A Estrada

Cormac McCarthy · Capítulo 1 de 1 · parte 6/7

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A Estrada

A Estrada

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 7 partes.

Talvez a gente devesse esperar até amanhã.

Venha. Vamos dar uma olhada rápida. Antes que fique escuro demais. Se nós tivermos certeza de que é seguro, talvez possamos acender uma fogueira.

Mas não vamos ficar na casa vamos?

Não temos que ficar na casa.

Está bem.

Vamos beber um pouco d’água.

Está bem.

Ele pegou a garrafa do bolso lateral de sua parca, desatarraxou a tampa e observou o menino beber. Então ele próprio bebeu um gole e entraram no vestíbulo escurecido. Teto alto. Um candelabro importado. No pé da escada havia uma alta janela em arco e sua sombra mais suave projetando-se na parede junto à escada com a última luz do dia.

Não temos que ir lá para cima, temos? o menino sussurrou.

Não. Talvez amanhã.

Depois que a gente garantir que a área é segura. Sim.

Está bem.

Entraram na sala de estar. O vulto de um carpete por baixo das cinzas que se depositaram.

Mobília coberta com lençóis. Quadrados pálidos nas paredes onde antes quadros tinham estado. No salão do outro lado do vestíbulo havia um piano de cauda. Os vultos deles seccionados no vidro fino e molhado da janela que havia ali. Eles entraram e ficaram escutando. Vagaram pelos quartos como compradores céticos. Ficaram parados olhando pelas janelas altas para a terra que escurecia lá fora.

Na cozinha havia instrumentos cortantes e panelas e porcelana inglesa. A copa de um mordomo onde a porta se fechava suavemente atrás deles. Chão de azulejos e filas de prateleiras e nas prateleiras dezenas de jarros de um litro. Atravessou o cômodo e pegou um deles e soprou a poeira de cima. Feijões verdes. Fatias de pimentão vermelho em meio às fileiras organizadas.

Tomates. Milho. Batatas para conserva. Quiabo. O menino o observava. O homem limpou a poeira das tampas dos jarros e empurrou-as com o polegar. Escurecia rapidamente. Ele levou dois jarros até a janela e as levantou e virou. Olhou para o menino. Isto pode ser veneno, ele disse. Teremos que cozinhar tudo muito bem. Está certo?

Não sei.

O que você quer fazer?

Você tem que dizer.

Nós dois temos que dizer.

Você acha que eles estão bons?

Acho que se a gente cozinhar muito bem eles ficarão bons.

Está bem. Por que você acha que ninguém comeu isso?

Acho que ninguém encontrou. Não dá para ver a casa da estrada.

A gente viu.

Você viu.

O menino estudou os jarros.

O que você acha? o homem disse.

Acho que a gente não tem escolha.

Acho que você está certo. Vamos pegar um pouco de madeira antes que escureça mais ainda.

Carregaram braçadas de ramos mortos pelos degraus dos fundos através da cozinha e para a sala de jantar e os quebraram no sentido do comprimento e encheram a lareira. Ele acendeu o fogo e a fumaça subiu em espirais pelo lintel de madeira pintada até o teto e desceu em espirais outra vez.

Ele abanou o lume com uma revista e logo a chaminé começou a puxar e o fogo rugiu no salão iluminando as paredes e o teto e o candelabro de vidro e suas miríades de facetas. As chamas iluminaram o vidro cada vez mais escuro da janela onde o menino estava de pé numa silhueta encapuzada como um ser sobrenatural que tivesse entrado durante a noite. Ele parecia atordoado com o calor. O homem tirou os lençóis de cima da comprida mesa império no centro da sala e sacudiu-os e fez uma cama com eles em frente à lareira. Sentou o menino ali e tirou seus sapatos e tirou os trapos sujos com os quais seus pés estavam envolvidos. Está tudo bem, ele sussurrou. Está tudo bem.

Encontrou velas numa gaveta da cozinha e acendeu duas delas e depois derreteu a cera sobre o balcão e fixou-as na cera. Saiu e trouxe mais madeira e empilhou-a junto à lareira. O menino não tinha se mexido. Havia caldeirões e panelas na cozinha e ele limpou uma e colocou-a sobre o balcão e depois tentou abrir um dos jarros mas não conseguiu. Levou um jarro de feijões verdes e um de batatas para a porta da frente e sob a luz de uma vela em cima de um copo ele se ajoelhou e colocou o primeiro jarro de lado no espaço entre a porta e o umbral e puxou a porta sobre ele. Então se agachou no chão do vestíbulo e enganchou o pé na beirada de fora da porta e puxou a porta de encontro à tampa e girou o jarro em suas mãos. A tampa serrilhada se virou na madeira raspando a pintura. Ele tentou segurar melhor o vidro e puxou a porta até estreitá-la mais e tentou de novo. A tampa deslizou na madeira, depois prendeu. Ele virou o jarro devagar nas mãos, depois tirou-o do umbral e tirou o anel da tampa e colocou-o no chão. Então abriu o segundo jarro e levou-os de volta à cozinha, segurando o copo na outra mão com a vela rolando lá dentro e crepitando. Tentou empurrar com o polegar as tampas para tirá-las mas estavam apertadas demais. Ele achou que era um bom sinal. Colocou a beira da tampa no balcão e golpeou o alto do jarro com o punho e a tampa saiu com um estalo e caiu no chão e ele levantou o jarro e cheirou-o. O cheiro era delicioso. Ele despejou as batatas e os feijões numa panela e levou a panela até a sala de jantar e colocou-a no fogo.

Eles comeram devagar em tigelas de porcelana, sentados em lados opostos da mesa com uma única vela acesa entre eles. O revólver à mão como um outro apetrecho do jantar. A casa estalava e gemia ao calor. Como alguma coisa sendo despertada de uma longa hibernação. O menino cochilou sobre a tigela e sua colher caiu no chão. O homem se levantou e deu a volta e o carregou até a lareira e o colocou nos lençóis e o cobriu com os cobertores. Devia ter ido de volta para a mesa porque acordou no meio da noite deitado ali com o rosto sobre os braços cruzados. Estava frio na sala e lá fora o vento soprava. As janelas chacoalhavam de leve na moldura. A vela tinha apagado e o fogo estava reduzido a carvões. Ele se levantou e reacendeu a lareira e se sentou ao lado do menino e puxou os cobertores por cima dele e puxou com a mão seu cabelo imundo para trás. Acho que talvez eles estejam observando, falou. Observando em busca de uma coisa que nem a morte pode desfazer e se eles não a virem vão virar as costas para nós e não vão voltar.

O menino não queria que ele fosse ao andar de cima. Tentou raciocinar com ele. Podia haver cobertores lá em cima, falou. Precisamos dar uma olhada.

Não quero que você vá lá em cima.

Não tem ninguém aqui.

Poderia ter.

Não tem ninguém aqui. Você não acha que a esta altura eles teriam descido?

Talvez eles estejam com medo.

Vou dizer a eles que a gente não vai machucá-los.

Talvez eles estejam mortos.

Então não vão se incomodar se a gente levar algumas coisas. Olhe, o que quer que haja lá em cima é melhor a gente saber do que se trata do que não saber.

Por quê?

Por quê? Bem, porque nós não gostamos de surpresas. Surpresas dão medo. E nós não gostamos de ficar com medo. E poderia haver coisas lá em cima de que precisamos. Temos que dar uma olhada.

Está bem.

Está bem? Só isso?

Bem. Você não vai me ouvir.

Eu tenho te ouvido.

Não com muita atenção.

Não tem ninguém aqui. Faz anos que não tem ninguém aqui. Não há rastros nas cinzas. Nada está mexido. Nenhuma mobília queimada na lareira. Tem comida aqui.

Os rastros não ficam nas cinzas. Você mesmo disse. O vento sopra para longe.

Eu vou subir.

Ficaram na casa durante quatro dias comendo e dormindo. Ele tinha encontrado mais quatro cobertores no andar de cima e trouxeram pilhas grandes de madeira e as colocaram no canto da sala para secar. Ele encontrou uma antiga serra de lenha e arame que usou para serrar os ramos mortos.

Os dentes estavam enferrujados e cegos e ele se sentou em frente do fogo com uma lima e tentou afiá-los mas não adiantou muito. Havia um riacho a uns cem metros da casa e ele transportou incontáveis baldes d’água pelos campos espetados e pela lama e esquentaram água e se lavaram numa banheira junto ao quarto dos fundos no andar de baixo e ele cortou os cabelos dos dois e fez a barba. Tinham roupas e cobertores e travesseiros dos quartos do andar de cima e colocaram as novas vestimentas, as calças do menino cortadas no comprimento com sua faca. Ele improvisou uma cama em frente à lareira, emborcando uma cômoda para usá-la como cabeceira para a cama e manter o calor. Durante todo o tempo continuou a chover. Ele pôs baldes debaixo das calhas nos cantos da casa para recolher água limpa do velho telhado de zinco e à noite podia ouvir a chuva martelando nos quartos de cima e gotejando pela casa.

Fizeram uma busca minuciosa pelos anexos procurando qualquer coisa que fosse útil.

Encontrou um carrinho de mão e o apanhou e virou de cabeça para baixo e girou a roda devagar, examinando o pneu. A borracha estava vitrificada e rachada mas achou que talvez retivesse o ar e ele olhou em meio a caixas velhas e uma confusão de ferramentas e encontrou uma bomba de bicicleta e atarraxou a ponta da mangueira na haste de válvula do pneu e começou a bombear. Desatarraxou a mangueira e virou o carrinho do lado certo e deslizou-o sobre o chão para um lado e para o outro.

Depois o levou para fora para que a chuva o lavasse. Quando saíram dois dias depois o tempo havia limpado e partiram empurrando o carrinho com seus novos cobertores e os jarros de comida em conserva envolvidos nas roupas extras. Ele tinha encontrado um par de sapatos de operário e o menino estava usando tênis azuis com trapos enfiados nos dedos e usavam lençóis limpos como máscaras no rosto. Quando chegaram ao asfalto tiveram que voltar pela estrada para pegar o carrinho mas ele estava a pouco mais de um quilômetro. O menino caminhava ao lado com uma das mãos no carrinho de mão. A gente agiu bem, não agiu Papai? ele disse. Agiu sim.

Comeram bem mas ainda estavam a uma boa distância da costa. Ele sabia que estava alimentando esperanças sem nenhum motivo. Esperava que tudo fosse ficar mais claro, mas sabia que o mundo se tornava mais escuro a cada dia. Uma vez tinha encontrado um fotômetro numa loja de equipamento fotográfico que pensou poder usar para tirar médias de luminosidade durante alguns meses

e levou-o consigo durante um bom tempo achando que pudesse encontrar baterias para ele mas nunca encontrou. À noite, quando acordava tossindo, se sentava com a mão comprimindo a cabeça contra a escuridão. Como um homem acordando num túmulo. Como aqueles mortos desenterrados da sua infância que tinham sido transferidos para dar lugar a uma estrada. Muitos tinham morrido numa epidemia de cólera e tinham sido enterrados às pressas em caixas de madeira e as caixas estavam apodrecendo e se desmanchando até abrir. Os mortos vieram à luz deitados de lado com as pernas para cima e alguns deitados de barriga. As moedas antigas de um verde fosco caíam das órbitas de seus olhos sobre o fundo manchado e apodrecido dos caixões.

Estavam parados num armazém numa cidadezinha onde uma cabeça de cervo empalhada pendia da parede. O menino ficou olhando para ela durante um bom tempo. Havia vidro quebrado no chão e o homem fez com que ele esperasse na porta enquanto tateava com os pés em meio ao lixo com seus sapatos de operário mas não encontrou nada. Havia duas bombas de gasolina lá fora e eles se sentaram no anteparo de concreto e abaixaram uma pequena lata de metal presa por uma corda até o tanque subterrâneo e a ergueram e despejaram a gasolina que havia nela num jarro de plástico e baixaram-na de novo. Tinham amarrado um pequeno pedaço de cano à lata para afundá-la e se agachavam junto ao tanque como macacos pescando com varas num formigueiro durante quase uma hora inteira até o jarro estar cheio. Então atarraxaram a tampa e colocaram o jarro na parte de baixo do carrinho e seguiram em frente.

Dias longos. Terreno aberto com as cinzas soprando sobre a estrada. O menino se sentava junto à fogueira à noite com os pedaços do mapa sobre os joelhos. Sabia os nomes das cidades e dos rios de cor e avaliava diariamente o progresso deles.

Comiam mais moderadamente. Já não lhes restava mais quase nada. O menino estava de pé na estrada segurando o mapa. Escutavam atentamente mas não ouviam nada. Ainda assim ele podia ver a região aberta a leste e o ar estava diferente. Chegaram até ali depois de uma curva na estrada e pararam e ficaram ali com o vento salgado soprando em seu cabelo onde tinham abaixado os capuzes dos casacos para escutar. Lá adiante estava a praia cinzenta com as ondas vagarosas rolando surdas e pesadas e seu som distante. Como a desolação de algum mar estrangeiro quebrando na costa de um mundo inaudito. Nos baixios formados pela maré lá adiante estava um petroleiro meio adernado.

Para além dele o oceano vasto e frio e se movendo pesadamente como um tonel lentamente transbordante de escória e então a linha borrada e escura das cinzas. Ele olhou para o menino. Podia ver o desapontamento em seu rosto. Eu sinto muito que não seja azul, ele disse. Está tudo bem, o menino disse.

Uma hora depois estavam sentados na praia e olhando fixamente para a parede de nevoeiro e fumaça no horizonte. Estavam sentados com os calcanhares afundados na areia e observavam o mar deserto quebrar em seus pés. Frio. Desolado. Sem pássaros. Ele tinha deixado o carrinho em meio às samambaias para além das dunas e haviam levado cobertores consigo e se sentaram embrulhados neles no abrigo de uma grande tora de madeira trazida pelo mar. Ficaram sentados ali por um bom tempo. Ao longo da costa da enseada abaixo deles fileiras de ossinhos em meio aos destroços. Mais adiante as costelas embranquecidas pelo sal do que talvez tivesse sido gado. Geada de sal cinzento sobre as pedras. O vento soprava e sementes secas se precipitavam ao longo da areia e paravam e

seguiam outra vez.

Você acha que poderia ter navios lá?

Acho que não.

Eles não conseguiriam enxergar muito longe. Não. Não conseguiriam.

O que tem do outro lado?

Nada.

Deve ter alguma coisa.

Talvez tenha um pai e seu filho e eles estejam sentados na praia.

Isso seria bom.

Sim. Isso seria bom.

E eles levariam fogo também?

E possível. Sim.

Mas nós não sabemos.

Nós não sabemos.

Então temos que estar vigilantes.

Temos que estar vigilantes. Sim.

Por quanto tempo podemos ficar aqui?

Não sei. Não temos muita coisa para comer.

Eu sei.

Você gosta.

Gosto.

Eu também.

Posso ir nadar?

Nadar?

É.

Você vai congelar o rabo.

Eu sei.

Vai estar frio de verdade. Mais do que você pensa. Tudo bem.

Não quero ter que entrar para te trazer.

Você acha que eu não devia ir.

Você pode ir.

Mas você acha que eu não devia.

Não. Acho que você devia.

Mesmo?

Sim. Mesmo.

Está bem.

Ele se levantou e deixou o cobertor cair na areia e depois tirou o casaco, os sapatos e as roupas. Ficou nu, de pé, agarrando o próprio corpo e dançando. Então foi correndo até a praia. Tão pálido. Espinha saliente. As omoplatas afiadas serrando a pele clara. Correndo nu e pulando e gritando no rolo vagaroso da arrebentação.

Quando saiu estava azul de frio e batia os dentes. Ele caminhou até encontrá-lo e o envolveu tremendo no cobertor e o abraçou até ele parar de arquejar. Mas quando olhou o menino estava chorando. O que foi? ele disse. Nada. Não, me diga. Nada. Não foi nada.

Quando escureceu fizeram uma fogueira junto à tora de madeira e comeram pratos de quiabo e feijão e o resto das batatas enlatadas. As frutas já tinham acabado fazia muito. Beberam chá e

ficaram sentados junto à fogueira e dormiram na areia e ficaram escutando a arrebentação na enseada. Seu longo estremecimento e queda.

Ele se levantou à noite e caminhou e ficou parado na praia envolvido pelos cobertores.

Escuro demais para ver. Gosto de sal nos lábios. Esperando. Esperando. Depois o estrondo vagaroso caindo na direção da costa. Seu assobio fervilhante lavando a praia e correndo de volta.

Ele pensou que ainda poderia haver navios da morte lá longe, vagando a esmo com seus indolentes trapos de velas. Ou vida nas profundezas. Grandes polvos propelindo-se sobre o solo marinho na escuridão fria. Movendo-se como trens, os olhos do tamanho de pires. E talvez para além daquelas ondas encobertas um outro homem caminhasse mesmo com uma outra criança na areia cinzenta e morta. Dormindo afastados apenas por um mar em outra praia em meio às cinzas amargas do mundo ou estivessem de pé com seus trapos perdidos para o mesmo sol indiferente.

Ele se lembrava de ter acordado uma vez numa noite semelhante e ouvido o ruído de caranguejos na panela onde havia deixado ossos de carne da noite anterior. Carvões quase extintos da fogueira feita com pedaços de madeira pulsando sob o vento costeiro. Deitado sob uma miríade semelhante de estrelas. O horizonte negro do mar. Ele se levantou, caminhou, parou descalço na areia e ficou observando a espuma pálida aparecer ao longo de toda a costa e rolar e arrebentar e ficar escura outra vez. Quando voltou para junto da fogueira, se ajoelhou e alisou o cabelo dela enquanto ela dormia e disse que se fosse Deus teria feito o mundo exatamente daquele jeito sem nenhuma diferença.

Quando voltou o menino estava acordado e sentia medo. Estivera chamando mas não alto o suficiente para que ele pudesse ouvi-lo. O homem colocou os braços ao seu redor. Não consegui te ouvir, ele disse. Não consegui te ouvir por causa das ondas. Pôs madeira no fogo e o abanou até reavivá-lo e ficaram deitados em seus cobertores observando as chamas serpenteando no vento e depois dormiram.

Pela manhã ele reacendeu a fogueira, comeram e ficaram observando a costa. Seu aspecto frio e chuvoso não muito diferente das paisagens marinhas no mundo ao norte. Não havia gaivotas ou pássaros costeiros. Artefatos carbonizados e inúteis espalhados pela costa ou rolando na arrebentação. Eles juntaram madeira deixada pelo mar e a empilharam e cobriram com a lona e depois partiram pela praia. Somos vagabundos de praia, ele disse.

O que é isso?

Pessoas que andam pela praia procurando coisas de valor que podem ter sido levadas pelas ondas.

Que tipo de coisas?

Todo tipo de coisas. Tudo o que você possa usar.

Você acha que a gente vai encontrar alguma coisa?

Não sei. Vamos dar uma olhada.

Dar uma olhada, o menino disse.

Estavam parados no quebra-mar de pedra e olhavam para o sul. Uma cusparada cinzenta de sal estendendo-se e se enroscando no poço de rochas. A curva comprida da praia lá adiante.

Cinzenta como areia vulcânica. O vento soprando da água cheirava levemente a iodo. Isso era tudo.

Não havia cheiro de mar nele. Nas rochas os restantes de algum musgo marinho escuro.

Atravessaram e seguiram em frente. No final da praia seu caminho estava barrado por um promontório e eles deixaram a praia e tomaram um caminho antigo através das dunas e através dos arbustos mortos até chegarem a um promontório baixo. Abaixo deles um pedaço de terra amortalhado no vento úmido escuro soprando encosta abaixo e para além dele meio inclinado e afundado o vulto

do casco de um barco a vela. Eles se agacharam nos tufos secos de capim e ficaram observando. O

que a gente faz? o menino disse.

Vamos só ficar olhando por um tempo.

Estou com frio.

Eu sei. Vamos um pouco mais para baixo. Sair do vento.

Ele ficou sentado abraçando o menino à sua frente. O capim se sacudia de leve. Lá fora uma desolação cinzenta. O arrastar-se infinito do mar.

Por quanto tempo a gente vai ter que ficar aqui? o menino disse.

Não muito.

Você acha que tem gente no barco, Papai?

Não acho.

Eles estariam todos inclinados.

Estariam sim. Você consegue ver algum rastro por lá?

Não.

Vamos só esperar um pouco.

Estou com frio.

Foram caminhando pela curva crescente da praia, mantendo-se sobre a terra mais firme abaixo da faixa de destroços trazidos pela maré. Pararam, suas roupas se agitando suavemente.

Pedaços de vidro flutuando cobertos com uma crosta cinzenta. Os ossos de pássaros marinhos. Na linha da arrebentação uma esteira tecida com algas e espinhas de peixe aos milhões se estendendo pela costa até onde os olhos podiam ver como uma sequência de ondulações da morte. Um vasto sepulcro de sal. Disparatado. Disparatado.

Do fim da língua de terra até o barco havia talvez trinta metros de mar aberto. Ficaram parados olhando para o barco. Cerca de sessenta pés de comprimento, sem nada no convés, emborcado em três ou quatro metros d’água. Tinha sido aigum tipo de veleiro de mastro duplo mas os mastros estavam quebrados quase rente ao convés e as únicas coisas que restavam eram alguns cunhos de bronze e uns poucos postes do guarda-mancebo nas extremidades do convés. Isso e a roda de leme projetando-se do cockpit. Ele se virou e estudou a praia e as dunas para além dela. Depois entregou ao menino o revólver, se sentou na areia e começou a desamarrar os cadarços do sapato.

O que você vai fazer, Papai?

Dar uma olhada.

Posso ir com você?

Não. Você tem que ficar aqui.

Quero ir com você.

Você tem que ficar de vigia. E além disso a água é funda.

Eu vou poder te ver?

Sim. Vou ficar monitorando você. Para me certificar de que tudo está bem.

Quero ir com você.

Ele parou. Você não pode, falou. O vento vai levar nossas roupas para longe. Alguém tem que tomar conta das coisas.

Dobrou tudo e formou uma pilha. Deus, como estava frio. Ele se abaixou e beijou o menino na testa. Pare de se preocupar, disse. É só ficar atento.Avançou nu para dentro d’água e parou e se molhou. Então seguiu revolvendo a água e mergulhou de cabeça.Nadou ao longo do casco de metal e fez a volta, abrindo caminho na água, arquejante de frio. A meia-nau os cabos do guarda-mancebo chegavam até a água. Ele se arrastou pelos cabos até a popa. O aço era cinzento e esbranquiçado de

sal, mas ele podia divisar as letras douradas e gastas. Pájaro de Esperanza. Tenerife. Um par vazio de turcos para um bote. Ele se segurou na amurada e tomou impulso para subir no barco e se virou e se agachou tremendo no plano inclinado do convés de madeira. Uns poucos pedaços do estaiamento partidos nos esticadores. Rombos na madeira de onde as ferragens tinham sido arrancadas. Alguma força terrível capaz de varrer tudo do convés. Acenou para o menino mas ele não acenou de volta.

A cabine era baixa com um teto abobadado e vigias na lateral. Ele se agachou e limpou o sal cinzento e olhou lá dentro mas não conseguiu enxergar nada. Tentou a porta baixa de teca mas estava trancada. Deu-lhe um empurrão com seu ombro ossudo. Olhou ao redor em busca de alguma coisa com que pudesse forçá-la. Tremia de modo incontrolável e seus dentes batiam. Pensou em chutar a porta com a planta do pé mas achou que não era uma boa ideia. Segurou o cotovelo com a mão e bateu com força na porta outra vez. Sentiu-a ceder. Muito de leve. Continuou tentando. O umbral estava rachando por dentro e por fim cedeu e ele a abriu com um empurrão e desceu a escada de tombadilho até a cabine. Água estagnada ao longo do anteparo inferior cheia de papéis molhados e lixo. Um cheiro azedo em toda parte. Úmido e desagradável. Ele achou que o barco tinha sido saqueado, mas era o mar que tinha feito aquilo. Havia uma mesa de mogno no meio do salão com anteparos presos com dobradiças. As portas do paiol pendendo abertas no cômodo e todos os detalhes de metal de um verde baço. Vasculhou as cabines de proa. Passou pela cozinha. Farinha e café no chão e comida enlatada meio esmagada e enferrujando. Um banheiro com um vaso sanitário e uma pia de aço inoxidável. A luz fraca do mar entrava pelas vigias clerestório. Equipamento espalhado por toda parte. Um colete salva-vidas flutuando na água.

Ele meio que esperava algum horror mas não havia nenhum. Os colchões nas cabines tinham sido arremessados no chão e a roupa de cama estava empilhada junto à parede. Tudo molhado.

Havia uma porta aberta dando para o paiol na proa mas estava escuro demais para ver lá dentro. Ele enfiou a cabeça, entrou e tateou ao redor. Latões compridos com tampas de madeira e dobradiças.

Equipamentos de navegação empilhados no chão. Ele começou a arrastar tudo para fora e empilhar na cama inclinada. Cobertores, roupas para mau tempo. Descobriu um suéter úmido e o enfiou pela cabeça. Encontrou um par de botas impermeáveis amarelas de borracha e um casaco de náilon e vestiu-o fechando o zíper e colocou as calças rígidas e amarelas das roupas náuticas e passou os suspensórios por cima dos ombros e calçou as botas. Depois voltou ao convés. O menino estava sentado conforme ele o deixara, observando o navio. Ele se levantou alarmado e o homem se deu conta de que em suas novas roupas ele era um vulto incerto. Sou eu, gritou, mas o menino simplesmente ficou parado ali e ele acenou e voltou a descer.

No segundo camarote particular havia gavetas sob o beliche que ainda estavam no lugar e ele as levantou para liberá-las e as puxou. Manuais e papéis em espanhol. Barras de sabão. Uma valise preta de couro coberta de mofo com papéis dentro. Colocou o sabão no bolso do casaco e se pôs de pé. Havia livros em espanhol espalhados sobre o beliche, inchados e disformes. Um único volume enfiado na prateleira contra o anteparo dianteiro.

Encontrou uma bolsa de lona emborrachada e vagueou pelo resto do navio usando as botas, apoiando-se nos anteparos por causa da inclinação, as calças amarelas impermeáveis fazendo ruído no frio. Encheu a bolsa com roupas avulsas. Um par de tênis femininos que achou que fossem caber no menino. Um canivete com cabo de madeira. Um par de óculos de sol. Ainda assim havia algo de perverso em sua busca. Era como vasculhar exaustivamente primeiro os lugares menos prováveis ao procurar algo que havia sido perdido. Por fim entrou na cozinha. Ligou o fogão e desligou-o de novo.

Levantou o trinco da escotilha que dava para o compartimento do motor e abriu-a. Parcialmente alagado e escuro como breu. Não havia cheiro de gasolina ou óleo. Fechou-o outra vez. Havia paióis

construídos sob os bancos da cabine que abrigavam almofadas, lonas de vela, redes de pescar. Num paiol atrás do pedestal do leme ele encontrou rolos de cabos de náilon e garrafas de aço com gasolina e uma caixa de fibra de vidro para ferramentas. Sentou-se no chão da cabine e examinou as ferramentas. Enferrujadas mas aproveitáveis. Alicates, chaves de fenda, chaves inglesas. Fechou a lingueta da caixa de ferramentas e procurou pelo menino. Ele estava encolhido na areia adormecido com a cabeça sobre a pilha de roupas.

Levou a caixa de ferramentas e uma das garrafas de gasolina para a cozinha e foi para a proa fazer uma última revista nas cabines. Então se pôs a verificar os paióis na sala, vasculhando pastas e papéis em caixas de plástico, tentando encontrar o diário de bordo do barco. Encontrou um jogo de porcelana embalada e sem uso num caixote de madeira cheio de peças requintadas. A maioria quebrada. Serviço para oito, levando o nome do barco. Um presente, ele pensou. Ergueu uma xícara de chá e virou-a na palma da mão e a colocou de volta. A última coisa que encontrou foi uma caixa quadrada de carvalho com quinas entalhadas e uma placa de bronze sobre a tampa. Pensou que podia ser um humidor mas tinha o formato errado e, ao apanhá-la e avaliar seu peso, soube o que era.

Deslocou os trincos já meio corroídos e abriu-a. Lá dentro havia um sextante de bronze, talvez com cem anos de idade. Ergueu-o do estojo e o segurou na mão. Encantado com sua beleza. O bronze estava fosco e havia manchas esverdeadas que assumiam a forma de uma outra mão que outrora o segurara, mas fora isso estava perfeito. Limpou a superfície esverdeada da lâmina na base.

Hezzaninth, Londres. Segurou-o junto aos olhos e girou a rosca. Era a primeira coisa que ele via depois de um bom tempo capaz de emocioná-lo. Segurou-o na mão e em seguida o colocou de volta na baeta azul do estojo e fechou a tampa e os trincos e colocou-a de volta no paiol e fechou a porta.

Quando voltou ao convés para procurar o menino o menino não estava lá. Um momento de pânico antes de vê-lo caminhando pelo banco de areia com o revólver pendendo da mão, a cabeça baixa. De pé, ali, ele sentiu o casco do navio se levantar e deslizar. De leve. A maré subindo.

Batendo contra as pedras do quebra-mar lá adiante. Ele se virou e voltou para a cabine.

Ele tinha levado dois rolos de cabo do paiol e mediu seu diâmetro com a palma da mão somando três e depois contou o número de voltas de cada rolo. Quinze metros de corda. Pendurou-as num cunho no convés de teca cinzenta e voltou para a cabine lá embaixo. Recolheu tudo e empilhou junto à mesa. Havia alguns jarros de plástico para água no paiol que ficava junto à cozinha mas estavam todos vazios exceto um. Ele pegou um dos vazios e viu que o plástico tinha rachado e que a água vazara e adivinhou que eles tinham congelado em algum lugar nas viagens sem rumo do barco.

Provavelmente várias vezes. Pegou o jarro cheio até a metade, colocou-o na mesa e desatarraxou a tampa, cheirou a água e depois levantou o jarro com as duas mãos e bebeu. Depois bebeu de novo.

As latas na cozinha não pareciam de modo algum aproveitáveis e mesmo no paiol havia algumas que estavam muito enferrujadas e algumas que tinham um aspecto ameaçadoramente inchado. Todas haviam tido seus rótulos removidos e o conteúdo estava escrito no metal com marcador preto em espanhol. Nem tudo ele entendia. Examinou-as, sacudindo-as, espremendo-as com a mão. Empilhou-as no balcão acima da pequena geladeira da cozinha. Pensou que devia haver caixotes de alimentos guardados em algum lugar no porão mas não achava que qualquer um deles fosse comestível. Em todo caso havia um limite para o que podiam levar no carrinho. Ocorreu-lhe que encarava essa sorte inesperada de um modo perigosamente confiante mas mesmo assim disse o que havia dito antes. Que a sorte pode não ser bem isso. Havia algumas noites em que, deitado na escuridão, ele não invejava os mortos.

Encontrou uma lata de azeite de oliva e algumas latas de leite. Chá numa caixinha de metal enferrujada. Um recipiente de plástico em que havia algum tipo de refeição que ele não reconhecia.

Uma lata de café cheia até a metade. Percorreu metodicamente as prateleiras no paiol, separando o que devia levar do que devia deixar. Quando já tinha levado tudo para a sala e empilhado junto à escada de tombadilho, voltou à cozinha e abriu a caixa de ferramentas e se pôs a remover um dos queimadores do pequeno fogão montado para resistir às oscilações do mar. Desconectou a mangueira trançada e removeu os prendedores de alumínio dos queimadores e colocou um deles no bolso do casaco. Afrouxou os acessórios de metal com um puxão e soltou os queimadores. Depois desconectou-os e prendeu a mangueira ao cano e ajustou a outra ponta da mangueira à garrafa de gasolina e levou-a para a sala. Por último fez uma trouxa com uma lona de plástico onde colocou algumas latas de suco e latas de frutas e vegetais e a amarrou com uma corda e depois tirou as roupas e empilhou-as em meio às coisas que tinha recolhido e foi até o convés nu e escorregou até a amurada com a lona e se lançou pela lateral e caiu no mar cinzento e gelado.

Chegou à areia junto com a última luz do dia e lançou a lona no chão e retirou com as palmas das mãos a água dos braços e do peito e foi pegar as roupas. O menino o seguiu. Ficou lhe perguntando sobre seu ombro, azul e descolorido no lugar onde ele o havia batido contra a escotilha.

Está tudo bem, o homem disse. Não está doendo. Temos um monte de coisa. Espere até ver.

Seguiram às pressas pela praia sob o que restava da luz. E se o barco afundar? o menino disse.

Não vai afundar.

Poderia.

Não vai não. Venha. Você está com fome?

Estou.

Vamos comer bem esta noite. Mas precisamos nos apressar.

Eu estou correndo, Papai.

E pode ser que chova.

Como você pode saber?

Estou sentindo o cheiro.

Qual é o cheiro que tem?

Cinzas molhadas. Vamos.

Então ele parou. Onde está o revólver? ele disse.

O menino congelou. Parecia aterrorizado.

Cristo, o homem disse. Olhou para a praia atrás deles. O barco já estava fora de vista. Ele olhou para o menino. O menino colocou as mãos no alto da cabeça e estava prestes a chorar. Me desculpa, ele disse. Me desculpa.

Ele colocou no chão a lona com a comida enlatada. Temos que voltar.

Me desculpe, Papai.

Está tudo bem. Ela ainda vai estar lá.

O menino ficou parado com os ombros baixos. Estava começando a soluçar. O homem se ajoelhou e passou os braços ao redor dele. Está tudo bem, ele disse. Sou eu quem deveria se certificar de que estamos com o revólver e não fiz isso. Esqueci.

Me desculpe, Papai.

Venha. Estamos bem. Está tudo bem.

O revólver estava ali onde ele o havia deixado na areia. O homem apanhou-o e sacudiu-o e se sentou e puxou o pino do tambor e o entregou ao menino.

Segure isto, ele disse.

Está tudo bem, Papai?

Claro que está tudo bem.

Ele fez o tambor rolar para dentro da sua mão, soprou a areia que havia ali e o entregou ao menino, soprou no cano e soprou a areia que havia na estrutura e depois pegou as partes que estavam com o menino, montou tudo de novo e empunhou o revólver e baixou o cão e empunhou-o de novo.

Alinhou o tambor deixando o cartucho de verdade no lugar e abaixou o cão, colocou o revólver na parca e se pôs de pé. Estamos prontos, ele disse. Vamos.

A escuridão vai alcançar a gente?

Não sei.

Vai, não vai?

Venha. Vamos nos apressar.

A escuridão os alcançou. Quando chegaram ao caminho do promontório estava escuro demais para ver o que quer que fosse. Ficaram parados sob o vento que vinha do mar com o mato assobiando em toda parte ao redor deles, o menino segurando sua mão. Só temos que continuar seguindo em frente, o homem disse. Vamos.

Não consigo enxergar.

Eu sei. É só a gente dar um passo de cada vez.

Está bem.

Não solte.

Está bem.

Não importa o que aconteça.

Não importa o que aconteça.

Seguiram na mais completa escuridão, enxergando tanto quanto os cegos. Ele mantinha uma das mãos estendidas à sua frente embora não houvesse nada naquela charneca salgada com o que pudessem colidir. A arrebentação parecia mais distante mas ele também se orientava pelo vento e depois de cambalear por quase uma hora emergiram do capim e das aveias-do-mar e se viram outra vez parados na areia seca da praia mais acima. O vento estava mais frio. Ele tinha trazido o menino para o seu lado a fim de protegê-lo do vento quando subitamente a praia diante deles apareceu estremecendo na escuridão e sumiu outra vez.

O que foi isso, Papai?

Está tudo bem. Foi um relâmpago. Venha.

Ele passou a lona com os mantimentos por cima do ombro, pegou a mão do menino e seguiram em frente, caminhando pesadamente na areia como cavalos numa parada para evitar pisar em algum pedaço de madeira trazida pelo mar ou destroços de navio. A luz cinza e esquisita irrompeu sobre a praia novamente. Longe dali um ribombo surdo de trovão soou abafado na escuridão. Acho que vi as nossas pegadas, ele disse.

Então estamos indo na direção certa.

Sim. Na direção certa.

Estou com muito frio, Papai.

Eu sei. Reze por um relâmpago. Seguiram em frente. Quando a luz irrompeu sobre a praia outra vez ele viu que o menino estava curvado e murmurava consigo mesmo. Procurava as pegadas deles subindo a praia mas não conseguia vê-las. O vento tinha recomeçado com mais força e ele aguardava os primeiros pingos de chuva. Se fossem apanhados na praia numa tempestade durante a noite teriam problemas. Viraram o rosto contra o vento, segurando os capuzes de suas parcas. A areia crepitando novamente sobre suas pernas e voando para longe na escuridão e o estampido do trovão se ouvindo bem junto à costa. A chuva começou vindo do mar forte e inclinada e golpeou seus

rostos e ele puxou o menino de encontro a si.

Ficaram parados sob o aguaceiro. Quanto tinham avançado? Aguardou o relâmpago, mas estava se afastando e quando o seguinte veio ele soube que a tempestade tinha apagado suas pegadas.

Continuaram caminhando penosamente pela areia na margem superior da praia, esperando ver o vulto da tora de madeira junto à qual tinham acampado. Em pouco tempo os relâmpagos tinham praticamente cessado. Então numa mudança na direção do vento ele ouviu um tamborilar distante e fraco. Parou. Escute, ele disse.

O que é?

Escute.

Não estou ouvindo nada.

Vamos.

O que é, Papai?

É a lona. É a chuva caindo na lona.

Seguiram em frente, tropeçando pela areia e pelo lixo ao longo da linha da arrebentação.

Chegaram à lona quase que imediatamente e ele se ajoelhou e deixou cair o fardo e tateou ao redor em busca das pedras com que prendera o plástico e empurrou-as para baixo dele. Levantou a lona e a puxou por cima deles e depois usou as pedras para manter as pontas abaixadas. Tirou o casaco molhado do menino e puxou os cobertores por cima deles, a chuva golpeando-os através do plástico.

Ele tirou seu próprio casaco e abraçou o menino bem perto de si e logo tinham adormecido.

Durante a noite a chuva cessou e ele acordou e ficou deitado escutando. O aguaceiro pesado e o baque da arrebentação depois que o vento acabou. Na primeira luz opaca ele se levantou e caminhou pela praia. A tempestade tinha sujado a costa e ele caminhou pela linha da arrebentação procurando por qualquer coisa que pudesse ser útil. Nos bancos de areia para além do quebra-mar um cadáver antigo subindo e descendo em meio à madeira flutuante. Ele gostaria de poder escondê-lo do menino mas o menino tinha razão. O que havia para esconder? Quando voltou ele estava acordado sentado na areia observando-o. Estava embrulhado nos cobertores e tinha estendido os casacos deles sobre o mato para secar. Ele foi até lá e se sentou do lado dele e os dois ficaram parados observando o mar de chumbo subir e descer para além das ondas.

Passaram a maior parte da manhã esvaziando o barco. Ele deixou uma fogueira acesa e chapinhava na areia vindo do mar nu e tremendo e deixava cair o cabo de reboque e ficava parado no calor das chamas enquanto o menino trazia a sacola por entre as fofas ondulações do terreno e a arrastava até a praia. Esvaziaram a sacola e estenderam cobertores e roupas sobre a areia morna para secar diante do fogo. Havia mais coisas no barco do que podiam carregar e ele pensou que podiam ficar alguns dias na praia e comer o máximo que pudessem, mas era perigoso. Dormiram aquela noite na areia com a fogueira mantendo o frio afastado e suas coisas espalhadas por toda parte ao redor deles. Ele acordou tossindo e se levantou e bebeu um pouco d’água e arrastou mais madeira para a fogueira, toras inteiras que projetaram uma grande cascata de centelhas. A madeira salgada queimava laranja e azul no coração da fogueira e ele ficou sentado observando durante um bom tempo. Mais tarde caminhou praia acima, sua sombra comprida se projetando na areia diante dele, oscilando com o vento na fogueira. Tossindo. Tossindo. Ele se curvou para a frente, segurando os joelhos. Gosto de sangue. As ondas vagarosas se arrastavam e fervilhavam no escuro e ele pensou em sua vida mas não havia nenhuma vida em que pensar e depois de um tempo caminhou de volta.

Pegou uma lata de pêssegos da mochila, abriu-a e se sentou diante da fogueira e comeu os pêssegos devagar com sua colher enquanto o menino dormia. O fogo cintilava sob o vento e as centelhas se perdiam numa corrida pela areia. Colocou as latas vazias entre os pés. Cada dia é uma mentira,

falou. Mas você está morrendo. Isso não é uma mentira.

Carregaram suas novas provisões empacotadas em lonas ou cobertores pela praia e colocaram tudo no carrinho. O menino tentou carregar coisa demais e quando pararam para descansar ele tinha pego parte do fardo e colocado junto com o seu. O barco tinha se deslocado ligeiramente com a tempestade. Ele ficou parado olhando para lá. O menino o observava. Você vai voltar lá?

Acho que sim. Uma última olhada.

Estou com um pouco de medo.

Está tudo bem. É só ficar de olho.

A gente tem mais coisas do que consegue carregar agora.

Eu sei. Só quero dar uma olhada.

Tudo bem.

Ele percorreu o navio da proa à popa de novo. Pare. Pense. Sentou-se no chão da sala principal com os pés nas botas de borracha apoiados no pedestal da mesa. Já estava escurecendo.

Tentou se lembrar do que sabia acerca de barcos. Levantou-se e foi outra vez para o convés. O

menino estava sentado junto à fogueira. Ele desceu até o cockpit e se sentou no banco, as costas contra o anteparo, os pés no convés qua.se que no nível dos olhos. Não usava nada além do suéter e a roupa náutica por cima, mas esquentavam pouco e ele não conseguia parar de tremer. Estava prestes a se levantar de novo quando se deu conta de que estivera olhando para os ferrolhos do anteparo na outra extremidade da cabine. Havia quatro deles. Aço inoxidável. Em outra época os bancos ficavam cobertos de almofadas e ele ainda podia ver os cordões que as prendiam antes de terem sido arrancadas dali. No centro inferior do cockpit, logo acima do assento, havia uma tira de náilon se projetando, a ponta dobrada e costurada em cruz. Olhou outra vez para as trancas. Eram ferrolhos giratórios com asas para os polegares. Ele se levantou e se ajoelhou no banco e virou cada um deles totalmente para a esquerda. Estavam presos com molas e, quando ele soltou, pegou a tira no fundo da borda, puxou-a e a borda escorregou e se soltou. Ali embaixo do convés havia um espaço que continha duas velas enroladas e o que parecia ser um bote de borracha para duas pessoas enrolado e amarrado com cabos elásticos. Um par de pequenos remos de plástico. Uma caixa de sinalizadores.

E atrás dela havia uma caixa de ferramentas variadas, a tampa selada com fita isolante preta. Ele puxou-a para abri-la e encontrou a ponta da fita isolante e arrancou-a de toda a volta e destravou as fivelas de cromo e abriu a caixa. Dentro havia uma lanterna amarela de plástico, uma luz estroboscópica alimentada por uma pilha, um estojo de primeiros socorros. Um transmissor de localização de plástico amarelo. E um estojo preto mais ou menos do tamanho de um livro. Ele ergueu-o, destravou os ferrolhos e o abriu. Dentro estava acomodada uma velha pistola sinalizadora de bronze de 37 milímetros. Ele tirou-a da caixa com as duas mãos, virou-a e olhou para ela.

Abaixou a alavanca e abriu-a. A culatra estava vazia mas havia oito balas sinalizadoras acomodadas num recipiente de plástico, pequenas e atarracadas e com aspecto de novas. Ele acomodou o revólver outra vez na caixa e fechou a rampa e baixou a tranca.

Ele chapinhou até a praia tremendo e tossindo e se embrulhou num cobertor e se sentou na areia morna em frente à fogueira com as caixas ao seu lado. O menino se agachou e tentou passar os braços ao redor dele, o que pelo menos trouxe um sorriso.

O que você encontrou, Papai? ele disse.

Encontrei um estojo de primeiros socorros. E encontrei uma pistola sinalizadora.

O que é isso?

Vou te mostrar. E usada para sinalizar.

Era isso o que você queria procurar?

Sim.

Como você sabia que estava lá?

Bem, eu esperava que estivesse lá. Foi principalmente sorte.

Ele abriu o estojo e virou-o para o menino ver.

É uma arma.

Uma arma sinalizadora. Atira uma coisa no ar e faz uma luz bem forte.

Posso ver?

Claro que pode.

O menino ergueu a arma do estojo e segurou-a. Você pode atirar em alguém com ela? ele disse.

Poderia.

E mataria a pessoa?

Não. Mas poderia colocar fogo nela.

Foi por isso que você pegou?

Sim.

Porque não tem ninguém pra quem sinalizar. Tem?

Não.

Eu gostaria de ver.

Quer dizer atirar?

É.

Podemos atirar.

De verdade?

Claro.

No escuro?

Sim. No escuro.

Podia ser tipo uma comemoração.

Tipo uma comemoração. Sim.

Podemos atirar hoje à noite?

Por que não?

Está carregada?

Não. Mas podemos carregar.

O menino ficou parado segurando a arma. Apontou-a na direção do mar. Uau, ele disse.

Ele se vestiu e saíram pela praia levando o resto da sua pilhagem. Para onde você acha que as pessoas foram, Papai? As que estavam no barco?

É.

Não sei.

Você acha que elas morreram?

Não sei.

Mas as probabilidades não são favoráveis a elas.

O homem sorriu. As probabilidades não são favoráveis a elas?

Não. São?

Não. Provavelmente não.

Acho que elas morreram.

Talvez tenham morrido.

Acho que foi o que aconteceu com elas.

Poderiam estar vivas em algum lugar, o homem disse. É possível. O menino não respondeu.

Seguiram em frente. Tinham envolvido os pés com pano de vela e os coberto com sapatilhas de plástico azul cortadas de uma lona e deixavam pegadas estranhas em suas idas e vindas. Ele pensou no menino e nas preocupações dele e depois de um tempo disse: Você provavelmente está certo.

Acho provável que estejam mortos.

Porque se eles estivessem vivos estaríamos pegando as coisas deles.

E não estamos pegando as coisas deles.

Eu sei.

Quantas pessoas você acha que estão vivas?

No mundo?

No mundo. Sim.

Não sei. Vamos parar para descansar.

Está bem.

Você está me cansando.

Está bem.

Eles se sentaram em meio às suas trouxas.

Quanto tempo a gente pode ficar aqui, Papai?

Você já me perguntou isso.

Eu sei.

Vamos ver.

Isso quer dizer não muito tempo.

Provavelmente.

O menino abria buracos na areia com os dedos até ter um círculo deles. O homem o observava. Não sei quantas pessoas há, ele disse. Não acho que haja muitas.

Eu sei. Ele puxou o cobertor por cima dos ombros e olhou para a praia cinzenta e árida.

O que foi? o homem disse.

Nada.

Não. Me diga.

Podia haver gente viva em algum outro lugar. Que outro lugar.

Não sei. Qualquer lugar.

Você quer dizer além da terra?

É.

Acho que não. Eles não poderiam viver noutro lugar.

Nem mesmo se pudessem chegar lá?

Não.

O menino desviou os olhos.

O quê? o homem disse.

Ele balançou a cabeça. Não sei o que a gente está fazendo, ele disse.

O homem começou a responder. Mas não respondeu. Depois de um tempo disse: Há pessoas.

Há pessoas e nós vamos encontrá-las. Você vai ver.

Preparou o jantar enquanto o menino brincava na areia. Tinha uma espátula feita com uma lata de comida achatada e com ela construiu uma cidadezinha. Cavou ruelas na areia. O homem foi até lá e se agachou e olhou para ela. O menino levantou os olhos.

O oceano vai levar, não vai? falou.

Sim.

Está tudo bem.

Você consegue escrever o alfabeto?

Consigo.

Não estamos mais nos ocupando das suas aulas.

Eu sei.

Você consegue escrever alguma coisa na areia? Talvez eu pudesse escrever uma carta para os caras do bem. Então se eles passarem vão saber que a gente esteve aqui. Podíamos escrever lá em cima onde o mar não conseguisse apagar.

E se os caras do mal vissem?

Continuar: parte 7 de 7