A Estrada

Cormac McCarthy · Capítulo 1 de 1 · parte 1/7

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A Estrada

A Estrada

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 7 partes.

234 p. ISBN 978-85-60281 -26-8

Tradução de : The Road

1. Pais e filhos - Ficção. 2. Ficção am ericana. I. Lisboa, Adriana. II. Título.

07-2756. CDD: 813

CDU: 821.111 (73)-3

Quando ele acordava na floresta no escuro e no frio da noite, estendia o braço para tocar a criança adormecida ao seu lado. Noites escuras para além da escuridão e cada um dos dias mais cinzento do que o anterior. Como o início de um glaucoma frio que apagava progressivamente o mundo. Sua mão subia e descia de leve com cada preciosa respiração. Removeu a lona de plástico e se levantou em meio às roupas e cobertas fedorentas e olhou para o leste em busca de alguma luz, mas não havia nenhuma. No sonho do qual acordara ele andava a esmo numa caverna onde a criança o levava pela mão. A luz deles brincando sobre as paredes úmidas de rocha calcária. Como peregrinos numa fábula engolidos e perdidos nas entranhas de alguma besta de granito. Buracos profundos na pedra onde a água gotejava e cantava. Contando no silêncio os minutos da terra e suas horas e dias e os anos sem cessar. Até eles se encontrarem num grande salão de pedra onde havia um lago negro e antigo. E na outra margem uma criatura que erguia sua boca gotejante do poço de pedra calcária e fitava a luz com olhos brancos e mortiços, cegos como os olhos das aranhas. Esticou a cabeça sobre a água como se tentasse sentir o cheiro daquilo que não podia ver. Agachada ali pálida e nua e translúcida, seus ossos de alabastro projetados em sombras nas rochas atrás dela. Seus intestinos, seu coração palpitante. O cérebro que pulsava num sino de vidro fosco. Balançava a cabeça para um lado e para o outro, depois soltou um gemido baixo e se virou e se afastou com uma guinada e correu sem fazer barulho para dentro da escuridão.

Com a primeira luz cinzenta ele se levantou e deixou o menino dormindo e caminhou até a estrada e se agachou e estudou a região que ficava ao sul. Árida, silenciosa, sem deus. Ele achava que o mês era outubro, mas não tinha certeza. Fazia anos que não tinha um calendário. Estavam seguindo para o sul. Não haveria como sobreviver a mais um inverno ali.

Quando havia luz suficiente para usar o binóculo ele observou o vale lá embaixo. Tudo empalidecendo na névoa. As cinzas macias voando em espirais vagas sobre o asfalto. Ele examinava o que conseguia ver. Os pedaços da estrada lá embaixo em meio a árvores mortas. Procurando alguma cor. Algum movimento. Algum traço de fumaça subindo no ar. Abaixou o binóculo e puxou para baixo a máscara de algodão que estava sobre seu rosto, limpou o nariz nas costas do punho e em seguida percorreu a região com o binóculo novamente. Depois apenas ficou sentado ali segurando o binóculo e observando a luz cinzenta do dia se solidificar sobre a terra. Sabia apenas que a criança era sua garantia. Disse: Se ele não é a palavra de Deus, Deus nunca falou.

Quando voltou o menino ainda estava adormecido. Puxou a lona de plástico azul de cima dele, dobrou-a e a carregou até o carrinho de supermercado, guardou-a e voltou com seus pratos e alguns bolos de fubá numa bolsa de plástico e uma garrafa plástica com xarope. Estendeu no chão a pequena lona que usavam como mesa e dispôs tudo e tirou o revólver do cinto e o colocou sobre o pano e depois ficou apenas sentado observando o menino dormir. Ele havia arrancado a máscara durante a noite e estava enterrado em algum lugar debaixo dos cobertores. Ele observava o menino e olhava para a estrada lá adiante através das árvores. Aquele não era um lugar seguro. Podiam ser vistos da estrada agora que era dia. O menino se virou nos cobertores. Depois abriu os olhos. Oi, Papai, ele disse.

Estou bem aqui.

Eu sei.

Uma hora mais tarde estavam na estrada. Ele empurrava o carrinho e tanto ele quanto o menino carregavam mochilas. Nas mochilas estavam coisas essenciais. Caso tivessem que abandonar o carrinho e correr para salvar suas vidas. Preso à barra do carrinho de supermercado havia um espelho retrovisor para motocicleta que ele usava para observar a estrada atrás deles. Ajeitou a mochila mais alto sobre o ombro e olhou para o terreno árido adiante. A estrada estava vazia. Lá

embaixo no pequeno vale a serpentina imóvel e cinzenta de um rio. Parada e precisa. Ao longo da margem um feixe de juncos mortos. Você está bem? ele disse. O menino fez que sim. Então partiram sobre o asfalto sob a luz cinza-chumbo, caminhando vagarosamente por entre as cinzas, cada um o mundo inteiro do outro.

Atravessaram o rio por uma velha ponte de concreto e alguns quilômetros depois chegaram a um posto de gasolina de beira de estrada. Ficaram parados na estrada e o examinaram. Acho que devíamos ir ver, o homem disse. Dar uma olhada. O mato que eles atravessavam virava pó ao seu redor. Cruzaram o trecho rachado de asfalto e encontraram o tanque das bombas. A tampa tinha sumido e o homem deitou apoiado nos cotovelos para cheirar o cano, mas o odor de gasolina não passava de um rumor, fraco e velho. Ele se levantou e olhou para a construção. As bombas ali com as mangueiras estranhamente ainda no lugar. As janelas intactas. A porta para a oficina estava aberta e ele entrou. Uma caixa de ferramentas de metal de pé junto a uma das paredes. Vasculhou as gavetas mas não havia nada ali que pudesse usar. Chaves de boca de meia polegada em boas condições. Uma chave de catraca. Ficou olhando ao redor para a garagem. Um barril de metal cheio de lixo. Foi até o escritório. Poeira e cinzas em toda parte. O menino estava parado na porta. Uma mesa de metal, uma caixa registradora. Alguns velhos manuais automotivos, inchados e empapados. O linóleo estava manchado e ondulado por causa dos vazamentos do teto. Ele foi até a mesa e parou ali. Então pegou o telefone e ligou para o número que era da casa de seu pai tanto tempo atrás. O menino o observava.

O que você está fazendo? ele disse.

Cerca de meio quilômetro adiante na estrada ele parou e olhou para trás. Não estamos pensando, falou. Temos que voltar. Ele empurrou o carrinho para fora da estrada e inclinou-o num local onde não poderia ser visto e deixaram suas mochilas e voltaram ao posto de gasolina. Na oficina ele arrastou para fora o barril com o lixo e virou-o de cabeça para baixo e tirou todas as garrafas de óleo de um litro. Em seguida sentaram-se no chão para decantar os resíduos de uma por uma, deixando as garrafas de cabeça para baixo escorrendo dentro de um recipiente até conseguirem quase meio litro de óleo de motor. Ele desatarraxou a tampa de plástico e enxugou a garrafa com um trapo e sentiu seu peso na mão. Óleo para que a pequena lamparina deles pudesse iluminar os longos entardeceres cinzentos, as longas auroras cinzentas. Você pode ler uma história para mim, o menino disse. Não pode, Papai? Sim, ele disse. Posso.

Do outro lado do vale do rio a estrada atravessava uma região completamente queimada.

Troncos de árvores carbonizados e sem galhos estendendo-se de cada lado. Fumaça movendo-se sobre a estrada e as pontas arqueadas de fios elétricos presos aos postes de luz enegrecidos assobiando baixinho no vento. Uma casa queimada numa clareira e atrás dela uma extensão de pradaria desolada e cinzenta e uma faixa de terra enlameada e vermelha onde um canteiro de obras de estrada jazia abandonado. Mais adiante havia outdoors anunciando motéis. Tudo como havia sido antes, mas desbotado e gasto pelo tempo. No alto da colina pararam no frio e no vento, recuperando o fôlego. Ele olhou para o menino. Eu estou bem, o menino disse. O homem colocou a mão em seu ombro e apontou com a cabeça para a região descoberta lá embaixo. Ele tirou o binóculo do carrinho e ficou parado na estrada e examinou de um lado a outro a planície lá embaixo onde a silhueta de uma cidade se erguia em meio ao cinza como um rascunho feito a carvão sobre a terra desolada.

Nada para se ver. Nenhuma fumaça. Posso ver? o menino disse. Sim. Claro que pode. O menino se apoiou no carrinho e ajustou o foco. O que você vê? o homem disse. Nada. Ele abaixou o binóculo.

Está chovendo. Sim, o homem disse. Eu sei.

Deixaram o carrinho numa vala coberto com a lona e avançaram encosta acima em meio aos tocos negros das árvores que ainda se encontravam de pé até o local onde ele tinha visto um trecho

de rocha proeminente e se sentaram sob a saliência da rocha e ficaram observando os lençóis cinzentos de chuva estendendo-se através do vale. Estava muito frio. Ficaram sentados bem juntos embrulhados cada um num cobertor por cima do casaco e depois de algum tempo a chuva parou e havia apenas água gotejando no bosque.

Quando o tempo clareou, desceram até o carrinho e puxaram a lona de cima dele e pegaram os cobertores e as coisas de que iam precisar para a noite. Subiram novamente a colina e arrumaram o acampamento na terra seca sob as rochas e o homem se sentou com os braços ao redor do menino tentando aquecê-lo. Embrulhados nos cobertores, observando o escuro sem nome vir envolvê-los. O

vulto cinzento da cidade sumia com a chegada da noite como uma aparição e ele acendeu a pequena lamparina e a colocou de volta fora do alcance do vento. Então caminharam até a estrada, ele segurou a mão do menino e foram até o alto da colina onde a estrada chegava em seu ponto mais alto e de onde podiam enxergar mais adiante através da extensão de terra cada vez mais escura a sul, de pé ali no vento, envolvidos por seus cobertores, atentos a qualquer sinal de uma fogueira ou lamparina. Não havia nada. A lamparina nas rochas na parte lateral da colina não passava de um pontinho de luz e depois de algum tempo eles voltaram. Tudo úmido demais para acender uma fogueira. Fizeram sua magra refeição e se deitaram nas cobertas com a lanterna entre eles. Ele tinha trazido o livro do menino, mas o menino estava cansado demais para a leitura. A gente pode deixar a lamparina acesa até eu pegar no sono? ele disse. Sim. Claro que pode.

Ele demorou muito para pegar no sono. Depois de um tempo se virou e olhou para o homem.

Seu rosto sob a luz fraca rajado de preto por causa da chuva, como algum ator do velho mundo.

Posso te perguntar uma coisa? ele disse.

Pode. Claro.

A gente vai morrer?

Em algum momento. Não agora.

E ainda estamos indo para o sul.

Sim.

Para ficarmos aquecidos.

Sim.

Tudo bem.

Tudo bem o quê?

Nada. Só tudo bem.

Vá dormir.

Tudo bem.

Vou apagar a lamparina. Está bem?

Sim. Está bem.

E então mais tarde na escuridão: Posso te perguntar uma coisa?

Pode. E claro que pode.

O que você faria se eu morresse?

Se você morresse eu ia querer morrer também.

Para poder ficar comigo?

É. Para poder ficar com você.

Tudo bem.

Ele ficou deitado ouvindo a água gotejar no bosque. Um leito de pedra, isto. O frio e o silêncio. As cinzas do mundo falecido carregadas pelos ventos frios e profanos para um lado e para

o outro no vazio. Levadas para adiante e espalhadas e levadas para adiante outra vez. Todas as coisas retiradas de seu suporte. Sem esteio no ar tomado pelas cinzas. Sustentadas por uma respiração, trêmulas e breves. Se apenas meu coração fosse de pedra.

Ele acordou antes da aurora e ficou vendo o dia cinzento raiar. Lento e meio opaco.

Levantou-se enquanto o menino dormia e calçou os sapatos e envolto pelo cobertor caminhou através das árvores. Desceu para dentro de uma fenda na pedra e ali se agachou tossindo e tossiu durante um longo tempo. Depois ficou apenas ajoelhado nas cinzas. Ergueu o rosto para a manhã pálida. Você está aí? ele sussurrou. Vou te ver enfim? Você tem um pescoço que eu possa estrangular? Você tem um coração? Maldito seja eternamente você tem uma alma? Oh Deus, ele sussurrou. Oh Deus.

Atravessaram a cidade ao meio-dia do dia seguinte. O revólver estava à mão na lona dobrada por cima do carrinho. Mantinha o menino bem perto, ao seu lado. A cidade estava quase toda queimada. Nenhum sinal de vida. Carros na rua incrustada de cinzas, tudo coberto de cinza e poeira.

Rastros fósseis na lama seca. Um cadáver na soleira de uma porta seco feito couro. Arreganhando os dentes para o dia. Ele puxou o menino mais para perto. Apenas se lembre que as coisas que você põe na cabeça ficam lá para sempre, falou. Você talvez queira pensar sobre isso.

Você se esquece de algumas coisas, não se esquece?

Sim. Você se esquece do que quer lembrar e se lembra do que quer esquecer.

Havia um lago a cerca de um quilômetro e meio da fazenda de seu tio onde ele e o tio costumavam ir no outono buscar lenha. Ele se sentava na parte de trás do barco a remo colocando a mão na espuma fria enquanto o tio se curvava sobre os remos. Os pés do velho em seus sapatos pretos de criança firmes sobre as traves verticais. Seu chapéu de palha. Seu cachimbo de sabugo nos dentes e um filete de baba oscilando do pé do cachimbo. Ele se virou para ver a margem oposta, segurando no colo os punhos dos remos, tirando o cachimbo da boca para enxugar o queixo com as costas da mão. Na margem havia uma fileira de bétulas que se elevavam com uma brancura de osso contra a escuridão da mata verde lá atrás. A beira do lago um emaranhado de raízes retorcidas de árvores, cinzentas e gastas pelo tempo, as árvores arrancadas por algum furacão anos antes. As árvores em si já tinham sido serradas havia muito para fazer lenha e levadas embora. Seu tio virou o barco e recolheu os remos e foram levados aos bancos de areia até a popa raspar na areia. Uma perca morta de barriga para cima na água límpida. Folhas amarelas. Deixaram os sapatos nas bordas pintadas e mornas e arrastaram o barco até a praia e colocaram a âncora no final da corda. Uma lata de banha cheia de concreto com um parafuso com anel no centro. Caminharam pela margem enquanto seu tio examinava as raízes das árvores, fumando o cachimbo, uma corda de fibra enroscada sobre o ombro. Pegou uma e eles a viraram de cabeça para baixo, usando as raízes como alavanca, até conseguirem deixá-la meio flutuando na água. Calças enroladas até o joelho mas mesmo assim se molharam. Amarraram a corda a um cunho na parte de trás do barco e remaram de volta atravessando o lago, trazendo o tronco que oscilava devagar atrás deles. A essa altura já era noite. Somente o lento e periódico sacudir e o oscilar dos toletes. O espelho escuro do lago e as luzes nas janelas se acendendo ao longo da margem. Um rádio em algum lugar. Nenhum dos dois havia dito uma palavra.

Esse era o dia perfeito de sua infância. Esse era o dia certo para servir de molde aos seus outros dias.

Rumaram para o sul nos dias e semanas seguintes. Solitários e obstinados. Uma região de colinas nuas. Casas de alumínio. Às vezes podiam ver trechos da rodovia interestadual lá embaixo através dos troncos lisos de mata de reflorestamento. Frio e ficando mais frio. Logo depois do desfiladeiro alto nas montanhas eles pararam e olharam para o grande golfo ao sul e, até onde podiam ver, os campos estavam queimados, os vultos escurecidos de rocha projetando-se dos

baixios de cinza e ondas de cinza se erguendo e soprando para baixo através da desolação. O rastro do sol fraco movendo-se invisível para além da escuridão.

Havia dias que atravessavam aquele terreno cauterizado. O menino tinha encontrado alguns gizes de cera e tinha pintado o rosto com presas e caminhava penosamente sem reclamar. Uma das rodas dianteiras do carrinho tinha dado defeito. O que fazer a respeito? Nada. Onde tudo diante deles estava queimado até as cinzas não havia como fazer fogo e as noites eram mais compridas e frias do que qualquer coisa que eles tivessem encontrado até ali. Frias a ponto de fazer estalar as pedras. De tirar a sua vida. Ele segurava o menino trêmulo junto do corpo e contava cada frágil respiração no escuro.

Acordou com o som de trovão a distância e se sentou. A luz fraca em toda parte, trêmula e difusa, refratada pela chuva de fuligem oscilando no ar. Puxou a lona ao redor deles e ficou acordado durante um longo tempo, escutando. Se eles se molhassem não haveria uma fogueira diante da qual se secar. Se eles se molhassem provavelmente morreriam.

A escuridão que via ao acordar nessas noites era cega e impenetrável. Uma escuridão capaz de fazer doer seus ouvidos quando se punha a escutar. Com frequência ele tinha que se levantar.

Nenhum som além do vento nas árvores nuas e enegrecidas. Ele se levantou e ficou cambaleando naquela escuridão fria e autista com os braços estendidos para se equilibrar enquanto os cálculos nos recessos do seu crânio tentavam com esforço chegar a conclusões. Uma velha narrativa. Tentar ficar em pé. Não havia queda que não se antecedesse por uma inclinação. Ele marchava a passos largos no nada, contando-os para poder voltar. Olhos fechados, braços remando. Ereto em relação a quê? Algo sem nome na noite, veio ou matriz. Para o qual ele e as estrelas eram satélite comum. Como o grande pêndulo em sua rotunda marcando inscrições nos longos movimentos diurnos do universo, dos quais é possível dizer que ele não sabe nada, e no entanto deveria saber.

Foram necessários dois dias para atravessar aquela região pedregosa e coberta pelas cinzas.

A estrada adiante corria pelo topo de uma serrania onde o bosque árido descia pela encosta por todos os lados. Está nevando, o menino disse. Olhou para o céu. Um único floco cinzento caindo.

Pegou-o na mão e o observou expirar ali como o último exército da cristandade.

Avançaram juntos com a lona puxada sobre eles. Os flocos molhados e cinzentos rodopiando e caindo de lugar nenhum. Lama suja e derretida nas laterais da estrada. Agua negra correndo, vindo de sob os montes de cinza encharcados. Não havia mais as grandes fogueiras nas serranias distantes.

Ele achava que os cultos sangrentos deviam ter todos se consumido uns aos outros. Ninguém viajava naquela estrada. Nenhum agente rodoviário, nenhum saqueador. Depois de algum tempo chegaram a uma garagem de beira de estrada e entraram pela porta aberta e olharam para a neve cinzenta acompanhada de chuva caindo lá fora em lufadas vindas da região mais alta.

Apanharam algumas caixas velhas e fizeram uma fogueira no chão e ele encontrou algumas ferramentas, esvaziou o carrinho e se sentou para arrumar a roda. Tirou o parafuso e arrancou o eixo com uma furadeira manual e o encaixou de novo com um pedaço de cano que tinha cortado no comprimento com uma serra para metal. Depois parafusou tudo novamente, levantou o carrinho e o fez deslizar pelo chão. Andava bastante bem. O menino ficou sentado observando tudo.

Pela manhã seguiram em frente. Terra desolada. Um couro de javali pregado à porta de um celeiro. Infestado por ratos. A visão rápida de um rabo. Dentro do celeiro três cadáveres pendendo dos caibros do telhado, secos e empoeirados em meio às pálidas ripas de luz. Pode ser que tenha alguma coisa aí, o menino disse. Pode ser que tenha algum milho ou coisa do tipo. Vamos, o homem disse. Preocupava-se principalmente com os sapatos deles. Isso e comida. Sempre comida. Num velho de fumador de madeira encontraram um presunto pendurado num gancho num canto alto.

Parecia algo retirado de uma tumba, de tão seco e drenado. Cortou-o com a faca. Carne suculenta vermelha e salgada lá dentro. Condimentada e gostosa. Fritaram-na aquela noite em sua fogueira, pedaços grossos, e colocaram os pedaços para ferver junto com uma lata de feijões. Mais tarde ele acordou na escuridão e pensou ter ouvido o soar de tambores em algum lugar nas colinas baixas e escuras. Então o vento mudou de direção e só o que havia era o silêncio.

Em sonhos sua pálida noiva vinha em sua direção surgindo de um dossel verde e frondoso.

Seus mamilos polidos e os ossos das costelas brancos. Usava um vestido de gaze e o cabelo negro estava preso em pentes de marfim, em pentes de madrepérola. Seu sorriso, seus olhos voltados para baixo. Pela manhã estava nevando outra vez. Contas de pequeno gelo cinzento enfileiradas nos fios de luz lá no alto.

Ele desconfiava de tudo aquilo. Dizia que os sonhos corretos para um homem em perigo eram sonhos com o perigo e tudo mais era a chamada do langor e da morte. Dormia pouco e comia pouco.

Sonhava que caminhava num bosque florido onde pássaros voavam diante deles ele e o menino e o céu era de um azul dolorido mas ele estava aprendendo a despertar de mundos de sereia como esses.

Deitado ali no escuro com o fantástico gosto de um pêssego de algum pomar fantasma desaparecendo da boca. Pensou que se vivesse o suficiente o mundo enfim teria desaparecido por completo. Como o mundo agonizante que os cegos recentes habitam, tudo aquilo desaparecendo lentamente da memória.

Dos devaneios na estrada não havia como acordar. Ele se arrastava. Conseguia se lembrar de tudo dela, menos do cheiro. Sentado num teatro com ela ao seu lado inclinada para a frente ouvindo a música. Volutas douradas e candelabros e as altas dobras das cortinas nas colunas em ambos os lados do palco. Ela segurava a mão dele no colo e ele podia sentir a parte de cima de suas meias através do tecido fino de seu vestido de verão. Congele esta imagem. Agora invoque sua escuridão e seu frio e maldito seja você.

Ele confeccionou limpadores com duas vassouras velhas que tinha encontrado e as amarrou com arame no carrinho para afastar os ramos de árvores da estrada em frente às rodas e colocou o menino no carrinho e ficou na parte de trás como um condutor de trenó puxado por cães e eles seguiram colina abaixo, guiando o carrinho nas curvas com seus corpos à maneira das pessoas andando de trenó. Foi a primeira vez que viu o menino sorrir em muito tempo.

No topo da colina havia uma curva e um recuo na estrada. Uma velha trilha que seguia através da floresta. Saíram e se sentaram num banco e olharam para o vale onde a terra desaparecia no nevoeiro arenoso. Um lago lá embaixo. Frio e cinzento e encorpado no bojo saqueado dos campos.

O que é aquilo, Papai?

E uma represa.

Para que serve?

Ela fez o lago. Antes que eles construíssem a represa só existia um rio lá embaixo. A represa usava a água que corria através dela para fazer girar ventiladores grandes chamados turbinas que gerariam eletricidade.

Para acender as luzes.

Sim. Para acender as luzes.

A gente pode descer para olhar?

Acho que está longe demais.

A represa vai ficar aqui por muito tempo?

Acho que sim. E feita de concreto. Provavelmente vai ficar aqui por centenas de anos.

Milhares, talvez.

Você acha que poderia ter peixes no lago?

Não. Não há nada no lago.

Naquela época do passado em algum lugar bem perto deste lugar ele tinha observado um falcão descer voando ao longo da comprida parede azul das montanhas e acertar com a quilha de seu esterno o pássaro que estava no meio de um bando de grous e levá-lo até o rio lá embaixo todo desengonçado e destroçado e arrastando sua plumagem frouxa e bufante no ar parado do outono.

O ar granulado. Seu gosto nunca saía da boca. Estavam parados sob a chuva como animais de fazenda. Depois seguiram em frente, segurando a lona sobre suas cabeças no chuvisco monótono. Os pés estavam molhados e frios e seus sapatos estavam ficando arruinados. Nas encostas das colinas antigas plantações mortas e achatadas. As árvores desoladas nas laterais da serrania nuas e negras sob a chuva.

E os sonhos tão ricos de cores. De que outro modo poderia a morte te chamar? Acordando na aurora fria tudo se transformava em cinzas instantaneamente. Como certos afrescos antigos enterrados por séculos subitamente expostos à luz do dia.

O tempo melhorou e o frio e por fim eles chegaram ao vale do rio, numa vasta planície, a fazenda de terras divididas ainda visível, tudo morto até a raiz ao longo do vale desolado. Eles continuaram seguindo ao longo do asfalto. Casas altas de sarrafo. Telhados de zinco. Um celeiro de troncos de madeira num campo com um cartaz de propaganda em letras desbotadas com três metros de altura na parte lateral do telhado. Visite Rock City.

As sebes de beira de estrada haviam dado lugar a fileiras de sarças negras e retorcidas.

Nenhum sinal de vida. Ele deixou o menino de pé na estrada segurando o revólver enquanto subia um velho lance de escada com degraus de calcário e caminhava até o pórtico da sede da fazenda protegendo os olhos da luz e espiando pelas janelas. Entrou pela cozinha. Lixo no chão, jornais velhos. Porcelana num armário, canecas penduradas nos ganchos. Seguiu pelo corredor e parou na porta que dava para a sala de visitas. Havia um antigo órgão no canto. Uma televisão. Mobília acolchoada barata junto com um velho armário de cerejeira artesanal. Subiu a escada e passou pelos quartos. Tudo coberto de cinzas. Um quarto de criança com um cachorro de pelúcia no batente da janela olhando para o jardim lá fora. Passou pelos armários. Puxou as cobertas das camas e tirou dois bons cobertores de algodão e desceu de volta à escada. Na despensa havia três potes de conserva caseira de tomate. Soprou a poeira de cima das tampas e os examinou. Alguém antes dele não confiara naquilo e no fim das contas ele também não confiava; saiu com os cobertores sobre os ombros e partiram pela estrada novamente.

Nos arredores da cidade chegaram a um supermercado. Uns poucos carros velhos no estacionamento cheio de lixo. Deixaram o carrinho no estacionamento e caminharam pelos corredores imundos. Na seção de vegetais no fundo das caixas encontraram algumas vagens velhas e o que parecia um dia terem sido damascos, ressecados havia muito até se tornarem efígies enrugadas de si mesmos. O menino seguia atrás. Saíram pela porta dos fundos. Na passagem atrás do mercado alguns carrinhos de compras, todos muito enferrujados. Voltaram para o mercado outra vez procurando por outro carrinho mas não havia nenhum. Junto à porta havia duas máquinas de vender refrigerantes que tinham sido derrubadas no chão e abertas com um pé de cabra. Moedas em toda parte em meio às cinzas. Ele se sentou e passou a mão pelo mecanismo das máquinas estripadas e na segunda ela se fechou sobre um cilindro frio de metal. Ele retirou a mão devagar e ficou sentado olhando para uma Coca-Cola.

O que é isso, Papai?

E uma coisa gostosa. Para você.

O que é?

Fome aqui. Sente-se.

Ele afrouxou as tiras da mochila do menino, depositou a mochila no chão atrás dele e colocou a unha do polegar debaixo do anel de alumínio no topo da lata e a abriu. Levou o nariz até o suave chiado que saía da lata e a entregou ao menino. Vamos lá, ele disse.

O menino pegou a lata. Faz bolhas, ele disse.

Vamos lá.

Ele olhou para o pai e em seguida inclinou a lata e bebeu. Ficou ali pensando a respeito. E

bem bom, ele disse.

E. E mesmo.

Beba um pouco, Papai.

Quero que você beba.

Beba um pouco.

Ele pegou a lata, bebeu e a devolveu. Você bebe, ele disse. Vamos ficar sentados aqui.

E porque eu nunca mais vou poder beber outra, não é?

Nunca mais é muito tempo.

Tudo bem, o menino disse.

Ao entardecer do dia seguinte estavam na cidade. As longas curvas de concreto dos cruzamentos de rodovias interestaduais como as ruínas de uma vasta casa de espelhos contra a escuridão distante. Ele levava o revólver no cinto e usava sua parca aberta. Os mortos mumificados em toda parte. A pele se separando junto aos ossos, os ligamentos secos a ponto de ficarem puxados e esticados como fios de arame. Enrugados e retesados como os recentes povos dos pântanos, seus rostos como tecido empapado, a linha amarelada dos dentes. Estavam todos descalços como peregrinos de alguma ordem pois todos os sapatos tinham sido roubados fazia muito.

Seguiram em frente. Ele mantinha vigilância constante às suas costas através do espelho. A única coisa que se movia nas ruas era a cinza que o vento soprava. Atravessaram a alta ponte de concreto sobre o rio. Um dique lá embaixo. Pequenos barcos de passeio meio afundados na água cinzenta. Estacas altas rio abaixo, quase indistintas na fuligem.

No dia seguinte, a alguns quilômetros ao sul da cidade numa curva da estrada e meio perdida em meio à sarça morta, deram com uma velha casa de estrutura de madeira com chaminés, empenas e uma parede de pedra. O homem parou. Em seguida empurrou o carrinho para a entrada acima.

Que lugar é este, Papai?

É a casa onde eu cresci.

O menino ficou parado olhando para a casa. Os painéis externos de madeira, descascando, já tinham sumido havia muito das paredes inferiores para se tornar lenha, deixando os caibros e o isolamento térmico expostos. A tela apodrecida da porta dos fundos jazia no terraço de concreto.

Vamos entrar?

Por que não?

Estou com medo.

Não quer ver o lugar onde eu morava?

Não.

Vai ficar tudo bem.

Poderia ter alguém aqui.

Acho que não.

Mas e se tiver?

Ficou parado olhando para a empena de seu antigo quarto. Olhou para o menino. Quer esperar aqui?

Não. Você sempre diz isso.

Sinto muito.

Eu sei. Mas sempre diz.

Tiraram as mochilas e as deixaram no terraço, abriram caminho dando pontapés no lixo que havia na soleira da porta e entraram na cozinha. O menino segurava sua mão. Mais ou menos como ele se lembrava. Os cômodos vazios. Na salinha anexa à sala de jantar havia um catre de ferro vazio, uma mesa dobrável de metal. A mesma grelha de ferro fundido na pequena lareira. Os lambris de madeira haviam desaparecido das paredes, deixando apenas as ripas do forro. Ficou parado ali, de pé. Tocou com o polegar na madeira pintada do revestimento os buracos das tachas com que havia prendido meias quarenta anos antes. Era aqui que festejávamos o Natal quando eu era garoto. Ele se virou e olhou para o quintal abandonado. Um emaranhado de lilases mortos. A forma de uma cerca-viva. Em noites frias de inverno, quando a eletricidade tinha acabado por causa de uma tempestade, a gente se sentava diante do fogo aqui, eu e minhas irmãs, para fazer o dever de casa. O menino o observava. Observava formas que o solicitavam e que ele não podia ver. Devíamos ir, Papai. Sim, o homem disse. Mas não foi.

Passaram pela sala de jantar onde os tijolos refratários da lareira estavam tão amarelos quanto no dia em que foram colocados porque a mãe dele não podia tolerar vê-los enegrecidos. O

piso estava empenado com a água da chuva. Na sala de estar os ossos de um animalzinho desmembrados e arrumados numa pilha. Possivelmente um gato. Um copo de vidro junto à porta. O

menino agarrou sua mão. Subiram a escada e se viraram e seguiram pelo corredor. Pequenos cones de estuque úmido no chão. A estrutura de madeira do teto exposta. Ele parou na porta de seu quarto.

Um pequeno espaço sob o telhado. Era aqui que eu dormia. Minha cama ficava encostada nesta parede. Durante milhares de noites para sonhar os sonhos da imaginação de uma criança, mundos ricos ou assustadores que talvez pudessem vir a se oferecer mas nunca o que ia de fato. Ele abriu a porta do guarda-roupa meio que esperando encontrar as coisas da infância. A luz crua e fria do dia entrava pelo teto. Cinzenta como seu coração.

A gente devia ir, Papai. Podemos ir?

Sim. Podemos ir.

Estou com medo.

Eu sei. Sinto muito.

Estou com muito medo.

Está tudo bem. Não devíamos ter vindo.

Três noites mais tarde no contraforte das montanhas orientais ele acordou na escuridão e ouviu algo se aproximando. Estava deitado com as duas mãos do lado do corpo. O chão tremia.

Estava vindo na direção deles.

Papai? O menino disse. Papai?

Shh. Está tudo bem.

O que é isso, Papai?

Aproximava-se, ficando mais alto. Tudo tremendo. Então passou debaixo deles como um trem subterrâneo e se arrastou para longe no meio da noite e se foi. O menino se agarrou a ele chorando, a cabeça enterrada em seu peito. Shh. Está tudo bem.

Estou com tanto medo.

Eu sei. Está tudo bem. Já passou.

O que era, Papai?

Era um terremoto. Agora já passou. Nós estamos bem. Shh.

Naqueles primeiros anos as estradas estavam povoadas por refugiados amortalhados em suas roupas. Usando máscaras e óculos de proteção, sentados em seus trapos na beira da estrada como aviadores arruinados. Seus carrinhos de mão com pilhas de quinquilharia. Arrastando carrinhos. Os olhos brilhando no crânio. Cascas incrédulas de homens cambaleando pelas estradas como migrantes numa terra febril. A fragilidade de todas as coisas finalmente revelada. Questões antigas e perturbadoras solucionadas para se transformar em nada e noite. A última instância de uma coisa leva a categoria consigo. Apaga a luz e vai embora. Olhe ao seu redor. Para sempre é muito tempo.

Mas o menino sabia o que sabia. Que para sempre não é tempo algum.

Estava sentado junto a uma janela cinzenta sob a luz cinzenta numa casa abandonada no final da tarde e lia jornais velhos enquanto o menino dormia. As notícias curiosas. As preocupações exóticas. Às oito a prímula se fecha. Ficou olhando o menino dormir. Você vai conseguir? Quando o momento chegar? Vai conseguir?

Eles se agacharam na estrada e comeram arroz frio e feijão frio que tinham cozinhado dias antes. Já começando a fermentar. Nenhum lugar para fazer uma fogueira onde não fossem ser vistos.

Dormiram amontoados nas colchas malcheirosas no escuro e no frio. Ele abraçava o menino bem junto do corpo. Tão magro. Meu coração, ele disse. Meu coração. Mas sabia que se fosse um bom pai ainda assim poderia ser como ela disse. Que o menino era tudo o que havia entre ele e a morte.

Mais para o fim do ano. Ele mal sabia o mês. Pensava que tinham comida suficiente para atravessar as montanhas mas não havia como saber. O desfiladeiro na vertente tinha 1.500 metros e estaria muito frio. Ele disse que tudo dependia de chegarem à costa, mas ainda assim caminhando pela noite sabia que tudo isso era vazio e sem substância. Havia uma boa chance de morrerem nas montanhas e seria tudo.

Passaram pelas ruínas de uma cidade turística e tomaram a estrada para o sul. Florestas queimadas por quilômetros ao longo das encostas e neve mais cedo do que ele teria pensado.

Nenhuma marca na estrada, nada vivia em parte alguma. As grandes pedras arredondadas como vultos de ursos nas encostas densamente ocupadas pela floresta. Ele parou numa ponte de pedra onde as águas caíam murmurando num poço e se tornavam lentamente espuma cinzenta. Onde outrora ele observara as trutas se agitando na corrente, projetando suas sombras perfeitas nas pedras lá embaixo.

Seguiram em frente, o menino caminhando penosamente atrás dele. Apoiado no carrinho, fazendo devagar as curvas ascendentes da estrada em ziguezague. Ainda havia fogo no alto das montanhas e à noite eles podiam ver sua luz, de um laranja intenso, em meio à fuligem. Estava ficando mais frio mas ao acampar eles faziam fogueiras durante toda a noite e as deixavam acesas depois de ir embora outra vez de manhã. Ele envolvera seus pés em sacos amarrados com cordões e até ali a neve só tinha alguns centímetros de profundidade, mas ele sabia que se ficasse muito mais funda teriam que deixar o carrinho. Já estava difícil avançar e ele parava com frequência para descansar. Caminhando penosamente para a beira da estrada de costas para o menino onde ficava curvado com as mãos nos joelhos, tossindo. Levantou-se e ficou parado com olhos lacrimejantes. Na neve cinzenta uma leve névoa de sangue.

Acamparam junto a uma grande pedra arredondada e ele fez um abrigo com varas e a lona.

Fez uma fogueira e saíram recolhendo uma grande quantidade de gravetos para durar a noite toda.

Tinham feito um colchão com galhos secos de cicuta sobre a neve e ficaram sentados embrulhados em seus cobertores, observando o fogo e bebendo o que restava do chocolate apanhado semanas antes. Estava nevando outra vez, flocos suaves caindo devagar em meio à escuridão. Ele cochilava

no calor maravilhoso. A sombra do menino atravessada sobre ele. Carregando uma braçada de madeira. Observou-o atiçar as chamas. O dragão de fogo de Deus. As centelhas se levantavam e morriam na escuridão sem estrelas. Nem todas as palavras moribundas são verdadeiras e esta bênção não é menos real por estar arrancada de seu chão.

Ele acordou por volta do amanhecer com a fogueira reduzida a carvão e caminhou até a estrada. Tudo estava iluminado. Como se o sol perdido estivesse retornando enfim. A neve cor de laranja e palpitando. Um incêndio na floresta abria caminho pelas serranias inflamáveis acima deles, as labaredas brilhando e tremeluzindo contra o céu encoberto como as luzes do norte. Mesmo frio como estava ele ficou de pé ali durante um bom tempo. A cor de tudo aquilo fazia algo esquecido havia muito se mover dentro dele. Faça uma lista. Recite uma litania. Lembre-se.

Estava mais frio. Nada se movia naquele mundo alto. Um cheiro intenso de fumaça de madeira pairava sobre a estrada. Ele empurrava o carrinho através da neve. Uns poucos quilômetros a cada dia. Não tinha noção da distância que podia separá-los do topo. Comiam pouco e sentiam fome o tempo todo. Ele parou para observar a região. Um rio bem longe lá embaixo. Que distância tinham percorrido?

Em seu sonho ela estava doente e ele cuidava dela. O sonho tinha o aspecto de sacrifício mas ele pensava de modo diferente. Não cuidou dela e ela morreu sozinha em algum lugar no escuro e não há outro sonho nem outro mundo real, e não há outra história para contar. Nesta estrada não há homens inspirados por Deus. Eles se foram e eu fiquei, eles levaram consigo o mundo. Pergunta: Como faz aquilo que nunca será para ser diferente daquilo que nunca foi?

A escuridão da lua invisível. As noites agora apenas ligeiramente menos negras. Durante o dia o sol banido circunda a terra como uma mãe chorosa com uma lamparina.

Pessoas sentadas na calçada no nascer do dia meio imoladas e fumegando dentro das roupas.

Como suicidas sectários malsucedidos. Outros viriam para ajudá-los. No intervalo de um ano houve incêndios nas serranias e cânticos insanos. Os gritos dos assassinados. Durante o dia os mortos empalados em estacas ao longo da estrada. O que tinham feito? Ele pensou que na história do mundo talvez até pudesse haver mais punição do que crimes, mas isso o reconfortava pouco.

O ar se tornava rarefeito e ele achava que o topo não podia estar longe. Talvez amanhã.

Amanhã veio e se foi. Não voltou a nevar mas a neve na estrada tinha mais de quinze centímetros de espessura e empurrar o carrinho para subir aqueles aclives era uma tarefa exaustiva. Ele pensou que teriam que deixá-lo. Quanto poderiam carregar? Parou e olhou para as encostas áridas. A cinza caía na neve até deixá-la quase preta.

A cada curva parecia que o desfiladeiro ficava logo adiante e então certa noite ele parou e olhou ao redor e reconheceu-o. Abriu a gola de sua parca, abaixou o capuz e ficou escutando. O

vento nos troncos nus e pretos de cicuta. O estacionamento vazio no mirante. O menino estava ao seu lado. Onde ele estivera com seu próprio pai num inverno muito tempo atrás. O que foi, Papai? o menino disse.

E o desfiladeiro. E ele.

Pela manhã, avançaram. Estava muito frio. A tarde começou a nevar novamente e eles acamparam cedo e se agacharam sob a cobertura da lona e ficaram observando a neve cair no fogo.

Pela manhã havia vários centímetros de neve recente no chão mas a neve tinha parado de cair e estava tão quieto que quase podiam ouvir seus corações batendo. Ele empilhou madeira sobre os carvões e abanou a fogueira até reacendê-la e caminhou com dificuldade em meio à neve para desenterrar o carrinho. Escolheu alguma coisa entre as latas, voltou e eles se sentaram junto ao fogo e comeram seus últimos biscoitos e uma lata de salsichas. Num bolso da mochila ele encontrou uma

última metade de pacote de chocolate em pó e preparou-o para o menino e depois colocou água quente em sua própria xícara e se sentou soprando a borda.

Você me prometeu que não ia fazer isso, o menino disse.

O quê?

Você sabe o quê, Papai.

Ele despejou a água quente de volta na panela e pegou a xícara do menino e colocou um pouco do chocolate na sua e depois a devolveu.

Tenho que ficar de olho em você o tempo todo, o menino disse.

Eu sei.

Se você descumprir promessas pequenas vai descumprir as grandes. Foi o que você disse.

Eu sei. Mas não vou.

Avançaram com dificuldade ao longo de todo o dia descendo a encosta sul da vertente. Em montes de neve mais profundos o carrinho não passava de forma nenhuma e ele tinha que arrastá-lo atrás de si com uma das mãos enquanto abria uma trilha. Em qualquer outro lugar que não fosse as montanhas eles talvez tivessem encontrado alguma coisa para usar como trenó. Uma velha placa de metal ou uma folha de flandres usada em telhados. Os sacos que envolviam seus pés estavam ensopados e ficaram com frio e molhados o dia inteiro. Ele se apoiou no carrinho para tomar fôlego enquanto o menino esperava. Ouviu-se um estalido agudo vindo de algum lugar na montanha. Depois outro. E só uma árvore caindo, ele disse. Está tudo bem. O menino olhava para as árvores mortas na beira da estrada. Está tudo bem, o homem disse. Todas as árvores do mundo vão cair cedo ou tarde.

Mas não em cima da gente.

Como você sabe?

Eu simplesmente sei.

Ainda assim eles se depararam com árvores atravessadas na estrada e tiveram que esvaziar o carrinho e carregar tudo por cima dos troncos e depois guardar tudo de novo do outro lado. O

menino encontrou brinquedos que tinha esquecido que tinha. Deixou do lado de fora um caminhão amarelo e seguiram em frente com o brinquedo no alto da lona.

Acamparam num banco de terra na margem mais distante de um riacho de beira de estrada congelado. O vento tinha soprado as cinzas de cima do gelo e o gelo estava preto e o riacho parecia um caminho de basalto serpenteando em meio à floresta. Juntaram lenha na parte mais ao norte da encosta, onde não estava tão molhado, avançando por cima de árvores inteiras e arrastando-as para o acampamento. Acenderam a fogueira e estenderam a lona e penduraram suas roupas molhadas fumegando e fedendo em estacas e se sentaram embrulhados nas colchas nus enquanto o homem segurava os pés do menino junto ao seu estômago para aquecê-los.

Ele acordou choramingando à noite e o homem o abraçou. Shh, ele disse. Shh. Está tudo bem.

Eu tive um sonho ruim.

Eu sei.

Eu te digo o que foi?

Se você quiser.

Eu tinha esse pinguim em que você tinha dado corda e ele andava gingando e batendo as nadadeiras. E a gente estava naquela casa em que a gente morava antes e veio pelo canto mas ninguém tinha dado corda nele e dava um medo danado.

Tudo bem.

Dava muito mais medo no sonho.

Eu sei. Sonhos podem ser bem assustadores.

Por que foi que eu tive esse sonho assustador?

Não sei. Mas está tudo bem agora. Vou colocar um pouco de lenha na fogueira. E você vá dormir.

O menino não respondeu. Em seguida ele disse: O lugar de dar corda não estava funcionando.

Levou mais quatro dias para descer e sair da neve e mesmo então havia trechos com neve em certas curvas da estrada e a estrada estava preta e molhada da água que escorria das regiões mais altas mesmo depois dali. Contornaram a beira de um desfiladeiro profundo e lá embaixo, na escuridão, um rio. Ficaram parados escutando.

Altos penhascos rochosos na outra extremidade do desfiladeiro com árvores finas e negras agarrando-se à escarpa. O som do rio diminuiu. Depois retornou. Um vento frio soprando do campo lá embaixo. Estavam o dia inteiro tentando alcançar o rio.

Deixaram o carrinho num estacionamento e foram andando pela floresta. Um ruído grave vindo do rio. Era uma cachoeira que descia de uma alta parede de pedra e caía por 25 metros através de uma mortalha cinzenta de neblina no poço lá embaixo. Podiam sentir o cheiro da água e podiam sentir o frio se desprendendo dela. Um banco de cascalho molhado do rio. Ele ficou parado observando o menino. Uau, o menino disse. Não conseguia tirar os olhos dali.

Ele se pôs de cócoras e pegou um punhado de pedras, cheirou-as e as deixou cair fazendo barulho. Polidas até ficarem redondas e lisas como mármore ou pastilhas de pedra raiadas e listradas. Pequeninos discos pretos e pedaços de quartzo polido, todos brilhando devido à garoa que se levantava do rio. O menino se adiantou e se pôs de cócoras e pegou com as mãos um pouco da água escura.

A cachoeira caía no poço quase no centro. Um coágulo cinzento a circundava. Ficaram lado a lado chamando um ao outro sobre o ruído.

Está fria?

Está. Está gelada.

Você quer entrar?

Não sei.

Claro que quer.

Tudo bem se eu entrar?

Vamos lá.

Ele abriu o zíper da parca, deixou-a cair sobre o cascalho e o menino se pôs de pé e eles se despiram e caminharam até a água. De uma palidez fantasmagórica e tremendo. O menino tão magro que ele sentiu um aperto no coração. Mergulhou de cabeça e reapareceu arquejando e se virou e ficou parado, batendo os braços.

Ela está em cima da minha cabeça? o menino

gritou.

Não. Venha.

Ele se virou e nadou até a cachoeira e deixou a água cair sobre ele com força. O menino estava de pé no poço com a água chegando à cintura, segurando os ombros e pulando para cima e para baixo. O homem voltou e pegou-o. Segurou-o e fez com que boiasse, o menino arquejando e se debatendo na água. Você está indo bem, o homem disse. Está indo bem.

Vestiram-se trêmulos e em seguida subiram a trilha até a parte de cima do rio. Caminharam junto às pedras até onde o rio parecia terminar no espaço e ele segurou o menino enquanto se aventurava até a última saliência da pedra. O rio passava lambendo a beira e caía diretamente no poço lá embaixo. O rio inteiro. Ele se agarrou ao braço do homem.

É bem alto, ele disse.

É bastante alto.

Você ia morrer se caísse?

Ia se machucar. E uma boa queda.

Dá um medo danado.

Caminharam pela floresta. A luz estava diminuindo. Seguiram os bancos de areia ao longo da parte superior do rio entre imensas árvores mortas. Uma fértil floresta do sul onde outrora havia limão-bravo e pipsissewa. Ginseng. Os galhos mortos e crus do rododendro retorcidos e cheios de nós e negros. Ele parou. Algo no tapete de vegetação morta e cinzas. Parou e apanhou-o. Uma pequena colônia deles, encolhidos, secos e enrugados. Ele apanhou um, segurou-o e cheirou. Mordeu a ponta de um deles e mastigou.

O que é, Papai?

Morchelas. São morchelas.

O que são morchelas?

Um tipo de cogumelo.

A gente pode comer?

Pode. Dá uma mordida.

São bons?

Dá uma mordida.

O menino cheirou o cogumelo e deu uma mordida e ficou mastigando. Olhou para o pai.

São bastante bons, ele disse.

Arrancaram os cogumelos do chão, coisinhas de aspecto estranho que ele empilhou no capuz da parca do menino.

Caminharam de volta até a estrada e desceram até onde tinham deixado o carrinho e acamparam junto ao poço do rio perto da cachoeira e lavaram a terra e as cinzas que havia nos cogumelos e os colocaram de molho numa panela d’água.

Quando ele acendeu a fogueira estava escuro e ele fatiou um punhado de cogumelos num toco de madeira para o jantar e os colocou na frigideira junto com a carne de porco gorda de uma lata de feijões e colocou-os sobre o carvão para ferver. O menino o observava. Este é um bom lugar, Papai, ele disse.

Continuar: parte 2 de 7