A Estrada

Cormac McCarthy · Capítulo 1 de 1 · parte 5/7

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A Estrada

A Estrada

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 7 partes.

Não tenho nada, ele disse. Vocês podem olhar se quiserem.

Não somos ladrões.

Ele inclinou uma orelha para a frente. O quê? exclamou.

Eu disse que não somos ladrões.

O que são vocês?

Eles não tinham como responder à pergunta. Ele enxugou o nariz com as costas do punho e ficou esperando. Não tinha sapatos e seus pés estavam envolvidos por trapos e papelão amarrados com cordão verde e um número indefinido de camadas de panos vagabundos aparecia por entre os rasgões e buracos que havia ali. De repente ele pareceu definhar ainda mais. Inclinou-se em sua bengala e se abaixou até a estrada onde se sentou em meio às cinzas com uma das mãos sobre a cabeça. Parecia uma pilha de trapos caída de um carrinho. Eles se aproximaram e ficaram parados olhando para ele. Senhor? o homem disse. Senhor?

O menino se agachou e pôs uma das mãos em seu ombro. Ele está com medo, Papai. O

homem está com medo.

Ele olhou para um lado e para o outro da estrada. Se isto for uma emboscada ele vai primeiro, falou.

Ele só está com medo, Papai.

Diga a ele que não vamos machucá-lo.

O homem sacudiu a cabeça de um lado para o outro, os dedos entrelaçados no cabelo imundo. O menino levantou os olhos para o pai.

Talvez ele ache que nós não somos reais.

O que ele acha que nós somos?

Não sei.

Não podemos ficar aqui. Temos que ir.

Ele está com medo, Papai.

Não acho que você devesse tocá-lo.

Talvez a gente pudesse dar alguma coisa para ele comer.

Ele ficou olhando para a estrada. Droga, sussurrou. Abaixou os olhos para o velho. Talvez ele fosse se transformar num deus e eles em árvores. Está bem, ele disse.

Desamarrou a lona, dobrou-a e tez uma busca minuciosa por entre as latas de comida e tirou uma lata de coquetel de frutas e pegou o abridor do bolso e abriu a lata e dobrou a tampa e caminhou até lá e se agachou e entregou-a ao menino.

Que tal uma colher?

Ele não vai receber uma colher.

O menino pegou a lata e a entregou ao velho. Tome, ele sussurrou. Aqui.

O velho levantou os olhos e olhou para o menino. O menino fez um gesto para ele com a lata.

Parecia alguém tentando alimentar um urubu enfraquecido na estrada. Está tudo bem, ele disse.

O velho abaixou a mão da cabeça. Piscou os olhos. Olhos de um azul acinzentado enterrados

nos vincos magros e sujos de fuligem de seu rosto.

Tome, o menino disse.

Ele esticou seus dedos esqueléticos e pegou-a e segurou-a junto ao peito.

Coma, o menino disse. E bom. Fez com as mãos gestos inclinando-as. O velho olhou para a lata. Agarrou-a com força renovada e levantou-a, o nariz enrugando. Suas unhas compridas e amarelas raspavam no metal. Então ele a inclinou e bebeu. O suco escorreu por sua barba imunda.

Ele abaixou a lata, mastigando com dificuldade. Sacudiu a cabeça ao engolir. Olhe, Papai, o menino sussurrou.

Estou vendo, o homem disse.

O menino se virou e olhou para ele.

Sei qual é a pergunta, o homem disse. A resposta é não.

Qual é a pergunta?

Se podemos ficar com ele. Não podemos.

Eu sei.

Você sabe.

É.

Está bem.

Podemos dar mais alguma coisa para ele?

Vamos ver como ele se sai com isto.

Observaram-no comer. Quando ele terminou ficou sentado segurando a lata vazia e olhando para ela como se talvez aparecesse mais.

O que você quer dar para ele?

O que você acha que ele devia comer?

Não acho que ele devia comer nada. O que você quer dar para ele?

Podíamos cozinhar alguma coisa no fogão. Ele podia comer com a gente.

Você está falando em parar. Para a noite.

É.

Ele abaixou os olhos para o velho e olhou para a estrada. Tudo bem, ele disse. Mas amanhã seguimos em frente.

O menino não respondeu.

Isso é o melhor que você vai conseguir.

Tudo bem.

Tudo bem significa tudo bem. Não significa que vamos negociar outra vez amanhã.

O que é negociar?

Significa conversar mais a respeito e aparecer com um outro acordo. Não há nenhum outro acordo. Isso é tudo.

Está bem.

Está bem.

Ajudou o velho a ficar de pé e entregou-lhe a bengala. Ele não chegava a pesar 45 quilos.

Ficou olhando ao redor de modo inseguro. O homem pegou a lata das mãos dele e jogou na floresta.

O velho tentou entregar-lhe a bengala mas ele a empurrou. Quando você comeu pela última vez? ele perguntou.

Não sei.

Você não se lembra.

Acabei de comer.

Quer comer conosco?

Não sei.

Não sabe?

Comer o quê?

Talvez um ensopado de carne. Com biscoitos salgados. E café.

O que eu tenho que fazer?

Dizer-nos para onde foi o mundo.

O quê?

Você não tem que fazer nada. Consegue andar direito?

Consigo andar.

Ele abaixou os olhos para o menino. Você é um menino? ele disse.

O menino olhou para o pai.

O que ele parece ser? o pai dele disse.

Não sei. Não enxergo bem.

Consegue me enxergar?

Consigo dizer que tem alguém aí.

Bom. Precisamos ir andando. Ele abaixou os olhos para o menino. Não segure a mão dele, disse.

Ele não enxerga.

Não segure a mão dele. Vamos.

Para onde vamos? o velho disse.

Vamos comer.

Ele fez que sim e estendeu a bengala e tateou com hesitação a estrada.

Quantos anos você tem?

Noventa.

Não tem não.

Está bem.

E isso o que você diz às pessoas?

Que pessoas?

Qualquer pessoa.

Acho que sim.

Para que não te machuquem?

Sim.

Funciona?

Não.

O que tem na sua mochila?

Nada. Você pode olhar.

Sei que posso olhar. O que tem aí?

Nada. Só umas coisas.

Nada para comer.

Não.

Qual é o seu nome?

Ely.

Ely de quê?

O que há de errado om Ely?

Nada. Vamos.

Acamparam na floresta bem mais perto da estrada do que ele teria gostado. Teve que arrastar o carrinho enquanto o menino conduzia por trás e fizeram uma fogueira para que o velho se aquecesse embora ele também não gostasse muito disso. Comeram e o velho ficou sentado embrulhado em sua colcha solitária e segurava a colher como uma criança. Só tinham duas xícaras e ele bebeu seu café na tigela onde tinha comido, os polegares recurvados sobre a borda. Sentado como um buda faminto e surrado, olhando fixamente para os carvões.

Você não pode ir conosco, você sabe, o homem disse.

Ele fez que sim.

Há quanto tempo você está na estrada?

Sempre estive na estrada. Você não pode ficar num lugar só.

Como você vive?

Eu apenas sigo em frente. Eu sabia que isto ia acontecer.

Sabia que isto ia acontecer?

Sim. Isto ou algo do tipo. Sempre acreditei nisso.

Tentou se preparar para isto?

Não. O que você faria?

Não sei.

As pessoas estavam sempre se preparando para o amanhã. Eu não acreditava nisso. O

amanhã não estava se preparando para elas. Nem sabia que elas estavam ali.

Acho que não.

Mesmo que você soubesse o que fazer não saberia o que fazer. Você não saberia se queria fazer ou não. Suponha que você fosse o último? Suponha que você fizesse isso a você mesmo?

Você gostaria de morrer?

Não. Mas talvez eu gostasse de ter morrido. Quando você está vivo sempre tem isso à sua frente.

Ou você talvez gostasse de nunca ter nascido.

Bem. Mendigos não podem escolher.

Você acha que isso seria pedir demais.

O que está feito está feito. De todo modo, é uma bobagem pedir luxos em tempos como estes.

Acho que sim.

Ninguém quer estar aqui e ninguém quer ir embora. Ele levantou a cabeça e olhou para o menino do outro lado da fogueira. O homem podia ver seus olhinhos observando-o à luz da fogueira.

Sabe Deus o que aqueles olhos viam. Ele se levantou para empilhar mais madeira na fogueira e puxou os carvões de cima das folhas mortas. As centelhas vermelhas levantaram-se num estremecimento e morreram no negrume lá em cima. O velho bebeu o que restava do café e colocou a tigela à sua frente e se inclinou na direção do calor com as mãos estendidas. O homem o observava.

Como você saberia se fosse o último homem na terra? ele disse.

Acho que você não saberia. Simplesmente seria.

Ninguém saberia.

Não faria diferença alguma. Quando você morre é como se o resto do mundo morresse também.

Acho que Deus saberia. E isso?

Deus não existe.

Não?

Deus não existe e nós somos seus profetas.

Não entendo como você ainda está vivo. Como você come?

Não sei.

Não sabe?

As pessoas te dão coisas.

As pessoas te dão coisas.

Sim.

Para comer.

Para comer. Sim.

Não dão não.

Você deu.

Não dei não. O menino deu.

Há outras pessoas na estrada. Vocês não são os únicos.

Você é o único?

O velho olhou de perto cautelosamente. O que você quer dizer? ele disse.

Tem gente com você?

Que gente?

Qualquer um.

Não tem ninguém. Sobre o que você está falando? Estou falando sobre você. Sobre em que tipo de trabalho você poderia estar.

O velho não respondeu.

Imagino que você queira ir conosco.

Ir com vocês.

Sim.

Você não vai me levar com vocês.

Você não quer ir.

Eu não teria nem vindo até aqui mas estava com fome.

As pessoas que te deram comida. Onde eles estão? Não tem ninguém. Eu simplesmente inventei isso. O que mais você inventou?

Só estou na estrada assim como vocês. Nenhuma diferença.

Seu nome é mesmo Ely?

Não.

Você não quer dizer seu nome.

Não quero dizer.

Por quê?

Não poderia confiá-lo a você. Para fazer alguma coisa com ele. Não quero ninguém falando de mim. Dizendo onde é que eu estava ou o que eu disse quando estava lá. Quero dizer, você talvez pudesse falar de mim. Mas ninguém poderia dizer que era eu. Eu poderia ser qualquer pessoa. Acho que em tempos como estes quanto menos se disser melhor. Se alguma coisa tivesse acontecido e nós fôssemos sobreviventes e nos encontrássemos na estrada então teríamos algo sobre o que falar. Mas não somos. Então não temos.

Talvez não.

Mas você não quer dizer isso na frente do menino.

Você não é uma isca servindo a um bando de ladrões da estrada?

Eu não sou nada. Posso ir embora se você quiser. Consigo encontrar a estrada.

Você não precisa ir embora.

Eu não vejo uma fogueira há muito tempo, isso é tudo. Vivo como um animal. Você não ia querer saber as coisas que comi. Quando vi esse menino pensei que tinha morrido.

Pensou que ele era um anjo?

Eu não sabia o que ele era. Nunca achei que fosse voltar a ver uma criança. Não sabia que isso ia acontecer.

E se eu disser que ele é um deus?

O velho sacudiu a cabeça. Já deixei tudo isso para trás. Faz anos. Onde os homens não podem viver deuses também não se sentem bem. Você vai ver. É melhor ficar sozinho. Então espero que não seja verdade o que você disse pois estar na estrada com o último deus seria uma coisa terrível então espero que não seja verdade. As coisas vão melhorar quando todos tiverem morrido.

Vão?

Claro que vão.

Melhorar para quem?

Todo mundo.

Todo mundo.

Claro. Todos nós estaremos melhor. Vamos respirar com mais facilidade.

E bom saber disso.

E sim. Quando todos tivermos morrido pelo menos não haverá ninguém aqui além da morte e seus dias estarão contados também. Ela vai estar aqui na estrada sem nada para fazer e sem ninguém a quem fazer. Ela vai dizer: Para onde foi todo mundo? E é assim que vai ser. O que há de errado com isso?

Pela manhã estavam parados na estrada e ele e o menino discutiam sobre o que dar ao velho.

No fim ele não recebeu muita coisa. Algumas latas de vegetais e frutas. Por fim o menino simplesmente foi até a beira da estrada e se sentou nas cinzas. O velho arrumou as latas na mochila e amarrou as tiras. Você devia agradecer a ele, sabe, o homem disse. Eu não teria dado nada a você.

Talvez eu devesse e talvez não devesse.

Por que não?

Eu não teria dado a ele do meu.

Você não se preocupa se isso pode magoá-lo?

Vai magoá-lo?

Não. Não foi por esse motivo que ele fez isso.

Por que ele fez?

Ele olhou para o menino lá adiante e olhou para o velho. Você não entenderia, ele disse. Não tenho certeza de que eu entenda.

Talvez ele acredite em Deus.

Não sei no que ele acredita.

Ele vai superar.

Não vai não.

O velho não respondeu. Olhou para o dia ao seu redor.

Você também não vai nos desejar boa sorte, vai?

Não sei o que seria isso. Que sorte vocês gostariam de ter. Quem poderia saber uma coisa dessas?

Então todos seguiram em frente. Quando ele olhou para trás o velho tinha partido com a bengala, tateando seu caminho, diminuindo lentamente na estrada atrás deles como algum mascate de

um livro de histórias de outrora, escuro e curvado e magro como uma aranha e prestes a desaparecer para sempre. O menino não chegou a olhar para trás.

No começo da tarde eles estenderam a lona na estrada e se sentaram e comeram um almoço frio. O homem o observava. Você vai falar? ele disse.

Vou.

Mas você não está feliz.

Estou bem.

Quando nossa comida acabar você vai ter mais tempo para pensar sobre isso.

O menino não respondeu. Comeram. Ele olhou para a estrada atrás deles. Depois de algum tempo disse: Eu sei. Mas não vou me lembrar disso como você se lembra.

Provavelmente não.

Eu não disse que você estava errado.

Mesmo que tenha pensado isso.

Está tudo bem.

E, o homem disse. Bem. Não há muitas boas novidades na estrada. Em tempos como estes.

Você não devia debochar dele.

Está bem.

Ele vai morrer.

Eu sei.

A gente pode ir agora?

Sim, o homem disse. Podemos ir.

À noite ele acordou na fria escuridão tossindo e tossiu até o peito ficar em carne viva.

Inclinou-se na direção da fogueira e soprou os carvões e colocou mais madeira e se levantou e se afastou do acampamento até onde a luz lhe permitia. Ajoelhou-se nas folhas secas e nas cinzas com o cobertor por cima dos ombros e depois de algum tempo a tosse começou a passar. Pensou no velho em algum lugar lá fora. Olhou novamente para o acampamento através da paliçada negra das árvores.

Esperava que o menino tivesse voltado a dormir. Ficou ajoelhado ali respirando com dificuldade e baixinho, as mãos sobre os joelhos. Vou morrer, ele falou. Diga-me como eu faço isso.

No dia seguinte andaram até quase escurecer. Ele não conseguiu encontrar nenhum lugar seguro para fazer uma fogueira. Quando tirou o tanque do carrinho achou que parecia leve. Sentou-se e girou a válvula, mas já estava ligada. Ele girou o botãozinho da boca. Nada. Inclinou-se e ficou escutando. Tentou as duas válvulas novamente em suas combinações. O tanque estava vazio. Ele se agachou ali com as mãos em punho contra a testa, os olhos fechados. Depois de algum tempo levantou a cabeça e ficou sentado olhando fixamente para a floresta fria que escurecia.

Comeram um jantar frio com broa de milho e feijão e carne de uma lata. O menino lhe perguntou como o tanque havia esvaziado tão cedo mas ele disse que simplesmente havia esvaziado.

Você disse que ia durar semanas.

Eu sei.

Mas só se passaram uns poucos dias.

Eu estava errado.

Comeram em silêncio. Depois de algum tempo o menino disse: Esqueci de desligar a válvula, não foi?

Não é culpa sua. Eu devia ter verificado.

O menino colocou o prato sobre a lona. Desviou o olhar.

Não é culpa sua. Você tem que desligar as duas válvulas. As roscas deveriam estar seladas

com fita isolante senão vazaria e eu não fiz isso. E minha culpa. Eu não te falei.

Mas não havia fita nenhuma, havia?

Não é culpa sua.

Eles seguiram caminhando com dificuldade, magros e imundos como viciados na rua.

Encapuzados em seus cobertores sob o frio e sua respiração fumegando, misturada à neve preta e sedosa. Estavam atravessando a ampla planície costeira onde os ventos seculares os impeliam em nuvens uivantes de cinzas a encontrar abrigo onde pudessem. Casas ou celeiros ou sob a encosta de uma vala de beira de estrada com os cobertores puxados por sobre as cabeças e o céu do meio-dia preto como os porões do inferno. Segurou o menino de encontro a si, frio até os ossos. Não desanime, ele disse. Vamos ficar bem.

A terra era cheia de sulcos e erodida e árida. Os ossos de criaturas mortas estendidos nos brejos. Monturos de lixo anônimo. Casas de fazenda nos campos despidas de sua pintura e os sarrafos arrancados dos caibros das paredes. Tudo sem sombras e sem traços. A estrada descia através de uma selva de puerária morta. Um pântano onde os juncos mortos jaziam sobre a água. Para além da beira dos campos a névoa opaca se estendia igualmente sobre a terra e o céu. No fim da tarde tinha começado a nevar e eles seguiram com a lona sobre as cabeças e a neve molhada sibilando no plástico.

Ele tinha dormido pouco em semanas. Quando acordou pela manhã o menino não estava lá e ele se sentou com o revólver na mão, em seguida se levantou e procurou por ele, mas não estava à vista. Colocou os sapatos e caminhou até a margem das árvores. A aurora triste a leste. O sol estrangeiro iniciando seu trânsito frio. Viu o menino vindo correndo através do campo. Papai, ele chamou. Tem um trem na floresta.

Um trem?

É.

Um trem de verdade?

É. Venha.

Você não foi até lá foi?

Não. Só um pouco. Venha.

Não tem ninguém lá?

Não. Acho que não. Vim te buscar.

Tem uma locomotiva?

Tem. Uma grande, de diesel.

Atravessaram o campo e entraram na floresta do outro lado. Os trilhos saíam do campo numa colina com uma ribanceira e passavam através da floresta. A locomotiva era diesel-elétrica, e havia seis vagões de aço inoxidável para passageiros atrás dela. Ele segurou a mão do menino. Vamos só ficar sentados e observar, ele disse.

Sentaram-se no aterro e esperaram. Nada se movia. Ele entregou o revólver ao menino. Você fica com ele, Papai, o menino disse.

Não. Esse não é o acordo. Pegue.

Ele pegou o revólver e se sentou com ele no colo e o homem desceu pelo lado direito e ficou parado olhando para o trem. Cruzou os trilhos para o outro lado e desceu acompanhando a extensão dos vagões. Quando saiu de trás do último deles acenou para que o menino viesse e o menino se levantou e colocou o revólver no cinto.

Tudo estava coberto de cinzas. Os corredores cheios de lixo. Malas jaziam abertas sobre os assentos em que tinham sido colocadas depois de retiradas dos compartimentos no alto e saqueadas

muito tempo atrás. No vagão-restaurante ele encontrou uma pilha de pratos de papel e soprou a poeira de cima deles, colocou-os dentro da parca e isso foi tudo.

Como ele chegou aqui, Papai?

Não sei. Acho que alguém o estava levando para o sul. Um grupo de pessoas. Aqui foi onde eles provavelmente ficaram sem combustível.

Está aqui faz muito tempo?

Sim. Acho que está. Há muito tempo.

Passaram pelo último dos vagões e então caminharam pelo trilho até a locomotiva e subiram à passarela. Ferrugem e pintura descascando. Abriram à força a porta da cabine e ele soprou as cinzas do assento do maquinista e colocou o menino nos controles. Os controles eram bastante simples. Pouca coisa a fazer além de mover para a frente a alavanca do acelerador. Ele fez ruídos de trem e ruídos de buzinas de motor a diesel mas não tinha certeza do que isso poderia significar para o menino. Depois de algum tempo ficaram simplesmente olhando através do vidro sujo de lodo para onde os trilhos faziam uma curva e desapareciam na desolação do mato. Se viam mundos diferentes, o que sabiam era a mesma coisa. Que o trem ficaria ali se decompondo devagar durante toda a eternidade e que nenhum trem voltaria a andar algum dia.

Podemos ir, Papai?

Sim. Claro que podemos.

Começaram a se deparar de tempos em tempos com pequenas pilhas de pedras junto à beira da estrada. Eram sinais na linguagem dos ciganos, configurações perdidas que usavam para comunicação. Eram as primeiras que via fazia algum tempo, comuns no norte, levando para fora das cidades pilhadas e exaustas mensagens desesperançadas para pessoas amadas desaparecidas e mortas. A essa altura todas as vendas de comida tinham se esgotado e os assassinatos estavam em toda parte sobre a terra. O mundo prestes a ser povoado por homens capazes de comer seus filhos diante dos seus olhos e as cidades em si tomadas por bandos de saqueadores enegrecidos que abriam túneis em meio às ruínas e se arrastavam subindo em meio ao entulho com dentes e olhos brancos trazendo latas de comida carbonizadas e anônimas em redes de náilon como compradores nos armazéns do inferno. O talco macio e negro era soprado pelas ruas como tinta de polvo se espalhando pelo fundo do mar e o frio se aproximava e a escuridão chegava cedo e os comedores de lixo passando pelos desfiladeiros íngremes com suas tochas abriam com seus passos buracos sedosos nas cinzas carregadas pelo vento que se fechavam atrás deles silenciosos como olhos. Lá fora nas estradas os peregrinos desfaleciam e caíam e morriam e a terra árida e amortalhada passava rodando sob o sol e regressava outra vez sem deixar rastros e sem ser notada, como o caminho de qualquer outro mundo gêmeo na antiga escuridão longínqua.

Muito antes que alcançassem a costa seus víveres tinham praticamente acabado. A região tinha sido despojada e pilhada anos antes e não encontraram nada nas casas e prédios à beira da estrada. Ele encontrou uma lista telefônica num posto de gasolina e escreveu o nome da cidade no mapa com um lápis. Sentaram-se na curva em frente à construção e comeram biscoitos e procuraram pela cidade mas não conseguiam encontrá-la. Ele separou as partes do mapa e olhou outra vez. Por fim mostrou ao menino. Estavam a uns oitenta quilômetros a oeste de onde ele teria imaginado.

Desenhou varetas no mapa. Estes somos nós, ele disse. O menino traçou a rota até o mar com o dedo.

Quanto tempo vai levar pra gente chegar lá? ele disse.

Duas semanas. Três.

É azul?

O mar? Não sei. Costumava ser.

O menino fez que sim. Ficou sentado olhando para o mapa. O homem o observava. Pensou que sabia o que era. Ele estudava cuidadosamente os mapas quando criança, mantendo o dedo sobre a cidade em que morava. Assim como procurava pela família na lista telefônica. Eles próprios entre outras pessoas, tudo em seu lugar. Venha, ele disse. Temos que ir.

No fim da tarde começou a chover. Deixaram a estrada e seguiram por um caminho de terra através de um campo e passaram a noite num depósito. O depósito tinha piso de concreto e na outra extremidade havia alguns tambores de aço vazios. Ele bloqueou as portas com os tambores, fez uma fogueira no chão e montou camas com algumas caixas de papelão achatadas. A chuva martelou a noite toda no teto de aço acima deles. Quando ele acordou a fogueira tinha apagado e estava muito frio. O menino estava sentado embrulhado no cobertor.

O que é?

Nada. Eu tive um sonho ruim.

Com o que você sonhou?

Nada.

Você está bem?

Não.

Ele passou os braços ao seu redor e o abraçou. Está tudo bem, falou.

Eu estava chorando. Mas você não acordou.

Sinto muito. É que eu estava tão cansado.

Eu quis dizer no sonho.

Pela manhã quando ele acordou a chuva tinha passado. Ficou escutando o vagaroso gotejar da água. Deslocou os quadris sobre o concreto duro e olhou através das tábuas para a região cinzenta lá fora. O menino ainda estava dormindo. A água pingava e formava poças no chão. Bolhinhas apareciam e deslizavam e desapareciam outra vez. Numa cidade ao pé da montanha eles tinham dormido num lugar como aquele e escutado a chuva. Havia uma drogaria antiquada com um balcão de mármore preto e bancos de cromo com assentos de plástico esfarrapado remendado com fita isolante. A farmácia tinha sido saqueada mas o resto da loja estava estranhamente intacto.

Equipamentos eletrônicos caros repousavam intocados nas prateleiras. Ele ficou parado olhando para o lugar ao redor. Miudezas. Aviamentos. O que é isto? Pegou a mão do menino e o levou para fora mas o menino já tinha visto. Uma cabeça humana debaixo de uma tampa de bolo na ponta do balcão. Ressecada. Usando um boné de beisebol. Olhos secos voltados tristemente para dentro. Ele sonhou com isso? Não sonhou. Levantou-se, se pôs de joelhos e soprou nos carvões e arrastou as extremidades queimadas da tábua e reavivou a fogueira.

Existem outros caras do bem. Você disse isso.

Sim.

Então onde eles estão?

Estão escondidos.

De quem?

Uns dos outros.

Existem muitos deles?

Nós não sabemos.

Mas alguns.

Alguns. Sim.

Isso é verdade?

Sim. E verdade.

Mas poderia não ser verdade.

Acho que é verdade.

Está bem.

Você não acredita em mim.

Acredito em você.

Está bem.

Sempre acredito em você.

Eu acho que não.

Acredito sim. Tenho que acreditar.

Eles caminharam de volta à estrada através da lama. Cheiro de terra e cinza molhada sob a chuva. Agua preta no fosso da beira da estrada. Caindo de um cano de esgoto dentro de um poço.

Num quintal um cervo de plástico. Tarde no dia seguinte entraram numa cidadezinha onde três homens saíram de trás de um caminhão e pararam na estrada diante deles. Emaciados, vestindo trapos. Segurando pedaços de cano. O que vocês têm no carrinho? Ele apontou o revólver para eles.

Eles continuavam parados. O menino se agarrou ao seu casaco. Ninguém falava. Ele empurrou o carrinho para a frente outra vez e eles se afastaram até a beira da estrada. Ele mandou o menino empurrar o carrinho e caminhou de costas mantendo o revólver apontado para eles. Tentava parecer um matador migratório como qualquer outro mas seu coração estava aos pulos e sabia que ia começar a tossir. Eles voltaram devagar para a estrada e ficaram observando. Ele colocou o revólver no cinto e virou e pegou o carrinho. No alto da ladeira quando olhou para trás eles ainda estavam de pé ali. Ele disse ao menino para empurrar o carrinho e saiu para um quintal onde podia enxergar a estrada lá atrás mas agora eles tinham desaparecido. O menino estava muito assustado.

Colocou a arma por cima da lona, pegou o carrinho e seguiram em frente.

Ficaram num campo até escurecer observando a estrada mas ninguém veio. Estava muito frio.

Quando estava escuro demais para enxergar, pegaram o carrinho, voltaram aos tropeços para a estrada e ele pegou os cobertores, se embrulharam neles e seguiram em frente. Tateando o pavimento sob seus pés. Uma das rodas do carrinho tinha adquirido um guincho periódico mas não havia nada a fazer a respeito. Passaram por um esforço enorme durante algumas horas e então atravessaram aos tropeços o mato da beira da estrada e se deitaram tremendo e exaustos no chão frio e dormiram até de manhã. Quando ele acordou estava doente.

Estava com febre e ficaram na floresta como fugitivos. Nenhum lugar onde fazer uma fogueira. Nenhum lugar seguro. O menino ficava sentado nas folhas observando-o. As lágrimas transbordando de seus olhos. Você vai morrer, Papai?

Não. Só estou doente.

Estou com muito medo.

Eu sei. Está tudo bem. Vou melhorar. Você vai ver.

Seus sonhos se tornavam mais nítidos. O mundo desaparecido retornava. Parentes mortos havia muito ressurgiam e lançavam olhares oblíquos sobre ele. Ninguém falava. Pensou em sua vida.

Tanto tempo atrás. Um dia cinzento numa cidade estrangeira onde ele ficava de pé diante de uma janela e observava a rua lá embaixo. Atrás dele numa mesa de madeira um pequeno abajur aceso.

Sobre a mesa livros e papéis. Tinha começado a chover e um gato num canto se virou e atravessou a calçada e se sentou debaixo do café bocejando. Havia uma mulher numa mesa com a cabeça nas mãos. Anos mais tarde ele se encontraria de pé nas ruínas carbonizadas de uma biblioteca onde livros enegrecidos jaziam em poças d’água. Estantes derrubadas. Alguma ira voltada às mentiras arrumadas aos milhares fileira após fileira. Pegou um dos livros e folheou as páginas pesadas e

inchadas. Ele não teria pensado no valor das menores coisas estabelecido num mundo por vir.

Surpreendeu-o. Que o espaço que essas coisas ocupavam era em si uma expectativa. Deixou o livro cair e deu uma última olhada ao redor e saiu abrindo caminho até a luz fria e cinzenta.

Três dias. Quatro. Ele dormia pouco. A tosse torturante o acordava. Sugando o ar com um som áspero. Me desculpe, ele dizia para a escuridão impiedosa. Está tudo bem dizia o menino.

Acendeu o pequeno lampião a óleo e deixou-o sobre uma pedra e se levantou e caminhou arrastando os pés por entre as folhas envolvido em seus cobertores. O menino sussurrou-lhe para que não fosse. Só um pouquinho, ele disse. Não vou longe. Vou te ouvir se você chamar. Se o lampião apagasse ele não conseguiria encontrar o caminho de volta. Sentou-se sobre as folhas no alto do morro e olhou para a escuridão. Nada para ver. Nenhum vento. No passado, quando caminhava assim e se sentava olhando para o campo ali adiante num vulto quase invisível onde a lua perdida trilhava a desolação cáustica, às vezes via uma luz. Fraca e indistinta na penumbra. Do outro lado de um rio ou no interior dos quadrantes enegrecidos de uma cidade queimada. Pela manhã às vezes ele regressava com o binóculo e observava os campos em busca de algum sinal de fumaça mas não via nenhum.

De pé na beira de um campo de inverno em meio a homens brutos. Da idade do menino. Um pouco mais velho. Observando enquanto eles abriam o chão rochoso da encosta com picareta e enxadão e traziam para a luz um grande bolo de serpentes somando talvez uma centena. Reunidas ali para se aquecerem umas às outras. Seus tubos foscos começando a se mover preguiçosamente sob a luz fria e dura. Como os intestinos de alguma grande besta expostos ao dia. Os homens derramaram gasolina nelas e as queimaram vivas, não tendo qualquer remédio para o mal mas apenas para a imagem dele tal como o concebiam. As serpentes queimando se contorciam horrivelmente e algumas rastejavam em chamas pelo chão da gruta iluminando seus recessos mais escuros. Como eram mudas não havia gritos de dor e os homens as observaram queimar e se contorcer e enegrecer, eles próprios no mesmo silêncio, e debandaram em silêncio no crepúsculo do inverno cada um com seus próprios pensamentos e foram para casa jantar.

Certa noite o menino acordou de um sonho e não queria dizer a ele o que era.

Você não tem que me dizer, o homem falou. Está tudo bem.

Estou com medo.

Está tudo bem.

Não está não.

E só um sonho.

Estou com muito medo.

Eu sei.

O menino virou de costas. O homem o abraçou. Escute, ele disse.

O quê.

Quando seus sonhos forem de algum mundo que nunca existiu ou de algum mundo que nunca vai existir e você ficar feliz de novo então você terá desistido. Está entendendo? E você não pode desistir. Eu não vou deixar.

Quando partiram novamente ele estava muito fraco e, apesar de todos os seus discursos, estava com mais medo do que estivera durante anos. Imundo com uma diarréia, apoiado na trave com que empurrava o carrinho de compras. Olhava para o menino do fundo de seus olhos afundados e pálidos. Alguma nova distância entre eles. Podia senti-la. No intervalo de dois dias eles chegaram a uma região onde tempestades de fogo tinham passado deixando quilômetros e quilômetros de terra queimada. Uma cobertura de cinzas sobre a estrada com centímetros de espessura e sobre a qual era

difícil de passar com o carrinho. O asfalto por baixo tinha se curvado com o calor e depois endurecido novamente. Ele se inclinava sobre a barra para empurrar o carrinho e olhava para o caminho reto e comprido abaixo dele. As árvores magras lá embaixo. Os canais de um limo cinzento.

Uma terra coberta de palha e enegrecida.

Depois de um cruzamento na desolação eles começaram a se deparar com os pertences de viajantes abandonados na estrada anos antes. Caixas e bolsas. Tudo derretido e preto. Velhas maletas de plástico onduladas e disformes no calor. Aqui e ali marcas de coisas arrancadas do asfalto por pessoas atrás de restos. Mais um quilômetro e pouco adiante, começaram a se deparar com os mortos. Vultos meio afundados no asfalto, agarrando-se, as bocas gritando. Ele pôs a mão no ombro do menino. Segure a minha mão, falou. Não acho que você deveria ver isto.

O que você coloca na sua cabeça é para sempre? Sim.

Está tudo bem Papai.

Está tudo bem?

Eles já estão aqui.

Não quero que você olhe.

Eles ainda vão estar aqui.

Ele parou e se inclinou sobre o carrinho. Olhou para a estrada abaixo dele e olhou para o menino. Tão estranhamente imperturbado.

Por que simplesmente não vamos em frente, o menino disse.

Sim. Está bem.

Eles estavam tentando fugir não estavam Papai?

Sim. Estavam.

Por que não saíram da estrada?

Não podiam. Tudo estava em chamas.

Seguiram caminho por entre os vultos mumificados. A pele preta esticada sobre seus ossos e seus rostos rachados e afundados no crânio. Como se tivessem sido sugados de maneira hedionda.

Passando por eles em silêncio através daquele silencioso corredor em meio às cinzas carregadas pelo vento enquanto eles lutavam para sempre no coágulo frio da estrada.

Passaram pelo local de um pequeno povoado de beira de estrada reduzido a nada pelo fogo.

Alguns tanques de metal de depósito, uns poucos canos de chaminé de tijolos enegrecidos ainda de pé. Havia poças cinzentas de vidro derretido nos fossos e os fios de eletricidade desencapados jaziam em meadas enferrujadas por quilômetros ao longo da beira da estrada. Ele tossia a cada passo. Viu que o menino o observava. Ele era aquilo em que o menino pensava. Bem, deveria ser.

Sentaram-se na estrada e comeram sobras de fatias de pão duro como biscoito e sua última lata de atum. Ele abriu uma lata de ameixas secas e passaram-na entre eles. O menino segurou a lata no alto e bebeu o resto do caldo e depois se sentou com a lata no colo e passou o dedo indicador em seu interior e colocou o dedo na boca.

Não corte o dedo, o homem disse.

Você sempre diz isso.

Eu sei.

Ele o observou lamber a tampa da lata. Com grande cuidado. Feito um gato lambendo seu reflexo num vidro. Pare de me olhar, ele disse.

Está bem.

Ele abaixou a tampa da lata e colocou-a na estrada diante dele. O quê? ele disse. O que foi?

ele disse. O que foi?

Nada.

Diga.

Acho que tem alguém seguindo a gente.

Foi o que eu pensei.

Foi o que você pensou?

É. Foi o que eu pensei que você ia dizer. O que você quer fazer?

Não sei.

O que você acha?

Vamos embora, só isso. A gente devia esconder nosso lixo.

Porque eles vão achar que a gente tem um monte de comida.

É.

E vão tentar matar a gente.

Eles não vão matar a gente.

Talvez eles tentassem.

Nós estamos bem.

Está bem.

Acho que a gente devia ficar no mato esperando por eles. Ver quem eles são.

E quantos.

E quantos. Sim.

Está bem.

Se conseguirmos atravessar o riacho podíamos subir os penhascos ali e vigiar a estrada.

Está bem.

Vamos encontrar um lugar.

Eles se levantaram e empilharam seus cobertores no carrinho. Pegue a lata, o homem disse.

Já era tarde no longo crepúsculo antes que a estrada cruzasse o riacho. Atravessam a ponte com o carrinho e o empurraram pela floresta em busca de algum lugar para deixá-lo onde ele não fosse ser visto. Ficaram parados olhando para a estrada lá atrás na penumbra.

E se a gente colocar ele debaixo da ponte? o menino disse.

E se eles forem ali para beber água?

A que distância você acha que eles estão da gente?

Não sei.

Está ficando escuro.

Eu sei.

E se eles passarem no escuro?

Vamos só encontrar um lugar onde a gente possa vigiar. Ainda não está escuro.

Esconderam o carrinho e subiram a encosta em meio às pedras carregando seus cobertores e se esconderam num lugar de onde pudessem ver a estrada através das árvores por talvez oitocentos metros. Estavam protegidos do vento e se embrulharam nos cobertores e se revezaram na vigia mas depois de um tempo o menino tinha adormecido. Ele próprio estava quase dormindo quando viu um vulto aparecer no alto da estrada e ficar parado ali. Logo mais dois apareceram. E um quarto. Eles ficaram parados e se agruparam. Então avançaram. Ele só conseguia divisá-los na penumbra intensa.

Achou que talvez parassem logo e desejou ter encontrado um lugar mais distante da estrada. Se eles parassem na ponte seria uma noite longa e fria. Vieram pela estrada e atravessaram a ponte. Três homens e uma mulher. A mulher andava com um ritmo gingado e quando ela se aproximou ele pôde ver que estava grávida. Os homens carregavam mochilas nas costas e a mulher levava uma pequena valise de tecido. Todos eles com aparências miseráveis para além de qualquer descrição. A respiração produzindo um vapor discreto. Atravessaram a ponte e continuaram seguindo pela estrada e desapareceram um por um na escuridão imóvel.

Foi uma longa noite de todo modo. Quando havia luz suficiente para ver ele calçou os sapatos e se levantou e se envolveu num dos cobertores e caminhou e ficou parado olhando para a estrada lá embaixo. A floresta nua cor de ferro e os campos adiante. Os vultos enrugados de velhos sulcos feitos por arado ainda fracamente visíveis. Algodão talvez. O menino estava dormindo e ele desceu até o carrinho e pegou o mapa e a garrafa d’água e uma lata de frutas de suas pequenas reservas e voltou e se sentou nos cobertores e estudou o mapa.

Você sempre acha que a gente avançou mais do que avançou de fato.

Ele moveu o dedo. Aqui então.

Mais.

Aqui.

Está bem.

Ele dobrou as folhas moles e apodrecendo. Está bem, ele disse.

Ficaram sentados olhando através das árvores para a estrada.

Você acha que seus pais estão observando? Que eles te inscrevem em seu livro-razão?

Contra o quê? Não há livro algum e seus pais estão mortos no chão.

A região passava de pinheiro para carvalho e pinheiro. Magnólias. Arvores mortas como qualquer outra. Ele pegou uma das pesadas folhas e esmagou-a na mão até transformá-la em pó e deixou o pó escapar por entre os dedos.

Na estrada cedo no dia seguinte. Não tinham avançado muito quando o menino puxou sua manga e eles pararam e ficaram ali de pé. Um traço suave de fumaça saía da floresta adiante.

Ficaram observando.

O que a gente devia fazer, Papai?

Talvez a gente devesse dar uma olhada.

Vamos só seguir em frente.

E se eles estiverem indo na mesma direção que nós? E daí? o menino disse.

Vamos ter que ficar com eles atrás da gente. Eu gostaria de saber quem são.

E se for um exército?

É só uma fogueirinha.

Por que a gente não fica só esperando?

Não podemos esperar. Estamos quase sem comida. Temos que continuar indo em frente.

Deixaram o carrinho na floresta e ele verificou a rotação das balas no tambor. As de madeira e a real. Ficaram parados escutando. A fumaça subia verticalmente no ar parado. Nenhum som de espécie alguma. As folhas estavam macias com a chuva recente e não fazia barulho sob os pés. Ele se virou e olhou para o menino. O rosto pequeno e sujo com o medo estampado. Eles circundaram a fogueira mantendo distância, o menino segurando sua mão. Ele se agachou e colocou o braço ao redor dele e ficaram escutando por um longo tempo. Acho que foram embora, ele sussurrou.

O quê?

Acho que eles foram embora. Provavelmente tinham alguém de vigia.

Podia ser uma armadilha, Papai.

Está bem. Vamos esperar um pouco.

Esperaram. Podiam ver a fumaça através da árvores. Um vento tinha começado a açoitar o topo da espiral e a fumaça se deslocou e eles puderam sentir seu cheiro. Puderam sentir o cheiro de alguma coisa cozinhando. Vamos circundar, o homem disse.

Posso segurar sua mão?

Sim. Claro que pode.

A floresta era só troncos queimados. Não havia nada para ver. Acho que viram a gente, o homem disse. Acho que eles viram a gente e fugiram. Viram que tínhamos uma arma.

Eles deixaram a comida cozinhando.

É.

Vamos dar uma olhada.

Isso dá muito medo, Papai.

Não tem ninguém aqui. Está tudo bem.

Foram até a pequena clareira, o menino agarrado à sua mão. Tinham levado tudo consigo exceto aquela coisa preta que estava assando num espeto sobre os carvões. Ele estava ali em pé checando o perímetro quando o menino se virou e enterrou o rosto nele. Ele olhou rapidamente para ver o que tinha acontecido. O que foi? ele disse. O que foi? O menino sacudia a cabeça. Oh Papai, ele disse. Ele se virou e olhou novamente. O que o menino tinha visto era um bebê humano carbonizado sem a cabeça e estripado e escurecendo no espeto. Ele se curvou e pegou o menino e se dirigiu à estrada com ele, abraçando-o com força. Sinto muito, ele disse. Sinto muito.

Não sabia se ele voltaria a falar algum dia. Acamparam num rio e ele se sentou junto à fogueira ouvindo a água correr na escuridão. Não era um lugar seguro porque o barulho do rio mascarava todos os outros mas ele achou que ia alegrar o menino. Comeram o resto das provisões e ele se sentou estudando o mapa. Mediu a estrada com um pedaço de corda e olhou para ela e mediu outra vez. Ainda muito longe da costa. Não sabia o que iam encontrar quando chegassem lá. Ele juntou as partes do mapa, colocou-as de volta no saco plástico e ficou observando os carvões.

No dia seguinte atravessaram o rio numa ponte de ferro e chegaram a uma velha cidade industrial.

Entraram nas casas de madeira mas não encontraram nada.Um homem estava sentado numa porta usando um macacão e morto fazia anos.Parecia um homem de palha colocado ali para anunciar alguma festividade. Então seguiram ao longo do muro comprido e escuro do moinho, as janelas cobertas com tijolos. A fuligem fina e preta se precipitava na rua diante deles.

Coisas estranhas espalhadas pela beira da estrada. Dispositivos elétricos, móveis.

Ferramentas. Coisas abandonadas muito tempo antes por peregrinos a caminho de suas várias e coletivas mortes. Um ano antes o menino às vezes podia pegar alguma coisa e levar consigo durante algum tempo mas já não fazia mais isso. Sentaram-se e descansaram e beberam o que restava de água limpa e deixaram a jarra de plástico na estrada. O menino disse: Se tivéssemos aquele bebezinho ele poderia vir conosco.

Sim. Poderia.

Onde eles o encontraram?

Ele não respondeu.

Será que tem outro em algum lugar?

Não sei. E possível.

Sinto muito sobre o que eu disse a respeito daquelas pessoas.

Que pessoas?

Aquelas pessoas que se queimaram. Que ficaram presas na estrada e se queimaram.

Não sabia que você tinha dito alguma coisa de

ruim.

Não foi ruim. Podemos ir agora?

Tudo bem. Você quer ir dentro do carrinho?

Está tudo bem.

Por que você não vai um pouco?

Não quero. Está tudo bem.

Água correndo devagar na região plana. Os lodaçais na beira da estrada imóveis e cinzentos.

Os rios das planícies costeiras em serpentinas de chumbo atravessando a fazenda árida. Seguiram em frente. Adiante na estrada havia um declive e uma moita de bambu. Acho que há uma ponte ali.

Provavelmente um riacho.

Podemos beber a água?

Não temos escolha.

Não vai deixar a gente doente.

Acho que não. Poderia estar seco.

Posso ir em frente?

Sim. Claro que pode.

O menino partiu pela estrada. Ele não o via correr fazia muito tempo. Cotovelos para fora, batendo os braços e em seus tênis grandes demais. Parou e ficou olhando, mordendo o lábio.

O riacho não passava de um pouco d’água brotando. Ele podia vê-lo se movendo levemente onde caía numa pedra de calçamento de concreto sob a estrada e cuspiu no riacho e observou-o para ver se ia se mover. Pegou um pano no carrinho e um jarro de plástico e voltou e envolveu a boca do jarro com o pano e afundou-o na água e observou-o se encher. Ergueu-o gotejando e segurou-o sob a luz. Não parecia tão ruim. Tirou o pano e entregou o jarro ao menino. Vá em frente, ele disse.

O menino bebeu e entregou-o de volta.

Beba mais um pouco.

Bebe um pouco você, Papai.

Está bem.

Eles ficaram sentados filtrando as cinzas da água e bebendo até não poderem mais. O menino deitou de costas na grama.

Temos que ir.

Estou muito cansado.

Eu sei.

Ele ficou sentado observando-o. Fazia dois dias que não comiam. Mais dois e começariam a ficar fracos. Subiu a encosta através do bambual para checar a estrada. Escura e negra e sem rastros onde atravessava o campo aberto. Os ventos tinham varrido as cinzas e o pó da superfície. Terras ricas outrora. Nenhum sinal de vida em parte alguma. Não era uma região que ele conhecesse. Os

nomes das cidades ou dos rios. Venha, ele disse. Temos que ir.

Dormiam mais e mais. Mais de uma vez acordaram estendidos na estrada como vítimas do tráfego. O sono da morte. Ele se sentou tateando em busca do revólver. No entardecer de chumbo, ficou parado em pé apoiando os cotovelos na trave para empurrar o carrinho e olhando através dos campos para uma casa a talvez um quilômetro e meio de distância. Tinha sido o menino quem a enxergara, leriam que fazer algum esforço para chegar lá. Pegar os cobertores. Esconder o carrinho em algum lugar ao longo da estrada. Podiam alcançá-la antes de escurecer, mas não conseguiriam voltar.

Temos que ir dar uma olhada. Não temos escolha.

Eu não quero.

Faz dias que não comemos.

Não estou com fome.

Não, você está faminto.

Não quero ir até lá Papai.

Não tem ninguém lá. Eu prometo.

Como você sabe?

Eu simplesmente sei.

Eles poderiam estar lá.

Não estão não. Vai ficar tudo bem.

Partiram através dos campos embrulhados nos cobertores, levando apenas o revólver e uma garrafa d’água. O campo havia passado por uma última colheita e havia os ramos nus fincados no chão e o traço tênue do disco ainda estava visível de leste a oeste. Tinha chovido recentemente e a terra estava macia sob os pés e ele mantinha os olhos fixos no chão e antes que se passasse muito tempo ele parou e pegou uma ponta de flecha. Cuspiu nela e limpou a sujeira na costura de suas calças e deu-a ao menino. Era quartzo branco, perfeito como no dia em que tinha sido feito. Há mais, ele disse. Fique olhando o chão, você vai ver. Ele encontrou mais duas. Pederneira cinza. Depois encontrou uma moeda. Ou um botão. Uma grossa camada de verdete. Ele a raspou com a unha do polegar. Era uma moeda. Tirou sua faca e a desbastou com cuidado. A inscrição era em espanhol.

Começou a chamar o menino até onde ele tinha ido e então olhou ao redor para a paisagem cinzenta e o céu cinzento e largou a moeda e se apressou para alcançá-lo.

Ficaram em frente à casa olhando para ela. Havia uma entrada de cascalho que fazia uma curva para o sul. Uma arcada aberta de tijolos. Escadaria dupla que levava à varanda com colunas.

Nos fundos da casa uma dependência de tijolos que poderia outrora ter sido uma cozinha. Depois dela um casebre de madeira. Ele começou a subir a escada mas o menino puxou sua manga.

Podemos esperar um pouco?

Está bem. Mas está ficando escuro.

Eu sei.

Está bem.

Eles se sentaram na escada e olharam para a região ao redor.

Não tem ninguém aqui, o homem disse.

Está bem.

Você ainda está com medo?

Estou.

Está tudo bem conosco.

Está bem.

Subiram a escada até a ampla varanda com piso de tijolos. A porta estava pintada de preto e tinha sido arrombada com um bloco de concreto. Folhas secas e mato soprados através dela. O

menino se agarrou à sua mão. Por que a porta está aberta, Papai?

Porque sim. Provavelmente está aberta há anos. Talvez as últimas pessoas tenham deixado ela aberta para levar suas coisas para fora.

Continuar: parte 6 de 7