A Fórmula de Deus

José Rodrigues dos Santos · Capítulo 1 de 7 · parte 1/4

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A Fórmula de Deus

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Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.

José Rodrigues dos Santos

 

A FÓRMULA DE DEUS

À Florbela

 

 

"Eu sou o Alfa e o Ômega,

 

o principio e o fim

aquele que é e que era,

 

e que há de vir,

 

o Todo-Poderoso.”

 

APOCALIPSE, I, 8

 

Aviso

 

Todos os dados científicos aqui apresentados são verdadeiros.

Todas as teorias científicas aqui expostas são defendidas por físicos e matemáticos.

 

Prólogo

 

O homem dos óculos escuros riscou o fósforo e colou a chama violácea à ponta do cigarro. Aspirou forte e uma nuvem acinzentada ergueu-se do rosto, devagar, fantasmagórica. O homem percorreu a rua com o olhar azul e apreciou a placidez daquele recanto aprazível.

Fazia sol, os arbustos coloriam de verde os jardins mimosos, graciosas casas de madeira espreitavam a rua, as folhas tremelicavam sob a brisa leve da manhã; o ar ameno encheu-se de aroma e melodia, perfumado pela fragrância fresca das glicínias, embalado pelo estridular laborioso das cigarras na relva rasteira e pelo arrulhar meigo de um beija-flor. Uma gargalhada despreocupada juntou-se ao harmonioso concerto da natureza, era uma criança loira que guinchava de alegria e saltitava pelo passeio, puxando um colorido papagaio por uma corda.

Primavera em Princeton.

Um zumbido longínquo atraiu a atenção do homem dos óculos escuros. Esticou a cabeça e fixou os olhos no fundo da rua. Três motos da polícia emergiram do lado direito, encabeçando uma fila de carros que se aproximava a grande velocidade; o zumbido cresceu e transformou-se num ronco estrepitoso. O homem tirou o cigarro da boca e esmagou-o no cinzeiro sobre o parapeito da janela.

"Estão chegando", disse, voltando a cabeça para trás.

"Começo a gravar?", perguntou o outro, o dedo pousado sobre o botão de uma máquina com uma fita magnética.

"Sim, é melhor."

A fila de automóveis imobilizou-se com espalhafato diante da casa do outro lado da rua, uma moradia branca de dois pisos, com um alpendre dianteiro, desenhada em estilo revivalista grego; polícias fardados e outros à paisana assumiram o controlo do perímetro e um homem corpulento, evidentemente um guarda-costas, foi abrir a porta do Cadillac negro que estacionou diante da entrada da casa. Um homem de idade, de cabelos brancos sobre as orelhas e calvo no topo da cabeça, saiu do Cadillac e ajeitou o seu terno escuro.

"Já vejo o Ben Gurion", disse, da janela da casa oposta, o homem dos óculos escuros.

"E o nosso amigo? Já apareceu?", perguntou o homem do gravador, frustrado por não poder ir à janela observar a cena.

O dos óculos escuros desviou os olhos do Cadillac para a casa. A imagem familiar do homem de idade, ligeiramente curvado e os cabelos alvos penteados para trás, um farfalhudo bigode grisalho sob o nariz, emergiu da soleira da porta e desceu as escadas com um sorriso.

"Sim, ele já está ali."

As vozes dos dois homens a encontrarem-se nas escadas do jardim ressoou pelos altos-falantes dos gravadores.

"Shalom, senhor primeiro-ministro."

"Shalom, professor."

"Seja bem-vindo à minha humilde casinha. É um prazer ter aqui o famoso David Ben Gurion."

O governante riu-se.

"O senhor deve estar a brincar. O prazer é todo meu, sabe? Não é todos os dias que se vai a casa do grande Albert Einstein, não é verdade?"

 

O homem dos óculos olhou para o companheiro.

"Estás a gravar?”

O outro verificou as agulhas a oscilarem nos mostradores das máquinas.

"Sim. Não te preocupes.”

 

Lá à frente, Einstein e Ben Gurion posavam para os repórteres, que os iluminavam de flashes diante do tapete verde e lilás da glicínia que trepava pela varanda da casa. Como estava um magnífico dia primaveril, o cientista fez sinal de que era melhor permanecerem cá fora e apontou na direcção de umas cadeiras de madeira colocadas sobre a relva úmida; sentaram-se ambos aí, os fotógrafos e operadores de câmara sempre a registarem o momento. Ao fim de alguns minutos, um guarda-costas abriu os braços e afastou a imprensa, deixando os dois homens a sós, entregues à conversa na doçura solarenga no jardim.

 

No gravador da casa em frente, as vozes continuavam a ser captadas e registadas.

 

"Está a correr bem a viagem, senhor primeiro-ministro?"

"Sim, tenho conseguido algum apoio e muitos donativos, graças a Deus. Agora a seguir vou a Filadélfia, onde espero obter mais dinheiro. Mas nunca é o suficiente, não é? A nossa jovem nação está rodeada de inimigos e precisa de toda a ajuda que puder obter." "Israel tem apenas três anos, senhor primeiro-ministro. É natural que haja dificuldades."

"Mas é preciso dinheiro para as superar, professor. Não basta a boa vontade."

Três homens de terno escuro irromperam pela porta da casa em frente, as pistolas agarradas pelas duas mãos e apontadas para os dois suspeitos que observavam a cena.

"Freeze!", berraram os homens armados. "FBI! Não se mexam! Levantem as mãos e não façam gestos bruscos!"

O homem dos óculos escuros e o do gravador ergueram os braços, mas sem aparentarem alarme. Os do FBI aproximaram-se, as pistolas sempre em riste, tensas e ameaçadoras.

"Deitem-se no chão!”

"Isso não é preciso", devolveu tranquilamente o dos óculos escuros.

"Deitem-se no chão, já disse", gritou o do FBI. "Não volto a repetir." "Tenham calma, rapazes", insistiu o dos óculos escuros. "Somos CIA." O do FBI franziu o sobrolho.

"Pode provar isso?"

"Posso. Se me deixar tirar a identificação do bolso."

"Tire-a. Mas devagar. Nada de gestos bruscos."

O homem dos óculos escuros baixou lentamente o braço direito, mergulhou-o no bolso do casaco e retirou um cartão, que exibiu ao do FBI. O cartão, com o selo circular da Central Intelligence Agency, identificava o homem dos óculos escuros como sendo Frank Bellamy, operacional de primeira classe. O agente do FBI fez sinal aos companheiros para baixarem as armas e olhou em redor, estudando a sala.

"O que está a OSS aqui a fazer?"

"Já não somos OSS, you prick. Somos CIA agora."

"Okay. O que está a CIA aqui a fazer?"

"Vocês não têm nada a ver com isso."

O do FBI cravou os olhos nos gravadores.

"A gravar a conversa do nosso gênio, é?"

"Vocês não têm nada a ver com isso."

"Vocês estão, por lei, proibidos de espiar cidadãos americanos. Sabem disso, não sabem?"

"O primeiro-ministro de Israel não é cidadão americano."

O homem do FBI ponderou a resposta. De fato, concluiu, o agente da agência rival tinha um bom álibi.

"Há anos que andamos a tentar fazer escutas ali ao nosso amigo", disse, olhando pela janela para a figura de Einstein. "Temos informações de que ele e a secretária, aquela cabra da Dukas, andam a passar segredos para os soviéticos. Mas o Hoover não nos deixa pôr os microfones, tem medo do que acontecerá se o geniozinho descobrir." Coçou a cabeça. "Pelos vistos, vocês tornearam esse problema."

Bellamy torceu os lábios finos, esboçando o que parecia ser o vestígio de um sorriso.

"Azar o vosso, serem do FBI." Apontou para a porta com a cabeça. "Agora desapareçam, vá. Deixem os big boys trabalhar."

O do FBI ergueu o canto do lábio, num gesto de desprezo.

"Sempre os mesmos merdas, hem?", grunhiu, antes de se voltar para a porta. "Fucking Nazis." Fez sinal aos seus dois companheiros. "Let's NO, guys."

Logo que os homens do FBI abandonaram a casa, Bellamy colou o nariz à janela e voltou a observar os dois judeus sentados à conversa no jardim da casa em frente.

"Ainda está a gravar, Bob?"

"Sim", disse o outro. "A conversa entrou agora numa fase crucial. Vou pôr mais alto."

Bob girou o botão do volume e as duas vozes encheram de novo a sala.

 

"... defesa de Israel", disse Ben Gurion, obviamente a concluir uma frase.

"Não sei se posso fazer isso", retorquiu Einstein.

"Não pode ou não quer, professor?"

Fez-se um curto silêncio.

"Eu sou pacifista, como sabe", recomeçou Einstein. "Acho que já existem demasiadas desgraças no mundo e que andamos a brincar com o fogo. Este é um poder que temos de respeitar e não sei se possuímos maturidade suficiente para lidar com ele."

"E, no entanto, foi o senhor quem convenceu Roosevelt a desenvolver a bomba."

"Foi diferente."

"Em quê?"

"A bomba era para combater Hitler. Mas, sabe, já me arrependi de ter convencido o presidente a fabricá-Ia."

“Ah, sim? E se os nazis a tivessem desenvolvido primeiro? O que aconteceria então?"

"Pois", concordou Einstein, hesitante. "Teria sido catastrófico, não é? Se calhar, e por muito que me custe, a construção da bomba foi mesmo um mal necessário."

"Então está-me a dar razão."

"Estou?"

"Está, pois. O que lhe peço pode voltar a ser um mal necessário para garantir a sobrevivência da nossa jovem nação. O que eu quero dizer é que o senhor já suspendeu o seu pacifismo quando da Segunda Guerra Mundial e fê-Io novamente para ajudar Israel a nascer. Preciso de saber se o pode voltar a fazer."

"Não sei."

Ben Gurion suspirou.

"Professor, a nossa jovem nação encontra-se em perigo de morte. O senhor sabe tão bem quanto eu que Israel está rodeada de inimigos e que precisa de um dissuasor eficaz, algo que faça os nossos inimigos recuarem. Caso contrário, o país será engolido ainda na infância. É por isso que eu lhe peço, que eu lhe rogo, que eu lhe imploro encarecidamente. Por favor, suspenda mais uma vez o seu pacifismo e ajude-nos nesta hora difícil."

"O problema não é só esse, senhor primeiro-ministro."

"Então?"

"O problema é que eu ando muito ocupado. Estou a tentar conceber uma teoria unificada dos campos, que englobe a gravidade e o eletromagnetismo. É um trabalho muito importante, talvez mesmo o mais..."

"Vá lá, professor", atalhou Ben Gurion. "Tenho a certeza de que o senhor percebe a prioridade do que lhe estou a dizer."

"Sem dúvida", admitiu o cientista. "Mas falta saber se o que o senhor me pede pode ser feito."

"E pode?"

Einstein hesitou.

"Talvez", disse por fim. "Não sei, terei de estudar ocaso."

"Faça isso, professor. Faça isso por nós, faça isso por Israel.“

 

Frank Bellamy escreveu apressadamente as suas notas e, quando terminou, deitou um novo olhar para as agulhas. Os ponteiros vermelhos tremelicavam no mostrador ao ritmo do som, o que significava que as palavras estavam todas a ser gravadas.

Bob permanecia atento ao que era dito, mas acabou por balançar a cabeça.

"Acho que temos o essencial", observou. "Paro a gravação?'“

"Não", disse Bellamy. "Continua a gravar."

"Mas eles já mudaram de tema."

"Não faz mal. Podem regressar à mesma questão daqui a um bocado.

Continua a gravar.”

 

"... várias vezes, eu não tenho uma imagem convencional de Deus, mas custa-me a acreditar que nada exista para além da matéria", disse Ben Gurion. "Não sei se me faço entender."

"Muito bem."

"Repare", insistiu o político. "O cérebro é feito de matéria, tal como uma mesa. Mas a mesa não pensa. O cérebro é parte de um organismo vivo, tal como as minhas unhas, mas as minhas unhas não pensam. E o meu cérebro, se for separado do corpo, também não pensa. É o conjunto do corpo com a cabeça que permite pensar. O que me leva a levantar a possibilidade de o universo ser, todo ele, um corpo pensante. Não acha isso?"

"É possível."

"Sempre ouvi dizer que o senhor era ateu, professor, mas não acha..."

"Não, não sou ateu."

"Não é? O senhor é religioso?"

"Sim, sou. Pode dizer isso."

"Mas eu li algures que o senhor acha que a Bíblia está errada..."

Einstein riu-se.

"Pois acho."

"Então significa que não acredita em Deus."

"Significa que eu não acredito no Deus da Bíblia."

"Qual é a diferença?"

Ouviu-se um suspiro.

"Sabe, na minha infância eu era um menino muito religioso. Mas, aos doze anos, comecei a ler livros científicos, daqueles popularuchos, não sei se conhece... “

"Sim...“

"... e cheguei à conclusão de que a maior parte das histórias da Bíblia não passavam de narrativas míticas. Deixei de ser um crente quase de um dia para o outro. Pus-me a pensar bem no assunto e apercebi-me de que a idéia de um Deus pessoal é um bocado ingênua, infantil até."

"Por quê?"

"Porque se trata de um conceito antropomórfico, uma fantasia criada pelo homem para tentar influenciar o seu destino e buscar consolo nas horas difíceis. Como nós não podemos interferir com a natureza, criamos esta idéia de que ela é gerida por um Deus benevolente e paternalista que nos ouve e que nos guia. É uma idéia muito reconfortante, não lhe parece? Criamos a ilusão de que, se rezarmos muito, conseguiremos que Ele controle a natureza e satisfaça os nossos desejos, assim por artes mágicas. Quando as coisas correm mal, e como não compreendemos que um Deus tão benevolente o tenha permitido, dizemos que isso deve obedecer a um qualquer desígnio misterioso e ficamos assim mais confortados. Ora, isso não faz sentido, não lhe parece?"

"Não acredita que Deus se preocupe conosco?"

"Repare, senhor primeiro-ministro, nós somos uma de entre milhões de espécies que ocupam o terceiro planeta de uma estrela periférica de uma galáxia mediana com milhares de milhões de estrelas, e essa galáxia é, ela própria, uma de entre milhares de milhões de galáxias que existem no universo. Como quer que eu acredite num Deus que se dá ao trabalho de, nesta imensidão de proporções inimagináveis, se preocupar com cada um de nós?"

"Bem, a Bíblia diz que Ele é bom e é onipotente. Se é onipotente, pode fazer tudo, incluindo preocupar-se com o universo e com cada um de nós, não é?"

Einstein bateu com a palma da mão no joelho.

"Ele é bom e onipotente, é? Ora aí está uma idéia absurda! Se Ele é de fato bom e onipotente, como pretende a Bíblia, por que razão permite a existência do mal? Por que razão deixou que ocorresse o Holocausto, por exemplo? Se for a ver bem, os dois conceitos são contraditórios, não são? Se Deus é bom, não pode ser onipotente, uma vez que não consegue acabar com o mal. Se Ele é onipotente, não pode ser bom, uma vez que permite a existência do mal. Um conceito exclui o outro. Qual é o que prefere?"

"Uh... talvez o conceito de que Deus é bom, acho.“

“Mas esse conceito tem muitos problemas, já reparou? Se ler a Bíblia com atenção, irá reparar que ela não transmite a imagem de um Deus benévolo, mas antes de um Deus ciumento, um Deus que exige fidelidade cega, um Deus que causa temor, um Deus que pune e sacrifica, um Deus capaz de dizer a Abraão para matar o filho só para ter a certeza de que o patriarca Lhe era fiel. Pois se Ele é onisciente, não sabia já que Abraão Lhe era fiel? Para que, sendo Ele bom, esse teste tão cruel? Portanto, não pode ser bom."

Ben Gurion soltou uma gargalhada.

"Já me apanhou, professor", exclamou. "Está bem, Deus não é necessariamente bom. Mas, sendo Ele o criador do universo, é pelo menos onipotente, não?"

"Será? Se assim é, por que razão pune Ele as suas criaturas se tudo é Sua criação? Não estará a puni-Ias por coisas de que é Ele, afinal de contas, o exclusivo responsável? Ao julgar as suas criaturas, não estará Ele a julgar-se a si próprio? Na minha opinião, e para ser franco, só a Sua inexistência O poderá desculpar." Fez uma pausa. "Aliás, se formos a ver bem, nem sequer a onipotência é possível, trata-se de um conceito, também ele, cheio de irresolúveis contradições lógicas."

"Como assim?"

"Há um paradoxo que explica a impossibilidade da onipotência e que pode ser formulado da seguinte maneira: se Deus é onipotente, pode criar uma pedra que seja tão pesada que nem Ele próprio a consegue levantar." Einstein arqueou as sobrancelhas. "Está a ver? É justamente aqui que radica a contradição. Se Deus não conseguir levantar a pedra, Ele não é onipotente. Se conseguir, Ele também não é onipotente porque não foi capaz de criar uma pedra que não conseguisse levantar." Sorriu. "Conclusão, não existe um Deus onipotente, isso é uma fantasia do homem em busca de conforto e também de uma explicação para o que não entende."

"Então não acredita em Deus."

"Não acredito no Deus pessoal da Bíblia, não."

"Acha que não há nada para além da matéria, é?"

"Não, claro que há. Tem de haver algo por detrás da energia e da matéria."

"Afinal, professor, acredita ou não acredita?"

"Não acredito no Deus da Bíblia, já lhe disse."

"Então acredita em quê?"

"Acredito no Deus de Espinosa, que se revela na ordem harmoniosa daquilo que existe. Admiro a beleza e a lógica simples do universo, creio num Deus que se revela no universo, num Deus que...“

 

Frank Bellamy rolou os olhos, enfadado, e abanou a cabeça.

"Jesus Christ!", resmungou. "Não acredito no que estou a ouvir."

Bob remexeu-se na sua cadeira, junto aos gravadores.

"Olha para o lado positivo da coisa", disse. "Já reparaste, Frank, que estamos a escutar o maior gênio da história da humanidade a revelar o que pensa sobre Deus? Quantas pessoas não pagariam para ouvir isto?"

"Isto não é show business, Bob. Estamos a falar da segurança nacional e precisamos de ouvir mais do que já ouvimos sobre o pedido que Ben Gurion lhe fez. Se Israel tiver a bomba atômica, Bob, quanto tempo achas que teremos de esperar até que toda a gente a tenha também? Uh?"

"Tens razão. Desculpa."

"É imperativo que obtenhamos mais pormenores."

"Tens razão. É melhor ouvirmos a conversa. “

 

"... de Espinosa."

Fez-se um longo silêncio.

Foi Ben Gurion o primeiro a rompê-Io.

"Professor, acha que será possível provar a existência de Deus?"

"Não, não acho, senhor primeiro-ministro. Não é possível provar a existência de Deus, da mesma maneira que não é possível provar a sua não-existência. Nós apenas temos a capacidade de sentir o misterioso, de experimentar a sensação de deslumbramento pelo maravilhoso esquema que se exprime no universo."

Fez-se uma nova pausa.

"E por que não tenta o senhor provar a existência ou inexistência de Deus?"

"Não me parece que isso seja possível, já lhe disse."

"Se fosse possível, qual seria o caminho?"

Silêncio.

Foi agora a vez de Einstein levar algum tempo a falar. O velho cientista girou o cabeça e contemplou toda a verdura que bordejava Mercer Street; contemplou-a com olhos de sábio, com olhos de garoto, com olhos de quem tem todo o tempo do mundo e não perdeu o dom de se maravilhar com a exuberância da natureza no seu encontro com a Primavera.

Respirou fundo.

“Raffiniert ist der Herrgott, aber boshaft ist er nicht", disse por fim.

Ben Gurion fez um ar intrigado.

"Was wollen Sie damit sagen?"

"Die Natur verbirgt ihr Geheimnis durch die Erhabenheit ihres Wesens, aber nicht durch List.“

 

Frank Bellamy desferiu um murro no parapeito da janela.

"Damn!", exclamou. "Agora puseram-se a falar em alemão!"

“O que estão eles a dizer?", perguntou Bob.

"Sei lá! Achas-me com cara de kraut?"

Bob parecia desconcertado.

"O que faço? Continuo a gravar?"

"Claro. Depois levamos a fita para a agência e algum fucking gênio irá traduzir isso." Esboçou um esgar de desprezo. "Com todos os nazis que lá temos agora, também não será assim tão difícil, não é?"

O agente encostou o nariz à janela e ali ficou, o vapor da respiração a abrir bafos úmidos no vidro, os olhos perdidos nos dois velhos sentados à conversa no outro lado da rua, pareciam dois irmãos, lado a lado, nas cadeiras do jardim do número 112 de Mercer Street.

 

I

 

O caos na rua revelava-se indescritivelmente desagradável. Automóveis de chapa amolgada, caminhões ruidosos e autocarros fumarentos apinhavam-se pelo alcatrão sujo e oleoso, estrebuchando com buzinares impacientes e roncos roucos e mal dispostos; o cheiro ácido do gasóleo queimado enchia o ar quente do final da manhã, uma gordurosa neblina de poluição pairava sobre os prédios degradados, havia algo de decadente naquele espetáculo de uma cidade antiga a tentar agarrar o futuro com o pior da modernidade.

Indeciso quanto ao rumo a tomar, o homem de cabelo castanho e olhos verdes cristalinos parou na escadaria do museu e estudou as suas opções. Diante de si estendia-se a grande rotunda da Midan Tahrir, para além da qual se multiplicavam os cafés. O problema é que a praça constituía o epicentro daquele caos rodoviário, o palco maior da sucata ambulante que se amontoava diante de si. Nem pensar em ir por ali. Olhou para a esquerda. A alternativa era meter pela Qasr EI-Nil e ir ao Groopi's comer uns doces e tomar um chá; mas tinha demasiada fome para isso, o apetite não seria aplacado por uns meros pastéis. A outra possibilidade era virar para a direita e seguir pela Corniche EI-Nil, onde se erguia o seu esplêndido hotel, com ótimos restaurantes e uma magnífica vista para o rio e para as pirâmides.

"É a sua primeira vez no Cairo?”

O homem de olhos verdes girou a cabeça para trás, procurando a voz feminina que o interpelara.

"Perdão?"

"É a sua primeira vez no Cairo?"

Uma mulher alta e de longos cabelos negros aproximou-se do homem;

vinha do interior do museu e ostentava um sorriso cativante. Tinha os olhos de um intrigante castanho-amarelado, os lábios grossos e sensuais pintados de escarlate, uns discretos brincos de rubis e um tailleur cinzento colado ao corpo, saltos altos negros realçavam-lhe as curvas perfeitas e as pernas longas de modelo.

Uma beleza exótica.

"Uh... não", gaguejou o homem. "Já aqui vim muitas vezes."

A mulher estendeu a mão.

"Muito prazer", sorriu. "O meu nome é Ariana. Ariana Pakravan."

"Como está?" Apertaram as mãos e Ariana riu-se baixinho.

"Não me vai dizer o seu nome?"

"Ah, desculpe. Chamo-me Tomás. Tomás Noronha."

"Como está, Thomas?"

"Tomás", corrigiu ele. "O acento é no a. Tomáaas."

"Tomás", repetiu ela, esforçando-se por imitar o sotaque.

"Isso. As árabes têm sempre uma certa dificuldade em pronunciar bem o meu nome."

"Hmm... e quem lhe disse que eu sou árabe?"

"Não é?"

"Por acaso, não. Sou iraniana."

"Ah", riu-se. "Não sabia que as iranianas eram assim tão bonitas."

O rosto de Ariana abriu-se num sorriso maravilhoso.

"Já vi que é um galanteador."

Tomás corou.

"Desculpe, saiu-me."

"Ah, não se incomode. Já Marco Polo dizia que as mulheres mais bonitas do mundo eram as iranianas." Pestanejou, sedutora. "Além disso, não há mulher que não goste de ouvir um bom galanteio, não é?”

O historiador analisou-lhe o tailleur pregado ao corpo.

“Mais você é toda moderna. Sendo do Iran, a terra dos ayatollahs, isso é surpreendente."

"Eu... uh... sou um caso especial." Ariana contemplou a desordem na Midan Tahrir. "Ouça, não tem fome?"

"Se não tenho fome? Puxa, era capaz de comer um boi!"

"Então venha daí, vou levá-Io a provar umas especialidades locais.”

 

O táxi dirigiu-se para o Cairo islâmico, no Leste da cidade. À medida que o carro deambulava pela capital egípcia, as avenidas largas da Baixa foram sendo substituídas por um labirinto de ruelas estreitas, atafulhadas de movimento e formigando de vida; viam-se carroças e burros, transeuntes vestidos de galabiyya, vendedores ambulantes, bicicletas, homens a acenar com papiros, bancas de taamiyya, lojas de latões e cobres e couros e tapetes e tecidos e antiguidades acabadas de fazer, esplanadas com clientes a fumar sheeshas, no ar um aroma forte de comida frita e açafrão e curcuma e pimentão-de-cheiro.

O táxi largou-os à porta de um restaurante da Midan Hussein, uma praceta ajardinada à sombra de um esguio minarete.

"Aquela é a mais importante mesquita da cidade, o lugar mais sagrado do Cairo", indicou a iraniana, apontando para o edifício do outro lado da rua. "É a mesquita de Sayyidna al-Hussein."

Tomás apreciou o santuário.

"Ah, sim? O que tem ela assim de tão importante?"

"Dizem que está ali uma das mais sagradas relíquias do Islã, a cabeça de al-Hussein."

"E quem é esse?"

"Al-Hussein?", admirou-se Ariana. "Não sabe quem é al-Hussein? Meu Deus, é... é o neto do profeta Maomé. AI-Hussein é o homem que está na base da grande cisão do mundo islâmico. Sabe, o Islã está dividido entre os sunitas e os seguidores de al-Hussein, os xiitas, e aquela relíquia é muito importante para os xiitas."

"E você? O que é?"

"Eu sou iraniana."

"Mas é xiita ou é sunita?"

"Meu caro, no Irã somos quase todos xiitas."

"Portanto, esta é uma mesquita muito importante para si."

"Sim. Quando estou no Cairo, venho aqui rezar às sextas-feiras. Eu e milhares de outros fiéis, claro."

Tomás analisou a fachada.

"Gostava de a visitar."

"Não pode."

"Não? Por quê?"

"Esta mesquita é tão sagrada que apenas os muçulmanos estão autorizados a entrar lá dentro. Os infiéis ficam à porta."

"Ah, bom", exclamou Tomás, decepcionado. "E quem lhe disse que eu sou infiel?"

Ariana olhou-o de soslaio, incerta quanto ao sentido da sua pergunta.

"Não é?"

Tomás soltou uma gargalhada.

"Sou, sou", confirmou, ainda a rir. "Muito infiel." Fez um gesto na direção da porta do restaurante. "Por isso, é melhor irmos comer, não?”

 

O Abu Hussein ostentava um aspecto mais ocidentalizado do que a maioria dos restaurantes egípcios. Todas as mesas apresentavam toalhas imaculadamente lavadas e, pormenor importante naquela cidade, o ar condicionado funcionava a toda a força, enchendo o restaurante de uma frescura prazenteira.

Sentaram-se junto à janela, a mesquita claramente visível do outro lado, e Ariana fez um sinal ao empregado.

"Ya nadil!", chamou.

O homem, fardado de branco, aproximou-se.

"Nam?"

"Qa imatu taqam, min fadlik?"

"Nam."

O homem afastou-se e Tomás inclinou-se na mesa.

"Fala árabe, é?"

"Claro.“

“É parecido com iraniano?"

"O parsi e o árabe são línguas totalmente diferentes, embora utilizem o mesmo alfabeto escrito e partilhem algumas palavras."

Tomás pareceu ficar desconcertado.

"Ah'" exclamou. "E o que lhe disse?"

"Nada de especial. Pedi-lhe para trazer o menu, só isso."

O homem reapareceu instantes depois com duas ementas na mão, que entregou a cada um dos clientes. Tomás olhou para a lista e abanou a cabeça.

"Não percebo nada disto."

Ariana espreitou por cima do seu menu.

''O que quer comer?"

"Escolha você. Estou nas suas mãos."

"Tem certeza?"

"Absoluta."

A iraniana analisou as ofertas e voltou a chamar o empregado, a quem fez o pedido. Apenas hesitou nas bebidas e viu-se forçada a consultar Tomás.

"Para beber, tem alguma preferência?"

"Sei lá. O que houver."

"Quer uma bebida alcoólica ou prefere outra coisa?"

"Pode-se beber álcool aqui?"

"No Egito? Claro que pode. Não sabia?"

"Sabia, pois. Estou-me a referir a este lugar, aqui em pleno Cairo islâmico, ao lado da mais sagrada mesquita da cidade. É permitido álcool nesta zona?"

"Não tem problema."

"Ah, bom. E quais são as opções?"

Ariana interrogou o empregado e traduziu a resposta.

"Têm cerveja e vinho egípcio."

"Vinho egípcio? Puxa, não sabia que eles faziam vinho. Olhe, vou experimentar."

A iraniana completou o pedido e o empregado afastou-se.

Uma voz pungente, emitida numa tonalidade melancólica, rasgou o ar;

era o muezzin que, do alto do grande minarete, lançava o adhan, chamando os fiéis à oração. O entoar melódico e ondulado de "Allah u akbar" prolongou-se sobre a cidade e Ariana observou pela janela a multidão que convergia para a mesquita.

"Quer ir rezar?", perguntou-lhe ele.

"Não, agora não." Tomás pegou num picle de legumes que servia de aperitivo sobre a mesa.

"Espero que a comida não me faça mal", disse ele, mirando o picle com ar desconfiado.

"Como assim?"

"Quando cá cheguei, anteontem, fui comer ao restaurante do hotel e apanhei logo uma diarréia."

''Ah, sim, isso às vezes acontece aos vossos frágeis intestinos europeus. É uma questão de você ter cuidado com o que come."

"Ter cuidado, como?"

"Olhe, evite as saladas e a fruta por descascar, por exemplo." Indicou o picle espetado no palito que Tomás tinha entre os dedos. "Os picles não lhe fazem mal nenhum, pode comer à vontade. Mas beba só água mineral, há garrafas à venda por toda a parte. E não vá a restaurantes baratuchos, daqueles que têm baratas a passear pela mesa. Se for a um desses, arrisca-se."

Tomás trincou o picle.

"Mas eu apanhei a diarréia a comer no restaurante do hotel, o que pensa você?"

"Mesmo os restaurantes mais caros podem ter problemas, nunca se sabe."

O empregado apareceu com uma enorme travessa cheia de pratos coloridos; depositou-os sobre a mesa e retirou-se, dizendo que ia buscar as bebidas. Tomás contemplou a variedade de opções e esfregou o queixo.

"O que é isto?"

Ariana apontou para um prato com comida vermelha e amarela.

"Isto é koshari, um prato típico do Egito. É feito de massa, arroz, lentilhas e molho de tomate, tudo coberto com cebola frita. Se quiser, pode pôr picante."

"E os outros?"

A iraniana indicou cada prato à vez.

“Estes pastéis são taamiyya." Procurou a palavra. "Feitos com favas." Pegou num pão achatado. "Este é o baladi. Pode barrá-lo com hummus em azeite, babaghanoush e fuul."

"O que é isso?"

“Hummus é... é molho de grão-de-bico. O fuul é um puré de favas com ervas e azeite e o outro é um molho de beringelas e tahini. Prove, é bom."

Tomás experimentou e, após um instante a ponderar o gosto, fez sinal de aprovação.

“É bom, é."

“Eu disse-lhe."

O empregado reapareceu com as bebidas. Depositou um copo de karkade frio diante de Ariana e encheu o copo de Tomás com o néctar vermelho-escuro de uma garrafa de tinto árabe. O cliente saboreou um trago e assentiu com a cabeça.

"É engraçado", comentou ele, logo que o empregado se afastou. "Já sei tanta coisa sobre si, mas você não sabe nada sobre mim, já viu? Só conhece o meu nome."

Ela ergueu as sobrancelhas e adotou uma expressão maliciosa.

"Está enganado."

"Estou?", admirou-se Tomás. "Mas eu ainda não lhe contei nada." "Nem precisa. Eu já me informei."

"Ah, sim?"

"Claro."

"Não acredito.”

"Quer que eu lhe prove? Olhe, sei que você é português e é reputado como sendo um dos maiores peritos mundiais de criptanálise e línguas antigas. Dá aulas numa universidade de Lisboa e trabalha agora também como consultor da Fundação Gulbenkian, onde está a rever a tradução das inscrições em hieróglifos da arte egípcia e em escrita cuneiforme do baixo-relevo assírio existentes no museu da fundação." Falava como se estivesse a responder num exame. "Veio ao Cairo participar numa conferência sobre o templo de Karnak e aproveitou para estudar a possibilidade de adquirir para o Museu Calouste Gulbenkian uma estela do rei Narmer que se encontra guardada na cave do Museu Egípcio."

"Ena, você sabe muito. Estou impressionado..."

"Sei também que teve há seis anos uma tragédia pessoal e que se divorciou recentemente."

Tomás carregou as sobrancelhas, tentando avaliar a situação. Aquelas já eram informações da sua esfera da intimidade e sentiu algum desconforto por alguém lhe ter andado a vasculhar a vida.

"Como diabo sabe você isso tudo?”

"Meu caro professor, o senhor acha que eu sou uma das suas conquistas fáceis?" Ariana sorriu sem humor e abanou a cabeça. "Não. Eu estou aqui em trabalho e este nosso almoço é um almoço de negócios, percebeu?"

O português fez um ar desconcertado.

"Não, não estou a perceber."

"Pense um pouco, professor. Eu sou uma mulher muçulmana e, mais do que isso, como o senhor notou ainda há pouco, venho do país dos ayatollahs, onde a moral é, como sabe, muito estrita. Quantas mulheres iranianas acha o senhor que interpelam um europeu na rua e o convidam para almoçar, assim sem mais nem menos?"

"Bem... uh... realmente, não... não faço idéia."

"Nenhuma mulher faz isso no Irã, caro professor. Nenhuma. Se estamos os dois aqui sentados é porque temos um assunto para discutir."

"Temos?"

Ariana pousou os cotovelos na mesa e encarou Tomás nos olhos.

"Professor, como eu lhe disse, sei que está aqui no Cairo para a conferência e também com a idéia de adquirir uma antiguidade egípcia destinada ao Museu Gulbenkian. Mas eu trouxe-o a este sítio com a ideia de lhe propor um outro negócio." Inclinou o corpo e apanhou a carteira no chão, depositando-a sobre a mesa. "Aqui na minha carteira está a cópia de um manuscrito que se pode tornar a descoberta mais importante do século." Acariciou a carteira de leve. "Eu estou aqui por ordens do meu governo para lhe perguntar se quer trabalhar conosco na tradução deste documento."

Tomás manteve-se um instante a fitar a iraniana.

"Está a dizer que me quer contratar? É isso?"

"Sim, é isso."

"Vocês não têm tradutores próprios?”

Ariana sorriu.

"Digamos que esta é a sua área de especialidade."

"Línguas antigas?"

"Não exatamente."

“Então? Criptanálise?"

"Sim.”

Tomás esfregou o queixo.

“Hmm", murmurou. "Que manuscrito é esse?"

A iraniana endireitou-se, assumindo uma pose séria, quase protocolar.

“Antes de avançar na conversa, tenho uma condição prévia a colocar."

"Diga lá."

“Tudo o que vamos falar agora é confidencial. Você não pode revelar nada do conteúdo da nossa conversa a ninguém. Entendeu? A ninguém. Se não chegarmos a acordo, você também manterá o silêncio sobre tudo o que lhe vou dizer." Fitou-o nos olhos. "Fui clara?"

"Sim "

"Tem certeza?"

“Sim, fique descansada."

Ariana abriu a carteira e tirou um cartão e uma folha, que exibiu ao seu interlocutor.

"Este é o meu cartão de funcionária do Ministério da Ciência."

Tomás pegou no cartão. Estava escrito unicamente em parsi e ostentava uma fotografia de Ariana em trajes islâmicos.

"Sempre bonita, hem?"

A iraniana sorriu.

"E você? Sempre galanteador, não é?"

O historiador voltou a mirar o cartão.

"Não percebo nada do que está aqui escrito." Devolveu o documento com um gesto de indiferença. "No que me diz respeito, isto pode ser uma falsificação feita aí numa qualquer tipografia da esquina."

Ariana sorriu.

"A seu tempo verá que é tudo genuíno." Exibiu a folha. "Este é o documento do Ministério da Ciência a certificar a autenticidade do manuscrito em torno do qual queremos que você trabalhe."

O português analisou o documento e leu-o de ponta a ponta. A folha oficial, encabeçada pelo selo iraniano, apresentava-se datilografada em inglês. O documento estabelecia que Ariana Pakravan era a chefe do grupo de trabalho nomeado pelo Ministério da Ciência, Pesquisa e Tecnologia da República Islâmica do Irã para a decifração e autenticação do manuscrito designado Die Gottesformel. No fim, um rabisco azulado revelava uma assinatura ilegível, identificada por baixo como sendo de Bozorgmehr Shafaq, ministro da Ciência, Pesquisa e Tecnologia.

Tomás apontou para a designação do manuscrito.

"Die Gottesquê?"

"Die Gottesformel. É alemão."

"Que é alemão já eu percebi", riu-se ele. "Mas o que é isto?"

Ariana tirou mais uma folha da carteira, dobrada em quatro; a iraniana desdobrou-a e voltou-a para Tomás. Redigida em maiúsculas com uma letra de máquina de escrever estava a mesma expressão, DIE GOTTESFORMEL, um poema datilografado em baixo e uma assinatura sobre papel quadriculado.

"Esta é a fotocópia da primeira página do manuscrito em questão", explicou Ariana. "Como vê, trata-se do mesmo título mencionado pelo ministro Shafaq no documento que lhe apresentei." .

"Sim, Die Gottesformel", repetiu Tomás. "Mas o que é isto?"

"É um manuscrito elaborado por um dos maiores vultos da humanidade."

"Quem?", riu-se Tomás. "Jesus Cristo?"

"Já vi que é um brincalhão."

"Mas diga lá. Quem?"

Ariana arrancou um pedaço de pão, barrou-o com hummus e trincou-o, sempre com gestos deliberadamente lentos, como se quisesse acentuar o dramatismo da revelação.

"Albert Einstein."

Tomás analisou de novo a fotocópia, a curiosidade a crescer.

"Einstein, é? Hmm... interessante." Mirou Ariana. "Esta assinatura é mesmo a de Einstein?"

"Sim."

"É a letra dele?”

"Claro. Já efetuamos testes de caligrafia e confirmamos isso."

"E quando é que este texto foi publicado?"

"Nunca foi publicado."

"Como?"

“Nunca foi publicado."

"Nunca?"

“Não”.

“Está-me a dizer que isto é inédito?”

"Sim”.

O historiador emitiu um murmúrio apreciativo; a curiosidade ardia-lhe agora como fogo. Estudou mais uma vez a fotocópia, as letras do título, o poema e a assinatura de Einstein embaixo. Da folha, os olhos saltaram-lhe para a carteira de Ariana, ainda pousada sobre a mesa.

“Onde estão as restantes folhas?"

“Em Teerã."

"Pode-me arranjar cópias para as estudar?"

A iraniana sorriu.

"Não. Este é um documento altamente confidencial. Terá de ir a Teerã estudar o manuscrito." Inclinou a cabeça. "Que tal seguir diretamente para lá?"

Tomás soltou uma gargalhada e abriu a palma da mão para a frente, como um polícia a parar o trânsito.

"Calma, mais devagar. Primeiro, não tenho a certeza de poder fazer este trabalho. Afinal de contas, estou aqui em serviço pela Fundação Gulbenkian. Além disso, tenho outras obrigações em Lisboa, não é? Há as aulas na..."

"Cem mil euros", cortou Ariana, sem pestanejar. "Estamos preparados para lhe pagar cem mil euros."

O historiador hesitou.

"Cem mil euros?"

"Sim. E todas as despesas pagas."

"Por quanto tempo de trabalho?"

"O tempo que for necessário."

"Isso é quanto? Uma semana?"

"Um ou dois meses."

"Um ou dois meses?" Fez um ar pensativo. "Hmm... não sei se posso."

"Por quê? Pagam-lhe mais na Gulbenkian e na universidade, é?"

"Não, não é isso. O problema é que tenho compromissos... uh... enfim, não os posso desrespeitar assim sem mais nem menos, como deve compreender?"

Ariana inclinou-se na mesa e cravou-lhe os olhos cor de mel.

"Professor, cem mil euros é muito dinheiro. E nós pagamos-lhe cem mil euros por mês, mais despesas."

"Por mês, é?"

"Por mês", confirmou. "Se forem dois meses, serão duzentos mil, e assim sucessivamente."

Tomás considerou a oferta. Cem mil euros por mês dava mais de três mil por dia. Ou seja, ganharia num dia mais do que num mês na faculdade. Qual era a dúvida? O historiador sorriu e estendeu o braço sobre a mesa.

"Combinado."

Apertaram as mãos, selando o negócio.

"E seguimos já para Teerã", acrescentou ela.

"Bem... isso não pode ser", disse o historiador. "Tenho de ir ainda a Lisboa tratar de umas coisas."

"Temos urgência nos seus serviços, professor. Quem recebe um valor como o senhor vai receber, não pode andar a preocupar-se com outros assuntos marginais."

"Ouça, eu preciso de ir apresentar um relatório à Gulbenkian sobre a minha reunião no Museu Egípcio e, além disso, tenho de despachar umas questões pendentes na faculdade. Faltam-me quatro aulas para terminar o semestre e preciso de arranjar um assistente que as dê. Só depois estarei disponível para ir a Teerã."

A iraniana suspirou de impaciência.

"Então daqui a quanto tempo é que poderá ir?"

"Daqui a uma semana."

Ariana balançou a cabeça, considerando a situação.

"Hmm... está bem. Suponho que conseguiremos sobreviver até lá."

Tomás voltou a pegar na fotocópia, analisando de novo o título.

"Como é que este manuscrito veio parar às vossas mãos?”

"Isso não lhe posso revelar. É um assunto que não lhe diz respeito."

"Ah, bom. Mas presumo que me possa dizer qual o assunto versado por Einstein neste inédito, não é?"

Ariana suspirou e abanou a cabeça.

"Infelizmente, também não o posso esclarecer a esse respeito."

"Não me diga que isso é confidencial."

"Claro que é confidencial. Tudo sobre este projeto é confidencial, entendeu? Neste caso, no entanto, não lhe posso responder pela simples razão de que, por incrível que pareça, nem nós conseguimos perceber o que está lá Iá escrito".

"Como assim?" Tomás esboçou uma expressão de surpresa. "Qual é a dificuldade? Não têm ninguém que leia alemão?"

"O problema é que parte do documento não está redigida em alemão."

"Ah, não?"

“Não."

"Então?"

"Ouça, o que eu lhe estou a dizer requer total confidencialidade, entendeu?"

"Sim, já vimos isso, esteja descansada."

Ariana respirou fundo.

"Quase todo o documento encontra-se manuscrito em alemão pela mão do próprio Einstein. Mas um pequeno trecho, e por motivos que ainda não são inteiramente claros, apresenta-se cifrado. Os nossos criptanalistas andaram a volta deste excerto cifrado e concluíram que não conseguem quebrar a cifra porque esse excerto está escrito numa língua que não é o alemão nem o Inglês."

"Poderá ser o hebraico?"

A iraniana abanou a cabeça.

"Não, Einstein falava mal o hebraico. Aprendeu os rudimentos, mas estava longe de dominar a língua. Foi até por isso que evitou a instrução para o Bar-Mitzwa."

"Então que língua poderá ser essa?"

"Temos fortes razões para suspeitar de uma em particular."

"Qual?"

"O português."

Tomás abriu a boca, o rosto contraindo-se numa careta de absoluta incredulidade e perplexidade.

"Português?"

"Sim."

"Mas... mas Einstein falava português?"

"Claro que não", sorriu Ariana. "Temos motivos para crer que foi um colaborador seu, que falava português, quem redigiu e cifrou esse pequeno excerto."

"Mas por quê? Qual o objetivo?"

"Os motivos não são ainda muito claros. É possível que tenha a ver com a importância do texto."

Tomás esfregou os olhos como se tentasse parar um instante, ganhar tempo para estruturar os pensamentos e retirar algum sentido do que lhe era dito.

"Espere aí, espere aí", pediu. "Há uma coisa que eu não estou a compreender. Isto é ou não é um inédito de Einstein?"

"Claro que é."

"Está ou não redigido por Einstein?"

"Está quase todo rabiscado pela mão de Einstein, sim. Mas, por algum motivo que não é ainda totalmente claro, a parte essencial do texto foi escrita noutra língua e só então cifrada." Ariana falava devagar, como se procurasse assim ser melhor entendida. "Depois de analisar o excerto cifrado e considerar a história do manuscrito, os nossos criptanalistas concluíram que a língua original desse excerto é, com toda a probabilidade, o português."

Tomás balançou afirmativamente a cabeça, os olhos perdidos num ponto infinito.

"Ah", murmurou. "Daí que você tenha vindo falar comigo..."

"Sim."

Ariana abriu os braços, como quem expõe uma evidência. "Se o texto cifrado se encontra originalmente redigido em português, é óbvio que precisamos de um criptanalista português, não é?"

O historiador voltou a pegar na fotocópia da primeira página do manuscrito e examinou-a com atenção. Percorreu o título em maiúsculas, DIE GOTTESFORMEL, e analisou o poema datilografado por baixo. Pôs o dedo sobre os versos e olhou para Ariana.

“O que é isto?"

"É um poema qualquer." A iraniana ergueu uma sobrancelha. "Trata-se da única coisa escrita em inglês, para além de uma estranha referência antes da linha cifrada. Todo o resto está em alemão. O senhor não sabe alemão, pois não?"

Tomás riu-se.

“Minha cara, sei português, espanhol, inglês, francês, latim, grego e copta. Estou já avançado na aprendizagem do hebraico e do aramaico, mas, infelizmente, não domino ainda o alemão de forma adequada. Tenho umas luzes, apenas isso."

"Pois", disse ela. "Foi o que eu li quando o andei a investigar."

"Investigou-me muito, é?"

"Digamos que me informei sobre a pessoa que precisava de contratar."

O português passou uma derradeira vez os olhos pela fotocópia, a atenção regressando ao título.

"Die Gottesformel", leu. "O que é isto?"

"É o nome do manuscrito."

Tomás riu-se.

"Obrigado", exclamou, com uma expressão sarcástica nos olhos. "Até aí já eu cheguei. Mas não conheço esta expressão em alemão. O que quer isto dizer?"

"Die Gottesformel?"

"Sim."

Ariana pegou no copo, saboreou um trago de karkade e sentiu o gosto das folhas de hibisco adoçarem-lhe a língua. Pousou a infusão escura na mesa e fitou Tomás.

"A fórmula de Deus.“

 

II

 

O toque polifônico proveniente do bolso das calças anunciou a Tomás que alguém lhe ligava para o telemóvel. Meteu a mão no bolso e retirou o pequeno aparelho prateado; o ecrã registava a chamada de pais.

"Está lá?"

Uma voz familiar respondeu do outro lado, como se estivesse a um mero metro de distância.

"Está? Tomás?"

"Olá, mãe."

"Onde estás, filho? Já chegaste?"

"Sim, cheguei esta tarde."

"Correu tudo bem?"

"Sim."

"Ah, graças a Deus! Sempre que viajas fico em sobressalto."

"Oh, mãe, que disparate! Voar de avião é, hoje em dia, uma coisa perfeitamente normal. Olhe, é como ir de autocarro ou de comboio, só que mais rápido e mais cômodo."

"Mesmo assim, fico sempre em cuidados. Além do mais, foste para um país árabe, não é? Aquilo são todos uns malucos, passam a vida a fazer explodir coisas e a matar gente, é horrível. Tu não vês as notícias?"

"Ena, onde é que isso já vai!", riu-se o filho. "Aquilo não é assim tão mau, que diabo! Eles são até muito simpáticos e educados."

"Pois. Até rebentarem a próxima bomba."

Tomás suspirou, impaciente.

"Está bem, está bem", disse, nada interessado em alimentar aquela conversa. "O que é fato é que correu tudo bem e já estou de volta."

"Ainda bem."

"O pai, como vai?"

A mãe hesitou do outro lado da linha.

"O teu pai... uh... vai andando."

"Muito bem", devolveu Tomás, sem notar a hesitação. "E a mãe? Ainda anda a passear pela Internet?"

"Mais ou menos."

"Não me diga que anda a ver sites pornográficos", gracejou o filho.

"Oh, lá estás tu com as tuas palermices", protestou a mãe. Pigarreou. "Olha, Tomás, eu e o pai vamos amanhã a Lisboa."

"Vêm cá amanhã?"

"Sim."

"Então temos de ir almoçar."

"Pois temos. Nós vamos logo pela manhãzinha, "assim devagar, pelo que devemos chegar aí lá pelas onze, meio-dia."

"Então venham ter comigo à Gulbenkian. À uma da tarde."

Continuar: parte 2 de 4