A Estrada

Cormac McCarthy · Capítulo 1 de 1 · parte 3/7

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A Estrada

A Estrada

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 7 partes.

Vasculharam entre o lixo mas não havia nada ali que um dos dois pudesse usar. Quando voltaram ele tirou os paletós dos ternos de seus cabides e sacudiu-os e os dobrou por cima do braço. Vamos, ele disse.

Ele achava que alguma coisa devia ter passado despercebida, mas não. Vasculharam com os pés o lixo nos corredores de um mercado. Velhas embalagens e papéis e as eternas cinzas. Ele percorreu rapidamente as prateleiras em busca de vitaminas. Abriu a porta de uma geladeira industrial mas o fedor azedo dos mortos saiu da escuridão e ele rapidamente fechou-a outra vez.

Ficaram parados na rua. Olhou para o céu cinzento. O vapor suave de suas respirações. O menino estava exausto. Ele o segurou pela mão. Temos que procurar mais um pouco, ele disse. Temos que continuar procurando.

As casas nos limites da cidade ofereciam pouco mais. Subiram os degraus dos fundos de uma cozinha e começaram a vasculhar nos armários. As portas dos armários todas abertas. Uma lata de fermento. Ele ficou ali olhando para ela. Vasculhou as gavetas de um aparador na sala de jantar.

Foram até a sala de estar. Rolos de papel de parede caídos no chão como documentos antigos.

Deixou o menino sentado na escada segurando os paletós enquanto ele subia.

Tudo cheirava a umidade e podridão. No primeiro quarto um cadáver ressecado com as cobertas na altura do pescoço. Restos de cabelo apodrecido no travesseiro. Ele segurou a bainha inferior do cobertor e puxou-o para fora da cama e o sacudiu e dobrou debaixo do braço. Vasculhou as cômodas e os armários. Um vestido de verão num cabide de arame. Nada. Desceu novamente a escada. Estava ficando escuro. Pegou o menino pela mão e saíram pela porta da frente até a rua.

No alto da colina ele se virou e examinou a cidade. Escuridão chegando rápido. Escuridão e frio. Ele colocou dois dos paletós sobre os ombros do menino, envolvendo-o, parca e tudo.

Estou com muita fome, Papai.

Eu sei.

Vamos conseguir encontrar nossas coisas?

Sim. Eu sei onde elas estão.

E se alguém encontrar?

Não vão encontrar.

Espero que não.

Não vão. Venha.

O que foi isso?

Não ouvi nada.

Escute.

Não estou ouvindo nada.

Ficaram escutando. Então na distância ouviram um cachorro latir. Ele se virou e olhou na direção da cidade que escurecia. E um cachorro, ele disse.

Um cachorro?

Sim.

De onde veio?

Não sei.

Não vamos matá-lo, vamos, Papai?

Não. Não vamos matá-lo.

Ele baixou os olhos para o menino. Tremendo sob os casacos. Curvou-se e o beijou no rosto áspero. Não vamos machucar o cachorro, ele disse. Eu prometo.

Dormiram num carro estacionado debaixo de um viaduto com os paletós e o cobertor empilhados em cima deles. Na escuridão e no silêncio ele podia ver lampejos de luz que apareciam a esmo na grade da noite. Os andares mais altos dos prédios estavam todos escuros. As pessoas teriam que carregar água lá para cima. Podiam ser desentocadas. O que eles estavam comendo? Sabe Deus. Eles estavam sentados embrulhados nos paletós olhando pela janela. Quem são eles, Papai?

Não sei.

Acordou durante a noite e ficou escutando. Não conseguia se lembrar de onde estava. O

pensamento o fez sorrir. Onde estamos? ele disse.

O que foi, Papai?

Nada. Está tudo bem. Vá dormir.

Vamos ficar bem, não vamos, Papai?

Sim. Vamos sim.

E nada de ruim vai acontecer com a gente.

Isso mesmo.

Porque trazemos o fogo.

Sim. Porque trazemos o fogo.

Pela manha uma chuva fria caía. Arremessava-se contra o carro em lufadas mesmo sob o viaduto e dançava na estrada lá adiante. Ficaram sentados observando através da água no vidro.

Quando diminuiu, boa parte do dia já tinha passado. Deixaram os casacos e o cobertor no chão do banco de trás e saíram pela estrada para vasculhar mais algumas casas. Fumaça de madeira no ar úmido. Não voltaram a ouvir o cachorro.

Encontraram alguns utensílios e algumas peças de roupa. Um suéter. Um pedaço de plástico que podiam usar como lona. Ele tinha certeza de que estavam sendo observados, mas não via ninguém. Numa despensa eles encontraram parte de um saco de fubá que ratos tinham comido tempos antes. Peneirou a farinha com um pedaço da tela da janela e pegou um punhado de excrementos secos e eles acenderam uma fogueira na varanda de concreto da casa e fizeram bolos com a farinha e cozinharam-nos num pedaço de folha-de-flandres. Comeram-nos devagar um a um. Ele embrulhou os poucos que sobraram num papel e colocou-os na mochila.

O menino estava sentado nos degraus quando viu alguma coisa se mover nos fundos da casa do outro lado da estrada. Um rosto olhava para ele. Um menino, mais ou menos da sua idade, usando um casaco de lã grande demais com as mangas dobradas. Ele se pôs de pé. Correu pela estrada e até a entrada dos carros. Ninguém ali. Olhou na direção da casa e então correu até os fundos do quintal através do mato seco até um riacho parado e negro. Volte, ele disse. Não vou te machucar. Ele estava de pé ali chorando quando seu pai veio correndo do outro lado da estrada e o agarrou pelo braço.

O que você está fazendo? ele sibilou. O que você está fazendo?

Tem um menininho, Papai. Tem um menininho.

Não tem menininho nenhum. O que você está fazendo ?

Tem sim. Eu vi ele.

Disse para você ficar quieto. Não disse? Agora temos que ir. Venha.

Eu só queria ver ele, Papai. Só queria ver ele.

O homem levou-o pelo braço e eles voltaram através do quintal. O menino não parava de chorar e não parava de olhar para trás. Vamos, o homem disse. Temos que ir.

Quero ver ele, Papai.

Não há ninguém para ver. Você quer morrer? E isso o que você quer?

Não me importo, o menino disse, soluçando. Não me importo.

O homem parou. Parou e se agachou e o abraçou. Me desculpe, ele disse. Não diga isso.

Você não deve dizer isso.

Voltaram passando pelas ruas molhadas até o viaduto e pegaram os casacos e o cobertor no carro e seguiram até o aterro da ferrovia onde subiram e atravessaram os trilhos até chegar à floresta e pegaram o carrinho e se encaminharam para a rodovia.

E se o menininho não tiver ninguém para cuidar dele? falou. E se ele não tiver um Pai?

Há pessoas aqui. Elas só estavam escondidas.

Ele empurrou o carrinho para a estrada e ficou parado ali. Podia ver as marcas do caminhão nas cinzas molhadas, fracas e desbotadas, mas ali. Achava que podia sentir o cheiro delas. O menino puxava seu casaco.

Papai, ele disse.

O quê?

Estou preocupado com aquele menininho.

Eu sei. Mas ele vai ficar bem.

A gente devia ir buscar ele, Papai. A gente podia pegar ele e trazer ele junto com a gente. A gente podia pegar ele e podia pegar o cachorro. O cachorro podia encontrar alguma coisa para comer.

Não podemos.

E eu daria para aquele menininho a metade da minha comida.

Pare. Não podemos.

Ele estava chorando outra vez. Mas e o menininho? ele soluçava. Mas e o menininho?

Numa encruzilhada eles se sentaram com o pôr-do-sol e espalharam os pedaços do mapa na estrada e os estudaram. Ele abaixou o dedo. Nós estamos aqui, ele disse. Bem aqui. O menino não queria olhar. Ele ficou sentado estudando a rede retorcida de caminhos em vermelho e preto com o dedo no entroncamento onde ele achava que poderiam estar. Como se pudesse ver eles próprios pequeninos agachados ali. Podíamos voltar, o menino disse baixinho. Não é tão longe. Não está tão tarde.

Acamparam numa floresta não longe da estrada. Não conseguiram encontrar um lugar abrigado para fazer uma fogueira que não fosse ser vista então não fizeram nenhuma. Cada um deles comeu dois dos bolos de fubá e dormiram juntos acotovelando-se no chão nos casacos e cobertores.

Ele abraçou a criança e depois de algum tempo a criança parou de tremer e depois de algum tempo dormiu.

O cachorro de que ele se lembra nos seguiu por dois dias. Eu tentei chamá-lo de forma amigável para que se aproximasse, mas ele não vinha. Fiz um laço de arame para prendê-lo. Havia três cartuchos no revólver. Nenhum sobrando. Ela foi caminhando pela estrada. O menino olhou para ela e depois olhou para mim e depois olhou para o cachorro e começou a chorar e pediu pela vida do cachorro e eu prometi que não ia machucar o cachorro. Um cachorro que mais parecia um pedaço de treliça com a pele esticada por cima. No dia seguinte ele tinha ido embora. Esse é o cachorro de que

ele se lembra. Não se lembra de nenhum menininho.

Tinha posto um punhado de uvas-passas num pano em seu bolso e ao meio-dia eles se sentaram na grama seca na beira da estrada e as comeram. O menino olhou para ele. E tudo o que a gente tem, não é?

Sim.

Nós vamos morrer agora?

Não.

O que vamos fazer?

Vamos beber um pouco d água. Depois vamos continuar seguindo pela estrada.

Está bem.

A noite eles vagaram por um campo tentando encontrar um lugar onde sua fogueira não fosse vista. Arrastando o carrinho atrás deles pelo chão. Tão poucas promessas naquela região. No dia seguinte encontrariam alguma coisa para comer. A noite os surpreendeu numa estrada enlameada.

Eles a atravessaram até chegar num campo e caminharam com dificuldade na direção de um grupo distante de árvores destacadas duras e negras contra o fim do mundo visível. Quando chegaram lá já era noite fechada. Ele segurou a mão do menino e chutou ramos e moitas e acendeu uma fogueira. A madeira estava molhada mas ele raspou a casca com sua faca e empilhou o mato e as hastes ao redor para secar no calor. Estendeu então a folha de plástico no chão e pegou os casacos e cobertores do carrinho e tirou os sapatos úmidos e enlameados de ambos e eles ficaram sentados ali em silêncio com as mãos estendidas para o fogo. Ele tentou pensar em algo para dizer mas não conseguia. Já tinha tido esse pensamento antes, para além do torpor e do desespero embotado. O mundo encolhendo em torno de um núcleo cru de entidades analisáveis. Os nomes das coisas lentamente seguindo essas coisas rumo ao esquecimento. Cores. Os nomes dos pássaros. Coisas para comer.

Finalmente os nomes das coisas que se acreditava serem verdadeiras. Mais frágeis do que ele teria pensado. Quanto já tinham desaparecido? O idioma sagrado cortado dos referenciais e portanto da realidade. Recolhendo-se como alguma coisa tentando preservar o calor. No momento de oscilar e se perder para sempre.

Dormiram a noite toda em sua exaustão e pela manhã a fogueira tinha apagado e estava preta no chão. Ele puxou os sapatos enlameados e foi juntar lenha, soprando em suas mãos juntas em cunha. Tão frio. Poderia ser novembro. Poderia ser depois disso. Acendeu a fogueira e foi até a beira da floresta e ficou olhando para a região rural. Os campos mortos. Um celeiro a distância.

Caminharam pela estrada de terra ladeando um morro onde outrora tinha havido uma casa.

Ela pegara fogo havia muito tempo. O vulto enferrujado de uma fornalha erguendo-se na água preta do porão. Lâminas de metal carbonizadas que antes tinham feito parte do telhado enrugadas no campo para onde o vento as havia soprado. No celeiro eles juntaram uns poucos punhados de algum cereal que ele não reconheceu no chão empoeirado de um depósito de metal e pararam para comê-lo com poeira e tudo. Depois se puseram a caminho da estrada através dos campos.

Seguiram um muro de pedra atravessando as ruínas de um pomar. As árvores em suas fileiras ordenadas retorcidas e pretas e seus ramos caídos profusamente no chão. Ele parou e olhou através dos campos. Vento a leste. As cinzas macias movendo-se nos sulcos. Parando. Movendo-se outra vez. Ele tinha visto tudo aquilo antes. Manchas de sangue coagulado no capim seco e rolos cinzentos de vísceras onde as pessoas mortas violentamente tinham sido estripadas e arrastadas para outro lugar. O muro adiante ostentava um friso de cabeças humanas, todas com rostos parecidos, secos e murchos com seu arreganhar teso de dentes e os olhos afundados. Usavam argolas de ouro nas orelhas de couro e no vento seu cabelo ralo e surrado enroscava-se no crânio. Os dentes nas

mandíbulas feito moldes dentários, as tatuagens cruas gravadas com alguma tintura caseira desbotadas sob o sol mendigado. Aranhas, espadas, alvos. Um dragão. Slogans em runas, credos escritos de maneira errada. Antigas cicatrizes com antigos motivos alinhavados nas beiradas. As cabeças que não tinham sido golpeadas com porretes até ficarem disformes tinham sido esfoladas e os crânios nus pintados e marcados na testa com garranchos e um crânio de ossos brancos tinha as suturas dos ossos pintadas cuidadosamente com tinta feito um projeto para montagem. Ele olhou para o menino atrás dele. Parado junto ao carrinho sob o vento. Olhou para o capim seco onde ele se movia e para as árvores escuras e retorcidas em suas fileiras. Uns poucos trapos de roupa soprados de encontro ao muro, tudo cinzento sobre as cinzas. Ele caminhou junto ao muro passando pelas máscaras numa última revista e subindo degraus até sair para onde o menino estava esperando.

Passou o braço pelo ombro dele. Está bem, ele disse. Vamos.

Ele tinha passado a ver uma mensagem em cada uma dessas últimas histórias, uma mensagem e uma advertência, e era isso o que mostrava ser aquele quadro dos mortos e dos devorados.

Acordou pela manhã e se virou no cobertor e olhou para a estrada lá atrás através das árvores para o caminho pelo qual tinham vindo a tempo de ver as pessoas marchando aparecendo em fileiras de quatro, ombro a ombro. Vestidas com roupas de todas as descrições, todas usando lenços vermelhos no pescoço. Vermelhos ou laranja, o mais próximos do vermelho que puderam encontrar. Ele pôs a mão na cabeça do menino. Shh, ele disse.

O que foi, Papai?

Gente na estrada. Fique com a cabeça abaixada. Não olhe.

Nenhuma fumaça da fogueira extinta. O carrinho não estava visível. Ele se afundou no chão e ficou deitado observando através do antebraço. Um exército de tênis, caminhando pesadamente.

Carregando pedaços de cano com um metro de comprimento envolvidos em couro. Correias na cintura. Alguns dos canos estavam enroscados com pedaços de corrente de cuja ponta pendia todo tipo de porrete. Passaram com um estrépito, marchando com um vaivém como o de bonecos de corda. Barbados, seu hálito fumegando através das máscaras. Shh, ele disse. Shh. A falange que se seguia carregava lanças ornadas com fitas, as lâminas compridas feitas com martelo usando molas de caminhão em alguma ferraria tosca do interior. O menino estava deitado com o rosto entre os braços, aterrorizado. Passavam a sessenta metros de distância, o chão tremendo de leve. Com passos pesados. Atrás deles vinham vagões arrastados por escravos usando arreios e lotados com artigos de guerra e depois deles as mulheres, talvez uma dúzia delas, algumas grávidas, e por fim uma companhia suplementar de catamitas com roupas insuficientes para o frio, usando coleiras de cachorro e presos uns aos outros. Todos passaram. Eles ficaram ouvindo.

Já foram, Papai?

Sim, já foram.

Você viu eles?

Sim.

Eram os caras do mal?

Sim, eram os caras do mal.

Tem um bocado deles, desses caras do mal.

Tem sim. Mas eles já foram.

Puseram-se de pé e limparam as roupas, ouvindo o silêncio a distância.

Para onde eles vão, Papai?

Não sei. Estão em movimento. Isso não é um bom sinal.

Por que não é um bom sinal?

Simplesmente não é. Precisamos pegar o mapa e dar uma olhada.

Puxaram o carrinho do mato com o qual o haviam coberto e ele o levantou, empilhou os cobertores ali e os casacos, empurraram-no até a estrada e ficaram olhando para onde a última pessoa daquela horda esfarrapada parecia pender como uma imagem persistente no ar imóvel.

À tarde começou a nevar outra vez. Ficaram observando os flocos de um cinza pálido caindo como que de uma peneira da penumbra sombria. Continuaram caminhando com dificuldade. Um pouco de neve suja se acumulando na superfície escura da estrada. O menino estava a todo momento ficando para trás e ele parava para esperar. Fique comigo, falou.

Você anda rápido demais.

Vou mais devagar.

Seguiram em frente.

Você não está falando de novo.

Estou falando.

Quer parar?

Sempre quero parar.

Temos que tomar mais cuidado. Eu tenho que tomar mais cuidado.

Eu sei.

Vamos parar. Está bem?

Está bem.

Só temos que encontrar um lugar.

Está bem.

A neve que caía os encortinava. Não havia modo de ver coisa alguma em qualquer dos dois lados da estrada. Ele tossia outra vez e o menino tremia, os dois lado a lado sob a folha de plástico, empurrando o carrinho de supermercado através da neve. Por fim ele parou. O menino tremia de modo incontrolável.

Temos que parar, ele disse.

Está muito frio.

Eu sei.

Onde a gente está?

Onde a gente está?

É.

Não sei.

Se a gente fosse morrer você ia me dizer?

Não sei. Nós não vamos morrer.

Deixaram o carrinho virado num campo de junça e ele pegou os casacos e os cobertores envolvidos pela lona de plástico e seguiram adiante. Segure-se no meu casaco, falou. Não solte.

Atravessaram a junça até chegar a uma cerca e passaram por ela, segurando o arame um para o outro com as mãos. O arame estava frio e estalava nos grampos. Escurecia rápido. Seguiram em frente. O

lugar aonde chegaram era uma floresta de cedros, as árvores mortas e pretas mas ainda cheias o bastante para segurar a neve. Sob cada uma um precioso círculo de terra preta e folhas mortas de cedro.

Eles se arrumaram debaixo de uma árvore e empilharam os cobertores e casacos no chão e ele envolveu o menino com um dos cobertores e começou a juntar as agulhas mortas numa pilha.

Abriu com o pé uma clareira na neve onde o fogo não fosse incendiar a árvore e pegou madeira das outras árvores, quebrando os ramos e sacudindo a neve deles. Quando acendeu o isqueiro junto à

fértil isca o fogo pegou instantaneamente e ele soube que não duraria muito. Olhou para o menino.

Tenho que ir buscar mais lenha, ele disse. Vou estar nos arredores. Está bem?

Onde são os arredores?

Só quer dizer que não vou estar longe.

Está bem.

A neve a essa altura já alcançava uns quinze centímetros no chão. Ele tropeçou entre as árvores puxando os galhos caídos de onde eles se projetavam na neve e, quando já tinha uma braçada cheia e voltou para a fogueira, esta já estava reduzida a um ninho de brasas trêmulas. Jogou os galhos no fogo e saiu novamente. Difícil se afastar. A floresta estava ficando escura e a luz da fogueira não alcançava longe. Se ele se apressasse só ficava mais fraco. Quando olhou para trás o menino caminhava com dificuldade através da neve que chegava até o meio das suas canelas juntando ramos e empilhando-os nos braços.

A neve caía e não parou de cair. Ele acordou a noite inteira e se levantou e reavivou a fogueira. Tinha desdobrado a lona e escorado uma ponta debaixo da árvore para tentar refletir o calor da fogueira. Olhou para o rosto do menino dormindo sob a luz laranja. As bochechas afundadas sujas de preto. Lutou contra a raiva. Era inútil. Ele não achava que o menino pudesse viajar muito mais. Mesmo que parasse de nevar a estrada ficaria quase intransitável. A neve sussurrava na quietude e as centelhas se elevavam e enfraqueciam e morriam no negrume eterno.

Ele estava meio adormecido quando ouviu um estrondo na floresta. Depois mais um. Sentou-se. A fogueira estava reduzida a chamas espalhadas em meio às brasas. Ele ficou escutando. O

estalar comprido e seco de ramos se partindo. Depois outro estrondo. Estendeu o braço e sacudiu o menino. Acorde, ele disse. Temos que ir.

Ele esfregou os olhos para tirar o sono com as costas das mãos. O que foi? ele disse. O que foi, Papai?

Venha. Temos que ir.

O que foi?

São as árvores. Elas estão caindo.

O menino se sentou e olhou ao redor desesperadamente.

Está tudo bem, o homem disse. Venha. Temos que correr.

Ele pegou as cobertas e as dobrou e as envolveu com a lona. Olhou para cima. A neve caiu em seus olhos. A fogueira já quase não passava de carvões e não emitia luz alguma e a floresta tinha quase desaparecido e as árvores estavam caindo por toda parte ao redor deles na escuridão. O

menino se agarrava a ele. Afastaram-se e ele tentou encontrar um lugar desimpedido na escuridão mas por fim colocou a lona no chão e eles simplesmente se sentaram e ele puxou os cobertores por cima e abraçou o menino junto de si. O estrondo das árvores caindo e o baque fraco dos montes de neve explodindo no chão faziam o chão estremecer. Ele abraçou o menino e disse que ficaria tudo bem e que ia acabar logo e depois de algum tempo acabou. A surda confusão morrendo na distância.

E mais uma vez, solitário e muito distante. Depois nada. Pronto, ele disse. Acho que isso é tudo. Ele cavou um túnel debaixo de uma das árvores caídas, puxando a neve para fora com os braços, as mãos congeladas escondidas dentro das mangas. Arrastaram as cobertas lá para dentro e a lona e depois de algum tempo dormiram novamente apesar do frio intenso.

Quando o dia raiou ele abriu caminho para fora da toca deles, a lona pesada de neve. Ele se pôs de pé e olhou ao redor. Tinha parado de nevar e os cedros estavam espalhados em morros de neve e ramos quebrados e alguns poucos troncos que ainda estavam de pé desfolhados e queimados naquela paisagem cada vez mais acinzentada.Ele caminhou com dificuldade através dos montes de

neve deixando o menino adormecido sob a árvore como algum animal hibernando. A neve chegava quase aos seus joelhos. No campo a junça morta tinha sido levada até quase se perder de vista e a neve estava acumulada em montes pontiagudos sobre o arame da cerca e fazia um silêncio impassível. Ele ficou apoiado numa coluna tossindo. Fazia pouca ideia de onde o carrinho se encontrava e achou que estava ficando estúpido e que sua cabeça não estava funcionando direito.

Concentre-se, ele disse. Você tem que pensar. Quando ele se virou para voltar o menino o chamava.

Temos que ir, ele disse. Não podemos ficar aqui.

O menino olhava tristemente para os montes cinzentos de neve.

Vamos.

Abriram caminho por entre a cerca.

Aonde a gente vai? o menino disse.

Temos que encontrar o carrinho.

Ele apenas ficou ali, as mãos nas axilas da parca.

Venha, o homem disse. Você tem que vir.

Ele atravessou os campos cobertos de montes de neve. A neve estava funda e cinzenta. Já havia uma camada recente de cinzas sobre ela. Esforçou-se por mais alguns metros e depois se virou e olhou para trás. O menino tinha caído. Ele largou os cobertores e a lona que levava no braço, voltou e o levantou. Ele já estava tremendo. Ele o levantou e o abraçou.

Me desculpe, ele disse.

Me desculpe.

Demoraram muito tempo para encontrar o carrinho. Ele o apanhou no meio dos montes de neve e o endireitou e cavou para tirar a mochila e a balançou e abriu e enfiou ali um dos cobertores.

Colocou a mochila e os outros cobertores e os casacos no carrinho e pegou o menino e colocou-o no alto e desfez os laços dos seus sapatos e tirou-os. Então ele pegou sua faca e se pôs a cortar um dos casacos e a envolver os pés do menino. Usou o casaco inteiro e então cortou quadrados grandes de plástico da lona e os juntou por baixo e envolveu os pés e os amarrou na altura dos tornozelos do menino com o forro das mangas dos casacos. Recuou. O menino olhou para baixo. Agora você, Papai, ele disse. Ele envolveu o menino com um dos casacos e então se sentou na lona na neve e envolveu seus próprios pés. Levantou-se e aqueceu a mão dentro de sua parca e então guardou os sapatos deles na mochila junto com o binóculo e o caminhão do menino. Sacudiu a lona e a dobrou e amarrou junto com os outros cobertores no alto da mochila e então colocou-a sobre os ombros e deu uma última olhada no interior do carrinho, mas isso era tudo. Vamos, falou. O menino deu uma última olhada para o carrinho e a seguir o acompanhou até a estrada.

Era mais difícil prosseguir do que ele tinha imaginado. Depois de uma hora tinham avançado talvez um quilômetro e meio. Ele parou e olhou para o menino lá atrás. O menino parou e ficou esperando.

Você acha que nós vamos morrer, não acha?

Não sei.

Nós não vamos morrer.

Está bem.

Por que você acha que nós vamos morrer?

Não sei.

Pare de dizer não sei.

Está bem.

Por que você acha que nós vamos morrer?

Não temos nada para comer.

Vamos encontrar alguma coisa.

Está bem.

Quanto tempo você acha que as pessoas podem aguentar sem comida?

Não sei.

Mas quanto tempo você acha?

Talvez alguns dias.

E depois disso o quê? Você cai morto?

É.

Bem não cai. Leva muito tempo. Nós temos água. Isso é o mais importante. Você não dura muito tempo sem água.

Está bem.

Mas você não acredita em mim.

Não sei.

Ele o estudou. De pé ali com as mãos nos bolsos do paletó risca-de-giz grande demais.

Você acha que eu minto para você?

Não.

Mas você acha que talvez eu minta para você sobre morrer.

Acho.

Está bem. Talvez. Mas nós não vamos morrer.

Está bem.

Ele estudou o céu. Havia dias em que as nuvens no céu cinzento ficavam mais delgadas e agora as árvores que se erguiam ao longo da estrada faziam uma sombra suave sobre a neve.

Seguiram em frente. O menino não ia bem. Parou e examinou seus pés e amarrou de novo o plástico.

Quando a neve começasse a derreter seria difícil manter os pés secos. Paravam com frequência para descansar. Ele não tinha forças para carregar a criança. Sentaram-se na mochila e comeram punhados da neve suja. À tarde ela já começava a derreter. Passaram por uma casa queimada, somente a chaminé de tijolos de pé no quintal. Ficaram na estrada o dia todo, o que podiam chamar de dia. Tão poucas horas. Talvez tivessem avançado uns cinco quilômetros.

Ele achava que a estrada estaria tão ruim que ninguém passaria por ela mas estava errado.

Acamparam quase que na própria estrada e fizeram uma grande fogueira, arrastando ramos mortos da neve e empilhando-os sobre as chamas para vê-los sibilar e fumegar. Não havia outro modo. Os poucos cobertores que tinham não iam mantê-los aquecidos. Ele tentou ficar acordado. Despertava abruptamente com um salto e tateava ao redor procurando o revólver. O menino estava tão magro.

Ele o observou enquanto dormia. Rosto esticado e olhos encovados. Uma beleza estranha. Ele se levantou e levou mais madeira para a fogueira.

Caminharam até a estrada e pararam. Havia marcas na neve. Uma carreta. Algum tipo de veículo com rodas. Algo com pneus de borracha a tomar pelas marcas estreitas. Pegadas de botas entre as rodas. Alguém tinha passado na escuridão indo para o sul. Ao raiar do dia pelo menos.

Correndo pela estrada à noite. Ele ficou parado pensando naquilo. Caminhou com cuidado pelas marcas. Tinham passado a menos de quinze metros da fogueira e nem diminuíram para olhar. Ele ficou parado olhando para a estrada lá atrás. O menino o observava.

Temos que sair da estrada.

Por que, Papai?

Alguém está vindo.

São os caras maus?

São. Eu temo que sim.

Podiam ser os caras do bem. Não podiam?

Ele não respondeu. Olhou para o céu por puro hábito mas não havia nada para ver.

O que a gente vai fazer, Papai?

Vamos embora.

Podemos voltar para a fogueira?

Não. Venha. Provavelmente não temos muito

tempo.

Estou com muita fome.

Eu sei.

O que a gente vai fazer?

Temos que nos esconder. Sair da estrada.

Eles vão ver as nossas pegadas?

Vão.

O que a gente pode fazer?

Não sei.

Eles vão saber o que a gente é?

O quê?

Se eles virem as nossas pegadas. Vão saber o que a gente é?

Ele olhou para as grandes marcas redondas na neve. Vão fazer uma ideia, ele disse.

Então parou.

Temos que pensar nisso. Vamos voltar para a fogueira.

Ele pensou em encontrar algum lugar na estrada onde a neve tivesse derretido completamente mas então pensou que, já que as pegadas deles não iam reaparecer do outro lado, não adiantaria.

Chutaram neve para cima da fogueira e foram até as árvores e as circundaram e voltaram. Correram, deixando um labirinto de pegadas, e depois rumaram para o norte através da floresta sem perder a estrada de vista.

O lugar que escolheram foi simplesmente o mais alto que encontraram e dali enxergavam ao norte ao longo da estrada e também podiam ver suas pegadas. Ele estendeu a lona na neve molhada e envolveu o menino com os cobertores. Você vai ficar com frio, ele disse. Mas talvez não fiquemos aqui por muito tempo. Em menos de uma hora dois homens vieram pela estrada quase correndo.

Depois que passaram ele se pôs de pé para observá-los. E quando fez isso um deles parou e olhou para trás. Ele gelou. Estava envolvido com um dos cobertores cinzentos e seria difícil enxergá-lo mas não impossível. Mas pensou que eles provavelmente só tinham sentido o cheiro da fumaça.

Ficaram parados conversando. Depois seguiram em frente. Ele se sentou. Está tudo bem, ele disse.

Só temos que esperar. Mas acho que está tudo bem.

Não tinham comido nada e haviam dormido pouco durante cinco dias e nessas condições, nos arredores de uma cidadezinha, chegaram a uma mansão de outrora num lugar elevado sobre a estrada.

O menino ficou parado segurando sua mão. A neve já tinha derretido bastante no macadame e nos campos e florestas que davam para o sul. Ficaram parados ali. Os sacos de plástico em volta dos pés já tinham vazado havia muito e seus pés estavam úmidos e frios. A casa era alta e imponente com colunas dóricas brancas na frente. Uma entrada para carros na lateral. Uma passagem de cascalho que subia em curvas através de um campo de grama morta. As janelas estavam estranhamente intactas.

Que lugar é este, Papai?

Shh. Vamos só ficar aqui e escutar.

Não havia nada. O vento farfalhando entre as samambaias mortas na beira da estrada. Um estalido a distância. Porta ou veneziana.

Acho que devíamos dar uma olhada.

Papai não vamos subir ali.

Está tudo bem.

Não acho que a gente devia subir ali.

Está tudo bem. Temos que dar uma olhada.

Aproximaram-se devagar subindo pela passagem. Não havia marcas nos trechos de neve derretendo espalhados ao acaso. Uma sebe alta de alfeneiro morto. Um velho ninho de pássaros alojado em seu vime escuro. Ficaram parados no quintal estudando a fachada. Os tijolos da casa feitos à mão da mesma terra em que ela ficava. A pintura que descascava pendendo em tiras compridas e secas das colunas e da parte inferior, vergada. Uma lamparina que pendia de uma corrente lá no alto. O menino se agarrava a ele enquanto subiam os degraus. Uma das janelas estava ligeiramente aberta e uma corda saía dela e através da varanda para desaparecer na grama. Ele segurou a mão do menino enquanto cruzavam a varanda. Escravos haviam outrora passado por ali levando comida e bebida em bandejas de prata. Foram até a janela e olharam para dentro.

E se tiver alguém aqui, Papai?

Não tem ninguém aqui.

A gente devia ir, Papai.

Temos que achar alguma coisa para comer. Não temos escolha.

Podíamos achar alguma coisa em outro lugar.

Vai ficar tudo bem. Venha.

Ele pegou o revólver do cinto e forçou a porta. Ela girou devagar em suas grandes dobradiças de metal. Ficaram parados escutando. Entraram num amplo vestíbulo com piso num dominó de azulejos de mármore preto e branco. Uma ampla escadaria ascendente. Fino papel Morris nas paredes, manchado de água e caindo. O teto de gesso estava inchado em grandes bolsões e a cornija amarelada e mofada estava arqueada e solta das paredes de cima. Para a esquerda através do vão da porta ficava um grande aparador de nogueira onde devia ser a sala de jantar. As portas e as gavetas já não existiam mais, mas o resto era grande demais para queimar. Ficaram parados na porta.

Empilhado numa janela num dos cantos da sala estava um monte grande de roupas. Roupas e sapatos.

Cintos. Casacos. Cobertores e velhos sacos de dormir. Ele teria bastante tempo mais tarde para pensar naquilo. O menino segurava sua mão. Estava aterrorizado. Atravessaram o vestíbulo até a sala do outro lado, entraram nela e pararam. Um salão enorme com teto duas vezes mais alto do que a porta. Uma lareira com tijolos aparentes de onde o console e os outros detalhes de madeira tinham sido arrancados e queimados. Havia colchões e roupa de cama dispostos no chão em frente à lareira.

Papai, o menino sussurrou. Shh, ele disse.

As cinzas estavam frias. Havia algumas panelas enegrecidas por ali. Ele se pôs de cócoras e pegou uma delas e cheirou-a e colocou de volta. Levantou-se e olhou pela janela lá para fora. Grama cinzenta e pisoteada. Neve cinzenta. A corda que saía pela janela estava amarrada a um sino de metal e o sino estava preso numa guia tosca de madeira que tinha sido pregada à moldura da janela.

Ele segurou a mão do menino e os dois seguiram por um estreito corredor dos fundos até a cozinha.

Lixo empilhado por toda parte. Uma pia enferrujada. Cheiro de mofo e excrementos. Foram para o quartinho anexo, talvez uma despensa.

No chão desse quartinho havia uma porta ou alçapão e estava trancada com um grande cadeado feito de placas de metal empilhadas. Ele ficou parado olhando.

Papai, o menino disse. Devíamos ir, Papai.

Há uma razão para que isto esteja trancado.

O menino puxava sua mão. Estava à beira das lágrimas. Papai? ele disse.

Temos que comer.

Não estou com fome, Papai. Não estou.

Temos que encontrar um pé-de-cabra ou algo

assim.

Empurraram a porta dos fundos e saíram, o menino pendurando-se nele. Ele enfiou o revólver no cinto e ficou parado olhando para o quintal. Havia um caminho de tijolos e o vulto torcido e mais parecendo arame do que outrora havia sido uma fileira de buxos. No quintal havia um velho arado de ferro apoiado em pilares de tijolos empilhados e alguém tinha metido entre as barras um caldeirão de ferro fundido de 150 litros do tipo usado para cozinhar porcos. Debaixo dele havia as cinzas de uma fogueira e pequenas toras enegrecidas de madeira. Num dos lados uma pequena carroça com pneus de borracha. Todas essas coisas ele viu e não viu. Na outra extremidade do quintal havia um velho defumador de madeira e um depósito de ferramentas. Ele foi até lá meio que arrastando a criança e se pôs a vasculhar entre as ferramentas que estavam de pé num barril sob o telhado do depósito. Voltou com uma pá muito manuseada e ergueu-a com a mão. Venha, ele disse.

De volta à casa, golpeou a madeira em torno da argola do cadeado e por fim meteu a pá debaixo do grampo e arrancou-o. Estava preso através da madeira e a coisa inteira saiu, cadeado e tudo. Ele enfiou com o pé a lâmina da pá debaixo das pontas das tábuas e parou e pegou o isqueiro.

Então subiu na haste da pá e levantou a ponta do alçapão e se inclinou e segurou-a. Papai, o menino sussurrou.

Ele parou. Escute, ele disse. Pare com isso. Estamos morrendo de fome. Está entendendo?

Então ele levantou a porta do alçapão e abriu-a e deixou-a cair no chão atrás.

Espere aqui, ele disse.

Vou com você.

Achei que você estava com medo.

Estou com medo.

Está bem. Fique bem atrás de mim.

Ele começou a descer os degraus toscos de madeira. Enfiou a cabeça ali e acendeu o isqueiro e varreu a escuridão com a chama como se fosse uma oferenda. Frio e umidade. Um fedor terrível. O

menino agarrado ao seu casaco. Ele podia ver parte de uma parede de pedra. Chão de argila. Um velho colchão manchado de escuro. Ele se agachou e desceu mais um pouco e segurou a luz estendida. Amontoadas junto à parede estavam pessoas nuas, homens e mulheres, todos tentando se esconder, ocultando o rosto com as mãos. No colchão estava deitado um homem cujas pernas estavam faltando até a altura dos quadris e os cotos escuros e queimados. O cheiro era hediondo.

Jesus, ele sussurrou.

Então um a um eles se viraram e piscaram os olhos na luz fraca. Ajude-nos, eles sussurraram.

Por favor ajude-nos.

Cristo, ele disse. Oh Cristo.

Ele se virou e agarrou o menino. Rápido, ele disse. Rápido.

Tinha deixado cair o isqueiro. Não havia tempo para procurar. Empurrou o menino escada acima. Ajude- nos, eles gritaram.

Rápido.

Um rosto barbado apareceu piscando os olhos ao pé da escada. Por favor, ele disse. Por favor.

Rápido. Pelo amor de Deus rápido.

Ele empurrou o menino pelo alçapão e ele caiu estatelado. Levantou-se e segurou a porta e deixou que ela batesse e se virou para segurar o menino mas o menino tinha se levantado e estava dançando sua pequena dança de terror. Pelo amor de Deus venha, ele sibilou. Mas o menino estava apontando para a janela e quando ele olhou ficou gelado. Através do campo na direção da casa vinham quatro homens barbados e duas mulheres. Ele agarrou o menino pela mão. Cristo, ele disse.

Corra. Corra.

Ele irrompeu pela casa até a porta da frente e escada abaixo. Na metade do caminho de descida ele arrastou o menino para o campo. Olhou para trás. Estavam parcialmente ocultos pelas ruínas do alfeneiro mas sabia que no máximo tinham alguns minutos e talvez nenhum minuto em absoluto. Na extremidade do campo eles atravessaram uma moita de bambu morto e saíram para a estrada e a atravessaram para a floresta do outro lado. Ele redobrou o aperto no punho do menino.

Corra, ele sussurrou.Temos que correr.

Ele olhou na direção da casa mas não conseguia ver nada. Se eles descessem pela passagem, o veriam correndo em meio às árvores com o menino. Este é o momento. Ele caiu no chão e puxou o menino para si. Shh, ele disse. Shh.

Eles vão matar a gente? Papai?

Shh.

Eles ficaram deitados nas folhas e nas cinzas com o coração aos pulos. Ele ia começar a tossir. Teria que pôr a mão sobre a boca mas o menino a estava segurando e não soltava e com a outra mão ele segurava o revólver. Tinha que se concentrar para abafar a tosse e ao mesmo tempo tentava escutar. Ele girou o queixo em meio às folhas, tentando ver. Fique com a cabeça abaixada, ele sussurrou.

Eles estão vindo?

Não.

Rastejaram devagar por entre as folhas na direção do que parecia ser um terreno mais baixo.

Ele ficou deitado escutando, abraçado ao menino. Podia ouvi-los na estrada falando. Voz de uma mulher. Depois ouviu-os nas folhas secas. Pegou a mão do menino e colocou o revólver nela. Pegue, ele sussurrou. Pegue. O menino estava aterrorizado. Colocou o braço em torno dele e o abraçou. O

corpo tão magro. Não tenha medo, ele disse. Se eles te acharem você vai ter que fazer isto. Está entendendo? Shh. Não chore. Está me ouvindo? Você sabe como fazer. Coloca dentro da boca e aponta para cima. Faça rápido e com força. Está entendendo? Pare de chorar. Está entendendo?

Acho que sim.

Não. Está entendendo?

Estou.

Diga estou entendendo Papai.

Estou entendendo Papai.

Baixou os olhos para ele. Tudo o que viu foi terror. Tirou a arma dele. Não está não, ele disse.

Eu não sei o que fazer, Papai. Eu não sei o que fazer. Onde é que você vai estar?

Está tudo bem.

Eu não sei o que fazer.

Shh. Eu estou bem aqui. Não vou te deixar. Promete.

Sim. Prometo. Eu ia correr. Tentar atraí-los para longe. Mas não posso te deixar.

Papai?

Shh. Fique abaixado.

Estou com tanto medo.

Shh.

Ficaram deitados escutando. Você consegue fazer isto? Quando o momento chegar? Quando o momento chegar não vai haver tempo. O momento é agora. Amaldiçoe Deus e morra. E se não disparar? Você poderia esmagar esse crânio adorado com uma pedra? Há um ser dentro de você sobre o qual você não sabe nada? Será possível? Segure-o nos braços. Assim mesmo. A alma é rápida. Puxe-o na sua direção. Beije-o. Rápido.

Ele esperou. O pequeno revólver niquelado em sua mão. Ia tossir. Concentrou a mente toda no esforço de reter a tosse. Tentava escutar mas não conseguia ouvir nada. Não vou te deixar, ele sussurrou. Não vou te deixar nunca. Está entendendo? Ficou deitado nas folhas abraçado ao menino trêmulo. Segurando com força o revólver. Durante todo o longo crepúsculo e pela escuridão adentro.

Fria e sem estrelas. Abençoada. Começou a acreditar que tinham uma chance. Só temos que esperar, ele sussurrou. Tanto frio. Ele tentava pensar mas sua mente rodava. Ele estava tão fraco.

Toda essa conversa sobre correr. Ele não podia correr. Quando estava realmente escuro ele desatou as tiras da mochila e puxou os cobertores e estendeu-os sobre o menino e logo o menino estava adormecido.

Durante a noite ele ouviu gritos medonhos vindo da casa e tentou cobrir as orelhas do menino e depois de algum tempo os gritos pararam. Ficou deitado escutando. Quando tinha passado através da moita de bambu na direção da estrada ele tinha visto uma caixa. Algo como uma casinha de crianças. Deu-se conta de que era ali que ficavam observando a estrada. Deitados aguardando e tocando o sino na casa para que seus companheiros viessem. Cochilou e acordou. O que está vindo?

Passos nas folhas. Não. Apenas o vento. Nada. Ele se sentou e olhou na direção da casa mas só o que conseguia ver era escuridão. Sacudiu o menino para acordá-lo. Vamos, ele disse. Temos que ir. O

menino não respondeu, mas sabia que ele estava acordado. Ele puxou os cobertores e prendeu-os com as correias à mochila. Venha, sussurrou.

Eles se puseram a caminho através da floresta escura. Havia uma lua em algum lugar para além das nuvens cinzentas e só conseguiam divisar as árvores. Cambaleavam como bêbados. Se eles encontrarem a gente vão nos matar, não vão Papai.

Shh. Chega de conversa.

Não vão Papai.

Shh. Sim. Vão sim.

Ele não tinha ideia da direção que poderiam ter tomado e seu medo era o de que pudessem andar em círculo e voltar para a casa. Tentou se lembrar se sabia de alguma coisa sobre aquilo ou se era apenas uma fábula. Em que direção os homens perdidos se desviavam? Talvez mudasse com os hemisférios. Ou com serem destros ou canhotos. Por fim tirou aquilo da cabeça. A noção de que podia haver algo por que se corrigir. Sua mente o estava traindo. Fantasmas que não se ouviam fazia mil anos erguendo-se devagar do sono. Corrija-se por isso. Os passos do menino vacilavam. Pediu para ser carregado, tropeçando e falando de modo quase ininteligível, e o homem o carregou e ele adormeceu em seu ombro instantaneamente. Ele sabia que não aguentaria por muito tempo.

Acordou na escuridão da floresta sobre as folhas tremendo violentamente. Sentou-se e tateou ao redor em busca do menino. Pôs a mão sobre as costelas magras. Calor e movimento. Coração

batendo.

Quando acordou novamente havia quase luz suficiente para enxergar. Jogou para trás o cobertor e se pôs de pé e quase caiu. Endireitou-se e tentou ver ao seu redor na floresta cinzenta.

Quanto tinham avançado? Andou até o alto de uma elevação e se agachou e observou o dia nascer. A aurora avarenta, o mundo frio e ilúcido. Na distância o que parecia ser uma floresta de pinheiros, crua e preta. Um mundo sem cor feito de arame e crepe. Voltou, pegou o menino e fez com que ele se sentasse. Sua cabeça não parava de cair para a frente. Temos que ir, ele disse. Temos que ir.

Carregou-o através do campo, parando para descansar a cada cinquenta passos contados.

Quando chegou aos pinheiros ajoelhou-se e o colocou sobre o chão arenoso de folhas mortas e cobriu-o com os cobertores e ficou sentado observando-o. Parecia saído de um campo de extermínio.

Faminto, exausto, doente de medo. Inclinou-se, beijou-o, se levantou e caminhou até a borda da floresta e depois caminhou pelo perímetro ao redor para ver se estavam a salvo.

Do outro lado do campo rumo ao sul podia ver o vulto de uma casa e um celeiro. Para além das árvores a curva de uma estrada. Um longo caminho com grama morta. Hera morta sobre um muro de pedra e uma caixa de correio e uma cerca ao longo da estrada e as árvores mortas depois. Tudo frio e silencioso. Envolvidos pela mortalha da névoa de carbono. Ele caminhou de volta e se sentou ao lado do menino. Tinha sido o desespero que o levara a tamanho descuido e ele sabia que não podia fazer aquilo de novo. Não importava o quê.

O menino dormia havia horas. Imóvel como se estivesse petrificado de medo. Tinha acontecido antes. Ele pensou em acordá-lo mas sabia que ele não se lembraria de nada se fizesse isso. Ele o havia treinado a se entocar na floresta como um filhote de corça. Por quanto tempo? No fim tirou o revólver do cinto e deixou-o do lado dele sob os cobertores e se levantou e se pôs a caminho.

Chegou ao celeiro vindo pelo morro acima dele, parando para observar e para escutar. Abriu caminho entre as ruínas de um velho pomar de maçãs, tocos pretos e nodosos, a grama morta na altura de seus joelhos. Ficou parado na

entrada do celeiro escutando. Tirinhas de luz pálida. Caminhou pelas baias empoeiradas. Ficou parado no centro do celeiro escutando mas não havia nada. Subiu a escada para o sótão e estava tão fraco que não tinha certeza de conseguir chegar até o alto. Foi até o final do sótão e olhou pela alta janela com empena para a região lá embaixo, a terra loteada morta e cinzenta, a cerca, a estrada.

Havia fardos de feno no chão do sótão e ele se agachou e separou um punhado de sementes e se sentou mastigando-as. Ásperas e secas e empoeiradas. Tinham que conter algum nutriente. Ele se levantou e rolou dois dos fardos pelo chão e deixou-os cair no celeiro lá embaixo. Dois baques empoeirados. Ele voltou para junto da empena e ficou estudando o que podia ver da casa para além da quina do celeiro. Então desceu a escada.

A grama entre a casa e o celeiro parecia intocada. Ele atravessou até a varanda. A tela da varanda podre e caindo. Uma bicicleta de criança. A porta da cozinha estava aberta e ele atravessou a varanda e parou na porta. Revestimento barato de compensado curvado com a umidade.

Desmoronando dentro da cozinha. Uma mesa vermelha de fórmica. Atravessou a cozinha e abriu a porta da geladeira. Havia alguma coisa numa das prateleiras sob uma camada de pêlo cinza. Ele fechou a porta. Lixo em toda parte. Pegou uma vassoura num canto e cutucou ao redor com o cabo.

Subiu no bdcão e tateou em meio à poeira no alto dos armários. Uma ratoeira. Um pacote de alguma coisa. Ele soprou a poeira. Era um pó com sabor de uva para fazer bebidas. Colocou num bolso do casaco.

Vasculhou a casa quarto por quarto. Não encontrou nada. Uma colher na gaveta da mesa-de-

cabeceira. Colocou-a no bolso. Pensou que poderia haver algumas roupas num armário ou roupa de cama mas não havia nada. Voltou e foi até a garagem. Examinou as ferramentas. Ancinhos. Uma pá.

Frascos de vidro com pregos e parafusos numa estante. Um estilete. Segurou-o sob a luz, olhou para a lâmina enferrujada e colocou-o de volta. Depois pegou-o de novo. Apanhou uma chave de fenda numa lata de café e abriu o cabo. Dentro havia quatro lâminas novas. Tirou a lâmina velha e deixou-a na prateleira e colocou uma das novas e aparafusou o cabo do estilete outra vez e recolheu a lâmina e colocou o estilete dentro do bolso. Depois pegou a chave de fenda e colocou-a no bolso também.

Voltou para o celeiro lá fora. Tinha um pedaço de pano que pretendia usar para juntar sementes dos fardos de feno mas quando chegou ao celeiro parou e ficou escutando o vento. Um estalar de folha-de-flandres em algum lugar no teto acima dele. Havia um odor remanescente de vacas no celeiro e ele ficou parado em pé ali pensando em vacas e se dando conta de que estavam extintas. Era verdade? Poderia haver uma vaca em algum lugar sendo alimentada e cuidada. Poderia?

Continuar: parte 4 de 7