A copa como ela é
5. A Copa já acabou
Antero Greco, experiente jornalista de esportes, sempre dizia uma frase nas coberturas que fazíamos em uma Copa do Mundo. Segundo ele, quando a bola começa a rolar na primeira partida do torneio, a Copa já acabou. É verdade. Nas equipes que formamos para cobrir esses grandes eventos esportivos, semanas e meses de trabalho se acumulam à espera dos Mundiais. São reportagens sobre as seleções, sobre os estádios e prognósticos quase sempre furados de quem será o campeão. São também meses de expectativas, de planejamentos, de cálculos e, para muitos de nós repórteres, a realização de um sonho profissional — e eu diria de um sonho de infância — de estar não apenas em uma Copa do Mundo, mas entre os atores do grande evento mundial. Quando o apito inicial é dado na primeira partida de um Mundial, a realidade é que já estamos na reta final da cobertura.
Tomo a liberdade para emprestar, sem autorização expressa, a frase de Antero Greco, ainda que com um sentido um pouco diferente. A Copa já acabou.
A Copa do Mundo de 2014 no Brasil já acabou para o Brasil. O que foi erguido é o que teremos como legado. Não há nada mais a esperar. Não há milagres até o dia 12 de junho. O que seria feito já foi feito. E o que não foi erguido talvez jamais o será e ficará em alguma gaveta guardado.
Em junho de 2013, eu e o repórter Leonardo Maia entrevistamos o secretário-geral da Fifa, Jérôme Valcke, em um hotel de luxo no Rio de Janeiro durante a tumultuada Copa das Confederações. Faltando um ano para a Copa do Mundo, o dirigente da Fifa foi claro: o Brasil não passaria por uma revolução no que se refere à infraestrutura entre aquele momento e a Copa, um ano depois. Ele tinha toda razão.
O Mundial de 2014 foi — e digo expressamente no passado — uma oportunidade perdida ao país. Onde estão as obras, os aeroportos que nos foram prometidos, o trem de alta velocidade Rio-São Paulo? Onde estão os ganhos sociais?
A falta de um legado social ou de infraestrutura é tão evidente que até mesmo o Palácio do Planalto e a Fifa abandonaram essa mensagem no seu marketing da Copa. Na entidade máxima do futebol e dentro do governo, a estratégia passou a ser a de falar sobre a bola, sobre a paixão do brasileiro pelo esporte e em insistir que o foco agora é o de concentrar todos os esforços para levantar a taça, apagar o trauma da derrota contra o Uruguai em 1950 e sair com o sentimento de que somos os melhores do mundo.
Longe das câmeras, fontes na Fifa confirmam que estão preocupadas com os protestos e insistem que as forças de ordem terão de atuar para garantir a competição. Mas, publicamente, o discurso é outro. A nova estratégia ficou clara no pronunciamento pré-gravado realizado pelo presidente da Fifa, Joseph Blatter, para marcar os cem dias para a Copa, no dia 4 de março. “Agora todos os problemas estão sob controle e daqui a cem dias haverá um início excepcionalmente bom para uma competição excepcional: a Copa do Mundo da Fifa no Brasil, o país do futebol. Eles [os brasileiros] receberão o torneio de braços abertos e com todo o coração”, disse Blatter.
“É especial uma Copa no Brasil porque, se dizem que o futebol foi organizado ou inventado pelos britânicos — no mínimo organizado, principalmente pela Inglaterra —, eu preciso lembrá-los de que o país onde surgiu o futebol-arte é o Brasil”, insistiu o suíço. “O espírito brasileiro e a capacidade do Brasil de jogar futebol fazem desta uma Copa do Mundo muito, muito especial. E também porque a última Copa no Brasil foi organizada em 1950 e vocês lembram que o país perdeu a decisão no Maracanã para o Uruguai, então agora todos os brasileiros esperam que a seleção seja campeã em casa. É por isso que existe uma expectativa tão grande, e tenho certeza de que o torneio será um enorme sucesso.”
Ao marcar os cem dias para a Copa, Blatter não fez uma só referência ao fato de que os aeroportos não estavam prontos e de que não haveria tempo para testar todos os estádios. A campanha da Fifa entrava em uma sintonia deliberada com a estratégia do governo brasileiro, que também já deixava de lado o discurso sobre o legado da Copa para concentrar sua mensagem institucional e sua publicidade na paixão do brasileiro pelo futebol.
Logo após a Copa das Confederações, o governo encomendou um informe sobre o impacto dos protestos e o sentimento nacional sobre a Copa. Em mais de quatrocentas páginas de avaliação, a pesquisa mostrou ao Palácio do Planalto uma rejeição importante em relação ao evento esportivo que acontece poucos meses antes das eleições presidenciais em 2014.
O estudo é revelador e não esconde a frustração que o Mundial representa em termos de promessas quebradas. “Havia grande expectativa de que os benefícios sociais e de infraestrutura da Copa seriam concretos e permanentes”, diz o documento. “Esse sentimento está se convertendo em percepção de maquiagem e que tudo voltará a ser como antes quando a Copa terminar.”
Entre as recomendações, a pesquisa sugere ao governo que use mais a palavra “fiscalizar” sempre que mencionar os estádios, alguns dos mais caros da história do futebol. Mas, entre as sugestões, também está a de colocar o futebol no centro do discurso, e não como um instrumento para garantir uma melhor condição social à população. O governo, assim como fez a Fifa, abandonaria o discurso sobre o legado. Dilma Rousseff, orientada por Nizan Guanaes, passaria a adotar à exaustão o termo “Copa das Copas” para se referir ao evento, conforme revelado pela Folha de S.Paulo em 9 de fevereiro de 2014.
Nenhuma palavra mais sobre os ganhos sociais. Nenhuma palavra mais sobre o impacto para a vida das pessoas nas grandes cidades.
Nessa estratégia, Dilma ainda faria uma visita à Fifa para mostrar a sintonia entre ela e Blatter. A visita, no início de 2014, reuniu dois líderes que, apesar da fachada amistosa, não perdem uma oportunidade de se atacar nos bastidores. Trabalhando como correspondente na Europa, eu tive, nos últimos anos, a oportunidade de cobrir tanto os assuntos esportivos quanto as visitas presidenciais e diplomáticas do governo brasileiro.
Os bastidores dessas coberturas são sempre mais reveladores que o discurso oficial dos políticos. Nas viagens presidenciais de Dilma, por exemplo, não são poucos os ministros e assessores que confessam a irritação do governo em relação à Fifa, sua equipe e especificamente a Joseph Blatter. Em diversas ocasiões, funcionários do Palácio do Planalto se surpreenderam diante do comportamento do staff de Blatter em Brasília, ocupando salas, pedindo para ligar televisões em escritórios do governo para assistir a jogos e fazendo exigências.
Do lado da Fifa, a reação contrária ao governo é também um fato nos bastidores. A começar pelo próprio presidente da entidade, que não perde uma só ocasião para alfinetar Dilma sempre que uma entrevista acaba e o microfone é desligado.
Publicamente, porém, a nova estratégia para resgatar a Copa obrigou Dilma e Blatter a se darem as mãos, sorrir e trocar elogios mútuos. “Essa será uma grande Copa”, afirmou Blatter em janeiro, ao receber Dilma pela primeira vez na sede da Fifa. “É uma questão de confiança, recíproca. A Copa vai acontecer no Brasil. É o país do futebol e não há melhor país para o futebol”, disse. A ordem era deixar as críticas de lado. “Não haverá problemas. No final tudo se resolve, principalmente no Brasil”, disse.
Dilma também deu suas garantias. “Estamos preparados”, insistindo que as obras de mobilidade urbana e outras serão concluídas. “Os estádios são obras relativamente simples”, garantiu. “O governo fará todo o empenho para fazer a Copa das Copas. Isso inclui estádios, aeroportos, portos. Tudo o que for necessário”, disse.
A operação de marketing não tinha qualquer relação com a realidade. Os dois vinham de uma longa reunião em Zurique repleta de problemas e de cobranças. Mas a ordem era a de blindar o Mundial.
O governo e a Fifa montaram um grande teatro, com direito a um palco com a taça da Copa, a bola oficial e bandeira do Brasil. A solução para não estragar a festa foi simplesmente proibir os jornalistas de fazer perguntas, algo que confesso que nunca tinha visto em uma coletiva de imprensa. Por que não responder às perguntas dos jornalistas brasileiros e internacionais? Será que alguém teria a ousadia de perguntar sobre os estádios que não estavam prontos, sobre o fato de que o legado é questionável, sobre o fato de que nunca o apoio popular à Copa foi tão baixo? Será que Dilma e Blatter não estavam preparados para responder sobre sua “nova amizade”? Será que teriam de dizer que o conteúdo da reunião que acabavam de ter era secreto? Será que teria de ficar claro para a sociedade brasileira que decisões que envolviam o dinheiro público não seriam informadas aos contribuintes?
Ironicamente, se um dos objetivos da reunião era o de mostrar que o Brasil estaria pronto, nenhum jornalista precisou fazer perguntas para notar que Dilma chegou à sede da Fifa com trinta minutos de atraso. A Fifa esperou, uma constante nos últimos anos.
Mas a mudança na estratégia de comunicação da Fifa e de Dilma não está baseada apenas na percepção popular e em pesquisas de opinião. A realidade é que dezenas de projetos e promessas jamais saíram sequer do papel. Mesmo entre os planos previstos, nem todos serão entregues, mesmo com os mais de sete anos que o Brasil teve para se preparar para a Copa. Não me canso de lembrar a frase dita por Ricardo Teixeira uma década antes, a de que o Brasil, por ser o único candidato na América do Sul para realizar a Copa, teria mais tempo para se preparar. Até Blatter chegou a dizer isso, em uma conversa com um jornalista suíço que acabou vazando para a imprensa. Segundo ele, nunca um país teve tanto para se preparar para uma Copa. E nunca um país esteve tão atrasado como o Brasil.
Não foi por falta de um plano. Em 2010, o governo anunciou um ambicioso projeto que usaria a Copa para transformar de uma vez por todas a vida dos moradores de grandes cidades. No total, a Matriz de Responsabilidades assinada pelo governo em 2010 estipulava que dezenas de obras seriam realizadas para a Copa, com um gasto de mais de R$ 26 bilhões, incluindo os estádios. Mas a existência da lista e do dinheiro do governo não foi garantia de que essas obras estivessem prontas.
Uma das provas disso são os aeroportos, uma das grandes promessas do governo como legado da Copa. Em um evento em Genebra em dezembro de 2013, a poderosa Associação Internacional de Transporte Aéreo indicou que o Brasil realizará o Mundial com terminais com “tapa-buracos”. Em Belo Horizonte, a reforma de terminais e a construção de uma terceira ala não estarão prontas para a Copa. A reforma no aeroporto de Manaus também não será realizada antes do torneio. Em Porto Alegre, nem a ampliação da pista de pouso e nem o pátio serão entregues dentro do prazo.
Em Recife, a nova torre de controle que havia sido anunciada não será sequer erguida. No Rio de Janeiro e em Salvador, as obras dos aeroportos serão entregues apenas parcialmente. Até o diretor técnico da seleção, Carlos Alberto Parreira, criticou o “descaso” das autoridades em relação às obras da Copa.
No que se refere à mobilidade urbana, dezenas de obras serão entregues apenas parcialmente ou simplesmente ficarão para depois de os turistas terem deixado o Brasil. O jornalista Almir Leite, do Estado de S. Paulo, publicou no dia 10 de fevereiro de 2014 um dos levantamentos mais completos desse segmento.
De 41 intervenções previstas na última versão da Matriz de Responsabilidades, apenas cinco estavam concluídas até fevereiro e tudo indica “muita poeira e lama” às vésperas da Copa. Das obras já terminadas, porém, nenhuma é de grande envergadura. Elas incluem a Estação Cosme e Damião do metrô e o Viaduto da BR-408, em Pernambuco (intervenções próximas ao estádio); as vias de acesso à Fonte Nova, em Salvador; o corredor de ônibus Arrudas/Teresa Cristina, em Belo Horizonte; e a reforma do Terminal Santa Cândida, em Curitiba.
Em Recife, quatro das sete obras de mobilidade que eram previstas não estarão prontas. Existem casos extremos. O processo de licitação para a calçada do entorno do Beira-Rio, em Porto Alegre, ainda não foi lançado. Outro exemplo é a construção do VLT (veículo leve sobre trilhos) entre Cuiabá e Várzea Grande, no Mato Grosso. O governo em diversas ocasiões insistiu que tal projeto só saiu do papel graças à Copa. Mas o Mundial vai acontecer e, até fevereiro de 2014, apenas 5,7 km dos 23 km do percurso estavam concluídos.
Em Brasília, a ampliação da estrada DF-47 tem sua entrega prevista para maio, dois anos e meio depois do prazo, que havia sido inicialmente fixado em 2010.
Para deixar de passar vexame, o governo passou a adotar uma estratégia que beira a hipocrisia. Obras que não estiverem prontas serão simplesmente retiradas da lista da Matriz de Responsabilidade. Assim, ninguém pode acusar o governo de não ter entregado um projeto.
Em janeiro de 2010, quando a Matriz foi anunciada, o governo previa 56 obras de mobilidade e um investimento de R$ 15,4 bilhões. Na época, o valor era três vezes o que se gastaria com estádios e, para os organizadores, uma prova de que o Brasil estava disposto a usar o Mundial para mudar a cara de suas cidades.
Mas, quatro anos depois, quinze obras foram eliminadas dos planos e os gastos previstos eram de apenas R$ 8 bilhões, menos do que o investimento em estádios. Não por acaso, Dilma, sua equipe e a Fifa abandonaram o discurso sobre o legado da Copa.
No setor do turismo, a situação é ainda mais grave. Um relatório do Tribunal de Contas da União, divulgado em fevereiro de 2014, dá a dimensão dos atrasos. Apenas 16% dos contratos de infraestrutura turística serão concluídos até 12 de junho. Dos 37 contratos previstos, nenhum havia iniciado de fato suas obras até final de janeiro. Apenas seis iniciaram ou concluíram as licitações para as obras.
No final, serão 41 obras de mobilidade urbana, 29 em aeroportos e seis com os portos. A lista ainda inclui 42 projetos de segurança pública, além de noventa no setor do turismo e 72 em telecomunicações.
Mas, faltando cem dias para a Copa, apenas 18% das obras de infraestrutura haviam sido entregues. Delas, apenas quatro de um total de 81 obras foram fechadas dentro do prazo estipulado originalmente. Meros 5%. Em comparação aos valores e ao plano de 2010, mais de trinta obras tiveram preços mais altos que o previsto.
Enfim, a Copa terminou. Mas não as obras e muito menos a conta que ela deixará. Na verdade, muitas dessas obras nem começaram. Sete anos depois da escolha do Brasil para sediar o Mundial, as constatações do que foi feito são um espelho invertido das previsões e promessas iniciais. Num informe de outubro de 2007, a Fifa considerou que o Brasil tinha um orçamento “bem preparado” e que “não havia dúvidas” do compromisso do Brasil de atender às exigências da entidade. O informe foi produzido e assinado por Hugo Salcedo, que coordenou a primeira inspeção no Brasil entre agosto e setembro de 2007.
Hoje, esse informe é uma obra de ficção, uma coleção de promessas quebradas. “A infraestrutura de transporte aéreo e urbano poderia atender de forma confortável as demandas da Copa”, indicava o documento de 2007. “A equipe (de inspeção) concluiu que a infraestrutura de transporte permitiria ao Brasil realizar uma excelente Copa.” “Todas as dezoito cidades têm bons aeroportos”, disse. “O time de inspeção pode confirmar com confiança que a infraestrutura de aeroportos poderia atender a um grande número de passageiros indo a jogos em viagens de ida e volta no mesmo dia”, indicou.
O informe chegava a garantir ainda que haveria um trem de alta velocidade entre São Paulo e Rio de Janeiro, um projeto que nem sequer foi licitado.
Como se explica o atraso e as obras abandonadas no meio do caminho? Para cada caso, certamente haverá uma explicação oficial. Em alguns, foi falta de planejamento adequado. Em outros, obstáculos ambientais. Em outros ainda, faltou financiamento.
Mas a única certeza é que, na maioria das vezes, essas obras ficaram mais caras do que se previa. Os estádios custarão mais de três vezes o que a CBF havia informado à Fifa em 2007, e não são poucos os que alertam que esses atrasos nem sempre são um mau negócio para quem está envolvido. Talvez o caso mais claro seja o estádio em Curitiba, que esteve prestes a ser eliminado da Copa por não respeitar nenhum dos prazos dados pela Fifa.
A solução veio relativamente rápido em fevereiro de 2014, quando a entidade deu um ultimato. Ou se acelerava o processo ou Curitiba estaria fora da Copa. A solução, uma vez mais, veio dos contribuintes, sem que eles tenham sido questionados. Os governos do estado do Paraná e da prefeitura de Curitiba injetaram de última hora mais R$ 100 milhões e a arena foi mantida no cronograma da Copa. Se originalmente o projeto custaria R$ 184 milhões, ele deve terminar custando R$ 330 milhões. Desse total, 85% virão de um financiamento público.
A Copa acabou, assim como as promessas de que ela seria um fator de mudança profunda das cidades brasileiras. O Brasil perdeu uma oportunidade que lhe será dada outra vez apenas em meio século.
Em sua obra O príncipe, Nicolau Maquiavel já dizia: “Um príncipe nunca precisa de razões legítimas para quebrar suas promessas”. De fato, esse parece ser o caso uma vez mais na Copa do Mundo do Brasil.
Em regimes autoritários, reagir contra essas promessas quebradas exige uma revolta popular, o que nem sempre é possível. Já em sistemas democráticos, resta às sociedades identificar essas promessas quebradas, cobrar e, no caso de serem ignoradas, punir nas urnas e com manifestações pacíficas a classe política pelas mentiras ditas ao longo de um período.
QUINZE DIAS QUE ABALARAM A FIFA
E de certa forma, foi isso que ocorreu durante a Copa das Confederações. O torneio seria apenas um teste para a Copa do Mundo de 2014. Entre as seleções, nem todas estavam no Brasil com o mesmo ímpeto de ser campeãs. Não há como negar que a seleção da Espanha aproveitou aqueles dias para relaxar e fazer a festa por onde passava. Já o Taiti descobria o que era um estádio de verdade.
Mas foi fora dos estádios que o torneio entrou para a história do futebol, em quinze dias que abalaram a estrutura da Fifa e chegaram a levar a entidade a questionar a capacidade do Brasil de manter o evento até o seu final. Foram duas semanas entre os dias 15 e 30 de junho que pegaram cartolas e dirigentes de surpresa.
Os protestos começaram sem uma estratégia, questionando o aumento do preço do transporte. Mas rapidamente ganharam uma dimensão inédita no país. Em poucos dias, o que era uma demonstração de insatisfação popular se transformou em um recado a todos os governantes de que a sociedade não estava mais disposta a assistir sem reagir as mentiras divulgadas, seja por conta da Copa ou em qualquer outro setor.
Nas ruas, grupos de estudantes, profissionais e cidadãos comuns levantaram cartazes que o mundo tinha sérias dificuldades para acreditar: o Brasil, o país do futebol, questionava a legitimidade de uma Copa do Mundo. A população vista em todo o mundo como apaixonada pela bola abria mão da competição, em troca de hospitais e escolas.
É difícil dizer que, se a Copa não fosse realizada, o dinheiro dos estádios teria sido usado para fins sociais. De fato, não há dúvidas de que os gastos do governo com saúde e educação são superiores ao que se gastará na Copa. Mas, ainda assim, vale a pena pelo menos fazer as contas do que o projeto do Mundial representa. Com o dinheiro usado nos estádios, cerca de R$ 8 bilhões, poderiam ter sido financiadas 2,4 milhões de bolsas atleta para esportistas olímpicos ou 10 mil quadras poliesportivas pelo país. Em termos sociais, o impacto seria profundo. O dinheiro é suficiente para erguer 130 mil casas populares, ou 9 mil creches. O investimento também permitiria abrir quase 50 mil escolas rurais ou 11 mil escolas.
Mas a realidade é que, diante de milhares de pessoas nas ruas, a Fifa parecia atordoada e sem entender o motivo da manifestação.
O primeiro sinal claro de que o evento seria tenso veio logo na abertura. Ao tentar falar diante dos 70 mil torcedores para o primeiro jogo da Copa das Confederações, a presidente Dilma Rousseff recebeu uma das maiores vaias a um político em anos, transmitida ao vivo no mundo inteiro. Blatter, demonstrando não saber onde estava, pegou o microfone e pediu respeito por parte dos torcedores com a presidente. “Onde está o fair play?”, cobrou o cartola, apenas fazendo com que a vaia aumentasse ainda mais. Dilma, que tinha em mãos um discurso, não hesitou. Decretou a Copa oficialmente aberta, abandonou o discurso e entregou o microfone.
Blatter, a partir daquele momento, passou a ser abertamente criticado, até mesmo dentro do governo, por tentar “censurar” os brasileiros no estádio. O pito público dado por Blatter fez cair, para muitos, a máscara de um dirigente visto como arrogante e acostumado a um estilo pouco democrático. Como ter respeito a dirigentes que mentiram para a população sobre o que seria a Copa? O incidente marcaria o tom do torneio. A partir daquele momento, o que se viu foi um movimento que ganhou força em todo o país.
Dois dias depois, a Fifa continuava a pensar que o que se via nas ruas era apenas algo pontual e sem consequências. No terceiro dia de competições, estive com Blatter em um evento promovido pelo jornal Financial Times para debater o impacto da Copa do Mundo no Brasil. O local escolhido era o Copacabana Palace, no Rio de Janeiro. Naquele momento, o discurso do cartola era ainda de que o fenômeno era pontual.
“O futebol é mais forte que a insatisfação das pessoas”, afirmou, numa clara demonstração de que acreditava que estava no Brasil de 1950. O cartola foi o primeiro a denunciar o fato de que os manifestantes nas diversas cidades no Brasil estavam usando o futebol como plataforma para seus protestos. “O futebol existe aqui para unir as pessoas. Isso está claro e conheço um pouco das manifestações que estão ocorrendo aqui”, disse Blatter. “Acho que as pessoas estão usando a plataforma do futebol e a presença da imprensa internacional para deixar claros certos protestos”, declarou.
Blatter ainda apostava que o movimento perderia sua força, algo que se provou completamente equivocado. “Vocês verão que hoje é o terceiro dia de competição e isso irá se acalmar”, insistiu. “Será uma grande competição”, disse Blatter. “Eu disse a Dilma e Aldo (Rebelo) que temos confiança neles. Uma vez que a bola rolar, as pessoas vão entender e isso vai acabar”, afirmou.
Naquele mesmo evento, Jérôme Valcke dava mais uma prova de que não entendia o que estava ocorrendo nas ruas. “Basta o Brasil ganhar o torneio e veremos que esses protestos vão acabar.”
Instantes depois, era a vez do ministro do esporte, Aldo Rebelo, subir ao palco e elevar o tom das críticas. Ele foi contundente ao dizer que o governo federal faria de tudo para evitar que os protestos que se espalhavam pelas capitais brasileiras afetassem a realização da Copa das Confederações e os demais grandes eventos. Se necessário, a repressão seria com força. “Quem achar que pode tentar impedir (a realização dos jogos) enfrentará a determinação”, bradou Rebelo, insistindo que o governo assumiu com “responsabilidade e honra” acolher esses dois eventos internacionais e que iria realizá-los oferecendo segurança e integridade aos torcedores e turistas. “O Brasil tem a responsabilidade diante do mundo de organizar e realizar em plena segurança o evento sob sua responsabilidade”, disse. “O direito à manifestação é um direito democrático no país que será assegurado. Mas entre esses direitos não está o de ameaçar nenhum evento, nem aqui e nem no mundo”, alertou Rebelo, que se recusou a comentar “episódios isolados” da violência da polícia e que semanas depois seriam denunciados até pela ONU.
Mas o mesmo tom crítico foi adotado pela cúpula da CBF, que insistia que o número de manifestantes era pequeno. “Seria preferível que toda a atenção estivesse voltada exclusivamente para o futebol e acho que essa é a preocupação de grande parte do povo brasileiro”, insistiu o presidente da CBF, José Maria Marin, à beira da piscina do Copacabana Palace.
O vice-presidente da CBF, Marco Polo del Nero, também tentou minimizar a importância dos manifestantes. “Foram quantos? Mil? Tem 199 milhões de brasileiros trabalhando e esses querendo atrapalhar”, atacou, indicando que não previa uma repetição dos protestos em 2014 na Copa. “O povo brasileiro é tranquilo. Já, já vai entender que a Copa é o maior evento do mundo”, disse. Ao ver que jornalistas o pressionavam sobre o assunto, reagiu: “Vamos falar de futebol?”. “Temos de falar de coisas positivas e fazer a torcida gritar ‘Brasil, Brasil, Brasil’”, dizia, com um punho para cima.
Se o discurso era o de minimizar o que ocorria nas ruas, a realidade é que a Fifa e a CBF estavam acuadas e assustadas. As reuniões se proliferavam com o governo, em momentos de total tensão, com exigências por parte da Fifa de que a segurança dos cartolas e jogadores das oito seleções fossem garantidas. O cenário de um distúrbio era tão remoto nos planejamentos da Fifa que ela sequer tinha levado ao país seu principal chefe de segurança. Ele havia sido deslocado para o Mundial Sub 20 na Turquia onde, teoricamente, estariam os maiores problemas.
No dia 19 de junho, de forma imprevista, Blatter decidiu deixar o Brasil. A Fifa, naquele dia, insistia aos jornalistas que a viagem já estava planejada e que o cartola iria para o Mundial Sub 20. Mas a realidade é que ele havia tomado a decisão de última hora, deixando encontros que estavam programados e até mesmo desmarcando jantares que estavam organizados com governadores e políticos nordestinos.
Naquele mesmo dia, voltei à porta do hotel Copacabana Palace para tentar encontrar o suíço antes que ele deixasse o Brasil. No lobby, logo me deparei com uma de suas assistentes, Marta. Ela estava de mala pronta para deixar o hotel. Minutos depois, seria Nicolas Maingot, um dos assessores de imprensa de Blatter que também aparecia. Na porta, um carro blindado já o aguardava, acompanhado por mais de dez batedores em motos.
Quando a porta do elevador abriu e Blatter apareceu, Nicolas foi rapidamente a seu encontro para alertá-lo de que eu estava ali. Conversaram por alguns instantes e o cartola veio diretamente em minha direção. Sorridente, tomou a iniciativa de explicar sua viagem. “O presidente da Fifa precisa estar em todos os seus torneios. Mas eu voltarei”, disse. Blatter tinha um jogo fundamental para assistir no Mundial Sub 20: Cuba x Coreia.
Mas ele não ficaria apenas na Turquia. Depois de fazer uma visita relâmpago aos turcos, Blatter se refugiou em seu escritório em Zurique e só voltou ao Brasil depois que a Fifa recebeu garantias do governo de que a proteção do evento seria assegurada.
Blatter ainda desistiu de participar da cerimônia de lançamento em Belo Horizonte de um dos projetos da entidade que é a sua menina dos olhos: o Football for Hope, uma espécie de Bolsa Família da Fifa. Ainda que tenha um impacto real para quem o recebe, a iniciativa também tem um cunho eleitoral. O evento em Minas Gerais estaria repleto de organizações da sociedade civil e o temor era de que Blatter fosse hostilizado e vaiado.
Mas o auge das manifestações foi a noite do dia 20 de junho, quinta-feira, quando o país parou e 1 milhão de pessoas tomaram as ruas. Naquela noite, nos hotéis Sofitel e Copacabana Palace, no Rio de Janeiro, a cúpula da Fifa não dormiu. Telefonemas entre o governo e a entidade se repetiam para tentar entender o que estava ocorrendo. As televisões dos quartos e das salas de reuniões dos cartolas estavam ligadas em permanência, enquanto os demais eram instruídos a não sair às ruas. Os carros oficiais tiveram os emblemas da Fifa retirados e até os hotéis que orgulhosamente apontavam que eram as sedes da entidade no Brasil passaram a esconder as bandeiras e qualquer imagem da Copa. Vi como os funcionários do Copacabana Palace retiravam as bandeiras da Fifa hasteadas na entrada do imponente prédio.
Já eram quase cinco da manhã do dia 21 quando se decidiu que o governo e a Fifa se reuniriam naquela manhã em caráter de emergência para definir o que fazer. Uma das propostas que chegou a ser sugerida por patrocinadores era a de concluir a fase de grupos da Copa das Confederações e deixar as duas semifinais e a final para um outro momento, em outro país.
A crise também havia se transformado em um jogo de empurra-empurra. As seleções pressionavam a Fifa por segurança e alertavam que seus jogadores milionários não podiam ser ameaçados. Já os patrocinadores haviam pagado fortunas para estar na Copa e queriam ter garantias de que seus convidados VIPs — CEOs de empresas, megainvestidores e personalidades — poderiam circular pelo Brasil. Enquanto os protestos ocorriam, recordo de um representante de uma das empresas patrocinadoras da Fifa falando ao telefone em um lobby de um hotel e se queixando do fato de que, em uma partida em Salvador, 2 mil de seus convidados não apareceram, temendo os protestos. “Quem vai pagar a conta? Quem vai pagar a conta”, gritava.
Carros da Hyundai, uma das patrocinadoras da Copa, foram atacados num local de promoções no centro do Rio de Janeiro. Já as televisões que compraram o direito de transmitir os jogos viviam um dilema entre promover o evento e relatar como a manifestação, na prática, deixou o futebol em segundo plano. A Caixa Econômica, outro patrocinador, pediu às redes de televisão que deixassem de veicular seus comerciais nos momentos dos jogos, temendo que suas agências passassem a ser alvo dos manifestantes.
O luxuoso hotel Copacabana Palace era um retrato da crise. A Fifa havia montado uma sala sofisticada para sua cúpula descansar ao lado de patrocinadores e políticos. Sofás, coqueiros, champanhe e os melhores chefs do Rio de Janeiro. Mas, diante da turbulência, o salão com vista para o mar viveu às moscas durante o torneio e o telão gigante colocado para que a cúpula da entidade pudesse ver os jogos apenas passava as imagens das manifestações. Nada de futebol.
A Fifa cobrava do governo, que por sua vez alertava que a prioridade era a rua, e não o evento esportivo. A entidade não ficou satisfeita com a reação da presidente Dilma Rousseff, que, em seu discurso em rede nacional na sexta-feira à noite, deixou a Copa como um ponto marginal e apenas pediu que o brasileiro “acolha” bem os estrangeiros. “O futebol é símbolo de paz entre povos. O Brasil merece e vai fazer uma grande Copa”, completou, sem dizer o que faria para garantir o evento.
A decisão no dia 21 foi a de manter o evento até o final, correr o risco e transformar os estádios em bunkers. Nada do clima de festa na Copa da Alemanha de 2006 ou de outros torneios na Europa. Torcedores passaram a chegar a estádios sitiados pelo deslocamento das tropas de choque, força nacional e centenas de policiais militares.
Valcke deixou claro ao governo: se a segurança nas partidas não fosse garantida, a Copa das Confederações seria suspensa. No fundo, ninguém queria o cancelamento do evento. Isso teria ameaçado a Copa do Mundo, gerado um prejuízo sem precedentes para o governo e transformado anos de preparação em um vexame internacional.
Se para o Brasil um cancelamento seria desastroso, para a Fifa a crise também seria profunda. Uma preocupação da entidade se referia ao fato de os protestos no Brasil terem aberto uma caixa de Pandora para novas manifestações em todos os seus eventos. Afinal, se o “País do Futebol” questionou a Copa, porque outros países não fariam o mesmo?
A Copa de 2018 ocorre na Rússia, local que também tem sido marcado por um confronto entre ativistas e o governo de Vladimir Putin. Em 2022, a Copa ocorre no Catar, país que vive uma ditadura. Questionei os CEOs das Copa de 2018 e 2022 sobre o que ocorreria se Putin ou o Emir do Catar fossem vaiados nos estádios, como ocorreu com Dilma, ou se a população tomasse as ruas para manifestar. “Isso não vai ocorrer”, garantiu Alexey Sorokin, chefe do Comitê de Organização da Copa de 2018.
Numa sociedade democrática na qual políticos precisam convencer cidadãos a votar por eles, o evento que era a aposta para campanhas eleitorais se transformou rapidamente em um torneio com o potencial de ser um suicídio político.
Pouco a pouco, enquanto as pessoas tomavam as ruas, o que se viu foi um afastamento daqueles políticos que, anos antes, comemoraram a conquista da Copa. A reviravolta no discurso era evidente, tentando mostrar simpatia às demandas das ruas. “As pessoas estão se perguntado por que estamos gastando tanto dinheiro”, me disse o prefeito do Rio, Eduardo Paes. Alguns dias depois, ele seria ainda mais explícito sobre a Copa em uma entrevista à Folha de S.Paulo. “Acho que o Brasil perdeu uma oportunidade com a Copa do Mundo”, disse. “As ruas não disseram que são contra a Copa. As ruas dizem o seguinte: somos contra a forma como se fez a Copa.” Paes até mesmo passou a criticar a Fifa, algo impensável para um político brasileiro em busca de trazer jogos para sua cidade. “A Fifa não se preocupa com legado. Preocupa-se com o estádio”, disse.
Já Dilma desapareceria da Copa das Confederações e Lula jamais veria um só jogo do torneio que ele ajudou a trazer para o país.
Na grande final no Maracanã, no dia 30 de junho de 2013, o mal-estar entre Fifa, governo e CBF contrastava com a elegância dos vestidos, da champanhe francesa, das joias, do salmão e dos ternos da sala VIP do Maracanã, enquanto bombas explodiam fora do estádio e o cheiro do gás lacrimogêneo usado pela polícia podia ser sentido mesmo nas arquibancadas.
A manifestação também conseguiu se infiltrar entre os organizadores. Voluntários usados como dançarinos na coreografia da cerimônia de encerramento aproveitaram para protestar contra a privatização do estádio no centro do gramado de um Maracanã lotado.
Uma delas levou um cartaz feito de pano e abriu diante das câmeras de todo o mundo. Elas foram rapidamente abafadas e retiradas do local, enquanto gritavam. A Fifa emitiu uma nota dizendo que respeitava o direito de se manifestar, mas que pediram aos voluntários que se retirassem em “respeito aos espectadores”. Entre os torcedores, não faltavam os cartazes contra a Copa, contra o governo ou contra a Fifa. Naquele dia, vi até mesmo os voluntários do evento nas arquibancadas se unindo aos coros de protestos.
A síntese da crise foi o debate que por horas se travou sobre quem entregaria a taça ao campeão na Copa das Confederações, um momento sempre aguardado pelos políticos para mostrar ao mundo seu orgulho e cumprimentar os campeões. Ninguém queria ser vaiado, e políticos e cartolas empurraram uns para os outros a tarefa de aparecer entregando o troféu de campeão. Dilma Rousseff não foi ao Rio, temendo outra vaia como ocorreu no jogo de abertura. Obviamente, ao ver que a seleção havia vencido a poderosa Espanha e conquistado o título, Dilma rapidamente emitiu um comunicado de Brasília e convidou a seleção para visitá-la. Luiz Felipe Scolari, o técnico da seleção, vetou a viagem.
Durante o dia da final, falou-se que o vice-presidente Michel Temer poderia ir ao estádio, o que também não ocorreu. A irritação entre os membros da Fifa era clara diante da ausência da cúpula do governo.
Por horas, a preocupação com as vaias também levou o prefeito do Rio, Eduardo Paes, e o governador do Estado, Sérgio Cabral, a não informarem se estariam no Maracanã. O prefeito chegaria em cima do horário do início do jogo. Cabral estava propenso a não ir. O certo é que nenhum dos dois queria aparecer nos telões entregando a taça. O governo federal foi representado apenas pelo ministro dos Esportes, Aldo Rebelo, que ficou distante da CBF e da Fifa.
A Copa que estava sendo programada para ser um trampolim político para muitos, uma campanha por votos financiada pelo dinheiro público, agora ameaçava as pretensões eleitorais de políticos.
Horas antes, em Salvador, no jogo que marcou a disputa do terceiro lugar, Valcke e o governador da Bahia, Jacques Wagner, foram vaiados. O político não ficou até o final do jogo. No Maracanã, o presidente da Fifa, Joseph Blatter, e o presidente da CBF, José Maria Marin, também foram vaiados na final.
Em muitos sentidos, a Copa das Confederações e as arquibancadas se transformaram em caixas de ressonância de uma sociedade para dar seu recado, ainda que desencontrado, paradoxal, sem estratégia e sem um plano. Mas o recado foi dado.
Tudo o que se escutou nas ruas em junho e julho de 2013 era conhecido de todos havia anos — escola, saúde, transporte e vida digna. Mas jamais foram veiculados de forma tão forte como quando a nova arquibancada do Maracanã vibrou com torcedores que entoavam protestos, e não o grito de gol. Lamentavelmente, a violência inaceitável acabou manchando um processo importante na construção da democracia brasileira. Mas nem por isso invalidou o que ocorreu na Copa das Confederações, e muito menos sua mensagem original.
QUE LEGADO DEIXA A COPA AO BRASIL?
Em mais de dez anos acompanhando as reuniões da Fifa, os eventos midiáticos de cartolas e encontros entre governos e dirigentes esportivos, vi uma mesma ideia ser martelada à exaustão: a insistência de todos em apontar que os eventos esportivos deixam “grandes legados” para quem os organiza. Confesso minha profunda irritação quando ouço um político pronunciar essa palavra, legado.
Vazia de qualquer sentido, ela é instrumentalizada por todos aqueles que ganham com o evento. Sempre que não existe um argumento para justificar um investimento, ela aparece para preencher uma lacuna numa frase de efeito. Os únicos que jamais utilizam essa palavra para falar do evento em questão são os cidadãos que pagam por ela.
A questão do legado que um evento deixa foi a forma encontrada por dirigentes e políticos para justificar gastos para esses megatorneios. Não quero dizer aqui que esses legados não existam. Mas os exemplos de sucesso são muito mais limitados do que o número de megaeventos realizados nos últimos cinquenta anos.
Barcelona é repetidamente citada por dezenas de políticos de todas as nacionalidades para justificar uma campanha para trazer a Copa ou os Jogos Olímpicos a uma cidade. Mas o que poucos apontam é que, de fato, a Olimpíada de 1992 foi “apenas” um pretexto para uma reforma urbana que começou em 1986. Naqueles anos, a Espanha se abria ao mundo, tinha acabado de aderir à então Comunidade Europeia, se consolidava finalmente como uma democracia e, claro, passava a receber investimentos. Barcelona se apoderou de um evento para que ele servisse a uma cidade. E não que essa cidade — e seus cofres — servissem a patrocinadores e cartolas.
“De fato, as mudanças na infraestrutura urbana que se produziram dentro e nos arredores da cidade de Barcelona entre 1986 e 1992 podem ser consideradas como uma das transformações urbanas mais ambiciosas de uma cidade no período do pós-guerra”, aponta um estudo realizado por Chris Kennett, professor da Business Engineering School.
A realidade é que, no projeto olímpico de 92, apenas uma parte mínima era investimento em locais para receber os eventos esportivos exigidos pelo COI. Em Barcelona, apenas 9% dos gastos para as Olimpíadas foram destinados à construção de estádios, piscinas ou instalações. O restante do orçamento foi para o plano urbano da cidade. No caso da Copa no Brasil, os estádios vão consumir mais de 35% do orçamento planejado de investimentos.
A Copa viu o Brasil erguer doze estádios, quando no fundo precisava de apenas oito. A Copa viu o país construir um novo estádio em Manaus, considerado pelo escritor amazonense Milton Hatoum como “um delírio populista e demagógico, com tenebrosas transações, como dizia a canção de Chico Buarque”. A Copa sentenciou que um estádio como o Morumbi não era suficiente para um Mundial. A Copa viu uma cidade como Brasília erguer um dos estádios mais caros do mundo.
Essa não é a única diferença entre Barcelona e o Brasil. Em 1992, a entidade que estabelecia o que era necessário ser construído era independente dos organizadores dos Jogos e, acima de tudo, o plano foi realizado com vistas ao impacto futuro das obras, e não atendendo a interesses clientelistas para as próximas eleições.
Não por acaso, o veredicto final foi um reconhecimento de que os Jogos de 1992 haviam mudado para sempre a cidade. Os cartolas não tiveram nenhuma chance de roubar a cena. Nem os esportistas brilharam mais que a própria cidade. “Não importou o quanto saltaram, correram ou remaram. Eles nunca dominaram os Jogos. Quem ganhou os Jogos foi a cidade. O povo da Catalunha ganhou os Jogos”, sentenciou o New York Times num artigo no dia do encerramento do evento.
Poucos no mundo conseguiram repetir o “Modelo Barcelona”. No fundo, o que a cidade catalã fez foi simplesmente usar o evento para se refundar. O esporte foi apenas o vetor. O COI, apenas a desculpa.
Nos últimos anos, a preocupação com o impacto de um evento para uma cidade também ganhou um novo contorno. Algumas cidades pelo mundo optaram por outra estratégia que, de certa forma, traz os megaeventos para uma adequação aos sistemas democráticos: a realização de plebiscitos para saber se os cidadãos estão dispostos a se lançar numa campanha por atrair uma competição.
De fato, a lógica é muito simples. Se esses eventos são tão claramente positivos para uma sociedade, por que razão os dirigentes e autoridades não têm a coragem de realizar referendos antes de lançar suas candidaturas? Obviamente entendo que esse não seja o expediente que as autoridades chinesas pensaram para os Jogos Olímpicos de 2008 de Pequim ou que Vladimir Putin pensou para Sochi em 2014 ou para a Copa de 2018. Isso, claro, sem falar no regime ditatorial do Catar que, enquanto se apresenta ao mundo como uma nação moderna, não passa de um reino endinheirado comandado com punhos de ferro por uma família que não aceita sequer a existência de uma oposição.
É verdade que, de alguns anos para cá, o COI e outras entidades passaram a pedir que os candidatos a receber grandes eventos mostrem que existe um apoio popular para receber o torneio. Nas dezenas de candidaturas que já me dei ao trabalho de ler, jamais vi uma que citava um apoio inferior a 85% da população. Mas também jamais li um informe técnico dessas candidaturas que me explicasse quem entrevistaram e, acima de tudo, exatamente que pergunta foi feita.
Nos raros casos em que as autoridades optaram por realizar um referendo para saber se a população estava disposta a receber — e pagar — por esses eventos, a resposta foi surpreendente. Um desses casos foi a candidatura da rica cidade de Munique para receber os Jogos Olímpicos de Inverno de 2022. Um dos principais centros da economia alemã decidiu que não será a sede do evento. Mas o problema não foi a falta de dinheiro, nem a falta de tradição nos esportes e nem a falta de infraestrutura.
O motivo foi o “não” da população ao projeto cujo valor era incerto e que, no final das contas, seria pago pelos contribuintes. Numa votação realizada em 2013, os habitantes de uma das cidades mais ricas da Europa foram às urnas votar se queriam ou não o evento. A decisão foi de rejeitar o projeto, numa atitude que gerou um forte abalo entre dirigentes esportivos, que passaram a temer que o exemplo começasse a ser seguido em outros países democráticos.
Para Ludwig Hartman, deputado do Partido Verde e líder do grupo que se opunha ao projeto, o voto não foi um sinal “contra o esporte”. “O voto foi um sinal contra a não transparência, a cobiça e os lucros do COI”, insistiu. De fato, ninguém pode acusar os alemães de avessos ao esporte e aos eventos internacionais. A Alemanha sediou os Jogos Olímpicos de 1936, as Copas de 1974 e 2006, e dezenas de outros torneios.
Sem a candidatura alemã no páreo, as favoritas são Oslo, Lviv (Ucrânia) e Pequim. Mas a iniciativa de Munique já começa a ganhar espaço. Populações em diversas partes da Europa acompanharam de perto o voto, justamente como exemplo do que poderão exigir da próxima vez que Paris, Roma ou Madri tentarem sediar grandes eventos. Em um editorial, o Financial Times também elogiou a votação e apontou que a medalha de ouro já tem dono: Munique e sua iniciativa de consultar a população.
O que mais impressiona é que aquela não havia sido a primeira vez que as autoridades tentaram lançar uma candidatura de Munique para sediar um torneio internacional. A cidade era também candidata para receber os Jogos de Inverno de 2018. Uma vez mais, o evento ocorreria com dinheiro público e nada melhor que consultar a população que vai pagar pela organização se está disposta a abrir o bolso.
Em 2011, o referendo foi realizado. Aqueles que queriam o evento tiveram de abrir todos seus livros, suas finanças e mostrar por que um cidadão de Munique deveria dar dinheiro para a candidatura. De outro lado, grupos de oposição alertaram para os danos ecológicos das obras e insistiram que os investimentos não valiam a pena.
O referendo terminou com um saldo favorável aos que defendiam o evento. Mas a margem foi pequena, 58%. Munique acabaria não vencendo a corrida por votos no COI. Mas, entre seus cidadãos, a consulta havia sido realizada.
Quem também passou a adotar a votação popular para definir uma candidatura foi a Suíça. As autoridades de um cantão propuseram organizar os Jogos de Inverno de 2022 na região da luxuosa estação de esqui de Saint Moritz. Mas, antes de lançar sua candidatura, optaram por questionar a população se estava ou não de acordo em bancar o evento.
O processo foi transparente. De um lado, os partidos e grupos que apoiavam o evento foram obrigados a divulgar dados e projeções para mostrar que o investimento tinha um retorno. Ao contrário do lançamento da nossa Copa, em 2007, o evento na Suíça já tinha orçamento mesmo antes de existir oficialmente. Os organizadores foram obrigados a mostrar transparência total dos custos e cada um dos cidadãos ficou sabendo exatamente quanto sairia de seu bolso. Conversando com um dos organizadores da candidatura, ele me dizia: “Só ganharemos o apoio popular se mostrarmos que não temos nada a esconder”.
De outro lado, os grupos contrários apresentaram aos eleitores os pontos negativos e coube ao governo local enviar a cada casa um livreto explicando as posições dos campos na disputa pelos votos. Coube à população estudar cada um dos casos e, depois, escolher. No dia da eleição, o resultado foi categórico: os ricos suíços decidiram que o evento não se justificava e que não estavam dispostos a pagar por ele. O tema foi encerrado e, com toda elegância, os organizadores engavetaram a proposta e a vida seguiu normalmente. Não houve tapetão, roubo de medalhas, fraude, acusações de corrupção e nem mesmo pedido para recontagem de votos. Também não escutei ninguém do lado perdedor dizendo que a população não sabe votar.
Em outros países, projetos de candidaturas foram bloqueados pela própria classe política diante dos custos que esses eventos gerariam para os cofres nacionais. Uma delas foi Estocolmo, onde dirigentes esportivos pensavam em entrar na briga pelos Jogos Olímpicos de Inverno de 2022. Partidos políticos e até mesmo o primeiro-ministro da Suécia, Fredrik Reinfeldt, foram contrários à empreitada.
O prefeito de Estocolmo, Sten Nordin, comanda uma das cidades mais ricas do planeta. Mas deixou claro que sua prioridade não era erguer estádios. Segundo ele, o que a cidade precisa é de moradia. O evento custaria uma fração do que o Brasil gastará com a Copa, R$ 3,6 bilhões. Mas, mesmo assim, ele foi rejeitado. “Quando se trata de custos deste calibre, os cidadãos que pagam impostos exigem de seus políticos mais do que previsões otimistas e boas intuições. Não é possível conciliar um projeto de sediar os Jogos Olímpicos com as prioridades de Estocolmo em termos de habitação, desenvolvimento e previdência social”, disse o secretário municipal de Meio Ambiente da capital sueca, Per Ankersjö, segundo a BBC . O discurso poderia parecer o de um político de um país em desenvolvimento onde milhões moram em favelas. Mas, no fundo, é o tom do discurso de um dirigente de uma das sociedades mais desenvolvidas do mundo.
No auge dos protestos em meados de 2013 durante a Copa das Confederações, a presidente Dilma Rousseff propôs um plebiscito para instalar uma Assembleia Constituinte específica sobre reforma política. Ela jamais ocorreu e não passou de mais uma medida de marketing de um governo que não entendeu o motivo por que a população estava nas ruas.
E se essa forma de consulta democrática ou um referendo tivesse sido realizada antes de o Brasil lançar sua candidatura para a Copa de 2014 ou para os Jogos Olímpicos de 2016?
Qual teria sido o resultado? Por que é que esse referendo jamais foi feito?
Conversando com organizadores da Copa, eles insistem em dizer que haveria uma vitória do “SIM ” caso essa votação tivesse sido realizada. Talvez isso seja verdade. Mas o que precisamos ainda pensar é que tipo de pergunta seria feita. Tenho certeza de que o resultado seria diferente dependendo de como a questão fosse colocada.
— Você aceita a realização da Copa de 2014 no Brasil?
Não duvido que essa frase teria recebido a aprovação de mais de 50% dos brasileiros.
Mas não sei se o resultado seria igual se a pergunta fosse a seguinte:
— Você aceitaria o uso de bilhões de reais dos orçamentos públicos para bancar uma Copa no Brasil, além da renúncia fiscal de R$ 1 bilhão para a Fifa e seus parceiros comerciais?
Provavelmente, essa Copa imaginária de um país democrático também teria sido aprovada. Mas só a votação e o processo teriam exigido de cartolas e governos uma transparência inédita no país. Imaginem um debate televisivo entre Ricardo Teixeira e Romário… Ou um debate entre qualquer cartola e movimentos sociais afetados pelas obras do Mundial ou Jogos Olímpicos.
Mas a realidade é que os dirigentes esportivos do país não parecem dispostos a isso. Na verdade, poucos estão preparados para eleições livres e democráticas. Em 2011, a Fifa chegou a pensar na possibilidade de permitir que atletas também pudessem votar para eleger presidentes de federações nacionais de futebol. Mas Ricardo Teixeira, ao lado do argentino Julio Grondona e do paraguaio Nicolas Leoz, enterraram a proposta.
Em novembro de 2011, num evento na ONU em Genebra, Carlos Arthur Nuzman foi surpreendido por uma pergunta da plateia, num evento que ele e a diplomacia brasileira estavam convencidos de que seria apenas mais um show da simpatia nacional. Nos corredores da ONU, o governo chegou a levar uma espécie de carpete para imitar a calçada de Copacabana, enquanto serviam caipirinha.
Nuzman e a diplomacia brasileira passaram por uma saia justa diante de mais de trezentas autoridades da ONU e governos de todo o mundo. A brasileira Isabela Ledo, uma estudante de urbanismo na Europa que pesquisava justamente o legado social do evento em 2016, pediu explicações sobre as comunidades que seriam realocadas por conta das obras dos Jogos Olímpicos. Fez-se um silêncio incômodo na sala.
Visivelmente irritado, Nuzman insistiu em defender o programa Morar Carioca, “em que o governo dá novas casas com boas condições de saúde e saneamento às pessoas que vivem em más condições”. “Milhares e milhares de pessoas estão recebendo estas casas e estão muito felizes”, disse Nuzman. “É claro que na organização dos Jogos Olímpicos, algumas pessoas são a favor e outras contra. Se algumas pessoas preferem morar em condições precárias no centro da cidade a morar a dez quilômetros do centro nas novas casas, aí é escolha deles”, argumentou.
A então embaixadora do Brasil na ONU, Maria Nazareth Farani Azevedo, também se esforçou em mostrar a dimensão social dos Jogos no Brasil, ignorando a conclusão de relatores especiais da ONU que já apontaram para as violações cometidas pelo país nas obras para a Copa e os Jogos Olímpicos. A resposta de Nuzman e o discurso brasileiro parecem não ter convencido a ONU. O então representante da entidade para temas esportivos, Wilfried Lemke, encerrou o evento citando justamente a brasileira que questionou Nuzman, qualificando-a como “corajosa”.
Não se necessitaria de “coragem” numa democracia real. Não haveria a necessidade de um alto funcionário da ONU mencionar a questão de uma estudante brasileira se todos tivessem tido a possibilidade de se pronunciar.
No fundo, só a realização desse referendo e o trabalho que daria aos cartolas para se explicar já teria sido talvez o maior legado que uma Copa teria deixado ao Brasil. Ficará para uma próxima, talvez em meio século.
Desta vez, o legado foi outro. E ele não foi deixado pelos dirigentes ou pelo governo. Ele foi uma reação a uma mentira. O Brasil mostrou que não é apenas o “país do futebol”. A sociedade brasileira pegou a Fifa de surpresa ao mostrar que não basta nos trazer espelhinhos ou uma bola nova que estenderemos um tapete vermelho. A Copa fez a população ir às ruas. Não foi o motivo central. Mas ela teve o poder de aglutinar interesses e resumiu as demandas sociais na celebre frase “Padrão Fifa”.
As autoridades perderam a chance de usar a Copa para transformar fisicamente as estruturas das cidades, que sufocam as populações. A Copa trouxe ao primeiro plano as incoerências de um país que ainda consolida sua democracia. “Curiosamente, ou desgraçadamente, o Brasil está repetindo em democracia a mesma megalomania dos militares, que construíram estádios por todo o país”, disse Juca Kfouri.
Mas a sociedade não perdeu a oportunidade de mostrar que não é aquela dos pôsteres da Embratur, que não é apenas o “Homem Cordial” cujo único objetivo é ter espasmos de alegria, seja na tribuna de um estádio ou no Carnaval.
O maior legado da Copa do Mundo de 2014 foi construído pela própria sociedade. Ela descobriu que pode questionar e que tem o poder de colocar na parede políticos e dirigentes. A Copa não foi desperdiçada. Mas isso só aconteceu porque ela foi desperdiçada pela classe dirigente do Brasil como uma oportunidade para gerar desenvolvimento social real.
Faltando pouco mais de seis meses para a abertura da Copa do Mundo, o ministro do Turismo, Gastão Vieira, deu mais uma demonstração de que dirigentes não perdem a oportunidade de culpar o “jeitinho brasileiro” pelos problemas no Mundial, ao reconhecer que algumas obras necessárias para que as cidades-sede recebam os turistas ainda nem tinham começado. “Estamos fazendo uma Copa no Brasil, e com brasileiros. Um pouco da nossa maneira de resolver os problemas tem de estar presente nesses acontecimentos. Então atrasa uma obra aqui, ocorre um reajuste de preço ali”, disse em entrevista à rádio Estadão.
Quais brasileiros? Brasileiros como Ricardo Teixeira ou brasileiros como aqueles que foram às ruas pedir hospital? Brasileiros como os que roubam medalhas ou brasileiros que acordam às quatro da manhã para andar até o trabalho, deixando uma família inteira em casa, se é que um barraco na favela pode ser chamado de casa? Brasileiros que vivem um delírio tropical ou aqueles que não sabem se seus direitos mais básicos serão respeitados?
De certa forma, a Copa nos ajudou a deixar para trás a sombra que projeta a nossa forma. Uma sombra que engana que não conhece sua complexidade. Essa sombra que foi gerada por décadas de um sol escaldante e imprimiu nossa imagem pelo mundo. Algo tão forte quanto a sombra de uma garota desconhecida que, na explosão da bomba atômica em Hiroshima, ficou marcada nas escadas de um prédio para sempre. Essa sombra não mente. Mas tampouco diz a verdade completa sobre a sociedade brasileira.
Povoamos o imaginário no planeta e a Copa será mais uma peça colocada num caleidoscópio que, a cada giro, ganha uma nova forma. A narrativa da construção da sociedade brasileira do século XXI passa necessariamente por esse momento de transformação. De um complexo de vira-lata, corremos o risco de viver um complexo de grandiosidade, alimentado por dirigentes sem projetos para o país e que tentaram usar a Copa como um atalho para se afirmar no mundo como uma potência. Um atalho que justamente salta etapas como a de garantir uma renda digna a todos os seus cidadãos e um hospital a todos os que necessitam. Não existem atalhos na construção de uma democracia real. Não existem atalhos no desenvolvimento social. Uma imagem de potência que é baseada em miragens criadas pelos estádios modernos corre o risco de se desfazer assim que descobrirmos que a festa acabou.
Sempre estive convencido, desde o início desse processo, que ganharíamos o respeito internacional não se erguêssemos os palácios mais modernos do mundo para o futebol, mas se tivéssemos a coragem de confrontar o engodo do Mundial sem temores e denunciássemos cada vez que fôssemos pegos por uma mentira. Seríamos reverenciados se nos apoderássemos da Copa e a transformássemos em um vetor de desenvolvimento social.
Ninguém se levantou contra o futebol ou contra a Seleção Brasileira. Não há contradição. Na realidade, há uma lógica absolutamente perfeita em tudo isso: somos tão apaixonados pelo futebol que não aceitamos que ele seja uma vez mais manipulado. Não aceitamos o sequestro dos amistosos da seleção para enriquecer alguns em Andorra. Somos um país de chuteiras, mas são hoje indignadas e exigem respostas aos desafios da sociedade.
Não teremos todas essas respostas por anos ainda. Mas, por enquanto, o que precisamos ter é a vontade de questionar.
A Copa acabou. Em campo, não se sabe ainda quem ganhou e, em junho e julho, suspenderemos tudo para saber isso, acompanhar cada lance e vibrar em cada gol. Não se trata aqui de torcer pelos adversários do Brasil. Mas sim contra os inimigos da sociedade, que, nesse caso, não estão em campo.
Pagou-se caro — na verdade, muito caro — por esse Mundial. Na ausência de resultados reais, de manipulação e do uso político de um megaevento, a sociedade reagiu e construiu seu próprio legado mandando um recado muito claro aos dirigentes do país e mesmo à Fifa: o de que, como já disse William Shakespeare, não há legado mais rico que a honestidade.
Você terminou A copa como ela é
Jamil Chade
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