A Fórmula de Deus
Sabbath fore
Christ nite
A. Einstein
"É isto?", perguntou Bagheri.
"Sim, é isso."
"Tem a certeza?"
"Absoluta", devolveu Tomás. "Foi exatamente este o..."
Zzzzzzzzzzzzzz
Congelaram os dois, a respiração suspensa, os olhos muito abertos, a atenção alerta. A primeira reação foi de surpresa, tentaram freneticamente perceber o que era aquilo, que barulho era aquele, que significado tinha esse som inesperado, e voltaram ambos a cabeça na direção da fonte do ruído.
Era o cinto.
O zumbido vinha do cinto de Bagheri. Pior ainda, vinha do receptor guardado no cinto de Bagheri. O receptor. O mesmo receptor que estava sintonizado com o sinal do emissor de Babak. O mesmo receptor que lhes trazia notícias do mundo exterior. O mesmo receptor que só zumbiria em caso de algo muito grave.
Arregalaram ainda mais os olhos, mas desta vez não foi de surpresa. Foi de algo muito mais assustador, muito mais pavoroso, infinitamente aterrador. Foi de compreensão.
Foi de horror.
"O alarme!"
XV
Uma inacreditável parafernália de luzes enchia o pátio do ministério, parecia estar ali montada uma animada feira; eram os focos brancos dos faróis dos automóveis e dos projectores, mais as intermitências rotativas laranjas dos carros da polícia. Via-se gente a correr por toda a parte, gritavam-se ordens, era evidente que aqueles homens acabavam de chegar à pressa e tomavam posições, uns de pistola, outros de espingarda, alguns com armas automáticas. Dois caminhões de lonas verdes acercaram-se da rua nesse instante e da carga começaram a jorrar soldados de camuflado, ainda os veículos não se tinham imobilizado por completo.
Paralisados na janela da sala de reuniões, para onde tinham corrido depois de ouvirem o alarme dado por Babak, Tomás e Bagheri observavam a cena com estupefacção, primeiro incrédulos, quase hipnotizados, depois apavorados, desenrolava-se diante de si o pior de todos os cenários, o maior de todos os pesadelos.
A sua presença tinha sido detectada.
"E agora?", murmurou Tomás, sentindo o pânico crescer-lhe nas entranhas.
"Temos de fugir", disse Bagheri.
Sem perder mais tempo, o enorme iraniano deu meia-volta e abandonou a sala, arrastando o historiador atrás. Avançaram às escuras, não se atrevendo a ligar a lanterna, tacteando as paredes, tropeçando em obstáculos, esbarrando em móveis, trôpegos e desajeitados. Tomás corria com a caixa do manuscrito segura nas mãos, Bagheri ia com o saco das ferramentas a tiracolo.
"Mossa", chamou o português. "Vamos fugir para onde?"
"Existe uma porta nas traseiras do rés-do-chão com acesso à rua. Vamos para lá."
"Como é que sabe?"
"Vi na planta."
Chegaram à escadaria central e começaram a descer em corrida, quase num tropel, não havia tempo a perder, era preciso atingir essa porta de emergência, chegar lá quanto antes, chegar lá enquanto não se completava o cerco ao edifício. No lanço que conduzia ao primeiro andar, porém, ouviram barulho e pararam. Os sons vinham do rés-do-chão.
Eram vozes.
Os iranianos já tinham entrado no edifício e procediam agora às buscas. O grave significado desta inesperada evolução foi instantaneamente compreendido pelos dois, enchendo-os de um terror
indescritível. A presença de polícias e soldados no rés-do-chão queria dizer que o caminho de fuga estava cortado.
Cortado.
Não havia escapatória. O cerco fechava-se mais depressa do que pensaram ser possível, os iranianos aproximavam-se rápido e tornava-se crescentemente claro que os dois intrusos iriam ser capturados a todo o momento.
Luz.
A iluminação foi nesse instante ligada por todo o edifício e o terror transformou-se em pânico absoluto. Ainda tolhidos na escadaria, olharam freneticamente em redor, desorientados, procurando caminhos alternativos, buscando uma nova saída, uma porta, um buraco, qualquer coisa. Qualquer coisa. Escutaram barulhos e vozes a serem trocadas lá em baixo, eram os iranianos que apertavam o cerco, começavam a escalar os degraus e faziam-no em passo apressado.
Determinado em não se deixar apanhar, Bagheri agarrou Tomás pelo braço e recuou para o segundo andar, agora perfeitamente iluminado. Meteram por um corredor, tentando desesperadamente encontrar as escadas de emergência, era o seu derradeiro recurso.
"Ist!"
O grito com a ordem para pararem trovejou lá atrás, algures do fundo do corredor, emitido por uma voz rouca, gutural, mas suficientemente clara para perceberem ali, nesse mesmo instante, que acabara de acontecer o inevitável.
Tinham sido localizados.
"Iiiiiiist!"
Correram pelo corredor e abriram uma porta metálica ao fundo. Era de facto a escada de emergência, uma construção de alumínio em caracol. Bagheri agarrou-se ao corrimão e desceu veloz os primeiros degraus, Tomás no encalço com as pernas fracas de medo, mas pararam ao ouvir ruídos martelados em baixo e novas vozes gritadas, eram homens que subiam apressadamente por aquelas mesmas escadas.
Também esta saída estava cortada.
Deram meia-volta e subiram de novo ao segundo andar, mas não regressaram ao mesmo corredor, presumindo que ele estava agora ocupado pelos homens que já os tinham visto. Em vez disso, optaram antes por continuarem a escalar até ao terceiro andar. Meteram pelo mesmo corredor do compartimento onde tinha sido guardado o manuscrito e viram guardas a emergirem lá ao fundo, em corrida.
"Ist!", gritaram os homens armados, mandando-os mais uma vez parar.
Bagheri alcançou a porta da sala de reuniões e forçou a entrada, sempre seguido por Tomás. O historiador, ofegante do esforço, atirou a caixa com o manuscrito para cima da mesa longa e deixou-se cair numa cadeira, prostrado pelo cansaço e pelo desespero.
"Não adianta", exclamou entre duas golfadas de ar. "Vamos ser apanhados."
"Isso é o que ainda iremos ver", respondeu Bagheri.
O enorme iraniano abriu apressadamente o saco das ferramentas e retirou de lá o que de início parecia ser um novo instrumento. Com as luzes acesas por toda a parte, Tomás reconheceu, aterrado, o objeto que Bagheri tinha na mão.
Uma pistola.
"Você está doido?"
Bagheri espreitou pela entrada, pôs o braço de fora da porta, apontou para o fundo do corredor, à direita, e abriu fogo.
Crack.
Crack.
Dois tiros estalaram da pistola.
"Um já levou", comentou o iraniano com um sorriso de desdém, após verificar o efeito dos disparos.
Tomás nem queria acreditar no que estava a acontecer.
"Mossa!", gritou. "Você enlouqueceu!"
Bagheri sentiu movimento à esquerda e rodopiou depressa, apontando para o outro lado do corredor, na direcção das escadas de emergência de onde ambos tinham vindo com iranianos em perseguição.
Crack.
Crack.
Crack.
Um gemido e o som espalhafatoso de uma queda confirmou a Tomás que os três novos tiros desferidos pelo companheiro haviam abatido pelo menos mais um iraniano.
"Mais dois despachados", rosnou Bagheri, após verificar o resultado dos últimos disparos. Afinal tinham sido dois. "Já vão três."
"Mossa, ouça", implorou Tomás. "Eles agora vão-nos acusar também de homicídio. Você está a piorar tudo!"
Bagheri olhou-o de relance.
"Você não conhece este país", comentou com secura. "O que nós fomos apanhados a fazer é a coisa mais grave que há. Matar uns tipos não é nada ao pé disso."
"Não importa", devolveu o historiador. "Matar uns quantos é que não vai ajudar nada."
O iraniano espreitou novamente o corredor e, sentindo que os perseguidores tinham recuado ao depararem com resistência, procurou o saco das ferramentas no chão e puxou-o para si. Com a mão direita empunhava a pistola, enquanto com a esquerda apalpava o interior do saco.
"Não nos vão apanhar", insistiu, rangendo os dentes.
A mão imobilizou-se dentro do saco, tendo presumivelmente encontrado o que procurava. Após uma curta pausa nos movimentos, recolheu o braço e a mão reapareceu com dois objetos brancos.
Tomás inclinou-se para tentar perceber se aquilo era mesmo o que lhe parecia ser.
Seringas.
"O que é isso?", perguntou, uma expressão desconfiada nos olhos.
"Potassium chloride."
"O quê?"
"É uma solução de potássio."
"E é para quê?"
"Para você se injetar."
Tomás fez um ar admirado e pousou a mão no peito.
"Para eu me injetar? Para quê?"
"Para não sermos apanhados vivos."
"Você está louco."
"Loucura é deixarmo-nos apanhar vivos."
"Você está louco."
"Eles vão torturar-nos até à morte", explicou Bagheri. "Vão torturar-nos até nós confessarmos tudo e depois matam-nos na mesma. Mais vale despacharmos já as coisas."
"Se calhar não matam."
"Não tenho dúvidas de que matam, mas isso não interessa", retorquiu o iraniano. Acenou com as seringas. "São ordens de Langley."
"Como?"
"Langley deu-me instruções para, em caso de sermos detectados, não deixarmos que nos apanhem vivos. As implicações para a segurança seriam incalculáveis."
"Quero lá saber."
"O que você quer ou não saber não me interessa para nada. Um bom agente tem de perceber que, por vezes, precisa de se sacrificar em prol de um bem comum."
"Eu não sou agente de ninguém. Eu sou..."
"Você é, neste momento, agente da CIA", cortou Bagheri, esforçando-se por não elevar a voz.
"Quer queira, quer não, está envolvido numa missão de grande importância e tem conhecimentos que, se forem partilhados com o Irão, irão criar um grave embaraço aos Estados Unidos e aumentar a insegurança internacional. Não podemos permitir que isso aconteça, pois não?" Fez um gesto na direção do corredor. "Eles não nos podem apanhar vivos."
O historiador cravou os olhos nas seringas e abanou a cabeça.
"Eu não me vou injetar com isso."
Bagheri virou a pistola e, sempre com o outro braço esticado a estender as seringas, fez um gesto na direcção de Tomás.
"Vai, vai. E depressa."
"Não vou. Não sou capaz."
O iraniano apontou a pistola para a cabeça de Tomás.
"Ouça-me bem", disse. "Temos duas maneiras de fazer isto." Voltou a acenar com as seringas.
"Uma é você injetar-se com este líquido. Prometo-lhe uma morte serena. O potassium chloride, quando entra na circulação sanguínea, faz parar imediatamente o músculo do coração. É esta solução que os médicos usam para pôr fim à vida de doentes terminais e a que alguns estados americanos recorrem para executar condenados à morte. Como vê, não irá sofrer." Abanou agora a pistola. "A outra é levar dois tiros. Também não sofrerá muito, mas é um método mais brutal. Além disso, eu queria poupar as duas balas para acabar com mais um dos cabrões que nos estão a cercar." Fez uma pausa. "Entendeu?"
Os olhos de Tomás saltitaram entre as duas opções. As seringas e a pistola. As seringas e a pistola. As seringas e a pistola.
"Eu... uh... deixe cá ver..."
Começou a tentar ganhar tempo, nenhuma das soluções lhe interessava. Aliás, nem achava que fossem soluções. Ele era um professor de História, não um agente da CIA; tinha a esperança, quase a certeza, de que, bem conversados, os iranianos iriam perceber essa evidência.
"Então?"
"Uh... não... não sei..."
Bagheri esticou mais o braço com a pistola, o cano firmemente apontado para os olhos do historiador.
"Já vi que tenho de ser eu a resolver isto."
"Não, não, espere", implorou Tomás. "Dê-me a seringa."
Bagheri atirou uma seringa para junto de Tomás e guardou a outra no bolso, reservando-a para si.
"Injecte lá isso", disse. "Vai ver que não custa nada."
Com os dedos a tremerem de nervos, quase numa convulsão de horror, Tomás agarrou no plástico que selava a seringa e puxou-o tenuamente, sem o rasgar.
"Isto... isto é difícil."
"Despache-se."
As mãos tremelicantes voltaram a tentar rasgar o plástico, mas sempre sem convicção nem vontade, pelo que o elástico se manteve mais uma vez incólume.
"Não consigo."
Bagheri fez um gesto impaciente com a mão esquerda.
"Dê cá isso."
Tomás devolveu-lhe a seringa. Bagheri arrancou o plástico com os dentes, tirou a seringa do interior, cuspiu o plástico para o chão, colocou a agulha, ergueu a seringa e expeliu um pequeno jato para o ar.
"Já está", disse. "Prefere que seja eu a injetar, é?"
"Não, não. Eu... eu faço isso."
Bagheri atirou a seringa de volta.
"Vá, despache-se."
Sempre muito devagar, com as mãos a agitarem-se numa louca convulsão nervosa, Tomás pegou na seringa, pousou-a ao lado de si, puxou a manga do casaco de modo a expor o braço, voltou a tapá-lo, repetiu o gesto no outro braço e abanou a cabeça.
"Não sei fazer isto", disse.
Bagheri aproximou-se.
"Eu faço."
"Não, não. Eu faço, deixe estar."
O enorme iraniano pegou na seringa pousada no chão.
"Já vi que não vai fazer nada", rosnou. "Eu é que..."
Um súbito ruído no corredor fê-lo voltar-se para a porta, a pistola em riste. Dois vultos apareceram nesse instante na entrada, seguidos de outros, e caíram em cima de Bagheri, que já tinha a arma preparada.
Crack.
Crack.
Crack.
Os iranianos amontoavam-se uns em cima dos outros, todos sobre Bagheri, aos urros, enquanto Tomás se arrastava pelo chão para o fundo da sala, tentando escapar àquela tremenda confusão. Mais homens irromperam pela sala, todos armados com AK 47, e, berrando ordens, apontaram as armas automáticas para o historiador.
Devagar, cheio de hesitações, o olhar trespassado pelo horror e pelo alívio, Tomás ergueu os braços.
"Rendo-me."
XVI
A venda nos olhos impedia Tomás de ver o que quer que fosse, a não ser uma nesga de luz que lhe vinha de baixo, mas sentiu calor e ouviu novas vozes em ambiente fechado e percebeu que o arrastavam para dentro de um edifício. Braços poderosos puxaram-no por portas, escadas e corredores, as mãos sempre algemadas nas costas; por fim, após muito tropeçar na escuridão, mero joguete nas mãos de desconhecidos, foi empurrado para um compartimento e atirado para um assento de madeira. Homens invisíveis falavam num parsi agitado, até que uma voz lhe perguntou em inglês.
"Passport?"
Sem possibilidade de mexer as mãos, Tomás baixou a cabeça e tocou com o queixo no lado esquerdo do peito.
"Está aqui."
Uma mão infiltrou-se-lhe no bolso interior do casaco e retirou os documentos. A algazarra prosseguia em redor, mas um característico som metálico metralhado, que não escutava havia já muito tempo, indicou-lhe que alguém preenchia um formulário com uma velha máquina de datilografar.
"Em que hotel está você alojado?", perguntou a mesma voz.
Fez-se silêncio na sala, todos pareciam de repente ter curiosidade em saber algo mais sobre o homem que acabara de ser detido.
Tomás estranhou a pergunta. Se lhe perguntavam em que hotel ele se encontrava é porque não o tinham ainda identificado nem percebido o que ele e Bagheri tentavam realmente fazer no ministério. Talvez houvesse uma hipótese de os convencer de que tudo aquilo não passava de um enorme equívoco.
"Estou no Simorgh."
A máquina de datilografar tiquetaqueou algo, presumivelmente esta resposta.
"E o que está a fazer no Irã?"
"Estou a trabalhar num projeto."
"Que projeto?"
"Um projeto secreto."
"Que projeto secreto?"
"Um projeto com o governo iraniano."
A voz fez uma pausa, avaliando esta resposta.
"Com o governo iraniano, é? Quem no governo iraniano?"
"O Ministério da Ciência."
Novo metralhar da máquina de datilografar.
"O que estava a fazer na Sala K?"
"A trabalhar."
"A trabalhar? A uma da manhã? E a entrar na Sala K sem autorização?"
"Precisei de ir ver algumas coisas."
"Por que não abriu a porta com a chave própria? Se tinha autorização, por que não desativou o alarme?"
"Havia alarme, é?"
"Claro que havia. A porta da Sala K está protegida por um sistema de alarme que comunica com as forças de segurança. Como pensa você que nós soubemos que havia ali intrusos? Se tivesse usado a chave própria, o sistema teria sido automaticamente desativado."
"Tinha urgência em verificar umas coisas, o que quer? Não dispunha da chave ali à mão."
"Se assim era, por que razão abriram fogo contra nós?"
"Não fui eu quem disparou. Foi o outro. Achou que vocês eram assaltantes."
"Bem, já iremos ver isso", disse a voz.
Ouviram-se umas ordens em parsi, alguém arrancou Tomás da cadeira e levou-o para uma outra sala. Tiraram-lhe a venda e as algemas e o historiador constatou que se encontrava no que parecia ser um estúdio muito iluminado. Havia uma máquina fotográfica montada diante de si e dois focos de luz ligados em cima. Um homem atrás da câmara fez-lhe sinal para olhar para a lente e disparou uma fotografia. O exercício foi depois repetido de perfil, para a esquerda e para a direita. Quando o fotógrafo deu o seu trabalho por terminado, Tomás foi empurrado para um balcão onde o forçaram a deixar as suas impressões digitais registadas a tinta num formulário.
De seguida levaram-no para um balneário contíguo ao estúdio.
"Tire as roupas", ordenou um homem.
Tomás despiu-se até ficar nu, a tiritar de frio, os pêlos eriçados, os braços envolvendo o próprio corpo num esforço para se aquecer. O iraniano apanhou as roupas, colocou-as num cacifo e pegou no que parecia ser um pijama muito gasto, às riscas, feito com tecido áspero, de má qualidade.
"Vista isto", ordenou o mesmo homem.
Ansioso por algo que o protegesse do gelo, o português logo obedeceu. Uma vez vestido com toda a roupa de prisioneiro, despojado da sua individualidade, olhou para si e, vencendo os sentimento de humilhação e desespero que o colocavam à beira das lágrimas, não resistiu a pensar que parecia um irmão Metralha.
As primeiras vinte e quatro horas foram passadas numa cela imunda, úmida e com um penico coletivo, onde se acotovelavam mais quatro presos, todos iranianos. Três deles só falavam parsi, mas o quarto, um homem idoso de óculos redondos e aspecto franzino, revelou-se fluente em inglês. Deixou Tomás chorar sozinho na primeira hora em que permaneceu na cela, mas depois, quando o historiador acalmou os nervos, aproximou-se e colocou-lhe a mão no ombro.
"A primeira vez é sempre a mais difícil", disse, a voz suave transmitindo conforto. "É a sua primeira vez?"
Tomás passou a mão pela cara e balançou afirmativamente a cabeça.
"Sim."
"Ah, é terrível", insistiu o velho. "Da minha primeira vez chorei durante dois dias. Senti uma vergonha muito grande, parecia que não passava de um vulgar ladrão. Eu, um professor de Literatura na Universidade de Teerã."
O historiador olhou-o com surpresa.
"Você é professor universitário?"
"Sim. Chamo-me Parsa Khani, leciono literatura inglesa."
"O que está aqui a fazer?"
"Oh, o costume. Sou acusado de me ter envolvido com jornais pró-reformistas, de falar mal do idiota do Khamenei e de apoiar o antigo presidente Khatami."
"Isso é crime?"
O velho encolheu os ombros.
"Os fanáticos acham que sim." Ajeitou os óculos. "Da primeira vez não vim para aqui, sabe?"
"Aqui, onde?"
"Esta cadeia. A minha primeira vez não foi em Evin."
"Erin?"
"Evin", corrigiu Parsa. "Esta é a cadeia de Evin, não sabia?"
"Não. Esta localidade chama-se Evin?"
O iraniano riu-se.
"Não, não. Esta é a cadeia de Evin, no Norte de Teerã. É uma cadeia muito temida. Foi construída nos anos setenta pelo Xá e era controlada pela sua polícia secreta, a SAVAK. Quando veio a Revolução Islâmica, em 1979, a prisão passou formalmente para as mãos do Gabinete Nacional de Prisões. Mas só formalmente. Isto aqui está agora transformado numa espécie de ONU dos vários poderes no Irão. A autoridade judicial controla a Secção 240 da cadeia, a Guarda Revolucionária controla a Secção 325 e o Ministério das Informações e Segurança manda na Secção 209. Ainda por cima andam todos a competir entre si e às vezes até interrogam prisioneiros uns dos outros, é uma confusão que ninguém se entende."
"Nós estamos em que ala?"
"Estamos numa ala mista. Eu fui detido pelos imbecis da Guarda Revolucionária e são eles que me mantêm aqui. Você foi detido por quem?"
"Não sei."
"Qual o motivo pelo qual o prenderam?"
"Fui apanhado dentro do Ministério da Ciência à noite. É tudo um grande equívoco, espero que me libertem em breve."
"Dentro do ministério? Não era espionagem, pois não?"
"Claro que não."
Parsa fez um trejeito com a boca.
"Hmm, isso cheira-me então a delito comum", considerou. "Se assim for, eu acho que você está aqui sob a tutela da autoridade judicial."
Tomás apertou melhor a camisa da farda de presidiário, buscando mais calor.
"Acha que eles me deixam contactar uma embaixada da União Européia?"
O velho voltou a rir-se, mas sem humor.
"Se estiver com sorte, sim", exclamou. "Mas só depois de o espremerem bem."
"Como assim, espremerem-me bem?"
O iraniano suspirou, o olhar cansado.
"Ouça, senhor... uh..."
"Tomás."
"Ouça, senhor Tomás. O senhor veio para a cadeia de Evin, um dos sítios mais desagradáveis do Irã. O senhor tem alguma idéia do que aqui se passa?"
"Bem... não."
"Para lhe dar uma idéia, posso dizer-lhe que a minha primeira passagem aqui por Evin foi inaugurada por uma sessão de bofetadas. Depressa aprendi que se tratava apenas de um ligeiro tratamento introdutório, porque logo a seguir serviram-me uma refeição de chicken kebab. O senhor sabe o que é chicken kebab?"
"Não."
"Nunca comeu kebab num restaurante iraniano, senhor Tomás?"
"Ah, sim", reconheceu o historiador. "Kebab. E aquela espécie de sanduíche. Puxa, já estou farto disso..."
"Eles aqui também servem chicken kebab."
"Ah, sim?"
"Sim. Só que, aqui em Evin, chicken kebab não é uma delícia gastronômica. É o nome que dão a um método de interrogatório."
"Ah."
"Primeiro prendem-nos os tornozelos e amarram-nos as mãos, depois põem os pulsos sobre os tornozelos e passam uma enorme barra de metal entre os ombros e a parte de trás dos joelhos, de modo a ficarmos quase na posição fetal. Levantam a barra, prendem-na a um ponto alto e nós ficamos assim pendurados, todos contorcidos, como uma galinha no espeto. E a seguir batem-nos."
Tomás esboçou um esgar horrorizado.
"Fizeram-lhe isso a si?"
"Sim, fizeram."
"Por criticar o presidente?"
"Não, não. Por defender o presidente."
"Por defender o presidente?"
"Sim. Khatami era naquela altura o presidente e pretendia fazer avançar reformas que pusessem fim aos exageros desses fanáticos religiosos, esses malucos que nos infernizam a vida todos os dias e fazem a glorificação da ignorância."
"E o presidente não o pode libertar?"
Parsa abanou a cabeça.
"O presidente já não é o mesmo, agora está lá um radical. Mas nada disso interessa. A grande verdade é que, quando ocupava a presidência, Khatami não tinha qualquer poder sobre estes imbecis. Eu sei que parece uma loucura, mas é assim que as coisas funcionam neste país. Isto não é como o Iraque, sabe, onde mandava o Saddam e todos se encolhiam. Aqui é diferente. Olhe, em 2003, por exemplo, o presidente Khatami ordenou uma inspeção a esta cadeia. Os seus homens de confiança vieram cá e tentaram visitar a Seção 209. Sabe o que aconteceu? Sabe?"
"Não."
"Os tipos do Ministério das Informações e Segurança não os deixaram entrar."
"Não deixaram?"
"Não."
"E o que fizeram os homens do presidente?"
"Ora! Meteram o rabo entre as pernas e foram-se embora, pois claro." Fez um gesto resignado. "É para que você veja quem manda neste país."
"Incrível."
"Passam-se aqui em Evin as coisas mais inacreditáveis e ninguém pode fazer nada."
"Como essa tortura a que o submeteram."
"Sim, o chicken kebab. Mas há mais. Uma vez puseram-me no carrossel. Sabe o que é o carrossel?"
"Não."
"Amarraram-me com a barriga para cima a uma cama em forma de Y. Depois puseram-na a girar a grande velocidade e, enquanto cantavam, batiam-me em toda a parte." Respirou fundo. "Vomitei todo o jantar."
"Puxa."
O velho apontou para um dos companheiros de cela, um rapaz ossudo, com grandes olheiras.
"Ali o Faramarz passou por uma situação bem chata", disse. "Penduraram-no pelos pés no teto de uma sala, puseram-lhe um peso nos testículos e deixaram-no ali suspenso durante três horas, sempre com a cabeça para baixo."
Tomás estudou, horrorizado, o ar doentio de Faramarz.
"Acha... acha que me podem fazer o mesmo?"
Parsa acomodou-se no chão.
"Depende do que acharem que você andava a fazer no Ministério da Ciência", indicou, passando a língua pelos lábios finos. "Se acharem que estava a roubar, se calhar partem-lhe as mãos à pancada e depois condenam-no a uns anos de prisão. Se acharem que estava a fazer espionagem... bem, nem quero imaginar."
O historiador sentiu um terrível calafrio percorrer-lhe o corpo e começou a interrogar-se se, feitas as contas, não teria sido melhor ter utilizado a seringa que Bagheri lhe estendeu.
"Mesmo sendo estrangeiro, isso não..."
"Sobretudo sendo estrangeiro", atalhou Parsa. "E de uma coisa estou certo." Apontou para o seu interlocutor. "Você não vai escapar à pior das torturas."
Tomás sentiu um baque no coração.
"Acha?"
"Todos passam por ela. É a mais eficiente."
"E qual... qual é?"
"O caixão."
"Como?"
"Uns chamam-lhe o caixão, outros a tortura branca. Seja quem for o homem, vai acabar por ceder. Todos cedem. Uns resistem três dias, outros aguentam três meses, mas todos acabam por confessar tudo. E se não confessam aqui em Evin, mandam-nos para a Prisão 59, que é muito pior. No fim, tudo os presos acabam por confessar. Confessam o que fizeram, confessam o que gostariam de ter feito e confessam o que não fizeram. Confessam o que eles quiserem."
"E... e... o que nos fazem eles?"
"Onde?"
"Nesse caixão."
"No caixão? Nada."
"Hã?"
"Nada."
"Não nos fazem nada? Não entendo."
"O caixão é uma cela solitária. Parece um caixão. Imagine o que é viver dias e dias num compartimento muito pequeno, quase do tamanho de um caixão, sem falar com ninguém nem ouvir ruído nenhum. Assim descrito não parece nada de especial, pois não? Sobretudo quando comparado com o carrossel ou o chicken kebab. Mas viver isso..." Abanou a mão. "Uf!"
"É assim tão mau?"
"É de loucos. Os caixões funcionam nas Seções, mas, como lhe disse, os piores nem são aqui os de Evin. Os piores são os dos centros de detenção."
"Centros de detenção?"
"Os jornais chamam-lhes nabadeh movazi, ou instituições paralelas. São tão clandestinas que nem sequer estão previstas na lei, embora sejam mencionadas na imprensa e até no parlamento. Pertencem às milícias basiji ou ao Ansar-e Hizbollah ou aos vários serviços secretos. Não estão assinaladas como prisões, não registam os nomes dos prisioneiros nem as autoridades governamentais têm acesso a informação sobre os seus orçamentos e organização. Os deputados e o presidente Khatami tentaram acabar com as nahadeb mozavi, mas não conseguiram."
"Como é isso possível?"
Parsa ergueu os olhos para cima, como se dirigisse a pergunta a uma entidade divina.
"Só no Irã, meu caro amigo", desabafou. "Só no Irã."
"Você já esteve num desses sítios?"
"Claro que sim. Para dizer a verdade, da primeira vez que fui detido nem vim aqui para Evin, sabe? Segui direitinho para a Prisão 59."
"Ah, sempre é uma prisão."
"Chamamos-lhe Prisão 59 ou eshraat abad, mas não está registada como prisão. É a mais famosa das nahadeb mozavi."
"É aqui em Teerã?"
"Sim, a Prisão 59 encontra-se num complexo situado na Avenida Valiasr e é controlada pela Sepah, os serviços de informações da Guarda Revolucionária. Os caixões deste centro de detenção são os piores de todos. Ao pé deles, aqui os de Evin não passam de moradias luxuosas. Você nem imagina como aquilo é. Enlouquece-se numa única noite."
Quase sem querer, Tomás procurava-se situar nestas informações, imaginava-se a cada instante em cada uma das situações que lhe eram descritas.
"Eles... eles costumam meter estrangeiros nesse sítio?", perguntou, a medo.
"Eles metem lá quem quiserem. Quem entrar na Prisão 59 é como se deixasse de existir. Aqui em Evin ainda há um registo dos prisioneiros. Lá não existe registo nenhum. Uma pessoa entra e depois pode reaparecer ou desaparecer para sempre, ninguém ali presta contas."
"Estou a ver."
"De modo que só tenho um conselho para lhe dar."
Fez-se uma pausa.
"Qual é?"
"Se tiver alguma coisa para confessar, confesse logo de início", disse o velho, a voz fatigada. "Ouviu?"
"Sim."
"Poupará a si próprio muito sofrimento."
Encafuado naquela cela imunda, o ar impregnado de uma mistura nojenta de odores a mofo, urina e fezes, Tomás passou toda a noite e manhã seguinte a decidir-se sobre o que iria ou não dizer quando fosse interrogado. Parecia-lhe evidente que jamais poderia confessar estar a trabalhar para a CIA, tal revelação seria equivalente à assinatura da sua sentença de morte.
Não podendo, portanto, expor a verdade, ficava nas mãos com o grande problema de explicar o inexplicável, isto é, justificar o arrombamento do cofre e a presença de Bagheri ao seu lado. Quando foi capturado, o historiador ficara com a impressão de que o seu companheiro iraniano tinha sido morto, mas não pudera confirmar isso e corria sempre o risco de Bagheri estar vivo e apresentar uma versão que o comprometeria. Além disso, mesmo que Bagheri estivesse morto, a sua ligação seria sempre um embaraço, jamais conseguiria dar uma explicação convincente para o facto de ter sido apanhado dentro do ministério com ele. Por outro lado, ainda que o homem da CIA se encontrasse morto, seria sempre possível à polícia identificá-lo e investigar as suas ligações. Os iranianos poderiam interrogar os seus familiares e amigos e revistar a sua casa. Não havia modo de saber o que descobririam, mas as hipóteses de virem a ligar Bagheri à agência secreta americana eram elevadas. E, se o fizessem, a pergunta seguinte era óbvia. O que estava Tomás a fazer com um agente da CIA, a meio da noite, no Ministério da Ciência, depois de terem arrombado um cofre onde era guardado um documento altamente secreto? Como explicar o inexplicável? E, como se tudo isto não bastasse, era preciso ainda não esquecer Babak. Teria sido o motorista apanhado? Se foi, o que revelaria ele? Se não foi, será que o podia ainda vir a ser?
"O que o preocupa?", perguntou Parsa.
"Tudo", exclamou Tomás.
"Mas você parece estar a conversar para si mesmo..."
"É o interrogatório. Estou a concentrar-me no que vou dizer."
"Conte a verdade", aconselhou o velho mais uma vez. "Poupará muito sofrimento inútil."
"Claro."
Não podia dizer àquele desconhecido que não tinha modo de contar a verdade. Parsa pareceu entender, porque logo virou a cara e fitou a luz do dia que jorrava pela janela gradeada.
"Mas se não puder contar a verdade", logo acrescentou, "dou-lhe um conselho."
"Qual é?"
"Não acredite em nada do que eles lhe disserem. Ouviu? Não acredite em nada." Fitou Tomás, os olhos a brilharem. "Na minha primeira vez, quando fui para a Prisão 59, anunciaram-me que o presidente Khatami tinha fugido do país e que tinham prendido as minhas filhas e elas estavam a revelar coisas muito graves sobre mim. Disseram tudo aquilo com o ar mais credível do mundo e pediram-me para assinar uma confissão, afirmando que era o melhor para mim, a única maneira de conseguir um perdão. Quando mais tarde fui libertado, apercebi-me de que nada do que me tinham dito era verdade. O presidente continuava em funções, as minhas filhas nunca foram presas."
Tomás passou horas às voltas com o problema do interrogatório, atormentado com as pontas soltas, as inconsistências, os absurdos da sua versão ficcionada. Ruminou o assunto durante o almoço, enquanto engolia distraidamente um aguado caldo de galinha que um guarda lhe despejou numa tigela de alumínio, e foi ainda com a cabeça imersa no problema que, vencido pelo cansaço, adormeceu ao princípio da tarde, deitado sobre uma esteira estendida no chão frio e úmido da cela da ala comum da prisão de Evin.
XVII
Uma sacudidela violenta despertou Tomás do sono inquieto em que mergulhara durante várias horas. Abriu os olhos e viu um homem de feições brutas diante de si, a barba negra rala e o cabelo a faltar-lhe no topo da testa, as mãos grossas agarradas aos seus ombros, abanando-o com brusquidão. Olhou em redor, ainda meio atordoado, e notou que fazia escuro, a noite já caíra e a cela era iluminada pela mesma luz amarela bruxuleante da véspera.
"Acorrrde", disse o homem num inglês hesitante e com um sotaque iraniano muito forte.
"Uh?"
"O corrronel esperrra você. Deprrressa."
O homem puxou-o para cima, obrigando-o a pôr-se de pé; tirou um lenço do bolso e apertou-o em torno da cabeça e sobre os olhos do prisioneiro. Com Tomás devidamente vendado, o homem prendeu-lhe as mãos por detrás dos braços com algemas e arrastou-o para fora da cela. Voltaram a percorrer corredores e a subir e descer escadas, até que o recluso, sempre às escuras por causa da venda, entrou num compartimento aquecido e foi forçado a sentar-se num banco de madeira, as algemas ainda prendendo-lhe os braços atrás das costas.
Silêncio.
Tomás pressentiu uma presença no local. Ouviu um respirar leve e o som quebrado de estalidos de articulações, era evidente que havia alguém ali, mas a verdade é que ninguém pronunciou palavra e o historiador permaneceu calado. Passaram-se cinco minutos em silêncio, apenas se ouviam as respirações e os pequenos estalidos. O recluso remexeu-se no banco e sentiu algo à direita. Percebeu que era uma mesinha colada à braçadeira da cadeira, como os bancos das escolas. Instantes depois sentiu o vulto sentar-se naquela mesinha e encolheu-se, intimidado.
Dez minutos de silêncio.
"Professor Noronha", disse finalmente a voz, num tom contido, como um leão que oculta o rugido feroz por baixo de um ronronar manso. "Bem-vindo ao nosso humilde palacete. Está bem instalado?"
"Quero falar com um diplomata da União Européia."
O desconhecido deixou passar mais uns segundos.
"O meu nome é Salman Kazemi e sou coronel do VEVAK, o Ministério das Informações e Segurança", disse, ignorando ostensivamente o pedido. "Tenho algumas perguntas para lhe fazer, se não se importa."
"Quero falar com um diplomata da União Européia."
"A primeira pergunta é óbvia. O que estava o senhor a fazer nas instalações do Ministério da Ciência e Tecnologia à uma da manhã?"
"Só falo depois de conversar com um diplomata da União Européia."
"Por que razão o senhor arrombou o cofre da Sala K e tirou do seu interior um documento da maior importância para a defesa e segurança da República Islâmica?"
"Quero falar com um diplomata da União Européia."
"O que tencionava o senhor fazer com o documento que retirou do cofre?"
"Eu tenho o direito de falar com..."
"Silêncio!", gritou o coronel sobre o seu ouvido direito, de repente fora de si. "O senhor neste momento não existe! O senhor neste momento não tem direitos! O senhor abusou gravemente da nossa hospitalidade e envolveu-se em atividades que podem ter posto em perigo a segurança da República Islâmica. O senhor esteve metido numa ação da qual resultou o ferimento de quatro homens das forças de segurança iranianas e um deles encontra-se neste momento internado no hospital em estado grave. Se vier a morrer, isso fará de si um homicida. Entendeu?"
Tomás permaneceu calado.
"Entendeu?", gritou ainda mais alto, a boca colada ao ouvido de Tomás.
"Sim", retorquiu o recluso, a voz muito baixa.
"Ainda bem", exclamou o coronel Kazemi. "Então faça o favor de responder agora às minhas perguntas." Fez uma pausa para recuperar a compostura e retomou o interrogatório num tom mais calmo. "O que estava o senhor a fazer dentro do Ministério da Ciência e Tecnologia à uma da manhã?"
"Só respondo depois de falar com um..."
Uma violenta pancada na nuca quase atirou Tomás ao chão.
"Resposta errada", berrou o oficial da VEVAK. "Vou repetir a pergunta. O que estava o senhor a fazer no Ministério da Ciência e Tecnologia à uma da manhã?"
O recluso manteve-se calado.
"Responda!"
Silêncio.
Nova pancada, agora um murro desferido no lado direito da cabeça com tal violência que Tomás se desequilibrou do banco e tombou para o lado esquerdo com um gemido atordoado, estendendo-se espalhafatosamente no chão, os braços ainda algemados nas costas.
"Eu... vocês... vocês", titubeou, atarantado, sentindo uma face da cara a latejar com o impacto, a outra a colar-se à pedra fria.
"Vocês não têm o direito de me fazer isto. Eu vou protestar. Vou queixar-me, ouviu?"
O coronel soltou uma gargalhada.
"Vai queixar-se?", perguntou, visivelmente divertido. "Vai queixar-se a quem? Uh? À sua mãezinha?"
"Vocês não podem fazer isso. Eu tenho o direito de contactar um diplomata europeu."
Mãos fortes pegaram em Tomás e atiraram-no de novo para o banco de escola.
"Você não tem direitos nenhuns, já lhe disse", vociferou o coronel. "O seu único direito aqui é o de dizer a verdade, percebeu? A verdade! A verdade libertá-lo-á! A salvação através da verdade. É esse o nosso lema, é esse o lema da VEVAK. A salvação através da verdade. Conte-nos a verdade e isso será levado em linha de conta na hora da decisão. Ajude-nos a encontrar os inimigos da República Islâmica e será premiado. Mais do que isso, será salvo. A salvação através da verdade. Mas, se persistir em manter-se calado, vai arrepender-se amargamente." Baixou o tom de voz, de modo a torná-la quase doce, sedutora. "Ouça o que eu lhe digo. O senhor cometeu um erro, é certo. Mas ainda vai a tempo de o emendar. Garanto-lhe isso. Afinal de contas, todos nós cometemos erros, não é verdade? O que é grave é se persistirmos no erro. Isso é que é grave, percebe?" Adoçou ainda mais a voz, tornou-se quase íntimo. "Ouça, fazemos já aqui uma combinação entre nós os dois. O senhor conta-me tudo e eu faço um relatório muito positivo sobre si. Repare, nós não temos nada contra si, não é? Por que razão lhe iríamos fazer mal? Apenas queremos que nos ajude a detectar os nossos inimigos. Está a ver como é simples? O senhor ajuda-nos, nós ajudamo-lo. Uh? O que me diz?"
"Terei muito gosto em ajudá-lo", disse Tomás, preparando-se para uma nova pancada a qualquer momento. "Mas entenda que eu primeiro tenho de falar com um diplomata da União Européia. Preciso de saber quais são os meus direitos, quero conhecer qual a acusação formada contra mim e gostaria de passar uma mensagem à minha família. Além disso, preciso de arranjar um advogado. Como vê, não estou a pedir nada de mais."
O coronel fez uma pausa, como se estivesse a ponderar o pedido.
"Deixe-me ver se percebo", disse o oficial da VEVAK. "Se nós lhe facilitarmos acesso a um diplomata europeu, você conta-nos tudo, é?"
Tomás hesitou.
"Uh... sim, claro... conto-vos tudo em função... uh... dos conselhos do diplomata e do que disser o meu advogado, claro."
O coronel Kazemi manteve-se calado. O recluso ouviu o som de um fósforo a ser aceso e sentiu, instantes depois, o cheiro acre de um cigarro ateado.
"Você deve pensar que somos parvos", comentou Kazemi por entre dois bafos de fumo. "Por que motivo iríamos nós alertar a União Européia para a sua situação sem ter a garantia de que receberíamos algo em troca? Ninguém no mundo sabe onde você se encontra e não temos interesse nenhum em alterar essa situação. A menos que você nos dê um motivo válido, claro."
"Que motivo?"
"Por exemplo, contando-nos tudo. Olhe, podemos começar com uma dúvida que eu tenho, relativamente ao indivíduo que estava consigo. Quem era ele exatamente?"
Esta pergunta levou Tomás a concluir nesse instante que Bagheri provavelmente tinha morrido. Por um lado, se o coronel não sabia qual a identidade de Bagheri era porque o homem da CIA se calara, talvez para sempre; e, por outro, o oficial usara o pretérito para se referir a Bagheri, o que lhe parecia revelador.
O historiador resolveu testar o interrogador.
"Por que não lhe perguntam diretamente?"
Kazemi pareceu momentaneamente desconcertado com a pergunta, o que, em si, constituiu uma forma de resposta.
"Uh... porque...", gaguejou, antes de se recompor. "Ouça, aqui quem faz as perguntas sou eu, ouviu?"
Silêncio.
"Ouviu?"
"Sim."
O coronel aspirou mais uma lufada do cigarro.
"Você é da CIA."
Tomás percebeu que o oficial tinha mudado de tática, para o surpreender, e que não poderia hesitar neste ponto crucial.
"Está a perguntar ou está a afirmar?"
"Estou a afirmar. Você é da CIA."
"Disparate."
"Temos provas."
"Ah, sim? Como é que se pode ter provas de uma fantasia?"
"O seu amigo falou."
"Falou, é? E disse que era da CIA?"
"Sim. Contou-nos tudo sobre si."
Tomás forçou-se a fazer um sorriso.
"Se contou tudo sobre mim, então estou mais descansado. Eu não tenho nada a ver com política, sou apenas um acadêmico e vocês sabem-no."
"Você é um espião. Você é um espião que veio ao Irã para nos roubar o segredo da bomba atômica."
Kazemi estendeu aqui uma nova armadilha, mas não foi muito hábil e Tomás pressentiu-o.
"O segredo da bomba atômica?", perguntou, com o ar mais admirado que foi capaz de encenar. "Ena, onde é que isso já vai! Nunca ninguém me falou de bomba atômica alguma, ouviu? Deve haver aqui um engano qualquer. Eu não vim cá para roubar coisa nenhuma. Eu fui convidado, percebe? Eu vim cá para ajudar o Irã a decifrar um documento científico, mais nada. Que história é essa da bomba atômica?"
"Não se faça desentendido", retorquiu o coronel. "Você sabe muito bem do que eu estou a falar."
"Não sei, não. Nunca ouvi falar em tal coisa. O meu trabalho limita-se à decifração de um documento científico, mais nada. Foi para isso que fui contratado. Nunca ninguém me falou em bombas atômicas ou tretas do gênero. E, se tivessem falado, eu nem aceitaria estar aqui, percebeu? Portanto, não se ponha para aí a inventar coisas que não existem."
"Veio cá decifrar um documento científico, é? Então por que razão foi às escondidas ao ministério tirar aquele documento do cofre, uh? Por que razão?"
"Aquele não é um documento militar, já lhe disse. É um documento científico. Pergunte ao ministro da Ciência, se quiser. O senhor é que está a fantasiar e a ver conspirações onde elas não existem."
"O ministro já nos disse que, dada a natureza do documento em questão, você só podia estar a espiar."
"Eu? A espiar? Que coisa mais ridícula! Admito que tinha curiosidade em ver aquele documento científico, isso é verdade. Mas era curiosidade científica, apenas isso. Eu sou um cientista e é muito natural que queira ver uma relíquia científica, não acha?"
"O ministro não lhe chamou relíquia."
"Então chamou-lhe o quê?"
"Chamou-lhe um documento da mais alta importância para a segurança do Irã." Aproximou-se do recluso e segredou-lhe ao ouvido. "Chamou-lhe um segredo de Estado."
"Isso é ridículo", protestou Tomás. "Aquilo é um documento científico. Pelo menos foi isso o que ele sempre me disse e nunca tive razões para duvidar de tal." Alterou o tom de voz, tentando parecer muito razoável. "Ouça, se fosse mesmo um segredo de Estado, acha que me contratavam a mim para o decifrar? Hã? Acha? Então não arranjavam aqui gente capaz de o fazer? Por que razão iriam buscar um ocidental para decifrar um documento tão sensível?"
"Tiveram as suas razões."
"Claro que tiveram", exclamou o recluso. "Razões de ciência."
"Razões de Estado."
"Desculpe, mas o que o senhor está a dizer não faz sentido nenhum. Repare, não é o Irã que diz todos os dias que deseja a energia nuclear para fins pacíficos? Não é o Irã que afirma que não quer desenvolver armas atômicas? Então como é que eu iria roubar ao Irã o que o país não tem nem tenciona ter?"
"Você é muito esperto..."
"Não é uma questão de esperteza, é uma questão de bom senso. Lembre-se que não fui eu que me fiz convidado para vir ao Irã. Foram vocês que me convidaram. Eu estava muito bem no meu cantinho, a fazer as minhas coisas, quando vocês me contactaram e me pediram para vir cá. Eu nunca..."
"Basta", cortou o coronel Kazemi. "Você é nosso convidado e não se portou como tal. Foi apanhado a meio da noite no Ministério da Ciência a arrombar um cofre onde era guardado um segredo de Estado. Quando aparecemos no local, você abriu fogo e feriu..."
"Não fui eu, foi o outro."
"Foi você."
"Não, já lhe disse que quem abriu fogo foi o outro."
"Quem era o outro?"
Tomás hesitou. Tinha ido para a sala determinado a nada dizer e apercebeu-se de que se tinha deixado envolver numa tal teia de conversa que quase contava já a história da sua vida.
"Exijo primeiro falar com um diplomata da União Européia."
"Como?"
"Exijo primeiro falar..."
Uma dor brutal, como um beliscão feroz, incendiou-lhe um ponto no pescoço e até viu estrelas estalarem-lhe nos olhos. Urrou de dor e levou um instante a perceber o que tinha acontecido.
O coronel apagara o cigarro no seu pescoço.
"Se isto não vai a bem, irá a mal", disse o oficial com uma voz neutra.
Kazemi emitiu umas ordens em parsi e Tomás sentiu de imediato movimento em redor. Preparou-se para o pior e quase se encolheu no banco, à espera das pancadas. Várias mãos pegaram-lhe pelos braços e pela roupa de presidiário e obrigaram-no a pôr-se de pé.
"O que... o que me vão fazer?", perguntou, angustiado por a venda não o deixar perceber o que se passava em redor. "Vamos pô-lo a falar", foi a resposta seca de Kazemi.
"Vão-me torturar?"
"Não. Vamos fazer pior."
"Vão fazer o quê?"
"Vamos mandá-lo para a Seção 209."
Um caixão.
Quando Tomás, já desalgemado, foi atirado para o pequeno cubículo e pôde finalmente retirar a venda que lhe cobria os olhos e observar o local onde se encontrava, essa foi a primeira impressão com que ficou.
Puseram-me num caixão.
A cela revelou-se incrivelmente pequena. Era tão estreita que não conseguia sequer esticar os braços, tinha somente um metro de largura. De comprimento eram dois metros, apenas o suficiente para dar três pequenos passos, mas, na verdade, era apenas um passo e meio porque o resto estava ocupado por uma retrete e um lavatório. Virou a cabeça para cima e mediu a altura. Quatro metros, mais ou menos. Uma pequena lâmpada iluminava a cela a partir do topo, Tomás calculou que teria uns quarenta watts, não mais. O chão parecia feito de cal e as paredes eram brancas, estreitas, opressoras, davam a impressão de esmagá-lo de todos os lados.
Um verdadeiro caixão.
Nunca na vida Tomás tinha estado assim apertado por paredes, tão apertado que foi assaltado pela distinta impressão de se encontrar enterrado vivo. Começou a sentir dificuldades em respirar e teve de fechar os olhos e erguer as narinas para cima para controlar o acesso de pânico que gradualmente tomava conta de si. Não se quis sentar naquele chão de cal e permaneceu de pé. Tentou dar um passo, mas um passo era mesmo a única coisa que conseguia dar, tão estreita era a cela, tão comprimido era o espaço.
Passou uma hora.
Os ataques de falta de ar e de quase pânico sucediam-se, a par de crescentes tonturas. Sentiu a claustrofobia de quem tinha sido encerrado num túmulo, atirado para uma sepultura de paredes brancas e superfície de cal e iluminada por uma pequena lâmpada de quarenta watts. Fatigado, encostou-se à parede.
Duas horas.
O silêncio era absoluto, asfixiante, sepulcral. Parecia-lhe incrível como era possível haver assim um silêncio de tal modo profundo, tão profundo que escutava a sua respiração como se fosse uma tempestade e ouvia o leve zunido da lâmpada como se se tratasse de uma enorme varejeira a zoar-lhe aos ouvidos. Sentiu as pernas fracas e sentou-se na cal.
Horas.
Perdeu a noção do tempo. Os segundos, os minutos, as horas sucediam-se sem que se conseguisse aperceber da sua passagem; era como se estivesse suspenso no tempo, perdido numa dimensão oculta, flutuando no esquecimento. Apenas via as paredes, a lâmpada, a sanita, o lavatório, o corpo, a porta e o chão. Ouvia o silêncio, a respiração e o zumbido da lâmpada. Lembrou-se que o velho da cela comum lhe dissera que havia solitárias piores, que na tal Prisão 59 se enlouquecia numa só noite, mas não conseguiu imaginar nada pior do que aquele sítio onde se encontrava. Tentou cantar, mas não conhecia a letra da maior parte das canções e contentou-se em trautear algumas baladas infantis. Murmurou ainda diversas melodias, umas atrás das outras, determinado a ser o gira-discos de si próprio. Começou a falar sozinho, mais para ouvir uma voz humana do que para dizer alguma coisa, mas, ao fim de algum tempo, calou-se, achou que estava já a fazer figura de doido.
"Allaaaaaaaaaaaaah u akbaaaaaaaaaaaaaaaar!”
A voz estridente e elétrica de um iraniano a berrar encheu de repente a cela. Tomás deu um pulo e olhou em redor, atarantado. Era o som de um altifalante que reverberava no ar com uma chamada à oração. A chamada durou três ou quatro minutos, sempre com o volume no máximo, quase ensurdecedora, e depois parou.
Voltou o silêncio.
Era um silêncio sinistro, um silêncio tão profundo que até a vibração do ar lhe parecia zumbir aos ouvidos. Fechado naquele espaço apertado, incapaz de esticar os braços para os lados ou de dar dois passos na mesma direcção, a mente de Tomás começou a divagar em torno das suas circunstâncias, do desespero da sua situação, da futilidade da resistência. Para quê resistir se o fim já estava traçado? Não valeria mais antecipar o desfecho inevitável? Por que razão haveria de temer a morte se morto já se encontrava ele ali? Sim, já estava morto sem estar morto, a verdade é que tinha sido enterrado num caixão e não passava agora de uma espécie de morto-vivo.
As refeições eram-lhe dadas em silêncio. O carcereiro abria uma pequena cancela rasgada na porta, entregava-lhe um prato metálico com comida, uma colher de plástico e um copo de água e meia hora depois vinha recolher os utensílios. Estes interlúdios para as refeições e a berraria nos altifalantes para a chamada às orações constituíam os únicos momentos em que o mundo exterior interferia com o caixão. Tudo o resto era indefinido.
Uma espécie de mancha no tempo.
Tomás comia quando a cancela se abria e o prato aparecia, fazia as necessidades na sanita e deitava-se no chão quando tinha sono, encolhendo-se na posição fetal porque não dispunha de mais espaço e também porque era a única maneira de gerar calor para se aquecer. A luz da lâmpada encontrava-se permanentemente acesa e, encerrado naquele caixão de tijolo e cimento, o recluso não tinha maneira de saber que horas eram, quanto tempo passara, se era dia ou se era noite, se sairia dali em breve ou se o enterraram naquele caixão até ao esquecimento.
Limitava-se a existir.
XVIII
O tilintar aparatoso de uma chave a rodar na fechadura despertou Tomás do longo torpor em que se encontrava mergulhado. O ferrolho emitiu diques sucessivos até a porta se abrir e um homem baixo de barba pontiaguda emergir do outro lado e espreitar o recluso.
"Vista isto", disse o iraniano, atirando um saco de plástico azul para o chão da minúscula cela.
O historiador acocorou-se e abriu o saco. Lá dentro encontravam-se as suas roupas, todas amarrotadas e amontoadas umas nas outras. Com a porta entreaberta, viu pela primeira vez em muito tempo a luz do dia espreitar num canto e teve vontade de desatar a correr e abraçar o sol, encher os pulmões de ar e viver aquele dia em toda a plenitude.
"Depressa", resmungou o homem, que se apercebera da forma sonhadora como Tomás contemplava a luz natural que entrava no corredor. "Despache-se."
"Sim, sim, já vou."
O historiador vestiu-se e calçou-se em dois minutos, ansioso por agarrar aquela oportunidade que inesperadamente lhe concediam de sair do caixão e respirar ar fresco. Mesmo que fosse para um duro interrogatório, mesmo que o submetessem ao chicken kebab de que lhe falara o velho preso que conhecera quando entrou na cadeia de Evin, tudo era melhor do que permanecer mais uma hora naquele sítio terrível, qualquer tortura era preferível a continuar enterrado vivo.
Quando terminou de se vestir e se pôs de pé, quase saltando de excitação por estar na iminência de abandonar a cela, o iraniano tirou um lenço do bolso e fez um gesto rotativo rápido com a mão.
"Vire-se."
"Hã?"
"Vire-se."
Tomás voltou-se de costas para a porta e o iraniano colocou-lhe a venda nos olhos. De seguida puxou-lhe os braços para trás e algemou-o pelas costas.
"Vamos", disse então, puxando-o pelo braço.
O recluso tropeçou e ia caindo, mas embateu numa parede e conseguiu equilibrar-se, deixando-se puxar pelo carcereiro.
"Onde me leva?"
"Silêncio."
O carcereiro conduziu-o por um longo corredor, ao fim do qual começaram a subir umas escadas. A caminho da cela solitária, Tomás tinha ficado com a impressão de que a sua ala na Seção 209 se encontrava num subterrâneo, impressão que se adensou agora que dali saía. Atravessaram mais corredores e entraram no que parecia ser uma sala, onde o obrigaram a sentar-se num banco. Tomás remexeu-se no banco e sentiu a mesinha pegada à braçadeira, era um banco de escola igual ao do primeiro interrogatório, possivelmente seria até o mesmo banco e a mesma sala.
"Então?", perguntou uma voz familiar. "Divertiu-se muito no enferadi?"
Era o coronel Salman Kazemi outra vez.
"Onde?"
"No enferadi. A solitária."
"Exijo que me deixem falar com um diplomata da União Européia."
O oficial riu-se.
"Outra vez?", exclamou. "Ainda não parou com essa conversa?"
"Tenho direito a falar com um diplomata."
"Você tem é o direito de confessar tudo. Ao fim de três dias trancado no enferadi, já está disposto a falar?"
"Três dias? Passaram-se três dias?"
"Sim. Alguns acham que estar encerrado no caixão durante três dias chega. Será que já chegou para si?"
"Eu quero falar com um diplomata europeu."
Fez-se silêncio e o coronel suspirou com enfado, todo ele paciência a atingir o limite.
"Já vi que não chegou", disse, com um tom normalmente reservado às crianças que se portam mal. "Sabe, acho que nós aqui em Evin somos muito bonzinhos. Demasiado bonzinhos até. É o nosso mal, sermos assim tão sentimentais e respeitadores dos direitos de patifes como você, escumalha que só merece que se lhe cuspa em cima." Voltou a suspirar. "Enfim." Ouviu-se o som de algo a ser escrito. "Acabei agora de assinar a sua ordem de saída", anunciou o coronel.
"Ponha-se a andar daqui para fora."
Tomás nem queria acreditar no que acabara de ouvir.
"O senhor vai... vai libertar-me?"
Kazemi soltou uma gargalhada sonora.
"Claro que vou. Aliás, já o fiz."
"Posso sair, é?"
"Pode e deve. A partir deste momento, já não pertence a Evin. Ponha-se na rua."
O historiador colocou-se de pé, incrédulo mas esperançado.
"Então quando é que me tiram isto dos olhos?"
"Ah, isso não tiramos."
"Não tiram? Porquê?"
"É simples. Acabei de assinar a sua ordem de saída. A partir deste momento, você já não está sob a tutela da cadeia de Evin. Você vai abandonar este estabelecimento e, a partir daquela porta, o que lhe vier a acontecer já não é da nossa responsabilidade."
"O que quer o senhor dizer com isso?"
Umas mãos puxaram brutalmente Tomás, arrastando-o para fora da sala, ainda com a venda nos olhos e os braços algemados atrás das costas. Carregado com violência pelo corredor, o historiador ainda ouviu Kazemi responder com sarcasmo à sua derradeira pergunta.
"Divirta-se na Prisão 59."
Uma mão empurrou a cabeça vendada de Tomás para baixo e o historiador foi atirado para o interior de um automóvel, as algemas ainda a prenderem-lhe os braços atrás das costas. Pela organização do espaço nos sofás presumiu que se encontrava no banco de trás, mas logo os desconhecidos pegaram nele e atiraram-no para os pés dos assentos, acomodando-se eles nos lugares e colocando os sapatos por cima de Tomás numa postura humilhante, pareciam caçadores a pisar a sua presa ou agricultores a calcar um mero saco de batatas.
O carro arrancou e embrenhou-se nas ruas de Teerão. Tomás sentiu o calor do sol embater-lhe na nuca e ouviu a orquestra de buzinadelas e motores do caótico trânsito da cidade. O automóvel virava para a esquerda e para a direita, sacudindo-o na sua desconfortável e vexatória posição, e o historiador teve de travar um soluço de choro que lhe assomou à boca, não via como escapar daquele inferno. A presença viva dos sons urbanos enchia-o de nostalgia pela liberdade perdida e tornava ainda mais dolorosa a sua situação.
Que estúpido fora, considerou, enquanto o corpo algemado era sacudido pelas guinadas do automóvel. Devia estar louco quando foi na conversa do americano da embaixada e aceitou meter-se naquela tremenda confusão. Se fosse hoje, pensou de si para si, se fosse hoje teria dito que não ao americano e teria logo a seguir dito que não aos iranianos; os americanos que arranjassem outro idiota para ir salvar o mundo e os iranianos que contratassem outro imbecil para decifrar as charadas deixadas por Einstein. Mas era demasiado tarde para lamentações, sabia-o Tomás. Além do mais, quando tomamos uma decisão nunca é com os dados que um dia viremos a ter, mas com aqueles que temos no instante em que decidimos e é com isso que temos de viver. Por outro lado, raciocinou, talvez o mais importante fosse...
liiiiiiiiiii.
Uma travagem brusca interrompeu-lhe o raciocínio.
O carro imobilizou-se e uma gritaria irrompeu do interior, era o motorista a vociferar insultos em parsi e os homens que espezinhavam Tomás no assento de trás a vomitar ordens em catadupa, num grande alvoroço. Deitado aos pés do assento, o historiador ouviu o guinchar de mais travagens e o som surdo de portas a bater lá fora. De repente a porta traseira do seu próprio automóvel foi aberta e ouviu uma voz a gritar em parsi para o interior. Os carcereiros responderam em voz baixa, pelo tom de voz pareciam a Tomás intimidados, o que o surpreendeu, e mais surpreendido ficou quando, de imediato, uma mão arrancou a venda dos seus olhos, deixando a luz do dia invadir-lhe os sentidos.
"Depressa", ordenou uma voz iraniana em inglês. "Não temos muito tempo."
"Hã? O que... o que é?"
Alguém começou também a mexer nas algemas de Tomás. Pareceu-lhe primeiro que brincavam com as grilhetas, mas percebeu logo a seguir que lhe estavam a colocar umas chaves no ferrolho das algemas, o que se veio a confirmar instantes depois, quando sentiu as mãos soltarem-se.
"Venha", ordenou a mesma voz. "Rápido, rápido."
Tomás ergueu a cabeça e viu um homem encapuçado com uma meia e dois buracos rasgados no lugar dos olhos a puxá-lo para fora do carro. O indivíduo tinha uma pistola numa mão e atirou-o para um automóvel branco muito pequeno que se encontrava estacionado ao lado. O trânsito estava totalmente parado, ouviam-se buzinadelas por todo o lado e a rua vivia uma cena irreal, com outros homens armados e encapuçados a guardarem um perímetro de segurança em torno da viatura de onde o recluso foi arrancado. Uma vez Tomás instalado no banco de trás, a porta fechou-se com estrondo e o segundo carro arrancou, desaparecendo de imediato por uma ruela lateral.
Toda a operação não tinha durado mais de uma centena de segundos.
O motorista era um homem de malares muito salientes e um largo bigode negro, as mãos peludas firmemente agarradas ao volante. Logo que sentiu o coração acalmar-se e as coisas a regressarem gradualmente à normalidade, Tomás inclinou-se para a frente e tocou-lhe no ombro.
"Para onde vamos?", quis saber.
O homem olhou-o de relance, parecia quase surpreendido por o passageiro se lhe dirigir.
"Uh?"
"Para onde vamos?"
O iraniano abanou a cabeça.
"Ingilisi balad nistam."
"Não fala inglês? Ingilisi? Na ingilisi?"
"Na", confirmou o homem, quase satisfeito por se fazer entender. "Ingilisi balad nistam."
"Porra."
O homem bateu com força no peito.
"Esman Sabbar e."
"Hã?"
Bateu novamente em si.
"Sabbar", repetiu. "Sabbar. Esman Sabbar e."
"Ah. Tu chamas-te Sabbar? Sabbar?"
O motorista abriu-se num sorriso desdentado.
"Bale. Sabbar."
O carro meteu por ruas sucessivas, virando para um lado e para o outro. Sabbar parecia sempre atento a tudo o que se passava em redor, os olhos saltitando a todo o instante entre o retrovisor e o percurso, o passeio e a rua, as esquinas e os cruzamentos, certificando-se de que não eram seguidos nem ninguém os observava.
Aproximaram-se do que parecia ser uma oficina cheia de carros e sem mecânicos e o motorista guinou o automóvel, metendo-o lá dentro. Sabbar saltou cá para fora e fechou o portão, cortando o contato com o exterior e assegurando a privacidade. Fez sinal a Tomás para sair também e levou-o para junto de um velho Mercedes preto estacionado ao lado. Abriu a porta de trás do grande automóvel e tirou um enorme tecido negro do interior, que estendeu na direcção do historiador, como se lhe oferecesse uma prenda.
"É para mim?"
"Bale", retorquiu Sabbar, fazendo-lhe sinal com a mão para que vestisse aquela peça.
Tomás esticou o tecido e sorriu quando se apercebeu do que se tratava. Era um chador. A peça apresentava-se toda negra, parecia-lhe um dos mais conservadores e inestéticos chador que havia no mercado, com um rendilhado no lugar da cara para deixar ver e respirar.
"Espertos", comentou. "Querem-me fazer passar por mulher, é?"
"Bale", insistiu o motorista.
Tomás colocou o chador, deixando-o cobri-lo até aos pés, e voltou-se para Sabbar, as mãos nas ancas por baixo do manto.
"Então? Estou bem?"
O iraniano analisou-o de uma ponta à outra e riu-se.
"Khandedar e."
O historiador não percebeu, mas presumiu, pelo ar divertido do motorista, que estava tudo bem. Encolheu o corpo e instalou-se no banco de trás do Mercedes preto. Sabbar colocou um boné de motorista na cabeça, reabriu o portão, entrou no automóvel, tirou-o da garagem, voltou a fechar o portão e arrancou com o Mercedes pelas ruas de Teerão, parecia agora o chauffeur de uma qualquer abastada e conservadora matrona iraniana.
Com o carro em movimento, Tomás baixou o vidro traseiro e deixou o ar poluído pelos escapes penetrar no interior. Apesar do grosso manto que lhe cobria o corpo e que apenas lhe deixava vislumbrar o mundo através do apertado rendilhado que lhe tapava o rosto, respirou fundo e sentiu, quase extasiado, o aroma da liberdade. Aquele rendilhado obscurantista atrapalhá-lo-ia em qualquer outra circunstância, roubar-lhe-ia o ar, fá-lo-ia asfixiar; mas não ali, não naquele momento, não depois de ter passado três dias encerrado num caixão de cimento e a última hora de olhos vendados, não sabendo se alguma vez voltaria a ver a luz do dia, o profundo céu azul, as nuvens alvas e esponjosas, o palpitar excitado de uma cidade atarefada e transbordante de vida.
Como era boa a liberdade.
Sentiu um peso descarregar-se dos ombros, uma opressão a desfazer-se no peito, e gozou, inebriado e exaltado, o delicioso travo daquele sublime momento de libertação. Estava livre. Livre. Parecia-lhe agora que acabara de despertar de um pesadelo, sentiu até alguma dificuldade em acreditar que lhe tinha mesmo acontecido o que acontecera, chegou a interrogar-se se tudo não teria afinal passado de um sonho mau, tão incrível e irreal foi a aventura que viveu. Mas se era pesadelo, já tinha despertado; se era realidade, estava agora livre dela. A verdade é que o ar da rua lhe enchia as narinas com o odor enjoativo do gasóleo queimado e nunca como agora tão repugnante cheiro lhe soube a tão perfumado bálsamo.
O Mercedes cirandou pelas ruas de Teerã durante mais de vinte minutos. Passou pela zona do bazar e bordejou o magnífico complexo do Palácio Golestan, com as suas fachadas suntuosas, dominadas por soberbas torres e cúpulas, as estruturas trabalhadas erguendo-se por entre a verdura de um jardim cuidadosamente tratado.
Com o Palácio Golestan para trás, o automóvel foi contornar a grande Praça Imam Khomeini e meteu por uma longa avenida, paralela a um enorme parque ajardinado. Quando chegou ao fundo do parque, virou à direita e estacionou devagar junto a um prédio novo. Compenetrado no seu papel de chauffeur de luxo, Sabbar saiu do carro e veio cá atrás abrir a porta, fazendo uma vênia no momento em que o vulto escuro da "matrona" iraniana se apeou.
O motorista conduziu depois a figura de chador até à porta do prédio e carregou num botão do quadro metálico de intercomunicação. Uma voz elétrica soou do altifalante, interpelando os recém-chegados, e Sabbar identificou-se. Um zumbido fez estalar a fechadura da porta, que se soltou com um clique seco. O iraniano olhou para Tomás e esboçou um gesto com a cabeça, como que a pedir que o historiador o seguisse. Entraram no lobby do prédio e carregaram num botão para
chamar um elevador. Apanharam o ascensor e subiram ao segundo andar.
Uma iraniana gorducha, vestida com uma leve e dourada shalwar kameez, esperava-os à porta do elevador.
"Bem-vindo professor", saudou. "Fico contente de o ver livre."
"Não mais do que eu, de certeza."
A mulher sorriu.
"Calculo."
Entraram num apartamento e Sabbar desapareceu no corredor. A iraniana rechonchuda fez sinal a Tomás para entrar na sala e acomodar-se no sofá.
"Pode tirar o chador, se quiser", disse.
"Com certeza que quero", exclamou Tomás.
Inclinou o corpo e puxou o longo tecido negro, até ficar com a cabeça cá fora, os cabelos castanhos num torvelinho revolto, mas livre daquele aperto.
"Sente-se melhor?"
"Muito", suspirou o historiador. Deixou-se cair no sofá e tentou descontrair. "Onde estamos?"
"No centro de Teerã. Junto ao Parque Shahr."
Olhou pela janela. As árvores alinhavam-se a poucas centenas de metros de distância, o aprazível verde das copas a contrastar com o desagradável cinzento sujo da urbe.
"Pode-me explicar o que se passa? Quem são vocês?"
A iraniana sorriu com bonomia.
"O meu nome é Hamideh, mas receio que não tenha liberdade para lhe explicar o que quer que seja. Já aí virá alguém que lhe fornecerá todas as respostas."
"Quem?"
"Tenha paciência", disse, baixando os olhos. "Deseja tomar alguma coisa?"
"Está a brincar comigo? Claro que sim, estou esfaimado", exclamou. "O que tem aí?"
"Ora... deixe cá ver", hesitou, pensativa. "Temos bandemjun e também gborme sabzi."
"Isso é comida?"
"Sim, claro."
"Então traga tudo. Tudo."
Hamideh levantou-se e desapareceu pelo corredor, deixando Tomás sozinho na sala. O historiador sentia-se extenuado e fechou os olhos, tentando descansar um pouco.
Ziiiiiitn.
Um som inesperado fê-lo despertar de imediato. Alguém tocara à campainha.
Ziiiiiitn.
Era o segundo toque.
Ouviu passos pesados a aproximarem-se pelo corredor e viu a vasta figura colorida de Hamideh rolar pelo hall do apartamento, mesmo em frente à sala de estar. A iraniana pegou no telefone de intercomunicação e trocou umas palavras em parsi. Pousou depois o telefone e virou a cabeça para mirar Tomás.
"Já aí vem quem lhe poderá explicar tudo."
Hamideh tirou a corrente de segurança, abriu a porta de entrada e afastou-se, mergulhando de regresso ao corredor em direção da cozinha para ir preparar os pratos solicitados pelo hóspede.
Tomás ficou sentado no sofá, expectante, os olhos presos naquela porta entreaberta, a atenção fixa no que se passava para lá dela. Ouviu o barulho do elevador a descer, a parar e a subir. Viu o clarão do ascensor emergir gradualmente no segundo andar, a caixa dar um solavanco e parar, a porta abrir-se com um estalido. A figura que tudo explicaria era primeiro um vulto, uma sombra, mas logo adquiriu contornos e transformou-se numa pessoa.
Olharam-se.
Quando ela saiu do elevador, o que mais surpreendeu Tomás não foi ser quem era; foi não ter sentido qualquer surpresa por ser quem era. É como se sempre tivesse sabido que assim seria, como se tivesse desejado que a resposta fosse aquela, como se a esperança se tivesse tornado realidade, como se o pesadelo se tivesse transformado num sonho, como se aquele não passasse afinal do desfecho natural de tudo o que vivera e pensara e sentira naquela última e intensa semana.
Com os olhos verdes a embaciarem-se de lágrimas, Tomás viu a figura alta e esguia estacar na porta da entrada, hesitante. Ficaram parados a fitar-se, ela com os grossos lábios levemente separados, farrapos soltos de cabelo negro descaindo-lhe sobre a testa ebúrnea, os belos olhos cor de mel cravados em si numa expressão de desassossego, de ansiedade, de alívio.
De saudade.
"Ariana."
XIX
Enquanto devorava a carne picada, o feijão e as verduras do suculento gborme sabzi servido por Hamideh, Tomás relatou a Ariana tudo o que lhe sucedera nos últimos quatro dias. A iraniana escutou-o em silêncio, sobretudo atenta aos pormenores decorridos na cadeia de Evin, abanando a cabeça com tristeza ao ouvir o tratamento que lhe foi dispensado no interrogatório ou os detalhes da vida na cela solitária.
"Infelizmente há muita gente que passa por isso", comentou ela. "E Evin nem é dos piores sítios."
"Sim, parece que há a tal Prisão 59, para onde me estavam a transferir."
"Oh, existem muitas. A Prisão 59, na Valiasr, é talvez a mais famosa, mas há outras ainda. Por exemplo, a Prisão 60, o Edareh Amaken, a Towhid. Por vezes, quando sobe a contestação a estes centros ilegais de detenção, eles fecham umas instalações e abrem outras novas logo a seguir." Abanou a cabeça. "Ninguém tem mão nisto."
"E como é que você soube onde eu estava?"
"Tenho contatos com gente ligada ao Gabinete Nacional de Prisões, pessoas que me devem favores. O Gabinete tem a tutela da cadeia de Evin, embora isso seja mais uma formalidade do que outra coisa, não é? A verdade é que aquilo está entregue a outras organizações. Mas, de qualquer modo, o Gabinete sempre vai sabendo o que se passa lá dentro. Quando me disseram que você tinha sido detido, fiquei mortalmente preocupada e mexi os meus cordelinhos. Eu sabia que o esperava um mau bocado em Evin, mas, ao menos, havia a consolação de que estava numa prisão legalizada e não lhe podiam fazer nada que não ficasse registado. A minha maior preocupação era se o mandavam para um centro ilegal de detenção. Aí eu perder-lhe-ia o rasto e, pior do que tudo, não havia qualquer garantia de que você pudesse alguma vez reaparecer. Falei, por isso, com uns amigos ligados aos movimentos reformistas e pedi-lhes ajuda."
"Quiseram ir buscar-me a Evin, foi?"
"Não, não. Enquanto você estivesse em Evin, nada poderíamos fazer. Evin é uma prisão legal, seríamos todos fuzilados se fôssemos apanhados a tentar libertá-lo. A transferência para os centros de detenção é que era o ponto crucial e por dois motivos. Por um lado, porque era o momento em que você saía à rua, o que tornava mais fácil chegar ao pé de si. Por outro, havia a questão legalista. Como os centros de detenção são ilegais, quando saísse de Evin você tecnicamente já não se encontrava detido. Se nós fôssemos apanhados, éramos acusados de quê? De fazer parar o trânsito? De evitar uma detenção ilegal? Você era, nesse instante e para efeitos formais, uma pessoa livre e esse seria sempre o nosso ponto de defesa."
"Estou a entender."
"A questão essencial era obter a informação da sua transferência, o que, considerando os meus contatos dentro do Gabinete Nacional de Prisões, não constituía uma tarefa particularmente difícil. Tanto assim era que fui informada ontem da sua transferência esta tarde para a Prisão 59 caso continuasse a recusar-se a colaborar, de modo que tivemos quase vinte e quatro horas para montar a operação."
Tomás colocou o prato de lado e estendeu o braço, tocando suavemente na mão de Ariana.
"Você foi extraordinária", disse ele. "Devo-lhe a vida e nem sei como lhe agradecer."
A iraniana estremeceu, fitando-o com os olhos arregalados, devolvendo o toque com outro toque, mas um ruído proveniente do corredor fê-la olhar de relance para a porta da sala, uma expressão ligeiramente apreensiva desenhada no rosto.
"Uh... eu...", balbuciou. "Não... não fiz mais do que o meu dever. Não podia deixar que o matassem, não é?"
"Claro que fez muito mais do que o seu dever", disse Tomás, acariciando-lhe a mão. "Muito mais."
Ariana voltou a olhar de relance para a entrada da sala e retirou a mão, ansiosa.
"Desculpe", disse. "Tenho de ter cuidado, sabe? A minha reputação..."
O historiador sorriu sem vontade.
"Sim, compreendo. Não a quero embaraçar."
"É que estamos no Irão, percebe? E sabe como isto é..."
"Então não sei?"
A bela mulher olhou para o tapete persa estendido no chão, constrangida, era evidente que vivia um conflito. Fez-se um silêncio atrapalhado, aquele toque carinhoso entre os dois atuou como um feitiço inesperado. Quebrou a fluidez da conversa, é certo, mas também ateou alguma coisa; ou talvez não tenha ateado, talvez tenha apenas tornado visível o que já existia, aquela espécie de incêndio lento que ardia cá dentro, em lume brando, mas que ardia sem parar, e era a consciência desse incessante fogo oculto que mais a atrapalhava.
"Tomás", disse ela por fim. "Tenho uma pergunta delicada para lhe fazer."
"Tudo."
Ariana hesitou, percebia-se que procurava as palavras certas para formular a pergunta.
"O que estava você a fazer no Ministério da Ciência à uma da manhã?"
Tomás fitou-a com intensidade, mas também com embaraço. Queria responder-lhe a tudo, a tudo mesmo, exceto àquela pergunta. Aquela era a única pergunta que não estava preparado para responder e experimentou nesse instante um terrível dilema. Até que ponto poderia contar a verdade à mulher que todos os riscos correu para o salvar?
"Quis ir ver o manuscrito."
"Isso eu entendo", disse ela. "Mas, à uma da manhã? E arrombando a porta da Sala K e do cofre?"
Eram excelentes perguntas. Tomás sentiu uma enorme vontade de abrir o coração e revelar tudo, mas teve consciência de que não podia; a verdade era demasiado grave, demasiado terrível, significava que, de algum modo, também a tinha traído, também abusara da sua confiança e da sua amizade. Além disso, a cabeça de Tomás encontrava-se programada para negar a todo o transe a ligação à CIA e para contar uma história fantasiada que congeminara na cela solitária, e não era naquele instante que seria capaz de a desprogramar.
"Eu... uh... senti uma curiosidade incontrolável de ver o manuscrito. Precisava de o ver para poder ter a certeza de que... de que não estava envolvido num projeto militar."
"Um projecto militar?"
"Sim. A vossa recusa em deixar-me ler o manuscrito ou em explicar-me o seu conteúdo pareceu-me suspeita. Com toda esta polémica internacional em torno do projeto nuclear iraniano, mais a ONU metida ao barulho e as sucessivas ameaças americanas, e considerando ainda algumas coisas que você me tinha deixado entender, confesso que fiquei muito preocupado."
"Estou a ver."
"Comecei a questionar-me, sabe? Comecei a interrogar-me sobre que confusão era esta em que eu me havia metido. Precisava de me certificar do que se estava a passar."
"E o homem que se encontrava consigo? Quem era?"
O fato de Tomás já se ter esquecido do seu verdadeiro nome, Bagheri, tornou a sua resposta mais convincente.
"O Mossa? Foi um tipo que encontrei no bazar."
"Mossa, é? Como Mossadegh?"
"Sim", confirmou Tomás. "Sabe o que lhe aconteceu?"
"Sei. Ficou ferido naquela noite e morreu horas depois, já no hospital."
"Coitado."
"Você encontrou-o no bazar, foi?"
"Foi. Disse-me que era perito em arrombamentos. Quando vi tanta reticência da vossa parte em mostrar-me o manuscrito ou em descrever-me o seu conteúdo e quando ouvi as notícias sobre as suspeitas americanas em torno do programa nuclear iraniano, fiquei preocupado com o projeto em que estava metido. Só um idiota é que não ficaria, não acha? De modo que decidi contratá-lo." Fez um gesto vago. "O resto já você sabe."
"Hmm", murmurou Ariana. "O mínimo que se pode dizer é que você foi imprudente, Tomás."
"Tem razão", concordou ele. Inclinou-se no sofá, como se lhe tivesse acabado de ocorrer uma idéia. "Deixe-me agora ser eu a fazer-lhe uma pergunta delicada."
"Diga."
"O que diz exatamente o manuscrito de Einstein?"
"Desculpe, mas não lhe posso revelar. Uma coisa é salvá-lo, outra é trair o meu país."
"Tem razão. Esqueça." Fez um gesto rápido com a mão, como quem quer afastar o assunto.
"Mas talvez haja uma coisa que me possa responder", adiantou.
"O quê?"
"O que aconteceu ao professor Siza?"
A iraniana soergueu um sobrolho.
"Como sabe que o professor Siza tem algo a ver conosco?"
"Posso ser distraído, mas não sou estúpido, não é?"
Ariana esboçou uma expressão constrangida.
"Também não posso falar sobre isso, lamento."
"Porquê? Isso não envolve traição ao seu país, suponho."
"Não é isso", argumentou ela. "A questão é que, se os meus chefes se aperceberem de que você sabe muita coisa que não é suposto, as suspeitas vão inevitavelmente recair sobre mim."
"Tem razão, tem razão. Esqueça."
"Mas há uma coisa que lhe posso revelar."
"O quê?"
"Hotel Orchard."
"Como?"
"Existe uma ligação entre o professor e o Hotel Orchard."
"Hotel Orchard? E onde é isso?"
"Não faço a mínima idéia", retorquiu Ariana. "Mas o nome desse hotel está escrito a lápis, com a letra do professor Siza, nas costas de uma folha do manuscrito de Einstein."
"Ah, sim?", admirou-se Tomás. "Curioso..."
Ariana virou o rosto para a janela e suspirou. O sol punha-se por detrás da linha recortada de prédios, pintando o azul do céu com veios púrpura e violeta e desenhando curiosas sombras nos farrapos de nuvens que flutuavam perto do horizonte urbano.
"Temos de o tirar daqui", disse ela, sempre a fitar a janela, um traço de angústia a embargar-lhe a voz.
"Deste apartamento?"
"Do Irã." Encarou Tomás. "A sua presença constitui agora um grande perigo para si, para mim e para todos os meus amigos que ajudaram a libertá-lo."
"Compreendo."
"O problema é que não vai ser fácil colocá-lo fora do país."
O historiador franziu a testa.
"Eu sei de uma maneira."
"Uh?"
"Eu sei de uma maneira."
"Qual?"
"O Mossa tinha preparado as coisas e explicou-me os pormenores essenciais. Há um barco de pesca à minha espera numa cidade portuária iraniana."
"Ah, sim? Onde?"
"Uh... esqueci-me do nome."
"É no golfo Pérsico?"
"Não, não. Lá para cima."
"No mar Cáspio?"
"Sim. Mas não me lembro do nome da terra." Fez um esforço de memória. "Porra, devia ter tomado nota em qualquer sítio."
"Seria Nur?"
"Não, isso não. Lembro-me que era um nome grande."
"Mahmud Abad?"
"Uh... não sei... talvez, não tenho a certeza..." Voltou a puxar pela memória. "Lembro-me que tinha qualquer coisa a ver com umas ruínas de Carlos Magno ou Alexandre, o Grande..."
"A Muralha de Alexandre?"
"Sim, pode ser isso. Soa-lhe familiar?"
"Claro. A Muralha de Alexandre marca os limites da civilização e situa-se perto da fronteira com o Turcomenistão. Liga a zona das montanhas Golestan ao Cáspio."
"Foi construída por Alexandre, o Grande, é?"
"É o que diz a lenda, mas não é verdade. A muralha foi erguida algures no século VI, não sei bem por quem."
"E há alguma cidade portuária ali perto?"
Ariana levantou-se do sofá e foi ao armário. Tirou um atlas de uma prateleira e voltou ao seu lugar, abrindo no regaço o enorme volume na página do Irão. Analisou a linha de costa do mar Cáspio e fixou-se no porto mais próximo da muralha.
"Bandar-e Torkaman?"
"Uh... sim, acho que é isso." Tomás foi sentar-se ao lado dela e inclinou-se sobre o mapa. "Mostre lá."
A iraniana pousou o dedo sobre o ponto no mapa a assinalar a povoação.
"Está aqui."
"É isso", repetiu Tomás, agora mais convicto. "Bandar-e Torkaman."
"E o que se passa em Bandar-e Torkaman?"
"Está lá um barco à minha espera... acho."
"Que barco?"
"Julgo que é um pesqueiro, mas não tenho a certeza."
"Há muitos pesqueiros no Cáspio. Se o vir, conseguirá identificá-lo?"
Novo esgar pensativo.
"É um nome pequenino, igual ao da capital do... do Azerbaijão ou de um outro ão qualquer da zona."
"Baku?"
"Isso. Baku. É esse o nome do barco."
Ariana voltou a analisar o mapa.
"Não há tempo a perder", disse ela. "Temos que o pôr o mais depressa possível em Bandar-e Torkaman."
"Acha que dá para partir amanhã?"
Ariana abriu muito os olhos e observou-o com intensidade.
"Amanhã?"
"Sim."
"Não, Tomás, não pode ser amanhã."
"Hmm... então quando? Ainda esta semana?"
A iraniana abanou a cabeça, uma súbita expressão melancólica a dançar-lhe nos olhos, um pouco triste, quase já de saudade.
"Daqui a dez minutos."
Despediram-se com um abraço terno, estreitando-se um tudo-nada longamente, observados pelos olhos perscrutadores e vigilantes de Hamideh e Sabbar. Tomás daria tudo por um momento de privacidade, um instante apenas; queria fechar-se num canto com Ariana e poder dizer adeus sem inibições. Mas o historiador sabia que aquilo era o Irã e tais desejos, naquelas circunstâncias, não passavam de perigosas fantasias. E a verdade é que, tudo considerado, a última coisa que desejava era embaraçar Ariana.
Colou-lhe dois beijos suaves ao rosto e fez um esforço para se apartar.
"Vai-me escrever?", perguntou ela muito baixo, mordendo o lábio inferior.
"Sim."
"Jura?"
"Juro."
"Jura por Allah”
"Juro por si."
"Por mim?"
"Sim. Você é mais do que Allah. Muito mais."
Esforçou-se por nem olhar para trás quando voltou as costas para sair. Seguiu Sabbar para o átrio do elevador e sentiu a porta do apartamento fechar-se atrás de si, o claque da fechadura soou-lhe ao claque de uma tesoura que para sempre corta uma ligação.
Permaneceu em silêncio, meditativo, quase deprimido, e foi calado que entrou no ascensor; dobrado nas mãos trazia distraidamente o tecido ríspido de um chador negro que Hamideh lhe entregara, momentos antes, para a viagem.
"Ariana ghashang", disse o iraniano quando o elevador deu um solavanco e começou a descer.
"Hã?"
"Ariana ghashang", repetiu. Deu um beijo no ar. "Ghashang."
"Sim", sorriu ele com melancolia. "Ela é bonita, é."
Sabbar apontou para o chador que o português trazia dobrado nas mãos e fez-lhe sinal de que o deveria vestir agora. Ainda com o ascensor em movimento, Tomás mergulhou a cabeça no tecido e retomou o seu disfarce anterior.