A Fórmula de Deus
Ye pvrp
Ficaram os dois a analisar o resultado.
"Ye pvrp?", murmurou Luís Rocha. "O que significa isto?"
"Significa que a solução não é esta", suspirou Tomás. "Significa que temos de procurar outro caminho." Coçou o queixo, pensativo. "Que raio de cifra poderá haver que envolva o nome de Einstein?"
O historiador tentou várias alternativas, todas elas variações em torno do nome de Einstein, mas, pela meia-noite, sentiu-se encurralado num beco sem saída. Não encontrava forma de fazer com que um alfabeto de cifra com aquele nome funcionasse; desesperado e cansado, encostou-se na cadeira e cerrou os olhos.
"Não consigo", murmurou, desanimado. "Por mais que tente, nada dá certo."
"Vai desistir, é?"
Tomás olhou para o físico por um longo instante e, como um boneco subitamente insuflado de energia, endireitou-se depressa e voltou a agarrar-se à folha.
"Não posso", exclamou. "Tenho de continuar a tentar."
"O que tenciona fazer então?"
Era uma boa pergunta. Se as variações em torno do nome de Einstein não funcionavam, o que poderia ele fazer?
"Bem, se calhar é melhor esquecer por momentos esta segunda linha, não é?" Tomás fez uma careta. "Olhe, vamos antes tentar esta." Apontou agora para a primeira linha. "Está a ver isto? Diz see sign, ou seja, veja o sinal." Ergueu a cabeça da folha e perscrutou com atenção o seu interlocutor. "Quando leu o manuscrito, reparou se havia algum sinal estranho lá colocado?"
O físico torceu a boca.
"Que eu saiba, não. Não reparei em nada."
"Então que raio de sinal é este a que se refere o criptograma?"
Ficaram ambos a contemplar aquele see sign.
"Não poderá ser essa frase ela própria um sinal?", perguntou Luís Rocha.
Tomás soergueu o sobrolho.
"A frase ser ela própria o sinal?"
"Esqueça, foi uma idéia disparatada."
"Não, não. Vamos considerá-la." Respirou fundo. "Como é que esta frase poderia ser ela própria um sinal? Bem... só se for um anagrama."
"Um anagrama?"
"Sim, por que não? Deixe cá ver o que acontece se mudarmos a ordem das letras." Voltou à folha e pôs-se a tentar combinações. "Vamos ligar consoantes a vogais. Deixe cá ver. As consoantes são s, g e n, e as vogais são e e i. Vamos começar com o n."
Tentou diferentes combinações usando as letras incluídas nas palavras see sign.
"Não, isto não faz sentido", constatou o criptanalista. "Se calhar é melhor tentarmos começar com o g."
Gisenes
Gesines
Genises
Genesis
Parou.
Mirou a sequência, estupefacto, a boca abrindo-se como um peixe enquanto contemplava, vidrado, a última palavra. Permaneceu um longo momento sem nada conseguir dizer, apenas fixo na palavra que inesperadamente lhe emergiu no papel; até que, como um sonâmbulo, conseguiu enunciar a mensagem oculta naquele anagrama.
"Gênesis."
Passaram a hora seguinte num estado de excitação absoluta, quase frenéticos, às voltas com uma Bíblia que foram apressadamente arrancar às mãos do estremunhado pároco a cuja porta foram bater na Capela de São Miguel. Tomás leu e releu todo o início do Pentateuco, procurando um sinal que aparecesse no texto como um abre-te Sésamo redentor.
"«No princípio, Deus criou os céus e a terra»", leu em voz alta pela terceira vez. "«A terra era informe e vazia. As trevas cobriam o abismo e o Espírito de Deus movia-Se sobre a superfície das águas. Deus disse: 'Faça-se luz'. E a luz foi feita. Deus viu que a luz era boa e separou a luz das trevas. Deus chamou dia à luz e às trevas noite. Assim, surgiu a tarde e, em seguida, a manhã: foi o primeiro dia. Deus disse: 'Haja um firmamento entre...'»"
"Ouça", protestou Luís Rocha, a excitação dando gradualmente lugar ao cansaço. "Você não vai ler isso tudo outra vez, pois não?"
Tomás hesitou.
"Tenho de ler. Se não, como é que encontro o sinal?"
"Mas será que o sinal está mesmo aqui?"
O historiador acenou com a folha amarfanhada das anotações.
"Você não viu a mensagem cifrada por Einstein? See sign dá Gênesis. Que eu saiba, isto só tem uma interpretação. Trata-se de uma mensagem holográfica, em que a cifra e a mensagem cifrada se completam. Não vê? See sign dá Gênesis. No fundo, Einstein estava-nos a dizer: see the sign in Gênesis. Ou, vejam o sinal no Gênesis."
"Mas qual sinal?"
Tomás olhou para o grande volume da Bíblia que tinha aberto sobre a secretária.
"Não sei. É isso que tenho de descobrir, não é?"
"E vai descobrir a ler o Gênesis trezentas vezes?"
"Se tiver de ser", disse Tomás. "Vou ler tantas vezes quantas as necessárias até perceber qual o sinal a que Einstein se estava a referir. Vê alternativa?"
Luís Rocha apontou para a segunda linha da mensagem cifrada.
"A alternativa é tentar decifrar esta última mensagem. Este... uh... !ya ovqo."
"Mas eu não estou a conseguir quebrar essa cifra..."
"Desculpe lá, mas eu acabei de o ver a quebrar a cifra da primeira linha."
"Era um anagrama, uma coisa bem mais fácil."
"Não interessa. Se conseguiu decifrar a primeira linha, vai conseguir decifrar a segunda linha também."
"Ouça, você não está a entender. A segunda linha apresenta um grau de dificuldade infinitamente maior do que a..."
O telemóvel tocou.
Tomás hesitou, considerando a hipótese de o desligar. Precisava absolutamente de se concentrar e quebrar toda a cifra, de modo a desvendar o segredo antes das oito da manhã. Se não o fizesse, Ariana seria recambiada para o Irã e isso ele não podia permitir. Tinha de quebrar a última cifra e precisava de total concentração para isso. Se calhar era melhor desligar o telemóvel.
O telemóvel continuou a tocar.
"Está sim?"
Decidira-se a atender, não seria por isso que se iria desconcentrar, pois não? Além do mais, podia ser Greg com novidades sobre Ariana.
"Professor Noronha?"
Não era Greg.
"Sim, sou eu. Quem fala?"
"Daqui Gouveia, dos hospitais da universidade."
Era o médico do pai.
"Ah, doutor Gouveia. Desde há pouco. Como está?"
"Professor Noronha, precisava que viesse aqui com urgência."
"Aqui, onde? Ao hospital?"
"Sim."
"O que se passa? O meu pai está bem?"
"Não, professor Noronha. O seu pai não está bem."
"Então, doutor? O que se passa?
"Venha cá ter, se fizer o favor."
"O que se passa?" Fez-se um curto silêncio ao telefone.
"O seu pai não passa desta noite."
XLII
Mal apareceu no hospital, Tomás foi de imediato conduzido pela enfermeira de serviço para o quarto onde se encontrava o pai. Passava da uma da manhã e as enfermarias que percorreu apressadamente estavam mergulhadas na escuridão, apenas com as luzes amareladas de um ou dois candeeiros acesas num canto, projetando sombras fantasmagóricas nas paredes; tosses roucas ou secas pontuavam o arfar pesado do agitado sono dos internados.
O doutor Gouveia veio recebê-lo ao corredor e cumprimentou-o com ar circunspecto.
"Ele teve uma crise muito grave", disse o médico, fazendo-lhe sinal para entrar no quarto. "Está agora consciente, mas não sei por quanto mais tempo."
"A minha mãe?"
"Já foi avisada e vem a caminho."
Tomás entrou no quarto e viu os contornos do corpo do pai desenhados por entre o lençol branco, à meia-luz de um candeeiro discreto. O velho professor tinha a cabeça pousada sobre uma enorme almofada e parecia respirar com alguma dificuldade.
O olhar apresentava-se vidrado, mortiço até, mas brilhou tenuamente quando reconheceu o filho.
O recém-chegado beijou-o na testa e, após um instante sem saber o que dizer, puxou uma cadeira e sentou-se ao lado da cama, junto à mesinha-de-cabeceira, incapaz de pronunciar uma palavra. Tomás pegou na mão fraca do pai e sentiu-a fria; apertou-a com ternura, como se assim lhe desse energia e o pudesse revigorar. Manuel Noronha sorriu com fraqueza, mas o suficiente para encorajar o filho a falar-lhe.
"Então pai? Como vai isso?"
O velho matemático inspirou duas vezes antes de juntar forças para responder.
"Já não aguento mais", murmurou. "Não aguento."
Tomás inclinou-se sobre a cama e, esforçando-se por combater as lágrimas, abraçou o pai. Sentiu-o frágil, cansado, como uma folha seca prestes a soltar-se da árvore ao mais leve sopro da invernia.
"Oh, pai..."
O velho afagou com carinho as costas do filho.
"Não te preocupes, Tomás. A vida é assim..."
Tomás levantou a cabeça e olhou o pai.
"Mas o pai não parece assim tão mal..."
"Não te iludas, filho. Estou na última paragem antes da viagem final."
"Tem... tem medo?"
Manuel abanou a cabeça com suavidade.
"Não. Não tenho medo." Arfou. "É estranho, antes tremia de medo, sabes? Medo por não conseguir respirar, por não saber se seria capaz de fazer a próxima inspiração, por não perceber se iria doer. Mas também medo por dar um passo para o desconhecido, por enfrentar a não-existência, por caminhar sozinho nesta estrada sombria." Nova pausa para respirar fundo. "Agora já não tenho medo. Aceito que este é o fim. Aceito."
O filho apertou-lhe a mão com mais força.
"Vai ver que se aguenta. Vai ver."
O velho professor sorriu fracamente.
"Não me aguento, Tomás. Nem vale a pena." Falava como se tivesse acabado a maratona, como se já quase não encontrasse forças para falar, mas, ao mesmo tempo, como se não fosse capaz de deixar de falar, como se tivesse de agarrar a derradeira oportunidade de deitar tudo o que sentia cá para fora. "Sabes, estou-me a despegar das coisas do mundo. Já não quero saber das intrigas da faculdade nem dos disparates dos políticos. Tudo isso deixou de me interessar." Ergueu a mão devagar, em direção da janela. "Prefiro agora ficar aqui a ouvir o grinfar de uma andorinha ou o murmurar das árvores ao vento. Isso diz-me muito mais do que a incompreensível e fútil cacofonia humana."
"Entendo."
Manuel afagou carinhosamente o braço do filho.
"Quero pedir-te desculpa por não ter sido um melhor pai."
"Oh, não diga isso. O pai foi formidável."
"Não fui e sabes que não fui." Arfou. "Fui um pai ausente, sem paciência para ti, mergulhado apenas nas minhas equações e teoremas, nas minhas investigações, no meu mundo."
"Não se preocupe. Sempre tive muito orgulho em si, sabe? É melhor um pai que procura nas equações os segredos do universo do que um pai que não sabe o que procura."
O velho matemático sorriu, encontrava energia onde supunha não a ter.
"Oh, sim. Muita gente não sabe o que procura." Fixou os olhos no teto. "A maior parte das pessoas passa por esta vida como se fosse sonâmbula, percebes? Querem possuir coisas, fazer dinheiro, consumir tudo. As pessoas estão tão inebriadas com o acessório que perdem de vista o essencial. Desejam um novo carro, uma casa maior, umas roupas mais vistosas. Querem perder peso, tentam agarrar a juventude, sonham em impressionar os outros." Respirou fundo, para recuperar o fôlego, e olhou para o filho. "Sabes por que o fazem?"
"Porquê?"
"Porque têm fome de amor. Têm fome de amor e não o encontram. É por isso que se voltam para o acessório. Os carros, as casas, as roupas, as jóias... tudo isso são substitutos. Não têm amor e procuram substitutos." Abanou a cabeça. "Mas isso não resulta. O dinheiro, o poder, a posse de coisas... nada substitui o amor. É por isso que, quando compram um carro, uma casa, uma peça de roupa, a satisfação que sentem é efêmera. Acabaram de comprar mas procuram já um novo carro, uma nova casa, uma nova peça de roupa. Procuram algo que não está ali." Nova pausa para respirar. "Nenhuma dessas coisas traz satisfação duradoura porque nenhuma dessas coisas é verdadeiramente importante. Estão todos com pressa à procura de algo que não encontram. Quando compram o que querem, descobrem que se sentem vazios. É porque o que compraram não era afinal o que queriam. Querem amor, não querem coisas. As coisas não passam de substitutos, de acessórios que mascaram o essencial."
"Mas o pai não foi assim..."
"Assim, como?"
"Assim... sempre a querer comprar coisas, sempre preocupado com o dinheiro."
"Eu andei noutras corridas. Nunca quis ter coisas, é verdade. Mas vivi a minha vida à procura do conhecimento."
"Está a ver? Isso é bem melhor, não?"
"Claro que é melhor. Mas o preço foi negligenciar-te. Não sei se isso foi bom." Arfou de novo. "Sabes, chego à conclusão de que o mais importante é dedicarmo-nos às pessoas. Dedicarmo-nos à família e à comunidade. Só isso nos preenche. Só isso tem significado."
"Mas não encontrou significado no seu trabalho?"
"Claro que sim."
"Está a ver? Valeu a pena."
"Mas o preço foi negligenciar a família..."
"Oh, não faz mal. Eu não me queixo. A mãe não se queixa. Estamos bem e temos orgulho em si."
Voltaram a abraçar-se e, por momentos, o silêncio impôs-se naquele pequeno quarto.
"Nunca percebi por que razão as pessoas não vêem o que me parece óbvio e andam tão ocupadas a fazer coisas irrelevantes. Zangam-se, afligem-se, preocupam-se com o que não tem importância, desgastam-se com o acessório. Foi um pouco por isso que me refugiei na matemática, sabes? Achei que nada era importante a não ser percebermos a essência do mundo que nos rodeia."
"Foi isso o que procurou na matemática?"
"Sim. Andei à procura da essência das coisas. Descubro agora, não sei se com embaraço, que, afinal, andei todo este tempo à procura de Deus." Sorriu. "Através da matemática, andei à procura de Deus."
"E encontrou-O?"
O velho pareceu desfocar os olhos.
"Não sei", acabou por dizer. "Não sei." Suspirou. "Encontrei algo de muito estranho. Não sei se é Deus, mas é algo de... extraordinário."
"O quê? O que encontrou?"
"Encontrei inteligência na concepção do universo. Isso é inegável. O universo está concebido com inteligência. Às vezes descobrimos uma coisa curiosa na matemática, uma qualquer brincadeira que, à primeira vista, parece absolutamente irrelevante. Mais tarde acabamos por constatar que aquela curiosidade numérica desempenha afinal um fundamental papel na estruturação de alguma coisa feita pela natureza."
"Estou a ver."
"O que é mais estranho na natureza é que tudo está ligado. Percebes? Mesmo coisas que parecem absolutamente díspares, sem relação umas com as outras... mesmo essas coisas estão ligadas. Quando raciocinamos, alguns electrões deslocam-se no nosso cérebro. Pois essa alteração ínfima acaba por influenciar, mesmo que minusculamente, a história de todo o universo." Fez um olhar sonhador. "Interrogo-me se nós não somos Deus."
"Como assim? Não percebo..."
"Ouve, Tomás. Deus é tudo. Quando olhas para algo da natureza, estás a ver uma faceta de Deus. Ora, como nós fazemos parte da natureza, nós somos também Deus. Entendes?"
"Estou a ver."
"É como se Deus fosse o nosso corpo e nós fôssemos os neurônios desse corpo." Falava pausadamente, como se cada palavra fosse a última, mas atrás dela vinha outra e outra ainda, o velho matemático descobria forças onde já não as parecia ter. "Imagina os nossos neurônios. Com toda a certeza, cada neurônio não sabe que faz parte da fatia pensante e consciente do meu corpo, pois não? Cada um acha que está separado de mim, que não faz parte de mim, que tem a sua individualidade. E, no entanto, a minha consciência é a soma de todas essas individualidades, as quais, aliás, não são individualidades nenhumas, são antes partes de um todo. Quer dizer, uma célula do meu braço não pensa, é como uma pedra na natureza, não tem consciência. Mas os neurônios no cérebro pensam. Eles, se calhar, encaram-me a mim como se fosse Deus e não se apercebem de que eu sou eles em conjunto. Da mesma maneira, nós, os seres humanos, talvez sejamos os neurônios de Deus e não nos apercebemos disso. Achamos que somos individuais, separados do resto, quando afinal fazemos parte de tudo." Sorriu. "Einstein acreditava que Deus é tudo o que vemos e ainda tudo o que não vemos."
"Como sabe isso?"
"O quê? Que Deus é tudo?"
"Não. Como sabe o que Einstein pensava?"
"Oh, era o Augusto que me contava."
"O professor Siza?"
"Sim, o Augusto." Fez um ar cansado. "Coitado, o que será feito dele?"
Tomás quase lhe revelou o destino do amigo, mas conteve-se a tempo; aquela não era a altura para fazer uma revelação tão chocante. Preferiu antes deixar o pai discorrer sobre o que lhe ia na alma.
"Vocês davam-se muito bem, não é?"
"Quem? Eu e o Augusto?"
"Sim."
"Oh, sim. Falávamos muito. O Augusto acreditava na existência de Deus. Eu fazia o papel do cético, o que era sempre do contra."
"O que lhe dizia ele?"
"Citava muito o seu mestre. Dizia que Einstein isto e Einstein aquilo. O homem era um herói para ele." Voltou a sorrir. "Guardou tudo o que Einstein lhe deu, sabias?"
"Ah é?"
"Tudo." Esboçou um esgar nostálgico. "Quando o Augusto desapareceu, o colaborador dele apareceu-me lá em casa, muito nervoso, e entregou-me um envelope lacrado que era do Augusto. Acho que já te contei isso."
"Sim."
"O rapaz vinha muito nervoso. Dizia que quem quer que fosse que tivesse raptado o Augusto poderia voltar e que ele próprio não se encontrava em segurança. Enfim, via-se que estava em pânico, não é?"
"Calculo."
"O moço andava a distribuir pelos outros professores as coisas do Augusto, para dificultar a tarefa dos supostos sequestradores. Claro que aquilo era um imenso disparate, é evidente que não lhe iria acontecer nada de mal, mas quem é que convencia o rapaz do contrário? O tipo estava totalmente em pânico. De maneira que lá lhe fiquei com o envelope."
"Fez bem."
"Agora vais-te rir. Curioso como sou, deslacrei o envelope e fui ver o que estava lá dentro. Sabes o que era?"
"Não."
"Umas relíquias que o Augusto guardou dos seus tempos de Princeton."
"Ah, sim?"
"Pois. Era uma pequena folha rabiscada por Einstein."
"A sério?"
"É verdade. Umas coisas sem sentido, claro. A folha tinha três alfabetos colocados uns em cima dos outros e, no topo, o nome de Einstein em italiano. Pois, olha, o Augusto até isso tinha guardado, vê lá tu."
"O nome de Einstein em italiano? Não estou a perceber..."
"É verdade, tinha o nome dele em italiano."
"Mas como é o nome de Einstein em italiano? Einsteinini?"
O pai riu-se com fraqueza.
"Não, palerma", disse. "Alberti."
"Como?"
"O primeiro nome de Einstein era Albert, não era? Pois ele escreveu Alberti."
Tomás remexeu-se na cadeira, subitamente afogueado, a excitação a rebentar-lhe no peito.
"Alberti? Tem a certeza de que é isso o que estava lá escrito?"
"Sim, claro. Porquê?"
"Ouça, pai", disse Tomás, inclinando-se sobre o paciente. "Onde está guardado esse envelope?"
"Na primeira gaveta da minha secretária, lá em casa. Porquê?"
O filho fez um esforço para conter a excitação que o assomou. Respirou fundo, controlou a vontade de ir a correr para casa e recostou-se na cadeira.
"Por nada, pai. Por nada."
Manuel olhou para ele com ar desconfiado, estranhando a inesperada alteração do seu estado de espírito.
"Passa-se alguma coisa? Eu disse alguma coisa de extraordinário?"
"Não, não. Está tudo bem."
O pai sentia-se demasiado cansado para insistir. Respirou fundo e olhou de relance para a porta.
"A tua mãe?"
"Já vem a caminho. Deve estar a chegar."
"Trata bem dela, ouviste?"
"Sim, claro. Fique descansado."
"Se um dia tiveres de a pôr num lar, escolhe um lar muito bom."
"Oh, pai. Que raio de conversa..."
"Deixa-me falar."
"Sim."
"Trata sempre bem da tua mãe." Tossiu. "Ajuda-a a viver com dignidade o tempo que lhe resta."
"Não se preocupe."
Manuel parou para recuperar o fôlego. Por instantes só se escutou o seu arfar pesado.
"Há uma certa paz na idéia da morte", sussurrou. "Mas, para nos entregarmos a ela, temos de fazer as pazes com a vida. Percebes? Temos de perdoar aos outros. Para o conseguirmos, porém, precisamos primeiro de nos perdoarmos a nós próprios. Perdoa-te a ti mesmo e depois perdoa aos outros." Mais uma pausa para respirar. "Temos medo da morte porque achamos que não fazemos parte da natureza, que uma coisa somos nós e outra é o universo. Mas tudo na natureza morre. De certo modo, nós somos um universo, e, por isso, nós também morremos." Procurou com a mão a mão do filho e enlaçaram os dedos. "Vou-te contar um segredo. Queres ouvir?"
"Sim."
"O universo é cíclico."
"Como?"
"O Augusto contou-me que os hindus acreditam que tudo no universo é cíclico, até o próprio universo. O universo nasce, vive, morre, entra na não-existência e volta a nascer, num ciclo infinito, num eterno retorno. Tudo é cíclico. Chamam-lhe o dia e a noite de Urahman.'' Arregalou os olhos.
"Sabes que mais?"
"Diga."
O pai sorriu.
"Os hindus têm razão."
Sentiram a porta abrir-se e Tomás viu a mãe entrar. Dona Graça vinha com um sorriso confiante, como se aquela fosse mais uma visita, um novo encontro com o marido em convalescença; mas o filho sabia que era tudo fachada, que por detrás daquele sorriso se escondiam as lágrimas, que por detrás daquela confiança se ocultava o absoluto desespero.
Tomás tomou naquele instante consciência de que este era o derradeiro encontro dos pais, o momento em que se iriam amar pela última vez, restavam-lhes poucos instantes para dizerem adeus e seguirem caminhos diferentes. Não há separação mais dolorosa do que aquela que é para sempre. Sem conseguir mais reter a vaga de emoções que o afogava pela garganta, caiu sobre o pai e agarrou-o com força, abraçou-o e beijou-o com saudade, abriu enfim as comportas do rio de lágrimas que lhe transbordava pelos olhos e deixou soltar-se a comoção de quem sabe que aquela é a despedida.
Até à eternidade.
XLIII
O ribombar longínquo dos trovões anunciava a lenta aproximação da chuva. Tomás olhou para o céu e contemplou os estratos densos que se amontoavam a baixa altitude, sombrios na base, luminosos no topo; mas tão vastos que pareciam uma cobertura, um enorme e opaco teto que deslizava rente ao solo e por toda a região lançava uma penumbra triste, triste e cinzenta.
O céu preparava-se para chorar.
"Pater noster, qui es in caelis,
Sanctificetur nomen tuum,
Adveniat regnum tuum,
Fiat voluntas tua
Sicut in caelo et in terra."
Os ciprestes, altos e esguios, abanavam ao vento e Tomás estreitou a mãe junto a si quando ouviu o padre, terminada a homilia final, fazer o sinal-da-cruz e entoar o pai-nosso em latim, a voz cavada, profunda. Dona Graça chorava baixo, um lenço rendilhado colado ao nariz, e o filho teve o cuidado de a manter colada ao seu corpo, como se assim lhe dissesse que ficasse descansada, que nada temesse, que ele a protegeria.
O caixão do pai, a madeira de nogueira envernizada brilhando à luz tênue da manhã, encontrava-se pousado sobre a terra úmida, junto à cova aberta no chão, e uma pequena multidão de familiares, amigos, conhecidos ou simples alunos e ex-alunos aglomerava-se em redor, numa formação compacta, escutando em silêncio as palavras solenes entoadas pelo capelão da universidade no cemitério da Conchada.
"Panem nostrum super sub stantialem da nobis hodie;
Et dimitte nobis debita nostra,
Sicut et nos dimíttimus debitóribus nostris;
Et ne inducas nos in tentationem,
Sed libera nos a malo.
Amen."
Um murmúrio ergueu-se na multidão, confirmando aquele amen final, e o padre benzeu o caixão. Os coveiros colocaram-se em posição, ergueram o féretro e desceram-no devagar para a cova. O pranto da mãe tornou-se mais convulsivo e o próprio Tomás teve dificuldade em controlar as emoções. Viu o pai ser engolido por aquele terrível buraco escuro e nesse instante foi assaltado pela imagem do homem sábio, reservado, fechado no seu escritório a resolver os enigmas do universo, tão grande em vida e agora tão reduzido a nada.
A nada.
Sempre lhe disseram que um homem só se torna homem quando o pai morre; mas Tomás não se sentia mais homem porque o pai ia a enterrar. Ao ver as primeiras pazadas de terra tombar sobre o esquife sentiu-se pequeno, uma criança perdida num mundo hostil, abandonada pelo seu protetor, desamparada do aconchego do homem que sempre olhara como quem olha para uma montanha.
Filas de pessoas vieram apertar-lhe a mão. Vinham trajadas de escuro, o olhar pesado, despenteadas pelo vento agreste, soltando palavras de circunstância, dizendo coisas ponderadas, encorajando-o a ter coragem. Conhecia alguns rostos, eram primos e tios que vieram de longe, ou colegas do pai na universidade; mas a maioria não, tratava-se de gente que nunca vira antes e que viera simplesmente para se despedir do velho professor de matemática.
A saída do cemitério viu a longa limusina negra com a matrícula diplomática estacionada no passeio. Procurou em redor e deparou com homens de escuro, de ridículos óculos de sol naquele dia sombrio, aglomerados em torno de um banco de jardim, de aspecto folgado. Os homens viram-no e endireitaram-se, talvez por respeito, talvez porque se preparassem para algo. Uma figura vestida de azul, de corpo esguio e olhar hipnotizante, destacou-se de entre eles e foi para essa figura de fêmea que a atenção de Tomás se desviou, atraído para aqueles olhos melífluos com a mesma força que um metal é atraído para um íman.
Ariana.
Aproximaram-se devagar e abraçaram-se com força. Tomás acariciou-lhe o cabelo negro, afagou-lhe a pele delicada, beijou-lhe a bochecha fofa e os lábios úmidos, sentiu-lhe as lágrimas quentes colarem-se-lhe ao rosto. Ouviu-a gemer e suspirar, estreitou-a para si e aqueceu-se no calor do seu corpo trêmulo, o volume dos seios comprimiu-se-lhe no peito, as mãos afagaram-lhe as costas e os dedos mergulharam-lhe pelo cabelo.
"Tive saudades tuas", murmurou ele.
"E eu tuas", retorquiu ela, a voz num sopro. "Muitas."
"Estás bem?"
"Sim, estou bem, estou bem."
"Trataram-te bem?"
"Sim." Ela afastou o rosto e olhou-o, apreensiva. "E tu? Como te sentes?"
"Estou bem, não te preocupes."
Tomás sentiu vultos moverem-se em redor, mas não se importou. Naquele instante apenas lhe interessava Ariana, a Ariana que ele finalmente estreitava entre os braços, a Ariana com quem partilhava lágrimas de sal e beijos de chocolate, a Ariana que lhe tremia nos braços, que estremecia de saudade e de emoção.
"Hi, Tomás", disse uma voz familiar. "Desculpe interromper o reencontro."
Era Greg.
"Olá."
"Lamento a morte do seu pai... enfim, as circunstâncias não são fáceis, mas temos um trabalho a fazer, não é?"
Tomás desprendeu-se de Ariana, mas não estendeu a mão ao americano; achava que nada tinha para lhe agradecer nem nada o obrigava a ser delicado depois de tudo o que se passara.
"Sim."
"Como deve calcular, eu corri um grande risco em cancelar o vôo da CIA para Islamabad. Quando você me telefonou com a notícia, já íamos para o aeroporto e tive algum trabalho em convencer Langley de que, se você realmente tinha cumprido a sua parte do negócio, só nos restava cumprir a nossa."
"Do que está você à espera agora?", perguntou Tomás com secura. "Que eu lhe agradeça?"
"Não, não estou à espera de tal coisa", disse Greg, mantendo o ar profissional. "Estou à espera que você me mostre qual a mensagem que Einstein escondeu no manuscrito. O próprio mister Bellamy já me ligou duas vezes para saber a resposta."
As primeiras bátegas começaram a cair; primeiro tímidas, depois insistentes. Tomás olhou em redor, como se procurasse algo. Encontravam-se perto do portão do cemitério e mantinha-se ali ainda muita gente que viera do funeral, a maior parte a abrir com fragor os guarda-chuvas negros e a dispersar-se apressadamente pelo passeio.
"Ouça, não haverá por aqui um lugar discreto onde nos possamos sentar?"
O americano apontou para o enorme Cadillac da sua embaixada, estacionado alguns metros adiante.
"Vamos para ali."
A limusine era espaçosa, com bancos a toda a largura do interior e o centro ocupado por uma pequena mesinha. Tomás e Ariana sentaram-se lado a lado, as costas voltadas para a longa janela lateral por onde as gotas deslizavam como lágrimas perdidas, deixando no vidro um rasto serpenteado. Greg ajeitou-se junto a eles e fechou a porta. Lá fora ficaram os restantes americanos, presumivelmente todos eles seguranças, entregues às bátegas gordas que jorravam do céu em fúria.
"Whiskey?", perguntou o adido da embaixada, levantando uma tampa e revelando um pequeno bar.
"Não, obrigado."
Um estrelejar saracoteado entoava no tejadilho da limusine, era a chuva que caía forte e tamborilava com fragor ao longo do Cadillac. Os dois amantes aconchegaram-se um ao outro, sentindo o calor dos corpos e o conforto do abrigo.
Greg serviu-se de whiskey americano on the rocks e voltou-se para o historiador.
"Então? Onde está a mensagem?"
Tomás mergulhou a mão no bolso do casaco e tirou a folha amarrotada, que exibiu ao adido.
"Está aqui."
Greg espreitou a folha e viu a charada.
"Desculpe, mas o que é isto?"
"É a mensagem cifrada."
"Isso já eu percebi. Mas onde está a mensagem decifrada?"
Tomás apontou para a primeira linha.
"Está a ver este see sign?"
"Sim."
"E um anagrama. Mudando a ordem das letras, descobrimos que see sign se transforma em Gênesis. Ou seja, o que Einstein quis aqui dizer foi: see the sign in Gênesis. Isto é: vejam o sinal no Gênesis."
"O sinal no Gênesis? Qual sinal?"
O criptanalista estreitou os lábios.
"Pois, esse é o problema. Qual sinal?" Apontou para o !ya ovqo da segunda linha. "Esta sequência final deverá dar a resposta a essa pergunta. Não se trata de um anagrama, mas de uma cifra de substituição, o que complica muito mais as coisas porque precisamos de uma chave para a decifrar. Disseram-me que a chave era o nome de Einstein, o que pressupunha uma cifra do estilo da cifra de César. Mas as minhas tentativas para quebrar esta charada, usando uma cifra de César com o nome de Einstein, resultaram infrutíferas."
"E qual foi a tentativa que resultou?"
Tomás fez um ar embaraçado.
"Bem... uh... nenhuma resultou."
"Perdão?"
"Nenhuma resultou."
Greg esboçou uma expressão perplexa.
"Desculpe, mas está a brincar comigo ou quê? Você ainda não quebrou a cifra?"
"Não."
Um rubor de irritação cresceu no rosto do americano.
"Damn it, Tomás! O que me disse você ao telefone, uh? Não foi que tinha conseguido? Uh? Não foi que tinha adquirido a chave?"
"Foi."
"E então? O que estou eu aqui a fazer?"
Tomás sorriu pela primeira vez nesse dia, intimamente satisfeito por ter enervado o seu interlocutor.
"Você está aqui para assistir à quebra da cifra."
Greg pestanejou, baralhado.
"Desculpe, não estou a entender."
"Ouça, eu já adquiri a chave, fique descansado. O problema é que, com a morte do meu pai, não tive ainda tempo nem disposição para quebrar a cifra, percebeu?"
"Ah... okay."
"Vamos decifrá-la agora, está bem?"
"All right."
Tomás tirou um envelope do bolso. Era um sobrescrito velho, amarelado pelo tempo, com um lacre quebrado numa das faces. Meteu os dedos no interior e extraiu uma pequena folha igualmente envelhecida. Um lado da folha tinha a referência Die Gottesformel com a assinatura de Einstein por baixo, e o verso apresentava uma sequência de letras rabiscadas a tinta permanente.
"O que é isto?", perguntou Greg com uma careta.
"É a chave."
"A chave da cifra?"
"Sim." Endireitou-se. "Pelos vistos o que aconteceu foi que Einstein entregou ao professor Siza o manuscrito intitulado Die Gottesformel, com a garantia de que o seu pupilo apenas o tornaria público se conseguisse uma segunda via científica que provasse a existência de Deus. Como é natural, o autor das teorias da Relatividade não se queria cobrir de ridículo, não é? Ele precisava de uma confirmação para o que tinha descoberto na análise relativística dos seis dias da Criação." Apontou para a folha amachucada com as duas linhas cifradas. "Como precaução adicional, cifrou a fórmula de Deus. O problema é que a cifra era complexa e ele receou que nunca viesse a ser quebrada. Colocou então a chave num envelope e lacrou-o, entregando-o ao professor Siza com a garantia de que só o abriria quando descobrisse a segunda via." Acenou com a nota agora retirada do sobrescrito lacrado. "Ora, os tipos do Hezbollah que raptaram o professor e levaram o manuscrito para Teerã desconheciam, como é natural, a existência deste envelope. O colaborador do professor Siza, o professor Luís Rocha, também desconhecia a história por detrás deste sobrescrito, mas sabia que o seu tutor o considerava muito valioso e, com medo que os assaltantes voltassem para o buscar, entregou-o ao meu pai."
"O seu pai tinha isso?"
"Sim, só me apercebi disso na nossa última conversa. O meu pai era muito amigo do professor Siza, de quem foi colega na Universidade de Coimbra, e o professor Luís Rocha achou que, nas mãos do meu pai, o envelope lacrado ficaria em segurança."
"E o seu pai sabia o que isso era?"
"Não, não fazia a mínima idéia. Como é... uh... como era um homem muito curioso, deslacrou o envelope e espreitou o interior." Exibiu a face da folha com a assinatura de Einstein. "Percebeu que se tratava de algo escrito pela mão de Einstein, conforme o prova esta assinatura, mas pensou que não passava de uma mera relíquia, nada de importante."
"I see."
"Foi por um mero acidente que ele me mencionou isto, resolvendo assim o mistério."
"Por mero acidente?", perguntou Greg. "Isso existe?"
Tomás sorriu.
"Tem razão, não há acidentes. Estava predestinado, não é?"
O americano bebeu um trago de whiskey.
"Okay, nice story", exclamou. "E agora?"
"E agora vamos decifrar a mensagem."
"Great”
Tomás apontou para a palavra no topo da folha com a chave.
"Está a ver este nome?"
"Alberti?"
"Sim."
"O que tem ele?"
"É uma idéia inteligente, sabe? Einstein brincou aqui com o seu nome próprio, Albert. Um leigo que veja isto pensa que se trata de uma mera referência italianizada ao seu nome, mas um criptanalista logo percebe que está perante algo bem diferente."
"Ah, sim? O quê?"
"Leon Battista Alberti era um polímata florentino do século XV. Foi uma destacada figura do Renascimento italiano, uma espécie de Leonardo da Vinci em escala pequena, está a ver? Era filósofo, compositor, poeta, arquiteto e pintor, autor da primeira análise científica da perspectiva, mas também de um tratado, veja só, sobre a mosca doméstica." Sorriu. "Foi ele quem concebeu a primeira Fonte Trevi de Roma."
Greg abanou a cabeça e curvou os lábios.
"Nunca ouvi falar."
"Não é importante", disse o criptanalista com um gesto vago. "Um dia, Alberti andava a passear pelos jardins do Vaticano quando encontrou um seu amigo que trabalhava para o Papa. A conversa informal abordou alguns pontos interessantes da criptografia e encorajou Alberti a preparar um ensaio sobre o assunto. Entusiasmado, Alberti propôs uma nova forma de cifra. A sua idéia era utilizar dois alfabetos de cifra, cada letra alternando entre um e outro alfabeto, de modo a confundir os criptanalistas. Foi uma idéia genial, uma vez que implicava que a mesma letra do texto simples não aparecia necessariamente como a mesma letra no alfabeto da cifra, o que dificultava a decifração."
"Não estou a perceber."
Tomás ajeitou a folha com a chave e apontou para as linhas com os alfabetos.
"É fácil", disse. "Na primeira linha encontra-se o alfabeto simples, não é? As duas linhas de baixo são as dos alfabetos de cifra. Imagine que eu quero escrever aacc. A letra do primeiro alfabeto de cifra correspondente ao a é o f e ao c é o b, não é? E no segundo alfabeto de cifra são, respectivamente, as letras g e x. Então, a mensagem aacc, quando cifrada através deste sistema, fica fgbx, está a ver? Alternando-se a mensagem original entre os dois alfabetos, não há repetição de letras, o que dificulta a decifração."
"Ah, entendi."
"O que Einstein nos deu foi a informação de que tinha usado uma cifra de Alberti e mostrou-nos quais as duas sequências corretas dos alfabetos de cifra."
Greg apontou para a segunda linha da mensagem cifrada.
"Se utilizarmos esse método, saberemos qual a mensagem ocultada por este !ya ovqo?"
"Sim, em princípio sim."
"Então do que estamos à espera? Let's do it, pal!"
Tomás pegou na caneta e comparou cada letra aos alfabetos de cifra.
"Ora bem, vamos lá a ver o que significa este !ya ovqo." Suspirou. "O y do primeiro alfabeto de cifra corresponde a um i e o a no segundo alfabeto de cifra corresponde a um l." Rabiscou as letras. "Hmm... o o dá r e o v dá s. O q é um v e o o é um b."
A frase emergiu no papel.
!il rrsvb
"Não estou a perceber", disse Greg, carregando as sobrancelhas. "Il rsvb”? Mas o que é isto?"
"É a mensagem original cifrada por Einstein", explicou Tomás.
O americano ergueu os olhos e mirou-o com uma expressão interrogativa.
"Mas isto não significa nada..."
"Pois não."
"E então?"
"E então, temos de prosseguir a decifração, não acha?"
"Prosseguir a decifração? Como assim? Isto não está decifrado?"
"É evidente que não", exclamou Tomás. "Como você constatou, il rsvb não significa nada. O que quer dizer que apenas cumprimos um passo da decifração."
"Há mais passos, é?"
"Claro que há." Apontou para a última palavra rabiscada por baixo das linhas com os alfabetos. "Está a ver este nome aqui?"
"Sim. O que tem?"
"Consegue ler?"
Greg inclinou-se sobre o papel.
"At... uh... atbart?"
"Atbash."
"Atbask", repetiu o americano. "O que é isso?"
"O atbask é uma forma tradicional de cifra de substituição hebraica, utilizada para ocultar significados no Antigo Testamento. A idéia é pegar numa letra que está, por exemplo, a três lugares do início do alfabeto e substituí-la pela letra correspondente a três lugares do fim do alfabeto. Assim o c torna-se x, não é? A terceira letra a contar do princípio é substituída pela terceira do fim, e assim sucessivamente."
"Estou a entender."
"Há vários exemplos de atbasb no Antigo Testamento. Em Jeremias aparece por vezes a palavra chechac, começando por duas letras hebraicas shin e por um kaph. Ora, o shin é a penúltima letra do alfabeto hebraico. Substituindo-a pela segunda do alfabeto ficamos com beth. Kaph é a décima segunda letra a contar do fim, pelo que vamos substituí-la pela décima segunda letra a contar do princípio, o lamed. Portanto, o shinshinkaph, que dá chechac, torna-se beth-beth-lamed. Babel. Chechac quer dizer Babel. Entendeu?"
"Sim, é engenhoso."
"Engenhoso e simples."
"Einstein utilizou atbash nesta sua cifra?"
"É o que diz a anotação, não é? Repare. Alberti significa, como é óbvio, a cifra de Alberti, com os correspondentes alfabetos de cifra. Atbash significa que temos agora de procurar as letras simétricas correspondentes a il rsvb, não é?"
"Parece lógico", concordou Greg. "Vamos a isso?"
Tomás cravou os olhos na anotação com !il rsvb e contou a posição de cada letra no alfabeto.
"Ora, o i é a nona do princípio. A nona do fim é... uh... o r. O l é a décima segunda do princípio, o que corresponde a... a... ao o. O r dá... dá i, o s... uh... dá h, o v dá... dá e e o b remete para o... o y."
Apresentou o resultado.
!ro ihey
"O que é isto?", perguntou Greg. "Ro ihey? O que significa isso?"
O criptanalista estreitou os olhos e estudou a mensagem, intrigado.
"Realmente... uh..." gaguejou, mordendo o lábio inferior. "Não sei... não sei o que seja."
"Será uma língua estranha?"
A sugestão fez Tomás arregalar os olhos.
"Pois é óbvio que é", exclamou. "Se é um sinal do Gênesis, tem de ser em hebraico, não é?"
"E você sabe hebraico?"
"Estou a aprender", disse. "Mas já sei o suficiente para perceber que o hebraico se lê da direita para a esquerda e não da esquerda para a direita." Pegou na caneta. "Espere aí, vou pôr à nossa maneira."
Inverteu a sequência das letras.
Yehi or!
"Yehi or!", leu Greg. "O que quer dizer isso?"
Tomás empalideceu.
"Meu Deus! Meu Deus!"
"O que foi?"
"Yehi or! Não está a perceber? Yehi or!"
"Mas o que é isso?"
"See sign Gênesis. Yehi or!" Bateu com o indicador na frase rabiscada no papel. "É este o sinal do Gênesis. Yehi or!"
"Sim, mas o que significa yehi or?"
Tomás olhou para Greg e para Ariana, estupefacto, embasbacado, digerindo a enormidade do que acabara de lhe ser revelado, invadido por um tropel de imagens e sons e palavras e pensamentos que, naquele instante, como que coreografados em súbita sincronia, como uma sublime melodia que emerge da orquestra mais caótica, se encaixaram uns nos outros e extraíram da treva a verdade mais profunda.
Om.
O om primordial que criou o universo ressoou-lhe na memória pelo coro cavado dos monges tibetanos. Foi ao som penetrante do mantra fundador que se lembrou do permanente bailado de nascimento e morte, de criação e destruição, a divina coreografia incorporada na eterna dança de Shiva; e foi ainda com aquela sílaba sagrada a ecoar-lhe na mente que compreendeu o segredo da Criação, o enigma por detrás do Alfa e para além do Ômega, a equação que faz do universo o universo, o misterioso desígnio de Deus, o surpreendente objetivo da vida, o software inscrito no hardware do cosmos.
O endgame da existência.
Diante de si, rabiscada a caneta, inscrevia-se a fórmula que rompe a não-existência e tudo cria.
Tudo, incluindo o Criador.
"Tomás", insistiu o americano, impaciente, quase abanando o seu interlocutor. "O que diabo significa yehi or?"
O criptanalista olhou para ele e para Ariana, olhou-os com espanto e maravilha, olhou-os como se tivesse despertado de um longo transe e, num sopro tênue, quase temeroso, nomeou enfim a equação mágica, o enunciado a que a inteligência que se espalhar pelo universo terá um dia de recorrer para escapar ao cataclismo do fim dos tempos e começar tudo de novo.
A fórmula de Deus.
"Faça-se luz!"
O rosto de Greg permaneceu inexpressivo, como uma janela fechada que esconde o brilho do dia para lá dela, como uma tela branca que espera o pincel colorido que lhe dará vida.
"Faça-se luz?", murmurou por fim. "Não estou a perceber..."
Tomás inclinou-se para a frente, aproximando o seu rosto excitado da face opaca do americano.
"É esta a prova bíblica da existência de Deus. Faça-se luz!"
O seu interlocutor abanou a cabeça, ainda sem nada compreender.
"Desculpe, mas isso não faz qualquer sentido. Como é que esta expressão prova a existência de Deus?"
O criptanalista suspirou, impaciente.
"Ouça, Greg. A expressão em si não prova a existência de Deus. Ela tem de ser interpretada no contexto das descobertas feitas no campo da ciência, está a perceber? É essa a verdadeira razão pela qual Einstein não quis divulgar o seu manuscrito. Ele sabia que este enunciado bíblico não chegava, era necessária confirmação científica." Recostou-se no assento e arregalou os olhos, num crescente empolgamento. "Essa confirmação já surgiu. Entende? Essa confirmação já surgiu e mostra que a Bíblia, por mais incrível que pareça, encerra verdades científicas profundas. E é nesse sentido que a expressão faça-se luz! prova a existência de Deus."
"Desculpe, mas continuo sem ver essa prova. Explique lá isso melhor."
"Muito bem", exclamou Tomás, massageando o rosto com a ponta dos dedos enquanto reordenava os pensamentos. Inspirou fundo e fitou o seu interlocutor. "A Bíblia diz que o universo começou com uma explosão de luz, não é verdade? Deus disse: faça-se luz! E a luz fez-se."
"Sim."
"Einstein intuiu que este enunciado bíblico era verdadeiro. Anos depois da sua morte, a descoberta da radiação cósmica de fundo veio provar que a hipótese do Big Bang era correta. O universo nasceu de fato de uma espécie de explosão inicial, o que significa que afinal a Bíblia tinha razão: tudo começou quando a luz se fez."
"Sim."
"A questão que se coloca agora é a de determinar quem é a entidade que obrigou a luz a fazer-se."
"Está a falar de Deus..."
"Chame-lhe Deus se quiser, o nome não interessa. O que interessa é o seguinte: o universo começou com o Big Bang e vai acabar com o Big Freeze ou com o Big Crunch. Einstein suspeitava que será com o Big Crunch."
"Que é o Big Bang ao contrário."
"Exato", confirmou Tomás. Voltou a inclinar-se para a frente, irrequieto de excitação. "Agora preste atenção a isto. A revelação do Princípio Antrópico, associada à descoberta de que tudo está determinado desde o início dos tempos, demonstra que sempre houve uma intenção de criar a humanidade. O mistério é saber porquê. Por que razão se criou a humanidade? Qual o seu desígnio? Por que raio andamos aqui? Por que motivo fomos criados?"
"Mistérios insondáveis..."
"Talvez não sejam tão insondáveis quanto isso."
"O que quer você dizer? Há resposta para essas perguntas?"
"Claro que há." Acenou com a folha rabiscada, a linha yehi or! claramente visível sobre o papel. "A resposta está inscrita aqui na fórmula de Deus. Faça-se luz! Einstein concluiu que a humanidade não é o endgame do universo, mas um instrumento para se alcançar o endgame."
"Um instrumento? Não estou a entender."
"Repare na história do universo. A energia gera matéria, a matéria gera vida, a vida gera inteligência." Pausa. "E a inteligência? O que vai ela gerar?"
"Não faço a menor idéia."
"Ao identificar o faça-se luz! com a fórmula divina, Einstein foi o primeiro a responder essa pergunta."
"Ah, sim? E o que concluiu ele?"
"Deus."
"Como?"
"A inteligência gera Deus."
Greg contraiu as sobrancelhas e abanou a cabeça.
"Não sei se estou a acompanhar o seu raciocínio..."
"É muito simples", murmurou Tomás. "A humanidade foi criada para desenvolver uma inteligência ainda mais sofisticada do que a biológica. A inteligência artificial. Os computadores. Daqui a centenas de anos, os computadores serão mais inteligentes do que o homem e, dentro de milhões de anos, estarão habilitados a escapar às alterações cósmicas que ditarão o fim da vida biológica. Os seres vivos baseados no átomo de carbono não serão viáveis daqui a muitos milhões de anos, quando as condições cósmicas se alterarem, mas os seres vivos baseados noutros átomos poderão sê-lo. São os computadores. Eles vão espalhar-se pelos quatro cantos do universo e, colocados em rede daqui a milhares de milhões de anos, tornar-se-ão uma única entidade, onisciente e onipresente. Nascerá o grande computador universal. O problema é que a sua sobrevivência será ameaçada pelo Big Crunch, não é? O grande computador universal ver-se-á então colocado perante este problema: como escapar ao fim do universo? A resposta vai emergir de forma terrível." Fez uma pausa. "Não há escapatória, o fim é inexorável."
"Então acaba-se tudo."
Tomás sorriu, malicioso.
"Não exatamente. Há uma maneira de o grande computador universal garantir que voltará a existir."
O criptanalista fez uma pausa, como se quisesse criar suspense.
"Qual?", quis saber o americano.
"O grande computador universal terá de controlar ao pormenor a forma como o Big Crunch irá ocorrer. Terá de controlar tudo segundo uma fórmula que lhe permita recriar o mesmo universo depois do Big Crunch, de modo a que tudo possa voltar a existir. Tudo, incluindo ele próprio."
"Recriar tudo?"
"Sim. O grande computador universal vai desaparecer com o Big Crunch, mas, entretanto, conceberá uma fórmula que lhe permitirá reaparecer no novo universo. Essa fórmula implicará uma distribuição da energia com um rigor e afinação tais que, evoluindo depois de modo determinista segundo leis e constantes com valores devidamente definidos, permitirá que reapareça no novo universo a matéria, depois a vida e finalmente a inteligência, aplicando assim de novo o Princípio Antrópico."
"E que fórmula será essa?"
Tomás encolheu os ombros.
"Não sabemos, é algo de tão complexo que só uma superinteligência a poderá conceber. Mas a fórmula vai existir e a sua concepção está metaforicamente inscrita na Bíblia."
"Faça-se luz!", sussurrou Greg, os olhos azuis cintilando.
"Nem mais." Tomás sorriu. "Faça-se luz!" Inclinou a cabeça. "A fórmula de Deus."
"Espere um momento", cortou o americano, erguendo as mãos como quem pede um intervalo. "Você está a insinuar que Deus é um computador?"
"Toda a inteligência é computadorizada", devolveu o criptanalista num tom condescendente. "Isso foi uma coisa que eu aprendi com os físicos e os matemáticos." Bateu com o dedo na testa. "Inteligência é computação. Os seres humanos, por exemplo, são uma espécie de computadores biológicos. Uma formiga é um computador biológico simples, nós somos mais complexos. Só isso."
"Essa definição parece-me um pouco forte..."
Tomás encolheu os ombros.
"Ouça, se isso o incomoda não lhe chamemos grande computador universal, está bem? Chamemos-lhe... sei lá, chamemos-lhe... uh... inteligência criadora, grande arquiteto, entidade superior, o que você quiser. Não interessa o nome. O que interessa é que é essa inteligência que está na raiz de tudo."
"Estou a ver."
"Einstein concluiu que o universo existe para criar a inteligência que irá gerar o próximo universo. É esse o software do universo, é esse o endgame da existência. Faça-se luz! é a metáfora bíblica para a fórmula da criação do universo, a fórmula que o grande computador universal irá enunciar quando ocorrer o Big Crunch, a fórmula que provocará um novo Big Bang e tudo irá recriar. Tudo, incluindo Deus. O objetivo último do universo é recriar Deus e nós não passamos de um instrumento desse ato."
Os olhos do americano dançaram entre Tomás e Ariana. Olhou para o rascunho que o criptanalista segurava com intensidade entre os dedos e compreendeu enfim o derradeiro segredo de Einstein — a revelação da existência de Deus, do propósito do universo, do desígnio da humanidade.
"Isso é... é incrível."
Tomás não respondeu. Abriu a porta do carro e espreitou para a rua. Já não chovia; uma aragem fresca acariciou-lhe o rosto, era leve e pura, quase perfumada de tão límpida. Pequenas poças de água espalhavam-se pelo passeio e pela estrada, cristalinas, refletindo como espelhos o céu denso, era como se a chuva tudo tivesse lavado. A manhã pintava-se de azul, serena e melancólica, respirando ao ritmo das bátegas de água que pingavam grossas das folhas e tombavam no solo húmido com estalidos molhados, quase musicais. A luz do sol espraiava-se com bonomia, filtrada suavemente pelas nuvens que se afastavam lá em cima, umas carregadas e pachorrentas, outras pálidas e ligeiras.
O historiador endireitou-se cá fora, deu a mão a Ariana e ajudou-a a sair. Os seguranças americanos, que se tinham refugiado por baixo de um carvalho frondoso e ainda lacrimejante, aproximaram-se e interrogaram Greg com os olhos, como se pedissem instruções. O adido fez-lhes um sinal silencioso com a cabeça, estava tudo bem, e os homens descontraíram.
Antes de se afastar, Tomás voltou-se para a porta da limusina e encarou Greg uma derradeira vez.
"É estranho como durante tanto tempo a humanidade em geral intuiu a verdade intrínseca por detrás do universo", comentou. "Já reparou nisso?"
"O que quer você dizer?"
"Antes de morrer, o meu pai contou-me que os hindus consideram que tudo é cíclico. O universo nasce, vive, morre, entra na não-existência e volta a nascer, num ciclo infinito, num eterno retorno a que chamam a noite e o dia de Brahman. A história hindu da criação do mundo é a do ato pelo qual Deus se torna o mundo, o qual se torna Deus."
"Espantoso."
Tomás sorriu.
"É, não é?" Respirou fundo. "Ele recitou-me também um interessante aforismo de Lao Tzu, um poema taoísta que encerra o segredo do universo. Quer ouvir?"
“Sim.”
Um súbito sopro de vento agitou os carvalhos, agreste e violento, arrancando folhas e vergastando os vultos sombrios que rodeavam a limusina molhada. Parecia agora que o céu uivava, ululando de modo quase sinistro, como se tentasse romper a doce brandura que se instalara depois da chuva, como se ameaçasse desencadear um novo e punitivo dilúvio, como se clamasse vingança por ver arrancado ali o seu mistério mais profundo.
Mas Tomás não se intimidou e recitou o poema como se ainda o escutasse dos lábios trêmulos do pai; recitou-o com fervor, com paixão, com a intensidade de quem sabe que encontrou o caminho e que percorrê-lo é o seu destino.
"No fim do silêncio está a resposta,
No fim dos nossos dias está a morte.
No fim da nossa vida, um novo início."
Um novo início.
Nota final
Quando o astrofísico Brandon Carter propôs, em 1973, o Princípio Antrópico, parte da comunidade científica mergulhou num intenso debate sobre a posição da humanidade no universo e o significado último da sua existência. Pois se o universo está afinado para nos criar, será que temos um papel a desempenhar no universo? Quem concebeu esse papel? E, já agora, que papel será esse?
Foi com Copérnico que os cientistas passaram a acreditar que a existência dos seres humanos é irrelevante para o cosmos em geral, uma idéia que tem dominado o pensamento científico desde então. Mas, na década de 1930, Arthur Eddington e Paul Dirac notaram inesperadas coincidências envolvendo um número de enorme magnitude que começou a aparecer nos mais variados contextos da cosmologia e da física quântica, o estranho 10 elevado a 40.
A revelação de novas coincidências foi-se acumulando com o tempo. Descobriu-se que as constantes da natureza requeriam valores incrivelmente rigorosos para que o universo fosse como é e percebeu-se que a expansão do universo tinha de ser controlada até à mais ínfima ordem de grandeza para produzir o misterioso equilíbrio que possibilita a nossa existência. As descobertas foram-se multiplicando. Compreendeu-se que as estruturas essenciais à vida, como o aparecimento de estrelas parecidas com o Sol ou o processo de produção de carbono, dependiam de uma espantosamente improvável sequência de acidentes consecutivos.
Que significado têm estas descobertas? A primeira constatação é que o universo foi concebido com a afinação adequada para, no mínimo, gerar vida. Mas esta conclusão suscita inevitavelmente um problema filosófico de suprema magnitude — a questão da intencionalidade da criação do universo.
Para contrariar a conclusão óbvia que se pode extrair destas descobertas, muitos cientistas defendem que o nosso universo é apenas um entre milhares de milhões de universos, cada um com valores diferentes nas suas constantes, o que significa que estarão quase todos desprovidos de vida. Assim sendo, é apenas uma coincidência que o nosso universo esteja afinado para produzir vida —
a esmagadora maioria de universos não tem vida. O problema desta argumentação é que ela não é baseada em nenhuma observação ou descoberta. Nunca ninguém vislumbrou os menores traços da existência de outros universos nem remotos vestígios de diferentes valores das constantes da natureza. Ou seja, a hipótese dos multiuniversos assenta justamente naquilo que a ciência mais critica no pensamento não científico — a fé.
Poder-se-á dizer o mesmo da tese de fundo deste romance? A idéia de um universo cíclico, pulsando ao ritmo de sucessivos Big Bang e Big Crunch, encontra-se inscrita em várias cosmologias místicas, incluindo a hindu, mas, no campo científico, foi pela primeira vez aventada por Alexander Friedmann e desenvolvida separadamente por Thomas Gold e John Wheeler. Esta teoria depende, claro, de uma premissa essencial — a de que o universo não acabará no Big Freeze,
mas no Big Crunch. A observação de uma aceleração da expansão do universo indicia um Big Freeze, mas há bons motivos para acreditar que essa aceleração é temporária e que o Big Crunch permanece viável.
É certo que, neste romance, estamos a levantar uma hipótese ainda mais arrojada, que depende da premissa do universo cíclico mas vai para além dela. Trata-se da possibilidade de o cosmos estar organizado de modo a criar vida, sem que a vida seja um fim em si mesmo, mas um meio para permitir o desenvolvimento da inteligência e da consciência, as quais, por seu turno, se tornariam instrumentos que viabilizariam o endgame último do universo: a criação de Deus. O universo revelar-se-ia então um imenso programa cíclico elaborado pela inteligência do universo anterior com o objetivo de assegurar o seu regresso no universo seguinte.
Embora especulativa, esta possibilidade do universo pulsante bate certo com certas descobertas científicas feitas pelo homem. É verdade que não existe a menor prova de que antes do nosso universo houve outro universo que acabou num Big Crunch. Se existiram outros universos antes do nosso, e isso é possível, o facto é que o Big Bang apagou todas as provas. Os traços do último Ômega foram rasurados pelo nosso Alfa. Mas o facto é que algo provocou o Big Bang. Algo que não sabemos o que é. Estamos então a falar de uma mera possibilidade — mas de uma possibilidade que, embora metafísica, assenta numa hipótese admitida pela física.
Aos que têm dúvidas sobre a base científica desta hipótese, sugiro que consultem a bibliografia a que recorri de modo a sustentar a tese de fundo do romance. Para as questões relacionadas com o Princípio Antrópico e a expansão da inteligência pelo cosmos foram imprescindíveis The Anthropic Cosmological Principie, de John Barrow e Frank Tipler; The Physics of Immortality, de Frank Tipler; The Constants of Nature, de John Barrow; e The Accidental Universe, de Paul Davies. Para as conclusões constantes no imaginário Die Gottesformel, baseei-me em The Science of God, de Gerald Schroeder. Para informação científica geral ou outros pormenores científicos abordados por este romance, destaque para Theories of the Universe, de Gary Moring; Universe, de Martin Rees; The Meaning of Relativity, de Albert Einstein; The Evolution of Physics, de Albert Einstein e Leopold Infeld; The Physical Principies of the Quantum Theory e La nature dans la physique contemporaine, de Werner Heisenberg; Chaos, de James Gleick; The Essence of Chaos, de Edward Lorenz; Introducing Chaos, de Ziauddin Sardar e Iwona Abrams; O Caos e a Harmonia, de Trinh Xuan Thuan; Chaos and Nonlinear Dynamics, de Robert Hilborn; Sync, de Steven Strogatz; The Mind of God e God and the New Physics, de Paul Davies; The Tao of Physics, de Fritjof Capra; Introducing Time, de Craig Callender e Ralph Edney; A Short History of Nearly Everything, de Bill Bryson; Cinco Equações Que Mudaram o Mundo, de Michael Guillen; e How We Believe, de Michael Shermer.
Agradecimentos a Carlos Fiolhais e João Queiró, professores de Física e de Matemática da Universidade de Coimbra, pela revisão científica deste romance — se algum erro existir, não se deverá decerto a quaisquer falhas suas, mas à minha proverbial teimosia; a Samten, o meu guia no Tibete; ao meu editor, Guilherme Valente, e a toda a equipe da Gradiva, pelo seu empenho e dedicação; e, claro, à Florbela, como sempre a primeira leitora e a principal crítica.
Você terminou A Fórmula de Deus
José Rodrigues dos Santos