A Fórmula de Deus
Capítulo XX
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
O Mercedes cruzou a cidade com enervante vagar, retido pela lenta e densa corrente do trânsito caótico de Teerã. Mergulharam no emaranhado tricotado de ruidosas artérias e atravessaram de novo a grande Praça Imam Khomeini, perdendo-se depois para além dela rumo ao labirinto de ruas que se estendia para leste. Tomás tudo perscrutava com nervosa ansiedade, os olhos saltitando para aqui e para ali, a atenção focando-se nos detalhes mais improváveis; em cada rosto e em cada carro pressentia uma ameaça, em cada voz e em cada buzinadela escutava um alarme, a cada paragem e a cada movimento adivinhava um assalto.
Parecia-lhe que o perigo espreitava de todos os cantos e várias vezes teve de repetir a si próprio que estava tudo bem, que era a sua imaginação que o fazia ver o que não existia. A verdade é que haviam traçado um plano e tudo corria como previsto. Antes de partirem tinham concluído que fazer a viagem de automóvel até Bandar-e Torkaman era bastante arriscado, uma vez que existia a possibilidade de as autoridades erguerem barreiras na estrada para localizar o fugitivo, pelo que optaram pelos transportes públicos. Tomás assumiu o papel de uma beata de chador que fizera voto de silêncio e ficou combinado que todos os contactos com terceiros seriam conduzidos através de Sabbar, o seu guia.
Em consonância com o plano previamente delineado, estacionaram o carro meia hora mais tarde, depois de terem vencido o confuso trânsito do fim do dia e atingido o seu destino imediato.
"Terminal e-shargh", anunciou Sabbar.
Era a estação de autocarros de leste. Tomás contemplou-a do outro lado da rua e não pôde deixar de a achar pequena, demasiado pequena para um terminal que, afinal de contas, servia toda a província de Khorasan e a região do mar Cáspio.
Atravessaram a rua, entraram no perímetro da estação e, cruzando um espaço apinhado de gente com malas e autocarros a roncar e gasóleo queimado e conversas animadas, dirigiram-se à bilheteira. O iraniano comprou dois bilhetes e fez a Tomás sinal para se despachar, o seu autocarro estava prestes a sair. Quando chegaram ao local da partida depararam com um veículo velho e sujo, pejado de camponeses, pescadores de pele morena e mulheres de chador.
Entraram no autocarro e o europeu teve dificuldade em reprimir um esgar enojado, embora o pudesse fazer à vontade, afinal de contas ninguém lhe podia ver o rosto. Havia pedaços de comida nos bancos e encontravam-se algumas jaulas de aves por entre os passageiros, aqui umas galinhas, ali uns patos, acolá uns pintos. No ar flutuava o aroma quente dos excrementos e alimentos de pássaros, ao qual se misturava um certo cheiro ácido de urina e transpiração humana e o odor nauseabundo a gasóleo queimado que pairava em toda a estação.
O autocarro partiu cinco minutos depois, eram seis da tarde em ponto. A camioneta meteu pela estrada aos solavancos, o tubo de escape a libertar uma grossa nuvem de fuligem negra, o motor roncando em fúria. O trânsito de Teerão permanecia o mesmo inferno de sempre, com manobras loucas, buzinadelas constantes e travagens bruscas. O autocarro levou quase duas horas a atravessar o que restava da cidade, mas, por fim, depois de muito parar e arrancar, a zona urbana ficou para trás e o fumarento veículo desfilou pelo tranquilo sopé das montanhas.
Foi uma viagem sem história, feita de noite em zona montanhosa, o percurso cheio de curvas e subidas e descidas, os faróis a iluminarem fugazmente o manto de neve acumulado nas bermas da estrada. Para vencer o enjoo das curvas e do aroma a gasóleo e a opressão claustrofóbica imposta pelo chador, Tomás abriu a janela e passou grande parte da viagem a respirar o ar frio e rarefeito das Alborz, o que deixou contrariados alguns companheiros de viagem, mais adeptos dos odores quentes e fortes do que das correntes geladas e puras.
Chegaram a Sari pelas onze da noite e foram alojar-se num pequeno hotel do centro, chamado Mosaferkhuneh. Sabbar pediu para que lhes fosse servida uma refeição nos quartos e recolheram-se ambos para passarem a noite. Sentado na cama a digerir um kebab, já sem chador, Tomás ficou a apreciar pela janela a povoação adormecida e, em particular, a curiosa torre branca com um relógio erguida no meio da Praça Sahat, mesmo ali em frente.
Apanharam pela manhã um autocarro rumo a Gorgan e, pela primeira vez, Tomás pôde apreciar a paisagem daquela região costeira à luz matinal do sol. Era totalmente diferente do que conhecera na zona de Teerão. Onde na capital se rasgavam montanhas escarpadas, se erguiam picos nevados e se prolongava a terra árida, aqui espalhava-se uma floresta luxuriante, densa, quase tropical, era uma verdadeira selva comprimida entre as montanhas pujantes e o lençol sereno do mar.
Atingiram Gorgan três horas depois e permaneceram na estação de autocarros local mais algum tempo, à espera da nova ligação. Tomás sentia o corpo moído de cansaço e tinha a paciência esticada até ao limite por aquele incomodativo chador. Para além do mais, o facto de Sabbar não falar inglês revelava-se um problema, havia uma barreira de comunicação entre os dois e o historiador não teve outro remédio senão passar todo o tempo em silêncio; não é que isso fosse em si um inconveniente, bem vistas as coisas era até uma vantagem, considerando que o mutismo fazia parte integrante do disfarce, mas o fato é que a inexistência de conversa lhe retirava um necessário escape para a tensão que ia acumulando.
Fazia calor na Praça Enqelab, onde se situava o terminal de Gorgan. O dia revelou-se quente e o
uso do abafado cbador agravava consideravelmente as coisas. Sem perceber como era possível viver dentro daqueles pesados trajos, Tomás teve de recorrer a todas as suas forças para se controlar; sentia por vezes uma vontade quase irresistível de despir o tecido infernal, de se livrar da vestimenta obscurantista que só o prendia e atrapalhava, de libertar o corpo e deixar-se inebriar por um banho de ar fresco e límpido. Mas resistiu aos sucessivos impulsos que o assaltaram e manteve o disfarce.
Apanharam transporte para o destino final ao princípio da tarde, o velho autocarro saltitando pelos buracos dos caminhos de terra abertos por entre a abundante vegetação da costa. Deambularam por trilhos e atalhos, o veículo sacudido por intermináveis solavancos, até que, ao fim de mais duas longas horas, vislumbraram os primeiros edifícios no termo daquele percurso, eram pequenas casas recortadas pelo azul profundo do mar Cáspio.
Bandar-e Torkaman.
A povoação era formada por casas baixas, quase monótonas, uma coisa sem graça de tão sensaborona; a insipidez da urbe seria, porém, compensada pelo aspecto pitoresco da população turcomana. Logo que desceram da camioneta, os dois forasteiros admiraram os homens e mulheres que por ali deambulavam em trajos típicos otomanos e ar enfadonhamente ocioso. O mercado estava aberto, mas os produtos eram pobres; o comércio limitava-se a algum peixe, umas roupas turcas e colecções de botas com aspecto tosco.
Sabbar questionou uma mulher que tricotava ao sol, sentada no degrau da entrada de casa. A
mulher ajeitou o lenço na cabeça e apontou o dedo rude e sujo para um ponto algures à esquerda.
"Eskele."
Caminharam ao longo de uma velha linha de caminhos-de-ferro, a madeira já apodrecida entre os carris, em direcção a uns depósitos de combustível. Sabbar seguia à frente, Tomás arrastava-se atrás, ofegante dentro do cada vez mais insuportável cbador. Passaram pelos depósitos, que exalavam o aroma forte de óleo e gasolina, e imobilizaram-se quando viram umas rudimentares estacas de madeira pregadas junto ao mar.
O porto de Bandar-e Torkaman.
Três barcos de pesca balouçavam suavemente nas águas tranquilas do Cáspio, o golfo de Gorgan estendendo-se atrás de si como uma imensa pintura impressionista. Pairava junto à praia um intenso odor a sal e maresia e pela superfície mansa do mar ecoava o grasnar melancólico das gaivotas. Era aquele perfume e aquele som que faziam daquele sítio um lugar familiar, Tomás nunca ali estivera mas era como se sempre ali tivesse estado, onde o mar cheirasse assim e onde as gaivotas cantassem desse modo era onde encontraria sempre a sua casa.
O historiador aproximou-se da água, amarrado ao pesado cbador, e, por entre o asfixiante rendilhado que lhe tapava a cara, tentou perceber o que cada embarcação tinha escrito no casco. O primeiro barco apresentava uns caracteres em árabe que o desesperaram; seria o nome que procurava, mas redigido em alfabeto árabe? Sabbar juntou-se a ele e leu o nome cravado na madeira.
"Anahita."
Não era este.
Tomás deu mais uma centena de passos e aproximou-se do segundo barco de pesca, um pequeno navio vermelho e branco, ancorado muito perto, com redes estendidas ao sol e gaivotas a pairar por cima. Procurou-lhe a escrita em caracteres árabes, mas desta vez não precisou da ajuda de Sabbar, pois no casco encontravam-se antes registados os familiares caracteres romanos.
Baku.
Era este.
Sem poder suportar mais o chador, Tomás despiu-o com impaciência, livrou-se daquele incômodo fardo e atirou-o para o chão. Sentiu a brisa marítima acariciar-lhe o rosto transpirado e despentear-lhe o cabelo revolto; cerrou os olhos e voltou a face para o céu, como se esperasse que a aragem lhe trouxesse um beijo. Aliviado, as narinas inalando o aroma salgado da redenção, os pulmões enchendo-se com a maresia fresca que flutuava no ar, os pés enlaçados na baba branca
depositada pela espuma da água, encarou aquele sopro do vento como se fosse o hálito puro de Deus, o murmúrio suave da natureza a acolhê-lo, um gesto mimado de doce ternura de mãe, sabia que era a liberdade que por fim o abraçava.
Passado aquele instante de êxtase, abriu os olhos, fixou o pesqueiro, formou uma concha com as palmas das mãos e colocou-as à frente da boca, como se fossem altifalantes.
"Ahooooy!", chamou.
A sua voz ecoou sobre o espelho plácido das águas e espantou as gaivotas. Muitas ergueram-se em sincronia, como uma nuvem escura e baixa, e desenharam um vigoroso saracoteado pelo céu, numa elegante coreografia; esvoaçavam num frenesim e responderam à voz humana com um grasnar nervoso, quase histérico, uma ponta de melancolia a colorir-lhes o timbre.
"Ahooooy!", insistiu.
Uma cabeça emergiu do convés do Baku.
"Chikar mikorim?.", perguntou o pescador lá ao longe.
Encorajado, Tomás encheu os pulmões de ar.
"Mohammed?"
O pescador hesitou.
"Ye lahze shabr konin", disse por fim, fazendo sinal a Tomás para que esperasse.
A cabeça do homem do barco desapareceu do convés. Tomás ficou ali especado a observar o barco de pesca, em silêncio, expectante, quase rezando para que as coisas corressem como previsto. O pesqueiro ondulava ao ritmo suave do mar, como um balanço, uma frágil casca embalada numa dança ronceira, um lento bailado pautado pelo grasnar melodioso e nostálgico das gaivotas e pelo marulhar tranquilo das águas que lambiam a areia no seu vaivém incansável.
O pescador reapareceu meio minuto depois, acompanhado de uma segunda cabeça. Desta vez foi o segundo homem que falou e fê-lo em inglês.
"Eu sou o Mohammed. Posso ajudá-lo?"
Tomás quase deu um pulo de alegria.
"Sim, pode", exclamou, a rir de alívio. "O senhor planeja ir a Meca?"
Mesmo à distância, o historiador viu Mohammed sorrir.
"Inch'Allah!”
XXI
A figura minúscula de Sabbar foi-se perdendo à distância, agora um mero ponto a afastar-se na praia, desaparecendo à medida que o barco de pesca cortava as águas escuras do Cáspio e rumava para o mar alto. As gaivotas adejavam baixo, escoltando a embarcação na vã esperança de lhes ser atirado mais algum peixe, mas os marinheiros não se compadeceram com as súplicas implícitas nos insistentes grasnares e permaneceram concentrados na navegação, as horas de ócio na brincadeira com as aves tinham definitivamente terminado.
Um vulto acercou-se de Tomás. O português pressentiu aquela presença e virou a cabeça para acolher o recém-chegado. Era Mohammed. O capitão do pesqueiro permaneceu um instante calado, também ele a contemplar a sombra distante de Sabbar a esfumar-se no areal. Mohammed era um azeri de barba grisalha, embora o seu aspecto bem tratado, com pele sedosa e unhas brancas impecavelmente aparadas, traísse o fato de que aquele não era nenhum pescador, mas antes um vivido homem da cidade.
"Foi por pouco", comentou Mohammed. "Mais um dia e íamo-nos embora, hem? Teve sorte em ainda nos encontrar por cá."
"Eu sei."
Fez um gesto na direção da praia enfim deserta, já abandonada por Sabbar.
"Aquele também é dos nossos?"
"Sabbar?"
"Sim. É também um homem nosso?"
Tomás abanou a cabeça.
"Não."
"Então quem é?"
"É um motorista."
"Um motorista?" Soergueu o sobronho. "Como assim? A sua identidade foi controlada?"
Tomás suspirou, fatigado.
"É uma longa história", disse. "Mas o Sabbar é uma de várias pessoas que me salvou a vida. Se não fosse ele, eu não estaria aqui."
Mohammed não teceu mais comentários sobre o assunto, embora fosse visível que não apreciava improvisações com desconhecidos; tratava-se de trabalho pouco profissional. Mas nada mais acrescentou, a verdade é que, profissional ou não, o seu passageiro lograra ali chegar em condições muito adversas e isso era algo que tinha de respeitar.
Permaneceram ambos plantados na ré, enchendo os pulmões e admirando a costa iraniana à luz baixa do ocaso. O cheiro a mar era aqui intenso. Uma brisa forte rumorejava baixinho, quase abafando o insistente grasnido das gaivotas e o incansável ruminar do motor. O céu adquiria tonalidades quentes sobre o azul-petróleo, mas era uma luz glacial que banhava a linha de costa, com a longa cadeia das Alborz a recortar o horizonte à direita, a neve relampejando no topo, e lá ao fundo o sol corria para beijar o Cáspio.
Caía a noite.
Sentindo o frio apertar na brisa que soprava de norte, o capitão do pesqueiro esfregou os braços com intensidade, num esforço inútil de gerar calor, até que se deu por vencido e fez meia-volta.
"Vou para dentro", anunciou. "De qualquer modo, está na hora de ligar o telefone e contactar a base."
"Vai falar para Baku, é?"
"Não, não."
"Então?"
"Langley."
A noite abatera-se sobre o Cáspio como um manto opressor, cercando o barco ronronante de um negro opaco, quase tenebroso, de uma escuridão tão profunda que se confundia com um abismo. Apenas uns ondulantes pontinhos luminosos emergiam da treva, no fio do horizonte, assinalando pesqueiros na faina ou navios a transportar carga e passageiros de uma margem para a outra.
Indiferente ao frio, Tomás demorou-se na proa; vivera três dias fechado num caixão de cimento e não era uma qualquer aragem gelada ou uma simples noite escura que o privariam agora de gozar a liberdade recuperada, de mergulhar a alma na imensidão do céu e encher os pulmões com o ar fresco que o vento lhe soprava à cara.
A porta da ponte abriu-se e um dos marinheiros que falava inglês acenou.
"Mister, venha cá", disse. "O capitão está a chamá-lo."
A ponte encontrava-se aquecida e bem iluminada, embora a nuvem de tabaco e o cheiro a cigarros fosse aqui insuportável. O marinheiro apontou para umas escadas apertadas e Tomás desceu para o piso inferior, desembocando numa salinha atarracada onde se encontrava Mohammed. O capitão tinha uns auscultadores nos ouvidos e um microfone diante de boca e comunicava através de um aparelho eletrônico instalado num buraco oculto na parede.
"Chamou-me?"
Mohammed viu-o e fez-lhe um gesto com a mão, convidando-o a sentar-se ao seu lado.
"Tenho Langley em linha."
O historiador acomodou-se no lugar enquanto o capitão terminava a sua comunicação, toda ela cheia de algarismos, mais fox trots e papa kilos. Quando concluiu, Mohammed tirou os auscultadores e estendeu-os a Tomás.
"Eles querem agora falar consigo", disse.
"Eles, quem?"
"Langley."
"Mas quem?"
"Bertie Sismondini."
"Quem é esse?"
"É o coordenador do Directorate of Operations encarregado do Irã."
Tomás colocou os auscultadores nos ouvidos e ajeitou o microfone diante de si. Afinou a voz, um pouco hesitante, e inclinou-se para a frente, como se assim o microfone o pudesse captar melhor.
"Hello?"
"Professor Norona?"
Era uma voz anasalada, muito americana, pronunciando mal o seu nome, como já era hábito entre os anglo-saxônicos.
"Sim, sou eu."
"Aqui Bertie Sismondini, sou o responsável pelas operações de intelligence gathering no Irã. Okay, antes de começarmos, deixe-me garantir-lhe que estamos a falar numa linha segura."
"Muito bem", disse Tomás, indiferente ao problema da segurança da linha que tanto parecia obcecar todo aquele pessoal da CIA. "Como está você?"
"Não muito okay, professor. Não muito okay."
"Então?"
"Professor, há alguns dias que o nosso principal agente em Teerã anda desaparecido. Ele era suposto efectuar uma operação muito delicada consigo e extraí-lo depois do país pelos meios que, de resto, o senhor está agora a utilizar. O que é fato é que o nosso homem deixou de dar notícias. Perdemos ainda o contato com um outro agente e, como se isso não bastasse, também o senhor andou desaparecido este tempo todo. Tenho aqui muita gente em pânico, inúmeras perguntas que me são feitas e nenhuma resposta para todas elas. Será que o senhor poderia ter a amabilidade de me explicar o que diabo aconteceu?"
"Quais são os dois agentes de que fala?"
"Receio que, por motivos de segurança, não lhe possa dizer os nomes."
"São Mossa e Babak?"
"Babak, okay. Mossa, não conheço."
"Ah, pois", lembrou-se Tomás. "Mossa era o nome que ele me deu, mas não era o nome verdadeiro." Refletiu. "Ouça lá, estamos a falar de um tipo grande, cheio de força, todo despachado?"
"Condiz."
"Não voltou a ter notícias deles?"
"Nada."
"Olhe, lamento dizer-lhe isto mas parece que o matulão morreu."
Fez-se um breve silêncio do outro lado da linha.
"Bagh... uh... ele morreu? Tem a certeza?"
"Não, não tenho a certeza. Vi-o aos tiros dentro do ministério e vi-o também ser acossado pelos iranianos no meio de vários disparos. Fui depois informado de que ele ficou ferido e faleceu mais tarde, já no hospital. Quanto ao Babak, olhe, não sei de nada."
"Mas o que aconteceu exatamente?"
Tomás deu uma explicação pormenorizada, relatando o sucedido dentro do ministério e tudo o que se passou depois na cadeia de Evin. Falou do seu resgate e contou tudo o que Ariana lhe revelara, mais o que a iraniana fizera para o ajudar a sair do país.
"Essa é uma rapariga e peras", comentou Sismondini no final. "Acha que ela aceitaria ser a nossa agente em Teerã?"
"O quê?", cortou Tomás, erguendo a voz. A idéia era alarmante. "Nem pense nisso!"
"Okay, okay", devolveu o americano do outro lado da linha, admirado com a reação peremptória. "Era só uma idéia, relax."
"Péssima idéia", insistiu o historiador, o tom um tudo-nada exaltado. "Deixem-na em paz, ouviram?"
"Okay, não se preocupe", voltou a assegurar.
O português sentiu-se subitamente muito irritado com a forma como os responsáveis da agência americana dispunham da vida dos outros em função dos seus interesses, não olhando a meios para obterem o que pretendiam. Já que ia embalado, Tomás aproveitou para tocar num assunto que trazia atravessado na garganta havia vários dias.
"Olhe", disse. "Eu tenho uma pergunta para vos fazer."
"Sim?"
"Vocês deram ordens ao... ao matulão para me matar em caso de sermos apanhados?"
"Como?"
"Quando estávamos prestes a ser capturados dentro do ministério, o Mossa quis que eu me injetasse com um veneno qualquer. Foram vocês que deram essa ordem?"
"Uh... bem, nós... nós temos procedimentos de segurança, não é?"
"Mas deram essa ordem?"
"Ouça, essa ordem existe para todas as operações de grande delicadeza política, de modo que..."
"Já vi que deram", concluiu Tomás. "O que eu queria agora saber é por que razão não fui avisado de que havia essa possibilidade em caso de captura?"
"Pela simples razão de que, se você conhecesse esse procedimento de segurança, jamais iria concordar em participar na operação."
"Pode ter a certeza."
"Mas, lamento dizer-lhe, isso tinha de ser feito em caso extremo. A vossa vida é, quer queira quer não, menos importante do que a segurança nacional dos Estados Unidos."
"Olhe que, para mim, não é."
"Tudo depende do ponto de vista", disse Sismondini. "Mas, se for a ver bem, o nosso homem em Teerã cumpriu à risca os procedimentos de segurança, não se deixando apanhar vivo."
"Bem, ele estava vivo quando foi capturado. O que aconteceu é que ele morreu depois."
"Para os efeitos em causa, é a mesma coisa. Se ele fosse interrogado vivo era uma catástrofe. Os iranianos arranjariam maneira de lhe extrair toda a informação e a nossa operação em Teerã ficaria gravemente comprometida. Daí a nossa ansiedade em saber o que aconteceu. E olhe que iriam fazer o mesmo consigo."
"Mas não fizeram."
"Por causa da sua amiga, graças a Deus", concluiu o americano. "Desculpe, espere um segundo." Mudou de tom, parecendo hesitante, como se alguém lhe estivesse a sussurrar alguma coisa ao ouvido. "Oiça, obrigado pelas suas informações, foi muito útil... uh... agora tenho... tenho aqui mais uma pessoa para falar consigo, okay?"
"Está bem."
"Só um momento."
Ouviram-se uns sons estranhos na linha, depois veio música, era evidente que a ligação estava a ser transferida; instantes mais tarde apareceu de novo alguém.
"Hello, Tomás."
O português reconheceu aquela voz rouca e arrastada, usada num tom traiçoeiramente calmo, carregado de ameaças e de uma mal dissimulada agressão.
“Mister Bellamy?"
"You're a fucking genius."
Era evidentemente Frank Bellamy, o responsável do Directorate of Science and Technology.
"Como está, mister Bellamy?"
"Nada contente. Nada contente mesmo."
"Então?"
"Você falhou."
"Eh, alto lá! Não é bem assim..."
"Você tem o manuscrito consigo?"
“Não."
"Você leu o manuscrito?"
"Uh... não, mas..."
"Então você falhou", atalhou Bellamy, a voz carregando o mesmo gelo tenso de sempre. "Os parâmetros da sua missão não foram cumpridos. Você falhou."
"Não é bem assim."
"Então como é?"
"Em primeiro lugar, a responsabilidade pela operação de furto do manuscrito não era minha. Não sei se sabe, eu não sou um operacional da sua maldita agência nem fui treinado para andar armado em assaltante. Se a operação falhou é porque o vosso homem não foi suficientemente competente para a levar a cabo com sucesso."
"Fair enough", aceitou o responsável da CIA. "O meu colega do Directorate of Operations vai ouvir das boas."
"Em segundo lugar, tenho uma pista sobre o paradeiro do professor Siza."
"Is that so?”
"Sim. É o nome de um hotel."
"Qual hotel?"
"Hotel Orchard."
Bellamy fez uma pausa, como se estivesse a tomar nota.
"Or... chard", disse lentamente. "E isso é onde?"
"Não sei. Apenas tenho esse nome."
"Muito bem, vou mandar verificar."
"Faça isso", assentiu Tomás. "Em terceiro lugar, e embora eu não tenha sido autorizado a ler o manuscrito de Einstein, sei que os iranianos estão perplexos com ele e não sabem como interpretá-lo."
"Tem a certeza?"
"Sim, foi o que eles me disseram."
"Quem?"
"Como?"
"Quem foi o iraniano que lhe disse que estavam todos perplexos com o manuscrito?"
"Ariana Pakravan."
"Ah, a beldade de Isfahan." Fez uma pausa. "Ela é mesmo uma deusa na cama?"
"Perdão?"
"Você ouviu-me."
"Nem me vou dignar a responder a essa pergunta tonta."
Bellamy soltou uma gargalhada.
"Hmm... sensível, uh? Já vi que está apaixonado..."
Tomás fez um estalido impaciente com a língua.
"Ouça lá", protestou. "Você quer ouvir o que eu tenho para lhe dizer ou não?"
O americano mudou de tom.
"Go on."
"Uh... onde ia eu?"
"Dizia você que os iranianos estavam perplexos com o documento."
"Ah, sim", exclamou Tomás, retomando o fio à meada. "Pois, eles ficaram perplexos com o que leram e, pelos vistos, não sabem o que pensar do texto. Pelo que percebi, os iranianos acreditam que a chave para a interpretação do manuscrito se encontra encerrada em duas mensagens cifradas deixadas por Einstein."
"Sim..."
"E acontece que eu tive acesso às duas mensagens. Tenho-as aqui comigo."
"Hmm-hmm."
"E já decifrei uma."
Fez-se um curto silêncio.
"O que é que eu tenho dito?", exclamou Bellamy. "You're a fucking genius!"
Tomás riu-se.
"Eu sei."
"E o que revela essa mensagem já decifrada?"
"Uh... para falar com toda a franqueza, não percebi bem."
"O que quer dizer com isso? Ou decifrou ou não decifrou."
"Sim, decifrei", confirmou.
Na verdade, não tinha sido apenas Tomás a decifrar o poema, uma vez que Ariana também esteve envolvida no trabalho, mas o criptanalista achou melhor omitir esse pormenor; algo lhe dizia que Bellamy perderia as estribeiras se soubesse que a responsável iraniana pelo projecto Die Gottesformel se encontrava ao corrente de tudo.
"Então?", quis saber o americano. "Em que ficamos?"
"O que eu quero dizer é que me dá a impressão de que a mensagem constitui, ela também, uma charada", explicou o criptanalista. "É como uma holografia, entende? Dentro de uma mensagem enigmática esconde-se uma outra mensagem enigmática. Por mais que decifremos as mensagens, aparece sempre uma outra por baixo."
"O que quer? O rabo lavado com água-de-colônia?"
"Perdão?"
"Estou a perguntar o que quer você? Ter a papinha toda feita, é? Não se esqueça de que o autor desse documento é o homem mais inteligente que já viveu no nosso planeta. Como é evidente, as suas charadas terão de ser de grande complexidade, não acha?"
"Pois, se calhar tem razão."
"Claro que tenho razão." Impacientou-se. "Mas diga-me lá o que diz essa fucking mensagem que você já decifrou."
"Espere um momento."
Tomás apalpou o bolso do casaco, subitamente apreensivo, mas, para seu grande alívio, sentiu a folha dobrada justamente no sítio onde a tinha deixado. Os guardas prisionais de Evin podiam ser uns grandes sádicos, mas pelo menos respeitaram ciosamente as suas posses. Ou talvez não esperassem que ele se escapasse antes de passarem tudo a pente fino, quem sabe? Fosse como fosse, a verdade é que a folha com as charadas tinha sobrevivido ao cativeiro.
"Não me vai fazer esperar, pois não?", perguntou Bellamy, crescentemente impaciente no outro lado da linha.
"Não, não, já aqui está", disse Tomás, desdobrando a folha. "Tenho aqui a charada."
"Leia-me lá isso, homem."
O historiador passou os olhos pelas linhas rabiscadas.
"Bem, a charada que decifrei era um poema que se encontrava na primeira página do manuscrito, mesmo por baixo do título."
"Uma espécie de epígrafe?"
"Sim, isso. Uma epígrafe."
"E o que dizia o poema?"
"Era uma coisa um pouco tenebrosa", observou Tomás. "Vou ler." Afinou a voz. "Terra if fin, de terrors tight, Sabbath fore, Christ nite."
"Jesus Christ!”, exclamou Bellamy. "Sabe que eu já li isso? O nosso homem em Teerã mandou-nos esse poema há uma ou duas semanas."
"Pois, fui eu quem lhe deu o texto."
"São uns versos sombrios, não acha? Parece o anúncio do Apocalipse..."
"Parece, não parece?"
"O que quer que Einstein tenha inventado, deve dar uma explosão dos diabos!", adiantou. "Damn it! Vamos ter mesmo de intervir militarmente."
"Bem, mas eu já decifrei a mensagem escondida nestes versos."
"Conte-me."
Tomás passou os olhos pelas linhas em baixo, com o texto transcrito para alemão.
"Descobri que se tratava de um anagrama. Por dentro do poema em inglês encontra-se uma mensagem em alemão."
"Ah, sim? Isso é muito interessante."
"A mensagem diz o seguinte." Parou um instante, para se ajustar ao sotaque alemão. "Raffiniert ist der Herrgott, aber boschaft ist er nicht."
Fez-se uma nova pausa do outro lado da linha.
"Pode repetir?", pediu Bellamy, a voz alterada.
"Raffiniert ist der Herrgott, aber boschaft ist er nicht", voltou Tomás a ler. "Isto quer dizer o seguinte." Procurou a linha com a tradução. "Sutil é o Senhor, mas malicioso Ele não é."
"Isso é incrível!", exclamou Bellamy.
Tomás estranhou o entusiasmo do seu interlocutor.
"Bem, é de facto surpreendente..."
"Surpreendente? Isso... isso é uma coisa muito estranha! Ainda me custa a acreditar."
"Pois, é uma frase um pouco misteriosa, é. Sabe, talvez nós..."
"Você não está a entender", cortou o homem da CIA. "Eu já ouvi essa frase da boca do próprio Einstein."
"Como?"
"Em 1951, durante o encontro em Princeton com o então primeiro-ministro de Israel, Einstein proferiu exatamente essa frase. Eu estava lá e ouvi tudo." Uma pausa. "Uh... deixe cá ver... devo... devo ter isso por aqui." Ouviram-se uns ruídos na linha e, instantes depois, a voz rouca de Bellamy voltou. "Ora aqui está."
"O quê?"
"Tenho aqui a transcrição da conversa de Einstein e Ben Gurion. A determinada altura, a conversa entre os dois virou para alemão. Deixe cá ver..." Sons de páginas a serem reviradas. "Deixe cá ver..." Mais páginas. "Ora aqui está. Quer ouvir?"
"Sim, sim."
"Disse Einstein." Bellamy afinou a voz. "Raffiniert ist der Herrgott, aber boshaft ist er nicht." Mudou o tom. "Ao ouvir isto, Ben Gurion perguntou." Mais uma pausa. "Was wollen Sie damit sagen?” Nova mudança de tom. "E Einstein respondeu." Outra pausa. "Die Natur verbirgt ihr Geheimnis durch die Erhabenheit ihres Wesens, aber nicht durch List.”
"O que diabo quer isso dizer?"
"Tenho aqui a tradução. Einstein disse." Mudou mais uma vez o tom de voz, como se imitasse o cientista. "Sutil é o Senhor, mas malicioso Ele não é."
"Isso já eu sei."
"Calma. Ao ouvir essa frase, Ben Gurion perguntou-lhe." Voltou a mudar o tom de voz, agora a imitar o antigo primeiro-ministro de Israel. "O que quer o senhor dizer com isso?" Nova pausa. "Einstein respondeu." Mudança de sotaque. "Die Natur verbirgt ihr Geheimnis durch die Erhabenheit ihres Wesens, aber nicht durch List.'''
Tomás sentiu-se explodir de ansiedade.
"Sim, já percebi. Mas o que quer isso dizer?"
Frank Bellamy sorriu, divertido por fazer esperar o português e por acicatar a sua curiosidade. Pousou de novo os olhos na tradução e leu enfim a frase final proferida cinquenta e cinco anos antes por Albert Einstein.
"A Natureza esconde o seu segredo devido à sua essência majestosa, nunca por ardil."
XXII
Ao ver Coimbra emergir à esquerda da auto-estrada, como um castelo erguido sobre uma montanha de cal, Tomás Noronha sentiu-se à beira de gritar de alívio. A velha cidade resplandecia ao lado do Mondego, cortejada por um sol alegre e pela aragem amena que deslizava pelo rio; as fachadas brancas e os telhados cor de tijolo do casario emprestavam-lhe um certo toque familiar, acolhedor, quase como se o burgo fosse a sua casa. Na verdade, percebeu, em nenhum sítio se sentia tão bem como ali, era aquele o seu lar, era como se aquela terra e aquelas casas lhe abrissem os braços para o acolherem num aconchego protector de mãe.
O recém-chegado tinha passado os últimos dias em viagem. Primeiro atravessou o mar Cáspio em direção a norte, até aportar em Baku. Na capital do Azerbaijão, Mohammed tratou de lhe arranjar um lugar no primeiro Tupolev que voava com destino a Moscovo, para onde seguiu de imediato. Pernoitou num belo hotel do centro da cidade, junto ao Kremlin, e abandonou a capital russa na manhã seguinte. Atravessou toda a Europa até aterrar em Lisboa, ao princípio da tarde desse dia. Em circunstâncias normais teria ido direito para casa, já tinha tido a sua conta, vinha exausto e com os nervos no limite, mas havia o problema do estado de saúde do pai e estava fora de questão não o ir ver imediatamente.
Ainda no aeroporto de Lisboa comprou um postal e remeteu-o a Ariana com uma mensagem simples. Anunciou-lhe que tinha chegado em segurança, mandou-lhe saudades e assinou Samot, o seu nome ao contrário, um pequeno truque de criptanalista para o caso de aquele correio vir a ser interceptado pela VEVAK ou por qualquer outro dos vários poderes vigentes no Irã.
Em bom rigor, sabia que teria em breve de se dedicar ao problema de Ariana. A iraniana permanecia presente no seu espírito, sobretudo depois daquilo que fizera para o libertar, um ato que, percebeu Tomás, só podia ter um significado. Era uma prova de amor. Desde que a deixara para trás que as suas feições perfeitas lhe enchiam os sonhos, a memória assaltada por aqueles magnéticos olhos cor de caramelo, os lábios sensuais entreabrindo-se melancolicamente como
pétalas carmesim iluminadas pelo sol; a ternura brotada do seu rosto fino invadia-lhe os sentidos, as formas esguias do corpo alto e esbelto enchiam-no de voluptuoso desejo, mas do que mais sentia falta era das conversas embaladas ao ritmo melódico da sua voz tranquila. A verdade, constatou sem surpresa, a verdade é que tinha saudades de Ariana, habituara-se à sua doce companhia, cultivara o gosto de lhe cheirar o perfume e sentir a presença serena, aquela era uma mulher com a qual seria capaz de falar até perder a noção do tempo, até os minutos se fazerem horas, até as palavras se tornarem beijos.
Mas ainda era cedo para decidir o que fazer com os seus sentimentos por Ariana. A prioridade, para já, era ver o pai. Depois teria ainda de resolver um outro problema, o da CIA. Tomás sabia que precisava de arranjar maneira de cortar com a sua indesejada ligação à agência americana, encontrava-se farto de joguinhos e de se ver reduzido a um mero instrumento nas mãos de gente sem escrúpulos.
Era hora de se tornar de novo senhor de si mesmo.
Graça Noronha soltou um guincho quando abriu a porta e viu o filho sorrir-lhe.
"Tomás!", gritou, abrindo os braços. "Já voltaste!"
Abraçaram-se.
"Está tudo bem, mãe?"
"Vai-se andando", disse ela. "Entra, filho, entra."
Tomás invadiu a sala.
"O pai?"
"O teu pai foi ao hospital para o tratamento. Daqui a bocado devem estar a trazê-lo."
Acomodaram-se ambos no sofá.
"Como é que ele anda?"
"Menos revoltado, coitadinho. Houve uma altura em que andava impossível. Isolava-se um pouco e, quando abria a boca, era para protestar contra tudo e contra todos. Dizia que o doutor Gouveia não prestava para nada, que os enfermeiros eram uns brutos, que o Chico da Pinga é que devia ter apanhado a doença... enfim, um martírio!"
"Já não está assim?"
"Não, felizmente não. Mostra-se mais conformado, dá-me a impressão de que ele começou a aceitar melhor as coisas."
"E o tratamento? Está a resultar?"
Graça encolheu os ombros.
"Oh, sei lá!", exclamou. "Já nem digo nada."
"Então?"
"O filho, o que queres que eu te diga? A radioterapia é uma coisa chata, percebes? E o pior é que não o vai curar."
"E ele sabe disso?"
"Sabe."
"E como está a reagir?"
"Tem esperança. Tem a esperança que qualquer paciente e qualquer familiar de um paciente tem nestas circunstâncias, não é?"
"A esperança de quê? De se curar?"
"Sim, a esperança de que apareça uma coisa nova que resolva o problema. A história da medicina está cheia de casos desses, não está?"
"É", assentiu Tomás, sentindo-se igualmente impotente. "Vamos esperar que aconteça alguma coisa."
A mãe pegou-lhe nas mãos.
"E tu? Estás bem?"
"Sim, estou."
"Não mandaste notícias nenhumas! Nós aqui todos ralados e o menino sem dizer nada, nem água vai, nem água vem."
"Ora, sabe como é, o trabalho..."
Dona Graça afastou-se um passo e analisou Tomás da cabeça aos pés.
"Além disso, estás muito magro, filho. Que porcarias andaste tu a comer no deserto?"
"No Irã, mãe."
"Ora, é a mesma coisa! Isso não é lá no deserto, onde andam os camelos?"
"Não, não é", explicou ele, enchendo-se de paciência para lidar com as confusões geográficas da mãe. "O Irã é para aqueles lados, de facto, mas não é no deserto."
"Não interessa", disse ela. "A verdade é que vens escanzelado que nem um carapau, valha-me Deus! Os beduínos não te deram nada de jeito para comer?"
"Uh... sim, comi bem."
A mãe mirou-o com ar incrédulo.
"Então como é que vens assim tão magro, hã? Credo, parece que vieste do Biafra!"
"Quer dizer, houve dias em que comi muito mal..."
Graça ergueu a mão direita.
"Ah! Bem me queria parecer! Bem me queria parecer! Tens a mania de te meter nas bibliotecas e nos museus dias a fio, esqueces-te de almoçar... e depois... depois... " Fez um gesto na direção de Tomás, como se exibisse uma prova em tribunal. "Depois é isto!"
"Pois, se calhar foi isso, foi." Deu-lhe vontade de rir. "Esqueci-me de almoçar."
A senhora levantou-se, decidida.
"Espera aí! Vou-te pôr mais gordinho que um leitão da Bairrada em dia de matança, ou eu não me chame Maria da Graça Rosendo Noronha!", exclamou, virando-se para sair da sala. "Tenho ali um ensopado de borrego que está um mimo, ouviste? Um mimo! É de chorar por mais, vais ver." Fez-lhe sinal para a seguir. "Ora anda daí, vem aqui à cozinha, vem."
O borrego ia a meio, regado por um frutado tinto do Douro, quando o telemóvel tocou.
"Mister Norona?"
Tomás rolou os olhos. O sotaque era inconfundivelmente americano, o que só podia significar que a CIA não o largava.
"Sim, sou eu."
"Daqui fala do gabinete do Directorate of Science and Technology da Central Intelligence Agency, em Langley, USA. Um momento, por favor. Esta é uma linha segura e o senhor diretor quer falar consigo."
"Está bem."
Uma música encheu o telemóvel enquanto a chamada era transferida.
"Hello Tomás. Daqui Frank Bellamy."
Com a sua característica voz rouca e arrastada, a apresentação era redundante, Bellamy não precisava de se anunciar para ser logo identificado.
"Hi, mister Bellamy."
"Os rapazes da agência trataram bem de si?"
"Só a partir do mar Cáspio, mister Bellamy. Só a partir do mar Cáspio."
"Ah, é? Tem alguma queixa antes do mar Cáspio?"
"Nada de especial", ironizou o português. "Apenas o fato do vosso gorila em Teerã ter tentado injetar-me com veneno."
Bellamy riu-se.
"Considerando o que se passou a seguir, ainda bem que você não o deixou", disse. "Já viu? Se ele o tivesse neutralizado, jamais poderíamos saber as coisas que você nos contou. A nossa busca teria entrado num beco sem saída."
"Obrigado por se preocupar com o meu bem-estar", devolveu Tomás com acidez. "Fico tocado, sim senhor."
"É, eu sou um sentimental. Só penso na sua saúde."
"Já tinha reparado."
O americano pigarreou.
"Ouça, Tomás, a razão pela qual lhe estou a ligar tem a ver com aquela pista que você me passou."
"Qual pista?"
"A do Hotel Orchard."
"Ah, sim."
"Bem, estivemos a fazer uma pesquisa e descobrimos que existem centenas de hotéis com o nome Orchard em todo o mundo. Eles estão em Singapura, em São Francisco, em Londres... uh, em toda a parte, na verdade. Isto assim é como procurar uma agulha no palheiro."
"Estou a entender."
"Não tem nenhum dado adicional que nos possa ajudar?"
"Não", disse Tomás. "Tudo o que sei é que existe uma ligação entre o Hotel Orchard e o professor Siza. Não sei mais nada."
"Bem... isso assim é muito vago", considerou o americano. "Vamos continuar a procurar, claro. O problema é que, deste modo, iremos levar anos, não é?"
"Compreendo, mas não posso fazer nada."
"Quem é que lhe deu essa informação?"
"Ariana Pakravan."
"Hmm", murmurou Bellamy, considerando o caso. "E podemos confiar nela?"
"Em que sentido?"
"No sentido de que falou a verdade."
"Bem, foi ela que me salvou, não é? Se não fosse ela, eu não estava aqui a falar consigo. Presumo que tenha dito a verdade..."
"I see. E acha que dá para nós a contactarmos?"
"A quem? À Ariana?"
"Sim."
"Nem pense nisso!"
"Porquê? Se o ajudou a si é porque não está necessariamente do lado deles."
"Ela ajudou-me porque me quis ajudar. Não foi um ato político. Foi um ato... uh... pessoal."
Bellamy calou-se uma fração de segundo.
"Já vi que você foi mesmo para a cama com ela."
"Não me venha outra vez com essa conversa."
O americano riu-se.
"Ela é assim tão boa como dizem?"
Tomás rolou os olhos, impaciente.
"Ouça, foi para me dizer isso que me ligou?"
"Liguei-lhe porque preciso de mais do que você me deu."
"Não tenho mais."
"Mas ela tem."
"Ela é iraniana e está do lado do seu país. Se vocês forem ter com ela, ela vai relatar tudo aos seus superiores."
"Você acha?"
"Tenho a certeza."
"O que o leva a dizer isso?"
"O fato de ela se ter recusado a revelar-me pormenores sobre o programa nuclear iraniano. Ela nem sequer me disse qual o conteúdo do manuscrito de Einstein..."
Bellamy hesitou e Tomás quase suspendeu a respiração, à espera da decisão no outro lado da linha. O historiador acreditava agora que este era o único argumento que poderia travar os americanos. Ou os convencia de que Ariana permanecia leal ao regime de Teerã, ou então a CIA iria incomodá-la, colocando-a em perigo.
"Hmm... está bem", aceitou Bellamy. "Parece-me que só nos resta então vasculhar os hotéis, uh?"
"Sim, é melhor."
"E você? Já fez progressos com a segunda cifra?"
"Uh... justamente, eu... eu quero ver se me desligo deste caso. Sabe, já tive a minha dose e não quero..."
"Isso é que era bom!"
"Perdão?"
"Ninguém sai deste caso até ele estar resolvido, entendeu?", vociferou Bellamy, num tom que não admitia discussão. "Você vai cumprir tudo até ao fim."
"Mas, ouça, eu já não..."
"Aqui não há mas nem meio mas! Você está envolvido numa missão de elevada importância e irá levá-la a bom termo, custe o que custar, doa a quem doer. Estou a ser claro?"
"Desculpe, mas eu..."
"Estou a ser claro?"
"Sim... uh... só que eu..."
"Você ouça-me e ouça-me bem", rugiu o americano, muito agreste, quase soletrando as palavras. "Você vai desempenhar o seu papel até à perfeição. Nem lhe vou explicar o que lhe irá acontecer se hesitar mais um momento que seja. Mas que fique bem claro que o quero a trabalhar neste caso a cem por cento, ouviu?"
"Bem... uh...."
"Ouviu?"
Tomás sentiu-se derrotado, o tom agressivo do homem da CIA não lhe deixava qualquer margem de manobra.
"Sim."
"E outra coisa", acrescentou, sempre feroz. "Nós estamos numa corrida contra-relógio. Precisamos de saber exatamente o que diz o manuscrito, para podermos atuar. Se você demorar muito tempo a deslindar a chave do documento, não teremos outra alternativa que não seja avançar e contactar a sua amiga. O fato é que ela sabe coisas que nós precisamos de saber. A segurança nacional do meu país está em causa e não olharei a meios para a salvaguardar, entendeu? Utilizaremos todos os métodos que forem necessários para lhe extrair a informação de que necessitamos. E quando eu digo todos os métodos, quero mesmo dizer todos, incluindo aqueles que você está a pensar." Fez uma pausa, como quem não tem mais nada para dizer. "Portanto, eu aconselhá-lo-ia a despachar-se."
Desligou sem mais.
Tomás ficou um longo instante a olhar para o telemóvel mudo nas mãos, reconstituindo a conversa, avaliando as suas opções. Depressa concluiu que não as tinha e só lhe ecoava na mente uma única expressão para caracterizar Frank Bellamy.
"Filho da puta."
Um enfermeiro trouxe Manuel Noronha a casa. O pai de Tomás veio cansado, após mais uma sessão de radioterapia, e foi deitar-se. A mulher levou-lhe uma sopa ao quarto e, enquanto comia, viu o filho abeirar-se da cama.
Para preencher o silêncio, apenas interrompido pelo som do pai a comer a sopa, Tomás relatou-lhe parte do que vira em Teerão, omitindo, como era natural, a sua verdadeira missão na capital iraniana e os acontecimentos dos últimos dias. Quando acabou, a conversa divagou inevitavelmente para a doença. O matemático terminou a sopa e, na altura em que a mulher saiu do quarto, pediu ao
filho para se aproximar e fez-lhe uma confissão.
"Fiz um pacto", murmurou, quase conspirativo.
"Um pacto? Que pacto?"
Manuel espreitou a porta e pôs o indicador diante dos lábios.
"Chiu", soprou. "A tua mãe não sabe de nada. Nem ela, nem ninguém."
"Está bem, eu não digo nada."
"Fiz um pacto com Deus."
"Com Deus? Mas o pai nunca acreditou em Deus..."
"E não acredito", confirmou o matemático. "Mas fiz na mesma um pacto com Ele, não se vá dar o caso de Ele existir mesmo, não é?"
Tomás sorriu.
"Bem pensado."
"Então é assim. Prometi fazer tudo o que os médicos me mandarem fazer. Tudo. Em troca, só lhe peço que me deixe viver até eu ter um novo neto."
"Oh, pai."
"Ouviste? Portanto, toca a pôr os pés ao caminho, arranjar uma miúda jeitosa e, pimba, fazeres-lhe um filho. Não quero morrer sem ver o meu neto."
Tomás controlou a careta aborrecida que lhe apeteceu fazer nesse momento. O facto é que o pai estava doente e não o podia contrariar por causa de uma coisa daquelas.
"Pronto, está bem, eu vou ver se trato do assunto."
"Prometes?"
"Prometo."
Manuel respirou fundo e deixou cair a cabeça para trás, como se o tivessem libertado de um fardo.
"Ainda bem."
Fez-se silêncio.
"O pai como está?"
"Como é que haveria de estar?", murmurou o paciente, a cabeça enterrada na almofada. "Tenho uma doença a consumir-me as entranhas e não sei se vou viver uma semana, um mês, um ano ou dez anos. Isto é horrível!"
"Tem razão, é horrível."
"Às vezes acordo com a esperança de que tudo isto não tenha passado de um pesadelo, de que, ao acordar, descubra que afinal está tudo bem. Mas, ao fim de alguns segundos, percebo que não foi
nenhum pesadelo, é a realidade." Abanou a cabeça. "Não sabes como isso custa, acordar com esperança e perdê-la logo a seguir, como se alguém estivesse a brincar connosco, dando-nos o futuro num momento e tirando-o logo a seguir, como se a vida fosse um brinquedo e eu uma criança. Há manhãs que dou comigo a chorar..."
"Não fique triste..."
"Como, não fico triste? Então estou no processo de perder tudo, de perder toda a gente de quem gosto, e não posso ficar triste?"
"Mas o pai está sempre a pensar nisso, é?"
"Não, só às vezes. Há algumas manhãs em que penso na morte, mas esses instantes são mais excepcionais. A verdade é que, na maior parte do tempo, procuro sobretudo concentrar-me na vida. Enquanto viver, tenho sempre a esperança de viver, percebes?"
"Há que pensar positivo, não é?"
"É isso. Da mesma maneira que não conseguimos estar sempre a olhar para o sol, também não conseguimos estar sempre a pensar na morte."
"Além do mais, pode ser que se arranje uma solução."
O pai olhou-o com um brilho singular.
"É isso, pode ser que aconteça alguma coisa", exclamou. "Nos momentos de maior desespero, agarro-me sempre a esse pensamento." Fez uma pausa. "Sabes qual é o meu sonho?"
"Hmm."
"Eu estou nos Hospitais da Universidade de Coimbra e o doutor Gouveia senta-se ao meu lado e diz: professor Noronha, tenho aqui um novo medicamento que acabou de chegar da América e que parece estar a dar um resultadão por lá. Quer experimentar?" Calou-se, os olhos vidrados no infinito, como se vivesse esse sonho nesse mesmo instante. "Ele dá-me o medicamento e, dias depois, vamos fazer um TAC e ele aparece à minha frente aos gritos: desapareceu! A doençadesapareceu! As metástases sumiram-se!" Sorriu. "É esse o meu sonho."
"Pode acontecer."
"Pois pode. Pode acontecer. Aliás, o doutor Gouveia contou-me que há muitas histórias assim, relativas a doenças que antes não tinham cura. Pessoas à beira do fim experimentaram um medicamento novo e, tumba, ficaram boas enquanto o diabo esfrega um olho." Bocejou. "Já aconteceu."
Fez-se silêncio.
"O pai há pouco falou em Deus."
"Sim."
"Mas o pai é um homem de ciência, um matemático, e nunca acreditou que Deus existisse.
Agora, no entanto, já faz pactos com Ele..."
"Bem... uh... em bom rigor, é preciso dizer que eu não posso assegurar que Deus existe ou que não existe. Digamos que sou agnóstico, não tenho certezas sobre a Sua existência ou inexistência."
"Porquê?"
"Porque não conheço provas da existência de Deus, mas, sabendo o que sei sobre o universo, também não tenho a certeza de que Ele não exista." Tossiu. "Sabes, há uma parte de mim que é atéia. Sempre me pareceu que Deus não passa de uma criação humana, de uma maravilhosa invenção que nos conforta e que preenche convenientemente lacunas do nosso conhecimento. Por exemplo, uma pessoa vai a passar numa ponte e a ponte cai. Como ninguém sabe por que razão a ponte caiu, todos atribuem esse fato à vontade divina." Encolheu os ombros, imitando um ar resignado. "Foi Deus que fez isso." Tossiu. "Mas hoje, com os nossos conhecimentos científicos, já sabemos que a ponte caiu, não devido a um acto de Deus, mas porque houve erosão nos materiais, ou erosão no solo, ou peso a mais para aquela estrutura, enfim, há uma explicação verdadeira que não tem origem divina. Percebes? É isto o que se chama o Deus-das-lacunas. Quando ignoramos algo, invocamos Deus e a coisa fica explicada, quando, na verdade, existem outras explicações mais verdadeiras, embora possamos não as conhecer."
"Acha que não é possível uma intervenção do sobrenatural?"
"O sobrenatural é aquilo que nós invocamos quando desconhecemos uma coisa natural. Antigamente, uma pessoa adoecia e dizia-se: está possuído pelos maus espíritos. Hoje, a pessoa adoece e nós dizemos: está possuído por bactérias ou por vírus ou por outra coisa qualquer. A doença é a mesma, o nosso conhecimento sobre as suas causas é que mudou, percebes? Quando desconhecíamos as causas, invocávamos o sobrenatural. Agora que as conhecemos, invocamos o natural. O sobrenatural não é mais do que uma fantasia alimentada em torno do nosso desconhecimento sobre o natural."
"Então não há sobrenatural."
"Não, há apenas o natural que nós desconhecemos. O ateu que há em mim aceita que não foi Deus que criou o homem, mas o homem que criou Deus." Fez um gesto que abarcou todo o quarto. "Tudo o que nos rodeia tem uma explicação. Acredito que as coisas se regem por leis universais, absolutas e eternas, onipotentes, onipresentes e oniscientes."
"Um pouco como Deus..."
O pai riu-se baixinho.
"Sim, se quiseres. É verdade que as leis do universo têm os atributos que nós geralmente relacionamos com Deus, mas isso acontece por razões naturais, não por razões sobrenaturais."
"Como assim?"
"As leis do universo têm esses atributos porque é essa a sua natureza. Por exemplo, elas são absolutas porque não dependem de nada, afectam os estados físicos mas não são afetadas por eles. São eternas porque não mudam com o tempo, eram as mesmas no passado e continuarão certamente a ser as mesmas no futuro. São omnipotentes porque nada lhes escapa, exercem a sua força em tudo o que existe. São onipresentes porque se encontram em qualquer parte do universo, não há umas leis que se aplicam aqui e outras diferentes que se aplicam ali. E são oniscientes porque exercem automaticamente a sua força, não precisam que os sistemas as informem da sua existência."
"E de onde é que vêm essas leis?"
O matemático esboçou um sorriso de garoto.
"Agora é que me apanhaste."
"Então?"
"A origem das leis do universo constitui um grande mistério. É verdade que essas leis têm todos os atributos que normalmente nós conferimos a Deus." Tossiu. "Mas, atenção, o fato de não conhecermos a sua origem não implica necessariamente que elas provenham do sobrenatural." Ergueu um dedo. "Lembra-te que usamos o sobrenatural para explicar o que ainda não sabemos, mas que tem uma explicação natural. Se usarmos o sobrenatural de cada vez que não sabemos algo, estamos a recorrer ao Deus-das-lacunas. Daqui a algum tempo descobrir-se-á a verdadeira causa e nós fazemos figura de parvos. A Igreja, por exemplo, fartou-se de usar o Deus-das-lacunas para explicar coisas que antigamente não tinham explicação, e depois sofreu o enorme embaraço de ter de se desdizer quando foram feitas descobertas que desmentiam a explicação divina. Copérnico, Galileu, Newton e Darwin são os casos mais conhecidos." Tossiu. "De qualquer modo, Tomás, a questão da origem das leis do universo constitui algo que não conseguimos explicar. Aliás, existe um determinado número de propriedades do universo que me impedem de afirmar liminarmente que Deus não existe. A questão da origem das leis fundamentais é uma delas. A sua existência serve para nos lembrar que se esconde um grande mistério por detrás do universo."