A Fórmula de Deus

José Rodrigues dos Santos · Capítulo 5 de 7 · parte 1/3

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A Fórmula de Deus

Capítulo XXVII

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

 

A manhã ia adiantada e, talvez pela vigésima vez em apenas uma hora, Tomás contemplou a folha de papel e imaginou uma nova estratégia para quebrar a charada. Mas o enigma permanecia firme, teve até a impressão de que aquelas treze letras e aquele ponto de exclamação se riam dos seus esforços.

 

See sign

!ya ovqo

 

Meneou a cabeça, imerso no problema. Afigurava-se-lhe evidente que cada uma das linhas remetia para uma cifra diferente e não tinha sequer a certeza de que a primeira fosse mesmo uma cifra. See sign era inglês para veja o sinal. Tratava-se provavelmente de uma indicação dada por Einstein em relação a um qualquer sinal que fizera no manuscrito. O problema é que, como não pudera ler o documento, Tomás não tinha modo de verificar se assim era. Haveria algum sinal misterioso escondido algures no texto original?

O criptanalista abanou a cabeça.

Talvez fosse impossível determinar tal coisa sem aceder ao manuscrito. Por mais voltas que desse ao problema, concluía sempre que precisava mesmo de ler o documento, procurar aí pistas ocultas, cavar o texto em busca do sinal que Einstein mandava ver. See sign. Veja o sinal. Mas qual sinal?

Encostou-se à cadeira da cozinha e pousou o lápis. Com um suspiro resignado, Tomás desistiu nesse instante de perceber esta primeira linha; o fato é que não podia aceder ao manuscrito e tudo o que fizesse para interpretar o teor dessas duas palavras sem ter o documento à frente estaria condenado ao fracasso. Ergueu-se, irrequieto, foi ao frigorífico buscar um sumo de laranja e voltou a sentar-se na mesa da copa. Sentia uma impaciência miudinha a consumir-lhe as entranhas.

Pousou de novo os olhos na folha e concentrou-se na segunda linha. Pelo seu aspecto, esta mensagem fora certamente cifrada por um sistema de substituição. Parecia-lhe evidente que as letras originais tinham sido substituídas por outras letras, segundo uma ordem predeterminada por uma chave. Se descobrisse a chave, quebraria a cifra. O problema era perceber que chave tinha Einstein usado para cifrar esta linha.

Leu várias vezes as letras da segunda linha, até que, convencido de que se tratava de fato de um sistema de substituição, se pôs a considerar diversas hipóteses. Poderia estar perante uma substituição monoalfabética, que seria relativamente simples de quebrar. Mas se fosse uma substituição polialfabética, com recurso a dois ou mais alfabetos de cifra, a operação complicar-seia gravemente. Podia também ser uma substituição poligrâmica, segundo um esquema em que grupos de letras são integralmente substituídos por outros grupos. Ou então, pesadelo dos pesadelos, seria uma substituição fraccional, em que o próprio alfabeto de cifra é também ele cifrado.

Pressentia que iria ser muito difícil. A opção mais natural, no entanto, parecia-lhe ser a substituição monoalfabética e foi com esse pressuposto que decidiu avançar. A ser um sistema destes, tinha perfeita consciência de que a chave da substituição não podia ter sido escolhida ao acaso. Seria, por exemplo, um alfabeto de César, um dos mais antigos alfabetos de cifra de que se tinha conhecimento, utilizado por Júlio César nas suas intrigas palacianas e campanhas militares. Bastar-lhe-ia alterar o ponto de início do alfabeto normal e encontraria a solução.

A campainha da entrada tocou nesse instante.

Dona Graça saiu da sala, onde arrumava as coisas, e dirigiu-se apressadamente à porta.

"Isto agora é um corrupio", resmungou entre dentes. Pegou no auscultador. "Quem é?" Pausa.

"Quem?" Pausa. "Ah, um momento." Olhou para o filho. "É o professor Rocha para ti. Está lá em baixo à tua espera."

"Ah", exclamou Tomás. "Diga-lhe que já desço."

Sentindo-se quase satisfeito por interromper o esgotante trabalho que se arrastava por toda a manhã sem produzir frutos, Tomás dobrou a folha com a charada e foi ao quarto buscar um casaco.

Estacionaram à sombra de um carvalho. Ao sair do carro, Tomás contemplou a pequena vivenda que se escondia por detrás do muro e dos arbustos, a meio da tranquila Avenida Dias da Silva, a artéria onde residia a maior parte dos professores da universidade. A casa tinha um ar acolhedor, embora fosse notório que lhe faltava mão de jardineiro, a verdura crescera demasiado e invadia as zonas de passagem e até o pátio frente à porta.

"Então é aqui que vivia o professor Siza?", perguntou Tomás, passando os olhos pela fachada da moradia.

"Sim, é aqui."

O historiador mirou o seu colega.

"É duro voltar cá?"

Luís Rocha olhou para a vivenda e respirou fundo.

"Então não é?"

"Desculpe lá ter-lhe pedido este favor", disse Tomás. "Mas parece-me importante que eu veja o local onde tudo aconteceu."

Cruzaram a cancela de entrada e dirigiram-se à porta. O físico tirou uma chave do bolso e inseriu-a na fechadura, rodando-a até a porta se abrir com um estalido. Fez um sinal para Tomás entrar e depois seguiu-o.

 

Um silêncio quase absoluto acolheu-os dentro da vivenda. O pequeno hall de entrada tinha o piso em tijoleira, com uma porta à esquerda aberta para a sala e outra à direita para a cozinha, de onde vinha o murmúrio suave de um frigorífico ainda ligado.

"Mas isto está tudo com aspecto muito arranjado."

"É porque você não viu o escritório", observou Luís Rocha, passando à frente e metendo pelo curto corredor diante do hall. "Quer ver? Venha daí."

Ao fundo do corredor havia três portas. O físico abriu a da esquerda, mostrando a entrada protegida por uma fita da polícia, e fez sinal a Tomás para espreitar.

"Caramba", exclamou o historiador.

Um mar de livros e papéis e pastas espalhava-se pelo chão num caos indescritível, enquanto as prateleiras dos móveis de madeira se apresentavam quase vazias, ornadas apenas por um ou outro volume que resistira ao vendaval.

"Já viu isto?", perguntou o físico.

Tomás não conseguia despregar os olhos daquele amontoado de obras e documentos.

"Foi você que deu com esta confusão?"

"Fui", assentiu Luís. "Eu tinha combinado com o professor Siza vir cá para verificar uns cálculos que ele tinha feito sobre as consequências de uma hipotética alteração de massa dos electrões. O professor tinha faltado a uma aula dias antes, mas não liguei muito a isso, sabendo, como sei, que ele é um bocado distraído. Mas quando cheguei ao portão apercebi-me de que a porta de entrada se encontrava escancarada. Achei isso estranho e entrei. Chamei pelo professor e ninguém respondeu. Vim ver ao escritório e deparei-me com... com isto", disse, exibindo aquele caos. "Percebi logo que tinha ocorrido um assalto e chamei a polícia."

"Hmm", murmurou Tomás. "E o que fizeram eles?"

"Primeiro, nada de especial. Selaram a área e andaram a tirar umas amostras. Depois veio cá a Judiciária várias vezes e fez muitas perguntas, sobretudo sobre o que o professor guardava aqui. Queriam saber se havia coisas de valor. Mas depois as perguntas evoluíram e algumas delas tornaram-se bem estranhas, confesso."

"Como por exemplo?"

"Eles queriam saber se o professor viajava muito e se conhecia gente do Médio Oriente."

"E você? O que respondeu?"

"Bem... uh... é evidente que o professor viajava. Ia a conferências e a seminários, contactava outros cientistas... enfim, o normal para quem dedica a vida à investigação, suponho."

"E ele conhecia pessoas do Médio Oriente?"

Luís Rocha esboçou uma careta.

"Devia conhecer, sei lá. Ele falava com muita gente, não é?"

Tomás virou a cara e observou de novo toda a confusão de livros espalhados pelo chão, parecia que tinha para ali sido despejado um monte de entulho. Era evidente que alguém chegara ao local e atirara tudo para o chão, em busca não se sabe bem do quê. Ou melhor, Tomás sabia. Sabia Tomás Noronha, sabia Frank Bellamy e sabiam poucas mais pessoas. Os assaltantes eram os homens do Hezbollah e procuravam Die Gottesformel, o velho manuscrito que acabaram por encontrar algures naquele escritório.

Remexendo-se atrás de Tomás, Luís pôs a mão na maçaneta da porta do meio e abriu-a.

"Vou aqui ao quarto de banho", disse, entrando no pequeno compartimento decorado a azulejos brancos e azuis. "Fique à vontade, sim?"

Trancou a porta.

Momentaneamente só, Tomás passou os olhos uma derradeira vez pelo escritório vandalizado e deu meia-volta. A sua atenção reteve-se na terceira porta do corredor; esticou o braço e abriu-a. Uma grande cama revelava tratar-se do quarto do professor Siza.

Movido pela curiosidade, Tomás entrou na penumbra do quarto e observou-o com atenção. Pairava um certo cheiro a mofo no ar, era evidente que o compartimento se encontrava fechado havia várias semanas, como se estivesse suspenso no tempo, à espera que o resgatassem para a vida. As persianas apresentavam-se corridas, criando uma atmosfera tranquila naquele aposento silencioso, um lugar sereno recolhido à meia-luz. Em flagrante contraste com o que acontecia na porta ao lado, tudo se apresentava aqui arrumado, cada objecto no seu lugar, cada lugar com uma função.

Uma fina camada de pó assentara sobre os móveis, dando a impressão de que a passagem do tempo se media pela poeira acumulada. O historiador abriu uma gaveta e deparou com molhos de

cartas e postais. Pegou no molho de cima e analisou datas; eram dos últimos meses. Presumiu que por cima estivesse a correspondência mais recente e por baixo a mais antiga. Olhou para as cartas e procurou identificá-las. A maior parte parecia ser informações da faculdade, com notícias sobre colóquios, novidades editoriais, pedidos de informação bibliográfica e outras referências de caráter puramente acadêmico. Encontrou, por entre os envelopes, três postais e analisou-os distraidamente. Dois eram de família e tinham letra escrita com mão feminina, mas o terceiro despertou-lhe a atenção. Olhou para a face e para o verso e sentiu a curiosidade aumentar.

Trakatrakatraka.

O ruído metálico de uma chave a rodar numa fechadura fê-lo virar a cara para o corredor. Luís terminara o que tinha a fazer no quarto de banho e destrancava a porta para sair.

Com um gesto rápido e dissimulado, Tomás escondeu este terceiro postal no bolso do casaco e adotou uma pose distraída.

 

A primeira coisa que Tomás fez quando chegou a casa foi procurar o número na memória do telemóvel e efetuar a chamada.

"Greg Sullivan here", anunciou a voz anasalada do outro lado da linha.

"Olá, Greg. Daqui Tomás Noronha. Tudo bem?"

"Ah! Olá, Tomás. Tudo bem?"

"Tudo ótimo."

"Ouvi dizer que você teve uma vida difícil lá em Teerã."

"Sim, foi complicado."

 

"Mas saiu-se bem, uh? Como um profissional!"

"Não exageremos..."

"A sério! Qualquer dia você chega ao pé de mim com um sotaque todo british e diz: o meu nome é Noronha. Tomás Noronha!" Soltou uma gargalhada. "Uh? Um verdadeiro James Bond!"

"Não goze, vá lá."

"Ouça, estou orgulhoso de si, sabia? Atta boy!"

"Pronto, chega." Tomás pigarreou, tentando ir diretamente ao assunto que o levara a fazer aquele telefonema. "Greg, preciso de um favor seu."

"You name it, you got it."

"Preciso que ligue lá para Langley e peça para o Frank Bellamy me telefonar com urgência."

"Uh?"

"O Frank Bellamy que me ligue com urgência."

Fez-se um curto silêncio do outro lado da linha.

"Ouça, Tomás, o mister Bellamy não é um tipo qualquer", disse Greg, a voz a assumir subitamente um tom respeitoso. "Ele é o diretor de um dos quatro directorates da CIA, com acesso direto ao gabinete oval da Casa Branca. Não são as pessoas que querem falar com ele, percebe? É ele que quer falar com as pessoas."

"Sim, já entendi", assentiu Tomás. "Mas também entendi que, sendo ele assim tão importante, se viajou uma vez até Lisboa para falar comigo e se falou mais duas vezes ao telefone comigo é porque considera que eu estou envolvido num projeto crucial para a agência. Se assim é, ele certamente terá interesse em ligar-me logo que saiba que eu tenho algo para lhe dizer."

Novo silêncio no outro lado da linha.

"E tem?"

"Tenho."

Greg suspirou.

"Okay, Tomás. É melhor que você saiba o que está a fazer. Mister Bellamy não é pessoa com quem se deva brincar." Hesitou, como se estivesse a dar uma derradeira oportunidade a um condenado para se redimir. "Quer mesmo que eu telefone para Langley?"

"Telefone."

"Okay."

 

Tirou do bolso do casaco o postal que furtara do quarto do professor Siza e estudou-o com atenção. O lugar do remetente encontrava-se em branco, como se tal informação fosse redundante para o destinatário. O postal apenas continha uma curta mensagem em letra cuidada, as linhas desenhadas com devoção, como se a estética fosse tão importante quanto o conteúdo.

 

Meu querido amigo,

 

Foi bom receber novidades suas.

Estou cheio de curiosidade em relação a essa sua descoberta.

Terá chegado enfim o grande dia?

Procure-me no mosteiro.

 

Tenzing Thubten

 

Leu várias vezes as curtas linhas escritas no postal. Não precisava de ser muito intuitivo para perceber que esta mensagem levantava uma ponta do véu, mas deixava o essencial permanecer misteriosamente oculto por baixo de sutis subentendidos. Quem era este Tenzing Thubten? Se chamava "querido amigo" ao professor Siza é porque certamente o conhecia bem. Mas de onde? Se Thubten dizia ter sido "bom receber novidades suas" é porque o professor Siza tomara a iniciativa de o contactar. Se o remetente se manifestava "cheio de curiosidade em relação à sua grande descoberta" é porque o professor Siza lhe comunicara esse fato. E se Thubten se questionava sobre se "terá chegado enfim o grande dia?" é porque essa descoberta, qualquer que ela fosse, iria provavelmente despoletar um acontecimento aguardado por ambos havia muito tempo.

Mas que raio de charada é esta?, interrogou-se Tomás a cada leitura da mensagem garatujada no postal.

O telemóvel tocou.

"Hello, Tomás", murmurou a inconfundível voz rouca. "Ouvi dizer que queria falar comigo."

"Olá, mister Bellamy. Como está o tempo em Langley?"

"Não estou em Langley", devolveu a voz. "Encontro-me num avião a sobrevoar um território cujas coordenadas não lhe posso dar. Estou a falar de uma linha não segura, o que significa que você terá de ter cuidado com o que diz. Entendeu?"

"Sim."

"Então diga lá por que razão precisa assim tanto de falar comigo."

Quase sem dar conta disso, Tomás endireitou-se na cadeira, parecia uma sentinela a colocar-se em sentido diante de um oficial.

"Mister Bellamy, julgo ter percebido finalmente do que trata o documento que nos tem estado a apoquentar e que me levou a fazer aquela viagem."

Fez-se um silêncio curto, a chamada carregada de estalidos de estática.

"Really?"

"Com base no que descobri, parece-me seguro dizer que o tema do documento não deve ser preocupante. Trata-se, aliás, de um assunto inteiramente diferente daquele que nós pensávamos que era."

"Tem a certeza?"

"Bem... uh, quer dizer, tenho uma certeza relativa, não é? É a certeza que posso ter em função do que descobri, mais nada. A certeza absoluta só a poderei ter se ler o próprio manuscrito, o que neste momento não me parece possível pelos motivos que o senhor conhece."

"Mas você acha mesmo que o tema do documento não é aquele que nos preocupa?"

"Acho."

"Então como explica que o nosso fucking geniozinho tenha comentado em privado que aquilo que tinha descoberto iria provocar uma explosão de uma violência nunca vista?"

Tomás hesitou.

"Pois... uh... ele disse mesmo isso?"

"Disse, pois. Disse-o a um físico que era nosso informador. Não se lembra de eu já lhe ter contado essa história quando fui aí a Lisboa?"

"Pois foi."

"Então em que ficamos?"

O historiador respirou fundo.

"Só há uma maneira de eu deslindar isto", disse.

"Qual é?"

"Preciso de fazer uma nova viagem."

"Para onde?"

"Estamos numa linha que não é segura, não é? Quer mesmo que eu lhe diga aqui qual o destino?"

Frank Bellamy praguejou.

"Tem razão", assentiu de imediato. "Ouça, eu vou contactar a nossa embaixada em Lisboa e dar instruções para que lhe sejam disponibilizados todos os fundos de que necessitar, está bem?"

"Muito bem."

"So long, Tomás. Você é um fucking gênio."

Frank Bellamy desligou e Tomás ficou um instante a mirar o telemóvel. O diabo do homem tinha o condão de o enervar. Pensando bem, considerou, esse parecia ser um dom que Bellamy manifestava em relação a toda a gente, bastava ver a postura de quase vassalagem que Greg Sullivan e Don Snyder lhe prestaram durante aquele memorável encontro em Lisboa. Tomás imaginou o homem da CIA numa reunião no gabinete oval da Casa Branca e um sorriso aflorou-lhe aos lábios. Será que também o presidente dos Estados Unidos tinha um ataque de diarreia só por falar com esta figura sinistra?

Talvez para compensar os calafrios que Bellamy lhe provocava, Tomás sentiu naquele instante saudades de Ariana. Tinha sido apenas alguns dias antes que se despedira dela e contorcia-se já de nostalgia. Todas as noites sonhava com ela, via-a ao longe e chamava-a, mas Ariana afastava-se, arrastada por uma força desconhecida, como se alguém a sugasse para além do horizonte. Tomás acordava nesses instantes muito angustiado, o coração apertado, um nó na garganta.

Suspirou.

Procurando abstrair-se da presença feminina que o assombrava, baixou os olhos e estudou novamente o postal que mantinha na mão. O espaço do remetente permanecia em branco, mas Tomás sabia que não precisava de mais informações do que aquelas de que já dispunha. Possuía o nome do remetente, esse tal de Tenzing Thubten, e, apesar da morada não ser referenciada, o essencial estava proclamado na outra face do postal, não estava?

Virou o postal e contemplou o belo mosteiro branco e castanho que se erguia por entre a neblina, no topo do promontório, dominando o casario baixo espraiado em redor. Sorriu. Sim, pensou. De fato, não havia quem não conhecesse aquele palácio tibetano.

O Potala.

 

XXVIII

 

A luz cristalina e pura das montanhas jorrou pela janela do quarto e despertou Tomás. O historiador ainda permaneceu um preguiçoso instante encolhido no calor dos cobertores, prolongando a doce moleza do despertar, mas acabou por se levantar a custo e ir à janela espreitar o novo dia. A manhã nascera límpida e fria e os raios de sol cintilavam na cobertura alva dos picos circundantes, como jóias incrustadas num lençol lácteo que alguém estendera sobre a rocha castanha; era a neve a resplandecer no topo das serras escarpadas que circundavam a cidade, recortando de branco o azul profundo do céu.

Amanhecer em Lhasa.

Era o terceiro amanhecer de Tomás na capital do Tibete. Enchendo os pulmões de ar e endireitando o corpo, verificou, aliviado, que os males dos últimos dias tinham desaparecido, sentia-se agora melhor e com mais energia.

Pouco depois de aterrar no aeroporto Gonggar começou a ser afligido por dores de cabeça e náuseas, para além de um cansaço ofegante que não o largava. Na primeira noite teve muita dificuldade em adormecer, mas só quando vomitou é que decidiu telefonar para a recepção e pedir um médico. Não havia médico, mas o recepcionista, habituado a ver aqueles sintomas manifestarem-se com frequência nos recém-chegados, fez um diagnóstico instantâneo.

"Acute Mountain Sickness", disse, quando o visitou no quarto.

"O quê?"

"É a síndrome da altitude", explicou. Olhou para a mala deitada na carpete. "O senhor chegou de avião, foi?"

"Sim."

"Quase todos os estrangeiros que vêm de avião sofrem desse mal. Deve-se à passagem rápida entre o nível do mar e a altitude, sem adaptação em pontos intermédios."

"Mas há algum problema com isso?"

"Claro que há. Sabe, a pressão atmosférica aqui é muito inferior à do nível do mar. Isso significa que a pressão não chega para empurrar o oxigênio para o sangue e é por isso que as pessoas se começam a sentir mal."

Tomás inspirou fundo, tentando sentir a diferença. De fato, o ar parecia mais leve, quase rarefeito.

"E agora? O que faço?"

"Nada."

"Nada? Mas isso não é solução..."

"Pelo contrário, é a melhor solução. O senhor não deve fazer nada. Fique aqui no quarto, descanse e vá-se adaptando devagar à altitude. Não faça esforços. Procure respirar mais rápido, para compensar a falta de oxigénio no sangue. O seu coração provavelmente está a bater mais depressa, pelo que deve descansar. Daqui a alguns dias irá sentir-se melhor, vai ver. Nessa altura poderá então sair lá para fora." Ergueu um dedo, à maneira de aviso. "Mas, atenção, se piorar isso é muito mau sinal. Poderá significar que está a desenvolver uma forma maligna do mal das alturas, devido a complicações pulmonares ou cerebrais. Nesse caso, terá de ser imediatamente retirado do Tibete."

"E se não for retirado?"

O empregado arregalou muito os olhos rasgados e a tez trigueira.

"Morrerá."

 

Ao terceiro dia sentiu-se de fato melhor e, mais animado, decidiu sair à rua. Perguntou as direções na recepção do hotel e meteu vagarosamente pela Bei Jin Guilam, em direção ao majestoso Potala. Atravessou o Shõl, situado no sopé do magnífico palácio do Dalai-Lama, e não pôde deixar de se sentir chocado por ver toda aquela área transformada numa despropositada metrópole chinesa, com uma grande avenida entupida de tráfego.

Diante do Potala abria-se uma enorme praça com uma escultura pirosa, à frente da qual se amontoavam turistas chineses a tirar fotografias com o palácio atrás. Depois da praça, a larga avenida enchia-se de estabelecimentos de aspecto moderno, eram boutiques, lojas de equipamento desportivo, de roupa para criança, vestuário de marca, sapatarias, restaurantes, gelatarias, pastelarias, tabacarias, floristas, farmácias, oculistas, tudo numa grande azáfama, com múltiplos néons coloridos visíveis por toda a parte, era como se o Potala fosse um corpo estranho, um colossal intruso tibetano implantado num imenso mar chinês.

Alguns quarteirões adiante, o visitante virou à direita e entrou enfim no tranquilo bairro tibetano. Penetrou no emaranhado de ruelas estreitas, as artérias contorcendo-se em todas as direções, por vezes alargando-se, sempre emparedadas por velhos edifícios de adubo branco e janelas negras, em alguns casos o caminho atravessado por poças de lama ou pelo cheiro repelente de excrementos.

"Hello", saudou uma voz feminina vinda de cima. Era uma rapariga tibetana que acenava de uma janela. "Tashi deleh! Hello!”

 

"Tashi deleh", disse Tomás, devolvendo o cumprimento com um sorriso.

Todos pareciam arranjar ali um momento para cumprimentar o forasteiro; com um sorriso aberto, um aceno efusivo, uma vénia discreta, um "hello" em inglês ou um "tashi deleh" tibetano, por vezes deitando a língua de fora como se troçassem de si. Naquele recanto acanhado, por entre ruelas escondidas e longe da influência chinesa, escondia-se o Tibete que sempre imaginara.

O pacato labirinto desembocou numa enorme e movimentada praça. Uma multidão agitava-se por todo o perímetro, viam-se nómadas e cabras, peregrinos de Amdo, viajantes de Kham, monges prostrados ou a recitar mantras, saltimbancos a efetuar acrobacias, bancas a vender carpetes e pinturas tbangka, chapéus, roupas, jerry cans com combustível, fotografias do Dalai-Lama, bugigangas de Katmandu, chá de Darjeeling, cachecóis kadab de Sechuan, amuletos pondu de Drepung, cortinas de Shigatse, lenços de Caxemira, plantas medicinais dos Himalaias, velhas moedas indianas transformadas em ornamentos, anéis de prata decorados com pedras turquesa, tudo o que se possa imaginar estava ali à venda em todas as cores.

"Hello"', chamou uma vendedora.

"Look'ee! Look'ee!”, gritou outra, enquanto uma terceira exibia figuras religiosas esculpidas em osso de iaque: "cheap'ee, cheap'ee!"

Uma densa mole humana, compacta, empurrava-se pela praça, murmurando mantras e girando mani colo, as rodas de orações que empunhavam na mão direita, umas feitas de cobre, outras de jade, algumas de sândalo; era o Barkhor, o grande movimento religioso que contornava o templo no sentido dos ponteiros do relógio, os peregrinos observando os acrobatas, mirando os monges, espreitando as bancas ou simplesmente concentrados no trajeto circum-ambulatório religioso em torno do perímetro.

Tomás não precisou de verificar no mapa para perceber que aquele era o bazar de Tumskhan, montado em torno do circuito religioso do Barkhor. Por entre as casas tradicionais tibetanas, erguidas com fachadas brancas e belas varandas de madeira incrustadas nas esquinas, abria-se a entrada do templo. A porta de acesso era decorada por pilares vermelhos, que suportavam uma estrutura adornada em tecido de iaque, no topo da qual cintilava uma imagem sagrada, a das figuras em ouro de dois veados voltados para uma harmoniosa dharmachakra, a Roda da Lei.

O templo de Jokhang.

Alguns peregrinos mantinham-se prostrados no chão de pedra do Barkhor, diante do templo, entoando um cavado "ooooooooooooooooom" em uníssono, era o fonema sagrado do "om mani pedme hum", o mantra de seis sílabas, a prece da Criação. Aquele timbre fundo e gutural, que os budistas dizem ser o som primordial, a sílaba que gerou o universo, ressoava longamente pela praça, entrecortado apenas pelo ruído combinado das expirações ritmadas, como se os crentes tivessem recebido um soco no estômago. O passo dos peregrinos era também pontuado pelo estridular metálico do korten, os moinhos de orações dourados dispostos em fila junto à porta.

Tomás cortou por entre a multidão e cruzou a entrada do santuário, calcorreando um grande átrio a céu aberto. O desagradável cheiro de manteiga de iaque rançosa flutuava no ar, exalado pelos devotos que levavam para o Jokhang pedaços da gordura amarela para a espalharem com colheres pelo recinto. Procurando escapar ao odor repelente, o visitante refugiou-se por momentos junto a pauzinhos de incenso incandescente e observou a cena em redor de si. O pátio apresentava-se repleto de peregrinos que percorreram centenas de quilómetros para ali se juntarem, muitos deitados no chão com a testa colada à pedra a recitar preces, outros agitando rodas metálicas de oração, alguns a espalharem a manteiga de cheiro nojento em altares diante de pequenos Budas.

Um ocidental de aspecto bonacheirão aproximou-se de Tomás com uma máquina fotográfica pendurada ao peito.

"Belo espectáculo, hem?"

"Sim."

O homem apresentou-se. Chamava-se Carlos Ramos e era um mexicano que vivia em Espanha.

Depois de trocarem amabilidades, Carlos mirou a multidão de crentes e abanou a cabeça.

"Depois de ler muitos livros, percebi finalmente o que é o budismo", comentou. "É um jogo de pontos."

"Como assim, um jogo de pontos?"

"É simples", sorriu o mexicano. "Quanto mais mérito tivermos durante a vida, maiores as nossas possibilidades de conseguirmos uma boa reencarnação da próxima vez. Se fizermos poucos pontos, havemos de reencarnar como insetos ou lagartos, por exemplo. Mas se formos muito piedosos e atingirmos um determinado nível de pontos, poderemos voltar como seres humanos outra vez. E se formos mesmo bonzinhos... bueno, nesse caso regressaremos como homens ricos ou até como lamas. Percebe? É um pouco como num jogo de computador. Mais pontos agora significam uma melhor vida na próxima reencarnação."

Tomás riu-se com a forma simplória como o budismo era apresentado por aquele turista.

"E como é que se conseguem esses pontos?"

O mexicano fez um gesto em direção à multidão que enchia o Jokhang.

"Prostrando-se, caray! Está a ver? Quanto mais se prostram, mais pontos obtêm. Há tipos que se prostram mais de mil vezes num único dia." Fez uma careta. "Olhe que mil vezes é muito, hã? Dá cá uma dor nas costas... A maior parte do pessoal fica-se pelas cento e oito vezes, dizem que é um número sagrado e sempre poupa no esforço, não é?" Mirou uma cabra que alguém trouxera para o templo. "Mas há outras maneiras. Por exemplo, salvando a vida de um animal. Isso vale pontos, o que pensa você? Ou dar esmola a um pedinte, isso também conta para o somatório da boa reencarnação."

"E quem tiver uma vida perfeita?"

"Oh, isso é a lotaria do budismo! O El Gordo! É que o número máximo de pontos leva-nos para o nirvana, sabia? O nirvana significa que quebramos o ciclo vicioso da vida terrena. Aí, no pasa nada! Acabam-se os problemas com as reencarnações."

"Isso é um pouco como o cristianismo, não acha?", observou Tomás. "Quanto mais bonzinhos formos, mais pontos somamos no céu e maiores as possibilidades de ganharmos um lugar no paraíso."

O mexicano encolheu os ombros.

"Ora aí está", exclamou. "O grande tema de todas as religiões é, afinal, a soma de pontos."

Depois de esboçar um último sorriso, Tomás despediu-se do turista e mergulhou no templo.

O interior do velho edifício encontrava-se envolto numa penumbra, pontuada pelas velas de manteiga de iaque acesas em fila nos altares. Tirou um papel do bolso e, numa zona de luz, procurou a direção anotada. Uma vez orientado, atravessou o interior sombrio e foi ter a um pátio soalheiro. Um monge calvo, vestido com um tasen escarlate da ordem Galupka, materializou-se da sombra, na porta das capelas, e o visitante interpelou-o.

"Jinpa Khadroma?"

O monge olhou-o com atenção. Depois de uma ligeira hesitação, curvou-se numa vênia e fez sinal ao estranho para o seguir.

Ascenderam ao primeiro terraço do Jokhang e meteram à esquerda por um discreto corredor ao ar livre, numa zona tranquila; lá ao fundo, depois de uma esquina, o monge imobilizou-se diante de uma cortina kuou. Ergueu levemente o canto da cortina e espreitou lá para dentro, murmurando uma pergunta; uma voz soou do outro lado e o monge abriu toda a cortina, fez uma vênia para Tomás, indicou-lhe que entrasse, curvou-se numa última vénia e desapareceu.

O quarto era pequeno e sombrio. Havia uma única janela rasgada na parede e era por ali que jorrava luz sobre a esteira onde se sentava um monge gordo. Fotografias do exilado Dalai-Lama e do falecido Panchen Lama sorriam para o visitante, ambas pregadas num armário, e um monte de livros apresentava-se empinhado sobre uma mesinha, num equilíbrio delicado. O monge tinha um pequeno volume na mão; fechou-o com brandura, ergueu a cabeça e acolheu o estrangeiro com um sorriso.

"Tashi deleh", cumprimentou.

"Tashi deleh."

"Eu sou Jinpa Khadroma", anunciou o monge. "Queria falar comigo?"

Tomás apresentou-se e acenou com o papel que trazia na mão, rabiscado por Greg Sullivan na embaixada americana em Lisboa.

"O seu contato foi-me dado... uh... por uns amigos, que me disseram que o senhor me poderia ajudar."

"Que amigos?"

"Bem... receio que não os possa identificar. Mas são amigos."

O monge torceu os lábios grossos.

"Hmm", murmurou, pensativo. "E em que o posso ajudar?"

"Procuro uma pessoa aqui no Tibete."

Tomás retirou o postal do bolso e estendeu-o a Jinpa. O monge pegou no postal, observou a imagem do Potala e analisou a mensagem no verso.

"O que é isto?"

"É um postal enviado por alguém do Tibete a um amigo meu que desapareceu. Tenho razões para supor que esse tibetano me poderá ajudar a perceber o que aconteceu a esse meu amigo. O tibetano chama-se... uh..." Tomás inclinou-se e espreitou a assinatura escrevinhada no postal preso nos dedos de Jinpa. "Tenzing Thubten."

O monge cravou-lhe os olhos, sem trair a mínima emoção, e pousou o postal junto a umas fotografias do Dalai-Lama, mesmo ao lado.

"Ninguém tem acesso a Tenzing Thubten assim sem mais nem menos", disse Jinpa. "Temos primeiro de verificar umas coisas e falar com umas pessoas."

"Com certeza."

"Amanhã terá a sua resposta. Se constatarmos que há algo suspeito sobre si, nunca verá a pessoa que procura. Mas se estiver tudo bem, chegará ao seu destino." Fez um gesto rápido com a mão, quase como se se despedisse. "Apareça às dez da manhã em ponto diante da capela de Arya Lokeshvara."

Tomás tomou nota.

"Arya Lokeshara?"

"Lokeshvara."

Corrigiu a anotação.

"Hmm", murmurou o visitante. "E onde é isso?"

Jinpa virou a cara e apontou com o queixo na direcção do postal pousado ao seu lado.

"No Palácio Potala."

 

XXIX

 

Uma chuva fina e pertinaz cobria Lhasa, lançando uma neblina pardacenta sobre a capital tibetana, quando Tomás Noronha iniciou a lenta ascensão ao promontório que se erguia acima do casario raso. Caminhando com concentrado vagar, sempre a controlar o ritmo da respiração e das batidas cardíacas, escalou os degraus em Z até atingir o nível dos telhados do Shöl. Parou então, ergueu a cabeça e contemplou o magnífico palácio que o aguardava.

O Potala repousava majestosamente sobre a pedra escarpada, a longa fachada branca a abraçar a rocha escura, o centro avermelhado erguendo-se como a torre de um castelo, as ranhuras das janelas espreitando a cidade que despertava no sopé. Todo o palácio parecia um grandioso farol, uma imensa fortaleza alteada sobre Lhasa, vigilante e protectora, erguendo-se com silenciosa imponência por entre as brumas para guiar o espírito do Tibete. Bandeiras coloridas de orações flutuavam ao vento, o pano batendo com força. Ofegante, o coração saltitando de cansaço e excitação, inclinou-se sobre o muro e admirou a cidade que se espraiava pelo planalto, encaixada por entre as montanhas, como se cada casa fosse um súbdito prostrado diante da divindade que o observava do Potala.

Puro.

Tudo dali parecia sereno, transparente, elevado. Puro. Nunca como naquele lugar experimentou a sensação de se encontrar algures entre o céu e a terra, flutuando sobre a neblina com o espírito livre, emergindo da massa dos homens para tocar Deus, sentindo a eternidade comprimida num segundo, o efémero estendendo-se pelo infinito, o princípio do Ômega e o fim do Alfa, a luz e as trevas, o universo num sopro, a impressão de que a vida tem um sentido místico, de que há um mistério que se esconde para lá do que é visível, um enigma gravado em letra antiga num código hermético, um velho som que se pressente mas não se escuta.

O segredo do mundo.

Mas um vento gelado, que soprava forte e agreste nas alturas, logo arrefeceu a chama do arcano que lhe ardia no peito e obrigou-o a apressar o passo na direcção das entranhas escurecidas do palácio adormecido. Atingiu o Deyang Shar, o grande pátio externo do Potala, e escalou a escadaria até entrar no Palácio Branco, a antiga zona residencial do Dalai-Lama. Mergulhou no calor dos andares superiores e sentiu uma aura de mistério encher aquele lugar.

Os compartimentos sombrios, iluminados por frágeis lâmpadas penduradas no teto ou pelas cortinas amareladas que tapavam as janelas, pareciam ocultar um tesouro perdido, de que uma ínfima parte se vislumbrava por entre os cânticos que ecoavam pelos corredores; eram os monges que recitavam os textos sagrados. Apenas o som de sinos a badalarem à distância quebrou o murmúrio ondulado da suave declamação dos mantras, o ooooooom primordial a reverberar pelo palácio como um rumorejo dos deuses. O ar apresentava-se impregnado com o odor forte a manteiga de iaque, o desagradável aroma rançoso misturado com o delicioso cheiro a incenso. Lá fora, o sopro do vento deve ter aberto uma nesga no manto de nuvens que toldava o céu, porque raios quentes de sol brotaram nesse instante por entre os reposteiros fulvos e invadiram o interior do palácio, projectando bizarros focos de luz nos cantos ensombrados, o fio violáceo e branco do fumo do incenso erguendo-se como espíritos fugidios que se esfumavam no ar.

Um monge jovem, calvo e coberto por um manto rubro, apareceu no corredor e logo Tomás o interpelou.

 

"Tashi deleh", cumprimentou o estrangeiro.

"Tashi deleb", respondeu o monge, fazendo uma vénia curta.

Tomás esboçou uma expressão interrogativa.

"Arya Lokeshvara?"

O tibetano fez sinal para Tomás o seguir. Subiram ao Palácio Vermelho e calcorrearam os corredores pintados de laranja; entraram nas arcadas superiores, sustentadas por pilares cobertos por panos vermelhos e protegidas por uma varanda que dava para os telhados dourados. Após contornar duas esquinas, o monge apontou para uma pequena capela escondida num canto do palácio, as escadarias da entrada iluminadas por uma surpreendente nesga de sol que se abria no teto.

"Kale shu", despediu-se o jovem monge, antes de desaparecer.

A pequena capela Arya Lokeshvara, embora apertada, era alta e apresentava-se cheia de estátuas. Uma neblina de incenso enchia o ar à luz amarelada das velas de manteiga de iaque e apenas um monge se encontrava lá dentro, sentado em meditação, o corpo voltado para as estátuas contidas numa vitrina, diante das íngremes escadinhas de entrada. Tomás olhou em redor, para as arcadas, e procurou sinais de alguém à sua espera, teve mesmo a esperança de ser interpelado por uma pessoa escondida na sombra e que se identificasse como sendo Tenzing Thubten. Mas ninguém apareceu. Permaneceu ali longos minutos, parado, mirando a luz tremelicante das velas, sentindo o cheiro de manteiga e incenso, ouvindo os mantras recitados por vozes longínquas.

Ao fim de vinte minutos começou a sentir-se inquieto, a mente assaltada por angustiadas dúvidas. Teriam os monges considerado suspeito o seu inquérito? Será que tinha sido tão desastrado que afugentara a caça? O que faria se todas as portas se lhe fechassem? Como poderia retomar a investigação?

"Kbyerang kusu depo yinpe?"

Tomás estremeceu e olhou na direção de onde tinha vindo a voz. Era o monge que se encontrava sentado dentro da capela, as costas voltadas para si.

"Perdão?"

"Perguntei-lhe se o seu corpo se encontra bem. É a nossa maneira de cumprimentar um amigo."

Tomás subiu hesitantemente as escadinhas, entrou na capela, contornou o tibetano e reconheceu o monge com quem falara na véspera no templo de Jokhang.

"Jinpa Khadroma?"

O monge gordo virou o rosto, mirou-o e sorriu com bonomia, parecia um Buda vivo.

"Surpreendido por me ver?"

"Bem... enfim... não...", titubeou Tomás. "Quer dizer, sim. Não deveria ser Tenzing Thubten a estar aqui?"

Jinpa abanou a cabeça.

"O Tenzing não pode vir ter consigo. Estivemos a verificar as suas credenciais, no entanto, e parece-nos que não há problemas em possibilitar um encontro. Mas terá de ser você a ir ter com ele."

"Tudo bem", assentiu o historiador. "Diga-me onde."

O monge voltou a cabeça para a frente, fechou os olhos e respirou fundo.

"O senhor é um homem religioso, professor Noronha?"

Tomás observou-o, um pouco frustrado por Jinpa não lhe dizer imediatamente onde poderia encontrar o homem que procurava. Mas tinha consciência de que os ritmos eram aqui diferentes e deixou-se guiar pela pergunta do monge.

"Nem por isso."

"Não acredita na existência de algo que nos transcende?"

"Bem... talvez, não sei. Digamos que estou à procura."

"O que procura?"

"A verdade, suponho eu."

"Julguei que procurava Tenzing."

Tomás riu-se.

"Também", disse. "Talvez ele saiba a verdade."

Jinpa voltou a respirar fundo.

"Esta capela é a mais sagrada das capelas do Potala. Remonta a um palácio que aqui foi construído no século VII, sobre o qual o Potala foi erguido." Pausa. "O senhor não sente aqui a presença de Dbarmakaya?”

"Quem?"

Com os olhos fechados e a pose estática, o monge parecia mergulhado em meditação.

"O que sabe o senhor sobre o budismo?"

"Nada."

Fez-se mais um silêncio, apenas quebrado pelos cânticos longínquos das recitações dos textos sagrados.

"Há mais de dois mil e quinhentos anos nasceu no Nepal um homem chamado Siddharta Gautama, um príncipe pertencente a uma casta nobre e que vivia num palácio. Ao constatar, porém, que para lá do palácio a vida era feita de sofrimento, Siddharta abandonou tudo e foi para a Índia viver numa floresta como um asceta, dilacerado por uma pergunta: para quê viver quando tudo é dor? Durante sete anos deambulou pela floresta em busca da resposta a essa pergunta. Cinco

ascetas convenceram-no a jejuar, por acreditarem que a renúncia às necessidades do corpo criaria a energia espiritual que os conduziria à iluminação. Siddharta jejuou tanto que ficou esquelético e o umbigo tocou-lhe na coluna vertebral. No final, constatou que o esforço de nada servira e concluiu que o corpo necessita de energia para alimentar a mente na sua busca. Decidiu, por isso, abandonar os caminhos extremos. Para ele, o verdadeiro caminho não era o da luxúria dos palácios nem o da mortificação dos ascetas, onde se encontram os dois extremos. Escolheu antes o caminho do meio, o do equilíbrio. Um dia, após banhar-se no rio e comer um arroz-doce, sentou-se em meditação debaixo de uma figueira, uma Árvore da Iluminação a que chamamos Bodhi, e jurou que não sairia dali enquanto não atingisse a iluminação. Após quarenta e nove dias de meditação, chegou a noite em que alcançou finalmente a clarificação

final de todas as suas dúvidas. Ele despertou por completo. Siddharta tornou-se Buda, o Iluminado."

"Mas ele despertou de quê?"

"Despertou do sonho da vida." Jinpa abriu os olhos, como se também ele tivesse acordado. "Enfim iluminado, o Buda expressou o caminho para o despertar através das Quatro Nobres Verdades. A Primeira é a constatação de que a condição humana é sofrimento. Esse sofrimento

emerge da Segunda Nobre Verdade, que é a nossa dificuldade em encarar um fato básico da vida, o de que tudo é transitório. Todas as coisas nascem e morrem, disse o Buda. Nós sofremos porque nos agarramos ao sonho da vida, às ilusões dos sentidos, à fantasia de que é possível manter tudo como está, e não aceitamos que o mundo é um rio que passa. É esse o nosso karma. Vivemos na convicção de que somos seres individuais, quando na verdade fazemos parte de um todo indivisível."

"E é possível romper essa... uh... ilusão?"

"Sim. A Terceira Nobre Verdade estabelece justamente que é possível quebrar o ciclo do sofrimento, é possível libertarmo-nos do karma e atingir um estado de total libertação, de iluminação, de despertar. O nirvana. É aqui que a ilusão da individualidade se desfaz e nasce a constatação de que tudo é uno e que nós fazemos parte do uno." Suspirou. "A Quarta Nobre Verdade é o óctuplo caminho sagrado destinado à supressão da dor, à fusão com o uno e à elevação ao nirvana. É o caminho para nos tornarmos Buda."

"E qual é esse caminho?", quis saber Tomás.

Jinpa voltou a fechar os olhos, como se regressasse à meditação.

"É o caminho de Shigatse", limitou-se a dizer.

"Como?"

"É o caminho de Shigatse."

"Shigatse?"

"Em Shigatse existe um pequeno hotel. Dirija-se a ele e diga que deseja que o bodbisattva Tenzing Thubten lhe mostre o caminho."

Tomás ficou um instante paralisado, atordoado com a forma súbita e inesperada como o monge mudara o rumo da conversa e regressara ao ponto inicial. Logo reagiu, porém; tirou o bloco de notas e rabiscou as instruções.

"Que Tenzing... me mostre... o caminho", soletrou enquanto escrevinhava com a língua presa no canto da boca.

"Não escreva." Jinpa tocou com o dedo na cabeça. "Memorize."

O visitante mostrou-se de novo momentaneamente desconcertado com a ordem, mas, obediente, acabou por arrancar a folha do bloco, amarrotá-la e atirá-la para um cesto.

"Hmm...", murmurou, esforçando-se por decorar os pormenores. "Shigatse, é?"

"Sim."

"E o que faço lá?"

"Vá para o hotel."

"Qual hotel?"

"O Gang Gyal Utsi."

"Como? Gang quê?"

"Gang Gyal Utsi. Mas os ocidentais dão-lhe outro nome."

"Outro nome?"

"Hotel Orchard."

 

Desceu infindáveis degraus inclinados a pique, por longas escadarias mal iluminadas rasgadas no edifício como poços sombrios, passou pelo grande salão onde se encontrava o trono do sexto Dalai-Lama e, ignorando as estátuas e as capelas que ornavam o local, abandonou apressadamente o Potala.

Tomás era um homem com uma missão. Trazia memorizado o ponto de encontro para a conversa com o tibetano que, acreditava, o poderia elucidar sobre os mistérios em torno do desaparecimento do professor Siza e do segredo que envolvia o velho manuscrito de Einstein. Sentia-se à beira de deslindar o enigma e mal conseguia reprimir a excitação que lhe fervia no corpo e lhe revigorava a alma. Desceu com imprudente pressa por um trilho de terra até à Bei Jin Guilan, a cabeça inclinada para a frente, os olhos fixos no chão, a mente a vaguear pelas perspectivas que se lhe abriam, completamente alheio ao mundo a pulsar em redor de si.

Não se apercebeu, por isso, de uma carrinha negra que parou ao lado do passeio, nem viu os dois homens saltarem do interior e dirigirem-se a si com furtiva intenção.

Um movimento brusco trouxe-o de volta à realidade.

"Mas o que..."

Alguém lhe torceu brutalmente o braço, forçando-o a dobrar o corpo e a soltar um urro de dor.

"Entre aqui", ordenou uma voz desconhecida num inglês com forte sotaque estranho.

Atarantado, sem perceber o que se passava, quase como se vivesse um sonho irreal, viu a porta da carrinha abrir-se e sentiu-se voar para o seu interior.

"Larguem-me! O que é isto? Larguem-me!"

Recebeu uma pancada na nuca e viu tudo escuro. A imagem seguinte que registou foi a do seu nariz comprimir-se contra o banco traseiro da viatura, os solavancos e o som do motor em aceleração a indicarem-lhe que se encontrava na carrinha e que era levado por desconhecidos.

"Então?", perguntou uma voz. "Está calmo?"

 

Deitado de barriga para baixo no banco, os braços algemados atrás das costas, Tomás voltou a cabeça e viu um homem de bigode preto a sorrir-lhe ao lado. Tinha ar de ser proveniente do Médio Oriente, a tez levemente morena.

"O que é isto? Para onde me levam?"

O homem manteve o sorriso.

"Calma. Já vai descobrir."

"Quem é você?"

O desconhecido inclinou-se para Tomás.

"Não se lembra de mim?"

O historiador tentou destrinçar traços familiares naquele rosto, mas nada registou.

"Não."

 

O homem soltou uma gargalhada.

"É natural", exclamou. "Quando falamos, você tinha os olhos vendados. Mas não reconhece a minha voz?"

Tomás arregalou os olhos. Não havia dúvida, concluiu agora, horrorizado. Aquele desconhecido era um iraniano. E dos menos simpáticos.

"Não."

"O meu nome é Salman Kazemi e sou coronel do VEVAK, o Ministério das Informações e Segurança da República Islâmica do Irão", apresentou-se. "Se bem se recorda, tivemos uma vez uma conversa bem animada na cadeia de Evin. Lembra-se?"

Tomás lembrava-se. Era o interrogador da polícia secreta, aquele que o esbofeteara e que lhe apagara um cigarro no pescoço.

"O que está você aqui a fazer?"

"Vim à sua procura."

"Mas o que me quer você?"

Kazemi abriu as mãos grossas.

"O mesmo de sempre."

"O quê? Não me diga que está aqui porque ainda quer saber o que fazia eu no Ministério da Ciência à noite?"

O coronel soltou uma gargalhada.

"Isso já nós percebemos há muito tempo, caro professor. Você pensa que somos parvos ou

quê?"

"Então o que quer saber?"

"O mesmo de sempre, já lhe disse."

"O quê?"

"Queremos saber o segredo do manuscrito de Einstein."

Vencendo o medo, Tomás conseguiu esboçar um esgar de desprezo.

"Você não tem capacidade intelectual para perceber esse segredo. O que aquele documento revela está para além da sua compreensão."

Kazemi sorriu de novo.

"Talvez você tenha razão", admitiu. "Mas existe entre nós quem esteja habilitado a perceber tudo."

"Entre vocês? Duvido."

Tomás viu o coronel fazer um sinal para a frente e, pela primeira vez, percebeu que, para além do condutor, havia uma outra pessoa sentada no banco dianteiro. Focou a atenção nessa pessoa e reconheceu, surpreendido, os cabelos negros, as linhas delicadas no rosto, os lábios sensuais, os olhos melados que o fitavam com uma indisfarçável e irreprimível ponta de tristeza.

"Ariana."

 

XXX

 

O quarto revelou-se escuro e frio, com apenas uma pequenina janela gradeada no topo, tapada por um vidro grosso e fosco. Era por aquela estreita abertura que entrava toda a luz que iluminava o pequeno compartimento. Do tecto pendia uma lâmpada, como uma lágrima presa por um fio, mas Tomás ainda não a vira acesa e suspeitava que só à noite lhe enxergaria o bruxulear amarelado.

Chamar quarto àquele rudimentar espaço talvez fosse excesso de tolerância. Era, sem dúvida, uma cave, e, nas circunstâncias actuais, talvez a expressão mais adequada para descrever o local fosse a palavra cela. Tomás encontrava-se encerrado numa cela improvisada. Havia uma colorida manta tibetana estendida no chão de pedra fria, um balde para fazer as necessidades e um jarro de água.

Nada mais.

A verdade, porém, é que o conforto estava longe de ser a principal das preocupações de Tomás naquele momento. A questão central resumia-se à constatação de que fora de novo feito prisioneiro. Sentou-se de cócoras sobre a manta e fez um ponto da situação. Os seus carcereiros eram os iranianos; procuravam desvendar o segredo encerrado no manuscrito de Einstein; e, como se fosse a cereja podre em cima daquele bolo da desgraça, Ariana estava do lado deles.

Custava-lhe a acreditar, mas vira o que vira, vira Ariana com o coronel iraniano, vira-a no carro onde fora sequestrado, vira-a participar naquele acto. Como era possível tal coisa? Ariana contra si? A dúvida martelou-o sem cessar. Será que sempre estivera contra si? Será que o enganara o tempo todo? Que tolo! Tolo, tolo, tolo. Mas, questionou-se, qual o objectivo do exercício? Para quê todo o teatro encenado em Teerã? Não, pensou, abanando a cabeça. Não pode ser. Ariana não pode ser dúplice a este ponto. Isso era de mais. Não. Tem de haver outra explicação. Procurou alternativas, buscou justificações, tentou um novo caminho. Será, interrogou-se quase timidamente, será que alguém a forçara? Será que ela foi apanhada a ajudá-lo e a sua vida também corria agora perigo? Mas, se corria perigo e estava sob ameaça do regime, por que razão a deixaram vir até ao Tibete?

Permaneceu horas ali fechado, sozinho, entregue às suas perplexidades, procurando encontrar uma explicação para o inexplicável, uma justificação para o insuportável, uma saída para o inaceitável. Mas o amargo sabor da traição não o largava, era como um fantasma a assombrar-lhe cada pensamento, uma mancha que lhe matizava os sentimentos, uma dúvida que o inquietava para além do que podia tolerar.

Passos.

O som de passos a aproximarem-se interrompeu-lhe o angustiado fio do pensamento. Vinha aí alguém. Susteve a respiração e aguçou a atenção. Ouviu vozes a acompanharem esses passos, depois os passos pararam e escutou o som metálico de uma chave a entrar na fechadura da porta do quarto.

Clique, dique.

Claque.

A porta abriu-se e o vulto corpulento do coronel Kazemi invadiu o pequeno compartimento. Trazia um banco na mão e atrás vinha mais gente. Tomás esticou a cabeça e identificou Ariana.

"Então como vai o nosso professor?", perguntou o oficial do VEVAK com ar jovial. "Pronto para falar?"

Kazemi deixou Ariana passar e trancou a porta atrás de si. Depois pousou o banco no chão e sentou-se, mirando Tomás. O recluso erguera-se sobre o tapete tibetano, os olhos dançando com desconfiança entre os dois iranianos.

"O que me querem vocês?"

"Você sabe...", sorriu Kazemi com ar condescendente.

Tomás ignorou-o e fitou Ariana com uma expressão zangada, acusadora.

"Como é que você me pôde fazer isto?"

A iraniana fugiu com os olhos, pregando-os ao chão.

"A doutora Pakravan não tem justificações a dar-lhe", rosnou Kazemi. "Vamos ao que interessa."

"Fale", insistiu Tomás, sempre fixado em Ariana. "O que se passa aqui?"

O coronel ergueu o dedo.

"Estou a avisá-lo, professor", vociferou, a voz ameaçadora. "A doutora Pakravan não tem explicações a dar-lhe. O senhor é que tem explicações a dar-nos."

Tomás não deu sinais de ter escutado o homem do VEVAK e manteve a atenção virada para a iraniana.

"Diga-me que não foi tudo mentira. Diga-me qualquer coisa."

Kazemi ergueu-se bruscamente do banco, pegou Tomás pelo colarinho e levantou a mão direita, preparando-se para o esbofetear.

"Cale-se, idiota!", ladrou.

Ariana gritou qualquer coisa em parsi e o coronel susteve a mão no ar. Largou Tomás com relutância e regressou ao banco, uma expressão de despeito desenhada no rosto.

"Então?", insistiu o prisioneiro, ainda em tom de desafio. "Como se explica tudo isto?"

Ariana manteve-se por instantes calada, mas logo mirou o coronel e falou com ele novamente em parsi. Após uma ininteligível troca de palavras, Kazemi fez um gesto irritado e voltou-se para Tomás.

"O que quer você saber?"

"Quero saber qual o envolvimento de... da doutora Pakravan nesta história."

O oficial do VEVAK sorriu sem humor.

 

"Pobre coitado", disse. "Você acha mesmo que é possível fugir de Evin com essa facilidade toda?"

Continuar: parte 2 de 3