A dinâmica do sistema produtivo da saúde: inovação e complexo econômico-industrial
Apresentação
A saúde tem sido, cada vez mais, reconhecida como um campo
estratégico da agenda de desenvolvimento. Além de sua relevância
social, por envolver setores produtivos que implicam novos
paradigmas tecnológicos, tem significativa importância na geração,
no uso e na difusão de inovação, a qual constitui um elemento
essencial na atual dinâmica do desenvolvimento e competitividade.
A despeito desse protagonismo, a fragilidade do conhecimento
sobre saúde e sobre sua base produtiva e de inovação torna o setor
vulnerável, afetando sua capacidade de responder não somente às
necessidades sanitárias da população no contexto do sistema
universal de saúde como também às exigências de elevação da
competitividade brasileira no cenário internacional.
Ainda que iniciativas diversas venham sendo empreendidas para
que tal fragilidade possa ser superada, o déficit comercial em saúde
continua crescendo, tendo chegado a US$ 10 bilhões em 2011.
Essa situação sugere a necessidade de se aprofundar o
conhecimento sobre a dinâmica do Complexo Econômico-Industrial
da Saúde (CEIS), e de cada um dos seus subsistemas, elevando a
capacidade de análise e ação política diante dos múltiplos e
complexos interesses envolvidos na agenda da saúde. E de que
seja adotado um olhar mais amplo que considere a saúde também
como um espaço de grande dinamismo econômico, além de um
direito social, o que justifica a adoção, nesta publicação, da
abordagem estruturalista.
Peculiaridades hoje observadas no desenvolvimento de fármacos,
vacinas, reagentes para diagnósticos e equipamentos médicos
afetam sobremaneira a prestação dos serviços em saúde,
configurando-se, dessa forma, como desafios dos sistemas de
saúde. Esses setores de base industrial e de serviços interagem
sistematicamente, de forma que as questões relacionadas à justiça
social passam pela discussão sobre uma base tecnológica e
industrial que seja compatível não somente com as propostas de
desenvolvimento econômico como também com os direitos sociais garantidos pela Constituição Federal e pelas leis orgânicas da
saúde.
Isso é essencial em uma perspectiva de longo prazo que articule
de forma virtuosa a dimensão social e a econômica, podendo
orientar e tornar viável um padrão adequado de inovação
tecnológica, público e privado, que permita dar um salto qualitativo
em um ambiente internacional extremamente competitivo e
ameaçador. Parte-se, aqui, do pressuposto de que somente o
enfrentamento do desafio da inovação em saúde e da redução das
assimetrias internacionais permitiria garantir ao cidadão o acesso
universal e integral à saúde, independentemente do grau de
complexidade tecnológica dos bens e serviços.
Este livro é motivado pela necessidade de se aprofundar o
conhecimento sobre a dinâmica relacionada ao sistema produtivo da
saúde, considerando-se seus segmentos sociais e industriais, assim
como a dinâmica de inovação no âmbito de todo o CEIS. Em seu
desenvolvimento, adota-se a perspectiva da economia política
(pressupondo-se que o padrão de desenvolvimento envolve, a um
só tempo, a dimensão econômica e a social) e analisa-se a
inovação como um processo político de escolha e de luta por um
modelo de sociedade.
Em uma perspectiva mais abrangente, A Dinâmica do Sistema
Produtivo da Saúde reflete o resultado de mais de uma década de
análises – tanto das características quanto da dinâmica desse
sistema produtivo, o CEIS – que vêm sendo realizadas no âmbito do
Grupo de Inovação em Saúde da Escola Nacional de Saúde Pública
Sergio Arouca da Fundação Oswaldo Cruz (GIS/Ensp/Fiocruz). Mais
especificamente, tomou como ponto de partida o estudo Sistema
Produtivo Complexo Econômico-Industrial da Saúde, de Carlos
Gadelha (coordenador), José Maldonado, Marco Vargas e Pedro
Barbosa, pesquisadores do GIS. A referida publicação foi
desenvolvida em 2008 e 2009, no âmbito do projeto Perspectivas de
Investimento no Brasil, coordenado por David Kupfer e Mariano
Laplane, dos institutos de Economia da Universidade Federal do Rio
de Janeiro (UFRJ) e da Universidade Estadual de Campinas
(Unicamp), e contou com o apoio do Banco Nacional de
Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), cujo presidente, Luciano Coutinho, sempre nos instigou para que pensássemos
sobre o novo padrão de desenvolvimento do Brasil no campo da
saúde. Nós, do GIS/Ensp/ Fiocruz, estamos profundamente
agradecidos a essas três instituições pelo apoio à edição do
presente livro, que incorpora os resultados do referido projeto e
propicia sua atualização.
Ao longo deste percurso, recebemos a colaboração de diversos
outros parceiros que não temos como listar individualmente, mas
gostaríamos de enfatizar o apoio do Ministério da Saúde, nas
pessoas dos ministros José Gomes Temporão e Alexandre Padilha,
e a contribuição de parceiros diversos da Fundação Oswaldo Cruz
na pessoa de seu presidente, Paulo Gadelha, que vem acreditando
e apoiando o nosso trabalho. Ademais, não poderíamos deixar de
parabenizar esta Editora, pela excelência de seu trabalho, pela
qualidade do corpo editorial e pareceristas, e por sua dedicação.
Destacamos o papel central, na viabilização desta publicação, do
editor João Canossa, que não mediu esforços para ajudar a
transformar este nosso projeto (que é também um sonho) em
realidade.
Por fim, gostaríamos que esta publicação se configurasse,
sobretudo, como um convite para o debate e para o fortalecimento
deste campo científico com um padrão de desenvolvimento que
articule ao mesmo tempo o dinamismo econômico com os direitos
sociais e a conformação de um Estado de bem-estar no Brasil.
Boa leitura!
Carlos Augusto Grabois Gadelha