A Criação do Patriarcado

Gerda Lerner · Capítulo 3 de 7 · parte 1/3

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A Criação do Patriarcado

Dois. Hipótese

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

Outros ainda incluem toda sociedade na qual as mulheres gozem de status

relativamente alto. [ 52 ] A última definição é tão vaga, que não faz sentido como categoria. Penso que só podemos falar em matriarcado quando as mulheres têm poder sobre os homens, não ao lado deles; quando esse poder inclui o domínio público e as relações exteriores, e quando as mulheres tomam decisões essenciais não apenas para seus parentes, mas para a comunidade. De acordo com minha discussão anterior, esse poder deveria incluir a definição de valores e sistemas explicativos da sociedade, bem como a definição e o controle do comportamento sexual masculino. Pode-se observar que defino matriarcado como a imagem refletida do patriarcado. Segundo essa definição, eu concluiria que nunca existiu uma sociedade matriarcal.

Existiram e ainda existem sociedades nas quais as mulheres compartilham poder com os homens em muitos ou alguns aspectos da vida, e sociedades nas quais mulheres em grupos têm poder considerável para influenciar ou controlar o poder dos homens.

Também existem, e existiram ao longo da história, mulheres em particular com todos ou quase todos os poderes dos homens, que representam ou por quem atuam como substitutas, por exemplo, rainhas e soberanas. Como este livro mostrará, a possibilidade de compartilhar poder político e econômico com homens de sua classe ou posição tem sido privilégio de algumas mulheres de classe alta, o que as restringiu ainda mais ao patriarcado.

Há evidências arqueológicas da existência de sociedades no Neolítico e na Idade do Bronze nas quais as mulheres eram muito valorizadas, o que também pode indicar que tivessem certo poder. A maioria dessas evidências consiste de imagens de mulheres que foram interpretadas como deusas da fertilidade; e, da Idade do Bronze, artefatos artísticos que retratam mulheres com dignidade e sinais de alto status. Avaliaremos as evidências das deusas no Capítulo Sete e discutiremos sociedades mesopotâmicas na Idade do Bronze ao longo deste livro. Agora vamos revisar brevemente as evidências de um caso específico, citado muitas vezes por defensores da existência do matriarcado: Çatal Hüyük, na Anatólia (atual Turquia).

As escavações de James Mellaart, em especial em Hacilar e Çatal Hüyük, trouxeram

esclarecimentos

relevantes

sobre

o

desenvolvimento das primeiras cidades na região. Çatal Hüyük, um assentamento urbano neolítico de 6 mil a 8 mil pessoas, foi construído em camadas consecutivas durante um período de cerca de 530 anos (6250-5720 a.C.), com novas cidades sobre as ruínas de assentamentos mais antigos. A comparação entre as várias camadas de assentamento em Çatal Hüyük e as de uma aldeia menor e mais antiga, Hacilar (construída entre 7040 e 7000 a.C.), oferece-nos conhecimento sobre uma sociedade em seus primórdios

submetida à mudança histórica. [ 53 ]

Çatal Hüyük foi uma cidade construída como uma colmeia de residências individuais que pouco variavam em tamanho e mobiliário. Entrava-se nas casas pelo telhado, por meio de uma escada; cada casa era equipada com uma lareira de tijolo cru e um forno. Todas as casas tinham uma plataforma onde se dormia, e embaixo delas foram encontradas ossadas de mulheres e também

de crianças. Plataformas menores foram encontradas em posições variadas em diferentes dormitórios, ora com homens, ora com crianças enterrados sob elas, mas nunca homens e crianças juntos.

Mulheres eram enterradas com espelhos, joias e ferramentas feitas de ossos e pedras; homens eram enterrados com armas, argolas, contas e ferramentas. Tecidos e recipientes de madeira encontrados no local indicam um alto nível de habilidade e especialização, bem como amplo comércio. Mellaart encontrou tapetes de junco, cestos de tecido e muitos objetos feitos de obsidiana, um indício de que a cidade estava envolvida em comércio de longa distância e gozava de riqueza considerável. Foram encontradas ainda evidências de uma grande variedade de alimentos e grãos, e de ovelhas, cabras e cães domesticados nas camadas mais recentes.

Mellaart acha que apenas gente privilegiada era enterrada nas casas. Das 400 pessoas encontradas lá, apenas 11 tinham enterro

“ocre” – ou seja, as ossadas estavam pintadas com ocre vermelho, o que Mellaart interpreta como sinal de alto status. Como a maioria destas era de mulheres, Mellaart argumenta que as mulheres tinham alto status na sociedade e especula que podem ter sido sacerdotisas. Esse indício de certa maneira perde força pelo fato de que, das 222 ossadas adultas encontradas em Çatal Hüyük, 136

eram de mulheres, uma proporção surpreendentemente alta. [ 54 ] Se a maioria dos enterros “ocre” encontrados por Mellaart era de mulheres, isso poderia apenas se encaixar na proporção sexual da população geral. Mas indica, contudo, que as mulheres estavam entre as pessoas de alta classe, desde que a especulação de Mellaart sobre o significado do enterro “ocre” esteja correta.

A ausência de ruas, de uma grande praça pública ou de um palácio, bem como o tamanho e o mobiliário uniformes das casas,

levaram Mellaart a considerar que não havia hierarquia nem autoridade política central em Çatal Hüyük, e que a autoridade era compartilhada entre os habitantes. A primeira consideração parece adequada e pode ser sustentada por evidências comparativas, mas não podemos provar, com base nisso, que a autoridade era compartilhada. A autoridade, mesmo na ausência de uma estrutura de palácio ou órgão administrativo formal, pode ter ficado a cargo de grupos de parentes ou de um grupo de anciãos. Nada nos achados de Mellaart prova a autoridade compartilhada.

As várias camadas de Çatal Hüyük revelam uma quantidade extraordinariamente grande de santuários, que eram decorados com pintura nas paredes, ornamentos de gesso e estátuas. Não há representações de humanos nas camadas mais baixas da escavação, apenas touros e carneiros, pinturas de animais e chifres de touros. Mellaart interpreta esses achados como representações simbólicas de deuses homens. As primeiras representações de imagens femininas aparecem na camada de 6200 a.C., com seios, nádegas e quadris exagerados de forma grosseira. Algumas aparecem sentadas, uma aparece parindo; elas estão cercadas por seios de gesso nas paredes, alguns dos quais moldados sobre crânios e mandíbulas de animais. Há também uma estátua singular de um homem e uma mulher se abraçando e, ao lado dela, a estátua de uma mulher segurando uma criança. Mellaart chama essas imagens de deusas e observa que são associadas com a vida e a morte (dentes e mandíbulas de abutres nos seios); ele também nota a associação delas com padrões de flores, grãos e verduras na decoração das paredes, e com leopardos (símbolo da caça) e abutres (símbolo da morte). Nas camadas mais recentes não aparecem representações de deuses homens.

Mellaart argumenta que o homem de Çatal Hüyük era um objeto de orgulho, valorizado por sua virilidade, e que seu papel na procriação era compreendido. Ele acredita que homens e mulheres compartilhavam o poder e o controle sobre a comunidade no período inicial e que ambos participavam das caçadas. A última afirmação baseia-se em pinturas de parede que mostram mulheres participando de uma cena de ritual ou caçada com um cervo e um javali. Essa parece uma conclusão bastante exagerada, considerando-se que ambas as pinturas mostram uma grande quantidade de homens caçando e cercando o animal, enquanto apenas duas figuras femininas são visíveis, ambas de pernas abertas, o que pode indicar algum simbolismo sexual, embora pareça um tanto incompatível com a

participação de mulheres em caçadas. [ 55 ] Da estrutura das construções e plataformas, Mellaart compreende que a organização comunitária era matrilinear e matrilocal. Essa última suposição é bastante provável, com base em evidências. Ele acredita que as mulheres desenvolveram a agricultura e controlavam seus produtos. Pela ausência de evidências de sacrifício humano nos santuários, ele argumenta que não havia autoridade central nem casta militar, e diz que em toda a Çatal Hüyük não existem evidências de guerra ao longo de um período de mil anos. Mellaart também defende que as mulheres criaram a religião neolítica e que, sobretudo, eram artistas.

Esses achados e evidências foram interpretados de maneiras divergentes. Em uma pesquisa acadêmica, P. Singh detalha todas as evidências de Mellaart e as contextualiza com outros assentamentos neolíticos, mas omite

as conclusões de Mellaart, exceto sobre a economia da cidade. [ 56 ] Em um estudo de 1976, Ian Todd, que participou de algumas das escavações de Çatal

Hüyük, advertiu que a natureza limitada das escavações de Çatal Hüyük torna prematuras as conclusões sobre estratificação na sociedade. Ele concorda que os achados arqueológicos demonstrem uma sociedade com estrutura social completa, mas conclui que “não sabemos se a sociedade era

mesmo matriarcal como se sugere”. [ 57 ] Anne Barstow, em uma avaliação cuidadosa, concorda com a maioria dos achados de Mellaart. Ela enfatiza a importância dessas observações a respeito da celebração da fecundidade e força da mulher, e de seu papel na criação da religião, mas não constata

nada que comprove o matriarcado. [ 58 ]

Ruby Rohrlich, com base nas mesmas evidências, defende a existência de matriarcado. Ela aceita sem questionar as generalizações de Mellaart e argumenta que as evidências apresentadas por ele refutam a universalidade da supremacia masculina nas sociedades humanas. A análise de Rohrlich é importante por concentrar a atenção em várias partes de evidências de mudança na sociedade quanto às relações entre os sexos no período da formação de estados arcaicos, mas sua falta de clareza na distinção entre

relações igualitárias homem-mulher e matriarcado obscurece nossa visão. [

59 ]

Os achados de Mellaart são importantes, mas suas

generalizações sobre o papel das mulheres devem ser consideradas com cuidado. Parece haver evidências nítidas de matrilocalidade e de culto a deusas mulheres. A periodização do início desse culto é incerta: Mellaart o relaciona ao início da agricultura, que ele acha ter dado um status mais alto às mulheres. Como veremos de forma mais completa, o oposto disso parece ser o caso em muitas sociedades. Mellaart pode ter reforçado seu argumento usando achados de um de seus colegas de trabalho, Lawrence Angel, que

descobriu, analisando fósseis, um aumento significativo na expectativa de vida de mulheres do Neolítico em relação ao Paleolítico: de 28,2 anos para 29,8 anos. Esse aumento de quase dois anos na longevidade feminina deve ser considerado em comparação com a expectativa de vida de 34,3 anos de Çatal Hüyük. Em outras palavras, apesar de os homens viverem quatro anos a mais do que as mulheres, houve um aumento considerável na longevidade das mulheres em comparação com um período anterior. Esse aumento pode ter ocorrido em razão da mudança de caça-coleta para agricultura, e pode ter dado às mulheres um papel relativamente mais dominante nessa cultura.

[ 60 ] As observações de Mellaart sobre a ausência de guerra em Çatal Hüyük devem ser comparadas com as evidências abundantes de existência de guerra e de comunidades combativas em regiões vizinhas. E, por fim, não podemos deixar de considerar o abandono repentino e sem explicação de seus habitantes por volta de 5700 a.C., que parece indicar uma derrota militar ou a incapacidade da comunidade de se adaptar a mudanças nas condições ecológicas. Seja qual for o caso, corroboraria a observação de que comunidades com relações de certa forma igualitárias entre os sexos

não sobreviveram. [ 61 ]

Ainda assim, Çatal Hüyük nos fornece evidências sólidas da existência de algum tipo de modelo alternativo ao patriarcado.

Acrescentando-se isso às outras evidências que citamos, podemos afirmar que a subordinação feminina não é universal, mesmo que não tenhamos provas da existência de uma sociedade matriarcal.

Porém as mulheres, assim como os homens, têm grande necessidade de um sistema explicativo que não apenas nos diga o que é e por que é assim, mas

que também nos ofereça uma visão alternativa do futuro. [ 62 ] Portanto, antes que prossigamos para as

evidências históricas do estabelecimento do patriarcado, vamos apresentar um modelo hipotético – para libertar a mente e a alma, brincar com as possibilidades e considerar alternativas.

 

DOIS

HIPÓTESE DE TRABALHO

A

devemos começar qualquer teoria

sobre o passado é a de que homens e mulheres construíram a civilização em

conjunto. [ 63 ] Começando pelo desfecho e voltando para trás, fazemos uma pergunta diferente daquela sobre uma

“origem” de causa única. Perguntamos: como homens e mulheres, na criação da sociedade e na construção do que chamamos de civilização ocidental, chegaram à situação atual? Quando abandonamos o conceito de mulheres como vítimas históricas, influenciadas por homens violentos, “forças” inexplicáveis e instituições da sociedade, devemos explicar o enigma central – a participação da mulher na construção do sistema que a subjuga.

Sugiro que abandonar a busca por um passado empoderador – a busca pelo matriarcado – seja o primeiro passo na direção certa. A criação de mitos compensatórios do passado distante das mulheres não as emancipará nem

no presente, nem no futuro. [ 64 ] O

pensamento patriarcal é construído de tal modo em nossos processos mentais, que não podemos excluí-lo se não tomarmos consciência dele, o que sempre significa um grande esforço. Assim, quando pensamos sobre o passado pré-histórico das mulheres,

estamos tão presos ao sistema explicativo androcêntrico, que o único modelo alternativo que vem de imediato à cabeça é o oposto.

Se não era patriarcado, então só pode ter sido matriarcado. É certo que havia diversas maneiras de homens e mulheres organizarem a sociedade e compartilharem poder e recursos. Nenhuma das evidências arqueológicas que temos é conclusiva e suficiente para nos permitir construir um modelo cientificamente correto daquele importante período de transição de caçadores-coletores neolíticos para sociedades sedentárias voltadas à agricultura. O método dos antropólogos, que nos oferecem exemplos de sociedades contemporâneas de caçadores-coletores e extraem desses exemplos conclusões sobre sociedades no quinto milênio a.C., não é menos especulativo do que o método do filósofo e do especialista em estudos religiosos, que argumentam com base em literatura e mitos. A questão é que a maioria dos modelos especulativos é androcêntrica e admite a naturalidade do patriarcado, e os poucos modelos feministas são a-históricos e, portanto, insuficientes, a meu ver.

Uma análise correta da nossa situação e de como ela aconteceu ajuda-nos a criar uma teoria empoderadora. Devemos pensar em gênero do âmbito histórico e específico, tal como ocorre em sociedades variadas e sujeitas a mudanças. A antropóloga Michelle Rosaldo chegou a conclusões semelhantes, embora partindo de um ponto de vista diferente. Ela escreveu:

Procurar origens é, no fim das contas, pensar que o que somos hoje é algo além do produto de nossa história e nosso mundo social do presente, e, de forma mais específica, que nossos sistemas de gênero são primordiais,

transistóricos e essencialmente imutáveis. [ 65 ]

Nossa busca, portanto, torna-se uma busca pela história do sistema patriarcal. Dar historicidade ao sistema de dominância masculina e afirmar que suas funções e manifestações mudam ao longo do tempo é romper com a tradição oferecida. Essa tradição mistificou o patriarcado, tornando-o a-histórico, eterno, invisível e imutável. Mas é exatamente por causa de mudanças em oportunidades sociais e educacionais disponíveis às mulheres que, nos séculos XIX e XX, inúmeras delas enfim foram capazes de avaliar de forma crítica o processo pelo qual ajudamos a forjar e manter o sistema. Somente agora conseguimos conceituar o papel das mulheres na história, criando, assim, uma consciência que pode emancipá-las. Essa consciência também pode libertar os homens das consequências indesejáveis do sistema de dominância masculina.

Ao abordar essa pesquisa como historiadores, precisamos abandonar explicações de causa única. Devemos presumir que, se e quando eventos ocorrem de forma simultânea, eles não têm necessariamente relação causal. Devemos presumir a possibilidade de que mudanças tão complexas quanto uma alteração básica nas estruturas de parentesco ocorreram como resultado de uma variedade de forças em interação. Precisamos testar qualquer hipótese desenvolvida para um modelo de forma comparativa e entrecruzando culturas. A posição das mulheres na sociedade deve também ser observada sempre em comparação com a posição dos homens do mesmo grupo social e da mesma época.

Precisamos provar nossa teoria não apenas com evidências materiais, mas com evidências de fontes escritas. Embora procuremos a ocorrência de “padrões” e semelhanças, devemos

estar abertos à possibilidade de que conclusões semelhantes, decorrentes de uma variedade de fatores, possam ser o resultado de processos muito diferentes. Sobretudo, precisamos enxergar a posição da mulher na sociedade como sujeita a mudanças ao longo do tempo, não apenas na forma, como também no significado; por exemplo, o papel social da “concubina” não pode ser avaliado por padrões do século XX ou mesmo do século XIX quando o estudamos no primeiro milênio a.C. Esse é um exemplo tão óbvio, que parece desnecessário citá-lo, mas tais erros acontecem com frequência na discussão do passado das mulheres. O gênero, em particular, tem importância simbólica, bem como ideológica e legal, tão forte na maioria das sociedades, que não podemos entendê-lo sem prestar atenção a todos os aspectos de seu significado.

A construção hipotética que ofereço pretende ser apenas um de inúmeros modelos possíveis. Mesmo na limitada região geográfica do Antigo Oriente Próximo deve ter havido diversas maneiras pelas quais ocorreu a transição para o patriarcado. Como é provável que jamais saibamos com exatidão o que aconteceu, somos obrigados a especular a respeito do que pode ter acontecido. Essas projeções utópicas sobre o passado têm uma importante função para quem deseja criar teorias – saber o que pode ter acontecido dá abertura a novas interpretações. Permite-nos especular a respeito do que pode acontecer no futuro, livres dos limites de uma estrutura restrita e antiquada.

Comecemos com o período de transição, quando hominídeos evoluíram de primatas, há cerca de 3 milhões de anos, e consideremos a mais básica díade: mãe e filho. A primeira característica que distingue seres humanos de outros primatas é a infância prolongada e vulnerável da criança humana. Isso é

resultado direto do bipedismo, que causou o estreitamento da pelve feminina e do canal vaginal em razão da postura ereta. Em consequência disso bebês humanos nascem em maior estágio de imaturidade do que outros primatas, com a cabeça relativamente menor, para facilitar a passagem pelo canal vaginal. Além disso, em comparação com os macacos mais desenvolvidos, bebês humanos nascem sem pelos, portanto, têm mais necessidade de aquecimento. Eles não podem se agarrar às mães para um apoio estável, pois não têm os dedos dos pés flexíveis dos macacos, então as mães precisam usar as mãos ou, depois, substitutos mecânicos, para que

possam segurar os bebês junto ao corpo. [ 66 ]

O bipedismo e a postura ereta também resultaram no desenvolvimento mais refinado da mão, no polegar e em maior coordenação sensorial da mão. Consequentemente, o cérebro humano se desenvolve por muitos anos durante o período de infância, em que a criança é totalmente dependente, sendo, portanto, sujeito a modificações por meio do aprendizado e de intensa moldagem cultural, de modo completamente diferente do desenvolvimento dos animais. A neurofisiologista Ruth Bleier usa esses fatos em um argumento revelador contra quaisquer teorias que afirmem ser

as características humanas “inatas”. [ 67 ]

A mudança do forrageamento para a coleta de alimentos para consumo posterior, possivelmente por mais de um indivíduo, foi crucial para o avanço do desenvolvimento humano. Deve ter fomentado a interação social, a invenção e o desenvolvimento de recipientes, além do lento aumento evolutivo do tamanho do cérebro. Nancy Tanner sugere que as mulheres, ao cuidar de seus vulneráveis bebês, foram mais incentivadas a desenvolver essas habilidades, enquanto os homens continuaram a forragear sozinhos

durante um longo período. Ela especula que foram essas atividades que levaram ao primeiro uso de ferramentas para abrir e dividir alimentos vegetais com as crianças e para cavar em busca de raízes. Fosse como fosse, a sobrevivência do bebê dependia da qualidade dos cuidados maternos. “De forma semelhante, a efetividade de coleta da mãe melhorou sua própria

nutrição, aumentando, portanto, sua expectativa de vida e fertilidade.” [ 68 ]

Postulamos, como Tanner e Bleier, que, dos hominídeos eretos aos seres humanos plenamente desenvolvidos da Era Neandertal ou Idade da Pedra (100 mil a.C.), o papel das mulheres foi fundamental. Pouco depois desse período, a caça em grande escala feita por grupos de homens foi desenvolvida na África, na Europa e na Ásia Setentrional; as evidências mais antigas da existência de arcos e flechas pode ser datada apenas de 15 mil anos atrás. Como a maioria das explicações para a divisão sexual do trabalho postula a existência de sociedades de caçadores-coletores, precisamos observar com mais atenção tais sociedades nos períodos Paleolítico e Neolítico.

Vêm do Neolítico as evidências remanescentes de pinturas em paredes e esculturas que sugerem a difundida adoração da Deusa-Mãe. Podemos entender por que é provável que homens e mulheres a tenham escolhido como primeira forma de expressão religiosa se considerarmos o laço psicológico entre mãe e filho. Devemos nossos conhecimentos sobre as complexidades e a importância

desse laço em grande parte aos registros psicanalíticos modernos. [

69 ] Como Freud nos mostrou, na primeira experiência de mundo da

criança, o ambiente em sua totalidade e o eu mal se separam. O

ambiente, que, em termos básicos, é a mãe como fonte de alimento, calor e prazer, apenas aos poucos torna-se diferenciado do eu,

conforme o bebê sorri ou chora para garantir a gratificação de suas necessidades. Quando as necessidades do bebê não são satisfeitas e ele sente ansiedade e dor associadas ao frio e à fome, o bebê aprende a reconhecer o poder opressor do “outro lá fora”, a mãe.

Estudos psicológicos modernos nos oferecem narrativas detalhadas da complexa interação entre mãe e filho e das formas como a resposta do corpo da mãe, seu sorriso e sua fala ajudam a formar o conceito de mundo e de eu da criança. É nessa interação humanizadora que o bebê começa a tirar prazer de sua capacidade de impor a própria vontade sobre o ambiente. O esforço por autonomia e reconhecimento da individualidade é produzido na luta do bebê contra a presença opressora da mãe.

Os registros psicoanalíticos nos quais se baseiam essas generalizações vêm de um estudo sobre a maternidade em sociedades ocidentais modernas. Ainda assim, eles enfatizam a importância crucial da experiência de completa dependência do bebê e da experiência de poder opressor da mãe para a formação de caráter e identidade do indivíduo. Em uma época em que leis contra o infanticídio, bem como a disponibilidade de mamadeiras, quartos aquecidos e cobertores, oferecem aos bebês proteção social, não importando as inclinações da mãe, esse “poder opressor da mãe” parece mais simbólico do que real. Há 200 anos ou mais, outros cuidadores, homens e mulheres, podem, se necessário, oferecer serviços maternos a um bebê sem arriscar suas chances de sobrevivência. A sociedade civilizada colocou-se entre mãe e filho e mudou a maternidade. Mas, em condições primitivas, antes da criação das instituições da sociedade civilizada, o poder real da mãe sobre o bebê deve ter sido aterrador. Apenas os braços e o cuidado da mãe abrigavam o bebê do frio; apenas o leite materno

podia fornecer a nutrição necessária para sua sobrevivência. A indiferença ou negligência da mãe significava morte certa. A mãe que dava a vida tinha, de fato, poder sobre a vida e a morte. Não surpreende que homens e mulheres, observando esse poder dramático e misterioso da mulher, tenham

passado a adorar a Deusa-Mãe. [ 70 ]

Meu objetivo aqui é enfatizar a necessidade, que criou a divisão inicial do trabalho, segundo a qual as mulheres realizavam a função materna. Durante milênios, a sobrevivência do grupo dependeu disso e não havia alternativa.

Nas condições extremas e perigosas sob as quais viviam os humanos primitivos, a sobrevivência até a idade adulta de pelo menos dois filhos por casal exigia muitas gestações para cada mulher. Dados precisos sobre a expectativa de vida pré-histórica são de difícil obtenção, mas estimativas com base em estudos de fósseis colocam a essa expectativa, do Paleolítico e do Neolítico, entre 30 e 40 anos. No estudo detalhado de 222 ossadas adultas de Çatal Hüyük mencionado antes, Lawrence Angel chegou à expectativa de vida de 34,3 anos para homens e de 29,8 anos para mulheres

(excluem-se da análise os que morreram durante a infância). [ 71 ]

Mulheres precisavam ter mais gestações do que partos bem-sucedidos, como continuou a ser o caso também em épocas históricas de sociedades agrícolas. A infância dos bebês era bastante prolongada, uma vez que as mães os amamentavam por dois ou três anos. Assim, podemos presumir que era absolutamente necessário para a sobrevivência do grupo que a maioria das mulheres núbeis dedicasse a vida adulta a engravidar, ter filhos e amamentar. Era esperado que homens e mulheres aceitassem tal

necessidade e construíssem crenças, tradições e valores dentro de suas culturas que sustentassem essas práticas essenciais.

Consequentemente, mulheres escolhiam ou preferiam atividades econômicas que pudessem ser combinadas com facilidade aos deveres da maternidade. Embora seja razoável presumir que algumas mulheres em cada tribo ou bando fossem fisicamente capazes de caçar, também pode se presumir que não queriam participar de caçadas a grandes animais com regularidade, pois ficariam sobrecarregadas fisicamente com filhos na barriga, nos quadris ou nas costas. Além disso, embora um bebê carregado nas costas possa não ser um impedimento para a mãe participar de uma caçada, um bebê chorando pode ser. Exemplos citados por antropólogos de tribos de caçadores-coletores no mundo contemporâneo, nas quais são feitos acordos alternativos para os cuidados dos filhos e nas quais as mulheres participam de caçadas de modo ocasional, não contradizem o

argumento anterior. [ 72 ]

Apenas mostram o que as sociedades podem fazer com relação a tentativas e organização; não mostram, porém, qual foi o provável modo predominante, do âmbito histórico, que permitiu a sobrevivência das sociedades. É óbvio que, dada a curta e precária expectativa de vida do Período Neolítico que mencionei antes, as tribos que colocavam em risco a vida de mulheres núbeis em caçadas ou guerras, assim aumentando a probabilidade de que se machucassem em acidentes, não tendiam a sobreviver tão bem quanto tribos em que essas mulheres trabalhavam de outra maneira.

Portanto, a primeira divisão sexual do trabalho, pela qual homens caçavam grandes animais e mulheres e crianças caçavam pequenos animais e coletavam alimentos, parece ter se originado de

diferenças biológicas entre os sexos. [ 73 ] Não se trata de diferenças de força ou resistência, mas unicamente reprodutivas – em especial, a capacidade de amamentar bebês. Posto isso, quero enfatizar que minha aceitação de uma “explicação biológica” só é aplicável aos primeiros estágios do desenvolvimento humano e não significa que a divisão sexual do trabalho ocorrida depois, com base na maternidade, seja “natural”. Pelo contrário, mostrarei que a dominância masculina é um fenômeno histórico porque surgiu de um fato biologicamente determinado e tornou-se uma estrutura criada e reforçada em termos culturais ao longo do tempo.

Minha síntese não pretende sugerir que todas as sociedades primitivas sejam organizadas de tal maneira, a fim de impedir que mães exerçam atividades econômicas. Sabemos, pelo estudo de sociedades primitivas do passado e do presente, que os grupos encontram várias formas de estruturar a divisão do trabalho para mães que cuidam de seus filhos e também para mães livres para uma grande variedade de atividades econômicas. Algumas mães levam os filhos com elas por longas distâncias; em outros casos,

idosos e filhos mais velhos atuam como cuidadores. [ 74 ] Fica claro que, para as mulheres, a ligação entre ter e criar filhos é determinada culturalmente e sujeita à manipulação social. Meu objetivo é salientar que a mais antiga divisão sexual do trabalho, segundo a qual as mulheres escolheram ocupações compatíveis com a maternidade e a criação dos filhos, era funcional, por isso satisfatória tanto para homens quanto para mulheres.

A infância prolongada e vulnerável dos humanos cria o forte laço materno. Essa relação, necessária do ponto de vista social, se fortalece pela evolução durante os estágios iniciais do desenvolvimento da humanidade. Perante situações novas e

ambientes instáveis, é provável que tribos e grupos nos quais as mulheres não exerciam bem o papel de mães nem zelavam pela saúde e sobrevivência das mulheres núbeis não tenham conseguido sobreviver. Ou, por outro lado, grupos que aceitavam e institucionalizavam uma divisão sexual do trabalho que fosse funcional tinham mais chances de sobreviver.

Podemos apenas especular sobre as personalidades e

autopercepções de pessoas que viveram sob as condições predominantes no Neolítico. A necessidade deve ter imposto limitações aos homens, bem como às mulheres. Era preciso ter coragem para deixar o abrigo da caverna ou cabana para enfrentar animais selvagens com armas primitivas, vagar longe de casa e arriscar encontros com tribos vizinhas possivelmente perigosas.

Homens e mulheres devem ter desenvolvido a coragem necessária para a autodefesa e a defesa da prole. Devido à tendência cultural de se concentrar nas atividades de homens, etnógrafos nos forneceram muita informação sobre as consequências do desenvolvimento da autoconfiança e competência do homem-caçador. Com base em evidências etnográficas, Simone de Beauvoir especulou que foi essa divisão inicial do trabalho a origem da desigualdade entre os sexos, que condenou a mulher à

“imanência” – a busca pelo trabalho diário, repetitivo e sem fim –, ao contrário do que ocorreu com a bravura do homem, que o levou à

“transcendência”. A fabricação de ferramentas, invenções, o desenvolvimento de armas – descreve-se tudo isso como oriundo das

atividades do homem em busca de subsistência. [ 75 ] Mas o crescimento psicológico das mulheres recebeu bem menos atenção e costuma ser descrito em termos mais condizentes com os relativos a uma dona de casa moderna do que a uma integrante de

tribo da Idade da Pedra. Elise Boulding, em seu resumo do passado das mulheres, sintetizou conhecimentos antropológicos para apresentar uma interpretação bem diferente. Boulding enxerga nas sociedades neolíticas um compartilhamento igualitário de trabalho no qual cada sexo desenvolveu habilidades e conhecimento apropriados essenciais para a sobrevivência do grupo. Ela nos conta que a coleta de alimentos exigia um conhecimento elaborado de ecologia, plantas, árvores e raízes, além de suas propriedades como alimento e medicamento. Descreve a mulher primitiva como guardiã do fogo doméstico, como a inventora de recipientes de argila e tecido, que permitiam que os excedentes da tribo fossem guardados para épocas de escassez. Descreve ainda a mulher como alguém que extraía de plantas, árvores e frutas os segredos da transformação de seus produtos em substâncias curativas, tinturas, cânhamo, fios e roupas. A mulher sabia como transformar matéria-prima e animais mortos em alimento. Suas habilidades devem ter sido tão diversas quanto as do homem, e por certo tão essenciais quanto as dele. Ela tinha talvez mais conhecimento ou pelo menos tanto quanto o homem; é fácil imaginar que devia ser o suficiente para ela. Na criação de rituais e ritos, de música, dança e poesia, ela teve tanta participação quanto ele. E, ainda assim, devia ser responsável por gerar e criar filhos. A mulher, na sociedade pré-

civilizada, deve ter sido igual ao homem e pode muito bem ter se

considerado superior a ele. [ 76 ]

A literatura psicanalítica e, mais recentemente, a reinterpretação feminista de Nancy Chodorow nos oferece descrições úteis do processo pelo qual o gênero foi criado com base no fato de que as mulheres são responsáveis pelos cuidados dos filhos. Vejamos se essas teorias têm validade para descrever o processo de

desenvolvimento histórico. Chodorow argumenta que “a relação com a mãe difere de modo sistemático para meninos e meninas, desde os períodos mais

antigos”. [ 77 ] Meninos e meninas aprendem a esperar de mulheres o amor infinito e acolhedor de uma mãe, mas também associam a mulheres o medo de suas fraquezas. A fim de encontrar a própria identidade, meninos se desenvolvem como

“diferentes da mãe”; identificam-se com o pai e repudiam expressões de sentimentos, preferindo a ação. Uma vez que são as mulheres que criam os filhos, Chodorow diz:

[...] meninas em crescimento se definem e sentem-se em conexão com o outro; a experiência de si mesma como meninas apresenta limites de ego mais flexíveis ou permeáveis. Meninos se definem com mais isolamento e distinção, com uma noção maior de limites rígidos de ego e diferenciação. O senso se si básico feminino é conectado com o mundo, o senso de si

básico masculino é isolado. [ 78 ]

Pela forma como sua individualidade se define em comparação com a mãe cuidadora, meninos são preparados para participar da esfera pública. Meninas, identificando-se com a mãe e sempre mantendo a relação primária próxima com ela, ainda que transfiram o interesse amoroso para homens, são preparadas para maior participação nas “esferas dos relacionamentos”. Meninos e meninas definidos pelo gênero são preparados “para assumir papéis de gênero adultos, que, em grande parte, situam mulheres dentro da

esfera de reprodução em uma sociedade desigual em termos de sexo”. [ 79 ]

A sofisticada reinterpretação feminista de Chodorow da explicação freudiana para a criação de personalidades definidas por gênero é

embasada

pela

sociedade

industrial

ocidental

e

seus

relacionamentos por afinidade e familiares. É duvidoso, porém, que seja aplicável a pessoas não brancas que vivam dentro dessas sociedades, motivo pelo qual devemos ser cautelosos ao generalizar com base nisso. Ainda assim, seu argumento para a base psicológica que sustenta as relações e instituições sociais é sólido. Ela e outros argumentam de maneira convincente que devemos prestar atenção à “maternidade” na sociedade patriarcal, em sua estrutura e nas relações que ela gera, se quisermos alterar

as relações entre os sexos e acabar com a subordinação das mulheres. [ 80 ]

Eu especularia que o tipo de formação de personalidade que Chodorow descreve como resultado de mulheres que criam filhos em sociedades industrializadas atuais não ocorria em sociedades primitivas do Neolítico. Em vez disso, as atividades de criação e cuidados das mulheres, associadas a sua autossuficiência na coleta de alimentos e senso de competência para diversas habilidades essenciais à vida, devem ter sido consideradas por homens e mulheres como fonte de força e, é bem provável, poder mágico. Em algumas sociedades, mulheres zelosas guardavam os “segredos” de seu grupo, sua magia, o conhecimento sobre ervas curativas. A antropóloga Lois Paul, cujo relato gira em torno de uma aldeia indígena da Guatemala no século XX, diz que o mistério e o pavor em relação à menstruação contribuem para o “senso de participação nos poderes místicos do universo” das mulheres. Elas manipulam o medo dos homens de que o sangue menstrual ameace sua

virilidade, transformando a menstruação em uma arma simbólica. [

81 ]

Na sociedade civilizada, são as meninas que têm mais dificuldade na formação do ego. Eu diria que, na sociedade primitiva, esse fardo deve ter sido dos meninos, cujo medo e admiração pela mãe deve ter se transformado por ação coletiva em identificação com o grupo masculino. Se as mães e seus filhos pequenos se uniram a outros grupos de mães-filhos para atividades de coleta e processamento de alimentos, ou se os homens tiveram a iniciativa de levar os meninos ao grupo – isso permanece no âmbito da conjectura. As evidências de sociedades primitivas sobreviventes mostram diversas maneiras de estruturação da divisão sexual do trabalho em instituições da sociedade, que unem meninos a homens: preparação para ritos de iniciação separada por sexo; residências com membros do mesmo sexo e participação em rituais com membros do mesmo sexo são apenas alguns exemplos. Inevitavelmente, sair em grupos para caçar grandes animais levava à formação de laços, que devem ter sido muito fortalecidos pela guerra e pela preparação necessária para transformar meninos em guerreiros. Era essencial que as mulheres tivessem habilidades de maternidade também eficazes para garantir a sobrevivência tribal, que deviam ser bastante valorizadas – assim como as habilidades de caça e guerra dos homens. Pode-se supor que tribos que não criavam homens capacitados para a guerra e a defesa acabavam sucumbindo às tribos que fomentavam essas habilidades nos homens. Esses argumentos evolutivos são apresentados com frequência, mas estou aqui falando também em favor de um argumento psicológico com base em condições históricas variáveis. A formação do ego do indivíduo do sexo masculino, que deve ter ocorrido em um contexto de medo, admiração e possivelmente pavor da mulher, pode ter levado os homens à criação de instituições sociais para incentivar o ego, aumentar a autoconfiança e validar sua noção de valor.

Teóricos já ofereceram várias hipóteses para explicar a ascensão do homem, o guerreiro, e sua propensão para criar estruturas militaristas. Essas variam de explicações biológicas (a concentração mais alta de testosterona no homem e sua maior força o tornam mais agressivo) a psicológicas (o homem compensa sua incapacidade de dar à luz com dominância sexual sobre mulheres e agressividade para com outros homens). Freud via a origem da agressividade masculina na rivalidade edipiana entre pai e filho pelo amor da mãe e supunha que os homens tivessem construído a civilização para compensar a frustração de seus instintos sexuais na primeira infância. As feministas, começando por Simone de Beauvoir, foram muito influenciadas por tais ideias, o que tornou possível a explicação de que o patriarcado resultou ou da biologia masculina ou da psicologia masculina. Assim, Susan Brownmiller vê a capacidade que o homem tem de estuprar como causa da propensão a estuprar mulheres, e mostra como isso levou à dominância dos homens sobre as mulheres e à supremacia masculina. Elizabeth Fisher argumentou de modo engenhoso que a domesticação de animais ensinou ao homem seu papel na procriação, e que a prática da reprodução forçada de animais deu-lhe a ideia de estuprar mulheres. Ela alegou que a brutalização e a violência relacionadas à domesticação de animais geraram a dominância sexual e a agressividade institucionalizada do homem.

Em época mais recente, Mary O’Brien criou uma explicação elaborada da origem da dominância masculina com base na necessidade psicológica do homem de compensar a incapacidade de dar à luz com a construção de instituições de dominância, e, tal

como Fisher, situou essa “descoberta” no período da descoberta da

domesticação de animais. [ 82 ]

Todas essas hipóteses, embora nos conduzam a direções interessantes, pecam pela tendência a buscar explicações de causa única; e as que embasam seus argumentos em descobertas relacionadas à pecuária estão, de fato, erradas. A pecuária foi introduzida, ao menos no Oriente Próximo, em cerca de 8 mil a.C., e temos evidências de sociedades relativamente igualitárias, como em Çatal Hüyük, que praticaram a pecuária 2 mil a 4 mil anos depois.

Portanto, não pode haver uma relação causal. Parece-me bem mais provável que a ocorrência de conflitos intertribais durante períodos de escassez econômica tenha fomentado a ascensão ao poder de homens que tenham realizado grandes feitos militares. Como discutiremos mais adiante, o grande prestígio e a reputação de que gozavam podem ter aumentado a propensão a exercer autoridade sobre as mulheres e, depois, sobre os homens da mesma tribo. Mas apenas esses fatores não são suficientes para explicar a vasta mudança ocorrida na sociedade com o advento do sedentarismo e da agricultura. Para entender esse panorama em toda a sua complexidade, nosso modelo teórico deve agora levar em consideração a

prática do comércio de mulheres. [ 83 ]

O comércio de mulheres, um fenômeno observado em sociedades tribais em diversas regiões pelo mundo afora, foi identificado pelo antropólogo Claude Lévi-Strauss como a principal causa da subordinação feminina. Pode assumir várias formas, tais como a remoção forçada de mulheres de suas tribos (roubo de noivas); defloramento ritual ou estupro; casamentos arranjados. É sempre precedido de tabus sobre endogamia e pela doutrinação de mulheres, da mais tenra infância em diante, para a aceitação de sua

obrigação para com seus parentes no sentido de consentir com casamentos impostos. Lévi-Strauss diz:

A relação total de comércio que constitui o casamento não é estabelecida entre um homem e uma mulher [...] mas entre dois grupos de homens, e a mulher representa apenas um dos objetos na transação, não uma das partes. [...] Isso é verdadeiro mesmo quando os sentimentos da garota são levados em consideração, como, aliás, costuma ser o caso. Ao consentir com a união proposta, ela precipita ou permite que a transação se efetue; ela não

pode alterar sua natureza. [ 84 ]

Lévi-Strauss explica que, nesse processo, mulheres são “reificadas”; passam a ser desumanizadas e vistas mais como coisas do que como seres humanos.

Inúmeras antropólogas feministas aceitaram essa posição e elaboraram o tema. A matrilocalidade estrutura o parentesco de forma que um homem deixe sua família de origem para morar com a esposa ou a família da esposa. A patrilocalidade estrutura o parentesco de modo que a mulher tenha de deixar sua família de origem e morar com o marido ou a família dele. A observação desse fato gerou a suposição de que a mudança no parentesco, de laços matrilineares para patrilineares, seria um ponto decisivo na relação entre os sexos, coincidindo com a subordinação das mulheres. Mas como e por que esse sistema se desenvolveu? Já discutimos o cenário no qual os homens, possivelmente recém-alçados ao poder em razão de suas habilidades para a guerra, coagiram mulheres contra a vontade delas. Mas por que as mulheres eram comercializadas, e não os homens? C. D. Darlington oferece uma explicação. Ele vê a exogamia como uma inovação cultural que se torna aceita por proporcionar uma vantagem evolutiva. Propõe a

existência de um desejo instintivo nos seres humanos de controlar a população para a “densidade ideal” em determinado ambiente. As tribos conseguem isso por meio de controle sexual, de rituais que designam homens e mulheres para papéis sexuais apropriados, e recorrendo ao aborto, ao infanticídio e à homossexualidade quando necessário. De acordo com esse argumento evolucionista em essência, o controle populacional tornou

obrigatório o controle sobre a sexualidade feminina. [ 85 ]

Existem outras explicações possíveis: supondo-se que homens adultos fossem comercializados entre as tribos, o que garantiria a lealdade deles à nova tribo? O laço entre homens e sua prole ainda não era forte o bastante para assegurar que eles fossem submissos pelo bem dos filhos. Os homens seriam capazes de atos de violência contra os integrantes da tribo estranha; com a experiência em caça e viagens de longa distância, poderiam escapar facilmente e depois retornar como guerreiros em busca de vingança. As mulheres, por outro lado, seriam coagidas com mais facilidade, muito provavelmente por meio do estupro. Uma vez casadas ou mães, seriam leais aos filhos e aos parentes dos filhos, e assim criariam laços fortes com a tribo de afiliação. Foi assim, de fato, que a escravidão se desenvolveu ao longo da história, como veremos mais adiante. Mais uma vez, a função biológica da mulher a tornou mais adaptável para esse novo papel de fantoche, criado pela cultura.

Pode-se também admitir que não mulheres, mas crianças de ambos os sexos, tenham sido usadas como fantoches a fim de assegurar a paz entre as tribos, uma vez que eram utilizadas com frequência no período histórico entre as elites dominantes. É

provável que a prática do comércio de mulheres tenha começado

assim. Crianças de ambos os sexos eram comercializadas e, na maturidade, casavam-se na nova tribo.

Boulding, sempre destacando a “agência” das mulheres, entende que eram elas – na função de zeladoras do lar – que tratavam das negociações necessárias que levavam à cópula intertribal. As mulheres desenvolviam flexibilidade e sofisticação culturais por meio do papel de elo entre tribos. Retiradas da própria cultura, abarcavam duas culturas e aprendiam os costumes de ambas. O conhecimento

obtido daí pôde dar a elas acesso a poder e com certeza influência. [

86 ]

Considero as observações de Boulding úteis para reconstruir o processo gradual da instituição do comércio de mulheres, que estas podem ter iniciado, ou do qual podem ter participado. Na literatura antropológica, temos alguns exemplos de rainhas, no papel de chefe de estado, que adquiriam muitas “esposas”, para as quais depois arranjavam casamentos

que serviam para aumentar a riqueza e a influência da própria rainha. [ 87 ]

Se meninos e meninas eram comercializados como fantoches, e sua prole, incorporada à nova tribo, é claro que a tribo com mais meninas do que meninos aumentaria de população com mais rapidez em comparação com a tribo que aceitasse mais meninos.

Enquanto as crianças eram uma ameaça à sobrevivência da tribo ou, na melhor das hipóteses, uma desvantagem, tais distinções não eram observadas ou não importavam. Mas se, em razão de mudanças no ambiente ou na economia da tribo, as crianças passassem a se tornar um recurso, como possível força de trabalho, supõe-se que o comércio de crianças de ambos os sexos tenha dado lugar ao comércio de mulheres. Os fatores que originam esse

desenvolvimento são bem explicados, creio, por antropólogos estruturalistas marxistas.

O processo que discutimos agora ocorre em épocas diferentes, em diferentes partes do mundo; ainda assim, apresenta regularidade de causas e resultado. Aproximadamente na mesma época em que a caça/coleta ou a horticultura dá lugar à agricultura, o sistema de parentesco tende a mudar de matrilinear para patrilinear, e a propriedade privada se desenvolve. Existe, como já vimos, discordância sobre a sequência de eventos. Engels e seus seguidores acham que a propriedade privada veio antes, causando

“a grande derrota histórica do sexo feminino”. Lévi-Strauss e Claude Meillassoux acreditam que foi pelo comércio de mulheres que a propriedade privada acabou sendo criada. Meillassoux oferece uma descrição detalhada do estágio de transição.

Em sociedades de caçadores-coletores, homens, mulheres e crianças participam da produção e consomem o que produzem. As relações sociais entre eles são instáveis, sem estrutura, voluntárias.

Não existe a necessidade de estruturas de parentesco ou transações planejadas entre as tribos. Esse modelo conceitual (para o qual é um tanto difícil encontrar exemplos reais) dá lugar a um modelo de transição, um estado intermediário – a sociedade de horticultura. A colheita, com base em raízes e mudas, é instável e sujeita a variações climáticas. A incapacidade de manter a colheita ao longo de vários anos faz com que as pessoas dependam de caça, pesca e coleta como complemento alimentar. Nesse período, quando abundam os sistemas matrilineares e matrilocais, a sobrevivência do grupo exige o equilíbrio demográfico de homens e mulheres. Meillassoux argumenta que a vulnerabilidade biológica das mulheres no parto fez as tribos buscarem mais mulheres de

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