e contra o Iraque na Suécia. Fui a ambos os jogos e não havia como achar aquele esquema “normal”. Mais curioso foi encontrar, no lobby do hotel onde a seleção se hospedava na Polônia, representantes de escritórios suíços especializados na abertura de contas secretas. Naquela semana, mais de um jogador da seleção se reuniu com esses representantes enquanto estavam “concentrados” para os dois jogos amistosos.

Enfim, se alguém ainda tinha alguma dúvida sobre a função dos amistosos da Seleção Brasileira, a resposta está nesses contratos e esquemas: a utilização de um time nacional e a farsa de jogos internacionais para garantir lucros para poucos. O resto — do técnico aos jogadores, passando por comentaristas e correspondentes esportivos que, em toda boa fé, analisam esses jogos amistosos — é perfumaria.

Rosell jamais respondeu aos meus pedidos de esclarecimento. O Barcelona também não se deu ao trabalho nem mesmo de enviar um email negando as informações. O que Rosell fez naquele momento foi dar uma entrevista pré-gravada a uma rádio de confiança em Barcelona para esclarecer que aquele dinheiro não era propina. Segundo ele, seriam “honorários”. O que jamais explicou é que tipo de serviços ele prestou à Seleção Brasileira em troca dos mais de US$ 10 milhões que recebeu entre 2006 e 2012.

Rosell, que pouco tempo depois pediu demissão da presidência do Barcelona por conta de outros escândalos, ainda seria confrontado com mais uma revelação. No ano em que saiu da CBF para seu exílio, Teixeira pediu residência em Andorra e, coincidência ou não, quem tramitou o processo foi justamente uma empresa de propriedade do dirigente do Barcelona e com sede no principado. Rosell não apenas recebia em Andorra “honorários” por jogos da seleção, mas ajudou Teixeira a ser residente daquele mesmo lugar.

Por um ano, Andorra concedeu a residência ao brasileiro. Segundo o governo do principado, Teixeira pediu a residência no local em setembro de 2012 e apresentou naquele momento documentos da Polícia Federal e do Ministério da Justiça que mostravam que tinha ficha limpa. No dia 14 de novembro de 2012, a residência lhe foi garantida por um prazo de um ano. Entre as exigências, Andorra solicitava que Teixeira investisse 400 mil euros na compra de um imóvel e depositasse 50 mil euros em uma conta de um banco local. Para completar, teria de passar três meses do ano em Andorra.

O interesse de Teixeira pelo principado não era a possibilidade de estar perto dos Pirineus e nem o fato de respirar o ar puro das montanhas. A realidade é que Andorra e Brasil não contam com acordos de extradição, o que significa que se um dia Teixeira fosse condenado no Brasil, não poderia ser entregue pelas autoridades do país. Enfim, um exílio quase perfeito.

Mas, no principado encravado entre a Espanha e a França, o governo não disfarçou o mal-estar diante de minhas revelações sobre o envolvimento de Teixeira e Rosell nos escândalos da CBF, que ganharam todos os jornais espanhóis. Nos bastidores, o governo temia ficar manchado por ter dado residência a uma pessoa que a Justiça suíça indiciara por corrupção. Para justificar a mudança de opinião sobre a permanência de Teixeira em seu território, Andorra alegou que o cartola brasileiro não estava cumprindo a exigência de passar pelo menos três meses do ano no Principado.

Assim como fez na Fifa, na CBF e no próprio Brasil, Teixeira se antecipou a uma eventual expulsão e de forma “voluntária” renunciou a sua residência no paraíso fiscal no final de 2013.

Mas teria Teixeira deixado também o comando real do futebol brasileiro ao se mudar para Miami? Estaria ele ainda ditando as regras da CBF?

Os contratos são os mesmos, os parceiros comerciais são os mesmos, os novos dirigentes são seus aliados e até mesmo o assistente que leva a pasta de Marin, seus documentos e seu telefone em suas viagens, Alexandre da Silveira, é o mesmo que atuava como braço direito de Teixeira.

Parceiros comerciais não negam que, quando precisam tratar de assuntos delicados, sabem que uma resposta na CBF pode levar alguns dias para ser dada. Afinal, ela primeiro precisa passar por Miami.

Em uma entrevista a um programa de televisão na Alemanha em outubro de 2013, Marin se mostrou surpreendentemente claro: Ricardo Teixeira continuava fazendo parte da vida da entidade máxima do futebol brasileiro. “Ele colabora com a CBF”, declarou Marin. A entidade nunca negou que Teixeira continuava, mesmo depois de sua saída, na ficha de salários da CBF, por seus trabalhos como “consultor internacional” e como alguém que poderia “captar” patrocínios no exterior.

Marco Polo Del Nero, vice-presidente da CBF, também seria entrevistado pela televisão alemã e resumiria o que era a “nova CBF”: “As pessoas mudaram, mas o projeto é o mesmo”.