A Estrada
A Estrada
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 7 partes.
Comeram os pequenos cogumelos junto com os feijões e beberam chá e comeram pêras em conserva de sobremesa. Ele abafou a fogueira na fenda de rocha onde a tinha acendido, amarrou a lona atrás deles para refletir o calor e se sentaram aquecidos em seu refúgio enquanto ele contava histórias para o menino. Velhas histórias de coragem e justiça do modo como se lembrava delas até que o menino adormeceu em meio às suas cobertas e então ele alimentou o fogo e se deitou aquecido, de barriga cheia, e ficou ouvindo o trovejar distante das cachoeiras para além de onde estavam naquela mata escura e velha.
Ele saiu de manhã e seguiu pelo caminho do rio, descendo a correnteza. O menino tinha razão, aquele era um bom lugar e ele queria conferir se havia algum sinal de outros visitantes. Não encontrou nada. Ficou observando o rio onde ele se lançava num poço e depois se encrespava e formava redemoinhos. Atirou uma pedra branca na água mas ela desapareceu tão rapidamente quanto se tivesse sido engolida. Tinha estado junto a um rio desses outrora e observado o movimento fugaz das trutas no fundo de um poço, invisível de se ver naquela água cor de chá, exceto quando se viravam de lado para se alimentar. Refletindo o sol no fundo da escuridão como o lampejo de facas numa caverna.
Não podemos ficar, ele disse. Está ficando mais frio a cada dia. E a cachoeira é uma atração.
Foi para nós e será para outros e não sabemos quem serão esses outros e não podemos ouvi-los chegando. Não é seguro.
A gente podia ficar mais um dia.
Não é seguro.
Bem, talvez a gente pudesse encontrar algum outro lugar no rio.
Temos que continuar seguindo em frente. Temos que continuar indo na direção sul.
O rio não vai na direção sul?
Não. Não vai.
Posso ver no mapa?
Pode. Deixa eu pegar.
O surrado mapa da companhia de petróleo tinha sido outrora consertado com fita adesiva mas agora estava apenas organizado em folhas e numerado com giz de cera nos cantos para poderem juntá-lo. Ele procurou entre as páginas moles e estendeu aquelas que correspondiam à sua localização.
Atravessamos uma ponte aqui. Parece ficar a uns doze quilômetros ou coisa assim. Este é o rio. Indo para oeste. Seguimos a estrada aqui ao longo da encosta oriental das montanhas. Estas são as nossas estradas, as linhas pretas no mapa. As estradas estaduais.
Por que são estradas estaduais?
Porque antes pertenciam aos estados. Ao que chamávamos de estados.
Mas não existem mais estados?
Não.
O que aconteceu com eles?
Não sei ao certo. E uma boa pergunta.
Mas as estradas ainda estão aí.
Sim. Por algum tempo.
Por quanto tempo?
Não sei. Talvez um bom tempo. Não há nada para destruí-las, então devem ficar em bom estado por um tempo.
Mas carros e caminhões não vão passar nelas.
Não.
Certo.
Você está pronto?
O menino fez que sim. Enxugou o nariz na manga e colocou no ombro sua pequena mochila e o homem dobrou as seções do mapa e se levantou e o menino o seguiu em meio às estacas cinzentas das árvores até a estrada.
Quando conseguiram divisar a ponte abaixo deles havia um caminhão atravessado nela e enfiado no parapeito de ferro empenado. Estava chovendo outra vez e eles ficaram ali parados com a chuva tamborilando de leve na lona. Espiando de dentro da penumbra azulada por baixo do plástico.
A gente não pode contornar? o menino disse.
Acho que não. Podemos provavelmente passar por baixo dele. Talvez tenhamos que esvaziar o carrinho.
A ponte transpunha o rio sobre corredeiras. Puderam ouvir o barulho quando fizeram a curva na estrada. Da garganta soprava um vento e eles puxaram as pontas da lona ao redor deles e empurraram o carrinho até a ponte. Podiam ver o rio através das ferragens. Mais abaixo das
corredeiras havia a ponte de uma ferrovia construída sobre pilares de calcário. As pedras dos pilares estavam manchadas bem acima da altura do rio devido às cheias e a curva estava obstruída com enormes pilhas de galhos negros e folhagens e troncos de árvores. Havia anos que o caminhão estava ali, os pneus vazios e enrugados sob os aros. A parte da frente estava comprimida contra o parapeito da ponte e a caçamba tinha se soltado da base e se projetado para a frente, comprimindo a parte de trás da cabine. A traseira da caçamba tinha sido arremessada e vergado por cima do parapeito do outro lado da ponte e estava pendurada vários metros para fora sobre a garganta do rio. Ele empurrou o carrinho por baixo da caçamba mas a barra de empurrar não passava. Teriam que fazê-lo deslizar por baixo, deitado de lado. Deixaram-no ali, sob a chuva, com a lona por cima, passaram por baixo da caçamba e ele deixou o menino agachado ali no seco enquanto subia no degrau do tanque de gasolina e enxugava a água do vidro e espiava dentro da cabine. Voltou a descer o degrau, estendeu o braço e abriu a porta, em seguida subiu e fechou a porta depois de entrar. Ficou sentado olhando ao redor. Um velho leito atrás dos assentos.
Papéis no chão. O porta-luvas estava aberto, mas vazio. Ele subiu de volta por entre os assentos.
Havia um colchão tosco e úmido no beliche e uma pequena geladeira com a porta aberta. Uma mesa dobrável. Revistas velhas no chão. Ele vasculhou os compartimentos de compensado no alto mas estavam vazios. Havia gavetas sob o beliche e ele as abriu e vasculhou em meio ao lixo. Subiu de volta na cabine e se sentou no banco do motorista e olhou para fora, para o rio lá embaixo através dos pingos que escorriam lentamente no vidro. O tamborilar suave da chuva no teto de metal e a escuridão descendo devagar sobre todas as coisas.
Dormiram aquela noite no caminhão, pela manha a chuva tinha parado e descarregaram o carrinho e passaram tudo por baixo do veículo até o outro lado e colocaram as coisas de volta.
Depois da ponte a uns trinta metros mais ou menos havia os restos enegrecidos de pneus que tinham sido queimados ali. Ele ficou parado olhando para a caçamba. O que você acha que há lá dentro?
Não sei.
Não somos os primeiros aqui. Então provavelmente nada.
Não tem como entrar.
Ele colocou o ouvido na lateral do compartimento e deu um tapa no metal laminado com a palma da mão. Pelo som parece vazio, disse. Provavelmente dá para entrar pelo teto. Alguém deve ter aberto um buraco na lateral a essa altura.
Com o que eles iam cortar?
Encontrariam alguma coisa.
Ele tirou a parca e a colocou no alto do carrinho e subiu no pára-lama do caminhão e depois na capota e subiu com dificuldade no teto da cabine. Ficou de pé, virou-se e olhou para o rio lá embaixo. Metal molhado debaixo dos pés. Olhou lá para baixo, para o menino. O menino parecia preocupado. Ele se virou, estendeu a mão e agarrou a frente da caçamba e se ergueu devagar. Era tudo o que podia fazer e havia bem menos volume em seu corpo para puxar. Passou uma perna por cima da beirada e ficou ali descansando. Então se ergueu e rolou por cima da beirada e se sentou.
Havia uma claraboia a cerca de um terço do caminho ao descer do teto e ele foi até lá andando agachado. A cobertura tinha sumido e o interior da caçamba cheirava a compensado úmido e àquele odor azedo que ele tinha vindo a conhecer. Ele levava uma revista no bolso junto ao quadril, pegou-a, arrancou algumas páginas e fez um chumaço, pegou seu isqueiro e pôs fogo nos papéis e jogou-os na escuridão. Um suave sibilar. Ele afastou com a mão a fumaça e olhou para o interior do compartimento. A fogueirinha queimando no chão parecia estar muito afastada. Ele se protegeu do clarão com a mão e quando fez isso pôde enxergar quase até o fundo da caçamba.
Corpos humanos. Escarrapachados em todas as posturas. Secos e murchos em suas roupas podres. O
pequeno chumaço de papel queimando se reduziu a um lampejo de chama e então se extinguiu deixando uma forma suave durante um breve instante na incandescência como o contorno de uma flor, uma rosa derretida. Então tudo ficou escuro outra vez.
Naquela noite acamparam na floresta, numa serrania que dava para uma vasta planície ao sopé de uma montanha, que se estendia para o sul. Acendeu uma fogueira para cozinhar junto a uma rocha e comeram o que restava dos cogumelos e uma lata de espinafre. Durante a noite uma tempestade caiu sobre as montanhas acima deles e veio retumbando ao descer, estalando e estrondeando e o mundo de um cinza inflexível aparecia repetidas vezes no meio da noite, no lampejo amortalhado do relâmpago. O menino se agarrava a ele. A tempestade ia avançando. O
breve estrépito do granizo e em seguida a chuva fria e vagarosa.
Quando ele acordou outra vez ainda estava escuro, mas a chuva tinha parado. Uma luz esfumaçada lá adiante no vale. Ele acordou e caminhou lá para fora na serrania. Uma névoa de fogo que se estendia por quilômetros. Ele se agachou e a observou. Podia sentir o cheiro da fumaça.
Umedeceu o dedo e ergueu-o contra o vento. Quando se levantou e se virou para voltar, a lona mostrava uma luz vinda do lado de dentro, onde o menino tinha acordado. Ali na escuridão sua sombra frágil e azulada parecia o pico de alguma última ventura nas bordas do mundo. Alguma coisa que quase não podia ser contabilizada. E era isso de fato.
Durante todo o dia seguinte eles viajaram através do nevoeiro criado pela fumaça das árvores, que ia sendo levado pelo vento. Nas bordas a fumaça saindo do chão como neblina e as árvores finas e pretas queimando nas encostas como candelabros de velas pagãs. Tarde naquele dia eles chegaram a um lugar onde o fogo tinha atravessado a estrada e o macadame ainda estava morno e mais adiante começou a ficar macio sob os pés. O piche negro e quente grudando em seus sapatos e se esticando em faixas delgadas conforme eles andavam. Pararam. Vamos ter que esperar, ele disse.
Voltaram pelo mesmo caminho e acamparam na própria estrada e quando seguiram em frente pela manhã o macadame tinha esfriado. Um pouco depois chegaram a um conjunto de marcas feitas no asfalto. Simplesmente apareceram, de um momento para o outro. Ele se pôs de cócoras e as estudou. Alguém tinha saído da floresta durante a noite e continuado pela estrada derretida.
Quem é? disse o menino.
Não sei. Quem é alguém?
Deram com ele caminhando devagar pela estrada diante deles, puxando ligeiramente uma perna e parando de tempos em tempos para ficar ali, recurvado e incerto, antes de seguir em frente outra vez.
O que é que a gente devia fazer, Papai?
Nada, por enquanto. Vamos só seguir e observar.
Dar uma olhada, o menino disse.
E. Dar uma olhada.
Seguiram-no durante um bom tempo mas na velocidade dele estavam perdendo o dia e por fim ele simplesmente se sentou na estrada e não se levantou mais. O menino se segurava no casaco do pai. Ninguém falou. Ele parecia tão queimado quanto o resto da paisagem, suas roupas chamuscadas e pretas. Um de seus olhos estava fechado devido às queimaduras e seu cabelo não passava de uma peruca piolhenta de cinzas sobre o crânio enegrecido. Quando passaram ele baixou os olhos. Como se tivesse feito algo de errado. Seus sapatos estavam amarrados com arame e envolvidos com asfalto e ele se sentava ali em silêncio, curvado sobre seus trapos. O menino continuava olhando para trás. Papai? ele perguntou. O que há de errado com esse homem?
Um raio caiu nele.
Nao podemos ajudar ele? Papai?
Não. Não podemos ajudar ele.
O menino continuava puxando seu casaco. Papai? ele disse.
Pare.
Não podemos ajudar ele Papai?
Não. Não podemos ajudar ele. Não há nada que possa ser feito por ele.
Seguiram adiante. O menino chorava. Continuava olhando para trás. Quando chegaram ao pé do morro o homem parou e olhou para ele e olhou para cima, para a estrada lá atrás. O homem queimado tinha caído e àquela distância nem era possível dizer do que se tratava. Eu sinto muito, ele disse. Mas não temos nada a oferecer para ele. Não temos como ajudá-lo. Sinto muito pelo que aconteceu com ele mas não podemos consertar. Você sabe disso, não sabe? O menino ficou parado olhando para baixo. Fez que sim com a cabeça. Então eles seguiram em frente e ele não voltou a olhar para trás.
À noite um brilho embaçado cor de enxofre vindo das árvores. A água parada nas valas de beira de estrada negras com a água que escorria das montanhas. As montanhas encobertas.
Atravessaram o rio numa ponte de concreto onde meadas de cinzas e dejetos desciam devagar com a correnteza. Pedaços carbonizados de madeira. No fim, pararam e fizeram meia-volta e acamparam debaixo da ponte.
Ele carregara sua carteira até que ela fizesse um buraco nas calças. Então um dia se sentou à beira da estrada e a tirou e examinou seu conteúdo. Algum dinheiro, cartões de crédito. Sua carteira de motorista. Uma fotografia de sua mulher. Espalhou tudo por cima do pavimento. Como cartas de baralho. Arremessou a peça de couro, enegrecida pelo suor, dentro da floresta, e ficou sentado olhando para a fotografia. Então colocou-a sobre a estrada também e se levantou e seguiram em frente.
Pela manhã estava deitado olhando para os ninhos de argila que as andorinhas tinham construído nos cantos debaixo da ponte. Olhou para o menino mas o menino tinha se virado de lado e olhava para o rio, deitado.
Não há nada que nós pudéssemos ter feito.
Ele não respondeu.
Ele vai morrer. Não podemos dividir o que temos senão vamos morrer também.
Eu sei.
Então quando é que você vai voltar a falar comigo?
Estou falando agora.
Tem certeza?
Sim.
Está bem.
Está bem.
Ficaram de pé junto à margem mais afastada de um rio e chamaram-no. Deuses esfarrapados caminhando recurvados em seus trapos pela desolação. Andando pelo solo seco de um mar mineral onde este jazia rachado e partido como um prato que tivesse caído no chão. Trilhas de fogo feroz na areia coagulada. Os vultos indistintos à distância. Ele acordou e ficou ali deitado na escuridão.
Os relógios pararam à lhl7. Um longo clarão e depois uma série de pequenos abalos. Ele se levantou e foi até a janela. O que foi? ela disse. Ele não respondeu. Foi até o banheiro e ligou o interruptor mas a energia já se fora. Um brilho opaco e rosado no vidro da janela. Ele caiu sobre um
dos joelhos e puxou a alavanca para tampar a banheira e depois abriu as duas torneiras ao máximo.
Ela estava de pé junto à porta de camisola, segurando-se no batente, embalando a barriga com uma das mãos. O que foi? ela disse. O que está acontecendo?
Não sei.
Por que você vai tomar banho?
Não vou.
Uma vez naqueles primeiros anos ele tinha acordado numa floresta árida e ficado deitado ouvindo os bandos de aves migratórias lá em cima naquela escuridão dolorosa. Seus pios semi-abafados a quilômetros de distância lá no alto onde elas circundavam a terra de modo tão insensato quanto insetos se agrupando na beira de uma tigela. Desejou-lhes felicidades até que se foram. Nunca mais voltou a ouvi-las.
Tinha um baralho que encontrara na gaveta de uma escrivaninha numa casa e as cartas estavam velhas e furadas e duas cartas do naipe de paus estavam faltando mas mesmo assim eles jogavam de vez em quando à luz da fogueira enrolados nos cobertores. Ele tentava se lembrar das regras de velhos jogos da infância. Mico. Alguma versão do uíste. Tinha certeza de que estava jogando errado e inventava novos jogos e lhes dava nomes inventados. Fescue Anormal ou Catbarf.
Às vezes o menino lhe fazia perguntas sobre o mundo que para ele não era sequer uma lembrança.
Ele achava difícil responder. Não há passado. Do que você gostaria? Mas parou de inventar coisas porque essas coisas também não eram verdadeiras e contá-las fazia com que ele se sentisse mal. O
menino tinha suas próprias fantasias. Como as coisas seriam no sul. Outras crianças. Ele tentava refreá-lo mas seu coração não estava presente nessa tentativa. Será que o coração de alguém estaria?
Nenhuma lista de coisas a fazer. O dia providencial a si mesmo. A hora. Não existe o mais tarde. Agora é mais tarde. Todas as coisas graciosas e belas como as que se levam guardadas no coração têm uma origem comum na dor. Nascem do pesar e das cinzas. Então, ele sussurrou para o menino adormecido. Tenho você.
Pensou na fotografia na estrada e achou que devia ter tentado mantê-la em suas vidas de algum modo mas não sabia como. Acordou tossindo e foi lá para fora de modo a não acordar o menino. Acompanhando um muro de pedra na escuridão, embrulhado no cobertor, ajoelhando-se nas cinzas como um penitente. Tossiu até conseguir sentir o gosto do sangue e disse o nome dela em voz alta. Pensou que talvez o tivesse dito enquanto dormia. Quando voltou o menino tinha acordado. Me desculpe, ele disse.
Tudo bem.
Vá dormir.
Eu queria estar com a mamãe.
Ele não respondeu. Sentou-se ao lado do vulto pequenino embrulhado nas colchas e nos cobertores. Depois de algum tempo ele disse: Você quer dizer que queria estar morto.
É.
Você não deve dizer isso.
Mas eu queria.
Não diga isso. E uma coisa ruim de se dizer.
Não dá para evitar.
Eu sei. Mas tem que evitar.
Como é que eu faço isso?
Não sei.
Somos sobreviventes ele disse a ela por cima da chama da lamparina.
Sobreviventes? ela disse.
Sim.
Do que em nome de Deus você está falando? Não somos sobreviventes. Somos os mortos-vivos num filme de terror.
Eu estou te implorando.
Não ligo. Não ligo se você chorar. Não significa nada para mim.
Por favor.
Pare com isso.
Estou te implorando. Faço qualquer coisa.
Como o quê? Eu devia ter feito isso há muito tempo. Quando havia três balas na arma em vez de duas. Fui uma idiota. Já falamos sobre tudo isso. Não fui eu que me forcei a isso. Fui forçada. E
agora chega para mim. Pensei em nem te dizer. Isso provavelmente teria sido melhor. Você tem duas balas e então o quê? Não pode nos proteger. Diz que morreria por nós mas de que adianta? Eu o levaria comigo se não fosse por você. Você sabe que levaria. E a coisa certa a fazer.
Você está dizendo bobagem.
Não, estou falando a verdade. Mais cedo ou mais tarde vão nos pegar e nos matar. Vão me estuprar. Vão estuprá-lo. Vão nos estuprar e nos matar e nos comer e você não quer encarar isso.
Prefere esperar que aconteça. Mas eu não posso. Não posso. Ela ficou sentada fumando um pedaço comprido de videira seca como se fosse algum charuto raro. Segurando-o com certa elegância, a outra mão sobre os joelhos onde ela os havia juntado. Ela o observava através da pequena chama.
Costumávamos falar da morte, ela disse. Não falamos mais. Por que isso?
Não sei.
E porque ela está aqui. Não há mais nada para
falar.
Eu não te deixaria.
Não me importo. Não quer dizer nada. Pode pensar que eu sou uma puta infiel se quiser.
Tenho um novo amante. Ele me dá o que você não consegue dar.
A morte não é um amante.
Ah é sim.
Por favor não faça isso.
Sinto muito.
Não consigo fazer isso sozinho.
Então não faça. Não posso te ajudar. Dizem que as mulheres sonham com o perigo daqueles que estão sob seus cuidados e os homens com seu próprio perigo. Mas eu não sonho com nada. Você diz que não consegue fazer isso sozinho? Então não faça. E tudo. Porque eu estou exausta deste meu coração libertino e isso já faz muito tempo. Você fala sobre tomar uma posição firme mas não há posição a tomar. Meu coração foi arrancado de mim na noite em que ele nasceu então não peça por um lamento agora. Não há nenhum. Talvez você venha a ser bom nisso. Eu duvido, mas quem sabe. A única coisa que eu posso te dizer é que você não vai sobreviver por conta própria. Eu sei porque eu nunca teria chegado tão longe. A uma pessoa que não tivesse ninguém seria aconselhável que se juntasse a algum fantasma passável. Trazê-lo à vida com seu sopro e persuadi-lo a seguir em frente com palavras de amor. Oferecer-lhe cada migalha fantasma e protegê-lo do perigo com seu corpo.
Quanto a mim minha única esperança é o nada eterno e espero por ele com todo meu coração.
Ele não respondeu.
Você não tem nenhum argumento porque não existe um.
Você vai dizer adeus a ele?
Não. Não vou.
Só espere até de manhã. Por favor.
Tenho que ir.
Ela já tinha se levantado.
Pelo amor de Deus, mulher. O que eu digo a ele?
Não posso te ajudar.
Para onde você vai? Você não consegue nem mesmo enxergar.
Não preciso.
Ele se levantou. Estou te implorando, ele disse.
Não. Não vou. Não posso.
Ela se foi e a frieza do gesto foi seu último presente. Usaria uma lasca de obsidiana. Ele mesmo lhe ensinara. Mais afiado do que o aço. A ponta com a espessura de um átomo. E ela estava certa. Não havia argumento. A centena de noites em que eles tinham ficado sentados debatendo os prós e os contras da autodestruição com a honestidade de filósofos acorrentados à parede de um hospício. Pela manhã o menino não disse nada em absoluto, e quando eles tinham guardado suas coisas e estavam prontos para pôr o pé na estrada ele se virou e olhou para o local de seu acampamento lá atrás e disse: Ela foi embora não foi? E ele disse: Sim, foi.
Sempre tão deliberado, mal chegando a se surpreender com os eventos mais inusitados. Uma criação perfeitamente evoluída para alcançar seu próprio fim. Sentaram-se à janela e fizeram uma refeição à meia-noite vestindo seus robes à luz de velas e observaram cidades distantes queimando.
Algumas noites mais tarde ela deu à luz na cama deles, sob a iluminação de uma lanterna a pilha.
Luvas que serviam para lavar pratos. A aparência improvável da pequena coroa da cabeça. Listrado de sangue e cabelo preto e escorrido. O fedor do mecônio. Os gritos dela não significavam nada para ele. Para além da janela apenas o frio que aumentava, os incêndios no horizonte. Ele se debruçou sobre o corpo esquelético e vermelho tão tosco e nu e cortou o cordão com uma tesoura de cozinha e embrulhou seu filho numa toalha.
Você tinha algum amigo?
Sim. Tinha.
Muitos?
Sim.
Você se lembra deles?
Sim. Eu me lembro deles.
O que aconteceu com eles?
Morreram.
Todos eles?
Sim. Todos eles.
Você sente falta deles?
Sim. Sinto.
Para onde a gente vai?
Vamos para o sul.
Está bem.
Ficaram o dia todo na comprida estrada preta, parando à tarde para comer um pouco de seus magros suprimentos. O menino tirou seu caminhão da mochila e desenhou estradas sobre as cinzas usando uma vareta. O caminhão avançou por elas devagar. Ele fazia ruídos de caminhão. O dia
parecia quase quente e eles dormiram sobre as folhas com as mochilas debaixo da cabeça.
Alguma coisa o despertou. Ele se virou de lado e se pôs a escutar. Ergueu a cabeça devagar, o revólver na mão. Baixou os olhos para o menino e quando olhou de volta na direção da estrada os primeiros deles já estavam visíveis. Deus, ele sussurrou. Estendeu a mão e sacudiu o menino, sem tirar os olhos da estrada. Eles vinham arrastando os pés pelas cinzas jogando as cabeças encapuzadas para um lado e para o outro. Alguns usando máscaras de gás. Um deles com uma roupa de proteção contra agentes químicos e biológicos. Manchados e imundos. Andando recurvados com porretes nas mãos, pedaços de cano. Tossindo. Então ele ouviu na estrada atrás dele o que parecia ser um caminhão a diesel. Rápido, sussurrou. Rápido. Empurrou o revólver para dentro do cinto e agarrou o menino pela mão e arrastou o carrinho através das árvores e inclinou-o de um jeito que ele não fosse tão facilmente visto. O menino estava paralisado de medo. Ele o puxou contra si. Está tudo bem, disse. Temos que correr. Não olhe para trás. Venha.
Ele atirou a mochila por cima do ombro e abriram caminho por entre as samambaias que se despedaçavam. O menino estava aterrorizado. Corra, ele sussurrou. Corra. Ele olhou para trás. O
caminhão surgiu com um estrondo em seu campo de visão. Homens de pé na caçamba olhando ao redor. O menino caiu e ele o puxou de volta. Está tudo bem, ele disse. Venha.
Ele podia ver uma abertura entre as árvores que pensava ser uma vala ou um canal e eles saíram por entre o mato até uma velha estrada. Pedaços de macadame rachado aparecendo em meio a montes de cinza. Empurrou o menino para baixo e se agacharam sob a encosta escutando, arquejantes. Podiam ouvir o motor a diesel lá na estrada, funcionando a base Deus sabe do quê.
Quando ele se levantou para olhar só podia ver o teto do caminhão movendo-se pela estrada.
Homens de pé na caçamba, alguns deles segurando rifles. O caminhão passou e a fumaça preta do diesel formava espirais em meio à floresta. O som do motor viscoso. Falhando e indolente. Depois parou.
Ele afundou e colocou a mão no alto da cabeça. Deus, ele disse. Puderam ouvir a coisa chacoalhando e se agitando até parar. Depois apenas o silêncio. Ele estava com o revólver na mão, nem mesmo se lembrava de tê-lo tirado do cinto. Podiam ouvir os homens conversando. Ouvi-los abrir a porta e levantar o capô. Ele se sentou com o braço ao redor do menino. Shh, ele disse. Shh.
Depois de algum tempo ouviram o caminhão começar a se movimentar. Pesadamente, estalando, como se fosse um navio. Não tinham outra maneira de fazê-lo pegar se não fosse empurrando e não conseguiam fazer com que fosse rápido o suficiente naquela encosta. Depois de uns poucos minutos o motor tossiu e deu solavancos e morreu outra vez. Ele levantou a cabeça para olhar e vindo por entre a floresta a uns seis metros de distância estava um deles desafivelando o cinto. Ambos ficaram paralisados.
Engatilhou o revólver e apontou-o para o homem e o homem estava de pé com uma das mãos ao lado do corpo, a máscara suja e amarrotada que ele usava subindo e descendo com a respiração.
Continue andando.
Ele olhou para a estrada.
Não olhe para lá. Olhe para mim. Se você gritar está morto.
Ele se aproximou, segurando o cinto com uma das mãos. Os buracos ali marcavam o progresso do seu emagrecimento e o couro num dos lados tinha um aspecto laqueado onde ele costumava afiar a lâmina da faca. Foi caminhando até a beira da estrada e olhou para a arma e olhou para o menino. Olhos marcados por rodelas de fuligem e muito fundos. Como um animal dentro de um crânio espiando pelas órbitas. Ele usava uma barba que tinha sido cortada rente com tesoura e tinha no pescoço uma tatuagem de um pássaro desenhado por alguém que não tinha uma noção muito
precisa de sua aparência. Era magro, rijo, raquítico. Vestia um macacão azul imundo e um boné preto com o logotipo de alguma empresa desaparecida bordado na frente.
Aonde você está indo?
Eu ia cagar.
Aonde você está indo com o caminhão.
Não sei.
O que você quer dizer com não sei? Tire a máscara.
Ele tirou a máscara por cima da cabeça e ficou parado segurando-a.
Quero dizer que não sei, ele disse.
Você não sabe aonde está indo?
Não.
O caminhão está funcionando com o quê.
Diesel.
Quanto vocês têm?.
Temos tambores de duzentos litros na caçamba.
Têm munição para aquelas armas?
Ele olhou para a estrada lá atrás.
Eu te disse para não olhar para lá.
Temos. Temos munição sim.
Onde foi que conseguiram?
Encontramos.
Mentira. O que vocês comem?
Qualquer coisa que encontrarmos.
Qualquer coisa que encontrarem.
É. Ele olhou para o menino. Você não vai atirar, ele disse.
E o que você pensa.
Você só tem duas balas. Talvez uma só. E eles vão ouvir o tiro.
Eles vão sim. Mas você não.
Por que você acha isso?
Porque as balas são mais rápidas do que o som. Ela vai estar no seu cérebro antes que você possa ouvi-la. Para ouvi-la você precisa de um lobo frontal e coisas com nomes como colículo e giro temporal e você não vai tê-los mais. Vai ser tudo só uma sopa.
Você é médico?
Não sou nada.
Temos um homem ferido. Você seria recompensado.
Eu tenho cara de imbecil?
Não sei do que você tem cara.
Por que você está olhando para ele?
Eu olho para onde quiser.
Não olha não. Se você olhar para ele de novo eu atiro.
O menino estava sentado com as duas mãos no alto da cabeça e olhando por entre os antebraços.
Aposto que esse menino está com fome. Por que você simplesmente não vem até o caminhão?
Pegar alguma coisa para comer. Não precisa ser tão cabeça-dura.
Você não tem nada para comer. Vamos lá.
Vamos aonde?
Vamos lá.
Eu não vou a lugar nenhum.
Não vai?
Não. Não vou.
Você acha que eu não vou te matar mas está errado. Mas o que eu preferiria fazer seria te levar por essa estrada por um quilômetro e meio ou coisa assim e depois te libertar. É só dessa distância que nós precisamos. Você não vai nos encontrar. Não vai nem saber em que direção seguimos.
Sabe o que eu acho?
O que você acha.
Que você é um covarde.
Ele soltou o cinto e este caiu na estrada com os acessórios pendurados. Um cantil. Uma velha bolsa de lona do exército. Uma bainha de couro para faca. Quando ele ergueu os olhos, o rato de estrada segurava a faca na mão. Ele só tinha dado dois passos mas estava quase entre ele e o menino.
O que você pensa que vai fazer com isso?
Ele não respondeu. Era um homem grande mas muito rápido. Abaixou-se rapidamente e agarrou o menino e rolou e se levantou segurando-o de encontro ao peito com a faca em sua garganta.
O homem já tinha caído no chão e girado com ele e apontado o revólver e atirado segurando-o com as duas mãos apoiado nos dois joelhos a uma distância de menos de dois metros. O homem caiu para trás instantaneamente e ficou caído com sangue brotando do buraco em sua testa. O menino estava deitado em seu colo sem qualquer expressão no rosto. Ele meteu o revólver no cinto e lançou a mochila por cima do ombro e levantou o menino e virou-o de lado e ergueu-o acima da cabeça e colocou-o em cima dos ombros e partiu pela velha estrada numa corrida desenfreada, segurando os joelhos do menino, o menino agarrado à sua testa, coberto de sangue e mudo como uma pedra.
Chegaram a uma velha ponte de ferro na floresta onde a estrada desaparecida cruzava um riacho praticamente desaparecido. Ele tinha começado a tossir e mal tinha fôlego suficiente para suportar a tosse. Saiu da estrada e entrou
na floresta. Virou-se e ficou de pé arquejante, tentando escutar. Não ouviu nada. Cambaleou por mais uns oitocentos metros ou coisa assim e finalmente caiu de joelhos e colocou o menino no chão entre as cinzas e folhas. Limpou o sangue de seu rosto e o abraçou. Está tudo bem, ele disse. Está tudo bem.
Durante a longa e fria noite com a escuridão caindo ele só os ouviu uma vez. Abraçou forte o menino. Havia uma tosse em sua garganta que nunca passava. O menino tão frágil e magro através do casaco, tremendo como um cão. Os passos nas folhas pararam. Então eles seguiram em frente. Não se falavam nem chamavam uns aos outros, o que deixara tudo mais sinistro. Com a investida final da escuridão o frio intenso se instalou e o menino a essa altura tremia violentamente. A lua não surgiu para além da escuridão e não havia para onde ir. Tinham um só cobertor na mochila e ele tirou-o e cobriu o menino com ele e abriu o zíper de sua parca e abraçou o menino junto de si. Ficaram ali deitados por um longo tempo mas estavam congelando e por fim ele se levantou. Temos que continuar, ele disse. Não podemos simplesmente ficar deitados aqui. Ele olhou ao redor mas não havia nada para ver. Ele falou para um negrume sem profundidade ou dimensão.
Ficou segurando a mão do menino enquanto tropeçavam pela floresta. A outra mão ele estendia diante de si. Não enxergaria pior se estivesse de olhos fechados. O menino estava embrulhado no cobertor e ele lhe disse para não deixá-lo cair porque nunca mais voltariam a
encontrá-lo. Ele queria ser carregado mas o homem lhe disse que ele tinha que continuar andando.
Eles tropeçaram e caíram pela floresta durante toda a noite e bem antes do nascer do sol o menino caiu e não se levantou mais. Ele o envolveu em sua própria parca e o envolveu no cobertor e ficou sentado abraçado a ele, embalando-o para a frente e para trás. Uma única bala restava no revólver. Você não quer encarar a realidade. Não quer encarar.
Na luz incerta que passava por dia ele colocou o menino sobre as folhas e ficou sentado examinando a floresta. Quando ficou um pouco mais claro ele se levantou e caminhou e descreveu um perímetro ao redor do acampamento selvagem deles em busca de sinais mas além de sua própria trilha tênue através das cinzas não viu nada. Voltou e levantou o menino. Temos que ir, ele disse. O
menino ficou sentado abaixado, o rosto inexpressivo. A sujeira seca em seu cabelo e seu rosto com veios de sujeira. Fale comigo, ele disse, mas ele não falava.
Rumaram para leste em meio às árvores mortas, ainda de pé. Passaram por uma velha casa de estrutura de madeira e cruzaram uma estrada de terra. Um pedaço de terreno limpo talvez outrora um jardim. Parando de tempos em tempos para tentar escutar. O sol invisível não projetava sombras.
Eles chegaram à estrada inesperadamente e ele parou o menino com uma das mãos e eles se agacharam na vala da beira da estrada como leprosos e se puseram a escutar. Nenhum vento.
Silêncio absoluto. Depois de algum tempo ele se levantou e caminhou até a estrada. Olhou para o menino lá atrás. Venha, ele disse. O menino se aproximou e o homem apontou para as marcas nas cinzas por onde o caminhão tinha passado. O menino ficou de pé embrulhado no cobertor olhando para o chão.
Ele não tinha como saber se eles haviam conseguido fazer o caminhão funcionar outra vez.
Não tinha como saber por quanto tempo estariam dispostos a ficar aguardando, numa emboscada.
Tirou a mochila do ombro com o dedo e se sentou e a abriu. Precisamos comer, ele disse. Está com fome?
O menino sacudiu a cabeça.
Não. E claro que não. Ele tirou dali a garrafa d’água de plástico e desatarraxou a tampa e estendeu-a, e o menino a apanhou e ficou de pé bebendo. Abaixou a garrafa, tomou fôlego, se sentou na estrada e cruzou as pernas e bebeu novamente. Então devolveu a garrafa e o homem bebeu e atarraxou a tampa outra vez e vasculhou dentro da mochila. Comeram uma lata de feijão branco, passando-a de um para o outro, e ele jogou a lata vazia na floresta. Seguiram novamente pela estrada.
As pessoas do caminhão tinham acampado na própria estrada. Tinham feito uma fogueira ali e pedaços queimados de madeira jaziam enfiados no asfalto derretido junto com cinza e ossos. Ele se agachou e colocou a mão por cima do asfalto. Um calor suave desprendendo-se dali. Pôs-se de pé e olhou para a estrada adiante deles. Então levou o menino consigo para o interior da floresta. Quero que você espere aqui, ele disse. Não vou estar longe. Vou poder te ouvir se você chamar.
Me leva com você, o menino disse. Parecia estar prestes a chorar.
Não. Quero que você espere aqui.
Por favor, Papai.
Pare. Quero que você faça o que estou dizendo. Pegue a arma.
Não quero a arma.
Não te perguntei se você queria. Pegue.
Ele caminhou pela floresta até o lugar onde tinham deixado o carrinho. Ainda estava ali mas tinha sido pilhado. As poucas coisas que não tinham levado espalhadas sobre as folhas. Alguns livros e brinquedos que pertenciam ao menino. Seus sapatos velhos e uns trapos de roupas.
Endireitou o carrinho e colocou as coisas do menino ali dentro e o empurrou até a estrada. Depois
voltou. Não havia nada ali. Sangue seco e escuro nas folhas. A mochila do menino tinha sumido.
Voltando ele encontrou os ossos e a pele empilhados juntos com pedras por cima. Uma poça de vísceras. Ele empurrou os ossos com a ponta do sapato. Pareciam ter sido cozidos. Nenhuma peça de roupa. A escuridão estava voltando e já fazia muito frio e ele se virou e foi para onde tinha deixado o menino e se ajoelhou e passou os braços ao redor dele.
Empurraram o carrinho pela floresta até onde ia a estrada velha e deixaram-no ali e se encaminharam para o sul ao longo da estrada apressando-se antes que escurecesse. O menino estava tropeçando de tão cansado e o homem pegou-o e o passou por cima do ombro e seguiram em frente.
Quando chegaram à ponte já mal havia luz. Ele colocou o menino no chão e eles encontraram seu caminho tateando, descendo pelo aterro. Sob a ponte ele pegou o isqueiro, acendeu-o e varreu o chão com a luz bruxuleante. Areia e cascalho trazidos pelo riacho. Ele colocou no chão a mochila e apagou o isqueiro e segurou o menino pelo ombro. Mal podia divisá-lo na escuridão. Quero que você espere aqui, ele disse. Vou procurar madeira. Temos que acender uma fogueira aqui.
Estou com medo.
Eu sei. Mas eu só vou demorar um pouquinho e vou poder te ouvir então se ficar com medo pode me chamar que eu venho no mesmo instante.
Estou com muito medo.
Quanto mais cedo eu for mais cedo vou voltar e vamos ter uma fogueira e você não vai mais ficar com medo. Não se deite. Se você se deitar vai adormecer e então se eu te chamar você não vai responder e eu não vou conseguir te encontrar. Está entendendo?
O menino não respondeu. Ele estava a ponto de perder a paciência quando percebeu que ele balançava a cabeça na escuridão. Está bem, ele disse. Está bem.
Escalou a encosta e voltou para a floresta, mantendo as mãos estendidas à sua frente. Havia mata em toda parte, ramos mortos e galhos espalhados pelo chão. Ele caminhava arrastando os pés e chutando-os até formar uma pilha e quando já tinha uma braçada ele se abaixou e apanhou tudo e chamou o menino e o menino respondeu e falou com ele até que ele conseguisse voltar para a ponte.
Ficaram sentados no escuro enquanto ele aparava espetos com sua faca e formava uma pilha e quebrava os galhinhos com a mão. Tirou o isqueiro do bolso e girou a roda com o polegar. Ele usava gasolina no isqueiro e ele queimava com uma chama azul e fraca e ele se curvou e acendeu a isca e observou enquanto o fogo subia através dos ramos. Empilhou mais madeira e se curvou e soprou de leve na base do pequeno lume e arrumou a madeira com as mãos, ajeitando a fogueira.
Fez mais duas viagens à floresta, arrastando braçadas de mato seco e ramos para a ponte e empurrando-as pela lateral. Podia ver o lume do fogo de alguma distância mas não achava que podia ser visto da outra estrada. Abaixo da ponte ele podia divisar um poço escuro de água parada em meio às pedras.Uma beira de gelo se formando.Ficou de pé na ponte e empurrou a última pilha de madeira, sua respiração branca sob o lume da fogueira.
Sentou-se na areia e fez um inventário do conteúdo da mochila. O binóculo. Um frasco de meio quartilho de gasolina quase cheio. A garrafa d’água. Um alicate. Duas colheres. Colocou tudo numa fileira. Havia cinco latinhas de comida e ele escolheu uma lata de salsichas e uma de milho e abriu-as com o pequeno abridor de latas do exército e colocou-as na beira da fogueira e ficou observando os rótulos queimando e se enroscando. Quando o milho começou a fumegar ele pegou as latas do fogo com o alicate e se sentaram debruçados sobre elas com suas colheres, comendo devagar. O menino estava dando cabeçadas de sono.
Quando tinham comido ele levou o menino para a faixa de cascalho embaixo da ponte, empurrou com um graveto a fina camada de gelo da superfície e se ajoelharam enquanto ele lavava o rosto e o cabelo do menino. A água estava tão fria que o menino chorava. Afastaram o cascalho para encontrar água limpa e ele lavou o cabelo dele de novo da melhor forma que conseguiu e finalmente parou porque o menino gemia com o frio da água. Enxugou-o com o cobertor, ajoelhando-se ali no brilho da luz com a sombra da estrutura inferior da ponte se projetando na paliçada de troncos de árvores para além do riacho. Este é o meu filho, ele disse. Eu lavo os miolos de um homem morto do seu cabelo. Essa é a minha tarefa. Então ele o embrulhou no cobertor e o levou para a fogueira.
O menino ficou sentado vacilando. O homem o observava para que ele não caísse em cima das chamas. Abriu com o pé buracos na areia para os quadris e para os ombros do menino onde ele dormiria e ficou abraçado a ele enquanto mexia em seu cabelo diante do fogo para secá-lo. Tudo isto feito uma antiga extrema-unção. Que seja então. Evoque as formas. Onde você não tem mais nada construa cerimônias do ar e sopre nelas.
Ele acordou no meio da noite com o frio e se levantou e quebrou mais madeira para o fogo.
Os vultos de raminhos de árvore queimando com um alaranjado incandescente nos carvões. Soprou nas chamas até avivá-las, empilhou a madeira e ficou sentado com as pernas cruzadas, apoiado no pilar de pedra da ponte. Pesados blocos de calcário empilhados sem argamassa. Lá em cima as ferragens marrons de ferrugem, os rebites presos com martelo, os dormentes e as vigas transversais de madeira. A areia onde ele se sentava estava morna ao toque mas a noite para além da fogueira era de um frio lancinante. Ele se levantou e arrastou mais madeira para baixo da ponte. Ficou de pé escutando. O menino não se movia. Ele se sentou ao lado dele e afagou seu cabelo pálido e embaraçado. Cálice dourado, próprio para hospedar um deus. Por favor não me diga como a história termina. Quando ele olhou outra vez para a escuridão para além da ponte estava nevando.
Toda a madeira que tinham para queimar era madeira fina e a fogueira ficaria acesa por não mais do que uma hora ou talvez um pouco mais. Ele arrastou o resto do mato para debaixo da ponte e partiu-o, ficando de pé em cima dos ramos e rachando-os no comprimento. Achou que o barulho fosse acordar o menino, mas não acordou.
A madeira molhada sibilava nas chamas, a neve continuava a cair. Pela manhã eles veriam se havia rastros na estrada ou não. Aquele havia sido o primeiro ser humano além do menino com quem ele falava em mais de um ano. Meu irmão pelo menos. Os cálculos traiçoeiros naqueles olhos frios e rápidos. Os dentes cinzentos e apodrecidos. Com carne humana grudada. Que transformou o mundo numa mentira a cada palavra. Quando ele voltou a acordar a neve tinha parado e a aurora granulosa delineava a floresta para além da ponte, as árvores pretas contra a neve. Ele estava deitado encurvado com as mãos no meio dos joelhos e se sentou e alimentou a fogueira e colocou uma lata de beterrabas nas brasas. O garoto o observava encolhido no chão.
A neve recente estava caída em montes em toda parte na floresta, ao longo dos ramos e empilhada nas folhas, toda ela já suja com as cinzas. Eles caminharam até onde tinham deixado o carrinho e ele colocou a mochila nele e empurrou-o até a estrada. Nenhuma marca de rodas. Ficaram parados escutando no silêncio absoluto. Então partiram pela estrada através da neve suja e cinzenta, meio derretida, o menino ao lado dele com as mãos nos bolsos.
Caminharam com dificuldade durante o dia inteiro, o menino em silêncio. A tarde a neve cinzenta já tinha derretido na estrada e à noite ela já estava seca. Não pararam. Quantos quilômetros?
Dez, vinte. Costumavam jogar malha na estrada com quatro arruelas grandes de aço que tinham encontrado numa loja de ferragens mas elas tinham sumido junto com tudo mais. Naquela noite acamparam numa ravina e fizeram uma fogueira junto a uma pequena ribanceira de pedra e comeram sua última lata de comida. Ele a havia deixado por último porque era a favorita do menino, porco e feijão. Observaram-na borbulhar lentamente sobre os carvões e ele pegou a lata com o alicate e
comeram em silêncio. Ele lavou a lata vazia com água e deu-a para o menino beber e foi tudo. Eu devia ter tomado mais cuidado, ele disse.
O menino não respondeu.
Você tem que falar comigo.
Está bem.
Você queria saber como eram os caras do mal. Agora já sabe. Pode acontecer de novo.
Minha tarefa é tomar conta de você. Eu recebi essa tarefa de Deus. Vou matar qualquer um que toque em você. Está entendendo?
Estou.
Ele ficou sentado ali encapuzado com seu cobertor. Depois de algum tempo levantou os olhos. Nós ainda somos os caras do bem? ele disse.
Somos. Ainda somos os caras do bem.
E sempre vamos ser.
Sim. Sempre vamos ser.
Está bem.
Pela manhã eles saíram da ravina e seguiram pela estrada novamente. Ele tinha entalhado para o menino uma flauta com um pedaço de bambu de beira de estrada e tirou-a do casaco e deu-a a ele. O menino a apanhou sem dizer nenhuma palavra. Depois de algum tempo ficou para trás e o homem pôde ouvi-lo tocando. Uma música informe para a era que estava para vir. Ou talvez a última música na Terra fosse evocada das cinzas de sua ruína. O homem se virou e olhou para ele, lá atrás.
Estava perdido em sua concentração. O homem pensou que ele parecia alguma criança trocada, um changeling, perdido e solitário, anunciando a chegada de um espetáculo itinerante em vilarejos e aldeias, sem saber que atrás dela os atores foram todos levados pelos lobos.
Ele estava sentado de pernas cruzadas sobre as folhas no topo de uma serrania e vasculhava o vale lá embaixo com o binóculo. A forma imóvel e derramada de um rio. As hastes negras de tijolos de um moinho. Tetos de ardósia. Uma velha torre d’água presa com arcos de ferro. Nenhuma fumaça, nenhum movimento de vida. Abaixou o binóculo e ficou sentado observando.
O que você está vendo? o menino disse.
Nada.
Entregou-lhe o binóculo. O menino passou a correia por trás do pescoço, colocou-o junto aos olhos e ajustou o foco. Tudo ao redor deles parecia tão imóvel.
Estou vendo fumaça, ele disse.
Onde.
Atrás daquelas construções.
Que construções?
O menino devolveu o binóculo e ele reajustou o foco. Um fiapo tênue. Sim, ele disse. Estou vendo.
O que a gente devia fazer, Papai?
Acho que devíamos dar uma olhada. Só temos que ser cuidadosos. Se for uma comuna eles terão barricadas. Mas pode ser que sejam só refugiados.
Como nós.
Sim. Como nós.
E se forem os caras do mal?
Vamos ter que correr o risco. Precisamos encontrar alguma coisa para comer.
Deixaram o carrinho na floresta e cruzaram um trilho de ferrovia e chegaram a uma encosta
íngreme através de hera seca e negra. Ele levava o revólver na mão. Fique perto, falou. Ele obedeceu. Avançaram pelas ruas feito saqueadores. Um quarteirão de cada vez. Um leve cheiro de fumaça de madeira no ar. Esperaram numa loja e ficaram observando a rua mas nada se movia.
Atravessaram o lixo e o entulho. Gavetas de armário espalhadas pelo chão, papel e caixas de papelão inchadas. Não encontraram nada. Todas as lojas tinham sido saqueadas anos antes, as janelas já praticamente não tinham vidro. Lá dentro estava quase escuro demais para enxergar.
Subiram os degraus de aço com nervuras de uma escada rolante, o menino segurando sua mão. Uns poucos ternos empoeirados pendendo de uma arara. Procuraram por sapatos mas não havia nenhum.