A Estranha Vida de Nikola Tesla

Nikola Tesla · Capítulo 4 de 7

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A Estranha Vida de Nikola Tesla

Capítulo 3

Capítulo 3 - Como Tesla concebeu o campo magnético rotativo

 

COM A IDADE de dez anos eu entrei no ginásio, que era uma instituição nova e muito bem equipada. No departamento de física havia vários modelos clássicos de aparelhos científicos, elétricos e mecânicos. As demonstrações e experiências realizadas ao longo do tempo pelos instrutores me fascinaram e foi, sem dúvida, um poderoso incentivo à invenção. Eu também era passionalmente apaixonado por estudos de matemática, muitas vezes ganhei elogios do professor por calcular rapidamente. Isto se deveu à minha facilidade adquirida de visualizar os dados e executar a operação, não na forma intuitiva de costume, mas como na vida real. Até certo grau de complexidade era absolutamente o mesmo para mim se eu escrevesse os símbolos no quadro ou se os idealizasse antes na minha visão mental. Mas o desenho à mão livre, ao que muitas horas do curso foram dedicadas, era um aborrecimento que eu não podia suportar. Isto foi bastante singular uma vez que a maioria dos membros da minha família se destacou no mesmo. Talvez a minha aversão fosse simplesmente devido à predileção que encontrei no pensamento sem ser perturbado. Se não fosse por alguns meninos extremamente estúpidos, que não conseguiam fazer nada, meu registro teria sido o pior.

Era uma séria desvantagem porque no regime educacional existente o desenho educacional era obrigatório, essa deficiência ameaçou estragar toda a minha carreira e meu pai teve consideráveis dificuldades em me trocar de uma classe para outra.

No segundo ano na instituição fiquei obcecado com a ideia de produzir movimento contínuo por meio de pressão de ar constante. O incidente da bomba, o qual já narrei, tinha incendiado a minha jovem imaginação e me impressionado com as possibilidades ilimitadas do vácuo. O meu desejo de aproveitar esta energia inesgotável cresceu freneticamente, mas por um longo tempo eu fiquei tateando no escuro. Finalmente, no entanto, meus esforços se cristalizaram em uma invenção que, para mim, permitiriam alcançar o que nenhum outro mortal jamais havia tentado. Imagine um cilindro que pode rodar livremente em dois rolamentos e parcialmente rodeado por uma calha retangular, que se encaixam perfeitamente. O lado aberto da calha é fechado por uma partição de modo o segmento cilíndrico dentro do invólucro divide este último em dois compartimentos separados totalmente um do outro por juntas herméticas deslizantes. Um desses compartimentos sendo vedado e totalmente selado e o outro permanecendo aberto, o resultado seria uma rotação perpétua do cilindro. Pelo menos era o que eu pensava.

Construí um modelo de madeira, ajustei com infinito cuidado e, quando apertei a bomba de um lado, observei que havia uma propensão para girar, eu delirei de alegria. Mecânica poderia ser a única coisa que eu queria fazer embora ainda sob a lembrança desanimadora de uma queda feia, quando eu pulei da parte superior de um edifício sustentado por um guarda-chuva. Eu usava todos os dias para transportar-me pelo do ar para regiões distantes, mas não podia entender como eu conseguia fazê-lo [SIC]. Agora eu tinha algo concreto, uma máquina simples com nada mais do que um eixo de rotação, as aletas envolvidas e - um vácuo de poder ilimitado! Daquele momento em diante eu faria minhas excursões aéreas diárias em um veículo de conforto e luxo como conviria ao Rei Salomão. Demorou anos antes de eu entender que a pressão atmosférica agia perpendicularmente à superfície do cilindro e que o esforço rotativo leve que observei era devido a um vazamento! Apesar de esse conhecimento vir gradualmente, foi um choque doloroso.

Eu mal tinha terminado o meu curso no ginásio quando fiquei prostrado com uma doença perigosa, ou melhor, várias delas, e minha condição tornou-se tão desesperadora que fui desenganado pelos médicos. Durante este período, foi-me permitido ler constantemente com a obtenção de livros da Biblioteca Pública, que tinha sido negligenciada e ainda foi-me confiada a classificação das obras e elaboração de catálogos.

Um dia foi-me entregue alguns volumes de uma nova literatura diferente de tudo que eu já tinha lido antes, tão cativante que me fez esquecer totalmente meu estado sem esperança. Eram as primeiras obras de Mark Twain e a elas pode-se creditar a milagrosa recuperação que se seguiu. Vinte e cinco anos mais tarde, quando me encontrei com o Sr. Clements e formamos uma amizade, contei-lhe sobre a experiência e fiquei surpreso ao ver no grande homem uma explosão de riso em pranto ...

Meus estudos continuaram no ginásio superior em Carlstadt, Croácia, onde uma das minhas tias residia. Ela era uma distinta senhora, esposa de um coronel que era um veterano que participou de muitas batalhas. Nunca pude esquecer os três anos que passei em sua casa. Nenhuma fortaleza em tempos de guerra tinha mais disciplina rígida. Eu foi alimentado como um canário. Todos os pratos eram da mais alta qualidade e deliciosamente preparados, mas em quantidade menor que mil por cento. As fatias de presunto cortadas por minha tia eram como papel de seda. Quando o coronel punha algo substancial no meu prato rapidamente ela tirava e dizia animadamente para ele, "Tenha cuidado. Niko é muito delicado."

Eu tinha um apetite voraz e sofria como Tântalo [Na mitologia grega, Tântalo era um rei que foi punido por servir aos deuses a carne do seu próprio filho, como castigo foi lançado ao Tártaro (mundo inferior), onde não podia nem comer ou beber, porque os alimentos se afastavam dele (N.T.)].

Mas eu vivia em uma atmosfera de requinte e gosto artístico bastante incomum para aqueles tempos e condições. O terreno era baixo e pantanoso e a febre amarela nunca me deixou enquanto morei lá, apesar das enormes quantidades de quinino consumidas. Ocasionalmente, o rio subia e conduzia um exército de ratos para os edifícios, devorando tudo, até mesmo os feixes de páprica ardida. Essas pragas foram para mim uma distração bem-vinda. Eu dividia as suas fileiras por todos os meios, o que me fez ganhar a distinção nada invejável de caçador de ratos na comunidade. Finalmente, no entanto, completei meu curso, a miséria terminou, e eu obtive o certificado de maturidade que me levou a uma encruzilhada.

Durante todos esses anos, meus pais nunca vacilaram na sua vontade de que eu abraçasse o clero. O simples pensamento me enchia de pavor. Eu tinha me tornado intensamente interessado em eletricidade sob a estimulante influência do meu professor de física, que era um homem engenhoso e muitas vezes demonstrou os princípios em aparelhos que ele próprio inventou. Dentre estes lembro um dispositivo na forma de um bulbo livremente rotativo, com revestimento de papel alumínio, que foi feito para girar rapidamente quando ligado a uma máquina estática. É impossível para mim para transmitir uma idéia adequada da intensidade de sentimento que eu experimentei em testemunhar suas exposições destes fenômenos misteriosos. Cada impressão produzida ainda ecoa em minha mente. Eu queria saber mais dessa força maravilhosa, ansiava por experiência e investigação e resignei-me ao inevitável com dor no coração. Quando estava preparando-me para a longa viagem para casa recebi a notícia de que meu pai queria que eu fosse a uma expedição de tiro. Era um pedido estranho, uma vez que ele sempre se opôs fortemente a este tipo de esporte. Mas alguns dias depois, eu soube que a cólera grassava naquele distrito e, aproveitando a oportunidade, eu voltei a Gospic ignorando a vontade dos meus pais. É incrível como pessoas eram absolutamente ignorantes quanto às causas deste flagelo que infligia o país em intervalos de quinze a vinte anos. Eles achavam que os agentes mortais eram transmitidos através do ar e enchiam-no com odores fortes e fumaça. Enquanto isso eles bebiam água infestada e morriam aos montões. Eu contraí a terrível doença no mesmo dia da minha chegada e, apesar de sobreviver à crise, fiquei confinado à cama por nove meses com quase nenhuma capacidade de me mover. Minha energia foi completamente esgotada e, pela segunda vez encontrei-me às portas da morte.

Em um período de esmorecimento, julgando que eu estava nas últimas, meu pai correu para o quarto. Eu ainda vejo seu rosto pálido quando ele tentou me animar usando tons que desmentiam sua garantia. "Talvez," eu disse, "Eu possa ficar bem, se você me deixar estudar engenharia." "Você vai para a melhor instituição técnica do mundo", ele respondeu solenemente, e eu sabia que ele estava falando sério. Um grande peso foi tirado da minha mente, mas o alívio teria chegado tarde demais, não fosse por uma cura maravilhosa produzida através da decocção de um peculiar feijão amargo. Eu voltei a viver como Lázaro [Lázaro de Betânia é um personagem bíblico descrito no evangelho segundo João como um amigo que Jesus teria ressuscitado, irmão de Maria e Marta (N.T.)] para espanto total de todos.

Meu pai insistiu que eu passasse um ano fazendo exercícios físicos saudáveis ao ar livre e eu relutantemente concordei. Na maior parte do tempo eu vagava nas montanhas, com uma roupa de caçador carregando um pacote de livros, e este contato com a natureza me fez ficar mais forte no corpo, bem como na mente. Pensei e planejei, concebi muitas idéias quase como uma regra ilusória. Na imaginação eram bastantes claras, mas o conhecimento dos princípios era muito limitado.

Em uma invenção minha propus transmitir cartas e pacotes através dos mares, através de um tubo submarino, em recipientes esféricos fortes o suficiente para resistir à pressão hidráulica. A unidade de bombeamento destinada a forçar a água através do tubo, foi precisamente desenhada e projetada e todos os outros elementos cuidadosamente trabalhados. Só um detalhe insignificante, sem importância, foi levemente ignorado. Eu assumi uma velocidade arbitrária da água e, além disso, tinha prazer em mantê-la alta, chegando assim a um desempenho estupendo apoiado por cálculos impecáveis. Reflexões posteriores, no entanto, sobre a resistência dos tubos aos fluidos me induziram tornar pública a propriedade desta invenção.

Outro dos meus projetos era construir um anel em torno do equador que iria, claro, flutuar livremente e ficaria preso em seu movimento de rotação por forças reacionárias, permitindo viagens a uma taxa de cerca de mil quilômetros por hora, impraticáveis por via férrea. O leitor vai sorrir. O plano era de difícil execução, eu admito, mas não tão ruim como a de um conhecido professor de Nova York, que desejava bombear o ar das zonas tórridas às temperadas, tendo esquecido inteiramente o fato de que o Senhor tinha fornecido uma máquina gigantesca para esta finalidade.

Ainda outro projeto, muito mais importante e atraente, era obter força da energia de rotação dos corpos terrestres. Eu tinha descoberto que os objetos na superfície da Terra, devido à rotação diuturna do globo, são carregados pelo mesmo alternadamente na e contra a direção do movimento de translação. Disso resulta uma grande mudança na inércia que pode ser utilizada na mais simples imaginável forma de fornecer esforço motivo em qualquer região habitável do mundo. Eu não consigo encontrar palavras para descrever a minha decepção quando mais tarde me dei conta de que eu estava na situação de Arquimedes, que procurou em vão por um ponto fixo no universo [Da célebre frase: “dê-me um ponto fixo que eu moverei a Terra” (N.T.)].

Ao término de minhas férias, fui enviado para a Escola Poly-Technic em Gratz, Styria (Áustria), que meu pai havia escolhido como uma das mais antigas e melhores instituições de renome. Esse era o momento que eu tinha aguardado e comecei meu estudo sob bons auspícios e firmemente decidido a ter sucesso. Minha formação anterior era acima da média, devido aos ensinamentos de meu pai e as oportunidades oferecidas. Eu já havia adquirido conhecimento de várias línguas e avancei nos livros de várias bibliotecas, recolhendo informações mais ou menos úteis. Então, pela primeira vez, pude escolher os temas que eu gostava, e, portanto, desenho à mão livre não me incomodou mais.

Eu preparei a minha mente para dar aos meus pais uma surpresa, e durante todo o primeiro ano eu começava meu trabalho regularmente às três horas da manhã e me estendia até onze da noite, inclusive em domingos ou feriados. Como a maioria dos meus colegas estudantes levou as coisas mais facilmente, naturalmente, eu eclipsei todos os registros. No decorrer do ano, eu passei através de nove exames e os professores acharam que eu merecia mais do que as mais altas qualificações. Armado com meus certificados importantes fui para casa para descansar um pouco, esperando pelo triunfo, e fiquei mortificado quando meu pai fez pouco destas honras duramente conquistadas.

Isso quase matou a minha ambição, mas, mais tarde, depois que ele morreu, eu fiquei aflito ao encontrar um pacote de cartas que os professores tinham escrito para ele no sentido de que, a menos ele me tirasse da instituição, eu morreria por excesso de trabalho. A partir daí dediquei minha atenção para física, mecânica e estudos matemáticos, passando as horas de lazer nas bibliotecas.

Eu tinha uma verdadeira mania de terminar o que começava o que muitas vezes me meteu em dificuldades. Em uma ocasião, eu comecei a ler as obras de Voltaire, quando eu soube, para meu espanto, que havia perto de uma centena de grandes volumes em letras pequenas que aquele monstro tinha escrito enquanto bebia setenta e duas xícaras de café preto por dia. Isto tinha que ser feito, mas quando eu coloquei de lado o último livro eu estava muito feliz, e disse: "Nunca mais!”.

Meu primeiro ano revelou que eu tinha ganhado o apreço e a amizade de vários professores. Entre estes, Professor Rogner, que ensinava assuntos aritméticos e geometria; Professor Poeschl, que ocupava a cadeira de física teórica e experimental e Dr. Alle, que ensinava cálculo integral e era especializado em equações diferenciais. Este cientista foi o mais brilhante professor que eu escutei. Ele tinha um interesse especial em meu progresso e frequentemente permanecia por uma hora ou duas na sala de aula, dando-me problemas para resolver, com os quais eu me deleitava. Para ele eu expliquei uma máquina voadora que eu tinha concebido, e não uma invenção ilusória, mas com base de em sólidos princípios científicos, que se tornará realizável completamente pela minha turbina e em breve será dada ao mundo. Os Professores Rogner e Poeschl eram ambos, homens curiosos. O primeiro tinha formas peculiares de se expressar e sempre que ele assim o fazia, havia um distúrbio, seguido de uma longa pausa constrangedora. Professor Poeschl era um alemão metódico e meticuloso. Ele tinha enormes pés e mãos como patas de um urso, mas todos os seus experimentos eram habilmente realizados como um relógio de precisão e sem falhas. Foi no segundo ano dos meus estudos que recebemos uma Dyname Gramoe [Gramme Dynamo é um gerador elétrico que produz corrente contínua (C.C.) inventado por Zénobe Gramme (N.T.)] de Paris, que tem a forma de uma ferradura com um campo magnético laminado, envolta em uma blindagem de arame com um comutador. Ao ser ligado vários efeitos da corrente (C.C.) foram mostrados. Enquanto Professor Poeschl fazia demonstrações, fazendo o aparelho funcionar como um motor, as escovas deram problemas, provocando faíscas, e eu observei que talvez fosse possível fazer o motor operar sem essa parte do aparelho. Mas ele declarou que não poderia ser feito e tive a honra de escutar uma palestra sobre o assunto, tendo como conclusão o comentário: “Mr. Tesla pode realizar grandes coisas, mas certamente nunca vai fazer isso”. Isso seria equivalente à conversão de uma força constante de atração, como a da gravidade para uma de esforço rotativo. É um esquema de movimento perpétuo, uma ideia impossível. “Mas o instinto é algo que transcende o conhecimento”. Temos, sem dúvida, certas fibras delicadas que nos permitem perceber as verdades quando a dedução lógica, ou qualquer outro esforço intencional do cérebro, são inúteis.

Por um tempo eu vacilei, impressionado com a autoridade do professor, mas logo me convenci de que eu estava certo e assumi a tarefa com todo o furor e com a ilimitada audácia da minha juventude. Comecei primeiro imaginando na minha mente uma máquina de corrente contínua em movimento, seguindo as mudanças de fluxo das correntes na armadura. Então eu imaginei um alternador e investiguei os avanços ocorrendo em uma maneira semelhante. Em seguida visualizei os sistemas que compõem os motores e geradores funcionando de diversas maneiras.

As imagens que eu vi eram perfeitamente reais e tangíveis. Passei todo o meu tempo remanescente em Gratz em esforços intensos, mas infrutíferos, deste tipo, e quase cheguei conclusão de que o problema era insolúvel.

Em 1880 eu fui para Praga, realizando o desejo do meu pai de completar a minha educação na Universidade de lá. Foi nessa cidade que eu fiz um avanço decisivo, que consistiu em retirar o comutador da máquina e estudar o fenômeno sob este novo aspecto, mas ainda assim, sem resultado. No ano seguinte houve uma mudança repentina na minha visão da vida.

Percebi que meus pais tinham feito grandes sacrifícios por minha causa e resolvi aliviar-lhes a carga. A onda do telefone americano havia acabado de chegar ao continente europeu e o sistema seria instalado em Budapeste, Hungria. Pareceu-me a oportunidade ideal, ainda mais que um amigo da nossa família era quem estava à frente do empreendimento.

Foi aqui que eu sofri o colapso total dos nervos que eu tenho me referido. O que eu experimentei durante o período da doença supera todas as crenças. Minha visão e audição foram sempre extraordinárias. Eu podia discernir claramente os objetos à distância enquanto os outros nem viam vestígio deles. Várias vezes em minha infância eu salvei as casas dos nossos vizinhos de pegar fogo por ouvir os débeis sons crepitantes que não perturbavam seu sono, e pedir ajuda. Em 1899, quando eu tinha passado de quarenta anos e conduzia minhas experiências em Colorado, eu podia ouvir distintamente trovões, a uma distância de 885 quilômetros. Meus ouvidos eram, portanto, mais de treze vezes mais sensíveis, mas naquela época eu estava, por assim dizer, surdo com uma pedra, em comparação com a agudeza de minha audição sob tensão nervosa.

Em Budapeste, eu podia ouvir o tique-taque de um relógio com três cômodos entre mim e o mesmo. Uma mosca aterrissando em uma mesa na sala causava um baque surdo na minha orelha. Uma carruagem passando a uma distância de alguns quilômetros era o suficiente para abalar todo o meu corpo. O apito de uma locomotiva a vinte ou trinta quilômetros de distância fazia o banco ou cadeira que eu estava sentado vibrar com tanta força que a dor era insuportável. O chão sob os meus pés tremiam continuamente. Eu tinha que sustentar a minha cama em coxins de borracha para poder descansar efetivamente. Os ruídos de rangidos, tanto de perto quanto de longe, muitas vezes produziam o efeito de palavras faladas, o que teria me assustado se eu não fosse capaz de determinar seus componentes acumulados. Os raios de sol, quando periodicamente interceptados, golpeavam com tanta força a minha cabeça que me atordoavam. Eu tinha que usar toda minha força de vontade para passar debaixo de uma ponte ou de outra estrutura, porque eu sentia uma pressão de esmagamento no crânio. No escuro, eu tinha os sentidos de um morcego, podia detectar a presença de um objeto a uma distância de 3,7 metros por uma peculiar sensação assustadora na testa. Meu pulso variava de sessenta a duzentas batidas e todos os tecidos do meu corpo se contraiam e tremiam o que talvez fosse o mais difícil de suportar. Um renomado médico que me deu diariamente grandes doses de brometo de Potássio, declarou que minha doença era única e incurável.

Arrependo-me eternamente que eu não estivesse sob a observação de especialistas em fisiologia e psicologia naquele momento. Agarrei-me desesperadamente à vida, mas nunca esperei me recuperar. Pode alguém acreditar que tão desesperançada destruição física possa ter transformado um homem de tenacidade e força surpreendente, capaz de trabalhar 38 anos quase sem interrupção de um dia, e ainda achar a si mesmo forte e revigorado no corpo e na mente? Tal é o meu caso. Um forte desejo de viver e continuar a trabalhar e a ajuda de um amigo dedicado, um atleta, realizou o prodígio. Minha saúde voltou e com ela o vigor da mente.

Ao atacar o problema novamente, eu quase lamentei que a luta estivesse prestes a acabar. Eu tinha tanta energia de sobra. Quando eu entendi a tarefa, não era com uma resolução como os homens costumam fazer. Comigo foi um voto sagrado, uma questão de vida ou morte. Eu sabia que eu iria morrer se eu falhasse. Agora eu sentia que a batalha estava ganha. Voltar às profundezas do cérebro era a solução, mas eu podia ainda exprimir-me em palavras.

Uma tarde, que ficará para sempre presente na minha memória, eu estava aproveitando um passeio com meu amigo no Parque da Cidade e recitando poesias. Nessa idade, eu sabia livros inteiros de cor, palavra por palavra. Um deles era "Fausto" de Goethe. O sol era somente um cenário e me fez lembrar a gloriosa passagem, "Sie ruckt und Weicht, der Tag ist uberlebt, Dort Eilt sie hin und fordert Neues Leben. Oh, dass kein Flugel mich vom Boden hebt Ihr nach und nach immer zu Streben! Ein Traum schoner indessen sie entweicht, Ach, au des Geistes Flügein wird so Leicht Kein korperlicher Flugel sich gesellen!" [Ela encolhe os ombros e desvia, o dia tem sobrevivido onde ela está e a chama para uma nova vida. Oh, nenhuma asa em sua terra a levanta mas sempre está se esforçando! Um sonho bonito, no entanto, ela escapa, Oh, as asas da mente não são tão fáceis de serem unidas fisicamente (N.T.)]. Quando eu disse estas palavras inspiradoras a ideia surgiu como um flash de iluminação e, em um instante, a verdade me foi revelada. Eu desenhei com um pedaço de pau na areia o diagrama, que foi mostrado somente seis anos mais tarde, em meu endereço perante o American Institute of Electrical Engineers, e meus colegas entenderam perfeitamente. As imagens que eu vi foram maravilhosamente nítidas e claras e tinham a solidez de metal e pedra, tanto que eu lhe disse: "Veja o meu motor aqui, assista-me revertê-lo." Eu não posso começar a descrever a minha emoção. Pigmaleão [Pigmaleão foi escultor que se apaixonou por uma estátua que esculpira ao tentar reproduzir a mulher perfeita (N.T.)] ver sua estátua viva não poderia ter ficado mais profundamente comovido. Mil segredos da natureza que eu poderia ter tropeçado acidentalmente, eu teria dado por aquele que eu tinha arrancado contra todas as probabilidades e arriscando a minha existência...

Um dos motores originais de indução por corrente alternada (AC) de Tesla,

exposto no British Science Museum em Londres.

Motores Tesla - Westinghouse Photo Collection

Tesla e sua famosa bobina.