A dinâmica do sistema produtivo da saúde: inovação e complexo econômico-industrial
1 - A Dinâmica de Inovação e a Perspectiva do Complexo Produtivo da Saúde: uma nova abordagem
1 – A dinâmica de inovação e a
perspectiva do complexo
produtivo da saúde: uma nova
abordagem
O Complexo Econômico-Industrial da Saúde (CEIS) – designação
adotada para o sistema produtivo da saúde – constitui uma das
áreas de maior dinamismo, crucial para a economia do
conhecimento. Envolve atividades de alta intensidade de inovação
nos novos paradigmas tecnológicos, pela existência de uma base
produtiva de bens e serviços bastante relevante, que responde por
parcela significativa do Produto Interno Bruto (PIB) nas economias
emergentes e desenvolvidas, e associa, inerentemente, a dimensão
econômica e a social que, junto com a ambiental, definem o
processo de desenvolvimento (Gadelha, 2002, 2003, 2006).1
É possível assinalar a efetiva existência de um sistema produtivo
no campo da saúde. Observam-se claramente as estreitas relações
de interdependência entre as diversas atividades econômicas, que
evidenciam uma dinâmica sistêmica que vai muito além das
relações de compra e venda na cadeia produtiva e envolvem fortes
interações e sinergias na geração e difusão de conhecimento, nas
relações políticas e institucionais e nas estratégias competitivas
vigentes.
Essa abordagem sistêmica da base produtiva e de inovação em
saúde vem sendo trabalhada no âmbito acadêmico (Gelijns &
Rosemberg, 1995; Albuquerque & Cassiolato, 2000; Quental,
Gadelha & Fialho, 2000; Gadelha, 2002, 2003, 2006) e tem se
desdobrado na experiência concreta de política de desenvolvimento
no Brasil, no campo industrial e produtivo – Política de
Desenvolvimento Produtivo lançada pela Presidência da República
em 2008 e Programa Brasil Maior, em 2011 –, no campo da saúde – Programa Mais Saúde do Ministério da Saúde (MS), em 2007, e
aumento significativo do volume de recursos deste ministério
direcionados para o fomento das atividades relacionadas à
produção e inovação em saúde, em 2012 – e no da ciência e
tecnologia – Plano de Ação em Ciência e Tecnologia do Ministério
da Ciência e Tecnologia (PACTI), em 2007, e Estratégia Nacional de
Ciência, Tecnologia e Inovação, em 2012.2
Na percepção aqui adotada, a saúde passa a ser vista como um
espaço econômico interdependente que configura um sistema de
inovação e um sistema produtivo, congregando alto potencial de
geração de conhecimentos, uma base econômica setorial de alta
importância, o consumo de massas e a presença destacada do
Estado na regulação e na promoção das atividades e da inovação.
O fator analítico e normativo substantivo a ser destacado é a
incorporação, nesta abordagem, tanto das atividades industriais
quanto dos serviços, que articulam o complexo do ponto de vista do
mercado, institucional e do conhecimento, e que, por sua vez,
também têm uma dinâmica própria de produção e de inovação.
Como decorrência, a estratégia de investimento em saúde passa,
necessariamente, por uma forte articulação analítica e normativa
entre as dimensões da inovação, da base produtiva e do bem-estar
social.
Sistema de inovação e CEIS: a
dinâmica do sistema produtivo da
saúde
O estudo da dinâmica industrial e competitiva na área da saúde
constitui um grande desafio ao mesmo tempo acadêmico e político-
normativo. A perspectiva centrada no processo de inovação e de
desenvolvimento envolve, necessária e simultaneamente, uma forte
articulação entre a geração e difusão de tecnologias, a dinâmica
institucional e social e a estruturação do Estado e sua relação com o
setor privado. 3 A tensão, inerente ao capitalismo, entre o interesse privado e o público se expressa de modo incisivo na área da saúde,
impondo aos analistas e policy makers um elevado risco de
privilegiar ou a dimensão econômica ou a social, não estabelecendo
nexo entre ambas.
Assim, o grande desafio para a análise econômica é a
necessidade de acoplar uma visão sistêmica da área da saúde que
dê conta, simultaneamente, da lógica econômica e da lógica
sociossanitária, captando as tensões e as interfaces existentes entre
elas. A saúde talvez seja a área em que esse desafio mais se
coloca, por constituir, no contexto atual,uma das mais importantes
frentes de inovação, respondendo por cerca de 20% do gasto
mundial com atividades de Pesquisa e Desenvolvimento (P&D) e ao
mesmo tempo uma área de alto interesse estratégico para a
sociedade. A área constitui, assim, um lócus privilegiado nas
políticas públicas e nos debates políticos nacionais (Burke & Matlin,
2008).
Com relação à dimensão analítica do tema, a inovação em saúde
envolve uma complexa teia de instituições, no sentido amplo do
termo, que adquirem um formato coevolutivo, não linear, bastante
diferenciado nos diversos ‘tempos e espaços’ de desenvolvimento
em que os países se situam em torno do processo de inovação. A
cada etapa corresponde um diferenciado conjunto de arranjos
institucionais que envolvem setores e cadeias produtivas, empresas,
organizações de Ciência e Tecnologia (C&T), agências de regulação
sanitária, de implementação de políticas industriais, científicas e
tecnológicas, de políticas de saúde, de propriedade intelectual, entre
muitas outras. Nesta perspectiva, a ideia, cara ao programa de
pesquisa neo-schumpeteriano, da inovação como um processo
político e social, que a insere no contexto da economia política,
ganha na área da saúde um campo de estudo privilegiado, que
remete à própria organização dos Estados nacionais, à relação
entre Estado e setor privado e à sua inserção na economia mundial.
Em função dessa importância e complexidade, a saúde emerge
como um campo estratégico para se pensar os desdobramentos
analíticos, políticos e operacionais do conceito de sistemas
nacionais de inovação, permitindo elucidar o caráter sistêmico,
nacional e, portanto, político do desenvolvimento dos Estados nacionais centrado na geração e difusão de inovações (Lundvall,
1992; Nelson, 1993; Freeman, 1995; Edquist, 1997). Em termos do
esforço analítico incorporado neste trabalho, focalizamse, no
contexto do Sistema Nacional de Inovação (SNI), o CEIS como o
lócus do sistema produtivo e o lugar de destaque ocupado pela
empresa, como agente central que transforma conhecimento em
inovação.
A Figura 1 permite situar a inserção do Sistema Nacional de
Inovação em Saúde tanto no SNI em geral como no Sistema de
Saúde, que constitui um componente importante do sistema de
bem-estar. Esta concepção analítica tem desdobramentos
normativos, pois ressalta a interface entre sistemas e políticas
voltados para o desenvolvimento industrial e tecnológico e para
setores sociais. Ocorre, assim, uma politização do conceito quando
inserido no contexto da conformação de Estados de bem-estar em
economias em desenvolvimento.
Figura 1 – Sistema Nacional de Inovação em Saúde
Fonte: Gadelha, Quental & Fialho, 2003.
Assim, neste contexto teórico do programa de pesquisa em torno
dos sistemas nacionais de inovação em saúde, desenvolveu-se o
conceito de Complexo Econômico-Industrial da Saúde – CEIS
(Gadelha, 2002, 2003, 2006), privilegiando-se a relação entre as
inovações e a estrutura produtiva, como enfatizado no trabalho
seminal de Lundvall (1992), que demonstrou as relações de
interdependência entre os setores de atividades e configurou o CEIS
como parte destacada dos sistemas nacionais de inovação. A
dinâmica competitiva dos segmentos produtivos da área da saúde e suas relações de interdependência condicionam a evolução dos
paradigmas e trajetórias tecnológicos estratégicos para as
inovações em saúde, como no caso da biotecnologia, da química
fina, da eletrônica e dos novos materiais.
A Figura 2 apresenta, de modo estilizado, o Sistema Nacional de
Inovação em Saúde, identificando tanto a estrutura produtiva quanto
o tecido socioinstitucional e político que a envolve.
Figura 2 – Sistema Nacional de Inovação em Saúde: contexto
político-institucional e produtivo
1 Incorpora relações de poder, estrutura decisória e a formulação
e implementação de políticas implícitas e explícitas.
2 Desde instituições formais de C&T e de educação, agências de
fomento, órgãos de financiamento, entre outras, até normas de
conduta institucionalizadas na sociedade.
Fonte: Gadelha & Maldonado, 2007.
Partindo-se da conceituação de CEIS é possível, portanto,
demarcar claramente um conjunto particular de setores econômicos
que estão inseridos em um contexto produtivo bastante específico,
característico da área da saúde. Apesar de sua dispersão
tecnológica, a produção industrial em saúde conflui para mercados
fortemente articulados que caracterizam a prestação de serviços de
saúde (hospitalares, ambulatoriais e de saúde pública),
condicionando a dinâmica competitiva e tecnológica que permeia as
indústrias da área. Há, de fato, um ambiente econômico, político e
institucional em saúde que permite caracterizar mercados
fortemente interligados e interdependentes. Como contrapartida, é possível pensar políticas industriais, tecnológicas e sociais que
apresentam grande potencial de articulação, permitindo a
concepção de intervenções, sistêmicas e de alta relevância, no ritmo
e no direcionamento das inovações do país, assim como no âmbito
da competitividade empresarial nos setores da saúde.
No que diz respeito à política tecnológica e industrial, a saúde e
as indústrias que fazem parte da área compartilham o fato de
apresentarem elevado grau de inovação e de intensidade de
conhecimentos científicos e tecnológicos que lhes confere alto
dinamismo em termos de taxa de crescimento e de competitividade
(Gelijns & Rosemberg, 1995). Expressa essa característica o fato de
que os setores da saúde estão, invariavelmente, entre os que
recebem maior estímulo governamental: os recursos estatais
destinados às atividades de Pesquisa e Desenvolvimento (P&D) em
saúde sempre aparecem, em conjunto com a área militar, como os
mais expressivos (Burke & Matlin, 2008); além disso, no setor
ocorrem diversas modalidades de intervenção, como a indução de
parcerias entre universidades e empresas, o financiamento de
empresas de base tecnológica e a montagem de infraestruturas de
serviços técnicos para a indústria, entre outras. No Brasil, esse
padrão se mantém, com a área liderando os esforços nacionais
apoiados pelas agências federais de fomento à ciência e tecnologia
(BRASIL. Ministério da Ciência e Tecnologia e Inovação, 2012) e o
segmento empresarial investindo de forma muito reduzida em
atividades de P&D (Gadelha et al., 2007).
Quanto à política social, é possível afirmar que, apesar dos
esforços internacionais generalizados para a contenção do gasto
público a partir dos anos 80 do último século, a área da saúde
preservou sua participação nas despesas nacionais financiadas pelo
Estado e pelo setor privado, conformando um horizonte dinâmico de
longo prazo para os agentes e setores de atividade. Ou seja, os
requerimentos de saúde por parte da população constituem uma
demanda social em permanente expansão (fruto das mudanças
demográficas e das características inerentes aos bens e serviços
em saúde) que confere uma perspectiva bastante dinâmica de
evolução dos mercados, seja a curto, médio ou longo prazo.
O conceito de CEIS, ou de Sistema Produtivo da Saúde, pode, em
síntese, ser compreendido como um foco no interior do Sistema
Nacional de Inovação em Saúde, na medida em que privilegia o
sistema produtivo de bens e serviços (a prestação de serviços
assistenciais passa a seguir uma lógica típica da atividade
industrial), enfatizando a dinâmica específica de cada subsistema e
setor e, principalmente, as interações entre relações de mercado
(compra e venda de bens e serviços), tecnológicas (geração e
difusão de conhecimentos no âmbito dos paradigmas tecnológicos
dominantes) e político-institucionais (interações no âmbito do
sistema de saúde que envolvem atividades de promoção e
regulação).
A Figura 3 permite demarcar o CEIS, evidenciando um conjunto
particular de atividades econômicas que estão inseridas em um
contexto institucional e produtivo bastante específico. Conforme
ilustrado nesta figura, a produção em saúde envolve um espectro
amplo de atividades industriais: um conjunto de setores que,
liderados pela indústria farmacêutica, adotam paradigmas de base
química e biotecnológica; e outro conjunto conformado pelas
indústrias de equipamentos e materiais, cujas inovações se baseiam
em paradigmas de base mecânica, eletrônica e de materiais. A
produção de todos esses segmentos industriais conflui para
mercados fortemente articulados que caracterizam a prestação de
serviços de saúde, hospitalares, ambulatoriais e de diagnóstico e
tratamento, condicionando a dinâmica competitiva e tecnológica do
CEIS.
Figura 3 – Complexo Econômico-Industrial da Saúde. Morfologia
Fonte: Gadelha, 2003.
Isso posto, neste estudo adota-se um recorte metodológico que
privilegia a base produtiva e tecnológica em saúde, permitindo
delimitar e captar três subsistemas interdependentes, a saber:
Subsistema de Base Química e Biotecnológica, que envolve a
indústria farmacêutica, de vacinas, hemoderivados e reagentes
para diagnóstico.
Subsistema de Base Mecânica, Eletrônica e de Materiais, que
inclui as indústrias de equipamentos médico-hospitalares e de
materiais médicos.
Subsistema de Serviços, que abrange a produção hospitalar,
laboratorial e serviços de diagnóstico e tratamento.
Objetivos e metodologia
Com base nos trabalhos realizados tanto sobre a dinâmica do
sistema quanto sobre cada subsistema, apresentamos a seguir os
elementos-chave do investimento do Brasil na produção e inovação
em saúde:
Relações de interdependência que permitem analisar a área da
saúde como um sistema produtivo, e não como uma agregação
de atividades e setores econômicos independentes.
Tendências do investimento e do mercado, da inovação, da
reestruturação produtiva e competitiva global e do papel do
Estado na área da saúde.
Dinâmica recente do CEIS no Brasil com base nos resultados
das forças atuantes em seus três subsistemas.
Perspectivas para o investimento nos subsistemas e no CEIS
no cenário possível (2008-2012), considerando a dinâmica
recente do sistema e as políticas nacionais de desenvolvimento
vigentes, sem avaliações de ordem conjuntural. As perspectivas
a médio prazo consideraram a institucionalidade de 2009,
portanto posterior ao Mais Saúde, ao PACTI e à Política de
Desenvolvimento Produtivo (PDP), entre outras iniciativas aqui
mencionadas. Optou-se por preservar a formulação inicial do
trabalho, por refletir a expectativa do lançamento da política
(três anos atrás).
Perspectivas para o investimento nos subsistemas e no CEIS
no cenário desejado (2008-2022), tendo como norte o contexto
ideal e deixando claro que não se trata de um exercício ‘técnico’
de prospecção, mas de uma percepção política inerente ao
campo da saúde.
Subsídios para a política nacional nos subsistemas e no CEIS,
com foco na inovação e nos requerimentos de fortalecimento da
base produtiva que condicionam o avanço tecnológico.
Em termos metodológicos, para cada um dos subsistemas do
CEIS selecionou-se o setor de atividade-chave para uma análise
mais aprofundada, tomando-se como critério a intensidade
tecnológica que incorpora e sua importância para a dinâmica de
inovação no subsistema do CEIS, além de sua relevância econômica e social para as políticas públicas. Nesta perspectiva, o
foco setorial para cada subsistema foi o seguinte:
Subsistema de Base Química e Biotecnológica: indústria
farmacêutica;
Subsistema de Base Mecânica, Eletrônica e de Materiais:
equipamentos médicos;
Subsistema de Serviços: serviços hospitalares.
Como a concepção de sistema produtivo e de inovação em saúde
já atingiu, na academia e nas políticas relacionadas ao
desenvolvimento e à saúde vigentes no Brasil, significativo grau de
consolidação, neste trabalho pretendemos mais do que apresentar
uma morfologia setorial do CEIS, como efetivado em estudo anterior
análogo (Gadelha, 2002). Para além da lógica setorial e dos
subsistemas, procuramos, aqui, também captar a lógica sistêmica
da área, que não decorre apenas da soma de suas partes, sejam os
subsistemas ou os setores de atividade.
Com relação à base de informação, e de modo sintético, a
elaboração do estudo sobre o CEIS envolveu o recurso a diferentes
fontes de informações secundárias e o levantamento de algumas
informações primárias. Entre as fontes secundárias consultadas,
destacam-se a revisão e sistematização dos estudos e diagnósticos
desenvolvidos sobre segmentos produtivos que compõem o CEIS
no Brasil e no mundo, as diferentes bases de informações oficiais –
especialmente Pesquisa Industrial Anual (PIA/IBGE), Pesquisa de
Inovação Tecnológica (Pintec/IBGE), Secretaria do Comércio
Exterior (Secex/MDIC), Assistência Médico-Sanitária (AMS/ IBGE),
Cadastro Nacional de Estabelecimentos de Saúde (CNES), Agência
Nacional de Saúde Suplementar (ANS/MS), Relação Anual de
Informações Sociais (Rais/MTE), Banco de Dados do Sistema Único
de Saúde (Datasus/MS) – e programas do Poder Executivo federal,
além de relatórios de agências internacionais e das associações de
produtores. O levantamento de informações primárias envolveu, de
modo muito seletivo, a realização de entrevistas abertas com
informantes-chave do setor produtivo e da arena política, para subsidiar a percepção da dinâmica estrutural vigente e as
perspectivas e políticas requeridas.
Por fim, cabem dois registros importantes. Em primeiro lugar, o
que apresentamos aqui não é um estudo neutro de prospecção
econômica e tecnológica. Na realidade, os cenários são pensados
no contexto político de um determinado padrão de desenvolvimento
desejado, que associa inovação e bem-estar, e estratégias políticas
e institucionais são muito mais enfatizadas do que o emprego de
ferramentas usuais de prospecção tecnológica. Em segundo lugar, e
como desdobramento, este estudo se situa no nível estratégico da
definição de grandes orientações e diretrizes políticas, pretendendo
subsidiar, com aspectos substantivos e conceituais, a formulação
concreta e o desenho de ações e instrumentos cujo detalhamento
cabe ao Estado e suas agências, às associações empresariais e à
sociedade civil.