A Estrada
A Estrada
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 7 partes.
É.
Eu não devia ter dito isso. Podíamos escrever uma carta para eles.
O menino balançou a cabeça. Está tudo bem, ele disse.
Ele carregou a pistola sinalizadora e assim que escureceu eles saíram pela praia para longe da fogueira e ele perguntou ao menino se ele queria disparar.
Você dispara, Papai. Você sabe como fazer isso.
Está bem.
Ele empunhou a arma e apontou-a para a enseada e puxou o gatilho. O clarão descreveu um arco na penumbra com um longo ruído sibilante e explodiu em algum lugar lá adiante sobre a água numa luz nublada e ficou pendendo ali. Os filetes quentes de magnésio foram caindo vagarosamente pela escuridão e a pálida linha da oscilação da maré surgiu no clarão e aos poucos desapareceu. Ele abaixou os olhos para o rosto erguido do menino.
Eles não conseguiriam ver isso de muito longe, conseguiriam, Papai?
Quem?
Qualquer um.
Não. Não muito longe.
Se você quisesse mostrar onde está.
Você quer dizer para os caras do bem?
É. Ou para qualquer pessoa que você quisesse que soubesse onde você está.
Como quem?
Não sei.
Como Deus?
É. Talvez alguém desse tipo.
Pela manhã ele fez uma fogueira e caminhou pela praia enquanto o menino dormia. Tinha saído não fazia muito tempo mas sentiu um estranho desconforto e quando voltou o menino estava de pé na praia envolvido em seus cobertores esperando por ele. Ele apertou o passo. Quando o alcançou ele estava se sentando.
O que foi? ele disse. O que foi?
Não estou me sentido bem, Papai.
Ele colocou a palma da mão sobre a testa do menino. Ele estava ardendo. Ele o apanhou e levou até a fogueira. Está tudo bem, ele disse. Você vai ficar bem.
Acho que vou ficar doente.
Está tudo bem.
Sentou-se com ele na areia e segurou sua testa enquanto ele se curvava e vomitava. Limpou a
boca do menino com a mão. Me desculpe, o menino disse. Shh. Você não fez nada de errado.
Levou-o ao acampamento e cobriu-o com cobertores. Tentou fazer com que bebesse um pouco d’água. Colocou mais lenha na fogueira e se ajoelhou com a mão em sua testa. Você vai ficar bem, disse. Estava aterrorizado.
Não vá embora, o menino falou.
É claro que eu não vou embora.
Nem por um tempinho só.
Não. Estou bem aqui.
Está bem. Está bem, Papai.
Ele o abraçou a noite inteira, cochilando e acordando aterrorizado, tentando sentir com a mão o coração do menino. Pela manhã não tinha melhorado. Tentou fazer com que bebesse um pouco de suco mas ele não quis. Apertou a mão contra sua testa, invocando um frescor que não vinha. Limpou sua boca pálida enquanto ele dormia. Vou fazer o que prometi, ele sussurrou. Não importa o que aconteça. Não vou te enviar para a escuridão sozinho.
Vasculhou no estojo de primeiros socorros do barco mas não havia nada de muito útil.
Aspirinas. Bandagens e desinfetante. Alguns antibióticos mas tinham prazo de validade curto. Ainda assim eram tudo o que tinha e ele ajudou o menino a beber e colocou uma das cápsulas em sua língua.
Estava banhado em suor. Já tinha tirado seus cobertores e agora abriu o zíper de seu casaco e despiu-o e depois tirou suas roupas e levou-o para longe da fogueira. O menino levantou os olhos para ele.
Estou com tanto frio, disse.
Eu sei. Mas você está com a temperatura muito alta e temos que te esfriar.
Pode me dar um outro cobertor?
Sim. Claro.
Você não vai se afastar.
Não. Não vou me afastar.
Levou as roupas imundas do menino para a arrebentação e as lavou, parado e tremendo na fria água salgada nu da cintura para baixo e agitando-as para cima e para baixo e torcendo-as.
Estendeu-as junto à fogueira em varas enterradas na areia de modo inclinado e colocou mais madeira no fogo e foi se sentar junto ao menino outra vez, alisando seu cabelo embaraçado. A noite abriu uma lata de sopa e colocou-a sobre os carvões e comeu e observou a escuridão se aproximando. Quando acordou estava deitado tremendo na areia e a fogueira tinha praticamente se reduzido a cinzas e era noite fechada. Ele se sentou desesperado e estendeu a mão para o menino. Sim, ele sussurrou. Sim.
Reacendeu a fogueira e pegou um pano e umedeceu-o e colocou sobre a testa do menino. A aurora invernosa se aproximava e quando havia luz suficiente para ver ele foi para a floresta para além das dunas e voltou arrastando um grande apanhado de ramos e galhos mortos e se pôs a quebrá-los e empilhá-los junto à fogueira. Esmagou aspirinas numa xícara e dissolveu-as em água e colocou um pouco de açúcar e se sentou e levantou a cabeça do menino e segurou a xícara enquanto ele bebia.
Caminhou pela praia, encurvado e tossindo. Ficou parado olhando para as ondas escuras lá adiante. Estava atordoado de fadiga. Voltou e se sentou junto ao menino e dobrou novamente o pano e enxugou sua testa e depois estendeu o pano sobre a testa. Você tem que ficar por perto, ele disse.
Você tem que ser rápido. Para poder ficar com ele. Abraçá-lo bem perto de si. O último dia da terra.
O menino dormiu o dia todo. Ele o acordava a toda hora para beber água com açúcar, a garganta seca do menino se contraindo e fazendo ruídos espasmódicos. Você tem que beber ele disse. Está bem, falou ofegante o menino. Girou a xícara na areia à sua frente e pôs o cobertor
dobrado como um travesseiro sob sua cabeça suada e cobriu-o. Você está com frio? ele disse. Mas o menino já tinha adormecido.
Tentou ficar acordado a noite inteira mas não conseguia. Despertava incontáveis vezes e se sentava e se estapeava ou se levantava para colocar madeira no fogo. Abraçava o menino e se curvava para ouvir a respiração difícil. A mão nas costelas magras e marcadas. Caminhou na praia até onde a luz alcançava e ficou parado com as mãos em punho no alto do crânio e caiu de joelhos soluçando de raiva.
Choveu brevemente à noite, um suave tamborilar sobre a lona. Ele puxou-a por cima deles e se virou e ficou deitado abraçado à criança, observando as chamas azuis através do plástico. Caiu num sono sem sonhos.
Quando acordou mal sabia onde estava. A fogueira tinha se apagado, a chuva tinha parado.
Jogou a lona para trás e se levantou apoiado nos cotovelos. Luz cinzenta do dia. O menino o observava. Papai, ele disse.
Sim. Estou bem aqui.
Posso beber um pouco d’água?
Sim. Sim, claro que pode. Como você está se sentindo?
Estou me sentindo meio esquisito.
Está com fome?
Na verdade só estou mesmo com sede.
Deixe-me pegar a água.
Ele puxou para trás os cobertores e se levantou e passou pela fogueira apagada e pegou a xícara do menino e encheu-a com água do jarro de plástico, voltou e se ajoelhou e segurou a xícara para ele. Você vai ficar bem, disse. O menino bebeu. Ele fez que sim e olhou para o pai. Depois bebeu o resto da água. Mais, falou.
Fez uma fogueira e pendurou as roupas molhadas do menino e levou para ele uma lata de suco de maçã. Você se lembra de alguma coisa? ele disse.
Sobre o quê?
Sobre ter ficado doente.
Eu me lembro de ter disparado a pistola sinalizadora.
Você se lembra de ter trazido as coisas do barco?
Ele ficou sentado bebendo o suco. Levantou os olhos. Não sou um retardado, ele disse.
Eu sei.
Tive uns sonhos estranhos.
Sobre o quê?
Não quero te contar.
Está tudo bem. Quero escovar seus dentes.
Com pasta de dente de verdade.
Sim.
Está bem.
Ele verificou todas as latas de comida mas não conseguiu encontrar nada suspeito. Jogou fora algumas que pareciam bastante enferrujadas. Ficaram sentados naquela noite junto ao fogo e o menino tomou sopa quente e o homem virou suas roupas fumegantes nas varas e ficou sentado observando-o até que o menino se sentiu embaraçado. Pare de ficar me olhando, Papai, ele disse.
Está bem.
Mas ele não parou.
Dois dias depois caminhavam pela praia até o promontório e de volta, caminhando com dificuldade em seus sapatos de plástico. Comeram refeições imensas e ele fez um telhado de meia-água com pano de vela, cordas e varas para protegê-los do vento. Reduziu os suprimentos a um carregamento adequado para o carrinho e achava que poderiam partir dentro de mais dois dias. Então voltando ao acampamento tarde naquele dia ele viu marcas de botas na areia. Parou e ficou olhando para a praia. Oh Cristo, ele disse. Oh Cristo.
O que foi, Papai?
Ele tirou o revólver do cinto. Venha ele disse. Rápido.
A lona tinha sumido. Seus cobertores. A garrafa d’água e seu suprimento de comida que estava no acampamento. O pano de vela tinha sido soprado até as dunas. Seus sapatos tinham sumido. Ele correu até a faixa de areia onde tinha deixado o carrinho mas o carrinho tinha sumido.
Tudo. Seu idiota, ele disse. Seu idiota.
O menino estava parado ali de olhos arregalados. O que aconteceu, Papai?
Eles levaram tudo. Venha.
O menino levantou os olhos. Estava começando a chorar.
Fique perto de mim, o homem disse. Fique bem perto de mim.
Podia ver as marcas do carrinho onde eles tropeçavam pela areia fofa. Pegadas de bota.
Quantas? Eles perderam de vista as marcas no terreno mais firme depois das samambaias e em seguida as encontraram de novo. Quando chegaram à estrada ele parou o menino com a mão. A estrada ficava exposta ao vento marinho e as cinzas tinham sido sopradas para longe, à exceção de pontos aqui e ali. Não pise na estrada, ele disse. E pare de chorar. Precisamos tirar toda a areia dos nossos pés. Venha. Sente-se.
Ele retirou os panos e plásticos que envolviam seus pés e sacudiu-os e amarrou-os de volta.
Quero que você ajude, ele disse. Vamos procurar areia. Areia na estrada. Mesmo que só um pouquinho. Para ver em que direção eles foram. Está bem?
Está bem.
Eles partiram pela estrada em direções opostas. Não tinham ido muito longe quando o menino chamou. Está aqui, Papai. Eles foram nesta direção. Quando chegou lá o menino estava agachado na estrada. Exatamente aqui, ele disse. Era meia colher de chá de areia da praia caída de algum lugar na estrutura inferior do carrinho de compras. O homem ficou parado de pé e olhou para a estrada. Bom trabalho, ele disse. Vamos.
Puseram-se a caminho num trote regular. Um passo que achou que ele fosse conseguir acompanhar mas não conseguiu. Ele levantou os olhos para o menino, respirando com dificuldade.
Temos que caminhar, ele disse. Se eles nos ouvirem vão se esconder na beira da estrada. Vamos.
Quantos são, Papai?
Não sei. Talvez só um.
A gente vai matar eles?
Não sei.
Seguiram em frente. O dia já ia adiantado e mais uma hora já tinha se passado e o longo crepúsculo avançava quando alcançaram o ladrão, curvado sobre o carrinho cheio, seguindo pela estrada diante deles. Quando olhou para trás e os viu tentou correr com o carrinho mas era inútil e por fim ele parou e ficou parado atrás do carrinho segurando uma faca de açougueiro. Quando viu o revólver recuou mas não deixou cair a faca.
Afaste-se do carrinho, o homem disse.
Ele olhou para eles. Olhou para o menino. Era um pária de uma das comunas e os dedos de sua mão direita tinham sido decepados. Tentou escondê-la atrás do corpo. Uma espécie de espátula carnuda. O carrinho estava cheio até o alto. Ele tinha levado tudo.
Afaste-se do carrinho e largue a faca.
Ele olhou ao redor. Como se pudesse haver ajuda em algum lugar. Esquelético, soturno, barbado, imundo. O casaco velho de plástico todo preso com fita isolante. O revólver era de ação dupla mas o homem engatilhou-o assim mesmo. Dois cliques altos. Fora isso apenas a respiração deles no silêncio da charneca salgada. Podiam sentir o cheiro dele em seus trapos imundos. Se você não largar a faca e se afastar do carrinho, o homem disse, vou estourar seus miolos. O ladrão olhou para a criança e o que ele viu fez com que se contivesse. Colocou a faca em cima dos cobertores, recuou e ficou parado.
Para trás. Mais.
Ele recuou de novo.
Papai? o menino disse.
Fique quieto.
Ele não tirava os olhos do ladrão.
Maldito, ele disse.
Papai por favor não mate esse homem.
Os olhos do ladrão giravam loucamente. O menino chorava.
Vamos lá, cara. Eu fiz o que você disse. Escute o menino.
Tire a roupa.
O quê?
Tire-a. Até a última droga de peça.
Espera aí. Não faça isso.
Eu vou te matar aí mesmo.
Não faça isso, cara.
Não vou falar outra vez.
Tudo bem. Tudo bem. Vá com calma.
Ele tirou a roupa devagar e empilhou seus trapos desprezíveis na estrada.
Os sapatos.
Qual é, cara.
O ladrão olhou para o menino. O menino tinha se virado e colocado as mãos sobre os ouvidos. Tudo bem, ele disse. Tudo bem. Sentou-se nu na estrada e começou a desamarrar os pedaços podres de couro atados aos seus pés. Depois se levantou, segurando-os numa das mãos.
Coloque no carrinho.
Ele se aproximou e colocou os sapatos em cima dos cobertores e recuou. De pé ali tosco e nu, imundo, faminto. Cobrindo-se com a mão. Já estava tremendo.
Coloque as roupas ali dentro.
Ele se abaixou e recolheu os trapos nos braços e empilhou-os por cima dos sapatos. Ficou parado ali abraçando o próprio corpo. Não faça isso, cara.
Você não se incomodou em fazer isso conosco.
Estou te implorando.
Papai, o menino disse.
Vamos lá. Escure o menino.
Você tentou nos matar.
Estou morrendo de fome, cara. Você teria feito a mesma coisa.
Você levou tudo.
Qual é, cara. Eu vou morrer.
Vou te deixar do jeito que você nos deixou.
Qual é. Estou te implorando.
Ele empurrou o carrinho para trás e colocou o revólver por cima e olhou para o menino.
Vamos, ele disse. E partiram pela estrada rumo ao sul com o menino chorando e olhando para a criatura nua e magra como uma tábua lá atrás parada na estrada tremendo e abraçando o próprio corpo. Oh Papai, ele soluçou.
Pare.
Não consigo parar.
O que você acha que teria acontecido conosco se não tivéssemos alcançado ele? Pare.
Estou tentando.
Quando chegaram à curva da estrada o homem ainda estava lá de pé. Não havia lugar algum aonde pudesse ir. O menino não parava de olhar para trás e quando já não conseguia mais enxergá-lo parou e simplesmente ficou sentado na estrada soluçando. O homem parou o carrinho e ficou olhando para ele. Desenterrou os sapatos deles do carrinho e se sentou e começou a tirar os panos e plásticos do pé do menino. Você tem que parar de chorar, ele disse.
Não consigo.
Colocou os sapatos deles e depois se levantou e voltou pela estrada mas não conseguiu ver o ladrão. Voltou e ficou parado diante do menino. Ele foi embora,disse.Vamos.
Ele não foi embora, o menino disse. Olhou para cima. Seu rosto riscado de fuligem. Não foi.
O que você quer fazer?
Só ajudá-lo, Papai. Só ajudá-lo.
O homem olhou outra vez para a estrada.
Ele só estava com fome, Papai. Ele vai morrer.
Ele vai morrer de qualquer maneira.
Ele está com tanto medo, Papai.
O homem se agachou e olhou para ele. Eu estou com medo, falou. Está entendendo? Eu estou com medo.
O menino não respondeu. Continuou apenas com a cabeça baixa, soluçando.
Não é você quem tem que se preocupar com tudo.
O menino disse alguma coisa mas ele não conseguiu entender. O quê? falou.
Ele levantou os olhos, o rosto úmido e sujo. Sim, sou eu, ele disse. Sou eu.
Empurraram o carrinho vacilante outra vez para a estrada e ficaram parados ali no frio e na escuridão que se aproximava e chamaram mas ninguém veio.
Ele está com medo de responder, Papai.
Foi aqui que a gente parou?
Não sei. Acho que sim.
Foram pela estrada chamando na penumbra vazia, suas vozes perdidas na costa cada vez mais escura. Pararam e ficaram ali com as mãos em forma de concha na boca, gritando insensatamente para a desolação. Por fim ele empilhou as roupas e os sapatos do homem na estrada. Colocou uma pedra por cima. Temos que ir, ele disse. Temos que ir.
Acamparam sem fazer fogueira. Ele escolheu latas para o jantar e as aqueceu no bico de gás e comeram e o menino não disse nada. O homem tentava ver o rosto dele na luz azul que vinha do bico de gás. Eu não ia matá-lo, ele disse. Mas o menino não respondeu. Eles se enrolaram nos cobertores e ficaram deitados ali na escuridão. Ele achou que podia ouvir o mar mas talvez fosse só o vento.
Sabia pela respiração dele que o menino estava acordado e depois de algum tempo o menino disse: Mas a gente matou ele.
Pela manhã comeram e se puseram a caminho. O carrinho estava tão cheio que era difícil empurrá-lo e uma das rodas estava enguiçando. A estrada descrevia uma curva ao longo da costa, feixes mortos de capim costeiro pendendo sobre o pavimento. O mar cor de chumbo se movendo a distância. O silêncio. Acordou naquela noite com a luz opaca de carbono da lua que atravessava o céu para além da penumbra tornando os vultos das árvores quase visíveis e ele virou o rosto tossindo. Cheiro de chuva ao longe. O menino estava acordado. Você tem que falar comigo, ele disse. Estou tentando.
Desculpe-me ter te acordado.
Tudo bem.
Ele se levantou e foi até a estrada. Seu vulto negro correndo da escuridão para a escuridão.
Depois um ribombo distante e baixo. Não era trovão. Dava para senti-lo debaixo dos pés. Um som sem igual e tão sem descrição. Alguma coisa imponderável se movendo lá fora na escuridão. A própria terra se contraindo com o frio. O barulho não se repetiu. Qual a época do ano? Qual a idade da criança? Caminhou até a estrada e ficou parado. O silêncio. O salitre da terra secando. Os vultos enlameados de cidades inundadas queimadas até a linha d’água. Numa encruzilhada pedras de um dólmen no chão onde se desfazem os ossos de oráculos que antes falaram. Nenhum som além do
vento. O que irá se dizer? Um homem vivo falou essas linhas? Afiou uma pena com seu pequeno canivete para escrever estas coisas em abrunho ou negro-de-fumo? Em algum momento marcado e reconhecível? Ele está vindo roubar meus olhos. Selar minha boca com terra.
Vasculhou entre as latas outra vez uma por uma, segurando-as na mão e espremendo-as como um homem verificando se as frutas de uma barraca estavam maduras. Separou duas que pareciam questionáveis e embalou o resto e encheu o carrinho e partiram novamente pela estrada. Em três dias chegaram a uma cidadezinha portuária e esconderam o carrinho numa garagem atrás de uma casa e empilharam caixas velhas por cima dele e depois se sentaram na casa para ver se alguém viria.
Ninguém veio. Vasculhou dentro dos armários mas não havia nada ali. Precisava de vitamina D para o menino ou ele iria ficar raquítico. Ficou parado diante da pia e olhou para o caminho de entrada.
Luz da cor de água suja se petrificando nos vidros imundos da janela. O menino se sentava recurvado à mesa com a cabeça nos braços.
Caminharam através da cidade e até as docas. Não viram ninguém. Ele levava o revólver no bolso do casaco e carregava a arma sinalizadora na mão. Caminharam até o píer, as tábuas toscas escuras com piche e presas com espigões às vigas lá embaixo. Postes de amarração de madeira.
Cheiro fraco de sal e creosoto vindo da baía. Na margem distante uma fileira de armazéns e o vulto de um petroleiro avermelhado de ferrugem. Um alto pórtico de grua contra o céu soturno. Não há ninguém aqui, ele disse. O menino não respondeu.
Empurraram o carrinho por ruas secundárias e através dos trilhos da ferrovia e saíram de novo na estrada principal do outro lado da cidade. Quando passavam pelo último dos tristes edifícios de madeira alguma coisa passou assobiando ao lado de sua cabeça e ricocheteou com barulho na rua e se fragmentou contra a parede do bloco de edifícios do outro lado. Ele agarrou o menino e se jogou sobre ele e agarrou o carrinho para puxá-lo para junto deles. O carrinho virou e caiu espalhando a lona e os cobertores na rua. Numa janela mais no alto da casa ele pôde ver um homem apontando um arco para eles e empurrou a cabeça do menino para baixo e tentou cobri-lo com seu corpo. Ouviu o som vibrante da corda do arco e sentiu uma dor aguda e quente na perna. Ah seu imbecil, ele disse. Seu imbecil. Agarrou os cobertores removendo-os para um dos lados e estendeu a mão e pegou a pistola sinalizadora e se levantou e empunhou-a e descansou o braço na lateral do carrinho. O menino se agarrava a ele. Quando o homem voltou a aparecer entre a moldura da janela para disparar novamente com o arco ele atirou. O clarão subiu como um foguete na direção da janela num longo arco branco e puderam ouvir o homem gritando. Ele agarrou o menino e o empurrou para baixo e arrastou os cobertores para cima dele. Não se mexa, falou. Não se mexa e não olhe. Ele puxou os cobertores pela rua procurando o estojo da pistola sinalizadora. Finalmente o estojo escorregou para fora do carrinho, ele o agarrou, abriu e tirou dali os cartuchos, e recarregou a pistola e fechou a culatra e colocou o resto dos cartuchos no bolso. Fique bem aí onde você está, sussurrou. Deu uns tapinhas no menino através dos cobertores e se levantou e correu mancando pela rua.
Entrou na casa pela porta dos fundos com a pistola de sinalização empunhada na altura da cintura. A casa tinha sido despida de tudo a ponto de aparecerem os caibros verticais das paredes.
Ele atravessou a sala de estar e ficou parado no pé da escada. Pôs-se a escutar para saber se havia movimento no andar de cima. Olhou pela janela da frente para onde o carrinho estava caído na rua e depois subiu a escada.
Uma mulher estava sentada no canto abraçada ao homem. Ela tinha tirado o casaco para cobri-lo. Assim que o viu começou a xingá-lo. A chama tinha incendiado o chão deixando uma trilha de cinzas brancas e havia um leve cheiro de madeira queimada no quarto. Ele atravessou o quarto e
olhou pela janela. Os olhos da mulher o acompanharam. Esquelética, cabelo escorrido e grisalho.
Quem mais está aqui em cima?
Ela não respondeu. Ele passou por ela e foi aos outros quartos. Sua perna sangrava muito.
Podia sentir as calças colando na pele. Voltou ao quarto da frente. Onde está o arco? ele disse.
Não está comigo.
Onde está?
Não sei.
Eles deixaram vocês aqui, não deixaram?
Eu me deixei aqui.
Ele se virou e desceu mancando a escada e abriu a porta da frente e saiu para a rua caminhando de costas e observando a casa. Quando chegou ao carrinho endireitou-o e empilhou as coisas deles de volta lá dentro. Fique perto, sussurrou. Fique perto.
Eles se alojaram num depósito na saída da cidade. Ele empurrou o carrinho pelo local até um quarto nos fundos, fechou a porta e empurrou o carrinho contra ela de lado. Tirou o bico e o tanque de gás e acendeu o bico e colocou-o no chão e depois desafivelou seu cinto e tirou as calças manchadas de sangue. O menino observava. A seta havia feito um corte logo acima do joelho com cerca de oito centímetros de extensão. Ainda estava sangrando e toda a coxa estava descolorada e podia ver que o corte era fundo. Alguma ponta de seta feita em casa usando metal, uma colher velha, sabe Deus o quê. Ele olhou para o menino. Veja se consegue encontrar o estojo de primeiros socorros, falou.
O menino não se mexeu.
Pegue o estojo de primeiros socorros, droga. Não fique aí parado.
Ele se levantou com um salto e foi até a porta e começou a vasculhar por baixo da lona e dos cobertores empilhados no carrinho. Voltou com o estojo, deu-o para o homem e o homem o apanhou sem comentários, soltou as presilhas e abriu-o. Alcançou o bico de gás e aumentou a chama para ter mais luz. Traga a garrafa d’água, falou. O menino levou a garrafa e o homem desatarraxou a tampa e derramou água sobre a ferida e a manteve fechada com os dedos enquanto limpava o sangue. Passou desinfetante no ferimento e abriu um envelope plástico usando os dentes e tirou uma pequena agulha de sutura em forma de gancho e um rolo de fio de seda e ficou sentado segurando o fio contra a luz enquanto passava-o pelo buraco da agulha. Pegou uma pinça no estojo e com ela segurou a agulha e começou a suturar a ferida. Trabalhava rápido, sem tomar muito cuidado. O menino estava agachado no chão. Olhou para ele e voltou a se ocupar com a sutura. Você não tem que olhar.
Está tudo bem?
Sim. Está tudo bem.
Está doendo?
Sim. Está doendo.
Deu um nó no fio, puxou-o para esticá-lo e cortou o fio com a tesoura do estojo e olhou para o menino. O menino estava olhando para o que havia sido feito. Desculpe-me por ter gritado com você.
Ele ergueu os olhos. Está tudo bem, Papai.
Vamos recomeçar.
Está bem.
Pela manhã estava chovendo e um vento forte sacudia a vidraça nos fundos do depósito. Ele ficou de pé olhando para fora. Uma doca de aço meio desmoronada e submersa na baía. Cabines de barcos pesqueiros afundados se projetando das ondas encrespadas e cinzentas. Nada se movia lá
fora. Qualquer coisa que pudesse se mover já tinha sido soprada para longe havia muito tempo. Sua perna latejava e ele tirou as bandagens e desinfetou a ferida e a examinou. A pele inchada e descolorada na treliça dos pontos pretos. Atou as bandagens e vestiu as calças endurecidas de sangue.
Passaram o dia ali, sentados em meio a caixas e engradados. Você tem que falar comigo, ele disse.
Estou falando.
Tem certeza?
Estou falando agora.
Quer que eu te conte uma história?
Não.
Por que não?
O menino olhou para ele e desviou o olhar.
Por que não?
Essas histórias não são verdadeiras.
Elas não têm que ser verdadeiras. São histórias.
E. Mas nas histórias estamos sempre ajudando as pessoas e nós não ajudamos as pessoas.
Por que você não me conta uma história?
Não quero.
Está bem.
Não tenho nenhuma história para contar.
Você podia me contar uma história sobre você mesmo.
Você já conhece todas as histórias sobre mim. Você estava lá.
Você tem histórias por dentro que eu não conheço. Quer dizer como sonhos?
Como sonhos. Ou coisas em que você pensa.
É, mas as histórias deveriam ser felizes.
Elas não têm que ser.
Você sempre conta histórias felizes.
Você não tem nenhuma história feliz?
Elas são mais tipo vida real.
Mas as minhas histórias não são.
As suas histórias não são. Não.
O homem o observava. A vida real é bem ruim? O que você acha?
Bem, acho que ainda estamos aqui. Um bocado de coisas ruins aconteceu mas ainda estamos aqui.
É.
Você não acha que isso seja tão bom.
Está bem para mim.
Tinham puxado uma bancada até a janela e estendido os cobertores e o menino estava deitado ali de barriga olhando para a baía lá fora. O homem se sentou com a perna esticada. No cobertor entre os dois estavam as duas armas e a caixa de cartuchos de sinalização. Depois de um tempo o homem disse: Acho que é bem boa. É uma história bem boa. Tem os seus méritos.
Está tudo bem, Papai. Eu só quero ter um tempo em silêncio.
E quanto aos sonhos? Você costumava me contar seus sonhos às vezes.
Não quero falar sobre nada.
Está bem.
De todo modo não tenho bons sonhos. Eles são sempre sobre alguma coisa ruim acontecendo.
Você disse que tudo bem porque sonhos bons não são um bom sinal.
Talvez. Não sei.
Quando você acorda tossindo você anda lá pela estrada ou para algum lugar mas eu ainda posso te ouvir tossindo.
Sinto muito.
Uma vez eu te ouvi chorando.
Eu sei.
Então se eu não devia chorar você também não devia chorar.
Está bem.
Sua perna vai melhorar?
Vai.
Você não está falando por falar.
Não.
Porque ela está parecendo bem machucada.
Não está tão ruim.
O homem estava tentando nos matar. Não estava.
É.Estava
Você matou ele?
Não.
Isso é verdade?
É.
Está bem.
Tudo bem para você?
Tudo.
Pensei que você não quisesse falar.
Não quero.
Partiram dois dias depois, o homem mancando atrás do carrinho e o menino grudado ao seu lado até terem saído dos arredores da cidade. A estrada corria junto à costa plana e cinzenta e havia montes de areia na estrada que o vento levara até lá. Isso tornava o avanço difícil e tinham que limpar o caminho em certos lugares com uma tábua que levavam na parte inferior do carrinho. Foram até a praia e se sentaram em meio à proteção das dunas e estudaram o mapa. Tinham levado o bico de gás com eles e esquentaram água e fizeram chá e ficaram sentados embrulhados em seus cobertores para se proteger do vento. Mais abaixo na costa as vigas gastas pelo tempo de um antigo navio. Vigas cinzentas e carcomidas pela areia, velhas cavilhas torneadas a mão. As ferragens marcadas e de um lilás intenso, fundidas em alguma forja em Cádiz ou Bristol e moldadas numa bigorna enegrecida, boas o suficiente para durar trezentos anos contra o mar. No dia seguinte eles passaram pelas tábuas das ruínas de um balneário e pegaram a estrada que ia para o interior através de uma floresta de pinheiros, o asfalto comprido e reto coberto de agulhas, o vento nas árvores negras.
Ele se sentou na estrada ao meio-dia sob a melhor luz que poderia ter e cortou as suturas com a tesoura e colocou a tesoura de volta no estojo e tirou de lá a pinça. Então começou a puxar os fiapinhos pretos da pele, apertando com a parte chata do polegar. O menino estava sentado na estrada observando. O homem apertava a pinça nas pontas dos fios e os puxava um por um. Pequenos
pontos de sangue. Ao terminar guardou a pinça e atou o ferimento com gaze e depois se levantou e vestiu as calças e entregou o estojo ao menino para que o guardasse.
Isso doeu, não doeu? o menino disse.
É. Doeu.
Você é corajoso de verdade?
Mais ou menos.
Qual foi a coisa mais corajosa que você já fez?
Ele cuspiu na estrada um catarro ensanguentado.
Levantar hoje de manhã, falou.
Mesmo?
Não. Não ouça o que eu digo. Venha, vamos continuar.
A noite o vulto escuro de uma outra cidade costeira, o grupo de edifícios altos vagamente desalinhados. Ele achava que as estruturas de ferro tinham amolecido com o calor e depois endurecido de novo deixando os edifícios desnivelados. O vidro derretido das janelas pendia congelado nas paredes como cobertura de bolo. Seguiram em frente. Durante a noite ele às vezes acordava na desolação negra e gelada, vindo de mundos suavemente coloridos de amor humano, as canções dos pássaros, o sol.
Apoiou a testa nos braços cruzados sobre a barra onde empurrava o carrinho e tossiu. Cuspiu uma baba ensanguentada. Tinha que parar para descansar mais e mais. O menino o observava. Em algum outro mundo a criança já teria começado a apagá-lo de sua vida.
Mas ele não tinha uma outra vida. Sabia que o menino ficava deitado acordado à noite e com os ouvidos atentos para saber se ele estava respirando.
Os dias iam passando sem ser contados ou marcados em calendário. Pela rodovia interestadual à distância longas filas de carros carbonizados e enferrujados. Aros nus das rodas caídos numa espécie de lama dura e cinzenta de borracha derretida, em anéis enegrecidos de metal.
Os cadáveres incinerados reduzidos ao tamanho de crianças e apoiados nas molas expostas dos assentos. Dez mil sonhos sepultados dentro de seus corações queimados. Seguiram em frente.
Caminhando no mundo dos mortos como ratos numa esteira. As noites de um silêncio mortal e de uma escuridão ainda mais mortal. Tão frias. Mal conversavam. Ele tossia o tempo todo e o menino o observava cuspir sangue. Seguindo em frente cada vez pior. Imundos, esfarrapados, sem esperanças.
Ele parava e se apoiava no carrinho e o menino seguia em frente e então parava e olhava para trás, erguia os olhos cheios de lágrimas para vê-lo parado ali na estrada, fitando-o de algum futuro inimaginável, luzindo na desolação como um tabernáculo.
A estrada cruzou uma depressão onde canos de gelo se projetavam da lama congelada como formações numa caverna. Os restos de uma velha fogueira na beira da estrada. Para além disso uma comprida estrada de concreto. Um pântano morto. Árvores mortas se projetando da água cinzenta com restos de musgo cinzento. O transbordar sedoso das cinzas sobre a calçada. Ficou parado apoiando-se no parapeito arenoso de concreto. Talvez na destruição do mundo fosse finalmente possível ver como ele fora feito. Oceanos, montanhas. O grave antiespetá- culo das coisas deixando de existir. A desolação extensa, hidrópica e secularmente fria. O silêncio.
Tinham começado a se deparar com zonas de pinheiros mortos derrubados pelo vento, grandes esteiras de destroços abertas na região. Ruínas de construções espalhadas pela paisagem e meadas de fios de arame de postes na beira da estrada embaraçadas como linhas de tricô. A estrada estava entulhada com escombros e deu trabalho passar por ali com o carrinho. Por fim eles simplesmente se sentaram na beira da estrada e ficaram olhando para o que havia à frente. Telhados
de casas, troncos de árvores. Um barco. O céu aberto lá adiante onde na distância o mar soturno vagarosamente oscilava.
Eles vasculharam as ruínas espalhadas ao longo da estrada e no fim ele achou uma bolsa de lona que poderia pendurar no ombro e uma maleta para o menino. Guardaram os cobertores e a lona e o que restava da comida enlatada e partiram outra vez com suas mochilas e bolsas deixando o carrinho para trás. Subindo com dificuldade através das ruínas. Avançando devagar. Ele tinha que parar para descansar. Sentou-se num sofá na beira da estrada, as almofadas inchadas de umidade.
Curvado, tossindo. Puxou a máscara manchada de sangue de cima do rosto e se levantou e enxaguou-a no fosso e pendurou-a e permaneceu apenas parado ali na estrada. Seu hálito formando ondas de vapor branco. O inverno já tinha chegado. Virou-se e olhou para o menino.
De pé com a maleta como um órfão esperando por um ônibus.
Em dois dias chegaram a um amplo rio sazonal onde a ponte jazia desmoronada na água que se movia lentamente. Sentaram-se na beira rachada da estrada e observaram o rio recuando sobre si mesmo e serpenteando sobre a malha de ferro. Examinou a região que ficava do outro lado da água.
O que a gente vai fazer Papai? ele disse.
Bem, o que a gente vai fazer, disse o menino.
Caminharam pela comprida língua de terra enlameada pela maré onde um barquinho jazia meio enterrado e ficaram parados ali o observando. Estava totalmente arruinado. Havia chuva no vento. Caminharam com dificuldade pela praia levando sua bagagem e procurando por abrigo mas não encontraram nenhum. Ele juntou uma pilha da madeira cor de osso que jazia ao longo da costa e acendeu uma fogueira e se sentaram nas dunas com a lona por cima e observaram a chuva fria vindo do norte. Caía com força, fazendo covinhas na areia. Saía vapor da fogueira e a fumaça subia em rolos vagarosos e o menino se enroscou debaixo da lona em que a chuva tamborilava e logo tinha adormecido. O homem puxou o plástico por cima de si e ficou observando o mar cinzento amortalhado lá adiante sob a chuva e as ondas quebrarem ao longo da costa e recuarem novamente sobre a areia escura e salpicada.
No dia seguinte encaminharam-se para o interior. Uma vasta e longa depressão onde samambaias e hortênsias e orquídeas selvagens viviam em efígies de cinzas que o vento ainda não alcançara. O progresso deles era uma tortura. Em dois dias quando chegaram a uma estrada ele colocou a bolsa no chão e se sentou curvado com os braços cruzados sobre o peito e tossiu até não conseguir mais. Dois dias mais e talvez tivessem viajado quinze quilômetros. Cruzaram o rio e pouco adiante chegaram a uma encruzilhada. Na região abaixo deles uma tempestade tinha passado sobre o istmo e nivelado as árvores mortas e pretas de leste a oeste como mato no leito de um rio. Ali acamparam e quando ele se deitou soube que não poderia avançar mais e que aquele era o lugar onde morreria. O menino ficou sentando a observá-lo, lágrimas jorrando dos olhos. Oh Papai, ele disse.
Ele o observou vir pela grama e se ajoelhar com a xícara de água que tinha buscado. Havia luz por toda parte ao redor dele. Pegou a xícara e bebeu e se deitou de novo. Tinham para comer uma única lata de pêssegos mas ele fez com que o menino comesse e não quis nada. Não consigo, falou.
Está tudo bem.
Vou guardar metade para você.
Está bem. Guarde até amanhã.
Pegou a xícara e se afastou e ao sair a luz se afastou com ele. Quisera fazer uma tenda com a lona mas o homem não deixava. Disse que não queria nada cobrindo-o. Ficou deitado observando o menino junto à fogueira. Queria conseguir enxergar. Olhe ao seu redor, falou. Não há nenhum profeta na longa crônica da terra que não esteja sendo homenageado aqui hoje. Qualquer forma que você
usou para se referir a você mesmo estava certa.
O menino achou que sentia cheiro de cinzas úmidas no vento. Seguiu um pouco pela estrada e voltou arrastando de volta um pedaço de compensado do lixo da beira da estrada e enfiou gravetos no chão com uma pedra e fez de compensado um telheiro frouxo mas no fim não choveu. Deixou a pistola de sinalização e levou o revólver consigo e percorreu a região em busca de algo para comer mas voltou de mãos vazias. O homem segurou sua mão, respirando com dificuldade. Você precisa seguir em frente, ele disse. Não posso ir com você. Você tem que continuar seguindo. Não sabe o que pode haver adiante na estrada. Nós sempre tivemos sorte. Você vai ter sorte de novo. Vai ver. E só seguir em frente. Está tudo bem.
Não posso.
Está tudo bem. Fazia tempo que isso estava para acontecer. Agora aconteceu. Continue indo para o sul. Faça tudo do jeito como fizemos.
Você vai ficar bem, Papai. Tem que ficar.
Não vou não. Fique com a arma o tempo todo. Você precisa encontrar os caras do bem mas não pode correr nenhum risco. Nenhum risco. Está ouvindo?
Quero ficar com você.
Você não pode.
Por favor.
Você não pode. Você tem que levar o fogo.
Não sei como fazer isso.
Sabe sim.
Ele é real? O fogo?
É sim.
Onde ele está? Não sei onde ele está.
Sabe sim. Está dentro de você. Sempre esteve aí. Posso ver.
Só me leve com você. Por favor.
Não posso.
Por favor, Papai.
Não posso. Não posso segurar meu filho morto em meus braços. Pensei que pudesse mas não posso.
Você disse que nunca ia me deixar.
Eu sei. Sinto muito. Você tem o meu coração todo. Sempre teve. Você é o melhor dos caras.
Sempre foi. Se eu não estiver aqui ainda pode falar comigo. Fale comigo e eu vou falar com você.
Você vai ver.
Eu vou te ouvir?
Sim. Vai sim. Tem que fazer como aquela conversa que você imaginou. E vai me ouvir. Tem que praticar. Só não desista. Está bem?
Está bem.
Está bem.
Estou com muito medo Papai.
Eu sei. Mas você vai ficar bem. Você vai ter sorte. Sei quem você é. Tenho que parar de falar. Vou começar a tossir de novo.
Está bem, Papai. Você não precisa falar. Está bem.
Saiu pela estrada até o mais longe que ousava e depois voltou. Seu pai estava adormecido.
Sentou-se com ele sob o compensado e o observou. Fechou os olhos e falou com ele e manteve os
olhos fechados e ficou escutando. Depois tentou de novo.
Acordou na escuridão, tossindo de leve. Ficou deitado escutando. O menino estava sentado junto à fogueira envolvido por um cobertor observando-o. Agua gotejando. Uma luz diminuindo.
Velhos sonhos ultrapassando os limites do mundo desperto. O gotejar era na caverna. A luz era uma vela que o menino levava numa haste de cobre batido. A cera respingava nas pedras. Pegadas de criaturas desconhecidas no solo mortificado feito de depósitos trazidos pelo vento. Naquele corredor frio eles tinham alcançado o ponto do qual já não havia mais volta que era medido desde o início apenas pela luz que levavam consigo.
Você se lembra daquele menininho, Papai?
Sim. Eu me lembro dele.
Você acha que ele está bem aquele menininho?
Oh sim. Acho que ele está bem.
Você acha que ele estava perdido?
Não. Não acho que ele estivesse perdido.
Estou com medo de que ele estivesse perdido. Acho que ele está bem.
Mas quem vai encontrar ele se ele estiver perdido? Quem vai encontrar o menininho?
A bondade vai encontrar o menininho. Sempre encontrou. Vai encontrar outra vez.
Dormiu perto do pai naquela noite e abraçou-o mas quando acordou pela manhã seu pai estava frio e rígido. Ele ficou sentado ali por muito tempo chorando e depois se levantou e caminhou através da floresta até a estrada. Quando voltou se ajoelhou junto ao pai e segurou sua mão fria e disse seu nome de novo e de ncvo.
Ficou por três dias e depois caminhou até a estrada e olhou para a estrada adiante e olhou para a direção de onde tinham vindo. Alguém estava vindo. Ele começou a se virar e voltar para a floresta mas não voltou. Apenas ficou parado na estrada esperando, o revólver na mão. Tinha empilhado todos os cobertores em cima de seu pai e estava com frio e estava com fome. O homem que surgiu em seu campo de visão e que ficou parado ali o observan- do usava uma parca de esqui cinza e amarela. Levava uma espingarda de cabeça para baixo sobre o ombro presa a uma alça de couro trançado e usava uma cartucheira de náilon cheia de balas para a arma. Um veterano de velhos conflitos, barbado, com uma cicatriz no queixo e o osso esmagado e o único olho divagando. Quando falou sua boca não funcionou direito, nem quando sorriu.
Onde está o homem com quem você estava?
Ele morreu.
Era o seu pai?
Era. Era o meu pai.
Sinto muito.
Não sei o que fazer.
Acho que você devia vir comigo.
Você é um dos caras do bem?
O homem puxou o capuz de cima do rosto. Seu cabelo era comprido e estava embaraçado.
Olhou para o céu. Como se houvesse alguma coisa ali para ser vista. Olhou para o menino. Sou, ele disse. Eu sou um dos caras do bem. Por que você não abaixa o revólver?
Eu não devo deixar ninguém pegar o revólver. Não importa o que aconteça.
Não quero pegar o seu revólver. Só não quero que você fique apontando ele para mim.
Está bem.
Onde estão as suas coisas?
Não temos muitas coisas.
Você tem um saco de dormir?
Não.
O que você tem? Alguns cobertores?
Meu pai está coberto com eles.
Mostre.
O menino não se moveu. O homem o observava. Ele se agachou num dos joelhos e tirou a espingarda que estava debaixo do braço e a colocou de pé sobre a estrada e se apoiou na culatra. Os cartuchos da espingarda nas voltas da cartucheira tinham sido carregados manualmente e as extremidades fechadas com cera de vela. Ele cheirava a fumaça de madeira. Veja bem, falou. Você tem duas escolhas aqui. Houve alguma discussão inclusive sobre vir ou não atrás de vocês. Você pode ficar aqui com seu pai e morrer ou pode vir comigo. Se você ficar tem que se manter longe da estrada. Não sei como chegou tão longe. Mas devia vir comigo. Você vai ficar bem.
Como eu posso saber que você é um dos caras do bem?
Não pode. Vai ter que correr o risco.
Vocês estão levando o fogo?
Nós estamos o quê?
Levando o fogo.
Você é meio maluquinho, não é?
Não.
Só um pouco.
Sim.
Tudo bem.
Então vocês estão?
O quê, levando o fogo?
É.
Sim. Estamos.
Vocês têm crianças?
Temos.
Vocês têm um menininho?
Temos um menininho e temos uma menininha.
Quantos anos ele tem?
Mais ou menos a sua idade. Talvez um pouco mais velho.
E vocês não comeram eles?
Não.
Vocês não comem gente.
Não. Nós não comemos gente.
E eu posso ir com vocês?
Pode. Pode sim.
Está bem então.
Está bem.
Entraram na floresta e o homem se agachou e olhou para o vulto cinzento e deteriorado sob a folha inclinada de compensado. Estes são todos os cobertores que você tem?
São.
Essa é a sua mala?
É.
Ele se pôs de pé. Olhou para o menino. Por que você não volta para a estrada e espera por mim. Vou levar os cobertores e tudo mais.
E o meu pai?
O que tem ele.
A gente não pode simplesmente deixar ele aqui. Podemos sim.
Não quero que as pessoas vejam ele.
Não tem ninguém aqui para vê-lo.
Posso cobrir ele com folhas?
O vento vai soprá-las para longe.
A gente poderia cobrir ele com um dos cobertores? Vou fazer isso. Agora vá.
Está bem.
Ele esperou na estrada e depois o homem saiu da floresta e estava trazendo a mala e os cobertores estavam sobre seus ombros. Selecionou um entre eles e o entregou ao menino. Tome, disse. Coloque isso em cima de você. Você está com frio. O menino tentou entregar-lhe o revólver mas ele não quis pegá-lo. Você fica com isso, falou.
Está bem.
Sabe como atirar?
Sei.
Está bem.
E o meu pai?
Não há mais nada a ser feito.
Acho que quero dizer adeus a ele.
Você vai ficar bem?
Vou.
Vá em frente. Eu te espero.
Ele voltou para a floresta e se ajoelhou ao lado do pai. Ele estava envolvido por um cobertor como o homem tinha prometido e o menino não o descobriu mas se sentou ao seu lado e chorava e não conseguia parar. Chorou por muito tempo. Vou conversar com você todo dia, sussurrou. E não vou me esquecer. Não importa o que aconteça. Então ele se levantou e se virou e caminhou de volta para a estrada.
A mulher quando o viu passou os braços ao seu redor e o abraçou. Oh, ela disse, estou tão feliz em te ver. Ela às vezes lhe falava sobre Deus. Ele tentava falar com Deus mas a melhor coisa era conversar com seu pai e falava com ele e não se esquecia. A mulher disse que estava tudo bem.
Disse que o sopro de Deus era o seu sopro ainda embora passasse de homem para homem ao longo do tempo.
Antes havia trutas nos riachos das montanhas. Você podia vê-las paradas na correnteza cor de âmbar onde as extremidades brancas de suas barbatanas encrespavam de leve a superfície.
Tinham cheiro de musgo na mão. Polidas e musculosas e se retorcendo. Em suas costas havia padrões sinuosos que eram mapas do mundo em seu princípio. Mapas e labirintos. De algo que não podia ser resgatado. Não podia ser endireitado. Nos vales estreitos e profundos em que eles viviam todas as coisas eram mais antigas do que o homem e num murmúrio contínuo falavam de mistério.
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Folha de Rosto
A Estrada
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Cormac McCarthy