A Estranha Vida de Nikola Tesla
Capítulo 4
Capítulo 4 - A Descoberta da Bobina de Tesla e o Transformador
(A parte básica de todos os rádios e TVs.)
POR UM TEMPO eu me entreguei totalmente ao intenso prazer de imaginar máquinas e inventar novas formas. Era um estado mental de felicidade completa, que eu jamais conheci na vida. As ideias vinham em um fluxo ininterrupto e a única dificuldade que tive era de retê-las com rapidez. As peças do aparelho que concebi eram-me absolutamente reais e tangíveis em cada detalhe, até mesmo as minúsculas marcas e sinais de desgaste. Eu adorava imaginar os motores funcionando constantemente, pois desta maneira eles apresentavam aos olhos uma visão fascinante da mente. Quando a inclinação natural desenvolve-se em um desejo apaixonado, o avanço em direção a sua meta acontece com a rapidez de botas de sete léguas [SIC]. Em menos de dois meses, desenvolvi praticamente todos os tipos de motores e modificações do sistema que são agora identificados com o meu nome, e que são utilizados sob muitos outros nomes em todo o mundo. Foi, talvez, providencial que as necessidades da existência comandarem a suspensão temporária dessa atividade que consome a mente.
Eu vim para Budapeste motivado por uma informação prematura a respeito de uma empresa de telefone, e por ironia do destino, tive que aceitar uma posição como desenhista no Gabinete Central de Telégrafo do Governo húngaro, com um salário que eu julgo ter o privilégio de não divulgar. Felizmente, eu logo despertei o interesse do inspetor-chefe e depois fui empregado em cálculos, desenhos e estimativas de conexão das novas instalações, até a central telefônica começar, quando eu assumi o comando da mesma. A experiência e conhecimento prático que ganhei no decorrer deste trabalho foram dos mais valiosos e o emprego me deu ampla oportunidades para o exercício das minhas faculdades inventivas. Fiz várias melhorias no aparelho da Estação Central e aperfeiçoei um repetidor de telefone ou amplificador que nunca foram patenteados ou publicamente descritos, mas são creditados a mim até hoje. Em reconhecimento da minha assistência eficiente o organizador da empresa, o Sr. Puskas, após descartar seu negócio em Budapeste, me ofereceu uma posição em Paris, que eu aceitei com prazer.
Nunca poderei esquecer a impressão profunda que esta cidade mágica produziu em minha mente. Por vários dias após a minha chegada, eu vaguei pelas ruas totalmente perplexo com o novo espetáculo. As atrações eram muitas e irresistíveis, mas, infelizmente, eu gastei rapidamente o que eu tinha recebido. Quando o Sr. Puskas me perguntou como eu estava indo no novo âmbito, eu descrevi a situação com precisão com a afirmação de que "os últimos 29 dias do mês são os mais difíceis”. Eu levava uma vida bastante intensa no que agora era a chamada de "moda de Roosevelt." Todas as manhãs, independentemente do tempo, eu ia do Boulevard St. Marcel, onde eu morava para uma casa de banho no rio Sena, mergulhava na água, fazia o circuito vinte e sete vezes seguidas, e então caminhava uma hora para chegar Ivry, onde a fábrica da empresa se localizava. Lá eu tomava um café da manhã de lenhador às sete e meia da manhã e, em seguida, ansiosamente aguardava a hora do almoço, enquanto isso “quebrava um galho” para o gerente, Mr. Charles Batchellor, que era um amigo íntimo e assistente de Edison. Aqui eu entrei em contato com alguns americanos que cortesmente se apaixonaram por mim por causa da minha proficiência em bilhar! Expliquei minha invenção para esses homens e um deles, o Sr. D. Cunningham, encarregado do Departamento de Mecânica, ofereceu-se para formar uma sociedade anônima. A proposta parecia para mim cômica ao extremo. Eu não tinha a menor ideia do que ele queria dizer, exceto que era a maneira americana de fazer as coisas. Não deu em nada, no entanto, e durante os meses seguintes, eu tive que viajar de um lugar para outro na França e na Alemanha para curar os males [SIC] das usinas.
Na minha volta para Paris, eu demonstrei a um dos administradores da Companhia, o Sr. Rau, um plano para melhorar os seus dínamos e a oportunidade foi-me dada. Meu sucesso era completo e os diretores, satisfeitos, me concederam o privilégio de desenvolver reguladores automáticos que eram muito desejados. Pouco depois, houve alguns problemas com a planta de iluminação que tinha sido instalado na nova estação ferroviária de Strassburg, Alsácia. A fiação estava com defeito e por ocasião da abertura das cerimônias, uma grande parte de um muro foi destruído por um curto-circuito, exatamente na presença do Imperador William I. O Governo alemão se recusou a usar a planta e empresa francesa estava enfrentando sérias perdas. Por conta do meu conhecimento do idioma alemão e experiência do passado, me foi confiada a difícil tarefa de pôr em ordem esse assunto e no início de 1883, eu fui para Strassburg com essa missão.
Alguns incidentes nessa cidade deixaram um registro indelével na minha memória. Por curiosa coincidência, um bom número de homens que, posteriormente alcançaram a fama vivia lá nessa época. Mais tarde na vida, eu costumava dizer: "Havia uma grandeza de bactérias naquela velha cidade”. "Outros contraíram a doença, mas eu escapei!" O trabalho prático, correspondência e reuniões com funcionários me mantiveram preocupado dia e noite, mas assim que eu rapidamente fiquei apto a gerir, empreendi a construção de um motor simples em uma loja mecânica em frente à estação ferroviária, tendo trazido comigo desde Paris algum material para esse fim. A consumação do experimento foi, no entanto, adiada até o verão do mesmo ano, quando eu finalmente tive a satisfação de ver a rotação efetuada por corrente alternada de fase diferente, sem contatos deslizantes ou comutadores, como eu tinha concebido um ano antes. Foi um prazer extraordinário, mas não comparável com o delírio de alegria após a primeira revelação.
Entre os meus novos amigos estava o ex-prefeito da cidade, Sr. Sauzin, o qual já havia, em certa medida, familiarizado com esta e outras invenções minhas e cujo apoio esforcei-me em assegurar. Ele era sinceramente dedicado a mim e colocou o meu projeto perante várias pessoas ricas, mas para minha vergonha, não houve resposta. Ele queria me ajudar de todas as maneiras possíveis e próximo ao dia primeiro de julho de 1917, lembrei-me de uma forma de "assistência" que recebi daquele homem encantador, que não foi financeira, porém não menos apreciada. Em 1870, quando os alemães invadiram o país, o Sr. Sauzin havia enterrado um bom lote de St. Estephe [Saint Estephe é um dos vinhos mais famosos da região de Bordeaux (N.T.], de 1801, e ele chegou à conclusão de que não conhecia nenhuma pessoa mais digna do que eu para consumir essa bebida preciosa. Isso, eu posso dizer, é um dos inesquecíveis incidentes a que me referi. Meu amigo me pediu para retornar a Paris o mais rápido possível e buscar apoio lá. Isso eu estava ansioso para fazer, mas o meu trabalho e as negociações foram adiados, devido a todos os tipos de pequenos obstáculos que eu encontrei, então, às vezes, a situação parecia sem esperança. Só para dar uma idéia do rigor e da “eficiência” alemã, posso mencionar aqui uma experiência bastante engraçada.
Uma lâmpada incandescente de oito watts deveria ser colocada num corredor, e depois de escolher o local adequado, eu pedi ao "monteur" (montador) para passar os fios. Depois de trabalhar por um tempo, ele concluiu que o engenheiro tinha que ser consultado. O engenheiro fez várias objeções, mas finalmente concordou que a lâmpada deve ser colocada a duas polegadas do ponto que eu tinha escolhido então o trabalho prosseguiu. Em seguida, o engenheiro ficou preocupado e disse-me que o inspetor Averdeck deveria ser notificado. Essa importante pessoa foi chamada, investigou, debateu e decidiu que a lâmpada deveria ser deslocada para trás duas polegadas, que era o local que eu tinha marcado! Não demorou muito, no entanto, para Averdeck duvidar de si mesmo e me avisar que ele havia informado o Inspetor- Chefe Hieronimus do assunto e que eu deveria aguardar a sua decisão. Foram vários dias antes do Inspetor- Chefe ser capaz de libertar-se de outras tarefas urgentes, mas finalmente, ele chegou e um debate duas horas se seguiu, quando ele decidiu mudar a lâmpada mais duas polegadas. Minhas esperanças de que este seria o ato final, foram destruídas quando o Inspetor- Chefe voltou e me disse: "Regierungsrath Funke é minucioso e eu não me atreveria a dar uma ordem para colocar esta lâmpada sem a sua aprovação explícita." Assim, foram tomadas medidas para uma visita daquele grande homem. Começamos limpeza e polimento de manhã cedo, e quando Funke veio com sua comitiva foi recebido cerimoniosamente. Depois de duas horas de deliberação, ele de repente exclamou: "Eu preciso ir!", e apontando para um lugar no teto, ele ordenou-me a colocar a lâmpada lá. Era o ponto exato que eu tinha originalmente escolhido! E assim foi, dia após dia, com variações, mas eu estava determinado a conseguir a qualquer custo, e no final os meus esforços foram recompensados.
Na primavera de 1884, todas as diferenças foram ajustadas, a planta formalmente aceita, e eu voltei para Paris com uma expectativa agradável. Um dos administradores havia me prometido uma compensação generosa caso eu obtivesse sucesso, bem como uma consideração razoável das melhorias que eu tinha feito aos seus dínamos e eu esperava auferir uma soma substancial. Havia três administradores, que eu vou designar como A, B, e C por conveniência. Quando liguei para A, ele me disse que B tinha que ser consultado. Este senhor disse que só C poderia decidir e mais tarde e tive a certeza que A sozinho era quem tinha o poder decisão. Depois de várias voltas neste círculo vicioso, ficou claro para mim que a minha recompensa era um castelo na Espanha [SIC].
O fracasso absoluto das minhas tentativas de levantar capital para desenvolvimento foi outra decepção, e quando o Sr. Bacharelor pressionou-me para ir para a América, com a ideia de redesenhar as máquinas Edison, decidi tentar a minha sorte na Dourada Terra Prometida. Mas quase perdi a chance. Eu me desfiz dos meus modestos bens, assegurei acomodações e encontrei-me na estação da estrada de ferro onde o trem estava se retirando. Naquele momento, eu descobri que o meu dinheiro e os bilhetes tinham desaparecido. O que fazer era a questão. Hércules teve muito tempo para deliberar, mas eu tinha que decidir, enquanto corria ao lado do trem um sentimento contrário surgiu no meu cérebro como oscilações de um condensador. Decidido e ajudado pela habilidade, embarquei no último instante e após passar esta experiência um tanto trivial e desagradável, eu consegui prosseguir para Nova York, com os restos de meus pertences, alguns poemas e artigos que eu tinha escrito, um pacote de cálculos relativos a soluções de uma integral insolúvel e minha máquina voadora. Durante a viagem, eu me sentei na maior parte do tempo na popa do navio esperando uma oportunidade de salvar alguém de uma sepultura molhada (SIC), sem a menor ideia de perigo. Mais tarde, quando eu tinha absorvido um pouco do sentido prático americano, eu sentia calafrios quando recordava e admirava-me com minha insensatez. O encontro com Edison foi um evento memorável em minha vida. Eu estava espantado com este homem maravilhoso que, sem vantagens iniciais e formação científica, tinha conseguido tanto. Eu tinha estudado uma dúzia de idiomas, mergulhado na literatura e na arte, e tinha passado meus melhores anos em bibliotecas lendo todos os tipos de coisas que caíam em minhas mãos, de "Principia" de Newton aos romances de Paul de Kock, e sentiu que a maior parte da minha vida tinha sido desperdiçada. Mas não demorou muito para que eu reconhecesse que era a melhor coisa que eu poderia ter feito. Em algumas semanas eu ganhei a confiança de Edison. Aconteceu da seguinte forma.
O SS Oregon, o navio de passageiros mais rápido naquela época, tinha suas duas máquinas de iluminação avariadas e sua vela estava arrasada. Como a superestrutura tinha sido construída depois da sua instalação, era impossível removê-los da sustentação. A situação era séria e Edison estava muito irritado. À noite eu levei os instrumentos necessários comigo e fui a bordo do navio, onde fiquei a noite inteira. Os dínamos estavam em mau estado de conservação, com vários curto circuitos e quebras, mas com a ajuda da tripulação, consegui colocá-los em boa forma. Às cinco horas da manhã, quando passava pela Quinta Avenida em meu caminho para a loja, eu encontrei Edison com Bachelor e alguns outros, que estavam voltando para casa para descansar. "Aqui está nosso Parisiense passeando à noite", disse ele. Quando eu disse a ele que eu estava vindo do Oregon e tinha consertado ambas as máquinas, ele olhou para mim em silêncio e foi embora sem dizer uma palavra. Mas quando ele já estava a alguma distância o ouvi comentar, "Bachelor, este é um bom homem. "E a partir desse momento eu tive total liberdade na direção do trabalho. Por quase um ano o meu horário regular era das 10h30min até as 05h00min horas da manhã seguintes todos os dias, sem exceção. Edison me disse: "Eu tive muitos assistentes que trabalhavam duro, mas você leva o bolo. "Durante esse período eu projetei vinte e quatro diferentes tipos de máquinas padrão com núcleos pequenos e padrão uniforme, os quais substituiriam os antigos. O gerente me prometeu cinquenta mil dólares na conclusão desta tarefa, mas acabou por ser uma brincadeira. Isso me deu um choque doloroso e eu renunciei a minha posição.
Imediatamente depois disso, algumas pessoas se aproximaram de mim com a proposta de formar uma companhia de luz de arco com o meu nome, com o que eu concordei. Aqui, finalmente, tive uma oportunidade para desenvolver o motor, mas quando eu abordei o assunto, meus novos sócios disseram: "Não, nós queremos a lâmpada de arco. Nós não nos importamos com esta sua corrente alternada. "Em 1886, meu sistema de iluminação de arco foi aperfeiçoado e adotado por fábricas e iluminação municipal, e eu estava livre, mas com nenhuma outra posse além de um certificado de ações lindamente gravado de valor hipotético. Seguiu-se um período de luta no novo meio para o qual eu não estava equipado, mas a recompensa veio no final, e em abril de 1887, a Tesla Electric Co. foi estruturada, provida com um laboratório e instalações. Eu construí os motores exatamente como eu tinha imaginado. Não fiz nenhuma tentativa de melhorar o projeto, me limitei a reproduzir as imagens que apareceram na minha visão e a operação sempre foi como eu esperava.
No começo de 1888, um arranjo foi feito com a Empresa Westinghouse para a fabricação dos motores em larga escala. Mas tive que superar grandes dificuldades. Meu sistema era baseado no uso de correntes de baixa frequência e os peritos Westinghouse haviam adotado 133 ciclos com o objetivo de garantir vantagens na transformação. Eles não queriam desistir do seu padrão de aparelhos e meus esforços se concentraram em adaptar o motor a estas condições. Outra necessidade era produzir um motor capaz de funcionar de forma eficiente nesta frequência com dois fios, o que não foi uma conquista fácil.
No final de 1889, porém, os meus serviços em Pittsburgh já não eram essenciais, eu retornei a Nova York e retomei o trabalho experimental em um laboratório em Grand Street, onde comecei imediatamente o projeto de máquinas de alta frequência. Os problemas de construção neste campo inexplorado eram novos e muito peculiares, e eu encontrei muitas dificuldades. Eu rejeitei o tipo indutor, temendo que talvez não produzir ondas senoidais perfeitas, que eram tão importantes para a ação ressonante. Se não fosse por isso, eu poderia ter-me salvo de grande parte de trabalho. Outra característica desanimadora do alternador de alta frequência parecia ser a inconstância de velocidade, que ameaçou impor sérias limitações ao seu uso. Eu já tinha notado em minhas demonstrações diante da Instituição Americana de Engenheiros Elétricos, que várias vezes o ajuste se perdia, necessitando de reajuste, e ainda assim não previram o que eu descobri algum tempo depois, - um meio de operar de uma máquina deste tipo a uma velocidade constante com um grau que não variava mais do que uma pequena fração de uma revolução entre os extremos da carga. Entre muitas outras considerações, pareceu-me desejável inventar um aparelho mais simples para a produção de oscilações elétricas.
Em 1856, Lord Kelvin tinha exposto a teoria da descarga do condensador, mas a aplicação prática desse conhecimento importante não foi feita. Eu vi as possibilidades e empreendi o desenvolvimento de um aparelho de indução sobre este princípio. Meu o progresso foi tão rápido que me permitiu expor na minha palestra, em 1891, uma bobina dando faíscas de cinco polegadas. Naquela ocasião, eu disse francamente aos engenheiros de um defeito envolvido na transformação pelo novo método, nomeadamente, a perda na lacuna da ignição. Investigações posteriores mostraram que não importa qual o meio é empregado, - se for o ar, hidrogénio, vapor de mercúrio, óleo, ou um fluxo de elétrons, a eficiência é a mesma. É uma lei muito parecida com a administração da conversão de energia mecânica. Podemos fazer cair um peso a partir de certa altura verticalmente para baixo, ou levá-lo para o nível mais baixo ao longo de um o caminho tortuoso, é irrelevante na medida em que a quantidade de trabalho é o que interessa. Felizmente, contudo, esta desvantagem não é fatal, porque com uma adequada dosagem dos circuitos ressonantes, de uma eficiência de 85 por cento é atingível. Desde o meu anúncio no início da invenção, que entrou em uso universal e operou uma revolução em muitos departamentos, um futuro ainda maior espera por ela.
Quando em 1900 obtive descargas poderosas de 300 metros e disparei uma corrente em torno do mundo, eu me lembrei da primeira pequena faísca que eu observei no meu Laboratório na Grand Street e fiquei emocionado com sensações parecidas com as que eu senti quando eu descobri o campo magnético rotativo.
Torre de transmissão de Tesla e do Laboratório, construído em 1901-1905 por
Stanford White, arquiteto famoso e amigo de Tesla. Localizado em
Wardenclyffe, Long Island.
Estação Experimental em Colorado Springs, onde foram realizadas as primeiras
experiências de transmissão sem fio (wireless), em 1899-1900.