A Estrada
A Estrada
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 7 partes.
Alimentada com o quê? Guardada para quê? Do outro lado da porta aberta a grama morta fazia um som áspero e seco sob o vento. Ele foi lá para fora e ficou parado olhando através dos campos para a floresta de pinheiros onde o menino dormia. Caminhou através do pomar e entao parou outra vez.
Tinha pisado em alguma coisa. Recuou um passo e se ajoelhou e afastou a grama com as mãos. Era uma maçã. Apanhou-a e segurou-a sob a luz. Dura e marrom e murcha. Limpou-a com o pano e mordeu-a. Seca e quase sem gosto. Mas uma maça. Comeu-a inteira, sementes e tudo. Segurou o cabo entre o polegar e o indicador e deixou-o cair. Então começou a caminhar cuidadosamente pela grama. Seus pés ainda estavam envolvidos pelos restos do casaco e os pedaços da lona e ele se sentou e desamarrou tudo e enfiou os trapos no bolso e percorreu as fileiras de árvores descalço.
Quando chegou ao outro lado do pomar tinha mais quatro maçãs e colocou-as no bolso e voltou.
Caminhou fileira por fileira até ter percorrido um quebra-cabeça na grama. Tinha mais maçãs do que conseguia carregar. Tateou nos espaços ao redor dos troncos e encheu os bolsos e empilhou maçãs no capuz de sua parca atrás da cabeça e carregou maçãs empilhadas junto aos antebraços de encontro ao peito. Despejou-as numa pilha na porta do celeiro e se sentou ali e envolveu com os trapos seu pé entorpecido.
Na entrada da cozinha tinha visto um velho cesto de vime cheio de jarros. Arrastou o cesto para o chão e tirou os potes de dentro e virou o cesto de cabeça para baixo e deu pancadinhas para tirar a poeira. Depois parou. O que tinha visto? Um cano de escoamento. Uma treliça. A serpentina escura de uma parreira morta correndo por ela como a trajetória de alguma empresa num gráfico. Ele se levantou e atravessou de novo a cozinha e saiu para o quintal e ficou parado olhando para a casa.
As janelas refletindo o dia cinzento e sem nome. O cano descia pelo canto da porta. Ele ainda segurava o cesto e colocou-o na grama e subiu os degraus novamente. O cano descia pela coluna lateral e ia dar num tanque de concreto. Ele limpou o lixo e alguns pedaços apodrecidos de tela da tampa. Voltou para a cozinha e pegou a vassoura e saiu e varreu a tampa e colocou a vassoura no canto e levantou a tampa do tanque. Lá dentro havia uma bandeja cheia de um lodo úmido e cinzento do teto misturado com um composto de folhas mortas e galhos. Ele removeu a bandeja e colocou-a no chão. Sob ela havia cascalho branco. Ele afastou o cascalho com a mão. O tanque ali embaixo estava cheio de carvão, pedaços queimados de galhos e ramos inteiros em efígies de carbono das próprias árvores. Ele colocou a bandeja de volta. No chão havia um anel verde de metal para puxar.
Ele estendeu a mão e pegou a vassoura e varreu as cinzas. Havia linhas de serragem nas bordas. Ele limpou as bordas com a vassoura e se ajoelhou e colocou o dedo no anel e levantou a porta do alçapão e abriu-a. Lá embaixo na escuridão havia uma cisterna cheia de água tão doce que ele podia sentir o cheiro. Deitou-se de barriga no chão e esticou o braço. Só conseguia tocar a água. Chegou
mais para a frente e estendeu o braço de novo e pegou um punhado e cheirou e provou e então bebeu.
Ficou deitado ali por um bom tempo, levando a água à boca um punhado de cada vez. Nada em sua memória em parte alguma de algo tão bom.
Voltou à entrada da cozinha e retornou com dois dos potes e uma velha panela esmaltada azul. Limpou a panela e mergulhou-a até enchê-la de água e usou-a para limpar os potes. Então estendeu o braço e afundou um dos jarros até estar cheio e levantou-o gotejante. A água era tão clara.
Segurou-a sob a luz. Um único pedacinho de sedimento serpenteando no jarro em algum vagaroso eixo hidráulico. Inclinou o jarro e bebeu e bebeu devagar mas ainda assim bebeu quase o jarro inteiro. Ficou sentado ali com o estômago inchado. Podia ter bebido mais mas não bebeu. Derramou o restante da água no outro jarro e enxaguou-o e encheu os dois jarros e abaixou a tampa de madeira sobre a cisterna e se levantou com os bolsos cheios de maçãs e levando os jarros d’água seguiu através dos campos na direção da floresta de pinheiros.
Ele tinha ficado afastado por mais tempo do que pretendia e se apressou ao máximo, a água sacudindo e gorgolejando na bolsa murcha do seu estômago. Parou para descansar e recomeçou.
Quando chegou à floresta o menino não parecia ter sequer se mexido e ele se ajoelhou e colocou os jarros cuidadosamente sobre as folhas mortas e pegou o revólver e colocou-o no cinto e ficou sentado ali olhando para ele.
Passaram a tarde sentados embrulhados nos cobertores e comendo maçãs. Bebericando a água dos jarros. Ele pegou o pacote com sabor de uva do bolso e abriu-o e despejou-o no jarro e mexeu e deu para o menino. Você fez bem Papai, ele disse. Dormiu enquanto o menino ficava de guarda e à noite eles pegaram os sapatos e os colocaram e foram até a casa e pegaram o restante das maçãs. Encheram três jarros com água e encontraram algumas tampas que serviram para fechá-las.
Entao ele embrulhou tudo num dos cobertores e guardou na mochila e amarrou os outros cobertores no alto da mochila e colocou-a nos ombros. Ficaram parados na porta observando a luz baixando sobre o mundo a oeste. Então desceram pelo caminho de entrada e foram para a estrada novamente.
O menino se segurava no casaco dele e ele se mantinha na beira da estrada e tentava sentir o pavimento sob seus pés na escuridão. Podia ouvir trovões a distância e depois de algum tempo apareciam pálidos tremores de luz à sua frente. Ele tirou a folha de plástico da mochila mas mal restava o suficiente para cobri-los e depois de um tempo começou a chover. Eles seguiam lado a lado aos tropeços. Não havia lugar algum aonde ir. Usavam os capuzes de seus casacos mas os casacos estavam ficando molhados e pesados com a chuva. Ele parou na estrada e tentou rearrumar a lona. O menino tremia muito.
Você está congelando, não está?
Estou.
Se a gente parar vai ficar com muito frio.
Eu estou com muito frio agora.
O que você quer fazer?
Podemos parar?
Sim. Está bem. Podemos parar.
Foi a noite mais longa de que ele se lembrava em meio a um número bastante grande de noites assim. Ficaram deitados no chão molhado ao lado da estrada sob os cobertores com a chuva martelando a lona e ele abraçado ao menino e depois de algum tempo o menino parou de tremer e depois de algum tempo adormeceu. Os trovões seguiram ribombando para o norte e cessaram e ficou só a chuva. Ele dormiu e acordou e a chuva diminuiu e depois de um tempo parou. Ele se perguntava se seria sequer meia-noite. Estava tossindo e a tosse piorava e acordava a criança. A aurora
demorou muito para chegar. Ele se levantava de tempos em tempos para olhar na direção leste e depois de algum tempo era dia.
Amarrou os casacos cada um por vez em torno do tronco de uma arvorezinha e torceu a água.
Fez o menino tirar a roupa e o embrulhou num dos cobertores e enquanto ele ficava ali de pé tremendo torceu a água das roupas dele e as devolveu. O chão onde tinham dormido estava seco e se sentaram ali com os cobertores em dobras ao redor e comeram maças e beberam água. Então partiram pela estrada outra vez, cabisbaixos e encapuzados e tremendo em seus trapos como frades mendicantes enviados para obter seu sustento.
À noite pelo menos estavam secos. Estudaram os pedaços do mapa mas ele tinha pouca noção de onde estavam. Ficou parado numa elevação da estrada e tentou se orientar no crepúsculo.
Deixaram a estrada principal e seguiram por uma estrada estreita através dos campos e por fim chegaram a uma ponte e a um riacho seco e rastejaram para baixo da encosta e se aninharam lá embaixo.
Podemos acender uma fogueira? o menino disse.
Não temos isqueiro.
O menino afastou os olhos.
Sinto muito. Deixei cair. Não queria te dizer.
Está tudo bem.
Vou encontrar uma pederneira para a gente. Andei procurando. E ainda temos aquela garrafinha de gasolina.
Tudo bem.
Você está com muito frio?
Estou bem.
O menino ficou deitado com a cabeça no colo do homem. Depois de algum tempo disse: Eles vão matar aquelas pessoas, não vão?
Sim.
Por que eles precisam fazer isso?
Não sei.
Vão comer elas?
Não sei.
Vão comer elas, não vão?
Vão.
E a gente não podia ajudar porque senão eles iam comer a gente também.
Sim.
E é por isso que a gente não podia ajudar.
Sim.
Está bem.
Atravessaram cidades que avisavam as pessoas para se afastarem com mensagens rabiscadas nos quadros de anúncios. Os quadros tinham sido pintados de branco usando finas camadas de tinta para que se pudesse escrever neles e através da tinta podiam-se ver anúncios de produtos que já não existiam. Sentaram-se na beira da estrada e comeram o resto das maçãs.
O que foi? o homem disse.
Nada.
Vamos encontrar alguma coisa para comer. Sempre encontramos.
O menino não respondeu. O homem o observava.
Não é isso, é?
Está tudo bem.
Diga.
O menino olhou para longe na estrada.
Quero que você me diga. Está tudo bem.
Ele balançou a cabeça.
Olhe para mim, o homem disse.
Ele se virou e olhou. Parecia ter andado chorando.
Diga.
A gente nunca comeria outras pessoas, comeria?
Não. E claro que não.
Mesmo se estivéssemos famintos?
Nós estamos famintos agora.
Você disse que não estávamos.
Eu disse que não estávamos morrendo. Não disse que não estávamos famintos.
Mas a gente não comeria.
Não. Não comeria.
Não importa o quê.
Não. Não importa o quê.
Porque nós somos os caras do bem.
Sim.
E levamos o fogo.
E levamos o fogo. Sim.
Está bem.
Ele encontrou pedaços de pederneira e sílica numa vala mas no fim foi mais fácil passar o alicate na lateral de uma pedra na base da qual ele tinha feito uma pequena pilha de iscas molhadas com gasolina. Dois dias mais. Três. Estavam realmente famintos. A região estava saqueada, pilhada, devastada. Tinham levado cada migalha. As noites eram de um frio cortante e de um negrume de breu e o longo raiar da manhã trazia um silêncio terrível. Como a aurora antes de uma batalha. A pele cor de cera do menino estava quase translúcida. Com seus grandes olhos vidrados ele tinha o aspecto de um alienígena.
Começava a achar que a morte finalmente os alcançara e que eles deviam encontrar um lugar para se esconder onde não fossem ser encontrados. Havia momentos quando ele ficava sentado observando o menino dormir em que soluçava incontrolavelmente mas não era por causa da morte.
Ele não tinha certeza do motivo mas achava que era por causa da beleza ou da bondade. Coisas nas quais ele já não tinha nenhum modo de pensar em absoluto. Eles se agachavam numa floresta árida e bebiam água de uma vala coada com um trapo. Ele tinha visto o menino num sonho deitado numa maca de defunto e acordou aterrorizado. O que ele podia tolerar durante a vigília não podia tolerar à noite e ficou sentado de olhos abertos com medo de que o sonho voltasse.
Vasculhavam as ruínas carbonizadas de casas em que não teriam entrado antes. Um cadáver flutuando na água preta de um porão entre lixo e canos enferrujados. Estava numa sala de estar parcialmente queimada e aberta para o céu. As tábuas empenadas por causa da água inclinadas sobre o quintal. Livros ensopados numa estante. Apanhou um e abriu-o e colocou-o de volta. Tudo úmido.
Apodrecendo. Numa gaveta encontrou uma vela. Não havia como acendê-la. Colocou-a no bolso.
Caminhou para a luz cinzenta lá fora e ficou parado de pé e viu por um breve momento a verdade
absoluta do mundo. As voltas frias e incansáveis da terra morta e abandonada. Escuridão implacável.
Os cães cegos do sol em sua corrida. O vácuo preto e esmagador do universo. E em algum lugar dois animais caçados tremendo como marmotas em seu abrigo. Tempo usurpado e mundo usurpado e olhos usurpados com os quais lamentá-lo.
Nos arredores de uma cidadezinha eles se sentaram na cabine de um caminhão para descansar, olhando fixamente através do vidro lavado pelas chuvas recentes. Uma leve poeira de cinzas. Exaustos. Na beira da estrada estava uma tabuleta que alertava do risco de morte, as letras desbotadas com os anos. Ele quase sorriu. Você consegue ler aquilo? ele disse.
Sim.
Não ligue. Não tem ninguém aqui.
Eles estão mortos?
Acho que sim.
Eu gostaria que aquele menininho estivesse com a gente.
Vamos, ele disse.
Sonhos maravilhosos agora dos quais ele abominava despertar. Coisas já não mais conhecidas no mundo. O frio o impelia para a frente a fim de ajeitar a fogueira. Memória dela atravessando o gramado na direção da casa cedo pela manhã numa leve camisola rosa que se colava aos seus seios. Ele achava que cada memória lembrada devia cometer algum ato de violência às suas origens.
Como num jogo numa festa. Diga a palavra e passe adiante. Então seja moderado. O que você altera ao se recordar ainda mantém uma realidade, conhecida ou não.
Caminharam pelas ruas envolvidos nos cobertores imundos. Ele levava o revólver na cintura e segurava o menino pela mão. No outro lado da cidade encontraram uma casa solitária num campo e atravessaram e entraram e caminharam pelos quartos. Depararam-se consigo num espelho e ele quase sacou o revólver. Somos nós, Papai, o menino sussurrou. Somos nós.
Ele ficou parado na porta dos fundos e olhou para os campos lá fora e para a estrada depois deles e a terra árida depois da estrada. No pátio havia uma churrasqueira feita de um tambor de duzentos litros cortado de uma ponta à outra com uma tocha e apoiado numa moldura de ferro soldado. Umas poucas árvores mortas no quintal. Uma cerca. Um depósito de metal para ferramentas.
Ele encolheu os ombros para deixar cair o cobertor e passou-o sobre os ombros do menino.
Quero que você espere aqui.
Quero ir com você.
Só vou até lá dar uma olhada. Fique sentado aqui. Você vai poder me ver o tempo todo.
Prometo.
Atravessou o quintal e empurrou a porta para abri-la, ainda segurando a arma. Era uma espécie de depósito de jardinagem. Chão de terra. Prateleiras de metal com alguns vasos de plástico para flores. Tudo coberto por cinzas. Havia ferramentas de jardinagem apoiadas no canto. Um cortador de grama. Um banco de madeira debaixo da janela e ao lado dele um armário de metal. Ele abriu o armário. Velhos catálogos. Pacotes de sementes. Begônia. Ipoméia. Enfiou-os nos bolsos.
Para quê? Na prateleira do alto havia duas latas de óleo de motor e ele colocou o revólver no cinto e estendeu o braço e as apanhou e as colocou no banco. Eram muito velhas, feitas de papelão com tampas de metal. O óleo tinha vazado através do papelão mas ainda assim pareciam estar cheias.
Recuou e olhou lá para fora pela porta. O menino estava sentado nos degraus dos fundos da casa embrulhado nos cobertores observando-o. Quando ele se virou viu uma lata de gasolina no canto atrás da porta. Sabia que não podia haver gasolina lá dentro e no entanto quando a inclinou com o pé e deixou-a cair para trás mais uma vez se fez um suave ruído de líquido. Apanhou-a, levou-a até o
banco e tentou remover a tampa mas não conseguiu. Pegou o alicate no bolso do casaco e abriu as pontas e tentou. Cabia exato e ele rodou a tampa até abri-la e colocou-a no banco e cheirou a lata.
Cheiro ruim. Anos de idade. Mas era gasolina e pegaria fogo. Ele atarraxou de volta a tampa e colocou o alicate no bolso. Olhou ao redor em busca de algum recipiente menor mas não havia nenhum. Não devia ter jogado fora a garrafa. Procure na casa.
Atravessando o gramado ele se sentiu quase prestes a desmaiar e teve que parar. Perguntou-se se seria por ter cheirado a gasolina. O menino o observava. Quantos dias até a morte? Dez? Não muito mais do que isso. Ele não conseguia pensar. Por que tinha parado? Virou-se e baixou os olhos para a grama. Caminhou de volta. Experimentando o chão com os pés. Parou e se virou novamente.
Então voltou para o depósito. Retornou com uma pá de jardinagem e no lugar onde tinha parado enfiou a pá no chão. Ela afundou até a metade e parou com um som oco de madeira. Ele começou a cavar para tirar a terra.
Devagar. Por Deus ele estava cansado. Apoiou-se na pá. Ergueu a cabeça e olhou para o menino. O menino estava sentado como antes. Ele se curvou e voltou ao trabalho. Não se passou muito tempo até que estivesse descansando entre cada retirada de terra com a pá. O que finalmente desenterrou foi uma peça de compensado coberta com uma folha isolante. Cavou junto às beiradas.
Era uma porta com talvez noventa centímetros por um metro e oitenta. Numa das extremidades havia uma argola e um cadeado atados com fita num saco plástico. Ele ficou descansando, segurando-se ao cabo da pá, a testa na curva do braço. Quando levantou os olhos de novo o menino estava de pé no quintal a uns poucos metros dele. Estava muito assustado. Não abra, Papai, ele sussurrou.
Está tudo bem.
Por favor, Papai. Por favor.
Está tudo bem.
Não está não.
Ele estava com os punhos fechados junto ao peito e se balançava para cima e para baixo de medo. O homem deixou cair a pá e colocou os braços ao redor dele. Venha, ele disse. Vamos nos sentar lá na porta e descansar um pouco.
Depois a gente pode ir?
Vamos só nos sentar um pouco.
Está bem.
Sentaram-se embrulhados nos cobertores e ficaram olhando para o jardim lá fora. Ficaram sentados por um bom tempo. Ele tentou explicar ao menino que não havia ninguém enterrado no quintal mas o menino apenas começou a chorar. Depois de algum tempo ele pensou que talvez a criança tivesse razão.
Vamos só ficar sentados. Não vamos nem conversar.
Está bem.
Andaram pela casa outra vez. Ele encontrou uma garrafa de cerveja e um velho trapo de cortina e rasgou uma ponta do pano e enfiou-o no gargalo da garrafa com um cabide. Esta é a nossa nova lamparina, ele disse.
Como podemos acender?
Encontrei um pouco de gasolina no depósito. E um pouco de óleo. Vou te mostrar.
Está bem.
Venha, o homem disse. Está tudo bem. Eu prometo.
Mas quando ele se curvou para ver o rosto do menino sob o capuz do cobertor teve muito medo de que algo tivesse desaparecido e não pudesse mais ser consertado.
Saíram e atravessaram o quintal até o depósito. Ele colocou a garrafa no banco e pegou uma chave de fenda e abriu um buraco numa das latas de óleo e depois abriu um outro menor para ajudar a escorrer. Puxou o pavio da garrafa e encheu-a até mais ou menos a metade, velho óleo para uso em determinada temperatura, espesso e gélido com o frio e que demorou muito tempo para despejar. Ele girou a tampa da lata de gasolina até removê-la e fez um pequeno funil de papel com um dos pacotes de sementes e despejou gasolina na garrafa e colocou o polegar sobre a boca e sacudiu. Então despejou um pouco num prato de argila e pegou o trapo e enfiou-o de novo na garrafa com a chave de fenda. Pegou um pedaço de pederneira do bolso e o alicate e raspou a pederneira com a extremidade serrilhada. Tentou algumas vezes e então parou e despejou mais gasolina no prato. Isto talvez pegue fogo, ele disse. O menino fez que sim. Ele deixou caírem faíscas sobre o prato e elas se transformaram numa chama com um leve farfalhar. Estendeu o braço e pegou a garrafa e inclinou-a e acendeu o pavio e soprou a chama no prato até apagá-la e entregou a garrafa fumegando para o menino. Aqui está, ele disse. Pegue.
O que a gente vai fazer?
Segure a mão na frente da chama. Não deixe
apagar.
Ele se levantou e tirou o revólver do cinto. Esta porta parece a outra porta, ele disse. Mas não é. Sei que você está com medo. Está tudo bem. Acho que talvez haja coisas ali e precisamos dar uma olhada. Não há nenhum outro lugar aonde ir. Isso é tudo. Quero que você me ajude. Se você não quiser segurar a lamparina vai ter que segurar o revólver.
Vou segurar a lamparina.
Está bem. Isso é o que os caras do bem fazem. Eles continuam tentando. Não desistem.
Está bem.
Ele conduziu o menino até o quintal lá fora arrastando a fumaça preta da lamparina. Colocou o revólver no cinto e pegou a pá e começou a arrancar a argola do cadeado do compensado. Ele forçou a pá por baixo e fez uma alavanca para puxá-la e depois se ajoelhou e segurou o cadeado e girou a coisa toda até soltá-la e jogou o cadeado na grama. Forçou a pá sob a porta e pôs os dedos debaixo dela e então se pôs de pé e a ergueu. A terra caiu com barulho pelas tábuas. Ele olhou para o menino. Tudo bem com você? falou. O menino fez que sim em silêncio, segurando a lamparina diante dele. O homem abriu a porta e deixou-a cair na grama. Degraus toscos feitos de dois em dois às dezenas e conduzindo à escuridão lá embaixo. Ele estendeu o braço e pegou a lamparina do menino.
Começou a descer a escada mas depois se virou e se inclinou e beijou o menino na testa.
O abrigo tinha paredes de blocos de concreto. Um chão de concreto coberto com azulejos de cozinha. Havia um par de beliches de ferro com molas nuas, um junto a cada uma das paredes, os colchões enrolados ao pé deles à maneira do exército. Ele se virou e olhou para o menino agachado acima dele piscando os olhos sob a fumaça que saía da lamparina e então ele desceu os degraus mais abaixo e se sentou e estendeu o braço com a lamparina. Oh meu Deus, ele sussurrou. Oh meu Deus.
O que foi Papai?
Desça até aqui. Oh meu Deus. Desça até aqui.
Caixotes e mais caixotes de produtos enlatados. Tomates, pêssegos, feijões, damascos.
Presunto enlatado. Carne em salmoura. Centenas de litros d’água em jarros plásticos de cerca de quarenta litros. Toalhas de papel, papel higiênico, pratos de papel. Sacos plásticos de lixo cheios de cobertores. Ele apoiou a testa na mão. Oh meu Deus, ele disse. Olhou para o menino atrás dele. Está tudo bem, ele disse. Desça até aqui.
Papai?
Desça até aqui. Desça até aqui e veja.
Ele colocou a lamparina sobre o degrau e subiu e tomou o menino pela mão. Venha, ele disse.
Está tudo bem.
O que você encontrou?
Encontrei tudo. Tudo. Espere para ver. Ele o levou pela escada e pegou a garrafa e segurou a chama no alto. Consegue ver? ele disse. Consegue ver?
O que são essas coisas todas, Papai?
São comida. Você consegue ler.
Pêras. Ali diz pêras.
Sim. Diz sim. Oh diz sim.
Só havia altura suficiente para ele ficar de pé. Passou abaixado sob um lampião com uma cúpula verde de metal pendendo de um gancho. Segurou o menino pela mão e percorreram as fileiras de caixotes de papelão reproduzidos por estêncil. Chile, milho, ensopado, sopa, molho de espaguete.
A riqueza de um mundo desaparecido. Por que isto está aqui? o menino disse. E real?
Oh sim. E real.
Ele puxou para baixo uma das caixas e rasgou-a para abri-la e pegou uma lata de pêssegos.
Está aqui porque alguém pensou que poderia ser necessário.
Mas eles não chegaram a usar.
Não. Não chegaram.
Eles morreram.
Sim.
Tudo bem se a gente pegar?
Sim. Tudo bem. Eles gostariam que a gente pegasse. Assim como a gente gostaria que eles pegassem.
Eles eram os caras do bem?
Sim. Eram.
Como a gente.
Como a gente. Sim.
Então tudo bem.
Sim. Tudo bem.
Havia facas e utensílios de plástico e talheres e instrumentos de cozinha numa caixa de plástico. Um abridor de latas. Havia maçaricos elétricos que não funcionavam. Ele encontrou uma caixa de baterias e pilhas secas e examinou-as. A maior parte corroída e vazando uma substância pegajosa e ácida mas algumas pareciam em bom estado. Ele finalmente conseguiu fazer uma das lanternas funcionar e colocou-a sobre a mesa e apagou com um sopro a chama fumarenta da lamparina. Arrancou um pedaço da caixa de papelão aberta e afastou com ela a fumaça e então subiu e fechou o alçapão e se virou e olhou para o menino. O que você quer para o jantar? ele disse.
Pêras.
Boa escolha. Teremos pêras.
Ele pegou duas tigelas de papelão de uma pilha delas embrulhada em plástico e colocou-as na mesa. Desenrolou os colchões sobre os beliches para que eles se sentassem e abriu a caixa de pêras e pegou uma lata e colocou-a na mesa e furou a tampa com o abridor de latas e começou a girar a roda. Olhou para o menino. O menino estava sentado em silêncio no beliche, ainda envolvido no cobertor, observando. O homem pensou que ele provavelmente não tinha se entregado totalmente a nada daquilo. Você podia acordar na floresta escura e úmida a qualquer momento. Essas vão ser as melhores pêras que você já provou, ele disse. As melhores. Espere só.
Sentaram-se lado a lado e comeram a lata de pêras. Depois comeram uma lata de pêssegos.
Lamberam as colheres e viraram as tigelas e beberam seu xarope rico e doce. Olharam um para o outro.
Mais uma.
Não quero que você fique doente.
Não vou ficar doente.
Faz muito tempo que você não come.
Eu sei.
Está bem.
Ele colocou o menino na cama e alisou seu cabelo imundo no travesseiro e tapou-o com os cobertores. Quando subiu e levantou a porta estava quase escuro lá fora. Foi até a garagem, pegou a mochila, deu uma última olhada ao redor e então desceu os degraus e puxou a porta para fechá-la e passou um dos cabos do alicate através da pesada argola do cadeado do lado de dentro. A luz da lanterna elétrica começava a enfraquecer e ele vasculhou em meio ao depósito até encontrar alguns recipientes de óleo em latas de três litros. Pegou uma das latas e colocou-a sobre a mesa e desatarraxou a tampa e removeu o selo de metal com uma chave de fenda. Então tirou o lampião do gancho no teto e encheu-o. Já tinha encontrado uma caixa plástica de acendedores de butano e acendeu o lampião com um deles e ajustou a chama e pendurou-o de volta. Então simplesmente ficou sentado no beliche.
Enquanto o menino dormia ele começou a vasculhar metodicamente o depósito. Roupas, suéteres, meias. Uma bacia de aço inoxidável e esponjas e barras de sabão. Pasta de dentes e escovas de dentes. No fundo de uma grande jarra plástica com parafusos e tarraxas e ferragens em geral ele encontrou dois punhados de krugerrands de ouro num saco de pano. Despejou-as e apertou-as na mão e olhou para elas e derramou-as de novo na jarra junto com as ferragens e colocou a jarra de volta na prateleira.
Vasculhou tudo, mudando caixas e engradados de um lado do abrigo para o outro. Havia uma portinha de metal que dava num segundo quarto onde garrafas de gasolina estavam estocadas. No canto um banheiro químico. Havia tubos de ventilação nas paredes cobertos com telas de arame e havia escoadouros no chão. Estava ficando quente no abrigo e ele tinha tirado o casaco. Vasculhou tudo. Encontrou uma caixa de cartuchos para o revólver automático calibre 45 e três caixas de cápsulas para rifle calibre 30-30. O que ele não encontrou foi uma arma. Pegou a lanterna a pilha e caminhou pelo chão e examinou as paredes em busca de compartimentos ocultos. Depois de um tempo simplesmente se sentou no beliche comendo uma barra de chocolate. Não havia arma alguma e não haveria.
Quando acordou o lampião no teto sibilava baixinho. As paredes do abrigo estavam ali sob a luz e as caixas e os engradados. Ele não sabia onde estava. Jazia deitado com o casaco por cima.
Sentou-se e olhou para o menino dormindo no outro beliche. Tinha tirado os sapatos mas também não se lembrava disso e pegou-os debaixo do beliche e calçou-os e subiu a escada e tirou o alicate da argola do cadeado e ergueu a porta e olhou para fora. De manhã cedo. Ele olhou para a casa e olhou para a estrada lá adiante e estava prestes a abaixar a porta outra vez quando parou. A vaga luz cinzenta estava a leste. Eles tinham dormido durante a noite inteira e o dia que se seguiu. Ele abaixou a porta e prendeu-a novamente e desceu os degraus de volta e se sentou no beliche. Olhou ao redor para as provisões. Estava pronto para morrer e agora já não ia mais e tinha que pensar nisso.
Qualquer um podia ver o alçapão no quintal e saberiam de imediato do que se tratava. Ele tinha que
pensar no que fazer. Isso não era se esconder na floresta. Era a coisa mais distante disso. Por fim levantou-se e foi até a mesa e montou o fogãozinho a gás de duas bocas e pegou uma frigideira e uma chaleira e abriu a caixa plástica de utensílios de cozinha.
O que acordou o menino foi ele moendo café num pequeno moedor manual. Ele se sentou e olhou por toda parte ao redor. Papai? ele disse.
Oi. Você está com fome?
Tenho que ir ao banheiro. Tenho que fazer xixi.
Ele apontou com a espátula na direção da porta baixa de aço. Ele não sabia como usar o toalete mas usaria assim mesmo. Eles não ficariam ali tanto tempo assim e ele não ia ficar abrindo e fechando o alçapão mais do que precisavam. O menino passou por ele, o cabelo fosco de suor. O que é isso? ele disse.
Café. Presunto. Biscoitos.
Uau, o menino disse.
Arrastou um baú pelo chão e colocou-o entre os beliches, cobriu-o com uma toalha e arrumou os pratos e copos e utensílios de plástico.Colocou uma tigela de biscoitos cobertos com uma toalha de mão e um prato com manteiga e uma lata de leite condensado. Sal e pimenta. Olhou para o menino. O menino parecia drogado. Pegou uma frigideira do fogão e espetou um pedaço de presunto dourado e colocou no prato do menino e pegou ovos mexidos numa outra panela e serviu com uma concha de feijão cozido e pôs café em suas xícaras. O menino levantou os olhos para ele.
Vá em frente, ele disse. Não deixe esfriar.
O que eu como primeiro?
O que você quiser.
Isto é café?
Sim. Aqui. Você coloca a manteiga nos biscoitos. Desse jeito.
Certo.
Você está bem?
Não sei.
Está se sentindo bem?
Estou.
O que é?
Você acha que a gente devia agradecer às pessoas?
As pessoas?
As pessoas que nos deram isso tudo.
Bem. Sim, acho que podemos fazer isso.
Você faz?
Por que não você?
Não sei como.
Sabe sim. Você sabe como dizer obrigado.
O menino ficou sentado olhando para o próprio prato. Parecia perdido. O homem estava prestes a falar quando ele disse: Queridas pessoas, obrigado por toda esta comida e tudo mais. Nós sabemos que vocês guardaram para vocês mesmos e se estivessem aqui a gente não ia comer por mais que estivéssemos com fome e sentimos muito por vocês não terem podido comer e esperamos que vocês estejam a salvo no paraíso com Deus.
Ele levantou os olhos. Está bom assim? ele disse.
Sim. Acho que está bom.
Ele não queria ficar sozinho no abrigo. Seguia o homem de um lado a outro do gramado enquanto ele carregava os jarros plásticos com água até o banheiro nos fundos da casa. Levaram o fogãozinho com eles e umas duas panelas e ele esquentou água e despejou-a na banheira e despejou água dos jarros de plástico. Levou um bom tempo mas ele queria que ficasse bom e quente. Quando a banheira estava quase cheia o menino se despiu e entrou tremendo na água e se sentou. Esquelético e imundo e nu. Abraçado aos próprios ombros. A única luz era a do anel de dentes azuis na boca do fogão. O que você acha? o homem disse.
Enfim quente.
Enfim quente?
É.
De onde você tirou isso?
Não sei.
Está bem. Enfim quente.
Ele lavou o cabelo sujo e embaraçado e limpou-o com o sabão e as esponjas. Esvaziou a água suja em que se sentava e despejou sobre ele água limpa e morna da panela e embrulhou-o tremendo numa toalha e embrulhou-o novamente num cobertor. Penteou seu cabelo e olhou para ele.
Vapor saía dele como fumaça. Está tudo bem? falou.
Estou com frio nos pés.
Você vai ter que esperar por mim.
Rápido.
Ele tomou banho e depois saiu e despejou detergente na banheira e mergulhou os jeans fedidos dos dois na água com um desentupidor de privada. Você está pronto? ele disse.
Estou.
Ele abaixou o bico de gás até que ele oscilasse e se apagasse e então acendeu a lanterna e deixou-a no chão. Eles se sentaram na beirada da banheira, colocaram os sapatos e ele deu para o menino a panela e o sabão e ele pegou o fogão e a garrafinha de gasolina e o revólver e embrulhados nos cobertores eles atravessaram o quintal até o abrigo.
Sentaram-se no beliche com um tabuleiro de xadrez entre eles, usando suéteres e meias novos e envolvidos pelos cobertores novos. Ele tinha pendurado num gancho um pequeno aquecedor a gás e eles bebiam Coca-Cola em canecas de plástico e depois de algum tempo ele voltou à casa e torceu os jeans e trouxe-os de volta e pendurou-os para secar.
Quanto tempo a gente pode ficar aqui Papai?
Não muito.
Quanto tempo é isso?
Não sei. Talvez mais um dia. Dois.
Porque é perigoso.
Sim.
Acha que eles vão encontrar a gente.
Não. Não vão encontrar a gente.
Talvez encontrem.
Não vão não. Eles não vão encontrar a gente.
Mais tarde quando o menino estava dormindo ele foi até a casa e levou parte da mobília para o gramado do quintal. Então arrastou um colchão e colocou-o sobre o alçapão e pelo lado de dentro ele puxou-o sobre o compensado e baixou cuidadosamente a porta de modo a fazer com que o colchão cobrisse-a inteiramente. Não era grande coisa como estratagema mas melhor do que nada.
Enquanto o menino dormia ele ficou sentado no beliche e sob a luz da lanterna fabricou balas falsas a partir de um galho de árvore com sua faca, experimentando-as cuidadosamente nos furos vazios do tambor e desbastando a madeira mais um pouco. Afiou as pontas com a faca e arredondou-as esfregando sal e sujou-as com fuligem até ficarem da cor do chumbo. Quanto terminou de aprontar todas as cinco ele as ajustou nos orifícios e fechou o tambor e virou a arma e observou-a. Mesmo tão de perto a arma parecia estar carregada e ele a colocou de lado e se levantou para sentir as pernas dos jeans fumegando sobre o aquecedor.
Tinha guardado o punhadinho de invólucros vazios de cartuchos do revólver mas tinham sumido junto com tudo mais. Devia tê-los guardado no bolso. Tinha perdido até mesmo o último.
Pensou que talvez pudesse carregá-los com os cartuchos calibre 45. As cápsulas provavelmente caberiam se ele conseguisse tirá-las sem disparar. Raspar as balas até o tamanho certo com o estilete. Ele se levantou e percorreu uma última vez o depósito. Então abaixou o lampião até a chama vacilar e beijou o menino e subiu no outro beliche sob os cobertores limpos e olhou mais uma vez para aquele pequenino paraíso tremendo sob a luz alaranjada do aquecedor e então adormeceu.
A cidade tinha sido abandonada anos antes mas eles caminhavam pelas ruas cheias de lixo com cuidado, o menino segurando sua mão. Passaram por um depósito de lixo de metal onde alguém em algum momento tinha tentado queimar corpos humanos. A carne e os ossos carbonizados sob as cinzas úmidas poderiam ser anônimos a não ser pelo formato dos crânios. Já não havia mais cheiro.
Havia um mercado no fim da rua e num dos corredores com caixas vazias empilhadas havia três carrinhos metálicos de supermercado. Ele os examinou e soltou um deles puxando-o e se agachou e virou as rodas e se pôs de pé e empurrou-o corredor acima e abaixo novamente.
Podíamos pegar dois, o menino disse.
Não.
Eu poderia empurrar um.
Você é o observador. Preciso que você seja nosso vigia.
O que a gente vai fazer com tudo aquilo?
Vamos simplesmente ter que levar o que pudermos.
Você acha que alguém vai vir?
Sim. Em algum momento.
Você disse que não ia vir ninguém.
Não quis dizer nunca.
Eu gostaria que a gente pudesse morar aqui.
Eu sei.
Podíamos ficar de vigia.
Estamos de vigia.
E se alguns dos caras do bem vierem?
Bem, eu não acho que a gente é capaz de encontrar os caras do bem na estrada.
Nós estamos na estrada.
Eu sei.
Se você fica de vigia o tempo todo isso não significa que está o tempo todo com medo?
Bem. Acho que você precisa estar com medo suficiente para ficar de vigia, em primeiro lugar. Para ser cuidadoso. Vigilante.
Mas no resto do tempo não fica assustado?
No resto do tempo.
Sim.
Não sei. Talvez a gente devesse ficar sempre de vigia. Se aparece algum problema quando você menos espera talvez a coisa certa a fazer seja sempre esperar.
Você sempre espera? Papai?
Espero. Mas às vezes eu posso esquecer que estou de vigia.
Ele sentou o menino no baú sob o lampião e com uma escova de plástico e um par de tesouras se pôs a cortar seu cabelo. Tentou fazer direito e levou algum tempo. Quando terminou tirou a toalha de cima dos ombros e pegou o cabelo dourado do chão e limpou o rosto e os ombros do menino com um pano úmido e segurou um espelho para que ele visse.
Você fez um bom trabalho, Papai.
Bom.
Eu pareço mesmo magrelo.
Você está mesmo magrelo.
Ele cortou seu próprio cabelo mas não ficou tão bom. Aparou a barba com a tesoura enquanto uma panela de água esquentava e depois se barbeou com um barbeador de plástico. O menino observava. Quando ele terminou olhou-se no espelho. Parecia não ter queixo. Virou-se para o menino. Como é que eu estou? O menino esticou o pescoço. Não sei, ele disse. Você vai ficar com frio?
Comeram uma refeição suntuosa à luz de velas. Presunto e feijão verde e purê de batatas com biscoitos e molho. Ele tinha encontrado quatro garrafas de 250ml de uísque puro malte ainda nas bolsas de papel em que tinham sido comprados e bebeu um pouco num copo com água. Deixou-o tonto antes mesmo de terminar e ele não bebeu mais. Comeram pêssegos e creme sobre os biscoitos para a sobremesa e beberam café. Os pratos de papel e os talheres de plástico ele jogou numa sacola de lixo. Jogaram xadrez e depois ele pôs o menino na cama.
Durante a noite foi acordado pelo ruído abafado da chuva caindo sobre o colchão na porta acima deles. Pensou que devia estar chovendo realmente forte para que ele conseguisse ouvir.
Levantou-se com a lanterna e subiu a escada e ergueu a porta e iluminou o quintal com a luz. O
quintal já estava inundado e a chuva martelava. Fechou a porta. Havia vazado água que gotejava escada abaixo mas ele achava que o abrigo em si era bastante à prova d’água. Foi ver como estava o menino. Estava úmido de suor e o homem puxou para baixo um dos cobertores e abanou seu rosto e depois diminuiu o aquecedor e voltou para a cama.
Quando acordou novamente achou que a chuva tinha parado. Mas não foi isso que o acordou.
Ele tinha sido visitado num sonho por criaturas de um tipo que nunca tinha visto antes. Não falavam.
Ele achou que tinham estado agachadas ao lado do seu catre enquanto dormia e que tinham escapulido quando ele acordou. Virou-se e olhou para o menino. Talvez compreendesse pela primeira vez que, para o menino, ele próprio era um alienígena. Um ser de um planeta que já não existia. Cujas histórias eram suspeitas. Ele não tinha como construir para o prazer da criança o mundo que tinha perdido sem construir também a perda e achava que talvez o menino soubesse disso melhor do que ele. Tentou se lembrar do sonho mas não conseguiu. Tudo o que restava era a sensação. Pensou que talvez eles tivessem vindo avisá-lo. De quê? De que ele não podia acender no coração da criança o que eram cinzas no seu próprio. Mesmo agora alguma parte dele desejava que nunca tivessem encontrado aquele refúgio. Alguma parte dele desejava que tudo tivesse terminado.
Verificou que a válvula do tanque estivesse fechada e puxou o fogãozinho ao redor do baú e se sentou e se pôs a desmontá-lo. Desparafusou o painel superior e removeu o conjunto dos queimadores e desconectou os dois queimadores com uma pequena chave inglesa. Derramou as peças de dentro de um recipiente de plástico e escolheu um parafuso para enfiar na junção e depois
apertou-o. Conectou a mangueira do tanque e segurou o queimadorzinho de esquentar comida semipronta na mão, pequeno e leve. Colocou-o sobre o baú, levou a chapa de metal, jogou-a no lixo e foi até a escada para verificar o tempo. O colchão no alto do alçapão tinha absorvido um bocado d’água e a porta estava difícil de levantar. Ficou de pé com ela apoiada nos ombros e olhou para o dia lá fora. Um leve chuvisco caindo. Impossível dizer para que hora do dia estava olhando.
Observou a casa e as terras ensopadas lá fora e depois abaixou a porta e desceu a escada e se pôs a preparar o café-da-manhã.
Passaram o dia comendo e dormindo. Ele tinha planejado ir embora mas a chuva era justificativa suficiente para ficar. O carrinho de compras estava no depósito. Improvável que alguém viajasse pela estrada hoje. Eles examinaram o que havia no estoque e separaram o que podiam levar, arrumando tudo num cubo medido no canto do abrigo. O dia foi breve, mal chegou a ser um dia.
Quando escureceu a chuva tinha parado e eles abriram o alçapão e começaram a carregar caixas e pacotes e sacos de plástico pelo quintal até o depósito e colocar no carrinho. O caminho mal iluminado que ia dar no alçapão se estendia no escuro do quintal como um túmulo de boca aberta no dia do juízo final em alguma velha pintura apocalíptica. Quando o carrinho estava totalmente carregado, ele amarrou uma lona por cima e apertou os prendedores no arame com cordões elásticos curtos e recuaram e olharam para o resultado à luz da lanterna. Ele pensou que devia ter apanhado uns dois jogos extra de rodinhas dos outros carrinhos no depósito mas agora era tarde demais.
Também devia ter guardado o espelho retrovisor de motocicleta de seu antigo carrinho. Jantaram e dormiram até de manhã e então tomaram banho de novo com esponjas e lavaram o cabelo em bacias de água morna. Tomaram o café-da-manhã e com a primeira luz do dia estavam na estrada, usando máscaras novas cortadas dos lençóis, o menino indo na frente com uma vassoura e varrendo galhos e ramos do caminho e o homem inclinado sobre o carrinho observando a estrada que se estendia diante deles.
O carrinho estava pesado demais para empurrar na floresta molhada e pararam para descansar ao meio-dia no meio da estrada e prepararam chá quente e comeram o resto do presunto enlatado com biscoitos salgados e com mostarda e molho de maçã. Sentados com as costas de um apoiadas nas do outro e observando a estrada. Você sabe onde a gente está Papai? o menino disse.
Mais ou menos.
Como mais ou menos?
Bem. Acho que estamos a cerca de trezentos quilômetros da costa. Como voa o corvo.
Como voa o corvo?
Sim. Quer dizer em linha reta.
Vamos chegar lá em breve?
Não muito em breve. Mais ou menos em breve. Não vamos seguir como voa o corvo.
Porque os corvos não têm que seguir estradas? Sim.
Eles podem ir aonde quiserem.
Sim.
Você acha que ainda há corvos em algum lugar? Não sei.
Mas o que você acha?
Acho que é improvável.
Eles poderiam voar para Marte ou algum lugar? Não. Não poderiam.
Porque é longe demais?
Sim.
Mesmo que eles quisessem.
Mesmo que eles quisessem.
E se eles tentassem e só chegassem ao meio do caminho ou coisa assim e ficassem cansados demais. Eles iam cair de volta aqui?
Bem. Eles não poderiam realmente chegar até a metade do caminho porque estariam no espaço e não há ar no espaço então eles não poderiam voar e além disso seria frio demais e iam morrer congelados.
Oh.
De todo modo eles não saberiam onde Marte fica.
A gente sabe onde Marte fica?
Mais ou menos.
Se a gente tivesse uma nave espacial poderia ir até lá?
Bem. Se você tivesse uma nave espacial realmente boa e se tivesse gente para te ajudar eu acho que poderia ir.
Teria comida e outras coisas quando você chegasse lá?
Não. Lá não há nada.
Oh.
Ficaram sentados por muito tempo. Ficaram sentados em seus cobertores dobrados e observavam a estrada nas duas direções. Nenhum vento. Nada. Depois de algum tempo o menino disse: Não tem nenhum corvo. Tem?
Não.
Só nos livros.
Sim. Só nos livros.
Eu não achava.
Você está pronto?
Estou.
Eles se levantaram e guardaram as xícaras e o resto dos biscoitos salgados. O homem empilhou os cobertores no alto do carrinho e apertou a lona por cima e depois ficou parado olhando para o menino. O quê? o menino disse.
Sei que você pensou que nós íamos morrer.
É.
Mas não morremos.
Não.
Está bem.
Posso te perguntar uma coisa?
Claro.
Se você fosse um corvo conseguiria voar alto o suficiente para ver o sol?
Sim. Conseguiria.
Foi o que eu pensei. Isso seria bem legal.
Seria sim. Você está pronto?
Estou.
Ele parou. O que aconteceu com a sua flauta?
Joguei fora.
Jogou fora?
Foi.
Está bem.
Está bem.
No longo entardecer cinzento eles atravessaram um rio e pararam e olharam da balaustrada de concreto para a água lenta e fosca passando lá embaixo. Esboçado sobre a fuligem pálida lá adiante o contorno de uma cidade queimada como uma tela preta de papel. Viram-na outra vez logo antes de escurecer empurrando o carrinho pesado na subida de uma longa colina e pararam para descansar e ele virou o carrinho de lado na estrada para que não deslizasse. Suas máscaras já estavam cinzentas na boca e seus olhos com marcas escuras. Sentaram-se nas cinzas na beira da estrada e olharam para leste onde o vulto da cidade escurecia na noite que se aproximava. Não viram luzes.
Você acha que tem alguém ali, Papai?
Não sei.
Quando é que a gente vai poder parar?
Podemos parar agora.
No morro?
Podemos levar o carrinho até aquelas pedras ali embaixo e cobrir com ramos.
Este lugar é bom para parar?
Bem, as pessoas não gostam de parar em morros. E nós não gostamos que pessoas parem.
Então é um bom lugar para nós.
Acho que sim.
Porque nós somos espertos.
Bem, não fiquemos espertos demais.
Está bem.
Você está pronto?
Estou.
O menino se levantou e pegou sua vassoura e colocou-a sobre o ombro. Olhou para o pai.
Quais são os nossos objetivos a longo prazo? ele disse.
O quê?
Nossos objetivos a longo prazo.
Onde você ouviu isso?
Não sei.
Não, onde foi?
Você disse.
Quando?
Há muito tempo atrás.
Qual foi a resposta?
Não sei.
Bem. Eu também não. Vamos. Está ficando escuro.
Mais tarde no dia seguinte quando faziam uma curva da estrada o menino parou e colocou a mão no carrinho. Papai, ele sussurrou. O homem levantou os olhos. Um pequeno vulto distante na estrada, curvado e arrastando os pés.
Ele ficou parado inclinado sobre o carrinho. Bem, ele disse. Quem é?
O que a gente devia fazer, Papai?
Poderia ser um chamariz.
O que a gente vai fazer?
Vamos apenas seguir. Vejamos se ele se vira.
Está bem.
O viajante não olhava para trás. Eles o seguiram por um tempo e depois o ultrapassaram. Um velho, pequeno e curvado. Levava no ombro uma velha mochila do exército com um cobertor enrolado e amarrado no alto junto com um galho descascado como bengala. Quando ele os viu desviou para a beira da estrada e se virou e ficou parado cautelosamente. Tinha uma toalha imunda amarrada sob o queixo como se sentisse dor de dente e cheirava horrivelmente mesmo pelos padrões do novo mundo deles.