A copa como ela é
3. Chute no traseiro
Demorei anos para entender o alerta que recebi de Maite Nkoana-Mashabane, com sua voz suave e pausada, em uma conversa na sede da ONU, em 2010. Nkoana-Mashabane é a ministra de Relações Exteriores da África do Sul e uma das diplomatas mais respeitadas do continente africano. Dias depois do fim da Copa do Mundo da África do Sul, perguntei a ela o que sugeriria ao Brasil para garantir o sucesso da Copa. Num tom elegante e direto, ela alertou: “Sugiro que o país assuma a Copa, que pense mais em si mesmo, no interesse de sua população e que não aceite todas as condições exigidas pela Fifa”. Hoje, às vésperas da Copa de 2014, seu recado continua ressoando.
A Fifa nunca escondeu que a Copa do Mundo é propriedade dela e que os governos são apenas anfitriões de um evento privado. Por conta disso, a marca “Fifa World Cup” está registrada em mais de 150 países do mundo.
Qualquer debate sobre o papel social do Mundial, de sua relevância ou até mesmo do poder da Fifa deve partir, antes de tudo, dessa base. Desde os compromissos assumidos pelo Brasil na candidatura até as leis que foram modificadas para atender à entidade e passando por exigências comerciais, legais e esportivas, tudo numa Copa do Mundo é estabelecido pela Fifa.
Sem complexos, a entidade não rejeita essa realidade e alerta que apenas assim pode garantir que seu evento tenha lucros e que seja protegido. Teoricamente, esses lucros seriam depois distribuídos para a comunidade internacional do futebol, desenvolvendo o esporte pelo mundo. Isso é em parte verdade, ainda que a Fifa não aprecie quando se pergunta o salário de Blatter e nem o motivo pelo qual meia dúzia de cartolas ganham, juntos, cerca de US$ 35 milhões por ano.
A Fifa também não tem qualquer problema em dizer claramente que é a Copa do Mundo que garante sua renda por quatro anos e paga por todos os demais eventos. Assegurar o sucesso comercial do evento, portanto, é tão importante quanto garantir a sobrevivência financeira da Fifa. Nem mais, nem menos.
Não foram poucas as vezes que, nos últimos meses, Joseph Blatter se defendeu dos ataques que recebia no Brasil com a seguinte frase: “Foram vocês no Brasil que queriam a Copa. Não forçamos ninguém no Brasil a sediar o evento”. Ele tem absolutamente toda razão. Mas pressupõe que, quando a CBF e o governo decidiram se lançar em uma campanha para receber a Copa, todos os cidadãos foram informados do custo que isso teria. E insiste em mostrar que, ao garantir bilhões de reais em lucros para a Fifa, o Brasil também está se beneficiando. O alerta quase arrependido da sul-africana Nkoana-Mashabane era uma prova de que nem todas as promessas do futebol e da Fifa se transformam em realidade.
De fato, a África do Sul praticamente se colocou de joelhos diante da Fifa nos anos de sua preparação, aceitando todas as exigências da entidade e ainda acatando que estrangeiros fossem estabelecidos em Johanesburgo para tocar o evento, numa humilhação e sinal de que a Fifa simplesmente não confiava que as coisas funcionariam na África do Sul se elas fossem deixadas apenas aos gerentes locais.
Era para ser a Copa da África, o evento que mostraria que o continente estava pronto a passar para uma nova etapa de sua história. Apesar de todo o medo preconceituoso dos europeus em relação à Copa, os sul-africanos não deixaram nada a desejar em 2010. No geral, tirando talvez os jogadores da medíocre seleção da França e o técnico Dunga, todos saíram satisfeitos com a Copa do Mundo na África do Sul, a primeira no continente africano.
Mas as promessas de que o evento mudaria o destino de milhões de pessoas na região não passaram de um sonho. Cinco dias antes da abertura do Mundial, eu estava em Pretória, na sede do governo, num evento com Joseph Blatter e o presidente sul-africano, Jacob Zuma. Ali, ninguém mais falava nos benefícios sociais da Copa ou nos ganhos financeiros para o país. Zuma preferia falar em ganhos de outras dimensões e, num discurso que beirava a ironia, insistiu que o impacto positivo provocado pela Copa só era comparável ao efeito político que teve a libertação do líder Nelson Mandela da cadeia, vinte anos antes. “Não há preço para o que ganhamos ao abrigar essa Copa”, disse Zuma, diante de jornalistas. “O maior legado dessa Copa é o orgulho nacional e isso não tem preço.” O político não poderia ser mais astuto: transformou os benefícios da Copa em um bem intangível e, assim, justificou todos os gastos.
O rombo nas contas do governo, no entanto, era mais que real diante de uma Copa que custara onze vezes o previsto inicialmente. O governo sul-africano estimava inicialmente que os ganhos da Copa do Mundo seriam de 0,5% do PIB. Mas o Conselho de Pesquisa de Ciências Humanas do país calculou que os gastos públicos foram o equivalente a 6,4% do PIB em 2010, cerca de US$ 8 bilhões. Por exigência da Fifa, o governo ainda deixou de coletar US$ 15 milhões em impostos de importação e teve de disponibilizar para a “Família Fifa” dois jatos, trezentos carros e um serviço de saúde que custaram US$ 80 milhões. Até hoje, o saldo para o país é incerto. Já a Fifa não precisou esperar para saber se ganhou ou perdeu. A entidade conseguiu uma receita 50% superior ao que obteve na Copa da Alemanha em 2006, com cerca de US$ 3,2 bilhões.
Passada a euforia do mês da Copa, que de fato foi contagiante, milhões de cidadãos continuavam desempregados e a África do Sul voltava à sua dura realidade. Depois que o circo deixou o país, ficaram a pobreza, a aids, a violência, a desigualdade social e, principalmente, uma divisão profunda entre os líderes sobre qual deve ser o projeto de país para a África do Sul.
Poucas horas depois de Iker Casillas levantar a taça de campeão do mundo, o governo sul-africano ordenava que tropas ocupassem algumas das regiões mais miseráveis de Johanesburgo para frear uma tensão latente de ataques xenófobos contra imigrantes estrangeiros. No dia seguinte, funcionários de empresas de energia confirmavam a intenção de entrar em greve. Eram recados claros à população de que, com o fim da Copa, a vida voltaria a ser o que era antes. E sinais de que o futebol não opera milagres, salvo graças a jogadas espetaculares dentro de campo.
Quanto ao prometido “orgulho nacional”, até mesmo os jogadores da seleção da África do Sul admitiam longe das câmeras que não seria a bola que mudaria as condições sociais de um país. Sozinha, a euforia não passaria de uma cortina de fumaça para esconder o fato de que o Mundial, por si só, não garante benefício algum se ele não for muito bem instrumentalizado pelo governo justamente para gerar desenvolvimento.
Ainda em Johanesburgo, mantive uma longa conversa com o zagueiro Matthew Booth, o único jogador branco do time sul-africano comandado por Carlos Alberto Parreira. Falamos da experiência da Copa, das pressões e de futebol. Mas quando o questionei sobre o impacto da Copa para superar a divisão racial e social na sociedade que ainda prevalecia, vinte anos depois da queda do Apartheid, Booth foi taxativo. “Não será o futebol que vai mudar as coisas. O que mudará a vida das pessoas serão políticas públicas”, disse. “Quando a bola parar de rolar, a vida voltará ao que era”, afirmou. O jogador era o personagem perfeito para mostrar a imagem do que seria um novo país. Casado com uma modelo negra de Soweto e capa da Sports Illustrated, ele representava a diversidade em um esporte dominado pelos negros na África do Sul e a capacidade da nova geração de superar as barreiras da raça. Mas nem mesmo aquele que era a imagem idealizada de um país conseguia esconder que a realidade não correspondia aos sonhos que são oferecidos por aqueles que de fato lucram com um Mundial.
Bastava ir até um dos subúrbios das grandes cidades sul-africanas para constatar o que Booth acabava de afirmar. Lilian, uma moradora do Soweto, aceitou conversar comigo na porta de sua casa, mas desde o primeiro minuto alertou que não iria sair em defesa da Copa. “As promessas eram que nossa vida mudaria. Agora, a Copa acabou e continuo desempregada. Se o governo teve dinheiro para gastar com estádios, podia ter aberto um hospital para a sua própria população”, disse, indignada.
De fato, o dinheiro usado para o Mundial pelo governo seria suficiente para construir casas para 12 milhões de sul-africanos que vivem em favelas. O escritor sul-africano Rian Malan definiria de forma precisa o que havia sido a Copa. “A Fifa encorajou o governo a gastar bilhões que não tínhamos em estádios de que não precisamos. Agora, infelizmente, ficaremos com dívidas por anos”, disse.
Para o CEO da Copa, Danny Jordaan, ver o Mundial dessa maneira era uma “prova de miopia”. “A longo prazo, todos vão ganhar”, garantiu. Ele não poderia dizer outra coisa de seu próprio evento.
Um ano depois de terminada a Copa do Mundo, o próprio governo sul-africano surpreendeu a todos anunciando a retirada da candidatura para receber os Jogos Olímpicos de 2020, um projeto que tinha sido promovido antes do Mundial de 2010. A cidade de Durban era apontada como uma das favoritas, já que tinha parte da estrutura já preparada por conta da Copa e ainda ajudaria o aristocrático COI a levar os Jogos pela primeira vez para o continente africano.
Mas Zuma explicou a retirada da candidatura: com o dinheiro investido na campanha e no lobby por votos, milhares de casas poderiam ser construídas para a população que ainda vive em favelas no país. O porta-voz do governo, Jimmy Manyi, alegou que o governo havia decidido focar suas atenções em investimentos sociais e concentrar em garantir serviços básicos para a toda a população. “Acreditamos que apenas o custo da candidatura seria de cerca de US$ 50 milhões. Vocês sabem quantas casas populares poderíamos construir só com isso?”, questionou. Manyi indicou que a meta do governo era a de concentrar seus esforços na educação, diminuição da criminalidade, saúde, emprego e desenvolvimento rural.
O sonho de realizar a primeira Olimpíada em solo africano seria adiado para, pelo menos, 2024.
E SE DESTRUÍSSEMOS UM ESTÁDIO?
Os africanos não foram os únicos a descobrir que transformar um evento mundial em um catalisador de desenvolvimento não é um processo automático e nem assegurado. É o caso de Portugal. Dez anos depois de sediar a Eurocopa, e de ter construído mais sedes do que eram exigidas, estádios com dinheiro público e, em alguns casos, em lugares sem tradição de futebol, Portugal agora também sofre.
Hoje, Lisboa está ainda descobrindo o tamanho da fatura da falta de planejamento, da ambição sem fundamento de dirigentes esportivos e das promessas não cumpridas do futebol. Alguns dos estádios construídos para o evento de 2004 estão vazios e, diante da pior crise econômica de sua era democrática, prefeituras já quebradas estão tendo de socorrê-los. Já se fala inclusive na possibilidade de demolir alguns deles.
A Eurocopa de 2004 foi realizada em meio a um sentimento de boom econômico em Portugal. A Uefa não pediu. Mas os portugueses decidiram realizar o evento em oito cidades, com um total de dez estádios. Isso tudo para apenas dezesseis seleções. Não há como não pensar em um paralelo com o Brasil. A Fifa também não pediu os doze estádios e, mesmo assim, a decisão foi a de seguir adiante com o plano faraônico.
No caso de Portugal, seis estádios foram construídos com dinheiro público e, na época, consumiram 1,1 bilhão de euros. Uma década depois, parte das prefeituras não sabe o que fazer com os estádios diante de uma crise que vem exigindo corte de gastos, demissão de milhares de funcionários, redução de salários e de aposentadorias. Alguns foram construídos onde sequer havia um time na primeira ou na segunda divisão e hoje apenas acumulam prejuízos.
Apenas para pagar pelos juros dos empréstimos feitos nos bancos para as obras, seis cidades destinam todos os anos mais de 13 milhões de euros. Informes preparados pelas Câmaras Municipais das cidades envolvidas revelam um cenário crítico.
O caso de Leiria é o mais dramático. O time local, o modesto União de Leiria, teve um público médio de 868 pessoas por jogo na segunda divisão nos últimos anos e, no ano passado, caiu para a terceira divisão por conta de sua crise financeira. O resultado é que o time que tem um estádio “padrão Uefa” e com capacidade para pelo menos 30 mil pessoas agora é um clube amador. Para encher o estádio, o clube precisaria levar para a arquibancada metade da população da cidade.
Os dirigentes do time decidiram abandonar o estádio, alegando que os custos de jogar no local chegam a ser maiores que os salários que paga aos jogadores. Só em juros, 1,2 milhão de euros são necessários para que a prefeitura local pague aos bancos pelo empréstimo para erguer o estádio de 90 milhões de euros.
Outro caso crítico é do estádio Faro-Loulé, no Algarve, que custou mais de 60 milhões de euros. O local sequer tem um time profissional. Na região, o Farense foi campeão da terceira divisão e o Louletano, da desconhecida Série D, espécie de quarta divisão. Por dia, o estádio custa 10 mil euros às prefeituras de Loulé e Faro e os prejuízos se acumulam. Em 2007, a empresa que gera o estádio teve uma perda de quase 1 milhão de euros. Em 2013, o prejuízo ficou em mais de 600 mil euros.
As autoridades tentaram usar o estádio para outros eventos. Mas, diante da crise em Portugal, poucos estão dispostos a pagar pelo aluguel. Desde 2004, as duas prefeituras já repassaram para o estádio mais de 40 milhões de euros para pagar pelas contas do local. A opção, no momento, tem sido usar algumas das áreas do estádio no Algarve para salas de aula de um colégio público.
Mesmo o estádio de Braga, cidade com um time de certa relevância nacional, vive uma grave crise. A manutenção da arena que custou 161 milhões de euros consome 10% do orçamento anual da Câmara Municipal da cidade, cerca de 1 milhão de euros.
Em Aveiro, o estádio municipal que custou 63 milhões de euros chegou a ser alvo de um estudo para que fosse demolido. O custo diário de sua manutenção chega a 9,4 mil euros, considerando os juros pagos aos bancos pelo empréstimo para suas obras. Por conta do valor elevado, a Câmara Municipal cogitou sua destruição. Já a empresa de energia do país, a EDP , chegou a cortar a luz do estádio por falta de pagamentos. Os vereadores não são os únicos a colocar esse tema na agenda das reuniões. O ex-ministro da Economia de Portugal, Augusto Mateus, já fez essa proposta em inúmeras ocasiões desde que a crise econômica começou.
Até mesmo uma das teses mais defendidas pelos cartolas foi reprovada em Portugal. A tese consiste em apontar que a construção de um estádio em um local onde o futebol é ainda incipiente vai ajudar a região a desenvolver o esporte. Mas, desde 2004, os clubes portugueses descobriram que são os campos construídos para a Eurocopa que ameaçam afundar os times. O caso mais dramático é do Estádio do Bessa, no Porto, sede do time do Boavista. Diante da dívida do clube, as autoridades penhoraram o estádio usado na Eurocopa e exigem sua venda pelo valor mínimo de 28,3 milhões de euros. O problema é que não há comprador e a dívida acabou afetando a capacidade do clube de reforçar seu elenco e disputar títulos.
João César das Neves, professor de economia da Universidade Católica de Lisboa, já publicou artigos em que estima que os estádios foram, em sua época, os símbolos de um “gasto sem controles”. Mas, nos intermináveis debates hoje sobre o que fazer com os elefantes brancos portugueses, parte dos políticos insiste que a culpa é da Uefa, que, naqueles anos, exigia estádios de pelo menos 30 mil lugares. Na Suíça, representantes da confederação europeia confirmam que esse é o tamanho mínimo para um estádio. Mas insistem que não foi a Uefa que decidiu que seriam necessários dez estádios diferentes para sediar o torneio. No ano 2000, por exemplo, o torneio foi realizado na Bélgica e Holanda e, ainda assim, apenas oito sedes foram usadas, quatro em cada país. Já em 2008, o torneio seria compartilhado uma vez mais, agora entre suíços e austríacos. E, mesmo assim, o número de sedes não passaria de um total de oito. O mesmo número seria usado em 2012, na Polônia e Ucrânia.
Segundo a Uefa, a Eurocopa em Portugal foi a única a ter dez sedes desde que o torneio começou, há cinquenta anos, e essa foi uma decisão tomada exclusivamente pelos portugueses.
Entre os portugueses, a esperança era de que a Fifa concedesse ao país o direito de sediar, ao lado da Espanha, a Copa de 2018. Isso acabaria justificando os investimentos nas sedes e aliviando a pressão financeira sobre as cidades. Mas a entidade máxima do futebol acabou dando essa função para a Rússia que, claro, irá erguer novos estádios e uma vez mais desafiar qualquer lógica econômica.
DEUSES ENDIVIDADOS
No mesmo ano em que Portugal achava que um evento esportivo o colocaria de volta no mapa-múndi, a Grécia comemorava com orgulho o fato de que, depois de mais de cem anos, os Jogos Olímpicos finalmente voltavam a seu berço.
O preço do “orgulho” chegou a 11 bilhões de euros, duas vezes mais que o que estava planejado. Dez anos depois, a herança olímpica e o esporte na Grécia estão em ruínas. Os cortes no orçamento do governo por conta da crise econômica mais séria já vivida pelo país e a recessão estão levando a um desmonte de tudo o que havia sido construído para os Jogos Olímpicos. Para muitos, o legado do evento é hoje apenas um acumulado de dívidas que apenas contribuiu para um calote do país.
Em uma certa ocasião, perguntei ao presidente do Comitê Olímpico Brasileiro, Carlos Arthur Nuzman, o que ele achava do impacto dos Jogos de Atenas na crise grega. Sua resposta não foi surpreendente. Para ele, era uma “verdadeira injustiça” culpar os Jogos pelo desastre econômico vivido pelos gregos desde 2009. Não há dúvidas de que um evento não levou um país a um calote. Mas ele foi para muitos o símbolo de uma elite dirigente e de políticos que consideravam que qualquer gasto se justificava diante da projeção que a Grécia teria no mundo e do suposto legado que os Jogos deixariam à população.
Mas o que era para ser o espelho de um país moderno se transformou no símbolo de um gasto irresponsável. Hoje, documentos internos do governo enviados à Comissão Europeia deixam claro que, já em 2004, a Grécia acumulava uma dívida impagável, camuflada com a ajuda de economistas sem escrúpulos. Em outras palavras: Nuzman tem razão em dizer que não foi a Olimpíada que fez a Grécia se enterrar em dívidas. Mas a realidade é que o país jamais teve recursos para de fato bancar a festa. Era tudo uma grande ilusão que o tempo provou ser mentira.
Hoje, no processo de reforma do país exigido pelos credores, o esporte não ficou isento de cortes profundos. O primeiro golpe contra o esporte grego veio em janeiro de 2011. O governo anunciou o corte de 33% na ajuda a federações esportivas, minando de forma dramática a capacidade de algumas equipes e de esportistas de elite para se preparar para os Jogos Olímpicos de 2012, em Londres. Quem quisesse se preparar para o evento teria de pedir recursos ao COI ou buscar patrocínio. O Comitê Olímpico Grego teve em 2011 uma ajuda estatal de meros 8 milhões de euros, depois de receber mais de 30 milhões de euros nos últimos anos.
Os problemas não pararam por aí. Atenas perdeu o direito de sediar os Jogos Mediterrâneos de 2013, uma espécie de Pan-Americano dos países do Mar Mediterrâneo. A exclusão da Grécia do evento ocorreu depois que o governo decidiu retirar 190 milhões de euros do projeto. O próprio estádio Olímpico, construído para o evento de 2004, foi colocado à venda e faz parte do plano do governo de vender as “joias da Coroa”, para pelo menos se manter vivo. Mas, por enquanto, o governo não encontrou nenhum comprador para o estádio.
A grande maioria das 22 instalações usadas para os Jogos de 2004 está hoje abandonada. A empresa criada para gerenciar o “legado Olímpico”, a Olympic Properties S. A., é hoje uma estatal com uma dívida considerada impagável. Apesar de toda a infraestrutura deixada pelo COI em 2004, o país hoje não tem recursos nem mesmo para pagar o uso das instalações.
O caos financeiro também atinge os esforços de controle do doping. O governo reduziu pela metade o apoio ao único laboratório do país certificado pela Agência Mundial Antidoping (WADA) e a medida pode fazer com que a entidade simplesmente desconsidere o laboratório de sua lista por não atender a critérios mínimos. Se isso ocorrer, o país que deu origem ao movimento olímpico ficará sem qualquer possibilidade de realizar seus próprios testes de doping. “A verdade lamentável é que as Olimpíadas de Atenas podem não deixar qualquer legado em termos de controle de doping”, afirmou a WADA em um comunicado.
Os cortes não se limitariam à tesoura do governo no início de 2011. No final daquele mesmo ano, foi a vez do então vice-ministro de Finanças, Filippos Sachinidis, anunciar que o esporte sofreria novas reduções de orçamento, alegando que não era “o momento de recreação”. A declaração incendiou os movimentos de atletas. “A decisão de cortar ainda mais os recursos para as federações vai destruir o esporte grego”, alertava Vasilis Sevastis, presidente da Associação de Atletismo da Grécia. “Há um grande desespero entre os atletas. Tudo o que se tentou criar nos últimos anos está sendo destruído”, alertou. Para Sevastis, o impacto do fechamento de clubes, terrenos de esporte e outras facilidades pode ser a explosão do descontentamento social. “Com centenas de jovens sem ter para onde ir, veremos problemas sociais enormes”, disse.
Na prática, centenas de atletas gregos estão hoje abandonando os campos de treinamento e dedicando seu tempo a encontrar uma nova forma de financiamento, ou pelo menos encontrando um emprego que pague seus aluguéis. Em 2011, o time de polo aquático feminino da Grécia ganhou o Campeonato Mundial. Mas, no clube que serve de base para a seleção nacional, a Associação Náutica Vouliagmeni, os atletas estão deixando de treinar para buscar um trabalho.
Parte do problema, porém, não é a crise atual, e sim o sistema montado por décadas na Grécia para financiar atletas de elite e o próprio evento em 2004. Muitos atletas recebiam cargos públicos apenas para justificar o pagamento de um salário enquanto treinavam. O problema é que essa ajuda era ineficiente, criava confusões administrativas e distorções nas contas do Estado. “Os gastos com o esporte grego são ineficientes”, justificou Panos Bitsaksis, naquele momento a pessoa que ocupava o cargo de secretário-geral para Esportes no governo. “Precisamos examinar se o dinheiro dado ao esporte trouxe resultados. Muitos atletas recebiam salários por posições que sequer existiam. Houve abuso de privilégios, até mesmo por atletas que já haviam se aposentado”, denunciou.
As distorções nos gastos também chamam a atenção. Em 2009, por exemplo, o governo destinou o mesmo volume de recursos para maratonistas e para hóquei sobre gelo, no país mediterrâneo.
Uma prática recorrente no mundo esportivo grego por anos foi a de apresentar a candidatura do país para receber um determinado evento, mesmo sem o sinal verde do Ministério das Finanças. Uma vez conquistado o direito de sediar o torneio, a federação envolvida pressionava o governo para liberar recursos e normalmente conseguia. Isso, claro, até o país descobrir que estava quebrado e que todos esses eventos jamais geraram qualquer tipo de legado real para a sociedade ou para as contas públicas.
Em 2012, nos Jogos Olímpicos de Londres, a delegação da Grécia era o exemplo de um grupo que não soube tirar proveito de ter sediado uma Olimpíada, menos de dez anos antes. Atletas confessaram que viajaram até a Inglaterra sem médicos e obrigados a estudar ou trabalhar enquanto treinavam. Em comparação a 2008, a delegação grega enviada aos Jogos foi reduzida em 34%. O resultado foi um desempenho medíocre do país, que somou apenas duas medalhas de bronze. Em 2004, os gregos somaram dezesseis medalhas. Em 1896, quando sediou os primeiros Jogos Olímpicos da história moderna, os gregos terminaram com 46 medalhas, das quais dez foram de ouro. O país terminaria em Londres em 75o lugar na tabela final e foi superado até mesmo pelo Gabão, Botsuana e pelos vizinhos de Montenegro.
O mal-estar se aprofundou depois que jornais ingleses revelaram como os dirigentes esportivos da Grécia se dedicam a cada noite a percorrer clubes privados na capital britânica e escancararam a fortuna que destinaram para alugar o luxuoso e elitista Carlton Club como sua sede em Londres. Só no aluguel, destinaram 230 mil euros. E a cada noite, políticos, dirigentes e amigos se reuniam para festas regadas a vinho. Ironicamente, no último fim de semana do evento de 2012, os dirigentes gregos acabariam sendo despejados do local. Motivo: não tinham pago a conta.
O DESEMBARQUE
Agora, chegou a nossa vez. O circo da Fifa volta a desembarcar em outro país disposto a gastar bilhões em estádios. E a verdade é que, antes mesmo de sabermos quem será o artilheiro da Copa, quem será o campeão e quem será o craque do Mundial, a Fifa já comemora e está com suas contas fechadas. Com acordos fechados um ano antes de a bola rolar, a Fifa já registrava a Copa mais lucrativa da história, com uma renda 100% superior à Copa de 2006, na Alemanha.
A previsão inicial da entidade era de que o Mundial renderia uma receita de US$ 3,8 bilhões. Mas dentro da Fifa já se fala que a conta passou da marca de US$ 4,1 bilhões, enquanto consultorias estimam que o valor poderá atingir US$ 5 bilhões. Se o cálculo mais conservador for mantido, a Copa já terá uma renda de pelo menos US$ 600 milhões a mais que na África do Sul em 2010. Já na Copa de 2006, na Alemanha, a renda havia sido de US$ 2,1 bilhões, metade do que pode ocorrer no Brasil.
Do total em 2014, US$ 2,2 bilhões foram receitas de direitos de transmissão. O restante viria de acordos comerciais com patrocinadores que, pelo direito exclusivo de usar o nome “Copa do Mundo” em suas marcas, pagam verdadeiras fortunas. Só em 2012, os relatórios financeiros da entidade apontam que a receita com a Copa já superou a marca de US$ 1,1 bilhão.
A Fifa também investirá mais no Brasil que na África do Sul para organizar o evento. Segundo o orçamento, a entidade gastará com a Copa no País cerca de US$ 1,38 bilhão, US$ 300 milhões a mais que na África do Sul. A Fifa também distribuirá um prêmio recorde às seleções. Os 32 times receberão um pacote de US$ 454 milhões em prêmios, o maior da história das Copas do Mundo. Para 2010, o prêmio foi de US$ 420 milhões. Já na Alemanha em 2006, as 32 seleções receberam um total de US$ 261,4 milhões. Na Copa de 2002, vencida pelo Brasil no Japão, o prêmio foi de apenas US$ 154 milhões.
Mas como é que um evento que deixa um legado tão duvidoso aos países consegue gerar tal volume de dinheiro? É verdade que a Fifa nunca investiu em um país como fez no Brasil, e esse poderia ser um dos argumentos para explicar os lucros. Mas como é que, em plena crise mundial entre 2008 e 2013, a Fifa conseguiu desafiar todos os economistas e continuar a acumular uma fortuna inédita por conta de sua Copa do Mundo?
Parte da explicação está na capacidade da Fifa de definir as próprias leis do país que servirá de sede para seu evento, com a garantia de que essas normas vão proteger desde a marca da Copa até a escolha dos alimentos que serão oferecidos nos estádios. Essas leis vão estabelecer quem paga o quê, quem tem o direito de usar a Copa para se promover e, acima de tudo, quem bancará um prejuízo se algo der errado.
O “desembarque” da Fifa em um país é feito por meio da aprovação do que ficou conhecido no Brasil como a Lei Geral da Copa, um compromisso que o governo teve de assumir antes mesmo de prometer que haveria grama nos estádios para o Mundial.
A única forma de entender como a Fifa chegou a tal resultado é entrando nos detalhes do acordo entre a Fifa e o governo que irá sediar o evento. Trata-se de um documento que revela o tamanho do poder que é concedido à entidade do futebol por meio de uma lei que chega, no caso do Brasil, a violar a própria Constituição. Mas, como sempre diz a Fifa, não foi a entidade que obrigou o país a sediar o evento. Foi o Brasil quem pediu e se candidatou para receber a Copa. E voltamos ao ponto central deste livro: talvez, se tivéssemos sido consultados sobre o que isso significaria, nem todos estivessem de acordo.
A Lei Geral da Copa exigiu anos de negociações entre os compromissos assumidos pelo Brasil em 2007 e a aprovação do projeto em 2012 pelo Congresso Nacional. O princípio do novo regulamento é relativamente simples. Ao Brasil caberia toda a responsabilidade — fosse financeira, médica, de segurança etc. — sobre os funcionários da Fifa, além de parceiros comerciais e seleções. À Fifa caberia todo o lucro, em contratos absolutamente blindados.
A realidade é que a lei não deixa nenhuma brecha para qualquer dúvida. A Copa é da Fifa. Ela apenas acontece no Brasil.
Um dos pontos que mais escancara essa relação é a proteção que a Fifa exige de sua marca. A lei estabelece que apenas a entidade mundial do esporte pode definir quem tem o direito de usar os nomes “Copa do Mundo”, “Mundial 2014” e “Fifa”. A lógica é relativamente simples: para exigir de patrocinadores volumes de dinheiro cada vez maiores, a única forma de que a Fifa dispõe é a de garantir a essas empresas que elas serão as únicas no mundo a poder vincular seus produtos à Copa do Mundo.
A Fifa pode cobrar o quanto quiser de licenciamento. Mas, para garantir os direitos obtidos a preço de ouro pela Coca-Cola, Visa ou Adidas, o Brasil foi obrigado a aceitar a inclusão de novos crimes em sua lei penal durante o período da Copa e num prazo que acaba apenas em 31 de dezembro de 2014. Assim, passa a ser crime a reprodução ou falsificação de símbolos da Fifa e divulgação de produtos relacionados à Copa. A lei estabelece que a pena é a detenção de três meses a um ano, além de uma multa. Curiosamente, o governo brasileiro não pode acionar a Justiça caso identifique um crime parecido. Um processo apenas é lançado se a Fifa decidir ir adiante com um caso.
A questão da proteção comercial é tratada com tanta seriedade na Fifa que a entidade decidiu criar nos anos 1990 um departamento responsável exclusivamente por proteger suas marcas e processar violadores dos direitos, contando com mais de 150 especialistas. A lógica da entidade era clara: somente poderia inflacionar o valor de sua marca se garantisse ao pequeno número de empresas que assinassem os contratos que eles seriam os únicos em todo o planeta a colocar seus produtos ao lado do nome “Fifa” ou “Copa do Mundo”. Para garantir esse direito, registrou o logotipo da Copa da Alemanha em 153 países. A Fifa identificou mais de 3,3 mil empresas em 84 países que teriam usado de forma ilegal seu nome em 2006, às vésperas da Copa do Mundo da Alemanha. Em 1994, no Mundial dos Estados Unidos, essas violações somaram 258 casos em 39 países. Se essa é uma prática legítima no mundo do marketing e uma lei até mesmo justa levando em consideração o valor pago para defender uma marca, o que chama a atenção no caso da Fifa e da Copa é que até mesmo o governo do país-sede precisa pagar para usar o Mundial para se promover.
Isso aconteceu com o Brasil, numa verdadeira inversão de papéis entre a Fifa e o governo. Para que possa montar atividades com informações nas instalações da Copa e levar seus clientes estrangeiros aos jogos como forma de seduzir o investidor, o governo foi obrigado a se transformar em patrocinador do evento, em um acordo entre a Agência de Promoção de Exportações (Apex) e a Fifa. O acordo ainda permitirá que a agência distribua cerca de mil ingressos para jogos para empresários estrangeiros.
Por ser um acordo que a Fifa mantém em total sigilo, o montante que a Apex pagou à entidade para usar os próprios estádios erguidos com empréstimos do BNDES para sua promoção não é divulgado, mesmo que se trate de dinheiro público. A própria Apex reconhece que é a Fifa quem impede que os valores sejam revelados. Mas, em Brasília, estima-se que a agência do governo tenha pago R$ 20 milhões.
No fundo, o governo recebeu o mesmo tratamento que qualquer outra empresa que queira ter seu nome vinculado ao torneio e com a possibilidade de usar de forma exclusiva as marcas da Copa, como a Garoto ou o Banco Itaú.
“Não há como organizar uma ação (na Copa) sem ter o status de patrocinador da Fifa”, reconheceu Ricardo Santana, coordenador dos projetos da Apex. Ele acredita que a iniciativa terá um forte retorno, atraindo ao Brasil investidores que poderiam fechar contratos.
A Fifa chegou a ter uma patrulha durante o Mundial de 2006 e 2010 para vistoriar as áreas próximas aos estádios e garantir que nenhuma marca fosse mostrada, além daquelas de seus patrocinadores. Em dia de jogos, cerca de cem pessoas eram destacadas para inspecionar as ruas de Berlim, Munique ou Hamburgo. Até as cervejas tradicionais das cidades que sediavam a Copa ou mesmo as salsichas — algo quase sagrado para um torcedor de futebol na Alemanha — eram proibidas. Isso porque a rede McDonald's tinha obtido a exclusividade de servir lanches nas áreas próximas aos estádios.
Não por acaso, para 2014, a Fifa já fechou um acordo com o Instituto Nacional de Propriedade Industrial (INPI) no Brasil para prevenir a falsificação de produtos para a Copa do Mundo no Brasil.
Enquanto isso, a entidade conseguiu a aprovação de um projeto de lei que tornou propriedade exclusiva da Fifa e da CBF uma série de termos corriqueiros relacionados à Copa. Pela regra, serão de uso privativo da Fifa frases como “Copa do Mundo da Fifa Brasil 2014”, “Copa do Mundo” ou mesmo “Brasil 2014”. Só ela pode dizer quem pode ter o direito de usar esses termos em publicidade, produtos ou mesmo vitrines de lojas.
No caso da CBF, a entidade tem o direito exclusivo sobre termos como “Seleção Brasileira de Futebol”, “Seleção Brasileira”, “Seleção Canarinho” ou simplesmente “Seleção”.
O desembarque da Fifa no Brasil ou em qualquer outro país-sede de Copa também significa que um território é cedido à entidade. A Lei Geral da Copa permite que a Fifa estabeleça áreas de restrição comercial num perímetro de dois quilômetros em volta de cada um dos doze estádios. Nessa área, quem manda são os interesses comerciais da Fifa, ainda que um bar, um restaurante ou um comércio tenha estado ali pelas últimas décadas. No prazo determinado pela Fifa, um bar ou uma loja dentro desse perímetro fica proibido de fazer qualquer tipo de publicidade de marcas concorrentes aos parceiros da entidade do futebol.
A força da Fifa exigiu até mesmo que as leis dentro dos estádios fossem modificadas. Diante do patrocínio da Budweiser, a entidade exigiu que o Brasil suspendesse as regras que proibiam a venda de bebidas alcoólicas nos estádios. A proibição fazia parte do Estatuto do Torcedor (uma legislação federal) e havia sido implementada no Brasil justamente para evitar a violência nos estádios. Para justificar essa brecha para cervejas, o secretário-geral da Fifa, Jérôme Valcke, uma certa vez em 2011 me deu uma explicação.
“Isso é algo que já foi informado desde o primeiro dia”, disse, repetindo o mantra da Fifa de que o Brasil sempre foi informado das exigências antes de se lançar na corrida para receber a Copa. “Isso é algo que na Rússia (que sedia a Copa de 2018) já está resolvido, mesmo num país que tem tantos problemas com as bebidas e onde o governo está agindo contra o alcoolismo. A Rússia concordou que, nos estádios, a Fifa estará autorizada a vender. Não estamos falando de vodca ou uísque. Estamos falando de cerveja. Sei que se pode ficar bêbado tomando muita cerveja. Mas, uma vez mais, dissemos desde o primeiro dia que há cerveja na Copa do Mundo. Temos um acordo que deve haver isenção nos estádios. Li inclusive que o Catar (que sedia a Copa de 2022) oficialmente anunciou que iria autorizar a venda de cerveja em locais determinados, o que é algo que também vai contra não apenas a regulamentações, mas também talvez contra uma visão da religião. Baseado na proteção de nossos parceiros comerciais, o que estamos pedindo não é algo que surgiu na semana passada. É algo que o Brasil já sabia antes mesmo de receber o direito de sediar a Copa”, explicou. Ignora-se a segurança dos torcedores, suas visões religiosas e mesmo sua saúde.
O modelo de proteção de marcas e a promoção dos patrocinadores não é uma prática exclusiva da Fifa. Nas sofisticadas salas de estar do clube de tênis de Wimbledon, os sócios do lendário local não disfarçavam sua irritação durante os Jogos Olímpicos de 2012. Sua associação havia sido cedida ao COI para sediar o torneio de tênis das Olimpíadas. Mas, com isso, o desembarque também incluiu patrocinadores que transformaram os luxuosos restaurantes do local em pontos de venda de fast-food.
Dos locais da mais alta aristocracia de Londres às ruas de operários e imigrantes, os superpoderes do COI e de seus patrocinadores foram mais que visíveis e temidos nos Jogos de 2012. Londres, desde o início do evento, se transformou em uma cidade sitiada pelas empresas que bancaram os Jogos e, segundo especialistas em marketing, nunca o controle do uso de marcas foi tão rigoroso como naquele ano. A constatação é de que os poderes do COI, que serão repetidos no Rio de Janeiro em 2016, são totais.
Enquanto atletas competiam em ginásios e estádios sem qualquer tipo de marcas sendo expostas ao público, a realidade pelas ruas era bem diferente. O COI e a Autoridade Olímpica britânica enviaram centenas de fiscais pelo país para garantir que apenas os patrocinadores oficiais estavam usando a marca olímpica. Trezentos monitores, que começam a ser chamados de “polícia religiosa” das multinacionais, tiveram o direito e o poder de entrar em lojas e restaurantes, aplicando multas em nome dos interesses de Adidas, McDonald’s, Coca-Cola e BP.
As regras, assim como no caso da Fifa, eram claras: empresas que não são patrocinadoras não podem colocar em suas vitrines palavras como “Jogos Olímpicos” e nem “Olimpíada”. A lista de palavras proibidas também incluem “ouro”, “prata”, “bronze”, “verão” e mesmo “Londres”. No total, oitocentas lojas de alimentos no perímetro dos locais de jogos foram impedidas de vender batatas fritas, uma exigência de um dos patrocinadores que exigia o monopólio sobre o produto: o McDonald’s.
O imigrante português Jorge Almeida, dono de uma padaria em Londres, também sentiu na pele a ação da “polícia”. Seu estabelecimento fica dentro do perímetro do estádio de Wembley e, enquanto eu aguardava uma das partidas do torneio de futebol feminino dos Jogos, descobri um empresário furioso com o impacto do evento.
“Vieram me dizer que eu teria de remover os anéis olímpicos de minha vitrine”, me contou o português que há trinta anos vivia na cidade. “Me deram dois dias, ameaçando voltar e aplicar a multa”, contou. “Troquei os anéis por pães, no formato dos aros olímpicos. Mesmo assim, vieram e me disseram que isso também era ilegal. Deram a multa, mas não sei se vou pagá-la”, contou. O que o sr. Almeida não sabia é que os fiscais que o visitaram têm mandado da Justiça para fazer a ação. Marina Palomba, da agência de publicidade McCann Worldgroup, confirmou que a lei de marketing aprovada para os Jogos foi “a mais draconiana já estabelecida em um evento”.
Os atletas também se queixaram. Durante o evento, um grupo de esportistas americanos lançou uma ofensiva para pedir que o COI modificasse suas regras em relação aos patrocinadores. A lei estabelecia que aqueles que não usavam os produtos oficiais dos patrocinadores dos Jogos estavam impedidos de levar em suas roupas os nomes das empresas que os apoiam. Já atletas com patrocinadores iguais aos dos Jogos poderiam exibir as marcas.
O COI se defendeu alegando que decidiu controlar a imagem divulgada justamente para “proteger o esporte”. Segundo a entidade, era justamente a proteção dos patrocinadores que garantia a sobrevivência financeira dos Jogos, um evento que nos anos 1970 e 1980 chegou a ser ameaçado por falta de interesse comercial. Para Londres, a entidade fechou contratos de 1,4 bilhão de libras esterlinas com onze multinacionais e conseguiu superar até mesmo a crise financeira internacional que assolava o mundo.
A troca seria simples: pelo dinheiro que dão ao COI, as empresas exigem um verdadeiro monopólio sobre a cidade sede. Jogadores que não usavam produtos Adidas, por exemplo, tiveram de mudar de roupa para subir no pódio. A tenista russa Maria Sharapova foi uma das que se queixou das exigências de marcas do COI. “Fomos obrigados a modificar até as sacolas que usamos para levar as raquetes”, contou. “Os bonés precisam ser transformados para que os símbolos das empresas não fiquem na testa, e sim de lado”, disse. “O controle é mesmo rígido.”
Em Wimbledon, os tradicionais uniformes brancos dos jogadores de tênis foram trocados por uniformes coloridos — uma verdadeira heresia no clube. Mas quem imaginava que os uniformes trariam as cores das bandeiras dos países dos atletas estava enganado. As cores eram determinadas pelos patrocinadores, em busca de promover seus novos produtos.
Nas lojas de Wimbledon, nada podia ser vendido sem a autorização das empresas parceiras do COI. Nas lanchonetes, a mesma situação. Depois de muita polêmica, os sócios do clube mais tradicional de tênis do mundo conseguiram comemorar uma vitória e manter pelo menos uma de suas tradições: a venda de morangos com champanhe.
LUCROS PRIVADOS, PREJUÍZOS PÚBLICOS
Mas, diante de tal poder da Fifa no Brasil ou em qualquer outro país sede de uma Copa, quais são as responsabilidades da entidade mundial do futebol em caso de prejuízo, segurança e tantos outros itens da organização de um megaevento?
É nesse ponto que as incoerências são escancaradas. Se a Lei Geral da Copa e todos os compromissos assinados pelo Brasil garantem que o Mundial é, acima de tudo, um evento privado da Fifa, a entidade praticamente está isenta de qualquer responsabilidade por um eventual fracasso. O princípio não poderia ser mais claro: os lucros são privados e até o nome “Seleção” é propriedade de alguém. Mas os eventuais prejuízos são públicos. Um cínico não teria como negar: o caráter democrático da Copa está assegurado.
As normas aprovadas no Congresso Nacional, por exemplo, estipulam que o cancelamento da Copa exigiria que o governo brasileiro ressarcisse a Fifa, numa conta certamente bilionária. Problemas com um centro de treinamento, hotel de uma seleção, transporte e até a devolução de ingressos dos jogos poderiam cair na conta do governo. De fato, o dinheiro não teria de vir diretamente do Tesouro Nacional. Mas cabe ao governo brasileiro contratar e, claro, pagar por uma seguradora disposta a cobrir o eventual cancelamento da Copa.
Os artigos 22 e 23 da Lei Geral da Copa dão a dimensão do que o governo — ou seja, os cidadãos — teriam de arcar. “A União responderá pelos danos que causar, por ação ou omissão, à Fifa, seus representantes legais, empregados ou consultores”, aponta o texto da lei. “A União assumirá os efeitos da responsabilidade civil perante a Fifa, seus representantes legais, empregados ou consultores por todo e qualquer dano resultante ou que tenha surgido em função de qualquer incidente ou acidente de segurança relacionado aos Eventos.”
Não por acaso, a Procuradoria Geral da República chegou a entrar com uma ação no Supremo Tribunal Federal pedindo justamente o cancelamento de artigos que preveem o ressarcimento por parte do governo à Fifa. O argumento legal era de que o governo assumiu a responsabilidade de arcar com riscos sem que a lei tenha os definido. Isso, para a procuradoria, seria inconstitucional.
Mais uma vez, a resposta da Fifa foi clara: não fomos nós quem forçamos o Brasil a sediar a Copa e essa exigência já existia antes mesmo de 2007, quando a candidatura foi aprovada.
As responsabilidades do Brasil não se limitam a isso. A União fica obrigada a arcar com todos os custos de segurança e serviços médicos. O texto ainda muda o próprio controle das fronteiras brasileiras, exigindo que a emissão e concessão de vistos a estrangeiros que detêm ingressos sejam isentas de qualquer cobrança nos consulados espalhados pelo mundo. Isso tudo, claro, sem contar com o que já apresentamos em capítulos anteriores: o uso de dinheiro público para os estádios e a isenção tributária para a Fifa, apesar de o evento ser o mais bilionário da história.
Enfim, a Copa do Mundo que vamos sediar — e digo “vamos” porque ela está sendo organizada com nosso dinheiro — é uma aberração democrática.
O Mundial de 2014 vai acontecer em estádios que, originalmente, eram projetos privados. O Estado foi acionado para bancar essas obras com o dinheiro do contribuinte. Por sua vez, as cidades onde esses estádios foram erguidos não respeitam as necessidades esportivas locais, mas barganhas eleitoreiras.
As empresas que ergueram essas arenas — algumas das mais caras do mundo — não precisarão pagar impostos e os processos de licitação chegaram ser considerados inconstitucionais.
Uma vez construídos, esses espaços públicos serão privatizados durante a Copa do Mundo por uma entidade — a Fifa — que determinará até mesmo o que pode ser consumido como bebida dentro desses locais. Um território próprio onde as leis nacionais são substituídas pelas regras da Fifa será estabelecido. Bares e lojas no perímetro desses estádios construídos com dinheiro público terão de atender às exigências de patrocinadores e multinacionais que jamais os consultaram.
Parte da Constituição estará suspensa, novos crimes vão vigorar e, no caso de um fracasso ou prejuízo de um evento privado, será o cofre da União que terá de se responsabilizar.
O que ficará disso tudo para a sociedade? Não sabemos ainda. A Fifa, sim, já fechou suas contas e, assim que o torneio terminar, desmontará sua barraca e partirá para um novo empreendimento.
Essa é a Copa como ela é. Esse é o Mundial feito a partir de leis de exceção, mentiras, dinheiro público e garantias de lucro para poucos, enquanto as massas terão de se contentar em torcer para a sua equipe nacional sair campeã. Isso tudo sem saber que, no fundo, estão pagando, e caro, para ver o circo. Mesmo aqueles que não conseguiram ingressos estão pagando. Mesmo aqueles que dizem que, durante a Copa, não vão nem ligar a televisão.
Nem mesmo um novo Leviatã poderia aceitar construir um sistema parecido sem temer que fosse legitimamente questionado.
No dia 2 de março de 2012, em Londres, o secretário-geral da Fifa, Jérôme Valcke, faria uma declaração que marcaria a história da Copa do Mundo de 2014. Questionado sobre o que ele achava da preparação do Brasil e dos atrasos nas obras, ele não se conteve: “O Brasil merece um chute no traseiro”.
Imediatamente, abriu-se uma imensa polêmica. O governo o declarou persona non grata, alguns saíram em sua defesa, alegando que de fato era uma vergonha o atraso nas obras, enquanto o país tomou as dores e se sentiu humilhado. Valcke ficou sem viajar ao Brasil por meses, até esperar a poeira baixar. O Palácio do Planalto, em uma iniciativa que beirava o populismo, chegou a exigir da Fifa que trocasse a pessoa que teria a função de liderar a preparação da Copa do Mundo, o que jamais aconteceria.
Inútil hoje debater se ele tinha ou não razão, se usou as palavras adequadas ou se apenas desabafou em um momento errado justamente diante de jornalistas. Inútil também tentar entender como o governo, depois de criticá-lo abertamente, passou a chamá-lo de “parceiro” nos últimos meses da preparação da Copa. Inútil entrar aqui no debate sobre a semântica da frase ou o real significado de sua crítica.
O que de fato essa declaração revelava não era a falta de sensibilidade de um dirigente. Mas, acima de tudo, é um reflexo da posição de poder de que de fato a Fifa desfruta ao desembarcar num país para organizar a Copa.
Valcke deu um “chute no traseiro” do Brasil porque simplesmente as leis e condições estabelecidas entre a Fifa e o governo o permitiam. Valcke atuou com arrogância porque de fato se sentia no direito de exigir. O cartola, talvez de forma inconsciente, não se deu conta da gravidade de sua declaração porque, na realidade, a verdadeira humilhação não seria o chute no traseiro, mas as condições pelas quais a Fifa obrigou o Brasil a mudar leis, gastar dinheiro público e suspender parte da Constituição para que o evento de propriedade da entidade fosse realizado.
A real humilhação não era a frase. De fato, ela já era resultado de um contexto em que um evento privado estava ditando as regras nacionais. O chute no traseiro já havia sido dado, longe das câmeras, diluído em promessas de ganhos sociais ao longo prazo e brados nacionalistas.
O chute no traseiro já havia sido dado quando cartolas brasileiros, em seus projetos pessoais, transferiram a conta do evento para os cidadãos, enquanto mantiveram os lucros em contas privadas. O chute no traseiro já havia sido dado quando, sem consultar, as sedes da Copa foram escolhidas por critérios políticos e partidários. O verdadeiro chute no traseiro foi dado quando, de fato, um país passou a ser usado para que alguns poucos fizessem verdadeiras fortunas ou garantissem reeleições.