A Fórmula de Deus
Capítulo VIII
Um labirinto de ruas estreitas, becos e lojas de todas as espécies assinalava o coração comercial da capital do Irã. O bazar revelou-se uma cidade dentro de uma cidade, as ruelas a abrirem-se por vezes em praças e pracetas, as pequenas lojas intercaladas por mesquitas, bancos, pensões e até um quartel de bombeiros. Um teto semitransparente cobria o emaranhado de artérias, lançando uma protetora sombra sobre o velho mercado. Uma densa corrente humana apinhava-se por aquela rede labiríntica, mas, apesar de se aglomerarem ali tantas pessoas, todas caminhando ao passo lento de
quem sabe que o dia é para ser fruído, uma frescura aprazível enchia os corredores, cada canto perfumado por um odor característico.
Numa ruela dominada por lojinhas de especiarias, onde os aromáticos produtos coloridos se encontravam expostos ao ar livre, Tomás pôs a mão no bolso e retirou o papel que escrevinhara com a indicação do nome que procurava.
"Salam", disse a um comerciante. "Zamyad Shirazi?"
"Shirazi?"
"Bale."
Uma algaraviada em parsi jorrou da boca do homem e o português procurou concentrar-se nos gestos da mão, que lhe indicavam para seguir em frente e, algures sobre o mar de cabeças lá ao fundo, virar à esquerda. Agradeceu as indicações e avançou pela rua das especiarias até apanhar a perpendicular à esquerda. Meteu pela rua dos cobres e voltou a pedir informações, tendo a sua rota sido corrigida.
Chegou por fim à rua dos tapetes. Quando voltou a perguntar por Zamyad Shirazi, um comerciante indicou-lhe, com profusos gestos e muito parsi, a loja que se encontrava dez metros à frente. Avançou uns passos e parou diante do seu destino. Tal como as restantes lojas da rua, aquele estabelecimento tinha a porta coberta por tapetes persas e rolos de tapetes amontoados junto à entrada. Depois de se certificar de que ninguém por entre aquele aglomerado de gente o seguira, Tomás deu um passo em frente e penetrou na sombra.
O interior era escuro, iluminado por lâmpadas amareladas, e no ar flutuavam películas de pó e pairava um cheiro seco e penetrante, parecia naftalina. Sentiu uma comichão no nariz e espirrou ruidosamente. Os tapetes persas enchiam todo o espaço, incluindo as paredes e o tecto; via-se tapeçaria de diversas cores e de todos os géneros, incluindo os clássicos mian farsb, kellegi e kenareb, com os mais variados motivos, mas os dominantes revelavam-se os geométricos, os de arabescos e uns, mais trabalhados, mostrando cenas de jardins e arranjos de flores, sobretudo crisântemos, rosas e lótus.
"Khosh amadinl Kbosh amadin!", saudou um homem anafado, que se aproximava a passos largos e de braços abertos, um sorriso acolhedor aberto nos lábios. "Bem-vindo à minha humilde loja. Aceita um chay?"
"Não, obrigado."
"Oh, por favor! Temos um maravilhoso chay, vai ver."
"Agradeço-lhe, mas não quero. Almocei há pouco."
"Oh! Se acabou de almoçar, ainda melhor! Um chay é perfeito para a digestão. Perfeito." Fez um gesto largo com os braços, abarcando toda a loja. "Enquanto o bebe, pode ir apreciando os meus magníficos tapetes." Assentou a mão gorda nos que estavam mais próximos. "Ora veja, tenho aqui lindíssimos tapetes gul-i-bulbul, de Qom, com belos desenhos de pássaros e flores. Excelentes! Excelentes!" Apontou para a direita. "Tenho ali também sajadeh curdos, provenientes expressamente de Bijar para a minha loja. Um enorme exclusivo." Inclinou-se para o cliente, adotando o ar de quem guardava lá ao fundo da loja um valioso tesouro. "E se gosta do grande poema Sbahnamab, então vai ficar embasbacado com..."
"Zamyad Shirazi?", interrompeu Tomás. "O senhor é Zamyad Shirazi?"
O homem curvou-se numa leve vênia.
"Para o servir, excelência". Arregalou os olhos. "Se procura um tapete parsi, venha à loja do Shirazi!" Sorriu, muito satisfeito com a ingênua rima que inventara para promover a loja. "Em que o posso ajudar?"
Tomás observou-o com atenção, procurando avaliar o efeito das suas palavras no comerciante.
"É um prazer estar no Irã", disse.
O sorriso desfez-se e o homem fitou-o com algum alarme.
"Como?"
"É um prazer estar no Irã."
"O senhor vem fazer muitas compras?"
Tomás sorriu. Era a contra-senha.
"Chamo-me Tomás", apresentou-se, estendendo a mão. "Disseram-me para vir aqui."
De olhar aflito, Zamyad Shirazi cumprimentou-o apressadamente e foi espreitar à entrada, para se certificar de que não havia movimentos suspeitos na rua. Mais tranquilizado, fechou a porta da loja e, com gestos furtivos, fez sinal ao visitante para o seguir. Penetraram no estabelecimento escuro e foram desembocar num estreito armazém, atafulhado de tapetes. Subiram umas escadas em caracol e o comerciante mandou-o entrar numa pequena salinha.
"Espere aqui, por favor", disse-lhe.
Tomás acomodou-se num sofá e aguardou. Ouviu Shirazi afastar-se e, após um curto silêncio, apercebeu-se do som de um antiquado aparelho de telefone a ser discado. Escutou de imediato a voz distante do anfitrião a falar com alguém em parsi, respeitando pequenas pausas para ouvir o que lhe diziam do outro lado. A conversa durou apenas uns breves momentos. Depois de uma rápida troca de palavras, o comerciante desligou e Tomás apercebeu-se dos passos a aproximarem-se, até que viu o rosto bolachudo de Shirazi a espreitar pela porta da salinha.
"Já aí vêm", disse o comerciante.
O homem gordo afastou-se, voltando pelo mesmo caminho por onde ambos vieram. Tomás manteve-se sentado no sofá, de perna cruzada, à espera de novidades.
O iraniano parecia um lutador de boxe. Era um indivíduo alto, corpulento, de grandes arcadas supraciliares e bigode preto farfalhudo, abundantes pêlos negros a emergirem-lhe do colarinho desapertado e das orelhas pequenas. Entrou na salinha a destilar energia, todo ele despachado, com ar de quem não tinha tempo a perder.
"Professor Noronha?", perguntou, estendendo o braço peludo e musculado.
"Sim, sou eu."
Apertaram as mãos.
"Muito prazer. O meu nome é Golbahar Bagheri. Sou o seu contacto aqui em Teerã."
"Como está?"
"Certificou-se de que não foi seguido?"
"Sim, julgo ter despistado o meu guia ainda fora do bazar."
"Excelente, excelente", disse o homenzarrão, esfregando as mãos. "Langley pediu-me para lhes enviar um relatório ainda hoje. Quais são as novidades? Viu o documento?"
"Sim, vi. Foi esta manhã."
"É genuíno?"
Tomás encolheu os ombros.
"Isso não sei. A verdade é que tinha um ar envelhecido, as páginas já se apresentavam amareladas e encontrava-se dactilografado na capa e manuscrito no resto. Um rabisco na primeira página parecia ser a assinatura de Einstein. Presumivelmente, todas as linhas do documento foram igualmente escritas pela mão dele, com excepção de uma mensagem cifrada no fim. Os iranianos acham que esta mensagem cifrada foi redigida pelo punho do professor Siza."
Bagheri sacou um bloco de notas do bolso e pôs-se a escrevinhar com frenesim.
"Tudo manuscrito, uh?"
"Sim. Com exceção da primeira página, claro."
"Hmm-hmm..." Gatafunhou mais um pouco no bloco. "Tinha a assinatura de Einstein?"
"Assim parecia. E os iranianos disseram ter confirmado isso com testes de caligrafia."
"Eles revelaram onde esteve guardado o manuscrito todo este tempo?"
"Não."
Mais notas.
"E o conteúdo?"
"Quase tudo em alemão. Na primeira página vem o título, Die Gottesformel, depois um poema, cuja origem e sentido os iranianos não conseguiram determinar, e, por baixo, o que parece ser a assinatura de Einstein."
Ainda mais notas.
"Hmm-hmm", voltou Bagheri a murmurar enquanto escrevinhava, a língua rosada espreitando pelos lábios. "E o resto?"
"O resto eram vinte e tal páginas redigidas em alemão a tinta permanente negra. Tinha um texto corrido e muitas equações estranhas, daquelas que se vêem numa aula de matemática na universidade, sabe?"
"O que dizia o texto?"
"Não sei. Embora eu perceba os rudimentos de alemão, os meus conhecimentos não me permitem entender o que se encontrava ali escrito. Além disso, aquilo está redigido à mão, é de difícil leitura. Por outro lado, a verdade é que eles não me deixaram lê-lo, nem sequer aceitaram dizer qual o tema do manuscrito. Alegaram segurança nacional."
Bagheri parou de garatujar e fitou-o por momentos.
"Segurança nacional, uh?"
"Sim, foi o que eles disseram."
O iraniano voltou a escrevinhar no bloco de notas, sempre frenético.
"Não deu para perceber quaisquer pormenores do tipo de engenho nuclear descrito?"
"Não."
"Nem se envolvia urânio ou plutônio?”
"Nem isso."
"Quando voltar lá, pode ao menos verificar essa informação?"
"Ouça, eles não me vão deixar ver novamente o manuscrito. Mostraram-me apenas uma vez para eu ter uma idéia geral do que se tratava, mas disseram-me que, por motivos de segurança nacional, já não o poderei consultar de novo."
Bagheri voltou a imobilizar-se para mirar o seu interlocutor.
"Nem mais uma vez?"
"Nem mais uma única vez."
"Então como é que eles querem que você faça o seu trabalho?"
"Copiaram-me a parte cifrada para um papel. Terei de trabalhar a partir daí."
"Copiaram-lhe a parte cifrada, é?"
"Sim. É um trecho manuscrito na última página. E tenho também o poema da primeira. Quer ver?"
"Sim, sim. Mostre lá."
Tomás tirou do bolso uma folha dobrada em quatro. Abriu-a e revelou as linhas que Jalili copiara a caneta preta a partir do original de Einstein.
"Está aqui."
Terra if fin
De terrors tight
Sabbath fore
Christ nite
See sign
!ya ovqo
"O que é isto?"
"O poema é a primeira parte, a mensagem cifrada é a segunda."
O iraniano pegou na folha e copiou o texto para o bloco de notas.
"Mais nada?"
"Mais nada."
"E o professor Siza? Falaram nele?"
"Nada. Apenas deram a entender que ele não estava acessível."
"O que quer isso dizer?"
"Não faço idéia. Eles mostraram-se muito desconfortáveis nessa parte e recusaram-se a elaborar.
Quer que lhes pergunte novamente?"
Bagheri abanou a cabeça enquanto escrevia.
"Não, é melhor não. Isso iria levantar suspeitas desnecessárias. Se eles não querem falar do assunto, não vão falar, não é?"
"Também acho."
O enorme iraniano terminou os seus apontamentos, guardou o bloco e cravou os olhos no visitante.
"Bem, eu agora vou transmitir tudo isto a Langley." Consultou o relógio. "A esta hora é madrugada lá. Eles só vão ver o relatório de manhã, noite nossa, e ainda vão ter de o analisar. Presumo que só pelo final da nossa manhã eu terei uma resposta com instruções." Suspirou. "Vamos fazer assim. Amanhã, pelas três da tarde, dirija-se ao bell boy do hotel e diga-lhe que está à espera do táxi do Babak. Entendeu? O táxi do Babak."
Foi a vez de Tomás anotar.
"Babak, é? Às três da tarde?"
"Sim." Ergueu-se, dando a reunião por concluída. "E tenha cuidado."
"Com quê?"
"Com a polícia secreta. Se for apanhado, está tramado."
Tomás fez um sorriso amarelo.
"É, posso ficar muito tempo a ver o sol aos quadradinhos."
Bagheri soltou uma gargalhada.
"Qual sol aos quadradinhos?" Abanou a cabeça. "Se o apanharem, vão torturá-lo até confessar tudo, o que pensa você? Vai cantar que nem um canário! E sabe o que lhe acontecerá depois disso, não sabe?"
"Não."
O iraniano da CIA colou o indicador à testa.
"Bang! Levará um tiro na cabeça."
IX
O vulto alto e esguio de Ariana Pakravan emergiu no restaurante do Hotel Simorgh no momento em que Tomás trincava uma tosta quente. A bela iraniana esticou o pescoço e girou a cabeça, passeando pelo restaurante com os olhos como uma graciosa gazela, até a atenção ficar presa no aceno que o historiador lhe fez do fundo do salão. Ariana aproximou-se da mesa e sorriu.
"Bom dia, Tomás."
"Olá, Ariana." Fez um gesto para o centro do restaurante, mostrando a grande mesa com o pequeno-almoço. "Quer tomar alguma coisa?"
"Não, obrigada. Já comi." Indicou a porta com a cabeça. "Vamos?"
"Vamos, onde?"
"Bem... uh... ao ministério."
"Fazer o quê?"
A iraniana pareceu desconcertada.
"Trabalhar, suponho."
"Mas vocês não me deixam aceder ao manuscrito", argumentou Tomás. "Se é para estudar o papel que vocês me deram com as charadas, não precisamos de ir lá, pois não?"
"De fato, você tem razão", reconheceu ela, puxando a cadeira e sentando-se diante do seu interlocutor. "Para decifrar aquilo, realmente não é preciso ir ao ministério."
"Além do mais, se fosse ao ministério arriscava-me a dar de caras com o seu gorila."
"Ah, sim, o Rahim." Inclinou-se na mesa, curiosa. "O que diabo lhe fez você?"
Tomás largou uma ruidosa gargalhada.
"Nada", exclamou. "Despedi-me dele no meio da rua, apenas isso."
"Olhe que ele não ficou nada contente. A bem dizer, estava furioso consigo e o chefe furioso com ele."
"Imagino."
"Por que lhe fugiu?"
"Apeteceu-me passear sozinho pelo bazar. Não me vai dizer que é proibido, pois não?"
"Que eu saiba, não."
"Ainda bem", concluiu ele. "Seja como for, o melhor é ficarmos pelo hotel. Se formos a ver, aqui estamos muito mais confortáveis, não acha?"
Ariana ergueu a sobrancelha esquerda, fazendo um ar desconfiado.
"Depende do ponto de vista", devolveu, cautelosa. "Afinal de contas, onde quer você trabalhar nas charadas?"
"Ora! Aqui no hotel, claro. Onde haveria de ser?"
"Pois, mas fique bem claro que não vamos para o seu quarto, ouviu?"
"E por que não?"
A mulher desenhou um sorriso forçado nos lábios.
"Engraçadinho", exclamou. "Muito espirituoso, sim senhor." Endireitou-se, rodando a cabeça pelo restaurante. "Agora a sério, onde vamos trabalhar?"
"Por que não ali nos sofás junto ao bar?", perguntou ele, apontando vagamente para o local.
"Parecem confortáveis."
"Está bem." A mulher levantou-se da mesa. "Enquanto termina o seu pequeno-almoço, aproveito e vou telefonar para o ministério para dizer que você prefere ficar a trabalhar aqui no hotel." Inclinou a cabeça. "Vai precisar de mim, não vai?"
Tomás abriu-se num grande sorriso.
"Então não vou? Preciso de uma musa que me inspire."
Ariana rolou os olhos e abanou a cabeça.
"Vá, diga lá. Precisa de mim ou não?"
"Você fala alemão, não fala?"
"Sim."
"Então vou precisar, como é evidente. O meu alemão é ainda algo fraquito e preciso de uma ajudinha."
"Mas acha que precisa mesmo de alemão para decifrar as charadas?"
Tomás encolheu os ombros.
"Para falar com toda a franqueza, não sei. O fato é que quase todo o manuscrito está redigido em alemão, pelo que temos de admitir a possibilidade de as mensagens cifradas se encontrarem na mesma língua, não é?"
"Está bem", disse ela, virando-se para se afastar. "Então eu vou avisar que também ficarei aqui a trabalhar consigo."
"Linda menina."
O bar não tinha ambiente de bar. A ausência de álcool nas prateleiras e a luz matinal conferiam ao local um toque de coffee shop, ainda para mais porque ambos pediram ao empregado dois chays de ervas. Sentaram-se num sofá largo, lado a lado, e Tomás colocou folhas A4 brancas sobre a mesinha, preparado para testar as diversas hipóteses. Tirou a folha dobrada do bolso e contemplou as charadas.
"Ora bem", começou Tomás, esforçando-se por ganhar balanço para o duro trabalho intelectual que o esperava. "Há uma coisa aqui que me parece evidente." Virou a folha para Ariana. "Veja lá se a consegue detectar."
A iraniana estudou as charadas.
"Não faço a mínima idéia", disse enfim.
"É o seguinte", retomou o historiador. "Vamos começar pela segunda charada. Olhando para ela, não há dúvida de que se trata de uma mensagem cifrada." Apontou para os conjuntos de letras. "Ora repare nisto. Está a ver? Isto não é um código. É uma cifra."
"Qual a diferença?"
"O código implica a substituição de palavras ou frases. A cifra remete para a substituição de letras. Por exemplo, se ficar acordado entre nós que você passa a ser designada por Raposa, isso é um código. Substituí o nome Ariana pelo nome de código Raposa, percebe?"
"Sim."
"Mas se ficar acordado entre nós que vou trocar os a pelos i, então, se eu escrever Iraini, na verdade estou a dizer o nome Ariana. Apenas troquei as letras. Isso é uma cifra."
"Entendi."
"Olhando para estas charadas, a segunda é evidentemente uma mensagem cifrada." Balançou a cabeça. "Vai ser difícil decifrá-la. É melhor deixá-la para depois."
"Prefere então concentrar-se na primeira charada?"
"Sim. O poema poderá ser mais fácil."
"Acha que é um código?"
"Acho." Esfregou o queixo. "Para já, repare no tom geral do poema. Já viu? Qual é o sentimento que transmite?"
Ariana concentrou-se nos quatro versos.
"«Terra if fin, de terrors tight, Sabbath fore, Christ nite»", leu em voz alta. "Não sei. Parece... sombrio, tenebroso, terrível."
"Catastrofista?"
"Sim, um pouco."
"Claro que é catastrofista. Já viu bem o primeiro verso?"
"Não o entendo. O que quer dizer Terra?"
"É uma palavra latina, também usada pela língua portuguesa. Significa Terra, o nosso planeta. E fin é francês para fim. O primeiro verso parece colocar a hipótese do Apocalipse, o fim dos dias, a destruição da Terra." Mirou a iraniana. "Qual é o tema do manuscrito de Einstein?"
"Não lhe posso dizer."
"Ouça, o tema pode ser relevante para a interpretação deste poema. Há alguma coisa no texto manuscrito que possibilite uma grande catástrofe, uma grave ameaça à vida na Terra?"
"Já disse que não lhe posso dizer. Isto é matéria confidencial."
"Mas não vê que preciso de saber isso para poder interpretar o poema?"
"Eu entendo, mas nada vai arrancar de mim. O mais que posso fazer é remeter o assunto aos meus superiores hierárquicos, designadamente o ministro. Se ele ficar convencido da necessidade de o informar sobre o conteúdo do manuscrito, tanto melhor."
Tomás suspirou, resignado.
"Muito bem, fale então com ele e explique-lhe o problema." Concentrou-se de novo no poema.
"Veja agora este segundo verso. «De terrors tight». Um terror apertado. Mais uma vez, o tom catastrofista, alarmante, sombrio. Tal como no primeiro verso, a interpretação deste segundo verso poderá estar também diretamente relacionada com o tema do manuscrito de Einstein."
"Sem dúvida. É tudo um pouco... arrepiante."
"O que quer que esteja nesse manuscrito, pode crer que era algo que deixou Einstein absolutamente impressionado. Tão impressionado que até o vemos a voltar-se para a religião nos terceiro e quarto versos. Está a ver? «Sabbath fore, Christ nite»." Torceu os lábios, pensativo. "O Sabbath é o dia que Deus abençoou, após os seis dias da Criação. É, por isso, o dia de descanso obrigatório dos judeus. Einstein era judeu e voltou-se aqui para o Sabbath, como se olhasse para Deus em busca de salvação. Os fogos do inferno serão arrefecidos no Sabbath e, se todos os judeus forem capazes de respeitar completamente este dia, o Messias virá." Deslizou os olhos para a derradeira linha. "O quarto verso reforça esse apelo ao misticismo como solução para o terror apertado, para os fogos do inferno que ameaçam pôr fim à Terra. Mie é uma forma corrupta de dizer night. «Christ nite». A noite de Cristo." Mirou Ariana. "Outra referência tenebrosa."
"Acha que este tom sombrio constitui a mensagem?"
Tomás pegou na sua chávena fumegante de chay e bebericou um pouco.
"Pode não constituir toda a mensagem, mas constitui sem dúvida parte da mensagem." Pousou a chávena. "Einstein estava evidentemente assustado com o que descobriu ou inventou e achou por bem colocar este aviso como epígrafe do manuscrito. O que quer que seja A Fórmula de Deus, minha cara, é decerto algo que mexe com poderes fundamentais da natureza, com forças que nos ultrapassam. É por isso que eu digo ser importante que me mostrem o conteúdo do documento. Sem o conhecer, a minha capacidade de descodificar este poema está seriamente limitada."
"Já lhe disse que vou colocar a questão ao ministro", repetiu a iraniana. Pousou os olhos de novo no poema. "Mas acha que o poema poderá ocultar mais mensagens?"
Tomás oscilou a cabeça para cima e para baixo, assentindo.
"Acho. A minha impressão é que há aqui mais alguma coisa."
"Por que diz isso?"
"Não sei, é um... sei lá, é uma... uh... impressão, um feeling que eu tenho."
"Um feeling?"
"Sim. Sabe, quando ontem li o poema com atenção, lá no ministério, saltou-me aos olhos esta estranha estrutura dos versos. Já reparou?" Pousou o indicador no poema rabiscado na folha. "Este é um inglês um pouco esquisito, não acha? Se formos a ler literalmente, há algo que não bate certo. O sentido geral está lá, mas o sentido específico escapa-nos. Ora veja, vamos tentar perceber o significado literal dos versos. «Se a Terra chegar ao fim, o terror aperta, destaca-se o Sabbath, noite de Cristo». Mas o que raio quer isto dizer?"
"Bem, ele procura, em primeiro lugar, obter uma rima."
"Isso é verdade", concordou Tomás. "Tight rima com nite. Mas também rima com night, não rima? Então, se rima, por que razão preferiu ele colocar nite em vez de night?"
"Para ficar mais sofisticado?"
O historiador fez uma careta, avaliando essa possibilidade.
"Talvez", concedeu. "Pode ser. Pode ser que tudo não passe de um mero efeito estilístico. Mas, cá para mim, continua a ser tudo muito estranho." Analisou o primeiro verso. "E por que razão ele diz Terra e não Earth? Porquê a palavra latina? E porquê fin e não end? Podia ter escrito Earth if end. Mas não. Teve de escrever «Terra if fin». Porquê?"
"Não seria para conferir um carácter misterioso ao poema?"
"Talvez. Mas, quanto mais olho para isto, mais se torna evidente uma coisa. Não sei explicar porquê. É um sentimento que me vem cá de dentro, uma espécie de sexto sentido. É, se quiser, a minha experiência de criptanalista a falar. Mas dessa coisa não tenho dúvidas."
"O quê?"
Tomás respirou fundo.
"Há aqui uma mensagem dentro de outra mensagem."
Passaram toda a manhã às voltas com o poema, procurando perceber qual o código que permitiria desatar o nó que o selava. Tomás depressa se apercebeu de que, tratando-se de uma mensagem codificada, a solução do problema era de uma complexidade extrema, uma vez que precisava de ter acesso ao livro de código, uma espécie de dicionário que lhe possibilitasse perceber o sentido de cada palavra do poema. Naturalmente que esse livro não se encontrava ali disponível, pelo que o criptanalista se pôs a conjecturar sobre o local onde um homem como Einstein o ocultaria. Seria em casa? Seria no instituto de Princeton onde fazia investigação? Tê-lo-ia entregue a alguém? A verdade é que, se a mensagem foi codificada, tal aconteceu para que a generalidade das pessoas não a entendesse, mas também para que existissem pessoas específicas que a entendessem. Caso contrário, em vez de codificar a mensagem, Einstein simplesmente não a teria escrito. Se a escreveu é porque havia certamente um destinatário, alguém que possuía o livro de código que lhe permitiria descodificar o poema. Mas quem?
Quem?
O professor Siza era, nestas circunstâncias, um óbvio suspeito. Teria ele o livro do código? Seria ele o destinatário da mensagem? Tomás sentiu momentaneamente uma quase irreprimível vontade de perguntar a Ariana o que acontecera com o físico; a pergunta chegou até a assomar-lhe à boca, como um vômito que irrompe pela garganta sem controle, mas conseguiu travá-la a tempo, empurrá-la de volta às entranhas de onde emergira. A revelação implícita de que se encontrava a par da ligação entre o professor, o Hezbollah e o Irã, considerou Tomás, seria catastrófica; os iranianos logo perceberiam que tinha sido informado por alguém do meio e as suspeitas sobre as suas reais intenções emergiriam automaticamente. Isso era algo que ele não podia, de modo algum, permitir.
Havia, claro, um segundo suspeito. O próprio David Ben Gurion. Afinal de contas, foi o antigo primeiro-ministro de Israel quem encomendou a Einstein a fórmula de uma bomba atômica fácil de preparar. Se Einstein codificou a mensagem num poema, sem dúvida que o fez sabendo que Ben Gurion possuía o livro de código que lhe permitiria descodificá-la. A ser assim, a Mossad israelita certamente que teria acesso a esse dicionário. Esta era, talvez, a hipótese mais interessante, dado que colocava o livro de código nas mãos do Ocidente. Uma vez que, na véspera, Tomás passara o poema ao homem da CIA em Teerão, presumiu que este já o tivesse remetido a Langley. Se isso fora feito, podia até dar-se o caso de, a essa hora, já a CIA ter descodificado a mensagem inserida no poema.
A análise da charada levou-os à mesa do restaurante do hotel. O almoço foi constituído por pratos inteiramente iranianos, com Tomás a experimentar um zereshk polo ba morq, ou galinha com arroz, e Ariana às voltas com um ghorme sabzi, uma carne picada em feijão. Discutiram sucessivas possibilidades de descodificação do poema por entre as garfadas, a conversa prolongando-se quando chegou o paludeh, o gelado de farinha de arroz e fruta encomendado pelo português, e a melancia da iraniana.
"Acho que vou dormir uma sesta", anunciou Tomás depois do qhaveh, o café negro iraniano.
"Não quer trabalhar mais?"
"Ah, não", disse ele, elevando as mãos, como se anunciasse a sua rendição. "Já estou muito cansado."
Ariana fez um gesto na direcção da chávena de qhaveh.
"Não sei como vai conseguir dormir", riu-se a iraniana. "O nosso café é muito forte."
"Minha cara amiga, a sesta é uma velha tradição ibérica. Não há café que a vença."
X
Faltavam cinco minutos para as três da tarde quando Tomás saiu do elevador e calcorreou o lobby do hotel. Olhou em redor com o ar mais natural de que era capaz, tentando certificar-se de que ninguém o observava. Não havia sinais de Ariana, de quem se despedira meia hora antes, alegando que ia dormir a sesta; nem ninguém parecia prestar-lhe particular atenção. Aproximou-se do concierge, consultou discretamente o nome que rabiscara no papel e chamou o bell boy.
"Deve estar um táxi à minha espera", disse-lhe.
"Um táxi, senhor?"
"Sim. É o táxi do Babak."
O rapaz saiu à rua e fez sinal a um carro cor de laranja, que se encontrava estacionado à direita. O automóvel arrancou e veio posicionar-se na rampa, diante da entrada do hotel.
"Faz favor, senhor", disse o bell boy, abrindo-lhe a porta traseira.
Tomás parou junto à porta e, antes de entrar, olhou para o motorista, um rapaz tão magro que parecia um esqueleto.
"Você é o Babak?"
"Uh?"
"Babak?"
O homem fez que sim com a cabeça.
"Bale."
Tomás colocou uma moeda de cem riais na mão do bell boy e acomodou-se no assento de trás. O táxi arrancou e internou-se na corrente louca do trânsito de Teerão, virando e revirando pelo emaranhado de ruas e avenidas e travessas. O passageiro tentou meter conversa e perguntou para onde iam, mas Babak limitou-se a abanar a cabeça.
"Man ingilisi balad nistam", disse.
Era evidente que não falava inglês. Percebendo que dali nada sairia, o português encostou-se ao assento e deixou-se guiar; sabia que alguma coisa iria acontecer, afinal de contas o homem da CIA não o mandara apanhar aquele táxi para o passear inutilmente pela cidade. Era uma questão de ter paciência e esperar.
O táxi deambulou durante vinte minutos pelas ruas de Teerão, com Babak sempre atento ao espelho retrovisor. Por vezes virava repentinamente para uma transversal e era nessas alturas que mais consultava o retrovisor; fez isso em ocasiões sucessivas, sempre utilizando a mesma técnica, até se dar por satisfeito e entrar na Avenida Taleqani. Parou nas imediações da Universidade Amirkabeir e um homem corpulento entrou no carro, sentando-se ao lado de Tomás.
"Como está, professor?"
Era o agente da CIA que conhecera na véspera.
"Olá." O português hesitou. "Desculpe, não me lembro é do seu nome."
O homem sorriu, revelando dentes estragados.
"Ainda bem", exclamou. "Chamo-me Golbahar Bagheri, mas, se calhar, é mesmo melhor nem memorizar o meu nome."
"Então que nome lhe posso chamar?"
"Olhe, chame-me Mossa."
"Mossa? De Mossad?"
Bagheri riu-se.
"Não, não. Mossa, de Mossadegh. Sabe quem foi Mossadegh?"
"Não faço ideia."
"Eu mostro-lhe." Disparou umas frases em parsi dirigidas a Babak. O automóvel arrancou e prosseguiu ao longo da mesma avenida. "Mohammed Mossadegh era um advogado que foi eleito democraticamente e nomeado primeiro-ministro do Irã. Na altura, os poços de petróleo existentes no país eram um exclusivo da Anglo-Iranian Oil Company e Mossadegh tentou melhorar as condições do negócio. Os britânicos recusaram e ele resolveu nacionalizar a companhia. Foi um ato com enormes repercussões, ao ponto de a revista Time o ter escolhido para figura do ano em 1951, por ter desse modo encorajado os países subdesenvolvidos a libertarem-se dos colonizadores.
Mas os britânicos nunca aceitaram a situação e Churchill conseguiu convencer Eisenhower a derrubar Mossadegh." Apontou para a esquerda. "Está a ver aquele edifício?"
Tomás olhou para o local. Era uma vasta construção, quase escondida atrás de muros decorados por palavras de ordem, a maior das quais era "Down with the USA".
"Sim, estou a ver."
"Esta é a antiga embaixada dos Estados Unidos em Teerã. Foi de um bunker da embaixada que a CIA engendrou o plano para derrubar Mossadegh. Chamou-se Operação Ajax. A custa de muitos subornos e a disseminação de contra-informação, a CIA conseguiu o apoio do Xá e de muitas figuras-chave do país, incluindo líderes religiosos, chefes militares e diretores de jornais, e derrubou Mossadegh em 1953." Bagheri olhou para o edifício, onde se encontravam alguns milicianos armados. "Foi por causa desse episódio que, quando ocorreu a Revolução Islâmica, em 1979, os estudantes invadiram a embaixada americana e mantiveram uns cinquenta diplomatas como reféns durante mais de um ano. Os estudantes receavam que a embaixada conspirasse contra o ayatollah Khomeini como conspirara contra Mossadegh."
"Ah", exclamou Tomás. "E o que achava você de Mossadegh?"
"Era um grande homem."
"Mas foi derrubado pela CIA."
"Sim."
"Então... desculpe, mas não estou a perceber. Você trabalha para a CIA."
"Trabalho para a CIA agora, mas não trabalhava em 1953. Aliás, nem sequer era nascido nessa altura."
"Mas como pode você trabalhar para a CIA se a agência derrubou esse grande homem?"
Bagheri fez um gesto resignado.
"As coisas mudaram. Quem está agora no poder não é um homem esclarecido, como Mossadegh, mas um bando de fanáticos religiosos que está a empurrar o meu país de volta à Idade Média." Apontou para os milicianos armados que deambulavam frente à antiga embaixada. "São eles o meu inimigo. E eles são também o inimigo da CIA, não é?" Sorriu. "Não sei se já ouviu este provérbio árabe, mas o inimigo do meu inimigo meu amigo é. Portanto, a CIA é agora minha amiga."
O táxi dobrou a esquina, apanhando a Avenida Moffateh em direcção a sul. O carro parecia avançar sem sentido pelas ruas e avenidas de Teerã, algo que se tornou muito claro quando viraram na Enqelab e contornaram a Praça Ferdosi, voltando para a Enqelab, só que no sentido contrário. Era um percurso sem destino, em que apenas a viagem interessava, ou se calhar nem ela, o passeio não passava afinal de um mero pretexto para se reunirem longe dos olhares indiscretos.
Depois de abandonado o setor da embaixada, o colosso iraniano permaneceu algum tempo calado, de olhos fixos na alcatéia de carros que enchia as ruas, verdadeiros predadores nas mãos nervosas dos impacientes automobilistas da cidade.
"Recebi instruções de Langley", disse Bagheri por fim, sem deixar de observar o trânsito.
"Ah, sim? E o que dizem eles?"
"Ficaram aborrecidos por você não poder voltar a aproximar-se do manuscrito. Querem saber se não há mesmo qualquer possibilidade de o fazer."
"Pelo que percebi, não há. O tipo do ministério parecia muito cioso dele, sempre a alegar segurança nacional. Se eu insistir, receio que isso apenas vá levantar suspeitas."
Bagheri tirou os olhos do trânsito e fitou Tomás, as sobrancelhas carregadas.
"Nesse caso, vamos ter uma grande chatice nas mãos."
"Uma grande chatice? Porquê?"
"Porque é inaceitável para a América que o manuscrito permaneça nas mãos iranianas."
"Mas o que podem os Estados Unidos fazer?"
"Há duas hipóteses numa situação que envolve a segurança nacional americana. A primeira é bombardear o edifício onde o manuscrito está guardado."
"Como? Bombardear Teerã por causa... por causa disto?"
"Isto, caro professor, não é uma coisa qualquer. Isto são os planos para uma bomba atômica barata e fácil de produzir. Isto é uma ameaça à segurança internacional. Se um regime como o iraniano, que tem ligações a grupos terroristas, conseguir desenvolver armas nucleares de construção fácil, pode ter a certeza de que malucos como o Osama bin Laden e outros não vão voltar a atacar Nova Iorque com uns aviõezinhos. Eles vão ter ao seu dispor coisas bem mais... uh... explosivas, se é que entende o que quero dizer."
"Hmm, entendo."
"Nestas circunstâncias, bombardear um edifício em Teerã é o menor dos males, acredite."
"Acredito, acredito."
O iraniano voltou, por momentos, a mirar a paisagem para lá da janela do táxi.
"O fato de você ter visto ontem o manuscrito no Ministério da Ciência dá-nos a confirmação que precisávamos quanto ao seu paradeiro. Mas esta opção tem dois pontos contra. Um é que uma ação militar desta natureza tem repercussões políticas desagradáveis, em particular no mundo islâmico. O regime iraniano seria vitimizado. Este é, porém, um obstáculo que se ultrapassaria, se não se desse o caso de haver um segundo obstáculo intransponível. É que, com toda a probabilidade, o bombardeamento não atingirá o seu objetivo estratégico último, que é apagar o documento de Einstein e a fórmula das armas atómicas baratas e fáceis de produzir. O manuscrito seria destruído, claro, mas é mais do que provável que existam cópias noutros cofres iranianos e nada impediria o regime de fabricar a bomba a partir da fórmula que se encontra no texto. O que eu quero dizer é que o bombardeamento destruiria o manuscrito original, mas não a fórmula já copiada."
"É bem visto."
"Foi por isso que Langley me deu instruções para, em caso de não ser possível você voltar a aproximar-se do manuscrito, activar imediatamente a segunda opção."
O iraniano calou-se, parecia preocupado.
"E o que é a segunda opção?", perguntou Tomás.
Bagheri respirou fundo.
"Roubar o manuscrito."
"Como?"
"Ir ao Ministério da Ciência e roubar o manuscrito. Tão simples quanto isso."
O historiador, passada a surpresa inicial, soltou uma gargalhada.
"Caramba, vocês não fazem a coisa por menos!", exclamou. "Roubar o manuscrito? Mas como é que vão conseguir isso?"
"É simples. Arranjamos maneira de anular o guarda, entramos lá dentro, localizamos o documento e tiramo-lo."
"Já agora, por que não microfilmá-lo? Se estão ali com ele à frente, não era melhor serem mais discretos? Afinal de contas, o fato de o roubarem não resolverá o problema, uma vez que, tal como você disse, os tipos têm certamente cópias guardadas noutros sítios."
"Não, isso não pode ser assim. Os Estados Unidos querem levar o documento ao Conselho de Segurança das Nações Unidas, mas, para o fazerem, precisam primeiro de o autenticar. Só o poderão autenticar se tiverem o manuscrito original nas suas mãos. É por isso que temos de o ir lá buscar."
Tomás considerou as consequências dessa ação.
"Ouça lá, isso não é perigoso?"
"Tudo na vida é perigoso. Sair à rua é perigoso."
"Não desconverse, já parece eu a falar com a minha mãe. O que me preocupa é saber o que me acontecerá quando os iranianos derem pela falta do documento. Eles não são parvos e sabem relacionar as coisas, não é? Num dia mostram-me o manuscrito e, dias depois... puf!, ele desaparece. Isso é... como hei-de eu dizer? É... suspeito."
"Sim, você não vai ficar em segurança."
"Então, diga-me lá. Como é que vamos resolver isso?"
"Você terá de sair do país."
"Mas como? Eles dizem que só me deixam sair depois de decifrar as charadas inseridas no documento."
"Teremos de o tirar do Irão logo na noite em que formos roubar o manuscrito."
"E quando será isso?"
"Ainda não sei. Gostaria que fosse o mais depressa possível, mas não consigo dizer ainda quando será, há demasiados detalhes para tratar. Conto sabê-lo já amanhã, no entanto. Logo que tenha a informação, darei um salto ao hotel para lhe passar os pormenores." Ergueu o dedo. "Não saia do hotel, ouviu? Faça tudo o que faria normalmente, continue a trabalhar na decifração da charada e espere que eu o contacte."
"Hmm, está bem", assentiu Tomás. "Portanto, deixe-me recapitular. A sua idéia é assaltar o ministério, roubar o documento e vir buscar-me logo a seguir para me tirar do Irã. É isso?"
Bagheri inspirou e conteve o ar dentro de si.
"Bem, é mais ou menos isso, sim", disse, uma expressão reticente no rosto. "Mas... uh... há um pequeno pormenor que é... diferente."
"Ah, sim?"
"Sim."
O iraniano calou-se, o que espicaçou a curiosidade do historiador.
"E qual é esse pormenor?"
"Você vem conosco."
"Oh, isso já me disse. Vão-me tirar do Irã."
"Não, não é isso o que eu queria dizer. Você também vem connosco ao ministério."
"Como?"
"Você faz parte da equipe de assalto."
XI
A grande arena tinha as bancadas repletas de gente, sobretudo mulheres cobertas com chador negros, mas todos se comportavam como se fosse dia de espectáculo. Alguém empurrou Tomás e obrigou-o a ajoelhar-se no centro, a cabeça pendendo para a frente, expondo a nuca e o pescoço. Pelo canto dos olhos, o historiador conseguiu aperceber-se da presença de homens vestidos com longas túnicas brancas islâmicas; eles aproximaram-se e fecharam um círculo em torno de si, como se o cercassem, cortando-lhe a derradeira esperança de escapar daquele lugar de morte. De entre eles emergiu Ariana, o olhar triste, sem se atrever sequer a aproximar do condenado, soprando-lhe um tímido beijo de despedida. Logo a bela iraniana desapareceu e, no seu lugar, surgiu Rahim, os olhos ressentidos faiscando em fúria, uma enorme espada curvada cintilando no cinto. Rahim tirou a espada do cinto num movimento brusco, segurou-a com as duas mãos, pôs-se em posição e ergueu-a para os céus, suspendendo-a por um instante, um medonho segundo, apenas um breve e longo momento antes da lâmina rasgar o ar com toda a força e decapitar Tomás.
Acordou.
Sentiu o suor frio banhar-lhe o topo da testa, a transpiração colando-lhe o pijama ao peito e às costas. Arfava. Tentou perceber se aquilo era a morte, mas não; com alívio, com terror, compreendeu enfim que vivia, o quarto escuro respondia-lhe com silêncio, o sossego revelava-lhe que tudo não passara afinal de um pesadelo, mas que o outro pesadelo, aquele em que o iraniano do bazar o havia envolvido na véspera, era bem real, palpável, iminente.
Empurrou os lençóis, sentou-se na cama e esfregou os olhos.
"Mas onde é que eu me fui meter?", murmurou.
Cambaleou para o quarto de banho e foi-se lavar. No espelho viu um homem com profundas olheiras, o previsível resultado de uma angustiada insónia que só acabou madrugada dentro. Sentia-se atirado a toda a velocidade pelos trilhos ondulantes de uma montanha-russa de emoções, ora deprimido pela perspectiva de cometer um ato terrível num país de horríveis castigos, ora esperançado por um súbito volte-face, uma mudança repentina, um qualquer acontecimento providencial que, quase por magia, resolvesse o problema e o libertasse daquele fardo pavoroso que lhe tinham inesperadamente colocado sobre os ombros.
Nesses momentos de esperança agarrava-se com todas as forças à conversa da véspera com Ariana. Com certeza que o ministro da Ciência perceberia a razoabilidade do seu pedido, considerou diante do espelho, numa pausa entre o acto de espalhar a espuma e o de passar a lâmina pelo rosto. O argumento de que a chave da mensagem cifrada se encontrava algures escondida no texto do manuscrito fazia perfeito sentido e era uma evidência tal que o ministro certamente não deixaria de a reconhecer. Sim, pensou, enquanto lavava agora os dentes. É inevitável que o autorizem a consultar o texto. E quando o consultasse podia ser que encontrasse todas as respostas de que a CIA precisava, podia ser que descobrisse coisas que tornassem desnecessário o furto do manuscrito, livrando-o assim de uma trapalhada para a qual não se sentia talhado.
Cerrou os olhos e murmurou uma promessa.
"Se me safar desta, prometo rezar todos os dias deste ano." Abriu um olho, avaliando a dureza da promessa. "Bem, todos os dias do ano também é de mais. Rezarei todos os dias do próximo mês.
Respirando uma inesperada confiança, insuflada pela promessa, abriu o chuveiro, sentiu a temperatura da água e, quando se deu por satisfeito, pôs o pé e meteu-se lá dentro.
O vulto gracioso de Ariana apareceu no lobby um pouco depois da hora combinada, já Tomás tinha comido o pequeno-almoço e a aguardava impacientemente no sofá do bar. Cumprimentaram-se e a iraniana acomodou-se no lugar que ocupara na véspera, encomendando um sumo de laranja ao empregado. Mal conseguindo conter a ansiedade, o historiador foi direito ao assunto.
"Então? O ministro?"
"O que tem o ministro?"
"Ele autorizou?"
Ariana fez cara de quem só agora percebera a pergunta.
"Ah, sim", exclamou. "A autorização."
"Autorizou?"
"Bem... uh... não."
Tomás ficou especado a olhá-la, ouvindo e não acreditando que a ouvira.
"Não?", balbuciou.
"Não, não autorizou", disse Ariana. "Eu expliquei-lhe que você acha que o poema é uma mensagem codificada e que a chave do código se encontra no texto. Ele disse-me que lamenta muito mas que, por razões de segurança nacional, você não pode ter acesso ao conteúdo do documento e que, se isso implicar um atraso na descodificação do poema, paciência."
"Mas... mas isso pode implicar até que não se decifre o poema de todo", insistiu o português.
"Você explicou-lhe isso?"
"Expliquei, claro que expliquei. Mas ele não quer saber disso. Diz que a segurança nacional está acima de tudo e que, quanto ao problema da descodificação, esse não é só um problema do Irã." Apontou para o seu interlocutor. "É também um problema seu."
"Meu?"
"Sim, seu. Não se lembra do agba Jalili dizer que você não será autorizado a sair do Irã enquanto não decifrar as charadas? O ministro confirmou-me que é mesmo assim. Aliás, parece que o caso foi até ao presidente." Ariana fez um gesto de resignação. "De modo que, Tomás, lamento muito mas você está condenado a deslindar aquelas mensagens ocultas."
O historiador respirou fundo e deixou cair os olhos para o mármore polido que brilhava no chão; sentia-se desanimado e encurralado.
"Estou tramado", comentou em tom de desabafo.
Ariana tocou-lhe no braço.
"Calma, não fique assim. Eu já vi que você é um excelente criptanalista. Vai conseguir deslindar estes enigmas, estou certa."
O português parecia quebrado de desalento, uma expressão tristonha desenhada no rosto. Na verdade, não tinha dúvidas de que seria capaz de descobrir as mensagens ocultas nas charadas; o pedido para consultar o texto do manuscrito devia-se, afinal, mais à vontade de conhecer melhor o documento do que à convicção de que ele ocultava a chave do código. O verdadeiro problema é que a revelação de que o ministro não autorizava a consulta significava o desmoronar das suas derradeiras esperanças de resolver o problema sem o assalto que o homem do bazar lhe anunciara na véspera.
"Estou tramado", repetiu, o olhar sombrio.
"Ouça", disse Ariana, sempre tentando consolá-lo. "Não é caso para desanimar, você vai solucionar o problema. Além do mais, esta é até uma oportunidade para trabalharmos juntos durante algum tempo. Isso... isso não lhe agrada?"
Tomás pareceu despertar de um torpor.
"Hã?"
"Não lhe agrada trabalhar comigo durante todo este tempo?"
O historiador contemplou o rosto perfeito da iraniana.
"Isso é mesmo a única coisa que me impede de cometer suicídio agora mesmo", disse ele, quase mecanicamente.
Ariana riu-se.
"Você é engraçado, não há dúvida." Inclinou a cabeça. "Então do que está à espera? Vamos a isto!"
"A isto, o quê?"
"Vamos trabalhar."
Tomás pegou na folha com as mensagens, desdobrou-a e pousou-a sobre a mesinha.
"É isso, tem razão", exclamou, tirando a caneta do bolso. "Vamos trabalhar."
Passaram três horas a analisar os múltiplos significados simbólicos das diversas palavras-chave do poema, em particular Terra, terrors, Sabbath e Christ, mas nada encontraram para além do que já haviam concluído na véspera. Foi um trabalho frustrante, com todas as hipóteses rabiscadas num rascunho e logo riscadas, por se revelarem absurdas e inconsistentes.
Já perto da hora do almoço, Tomás pediu licença e dirigiu-se ao quarto de banho. Ao contrário da maior parte dos quartos de banho iranianos, onde o local onde se fazem as necessidades é constituído por um imundo buraco aberto no chão, este dispunha de retrete, urinóis e até um cheirinho perfumado a flutuar no ar, ou não se tratasse aquele de um dos melhores hotéis do país.
Quando se encontrava diante do urinol, concentrado na tarefa imediata, o historiador sentiu uma mão pousar-lhe no ombro e estremeceu de susto.
"Então professor?"
Era Bagheri.
"Mossa!" Bufou. "Que susto que você me pregou!"
"O senhor anda nervoso."
"E não tenho razões para isso? Já viu em que embrulhada você me quer meter?"
"Termine lá o que está a fazer", disse Bagheri, afastando-se e encostando-se ao lavatório.
Tomás ainda permaneceu mais um instante voltado para o urinol; quando concluiu, fechou a braguilha e veio lavar as mãos ao lavatório.
"Oiça", disse, olhando Bagheri pelo espelho. "Eu não fui talhado para estas coisas. Estive a pensar e... e decidi não ir."
"São ordens de Langley."
"Quero lá saber! Eles nunca me falaram em meter-me em operações de assalto."
"As circunstâncias mudaram. O fato de o senhor não ter conseguido ler o manuscrito obrigou-nos a alterar os planos. Além do mais, há decisões novas que ultrapassam Langley."
"Decisões novas?"
"Sim. Decisões tomadas em Washington. Repare, professor, esta é uma matéria que envolve a segurança do Ocidente. Se um país como o Irã tem acesso à fórmula de fabrico simples de uma arma nuclear, pode ter a certeza de que isso assusta toda a gente, em particular num mundo pós-11 de Setembro." Esboçou um gesto conformado. "Portanto, perante o que está em jogo, pode crer que a derradeira das preocupações de Washington é saber se o senhor ou eu gostamos ou não da missão para que fomos recrutados."
"Mas eu não sou nenhum comando, percebe? Nem sequer fiz a tropa. Eu vou ser um empecilho."
"Professor, já lhe disse ontem que o seu envolvimento é crucial para o sucesso da operação."
Bagheri ergueu o polegar. "Só o senhor é que viu o manuscrito." Agora o indicador. "E só o senhor é que viu em que sala ele é guardado." Apontou para Tomás. "Como é lógico, precisamos de si para nos guiar na localização e identificação do documento. Sem a sua ajuda, como é que faremos as coisas? Olhe, andaríamos a passear pelo ministério como baratas tontas, a vasculhar tudo sem encontrar nada." Abanou a cabeça. "Não pode ser."
"Mas, ouça, qualquer pessoa pode perfeitamente..."
"Chega", cortou Bagheri, elevando um tudo-nada o tom de voz. "A decisão está tomada e não há nada que o senhor ou eu possamos fazer. Estão em jogo coisas demasiado importantes para que o senhor esteja agora com dúvidas." Olhou de relance para a porta. "Além do mais, diga-me uma coisa."
"Sim?"
"O senhor acredita mesmo que esta gente o vai deixar regressar ao seu país depois de o trabalho estar concluído?"
"Foi o que eles disseram."
"E o senhor acredita nisso? Repare bem. O senhor viu o manuscrito de Einstein e o senhor em princípio irá descodificar os segredos que Einstein colocou na sua fórmula nuclear. Não acha estranho que, tendo a intenção de manter tudo secreto, o regime o deixe voltar tranquilamente para a sua terra, sabendo o senhor o que sabe? Não acha que isso constitui um grave risco para a confidencialidade do projecto nuclear iraniano? Não acha que, depois de concluído o trabalho, e estando o senhor na posse de parte do segredo, o regime o vai considerar uma grave ameaça para a segurança do Irã?"
Tomás arregalou os olhos, digerindo as implicações das perguntas disparadas pelo iraniano.
"Uh... pois, realmente... uh...", gaguejou. "Acha... acha mesmo que eles me vão manter aqui para... para sempre?"
"Farão uma de duas coisas. Ou o matam quando já não precisarem de si, ou mantêm-no preso numa jaula dourada." Bagheri olhou de relance mais uma vez para a porta, certificando-se de que continuavam sós. "Admito como mais provável que o retenham para sempre aqui no Irã. O regime é constituído por fanáticos fundamentalistas, o que tem, apesar de tudo, o seu lado positivo. Embora sejam implacáveis na aplicação da sharia, a lei islâmica, eles partilham uma profunda crença no comportamento moral e é provável que, não dispondo de um motivo moralmente razoável para o matar, o mantenham retido. Mas, por outro lado, é preciso não esquecer que estão em causa segredos fundamentais para o regime, não é? E os motivos morais também se inventam.
Assim sendo, não é de negligenciar a possibilidade de eles escolherem um método mais radical e seguro para o calar." Passou o dedo pelo pescoço. "Entendeu?"
O historiador fechou os olhos, massajou as têmperas e suspirou.
"Estou mesmo tramado."
Bagheri voltou a espreitar a porta do quarto de banho.
"Ouça, não temos muito tempo", disse. "Vim aqui apenas para lhe dizer que está tudo pronto."
"O que é que está pronto?"
"Os preparativos para a missão encontram-se praticamente concluídos. Depois do assalto, vamos levá-lo para uma terriola no mar Cáspio, chamada Bandar-e Torkaman, localizada perto dos restos do muro de Alexandre, o Grande."
"Bandar e quê?"
"Bandar-e Torkaman. É uma pequena povoação portuária turca, não muito longe da fronteira com o Turcomenistão. No porto de Bandar-e Torkaman estará um barco de pesca com o nome da capital do Azerbaijão, Baku. É um barco alugado por nós e que o levará justamente para Baku. Percebeu?"
"Uh... mais ou menos." Fez um ar intrigado. "Você virá comigo?"
Bagheri abanou a cabeça.
"Não, eu vou ter de permanecer aqui em Teerã para baralhar as pistas. Mas o Babak leva-o até lá, fique descansado. É importante, no entanto, que decore uma coisa."
Tomás tirou um papel e uma caneta do bolso.
"Diga."
"Não, não pode escrever isso em parte alguma. Tem de decorar, percebeu?"
O historiador fez uma expressão contrariada.
"Decorar?"
"Sim, tem de ser. Por motivos de segurança."
"Então diga lá."
"Quando chegar ao Baku, que se encontra atracado no porto de Bandar-e Torkaman, mande chamar pelo Mohammed." Ergueu o dedo. "Lembre-se, Mohammed."
"Como o profeta."
"Isso. Pergunte-lhe se este ano ele tenciona ir a Meca. Ele responderá inch'Allah. São essas a senha e contra-senha."
"Tenciona ir este ano a Meca?", perguntou Tomás, memorizando a pergunta. "É isto, não é?"
"Sim, isso mesmo."
"Se ele disser inch'Allab, é porque está tudo bem."
"Exato."
"Parece fácil."
"Claro que é fácil." Bagheri consultou o relógio. "Bem, tenho de ir. Venho buscá-lo à meia-noite."
"À meia-noite? Para ir onde?"
O iraniano mirou-o, surpreendido.
"Ainda não lhe disse?"
"Disse o quê?"
"A operação, professor."
"O que tem a operação?"
"É esta noite."
XII
Quando voltou para junto de Ariana, Tomás sentia-se de tal modo perturbado que teve dificuldade em voltar a concentrar-se. Quanto mais se fixava no poema, mais divagava para a aventura louca em que iria embarcar nessa noite. Tinha os olhos perdidos nas letras rabiscadas no papel e a cabeça concentrada nas implicações de tudo o que se passava, fixando-se nos pormenores, desde os preparativos para sair do hotel até ao que aconteceria no momento do encontro no barco com o tal Mohammed. Deveria levar a bagagem? Mas isso não iria levantar suspeitas, se o vissem a sair do hotel com uma grande mala? Não, tinha de deixar a bagagem para trás, só podia levar um saco com o essencial. E como sairia do hotel sem ser visto? Os empregados não estranhariam vê-lo sair assim à meia-noite? Dariam o alerta? E, uma vez dentro do ministério, como seria? Será que...
"Tomás? Tomás?"
O português sacudiu a cabeça, regressando ao presente.
"Hã?"
"Você está bem?"
Ariana olhava-o com ar intrigado, como se tentasse vislumbrar sinais de febre na tez pálida do historiador.
"O quê? Eu?", balbuciou ele. Endireitou-se. "Sim, sim. Estou bem, não se preocupe."
"Olhe que não parece, sabe? Dá a impressão de não estar a prestar a mínima atenção ao que lhe estou a dizer." Inclinou a cabeça, num gesto muito seu. "Sente-se cansado?"
"Uh... sim, um pouco."
"Quer descansar, é?"
"Não, não. Vamos terminar isto agora e depois eu vou descansar à tarde. Pode ser?"
"Sim, tudo bem. Como queira."
Tomás suspirou e voltou a pousar os olhos no poema.
"Se quer que lhe diga, não sei como irei descodificar isto sem ter sequer uma idéia do tema do manuscrito de Einstein", comentou, agarrando-se a uma derradeira esperança de conseguir convencer a iraniana a fazer-lhe uma revelação que tornasse desnecessário o raide dessa noite. Fitou-a nos olhos com uma expressão de súplica. "Oiça, não me pode revelar nem que seja um pouquinho? Só uma coisa pequenina."
Ariana olhou em redor, atrapalhada.
"Tomás, eu não posso..."
"Só uma idéia."
"Não, não pode ser. É também para o seu bem."
"Vá lá..."
"Não."
"Ouça, se não me disser nada, nós não vamos conseguir avançar. Eu preciso que me dê uma direção."
A iraniana observou-o com intensidade, indecisa sobre o que fazer. Poderia revelar alguma coisa? Se revelasse, o que revelaria? Quais as consequências de o fazer? Ponderou a questão durante alguns segundos e tomou por fim uma decisão.
"Eu não lhe vou revelar o conteúdo do manuscrito porque isso não só poria em causa a segurança nacional do Irão como o colocaria a si, e também a mim, em perigo", disse, baixando a voz. "A única coisa que lhe posso dizer é que nós próprios estamos intrigados com o documento e acreditamos que só a decifração das charadas nos permitirá perceber tudo."
"Vocês estão intrigados, é?"
"Sim."
"Porquê?"
Ariana esboçou um gesto impaciente.
"Não lhe posso dizer. Se calhar até já falei demais."
"Mas o que tem ele assim de tão intrigante?"
"Não lhe posso dizer, já disse. A única coisa que posso fazer é enquadrar a produção desse manuscrito na vida de Einstein. Interessa-lhe saber isso?"
Tomás hesitou.
"Bem... sim, por que não? Acha que é relevante?"
"Não sei. Se calhar não é."
"Ou se calhar é, quem sabe?" O historiador resolveu-se enfim. "Está bem, conte lá."
Ariana ajeitou-se no sofá, procurando coordenar as idéias.
"Diga-me uma coisa, Tomás. O que sabe você de física?"
O português riu-se.
"Pouco", disse. "Como sabe, eu sou historiador e criptanalista, a minha área de interesses não é propriamente a física, não é? O meu pai é que é lá das matemáticas e tem interesse por essas áreas, afinal de contas passou a vida à volta de equações e de teoremas. Mas eu não, prefiro muito mais os hieróglifos e as escritas hebraica e aramaica, gosto é do cheiro a pó das bibliotecas e do bafo abolor exalado pelos velhos manuscritos e pelos papiros. É esse o meu mundo."
"Eu sei disso. Mas o que eu preciso de perceber é se você entende qual é a pesquisa fundamental da física neste momento."
"Não faço a mínima idéia."
"Nunca ouviu falar na Teoria de Tudo?"
"Não."
A iraniana passou as mãos pelos seus belos cabelos negros, ponderando o melhor modo de lhe explicar as coisas.
"Vamos lá a ver, sabe ao menos o que é a Teoria da Relatividade..."
"Claro. Isso é elementar."
"Digamos que a busca da Teoria de Tudo começou com a Teoria da Relatividade. Até Einstein, a física assentava no trabalho de Newton, que dava perfeita conta do recado na explicação do funcionamento do universo tal como ele é percepcionado pelos seres humanos. Mas havia dois problemas relacionados com a luz que não se conseguia resolver. Um era saber por que razão um objeto aquecido emitia luz e o outro era perceber o valor constante da velocidade da luz."
"Devo então supor que foi Einstein quem fez luz sobre o problema da luz", gracejou Tomás.
"Nem mais. Einstein concluiu em 1905 a sua Teoria da Relatividade Restrita, onde estabeleceu uma ligação entre o espaço e o tempo, dizendo que ambos são relativos. Por exemplo, o tempo muda porque há movimento no espaço. A única coisa que não é relativa, mas absoluta, é a velocidade da luz. Ele previu que, a velocidades próximas da luz, o tempo abranda e as distâncias contraem-se."
"Isso já eu sei."
"Ainda bem, porque assim não perco muito tempo com isto. A questão é que, se tudo é relativo, com excepção da velocidade da luz, então até a massa e a energia são relativas. Mais do que relativas, massa e energia são as duas faces de uma mesma moeda."
"Essa não é aquela famosa equação?"
Ariana rabiscou a equação numa folha de rascunho.
E = mc2
"Sim. Energia é igual à massa vezes o quadrado da velocidade da luz."
"Se bem me lembro, essa é a equação que está por detrás das bombas atômicas."
"Exato. Como você sabe, a velocidade da luz é enorme. O quadrado da velocidade da luz é um número tão grande que isto implica que uma minúscula porção de massa contém uma brutal quantidade de energia. Por exemplo, você pesa para aí uns oitenta quilos, não pesa?"
"Mais ou menos."
"Isso significa que você contém no seu corpo matéria com energia suficiente para abastecer de eletricidade uma pequena cidade durante uma semana inteira. A única dificuldade é transformar essa matéria em energia."
"Isso não tem a ver com a força forte que mantém unido o núcleo dos átomos?"
Ariana inclinou a cabeça e ergueu o sobrolho.
"Afinal você sempre sabe umas coisinhas de física..."
"Uh... devo ter lido isso algures."
"Pois. Bem, fique então com a idéia de que energia e massa são as duas faces da mesma moeda. Isto significa que se pode transformar uma coisa na outra, ou seja, energia transformar-se em matéria ou matéria em energia."
"Está a dizer que é possível fazer uma pedra a partir da energia?"
"Sim, teoricamente isso é possível, embora a transformação de energia em massa seja algo que nós normalmente não observamos. Mas acontece. Por exemplo, se um objecto se aproximar da velocidade da luz, o tempo contrai-se e a sua massa aumenta. Nessa situação, a energia do movimento dá lugar à massa."
"Isso já alguma vez foi observado?"
"Sim. No Acelerador de Partículas do CERN, na Suíça. Os electrões foram acelerados a tal velocidade que aumentaram quarenta mil vezes de massa. Há mesmo fotografias do rasto de protões depois de choques, veja lá."
"Caramba."
"É, aliás, por isso que nenhum objeto pode atingir a velocidade da luz. Se o fizesse, a sua massa tornar-se-ia infinitamente grande, o que requereria uma energia infinita para movimentar esse objeto. Ora, isso não pode ser, não é? Daí que se diga que a velocidade da luz é a velocidade limite no universo. Nada a pode igualar, porque, se um corpo a igualasse, a sua massa tornar-se-ia infinitamente grande."
"Mas a luz é formada por quê?"
"Por partículas chamadas fotões."
"E essas partículas não aumentam de massa quando andam à velocidade da luz?"
"Aí é que está. Os fotões são partículas sem massa, encontram-se em estado de energia pura e nem sequer experimentam a passagem do tempo. Como andam à velocidade da luz, para eles o universo é intemporal. Do ponto de vista dos fotões, o universo nasce, cresce e morre no mesmo instante."
"Incrível."
Ariana bebeu um golo de sumo de laranja.
"O que, se calhar, você não sabe é que não há uma Teoria da Relatividade, mas duas."
"Duas?"
"Sim. Einstein concluiu a Teoria da Relatividade Restrita em 1905, na qual explica uma série de fenômenos físicos, mas não a gravidade. O problema é que a Relatividade Restrita entrou em conflito com a descrição clássica da gravidade e era preciso resolver isso. Newton acreditava que uma alteração repentina de massa implicava uma alteração instantânea da força de gravidade. Mas isso não pode ser, uma vez que tal requer que exista algo mais veloz do que a luz. Suponhamos que o Sol explodia neste preciso momento. A Relatividade Restrita prevê que tal acontecimento só oito minutos depois será sentido na Terra, uma vez que esse é o tempo que a luz leva a fazer a viagem entre o Sol e a Terra. Mas Newton julgava que o efeito seria sentido instantaneamente. No exato momento em que o Sol explodisse, a Terra sentiria o efeito desse acontecimento. Ora, isso não é possível, dado que nada anda mais depressa do que a luz, não é? Para solucionar este e outros problemas, Einstein concluiu em 1915 a Teoria da Relatividade Geral, que resolveu as questões da gravidade e estabeleceu que o espaço é curvado. Quanto mais massa tem um objeto, mais curvado é o espaço em torno dele e, consequentemente, maior é a força de gravidade que exerce. Por exemplo, o Sol exerce mais força de gravidade sobre um objeto do que a Terra porque dispõe de muito mais massa, entendeu?"
"Hmm... não muito bem. O espaço curva-se? O que quer dizer com isso?"
Ariana abriu os braços.
"Faça de conta, Tomás, que o espaço é um lençol esticado no ar entre nós dois. Imagine que pomos uma bola de futebol no meio. O que acontece? O lençol curva-se em torno da bola, não é? Se eu atirar um berlinde para o lençol, ele vai ser atraído para a bola de futebol, não vai? No universo passa-se a mesma coisa. O Sol é tão grande que curva o espaço em torno de si. Se um objeto exterior se aproximar devagar, vai embater no Sol. Se um objeto se aproximar a uma certa velocidade, como a Terra, começará a andar à volta do Sol, sem cair nele nem fugir dele. E se um objeto andar a muita velocidade, como um fotão de luz, ao aproximar-se do Sol vai curvar um bocadinho a sua trajetória mas conseguirá fugir e prosseguir a sua viagem. No fundo, é isto o que diz a Relatividade Geral. Todos os objetos distorcem o espaço e, quanto mais massa tiver um objeto, mais distorcerá o espaço em torno de si. Como o espaço e o tempo são duas faces da mesma moeda, um pouco como a energia e a matéria, isto significa que os objetos também distorcem o tempo. Quanto mais massa tiver um objeto, mais lento será o tempo perto de si."
"É tudo muito estranho", observou Tomás. "Mas o que tem isso a ver com o manuscrito de Einstein?"
"Tudo ou nada, não sei. Mas é importante que você perceba que o manuscrito foi concebido quando Einstein estava a tentar estabelecer a Teoria de Tudo."
"Ah, sim. Essa é mais uma teoria de Einstein?"
"Sim."
"As duas da Relatividade não chegaram, é?"
"Einstein pensou inicialmente que sim, mas, de repente, deu com o nariz na Teoria Quântica."
Ariana inclinou a cabeça no seu jeito característico. "Sabe o que é a Teoria Quântica?"
"Bem... uh... já ouvi falar, sim, mas os pormenores... enfim."
A iraniana riu-se.
"Não fique complexado", exclamou. "Mesmo alguns cientistas que desenvolveram a Teoria Quântica nunca chegaram a entendê-la muito bem."
"Ah, bom. Então estou mais descansado."
"A questão é esta. A física de Newton é adequada para explicar o nosso mundo quotidiano. Quando constroem uma ponte ou põem um satélite a circular à volta da Terra, os engenheiros recorrem à física de Newton e de Maxwell. Os problemas desta física clássica só emergem quando estamos a lidar com aspectos que não fazem parte da nossa experiência diária, como por exemplo velocidades extremas ou o mundo das partículas. Para tratar os problemas das grandes massas e da grande velocidade, apareceram as duas teorias de Einstein, chamadas da Relatividade. E, para lidar com o mundo das partículas, surgiu a Teoria Quântica."
"Portanto, a Relatividade é para os grandes objetos e a Quântica é para os pequenos objetos."
"Isso." Fez uma careta. "Embora importe realçar que o mundo das micropartículas tem manifestações macroscópicas, como é evidente."
"Claro. Mas quem é que desenvolveu a Quântica?"
"A Teoria Quântica nasceu em 1900, na sequência de um trabalho de Max Planck sobre a luz emitida por corpos quentes. Foi depois desenvolvida por Niels Bohr, que concebeu o mais conhecido modelo teórico dos átomos, aquele que tem os electrões a orbitar o núcleo da mesma maneira que os planetas orbitam o Sol."
"Tudo isso é conhecido."
"Pois é. Mas o que é menos conhecido são os comportamentos bizarros das partículas. Por exemplo, alguns físicos concluíram que as partículas subatómicas podem ir do estado de energia A ao estado de energia B sem passarem pela transição entre esses dois estados."
"Sem passarem pela transição entre os dois estados? Como assim?"
"É muito estranho e polêmico. Chama-se a isso um salto quântico. É como uma pessoa a subir os degraus de uma escada. Nós passamos de um degrau para o outro sem percorrermos o degrau intermédio, não é? Não há meio degrau. Saltamos de um para o outro. Há quem defenda que, no mundo quântico, as coisas também se passam assim ao nível da energia. Vai-se de um estado para o outro sem passar pelo estado intermédio."
"Mas isso é bizarro."
"Muito. Nós sabemos que as micropartículas dão saltos. Isso é consensual. O que se passa é que há quem ache que, quando estamos a falar do mundo subatómico, o espaço deixa de ser contínuo e torna-se granuloso. Dão-se saltos sem se passar pelo estado intermédio." Nova careta. "Devo dizer que não acredito nisso e nunca encontrei qualquer prova ou indício de que assim seja."
"Realmente, essa idéia é... é estranha."
Ariana ergueu o indicador.
"Mas há mais. Descobriu-se que a matéria se manifesta ao mesmo tempo por partículas e ondas. Tal como espaço e tempo ou energia e massa são duas faces da mesma moeda, ondas e partículas são as duas faces da matéria. O problema emergiu quando se teve de transformar isto numa mecânica."
"Mecânica?"
"Sim, a física tem uma mecânica, que serve para prever os comportamentos da matéria. Nos casos da física clássica e da Relatividade, a mecânica é determinista. Se, por exemplo, nós soubermos onde está a Lua, em que direcção ela circula e a que velocidade, nós seremos capazes de prever a sua evolução futura e passada. Se a Lua circula para a esquerda a mil quilômetros por hora,
daqui a uma hora estará mil quilómetros à esquerda. É isto a mecânica. Consegue-se prever a evolução dos objetos, desde que se saiba a respectiva velocidade e posição. Tudo muito simples. Mas, no mundo quântico, descobriu-se que as coisas funcionam de uma maneira diferente. Quando sabemos bem a posição de uma partícula, não conseguimos perceber qual a sua velocidade exata. E quando conhecemos bem a velocidade, não podemos determinar a posição exata. Chama-se a isso o Princípio da Incerteza, uma idéia que foi formulada em 1927 por Werner Heisenberg. O Princípio da Incerteza estabelece que podemos saber com rigor a velocidade ou a posição de uma partícula, mas nunca as duas coisas ao mesmo tempo."
"Então como se sabe a evolução de uma partícula?"
"É esse o problema. Não se sabe. Eu posso saber qual a posição e velocidade da Lua, e assim sou capaz de prever todos os seus movimentos passados e futuros. Mas não tenho maneira de determinar com exatidão a posição e a velocidade de um electrão, pelo que não consigo prever os seus movimentos passados e futuros. É essa a incerteza. Para resolver isso, a mecânica quântica recorreu ao cálculo de probabilidades. Se um electrão tiver de escolher entre dois buracos por onde passar, há cinquenta por cento de probabilidades de o electrão passar pelo buraco da esquerda e outros cinquenta por cento pelo da direita."
"Parece uma boa maneira de resolver esse problema."
"Pois é. Mas Niels Bohr complicou a coisa e disse que o electrão passa pelos dois buracos ao mesmo tempo. Passa pelo da esquerda e pelo da direita."
"Como?"
"É como eu lhe estou a dizer. Ao escolher entre duas rotas, o electrão passa pelas duas em simultâneo, pelo buraco da esquerda e pelo da direita. Ou seja, está nos dois sítios ao mesmo tempo!"
"Mas isso não é possível."
"E, no entanto, é o que a Teoria Quântica prevê. Por exemplo, se pusermos um electrão numa caixa dividida em dois lados, o electrão estará nos dois lados ao mesmo tempo em forma de onda. Quando espreitamos a caixa, a onda desfaz-se imediatamente e o electrão transforma-se em partícula num dos lados. Se não olharmos, o electrão permanecerá nos dois lados ao mesmo tempo sob a forma de onda. Mesmo que os dois lados sejam separados e colocados a milhares de anos-luz de distância um do outro, o electrão continuará nos dois lados ao mesmo tempo. Só quando espreitarmos para um dos lados é que o electrão decidirá qual o lado onde vai ficar."
"Só quando nós espreitamos é que ele se decide?", perguntou Tomás com ar incrédulo. "Que conversa é essa?"
"O papel do observador foi estabelecido inicialmente pelo Princípio da Incerteza. Heisenberg concluiu que nunca poderemos saber com precisão e em simultâneo qual a posição e velocidade de uma partícula devido à presença do observador. A teoria evoluiu até ao ponto de ter havido quem considerasse que o electrão só decide em que lugar está quando existe um observador."
"Isso não faz sentido nenhum..."
"Foi o que também disseram os outros cientistas, incluindo Einstein. Como o cálculo passou a ser probabilístico, Einstein declarou que Deus não jogava aos dados, isto é, a posição de uma partícula não podia estar dependente da presença de observadores e, sobretudo, de cálculos de probabilidade. A partícula ou está num sítio ou está no outro, não pode estar nos dois ao mesmo tempo. A incredulidade foi tal que houve até um outro físico, chamado Schrödinger, que concebeu uma situação paradoxal para pôr a nu este absurdo. Ele imaginou que era colocado um gato numa caixa com um frasco fechado de cianeto. Um processo quântico poderia levar um martelo, com uma probabilidade de cinquenta por cento, a quebrar o frasco ou não. De acordo com a teoria quântica, os dois acontecimentos igualmente prováveis ocorreriam em simultâneo enquanto a caixa permanecesse encerrada, fazendo com que o gato estivesse simultaneamente vivo e morto, da mesma maneira que um electrão está simultaneamente nos dois lados da caixa enquanto não é observado. Ora, isso é um absurdo, não é?"
"Claro que é. Isso não faz sentido nenhum. Como é possível que essa teoria seja ainda
defendida?"
"É justamente isso o que Einstein pensava. O problema é que esta teoria, por muito bizarra que pareça, bate certo com todos os dados experimentais. Qualquer cientista sabe que, sempre que a matemática contradiz a intuição, a matemática tende a ganhar. Isso aconteceu, por exemplo, quando Copérnico disse que era a Terra que andava à volta do Sol e não o contrário. A intuição dizia que a Terra é que era o centro, uma vez que tudo parecia girar em torno da Terra. Perante o ceticismo de toda a gente, Copérnico apenas encontrou aliados entre os matemáticos, os quais, com as suas equações, constataram que só a possibilidade de a Terra andar à volta do Sol concordava com a matemática. Sabemos hoje que a matemática estava certa. Com as Teorias da Relatividade foi a mesma coisa. Há muitos elementos dessa teoria que são contra-intuitivos, como idéias de que o tempo dilata e outras bizarrias do gênero, mas a verdade é que esses conceitos são aceites pelos cientistas porque condizem com a matemática e com as observações da realidade. É o que acontece aqui. Não faz sentido dizer que um electrão está em dois sítios ao mesmo tempo enquanto não é observado, isso é contra-intuitivo. E, no entanto, bate certo com a matemática e com todas as experiências efectuadas."
"Ah, bom."
"Mas Einstein não se conformou com esta idéia, por uma razão muito simples. É que a Teoria Quântica começou por não condizer com a Teoria da Relatividade. Isto é, uma é boa para compreender o universo dos grandes objetos e a outra é eficiente na explicação do universo dos átomos. Mas Einstein achava que o universo não pode ser gerido por leis diferentes, umas deterministas para os grandes objectos e outras probabilísticas para os pequenos objectos. Tem de
haver um único conjunto de regras. Começou assim a busca de uma teoria unificadora que apresentasse as forças fundamentais da natureza como manifestações de uma força única. As suas Teorias da Relatividade reduziam a uma única fórmula todas as leis que regem o espaço, o tempo e a gravidade. Com a nova teoria ele procurava reduzir a uma única fórmula os fenômenos da gravidade e do electromagnetismo. Ele acreditava que a força que faz mover o electrão à volta do núcleo é do mesmo tipo da que faz mover a Terra à volta do Sol."
"Uma nova teoria, é?"
"Sim. Ele chamou-lhe a Teoria dos Campos Unificados. Era a sua versão da Teoria de Tudo."
"Ah."
"E era isso o que Einstein estava a desenvolver quando elaborou este manuscrito."
"Acha que A Fórmula de Deus tem ligação com essa busca, é?"
"Não sei", disse Ariana. "Talvez sim, talvez não."
"Mas, se é isso, que sentido faz manter tudo secreto?"
"Ouça, eu não sei se é isso. Eu já li o documento e ele é estranho, sabe? E a verdade é que foi o próprio Einstein quem decidiu mantê-lo em segredo. Se o fez é porque tinha bons motivos, não acha?"
Tomás cravou os olhos na iraniana, atento à sua reacção quando ouvisse a pergunta que tinha para lhe fazer.
"Se A Fórmula de Deus não tem ligação com a busca da Teoria de Tudo, tem ligação com quê?", perguntou. Fez uma expressão interrogativa. "Com armas nucleares?"
Ariana devolveu-lhe o olhar com intensidade.
"Vou fingir que não ouvi essa pergunta", disse ela, pronunciando cada sílaba muito devagar, com enorme intensidade. "E não volte a falar sobre isso, entendeu?" Colou o indicador à testa. "A sua segurança depende da sua inteligência."
O historiador estremeceu.
"A minha segurança?"
"Por favor, Tomás", disse ela, quase implorando. "Não fale sobre isso a ninguém. Não pronuncie essas palavras perante ninguém. Faça apenas o seu trabalho, ouviu? Apenas o seu trabalho."
Tomás calou-se por um instante, pensativo e intimidado. Girou a cabeça e viu um grupo de paquistaneses a entrar no restaurante do hotel. Era o pretexto ideal para pôr fim àquela conversa perigosa.
"Não tem fome?", perguntou.
XIII
O almoço foi um cheio kebab, possivelmente o décimo kebab que Tomás comia desde que chegara ao Irã. Sentia-se já farto daquela dieta e, de certo modo, era um alívio saber que nessa noite seria retirado clandestinamente do país. Claro que havia o problema do raide ao ministério, mas, já que nada dependia agora de si, arrumou essa preocupação num canto da mente, confortando-se com o pensamento de que os homens da CIA saberiam certamente o que estavam a fazer.
Apercebeu-se de que este era talvez o seu último almoço com Ariana e contemplou-a quase melancolicamente. Era de facto uma mulher bela e interessante, os hipnóticos olhos de mel irradiando ternura e inteligência. Sentiu-se quase tentado a contar-lhe tudo, a pedir-lhe que viesse também consigo, mas percebeu que isso não passava de uma fantasia, eram pessoas de mundos diferentes e com missões antagônicas.
"Acha que conseguirá descodificar a charada?", perguntou ela, evitando-lhe o enigmático olhar perscrutador.
"Preciso da chave do código", disse Tomás, o garfo repleto de arroz. "Para falar com toda a franqueza, parece-me que, sem essa chave, estamos perante uma missão impossível."
"Se fosse uma cifra, seria mais fácil?"
"Sim, claro. Mas isto não é uma cifra."
"Tem a certeza disso?"
"Claro que tenho." Desdobrou a folha num canto da mesa. "Repare, este poema envolve palavras e frases. Ora, uma cifra só tem a ver com letras, não é? Se isto fosse uma cifra, teria formações absurdas, do tipo hwxz e coisas do gênero, um pouco como a segunda charada." Apontou para as palavras gatafunhadas no papel. "Está a ver a diferença?"
"Sim, este !ya e ovqo são evidentemente cifras", constatou a iraniana. Voltou os olhos para o poema. "Mas não há cifras que se possam assemelhar a palavras?"
"Claro que não", disse ele. Hesitou um instante. "A não ser que... que sejam cifras de transposição."
"O que é isso?"
"Sabe, há três tipos de cifra. O primeiro tipo é a cifra de ocultação, em que se esconde a mensagem secreta através de um qualquer sistema simples. O exemplo mais antigo que se conhece é o da mensagem escrita na cabeça de um escravo careca. Esperava se que o cabelo crescesse e depois enviava-se o escravo para entregar a mensagem. O texto estava assim oculto no couro cabeludo, tapado pelos cabelos."
"Engenhoso."
"Depois há a cifra de substituição, em que se substituem as letras por outras, segundo uma chave preestabelecida. É este tipo de cifras, usado habitualmente nos modernos sistemas cifrados, que provoca sequências do estilo deste !ya e ovqo."
"São as mais comuns?"
"Sim, hoje em dia são. Mas há também as cifras de transposição, em que as letras de uma mensagem secreta são retiradas da sua ordem original e realinhadas num outro padrão."
"Não estou a perceber..."
"Olhe, uma cifra de transposição é um anagrama, por exemplo. Sabe o que é um anagrama?"
"Já ouvi falar, mas, sinceramente..."
"Um anagrama é uma palavra escrita com as letras de uma outra palavra. Por exemplo, Elvis é um anagrama de lives. Se for a ver com atenção, as duas palavras são escritas com as mesmas letras. Ou elegant man é um anagrama de a gentleman."
"Ah, entendi."
"Portanto, tudo isto para explicar que o único tipo de cifra que pode criar palavras é justamente a cifra de transposição."
Ariana contemplou o poema.
"E acha possível que estes versos escondam uma cifra dessas?"
O historiador manteve os olhos cravados no texto e fez com a boca um trejeito pensativo.
"Um anagrama, é?" Considerou a hipótese. "Hmm... talvez. Por que não?"
"E como é que podemos testar essa possibilidade?"
"Só há uma maneira", disse Tomás, pegando na caneta. "Podemos tentar escrever palavras diferentes com as mesmas letras que aqui estão. Já o fizemos com palavras portuguesas e não deu em nada, não é? Talvez com palavras inglesas funcione. Ora vamos lá a isto." Inclinou-se sobre a folha. "Vejamos o primeiro verso." Terra if fin.
"Que outras palavras poderemos escrever com estas letras?", perguntou Ariana.
"Vamos ver", disse Tomás. "Juntemos o t e o a. Ponhamos os dois f, juntos. O que fica?"
"Tajff?"
"Isso não é nada. E se metermos um i no fim?"
"Taffi?"
"Experimentemos o i atrás dos f."
"Taiff? Isso é o nome de uma terriola qualquer na Arábia Saudita. Mas, que eu saiba, só tem um f.
"Ora vê? Já arranjamos alguma coisa. E se metermos um r entre o a e o i, ficamos com... com tariff. Mais uma palavra, está a ver? Resta-nos saber o que vamos fazer com as letras que sobraram.
Deixe cá ver, sobraram um e, um r, um i e um n."
"Erin?"
"Hmm... erin? Ou então nire. Ou rine. E... e por que não rien? Cá está."
Escreveu: Tariff rien.
"Tariff rien? O que quer isso dizer?"
Tomás encolheu os ombros.
"Nada. Era apenas uma tentativa. Vamos ver de outras maneiras."
Durante a hora seguinte ensaiaram várias opções. Com as mesmas letras do primeiro verso conseguiram escrever ainda a finer rift, retrain fit e faint frier, mas nenhum destes anagramas revelava o que quer que fosse. Do segundo verso, De terrors tight, apenas lograram extrair um anagrama, retorted rigbts, sempre sem obterem um sentido coerente.
Tomás tinha já os cabelos castanhos num desalinho, de tanto esfregar a cabeça, quando lhe ocorreu uma nova idéia.
"Em inglês também não vamos lá", comentou. "Será possível que Einstein tenha escrito a mensagem em alemão?"
"Em alemão?"
"Sim. Faz sentido, não faz? Se ele redigiu todo o texto em alemão, nada impede que tenha escondido a mensagem também em alemão. Já viu?" Passou os olhos pelo papel. "Uma mensagem em alemão oculta por entre um poema em inglês. Brilhante, não?"
"Você acha?"
"Vale a pena tentar." Esfregou a cara. "Ora deixe cá ver... e se ele pôs o título do documento na mensagem?"
"Qual título? A fórmula de Deus?"
"Sim, mas em alemão. Die Gottesformel. Há aqui algum verso que tenha um g, um o e dois t?"
"Gott?"
"Sim, a palavra Deus em alemão."
Ariana analisou as várias linhas.
"O segundo verso tem", exclamou. "Vou sublinhar."
De terrors tight
"Pois tem. Togt. Rearranjadas estas letras, ficamos com Gott."
"Falta o formel."
O historiador estudou as letras que sobravam.
"Pois, isso não tem."
Ariana hesitou.
"Mas... olhe, que engraçado", observou ela. "Tem Gott, Deus, e tem também Senhor, Herr. Está a ver? Até se podem juntar. Fica Herrgott."
“Herrgott? O que significa isso?"
"Senhor. É um dos nomes de Deus."
"Ah", exclamou o historiador. "Herrgott. E das letras que ficaram de fora, consegue-se dizer alguma coisa em alemão?"
A iraniana pegou na caneta e escreveu as letras que sobraram.
De terrors tight
Herrgott Dersit
"Hmm", murmurou ela. "Herrgott dersit."
"Isso significa alguma coisa?"
"Dersit? Não. Mas podemos separar isto. Fica Der sit. E sit pode ser... uh... ist. Aí sim, ficamos com um significado."
"Como é? Herrgott der ist?"
"Não. Ao contrário." Ariana reescreveu a linha. Ist Der Herrgott
"Ist der Herrgott."
"O que diabo quer isso dizer?"
"É o Senhor."
O historiador voltou a analisar o poema, um brilho fascinado a relampejar-lhe nos olhos. Acabara de abrir a primeira racha na parede da charada.
"Caramba", exclamou. "Isto é mesmo um anagrama." Mirou a iraniana. "Você acha que consegue obter outras palavras alemãs a partir das restantes linhas?"
Ariana pegou na folha e estudou os três versos que sobravam.
"Não sei, nunca fiz isto."
"Quais são as palavras alemãs mais comuns?"
"Uh?"
"Quais são as palavras alemãs mais comuns?"
"Sei lá... uh... und, por exemplo, ou ist."
"Já temos aqui um ist. Poderá haver algum und?"
A iraniana analisou todas as letras do poema.
"Não, não pode haver und. Não há nenhum u no poema."
"Porra!", praguejou Tomás, algo desencorajado. "E ist? Haverá mais algum?"
Ariana apontou para o quarto e último verso.
"Está aqui", exclamou.
Pegou no lápis e sublinhou as três letras. Christ nite
"Boa", disse Tomás. "Vamos agora ver as duas primeiras letras de cada palavra. Chni. Significa alguma coisa?"
"Não", devolveu ela. "Mas... uh... deixe ver, se invertermos as sílabas fica nich. A questão é saber se temos mais algum t. Já usamos um no ist."
"Está aqui outro t."
"Pois está. Dá nicht."
"Ora aqui está", exclamou o historiador. "Temos então ist e nicht neste verso. Sobra o quê?"
"Sobra um r e um e."
"Re?"
"Não, espere", exclamou Ariana, muito excitada. "Er. Dá er."
"Er? O que significa isso?"
"Ist er nicht. Não vê?"
"Vejo, vejo. Mas o que significa?"
"Quer dizer ele não é."
Tomás pegou no rascunho e anotou as duas frases por baixo do segundo e quarto versos.
"E agora o resto?", perguntou ele. "Vamos ver o primeiro e o terceiro versos."
Os dois versos sobreviventes mostraram-se incrivelmente difíceis de decifrar. Tentaram sucessivas combinações e Ariana teve de pedir um dicionário de alemão na recepção do hotel, de modo a testar novas possibilidades, sempre com Tomás a guiá-la. Abandonaram o restaurante e voltaram para o bar, ambos a ensaiarem palavras, a trocarem sílabas, a mudarem letras, a testarem diferentes significados.
Ao cabo de duas esgotantes horas, porém, a cifra deixou escapar o seu segredo. O fim da resistência começou com a descoberta da palavra aber, no terceiro verso, o que lhes permitiu chegar enfim à formulação final. Com um sorriso triunfal, a iraniana escrevinhou no rascunho as quatro linhas ocultas no poema cifrado.
Raffiniert
Ist Der Herrgott
Aber boschaft
Ist Er nicht
"O que é isto?", perguntou Tomás, para quem o alemão encerrava ainda muitos mistérios.
"Raffiniert ist der Herrgott, aber boschaft ist er nicht."
"Sim, já percebi", disse ele, impaciente. "Mas o que significa isso?"
Ariana recostou-se no sofá, esgotada e revigorada, consumida pelo esforço e excitada pela descoberta, sentindo aquele enorme êxtase de quem escalou a montanha, atingiu o cume e, repousando no pico mais alto, contempla o mundo com serena admiração. Passou a língua pelos lábios sensuais e quase sorriu, saboreando a maravilhosa frase que Einstein encerrara naquele poema misterioso.
"Sutil é o Senhor", traduziu ela, num sussurro fascinado. "Mas malicioso Ele não é."
XIV
O automóvel negro percorreu com prudente vagar as ruas desertas da cidade, abandonadas ao vento frio que descia das montanhas e ao manto opaco da noite silenciosa. Os candeeiros projetavam sobre os passeios uma luz amarelada, fantasmagórica, e o clarão luminoso do mar de estrelas disperso pelo céu límpido, como pó de diamante cintilando na escuridão, irradiava uma leve claridade sobre o vulto adormecido das Alborz; era uma luminosidade muito suave, infinitamente tênue, mas suficiente para deixar perceber a mancha ebúrnea de neve que cobria as montanhas distantes como um véu de seda branca.
Meia-noite em Teerã.
Sentado no banco traseiro do carro, o casaco abotoado para se proteger do frio, Tomás contemplava as lojas e prédios e casas e mesquitas que se sucediam para lá da janela, os olhos presos nas fachadas nuas e passeios desertos, a mente a vaguear pelos contornos daquela aventura louca para a qual era arrastado sem apelo. Encolhido no seu canto, não via como travar o curso dos acontecimentos, sentia-se absolutamente impotente, um insignificante náufrago entregue às águas revoltas do mar bravo, puxado por uma poderosa corrente que não sabia nem podia combater.
Devo estar louco.
O pensamento martelava-o sem parar, obsessivo, quase mórbido, repetindo-se à medida que o automóvel palmilhava as avenidas e ruas e bairros da capital iraniana, avançando sempre, aproximando-se inexoravelmente do seu destino, chegando-se mais e mais ao instante temido, ao momento para lá do qual já não se podia voltar para trás. O ponto sem retorno.
Devo estar totalmente louco.
Babak seguia silencioso ao volante, os olhos irrequietos saltitando entre os cantos sombrios das ruas e o reflexo reluzente do retrovisor, sempre atento a qualquer movimento suspeito que obrigasse a abortar a operação. O vulto maciço de Bagheri plantava-se ao lado de Tomás, os olhos mergulhados na larga planta do Ministério da Ciência, estudando pela enésima vez o plano que gizara nos últimos dias, passando em revista os derradeiros pormenores. O homem da CIA viera vestido de preto e entregara a Tomás, ainda no hotel, um turbante negro iraniano, dizendo que o devia usar para se destacar menos. Além disso, obrigara-o a envergar as roupas mais escuras de que dispunha, alegando que só um louco fazia um assalto com trajos claros no corpo. Mas louco já Tomás se sentia, não havia louco mais louco do que aquele que, sem experiência nem treino, aceitava assaltar um edifício governamental com dois desconhecidos, num país de drásticas punições, para furtar um documento secreto que encerrava graves implicações militares.
"Nervoso?", perguntou Bagheri, rompendo o silêncio.
Tomás assentiu com a cabeça.
"Sim."
"É natural", sorriu o iraniano. "Mas fique descansado, vai correr tudo bem."
"Como pode você ter assim tanta certeza disso?"
Bagheri puxou a carteira do bolso e retirou uma nota verde de cem dólares, que exibiu ao historiador.
"Isto tem muita força."
O automóvel virou à esquerda, completou mais duas curvas e abrandou. Babak espreitou de novo pelo retrovisor, encostou ao passeio e estacionou entre duas camionetas. O motor calou-se e os faróis apagaram-se.
Chegamos?"
"Sim."
Tomás olhou em redor, tentando reconhecer o local.
"Mas o ministério não é aqui."
"É, sim", disse Bagheri, apontando para a esquina em frente. "Temos de ir a pé, é já ali à direita."
Apearam-se e sentiram a brisa gelada da rua penetrar-lhes na roupa. Tomás ajeitou melhor o casaco, enterrou o turbante negro na cabeça e caminharam os três pelo passeio até à esquina. Uma vez ali chegados, o historiador reconheceu enfim a rua e o edifício do outro lado, era de fato o Ministério da Ciência. Bagheri fez sinal para que ficassem ambos quietos e apenas Babak avançou, atravessando tranquilamente a rua e dirigindo-se ao ministério. O motorista mergulhou na sombra, junto ao posto da sentinela, e permaneceu invisível durante uns três minutos. O seu vulto magro e esguio reemergiu por fim da penumbra e fez um gesto para os dois avançarem.
"Vamos", ordenou Bagheri em voz baixa. "Esteja sempre calado, ouviu? Eles não podem perceber que você é estrangeiro."
Cruzaram a rua e aproximaram-se do portão gradeado da entrada. Tomás sentia as pernas fracas e o estômago apertado, o coração pulava-lhe no peito, as mãos tremiam-lhe e um suor frio nasceu-lhe no topo da testa; mas repetiu de si para si que os homens que o acompanhavam eram profissionais e sabiam o que faziam, e foi nesse pensamento que se refugiou para encontrar algum conforto.
O portão continuava fechado, mas Bagheri meteu por uma porta lateral, mesmo ao lado do posto
da sentinela, e entrou no perímetro do ministério. O historiador seguiu-lhe os passos. Babak esperava-os ao lado de um soldado iraniano, presumivelmente a sentinela, que fez continência a Bagheri. O homem da CIA devolveu a continência, trocou umas palavras baixinho com Babak e o motorista voltou para a rua.
Tomás e Bagheri ficaram entregues ao soldado, que os conduziu para uma porta escondida, possivelmente uma entrada de serviço. O soldado abriu a porta, voltou a fazer continência, deixou os dois estranhos entrarem no edifício e fechou a porta. Foi nesse instante que Tomás tomou consciência de que tinha acabado de cruzar a temível fronteira invisível.
O ponto sem retorno.
"E agora?", sussurrou ele tremulamente, a voz soprada ressoando na escuridão.
"Agora vamos para o terceiro andar", disse Bagheri. "Não é lá que guardam o manuscrito?"
"Sim, foi o que eu vi."
"Então vamos."
O iraniano acendeu uma lanterna, mas o historiador hesitou.
"E o motorista?"
"O Babak ficou na rua a fazer vigilância."
"Ah é? E o que acontece se aparecer alguém?"
"Se houver algum movimento suspeito, ele carrega no botão de um emissor especial. Eu tenho aqui um receptor que faz logo um zumbido." Virou a lanterna para a cintura e mostrou um aparelhinho metálico metido no cinto. "Está a ver?"
"Ah. É o alarme, é?"
"Sim."
"E se ele o acionar?"
Bagheri sorriu.
"Teremos de fugir, claro."
Os dois exploraram o local com cautelosa lentidão, Bagheri sempre com a lanterna voltada para a frente, lançando um clarão circular na profunda treva do edifício, a luz projectando sombras assustadoras nas paredes e no chão de mármore polido. Meteram por um corredor e foram dar ao hall central, dominado por uma imponente escadaria. Havia elevadores ao lado, mas Bagheri preferiu escalar os degraus, não queria provocar barulhos nem acender luzes que não pudesse controlar.
Chegaram ao terceiro andar e o iraniano espreitou para o corredor da direita.
"É por ali, não é?", perguntou.
"Sim."
Bagheri fez sinal a Tomás para passar à frente e o historiador assumiu o comando. As coisas às escuras eram bem diferentes das vistas à luz do dia, mas, apesar das estranhas circunstâncias, o português conseguiu reconhecer o local. A esquerda estava a porta para a sala de reuniões, onde lhe tinha sido mostrado o manuscrito. Abriu a porta e confirmou que assim era, ali se encontravam a mesa longa, as cadeiras, os vasos e os armários de parede, os locatários silenciosos daquele cubículo quieto e sombrio. Olhou então para a direita, para o local onde se situava o compartimento de onde vira Ariana sair com a velha caixa do documento nas mãos.
"É ali", disse, apontando para a porta dessa sala.
Bagheri aproximou-se da porta e tocou-a com a ponta dos dedos da mão espalmada.
"Aqui?"
"Sim."
O iraniano puxou a maçaneta, mas a porta não abriu. Como era previsível, encontrava-se trancada. Além do mais, a porta não era de madeira, como as outras, mas metálica, o que indiciava conter um dispositivo especial de segurança.
"E agora?", perguntou Tomás.
Bagheri não respondeu de imediato. Inclinou-se e analisou a fechadura com cuidado, a luz incidindo de perto no ferrolho metálico. Depois acocorou-se e abriu o saco escuro onde guardava as ferramentas.
"Não há problema", limitou-se a dizer.
Tirou um instrumento metálico e pontiagudo e inseriu-o devagar no ferrolho. Colocou uma espécie de estetoscópio nos ouvidos, o fio conduzindo a um auscultador muito sensível, encostou o auscultador à fechadura e ficou a escutar os diques do instrumento dentro do ferrolho, a língua presa no canto dos lábios e os olhos vidrados numa expressão de grande concentração. O exercício prolongou-se por minutos sem fim. Ao cabo de algum tempo, Bagheri tirou o instrumento do ferrolho e procurou outro no saco. Tirou de lá o que parecia ser um fio metálico, muito flexível, e meteu-o pelo buraquinho da fechadura, repetindo o movimento anterior.
"Então?", soprou Tomás, ansioso por sair dali. "Não consegue?"
"Um momento."
O iraniano voltou a encostar o auscultador à fechadura, seguindo com infinita atenção o percurso do fio metálico. Ouviram-se mais uns cliques, talvez três, e um claque final.
A porta metálica abriu-se.
"Abre-te Sésamo", gracejou o historiador.
Bagheri piscou-lhe o olho.
"E eu sou Ali Babá."
Entraram no compartimento e o iraniano projectou o foco da lanterna em redor. Era um gabinete pequeno, ricamente decorado com madeiras exóticas forradas nas paredes e no tecto. Encravado na parede do fundo, sobre uns vasos com plantas, encontrava-se um cofre cinzento, a fechadura protegida por um sistema circular de código.
"O manuscrito deve estar ali", observou Tomás. "Acha que vai conseguir abrir o cofre?"
Bagheri aproximou-se do cofre e analisou a fechadura com atenção.
"Não há problema", limitou-se a dizer.
Voltou a colocar o estetoscópio nos ouvidos e a auscultar o ferrolho do cofre, mas desta vez utilizou instrumentos diferentes, pareciam ser maquinetas muito complexas, de alta tecnologia; uma delas incorporava um computador, outra exibia mostradores num pequeno ecrã de plasma onde brilhavam algarismos âmbares.
Bagheri colou a broca de uma perfuradora elétrica ao segredo do cofre, activou a perfuradora e abriu um buraco minúsculo; ligou uns fios da máquina do ecrã ao buraquinho no segredo do cofre e estabeleceu outras ligações com o computador. Digitou letras e algarismos num teclado minúsculo e tentou soluções diferentes, até que, ao fim de alguns minutos, uma luz encarnada apagou-se no ecrã
de plasma, substituída por outra verde. O segredo do cofre girou como se tivesse ganho vida, emitindo o som dentado de uma rotação metálica. Seguiu-se um estalido seco.
A porta do cofre soltou-se.
Sem pronunciar palavra, Bagheri escancarou a porta solta e apontou a lanterna para o cofre, iluminando o interior. Tomás espreitou por cima do ombro do iraniano e reconheceu a caixa de aspecto gasto, envelhecida pelo tempo, que se encontrava pousada no centro do abrigo fortificado.
"É aquilo", disse.
"A caixa?"
"Sim."
Bagheri esticou os braços para dentro do cofre e retirou a caixa do interior. Pegou nela como se contivesse uma relíquia divina, um tesouro que se poderia desfazer ao mínimo gesto brusco, e pousou-a suavemente no chão.
"E agora?", perguntou o iraniano, hesitante, as mãos a repousar nas ancas.
"Vamos verificar", disse Tomás, inclinando-se para a caixa.
Tirou a tampa com cuidado e fez sinal a Bagheri para aproximar a lanterna. O foco de luz inundou o interior da caixa, incidindo sobre as folhas amarelecidas do velho manuscrito. Tomás inclinou-se, focou os olhos e confirmou o título e o poema ostentados na primeira folha de papel quadriculado. As palavras emergiram tênues, estranhamente familiares, mas também singularmente misteriosas; estas, sabia-o com mal contida emoção, eram as folhas originais, as páginas datilografadas pelo próprio Einstein, o testemunho perdido de uma outra era. Mergulhados num fino véu de pó, os papéis gastos e carcomidos pelos anos exalavam um antigo perfume, o aroma arcano de um tempo há muito consumido.
DIE GOTTESFORMEl
Terra if fin
De terrors tight