A Guerra das Mulheres
Capítulo IX
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 2 partes.
A senhora da esquerda era a marquesa
de Tourville, que se não atrevia a escrever romances, mas que forjava planos em assuntos políticos; não fazia a guerra pessoalmente, como o bravo Pompeu, e, não recebera, como ele, uma bala na batalha de Corbie; mas seu marido, que era um capitão assaz estimado, fora ferido em Arrochela, e morto em Friburgo. De onde resultava que, sendo herdeira da fortuna patrimonial, entendera que devia também sê-lo do gênio militar. Depois que veio reunir-se às princesas em Chantilly, já fizera três planos de campanha, que sucessivamente excitaram a admiração das mulheres em cuja companhia estava, e que, embora não abandonados, foram aprazados para o momento em que se desembainhasse a espada. Não se atrevia a vestir o uniforme do marido, apesar de às vezes bem desejar fazê-lo. Possuía, porém, a espada do defunto, que estava pendurada no seu quarto, à cabeceira do leito, e, de tempos a tempos, quando só, desembainhava-a com ar muito marcial.
Apesar da sua aparência festiva,
Chantilly poderia bem não ser, na realidade, mais do que um vasto abarracamento; e caso se procurasse, ali se encontraria pólvora nos subterrâneos e baionetas nas ramadas.
Em cada percurso que faziam, no seu
triste passeio, as três mulheres passavam junto à porta principal do castelo, e dir-se-ia que da escada espreitavam a chegada de algum mensageiro importante. Já por diversas vezes a princesa viúva dissera, abanando a cabeça e suspirando:
- Seremos mal sucedidas, minha filha;
ver-nos-emos humilhadas.
- Não se pode alcançar glória sem
algum preço - disse a senhora de Tourville, sem dar mostras de timidez; - e não há vitória sem combate!
- Se ficarmos mal, se formos vencidas -
volveu a jovem princesa - vingar-nos-emos.
- Senhoras - sentenciou a princesa
viúva - se nos sairmos mal, será unicamente Deus quem terá vencido o príncipe. Quererão acaso, vingar-se de Deus?...
A jovem princesa inclinou-se ante a
soberba humildade da sogra, e as três personagens, altercando deste modo, e dando-se um mútuo incenso, assemelhavam-se a um bispo assistido por dois diáconos, que tomem a Deus por pretexto das homenagens que prestam uns aos outros.
- Nem o senhor de Turenne, nem o senhor de La Rochefoucauld, nem o senhor de Bouillon!... - resmungou a princesa viúva. - Tudo falta, e ao mesmo tempo!
- Nem dinheiro! - acrescentou a senhora
de Tourville.
- Nem em quem possamos confiar -
replicou a princesa. - E se a própria Clara se esquece de nós?..
- Quem lhe diz, minha filha, que a
senhora de Cambes se esquece de nós?
- Ela não volta!...
- Talvez que não o tenha podido fazer;
as estradas estão fortemente guardadas pelo exército do senhor de Saint-Aignan, bem o sabe.
- Poderia pelo menos escrever-nos... - Desejaria que ela confiasse ao papel
uma resposta tão importante? A adesão de uma cidade inteira como Bordéus, ao partido dos príncipes!... Não, as diligências dessa banda não são as que mais me inquietam.
- Além disso - replicou a senhora de
Tourville - um dos três planos que tive a honra de entregar a Vossa Alteza, tinha por finalidade a sublevação infalível da Guiena.
- Sim, sim, voltaremos a ocupar-nos
disso, se for necessário - respondeu a princesa. - Mas declaro-me a favor do parecer de minha mãe e senhora, e começo a acreditar que terá acontecido alguma desgraça a Clara, pois se assim não fosse, já aqui estaria. Talvez que os seus rendeiros não tenham cumprido a respectiva palavra; um miserável aproveita sempre a ocasião de não pagar, quando pode furtar-se. Além de que, como sabemos nós o que a gente da Guiena terá feito ou não, apesar das promessas? São gascões!
- São uns conversadores! - disse a
senhora de Tourville.- Verdade que são bravos, individualmente; mas reunidos em corpo, são maus soldados, que só prestam para bradar Viva o Príncipe quando têm medo dos espanhóis, e nada mais.
- Porém, detestavam o senhor
d’Épernon - lembrou a princesa viúva - pois que em Agen o enforcaram em estátua, e prometeram enforcá-lo pessoalmente em Bordéus, se lá tornasse a entrar.
- E ele é capaz de lá ter voltado, e de os
ter mandado enforcar a todos - observou a princesa, com despeito.
- E tudo isto - replicou a senhora de
Tourville - é culpa de Lenet, do senhor Pedro Lenet - repetiu ela, com afetação - daquele conselheiro teimoso, que se obstina em conservar, e que mais não serve senão para transtornar todos os nossos planos. Se ele não rejeitasse o meu segundo plano, destinado, como se lembrará, a tomar de surpresa o Castelo de Vayres, a ilha de São Jorge, e o Forte de Blaye, teríamos agora sitiado Bordéus, e esta cidade não poderia deixar de capitular.
- Prefiro, salvo o parecer de suas
altezas, que Bordéus se declare por nós voluntariamente - afirmou por detrás da senhora de Tourville uma voz em cujo acento respeitoso não deixava de transparecer algo de irônico. - Cidade que capitula, cede à força, e a nada se obriga; cidade que se declara voluntariamente, compromete-se, e vê-se obrigada a seguir até ao último extremo a fortuna daqueles por quem se declarou.
As três senhoras voltaram-se, e deram
com os olhos em Pedro Lenet, que, enquanto elas davam uma das suas voltas em direção àquele grande portão do castelo, de onde não tiravam os olhos, saíra por uma portinha rente ao terraço, e delas se aproximara pela retaguarda.
O que a senhora de Tourville dissera
não deixava, em parte, de ser verdade. Pedro Lenet, conselheiro do príncipe, homem frio, inteligente e grave, fora encarregado pelo prisioneiro de observar tantos os amigos como os inimigos, e, convém dizê-lo, encontrava muito maior dificuldade em obstar a que os amigos do príncipe comprometessem a sua causa, do que em combater as más intenções dos inimigos. No entanto, hábil e ardiloso com um causídico, habituado às rabulices e tretas dos demandistas, conseguia ordinariamente triunfar, ou por alguma feliz reação, ou por uma inabalável inércia. Além do que era em Chantilly mesmo que travara as suas mais sábias batalhas. O amor-próprio da senhora de Tourville, a impaciência da princesa, a inflexibilidade aristocrática da princesa viúva, não deixavam de valer tanto como a astúcia de Mazarino, o orgulho de Ana de Áustria, e as indecisões do Parlamento.
Encarregado pelos príncipes de toda a
correspondência Lenet pusera a si próprio a norma de não dar notícias às princesas senão na ocasião oportuna, e era ele quem se constituía juiz desta oportunidade; porquanto, não primando sempre a diplomacia feminina pelo segredo, que é o primeiro princípio da diplomacia masculina, um número não pequeno dos planos de Lenet haviam por isso sido entregues pelos seus amigos aos próprios inimigos.
As duas princesas, que nem por isso
deixavam de reconhecer - sem embargo da oposição que nele encontravam - o ardente zelo e sobretudo a utilidade de Pedro Lenet, fizeram bom acolhimento ao conselheiro, e até um ligeiro sorriso deslizou pelos lábios da viúva.
- Então, meu caro Lenet? Bem ouvi -
disse ela. - A senhora de Tourville lastimava-se... ou para melhor dizer: lastimava-nos; tudo vai de mal a pior! Ai, os nossos negócios, meu caro Lenet, os nossos negócios!...
- Senhora - disse Lenet - estou longe de
ver as coisas tão negras como Vossa Alteza as vê. Espero muito do tempo, e das variações da fortuna. Bem sabe o que diz o provérbio: "Quem espera sempre alcança."
- O tempo, as variações da fortuna!...
Isso, senhor Lenet, é filosofia, e não política! - exclamou a princesa.
Lenet sorriu, por seu turno. - A filosofia, senhora, é útil em todas as
coisas, e sobretudo em política. Ensina-nos a não nos exagerarmos com o êxito feliz, e a não perder a paciência nos reveses.
- Não importa - disse a senhora de
Tourville. - Preferíamos um bom correio a todas as suas máximas. Não é verdade, princesa?
- Sim, confesso-o - respondeu a senhora
de Conde.
- Vossa Alteza ficará, portanto, muito
satisfeita, porque receberá hoje três - replicou Lenet, com o mesmo sangue-frio.
- Como assim!? Três?!...
-Sim, senhora. O primeiro foi visto na
estrada de Bordéus, o segundo vem de Stenay, e o terceiro chega de La Rochefoucauld.
As duas princesas soltaram
exclamações de alegre sobressalto. A senhora de Tourville mordeu os lábios.
- Parece-me, meu querido Pedro - disse
ela, requebrando-se toda para dissimular o despeito e colorir dos melhores tons a amargura da palavra que ia proferir - que um hábil nigromante como o senhor não deveria deter-se em tão boa fala, e que, depois de nos haver anunciado os correios, deveria dizer-nos o conteúdo dos despachos...
- A minha ciência, senhora não chega
ao ponto que julga - disse ele, modestamente. - Limito-me a ser um fiel servidor. Anuncio, mas não adivinho.
No mesmo instante, como se com efeito
Lenet fosse servido por algum demônio, avistaram-se dois cavaleiros, que, franqueada a cancela do castelo, se adiantavam à desfilada. Imediatamente, um bando de curiosos, desertando dos jardins e dos canteiros de relva, acudiu para saber a sua parte de notícias. Os dois cavaleiros apearam-se, e um deles, largou ao outro - que parecia ser o lacaio - a rédea do cavalo alagado em suor, e, mais correndo do que andando, dirigiu-se para as princesas, que lhe saíam ao encontro numa extremidade da galeria, enquanto ele entrava pela outra.
- Clara! - exclamou a princesa. - Sim, minha senhora; digne-se Vossa Alteza receber os meus humildes respeitos.
E pondo um joelho no chão, o mancebo
quis segurar a mão da princesa, para a beijar respeitosamente.
- Venha a meus braços, querida
viscondessa - exclamou a senhora de Conde, levantando-a.
E depois de se haver deixado abraçar,
com todas as mostras de respeito possíveis, o cavaleiro voltou-se para a princesa viúva, a quem saudou profundamente.
- Depressa! Fale, querida Clara - disse
esta, não podendo conter a impaciência.
- Sim, fala - repetiu a senhora de
Conde. - Viste Richon?
- Sim, senhora; e encarregou-me de
uma comissão para Vossa Alteza.
- Boa ou má?
- Eu mesma o ignoro; compõe-se de
duas palavras.
- Quais são elas? Depressa! Que eu
morro de inquietação.
E a mais viva ansiedade pintou-se no rosto das duas princesas.
- Bordéus - Sim! - disse Clara, inquieta
ela mesma quanto ao efeito que produziriam estas duas palavras.
Mas em breve ficou sossegada, porque
as princesas responderam a estas duas palavras com um grito de triunfo, o suficiente para que Lenet acudisse correndo na extremidade da galeria.
- Lenet, Lenet! - venha, venha! -
exclamou a princesa. - Não sabe decerto que notícia nos traz a nossa boa Clara!...
- Olá, se sei, senhora!...-volveu Lenet,
sorrindo - e por isso não me apressava.
- Como!? sabe?!...
- Bordéus - Sim! Não é isso?... - disse
Lenet.
- Na realidade, meu querido Pedro, é
feiticeiro! - espantou-se a princesa viúva.
- Mas se sabia - disse em tom de
repreensão a princesa - por que razão, vendo a inquietação em que estávamos, não nos sossegou com essas duas palavras?...
- Porque eu queria deixar à senhora
viscondessa de Cambes a recompensa das suas fadigas - respondeu Lenet, inclinando-se diante de Clara, sumamente comovida.- E, além disso, porque também receava a explosão de alegria de vossas altezas, no terraço, e à vista de toda a gente.
- Tem razão, sempre razão! Pedro! meu
bom Pedro! - disse a princesa. - O melhor é calarmo-nos!
- E, contudo, àquele honrado Richon é
que devemos isso - acrescentou a princesa viúva. - Não é verdade que está contente com ele, e pela bela maneira com que manobrou? Diga, compadre Lenet.
Compadre era a palavra carinhosa da
princesa viúva, tendo-se habituado a empregá-la a exemplo do rei Henrique IV, que dela se servia com freqüência.
- Richon, senhora, é homem de juízo e
de ação - disse Lenet. - E creia Vossa Alteza que se eu não estivesse tão certo dele, como o estou de mim mesmo, não o teria recomendado.
- Que faremos nós por ele? - perguntou
a princesa viúva.
- Algum posto importante!... Vossa
Alteza não pondera isso devidamente - disse com azedume a senhora de Tourville. - Esquece-se de que o senhor Richon não é gentil-homem.
- Nem eu também o sou, senhora -
respondeu Lenet - o que não obsta a que o príncipe tenha, como suponho, alguma confiança em mim. Decerto admiro e respeito a nobreza da França; mas circunstâncias há em que me atreverei a dizer que vale mais um grande coração do que um velho brasão.
- E porque não veio o bom Richon
anunciar ele mesmo em pessoa esta rica notícia? - quis saber a princesa.
- Ficou na Guiena, para reunir um certo
número de homens. Disse-me que podia já contar com uns trezentos soldados; e acrescenta somente que, por falta de tempo, não estarão bem exercitados para combaterem a descoberto, pelo que preferia que se obtivesse para ele o comando de uma praça, como Vayres, ou a ilha de São Jorge. Ali - disse ele - teria toda a certeza de ser muitíssimo útil a Suas Altezas.
- Mas como se poderia conseguir isso? -
perguntou a princesa. - Não somos atualmente bem vistas na corte para podermos recomendar alguém, e aquele que recomendássemos tornar-se-ia desde logo suspeito.
- Talvez, senhora - disse a viscondessa -
que houvesse um meio, e foi o próprio senhor Richon quem mo sugeriu.
- Qual?
- O senhor d’Épernon está, segundo
parece - continuou a viscondessa, tornando-se vermelha - perdido de amores por uma certa menina...
- Ah! sim! A formosa Nanon - disse
com desdém a princesa. - Sabemos muito bem.
- Ora, pois: parece que o duque d’Épernon nada pode recusar a essa mulher, e que ela concede tudo quanto lhe compram. Não se lhe poderia comprar uma patente para o senhor Richon?
- Seria dinheiro bem empregado - disse
Lenet.
- Sim, mas o cofre está seco; sabe-o
muito bem, senhor conselheiro - disse a senhora de Tourville.
Lenet voltou-se sorrindo para o lado da
senhora de Cambes.
- Eis o momento, minha senhora -
disse-lhe - de provar as suas altezas que de nada se esqueceu.
- Que quer dizer, senhor Lenet? - Ele quer dizer, senhora, que sou tão
feliz que posso oferecer-lhe uma fraca quantia, que a muito custo pude arrancar aos meus rendeiros; o oferecimento é muito modesto, mas não pude alcançar mais. Vinte mil libras... - continuou a viscondessa, baixando os olhos e hesitando, muito envergonhada por não poder oferecer uma quantia maior às duas primeiras senhoras do reino, depois da rainha.
- Vinte mil libras!... - exclamaram as
duas princesas.
- Mas, em tempos tão desgraçados
como estes em que vivemos, é uma fortuna! - continuou a princesa.
- Vossa Alteza mais tarde se ocupará
disso.
- E onde está essa soma? - perguntou a
senhora de Tourville.
- No quarto de Sua Alteza, para onde o
meu escudeiro Pompeu recebeu ordem de a levar.
- Lenet - disse a princesa - lembrar-se-á
de que devemos esta quantia à senhora de Cambes.
- Já está lançada em conta - disse Lenet,
tirando da algibeira o seu bloco de notas, e mostrando na exata data as vinte mil libras da viscondessa assentadas numa coluna, cujo total teria assustado um tanto as princesas, caso se tivessem dado ao trabalho de somá-la.
- Mas como conseguiu passar sã e
salva, minha querida? - disse a princesa. - Asseguram-nos que o senhor de Saint-Aignan guarda a estrada, e passa revista a tudo, nem mais nem menos do que faz a guarda da alfândega.
- Graças à prudência de Pompeu - disse
a viscondessa - evitamos, senhora, esse perigo, fazendo um enorme rodeio, o qual nos retardou cerca de dia e meio; mas a ele devemos a segurança com que viajamos. Se não fosse esse percalço , eu tinha chegado anteontem junto de Vossa Alteza.
- Sossegue, senhora - disse Lenet -
ainda não houve tempo perdido. O que é agora necessário é empregar o dia de hoje, e o de amanhã. Hoje, disto devem lembrar-se vossas altezas, esperamos ter correios; um já chegou, faltam os outros dois.
- E pode saber-se, senhor, os nomes
desses dois correios? - perguntou a senhora de Tourville, esperando sempre colher em falta o conselheiro, a quem fazia guerra - que por não ser declarada, nem por isso era menos real.
- O primeiro, se as previsões me não
enganam - respondeu Lenet - será Gourville; vem da parte do duque de La Rochefoucauld.
- Da parte do príncipe de Marsillac,
quer sem dúvida dizer - emendou a senhora de Tourville.
- O príncipe de Marsillac, senhora, é
agora duque de La Rochefoucauld.
- Então o pai morreu?
- Há oito dias.
- E onde?
- Em Verteuil.
- E o segundo? - perguntou a princesa. - O segundo é Blanchefort, capitão das
guardas do príncipe. Chega de Stenay, e vem da parte do senhor de Turenne.
- Em tal caso, creio - disse a senhora de
Tourville - que, para evitar toda a perda de tempo, poder-se-ia recorrer ao primeiro plano que eu tinha feito, no caso da provável adesão de Bordéus, e da aliança dos senhores de Turenne e de Marsillac.
Lenet, sorriu, como era seu costume. - Perdoe-me, senhora - disse em tom
sumamente cortês - mas os planos formados pelo príncipe em pessoa, estão a esta hora em vias de execução, e prometem um resultado feliz.
- Os planos formados pelo príncipe -
disse com rispidez a senhora de Tourville - pelo príncipe, que está na prisão de Vincenas, e que não tem comunicação com pessoa alguma?!...
- Eis as ordens de Sua Alteza, escritas
pelo seu próprio punho, e datadas de ontem - volveu Lenet, tirando da algibeira uma carta do príncipe de Conde. - Recebia-a esta manhã. É que mantemos correspondência.
O papel quase foi arrancado das mãos
do conselheiro pelas duas princesas, que devoraram, derramando lágrimas de alegria, tudo quanto nele se continha.
- Ora, pelo que vejo, não se dirá que as
algibeiras de Lenet contêm todo o reino da França?... - disse a princesa viúva.
- Ainda não, senhora, ainda não -
respondeu o conselheiro. - Mas com a ajuda de Deus, farei diligência para alargá-las o suficiente. Agora - continuou ele, fitando os olhos na viscondessa - esta senhora deve precisar de descanso, porque o longo caminho...
A viscondessa compreendeu qual era o
desejo que tinha Lenet de ficar só com as princesas, e, perante um sorriso da princesa viúva, que confirmou esta idéia, fez uma respeitosa saudação, e afastou-se.
A senhora de Tourville ia-se deixando
ficar, e congratulava-se por fazer uma ampla colheita de informações secretas. Todavia, em conseqüência de um imperceptível aceno da princesa viúva à sua nora, as duas princesas, espontaneamente, e com uma augusta mesura, feita conforme com todas as regras da etiqueta, anunciaram à senhora de Tourville que era chegado o termo da sessão política a que fora convidada a assistir. A dama das teorias compreendeu perfeitamente o que dela se pretendia, fez as duas senhoras uma mesura ainda mais grave e mais cerimoniosa do que a que lhe haviam feito, e retirou-se, tomando a Deus por testemunha da ingratidão das princesas. Estas, recolheram-se ao seu gabinete, e Pedro Lenet entrou após elas.
- Agora - disse Lenet, depois de se
haver certificado de que a porta estava bem fechada - se Vossas Altezas querem receber Gourville, que acaba de chegar, e está mudando de fato, pois não ousa apresentar-se com o trajo de viagem...
- E que notícia traz ele?
- A notícia de que o senhor de La
Rochefoucauld deve chegar aqui esta noite ou amanhã, com quinhentos gentis-homens.
- Quinhentos gentis-homens?! -
exclamou a princesa. - Na realidade, é um exército!
- Que mais difícil tornará a nossa
passagem. Preferia cinco ou seis servidores somente, a todo esse aparato; ter-nos-íamos mais facilmente subtraído ao senhor de Saint-Aignan, e evitado o seu encontro. Mas assim, será quase impossível chegar ao Midi sem sermos inquietados.
- Tanto melhor se nos inquietarem -
exclamou a princesa - porque se nos inquietarem, combateremos e sairemos vencedores: o espírito do senhor de Conde marchará conosco.
Lenet olhou para a princesa viúva,
como se para também ouvir o parecer desta; mas Carlota de Montmorency, criada durante as guerras civis, no reinado de Luís XIII, que vira curvarem-se tantas altas cabeças para entrarem na prisão, ou rolarem nos cadafalsos por haverem querido conservar-se direitas, passou com tristeza a mão pela fronte, carregada de penosas lembranças.
- Sim - disse ela - eis o triste estado a
que nos vemos reduzidos! Ocultarmo-nos, ou combatermos! Vivíamos muito sossegados, à sombra da pouca glória que Deus se dignara conceder à nossa casa, e não procurávamos - pelo menos lisonjeio-me de que nenhum de nós tivesse outra intenção - outra glória que não fosse a de nos conservarmos na graduação em que havíamos nascido; e eis que as contingências destes desgraçados tempos nos impelem a combater o nosso amo...
- Senhora! - cortou com impetuosidade
a jovem princesa - Encaro com menos desgosto do que Vossa Alteza a necessidade a que nos vemos constrangidos. Meu esposo e meu irmão estão sofrendo um indigno cativeiro; aquele esposo e aquele irmão são seus filhos. Além disso, a sua filha está proscrita. É mais do que necessário, sem dúvida alguma, para desculpar todas as empresas que pudermos tentar.
- Sim - disse a princesa viúva, com uma
tristeza muito resignada. - Sim, senhora, eu suporto tudo isto com mais paciência do que a senhora; mas também não posso deixar de lamentar o triste destino - que parece ameaçar-nos - de sermos proscritos ou presos. Assim que fui esposa do pai de seu marido, logo tive de sair de França, perseguida por causa de Henrique IV. Mal havíamos para ela voltado, quando tivemos de entrar na prisão de Vincenas, perseguidos pelo ódio do cardeal de Richelieu. Meu filho, que hoje está preso, nasceu na prisão, e pôde, no fim de trinta e dois anos, tornar a ver o quarto onde nasceu.
"Ah! o seu sogro, o príncipe, tinha
razão de sobra nas suas sombrias profecias, pois quando lhe anunciaram o desfecho da batalha de Rocroy, quando o conduziram à sala atapetada com as bandeiras tomadas aos espanhóis.. Deus sabe a alegria que esta ação de meu filho me causa - disse ele, voltando-se para mim. - Mas lembre-se, senhora, que quanto mais glória a nossa casa adquirir, tanto maiores desgraças terá de sofrer. Se as minhas armas não fossem as da França, brasão demasiado belo para que possa ser abandonado, preferiria tomar por armas um falcão, a quem as campainhas denunciam, e ajudam a ser de novo apanhado, com esta divisa: Fama dócil! - Temos feito muito ruído, minha filha, e alcançado demasiado renome - eis o que nos perde. Não é do meu parecer, Lenet?
- Senhora - replicou Lenet, aflito com as
recordações que a princesa acabava de evocar - Vossa Alteza tem razão; mas adiantamo-nos demasiado, e, por isso, não podemos recuar. Mais ainda: em circunstâncias semelhantes àquelas em que nos encontramos, há que tomar uma resolução pronta: cumpre ver qual seja na realidade a nossa situação, e não a dissimularmos. Não estamos livres senão na aparência: a rainha tem os olhos fixos em nós, e o senhor de Saint-Aignan bloqueia-nos. Trata-se, pois, de sair de Chantilly apesar da vigilância da rainha, e do bloqueio do senhor de Saint-Aignan.
- Saiamos de Chantilly, sim, mas de
cabeça levantada! - exclamou a princesa.
- A minha opinião é esta - disse a princesa viúva. - Os Condes não são espanhóis, e não atraiçoam; não são italianos, e não enganam; o que fazem, fazem-no às claras, e de fronte erguida.
- Senhora - volveu Lenet, com acento de
convicção. - Deus é testemunha de que serei o primeiro a executar a ordem de Vossa Alteza, seja ela qual for; mas para sair de Chantilly, como o quer fazer, é preciso dar batalha. Decerto não tenciona ser mulher no combate, depois de ter sido homem no conselho. Marchará à frente dos seus partidários, e será Vossa Alteza quem dará aos soldados o grito de guerra. Esquece-se, porém, de que ao lado das vossas preciosas existências começa a apontar uma existência não menos preciosa - é a do senhor duque de Enghien, filho e neto de Vossas Altezas. Irão arriscar-se a sepultar no mesmo túmulo o presente e o futuro da vossa casa?... Crêem que o pai não servirá de refém a Mazarino, quando se tentarem empresas temerárias em nome do filho? Não conhecem já os segredos da torre de Vincenas, onde estiveram encerrados o grão-prior de Vandoma, o marechal d’Ornano e Puy-Laurens?... Esqueceram-se daquele quarto fatal que, segundo diz a senhora de Rambouillet, é a habitação mais insuportável do mundo? Não, senhoras - continuou Lenet, juntando as mãos - não, hão-de dar ouvidos ao parecer deste vosso velho servidor, e sairão de Chantilly como convém que o façam senhoras que sofrem perseguição. Lembrem-se de que a vossa arma mais segura é a fraqueza; um menino a quem privam do pai, uma mulher a quem privam do marido, uma mãe a quem privam do filho, libertam-se, do melhor modo que podem, do laço que as prende. Para obrar e falar alto e bom som, aguardem que não sirvam já de reféns ao mais forte. Estando presas, os vossos partidaristas ficaram mudos; vendo-as livres, declarar-se-ão, visto já não recearem que lhes imponham as condições do vosso resgate. O nosso plano está apoiado por Gourville. Temos toda a certeza de ter uma boa escolta, com a qual evitaremos os perigos do caminho. Hoje, vinte partidos diferentes estão envolvidos, e todos vivem indistintamente à custa do amigo e do inimigo. Consintam no que lhes digo: tudo está para breve.
- Partimos às escondidas, partimos
como malfeitores?! - exclamou a jovem princesa. - Oh! que dirá o príncipe, quando souber que a mãe, a mulher e o filho, se sujeitaram a uma tal vergonha !?
- Não sei o que dirá. Mas se forem bem
sucedidas, dever-lhes-á a liberdade; se não se saírem bem, não comprometem os vossos recursos, e sobretudo a vossa posição, como aconteceria arriscando-se a uma batalha.
A princesa viúva refletiu um momento,
e com o rosto cheio de afetuosa melancolia, afirmou:
- Meu querido senhor Lenet, trate de
convencer minha filha, pois quanto a mim, vejo-me obrigada a ficar aqui. Até agora, tenho lutado, mas não me sinto já com forças para mais: a dor que me consome, e que em vão me esforço por ocultar, a fim de não desanimar as pessoas que me rodeiam, vai agrilhoar-me num leito de dor, que será talvez o meu leito de morte. É preciso, primeiro que tudo, salvar a fortuna dos Condes. Minha filha e meu neto sairão de Chantilly, e congratulo-me por terem bastante prudência para se conformarem aos seus conselhos - ou, para melhor dizer, às suas ordens. Ordene, Lenet, e executar-se-á o que ordenar.
- Perde a cor, senhora! - exclamou
Lenet, segurando a princesa viúva, a quem já a jovem princesa, assustada com a sua palidez, tomara em seus braços.
- Sim... - disse a viúva, que cada vez se
ia sentindo mais fraca! - sim... as boas notícias de hoje fizeram-me mais mal do que as angústias dos últimos dias. Sinto-me devorada pela febre; não digamos a ninguém, pois que isto, em tal momento, poderia ser-nos muito nocivo.
- Senhora - disse Lenet em voz baixa - a indisposição de Vossa Alteza seria um benefício do Céu, se a sua pessoa não padecesse. Deixe-se ficar na cama, e faça correr a notícia da sua doença. A senhora - continuou ele, dirigindo-se à jovem princesa - mande chamar o vosso médico Bourdelot; e como em breve teremos de recorrer às estrebarias e às equipagens, espalhe por toda a parte que a vossa intenção é mandar correr um gamo no parque. Deste modo, ninguém se admirará de ver homens, armas e cavalos em atividade.
- Faça o que entender, Lenet. Mas como
é possível que um homem tão previdente como o senhor não veja que poderão admirar-se desta estranha partida de caça, no mesmo momento em que minha mãe cai doente?...
- Tudo isso será prevenido, senhora.
Não é depois de amanhã que o senhor duque de Enghien completa sete anos, e deve sair das mãos das mulheres?...
- Assim é.
- Ora bem; nós diremos que esta
partida de caça tem lugar por motivo das primeiras calças que veste o jovem príncipe; que Sua Excelência não quis de modo algum que a sua moléstia fosse entrave para esta solenidade, e tanto insistiu que tiveram de ceder às suas instâncias.
- Excelente idéia! - exclamou com um
alegre sorriso a princesa viúva, muito ufana com esta primeira proclamação da virilidade do neto. - Sim, o pretexto é bom, e, na realidade, Lenet, é um digno e bom conselheiro.
- Mas para correr atrás da caça, o
senhor duque de Enghien não terá de ir numa sege?... - perguntou a princesa.
- Não, senhora: a cavalo. Que não tenha
o mínimo susto, o seu coração maternal. Idealizei uma selazinha, que Vialas, seu escudeiro, assentará adiante do arção da dele; deste modo, todos poderão ver o senhor duque de Enghien, e à noite poderemos pôr-nos a caminho com toda a segurança. É que, na suposição de que tenhamos de fugir, indo a cavalo o senhor duque poderá passar por toda a parte; ao passo que, indo de sege, o primeiro obstáculo que encontrássemos far-nos-ia parar.
- Então sempre julga que devemos
partir?
- Depois de amanhã, à noite, senhora,
se Vossa Alteza não tem algum motivo para demorar a partida.
- Oh! não, muito pelo contrário:
afastemo-nos quanto antes da nossa prisão, Lenet.
- E uma vez que tenha saído de
Chantilly, que farão? - perguntou a princesa viúva.
- Passaremos através do exército do
senhor de Saint-Aignan, para cujos olhos encontraremos processo de lançar poeira. Iremos reunir-nos ao senhor de La Rochefoucauld e à respectiva escolta, e chegaremos a Bordéus, onde estão à nossa espera. Assim que chegarmos à segunda cidade do reino, à capital do Midi, poderemos negociar ou combater, como melhor convier a vossas altezas; contudo, terei a honra de lhes lembrar, senhoras, que mesmo em Bordéus não poderemos aguentar-nos muito tempo, caso não tenhamos do nosso lado algumas praças, que obriguem as tropas reais a dividirem-se. Duas destas praças sobretudo são de enorme importância: Vayres, que domina o Dordonha, e facilita a chegada de víveres à cidade, e a ilha de São Jorge, que é considerada pelos próprios bordaleses a chave da cidade. Disto, porém, nos ocuparemos mais tarde; por agora, tratemos apenas da forma como havemos de sair daqui.
- Não há coisa mais fácil, senhora, a
meu ver - disse a princesa. - Estamos aqui sós e à vontade, apesar de quanto possa dizer, Lenet.
- Não tenha qualquer certeza, senhora,
antes de estarmos em Bordéus; não há coisa que seja fácil, como o espírito diabólico de Mazarino; e se esperei que ficássemos sós para expor o meu plano a vossas altezas, foi para descargo da minha consciência, juro, porquanto neste mesmo momento sinto grandes receios relativamente à segurança do projeto que a minha cabeça só por si concebeu, e que os vossos ouvidos foram os únicos a ouvir. O senhor Mazarino não só sabe das coisas, mas até as adivinha...
- Oh! eu o desafio a que faça malograr
esta! - desafiou a princesa. - Mas ajudemos minha mãe a recolher-se a seu quarto; desde hoje mesmo vou propagar o boato da nossa partida de caça para depois de amanhã. Encarregue-se dos convites, Lenet.
- Fique descansada a esse respeito,
senhora.
A princesa viúva recolheu-se aos seus
aposentos, e meteu-se na cama. A presença de Bourdelot, médico da casa de Conde e mestre do duque de Enghien, foi pedida. A notícia desta inesperada indisposição espalhou-se no instante mesmo por Chantilly, e, meia hora depois, os bosques, as galerias, e os jardins, ficaram desertos, apinhando-se todos os hóspedes das princesas na antecâmara da princesa viúva.
Lenet passou o dia a escrever, e nessa
mesma noite mais de cinqüenta convites foram enviados em diferentes direções pelos numerosos servidores da real casa.
XIII
O dia designado para levar a efeito os
importantes planos de Pedro Lenet foi um dos mais escuros daquela Primavera, a que chamam por tradição a mais bela estação do ano, e que quase sempre, sobretudo na França, é a mais desagradável. O céu estava nublado, a mais profunda névoa reinava por toda a parte, e a chuva caía, fria e densa, nos jardins de Chantilly. Nos vastos pátios, presos às argolas, aguardavam cinqüenta cavalos selados e enfreados, de orelha baixa, olhos tristes, e raspando impacientes a terra com as ferraduras; matilhas de cães atrelados e inquietos, tentavam, por um esforço comum, arrastar consigo o moço que enxugava aos que mais estimava as orelhas ensopadas em chuva.
Aqui e além vagueavam os picadores
com as suas cornetas, e de mãos atrás das costas. Alguns oficiais, que se haviam acostumado a resistir às inclemências do tempo nos bivaques de Rocroy e de Lens, arrostavam a água do céu, e mitigavam o desagrado da demora conversando sob os terraços e escadas exteriores.
Toda a gente havia sido avisada de que
era dia de cerimônia, e que deveriam munir-se de ar solene para verem o duque de Enghien, vestido com calças pela primeira vez, bater um gamo. Todos os oficiais que estavam ao serviço do príncipe, e todos os clientes da ilustre casa, convidados pelas circulares de Lenet, haviam cumprido, acudindo a Chantilly, o que entendiam ser um dever. Além disso, as inquietações que desde logo dera a saúde da princesa viúva haviam-se, dissipado, devido ao prognóstico, favorável de Bourdelot: a princesa, depois de sangrada, tomara pela manhã um emético, panacéia universal daquela época.
Às dez horas, todos os convidados
pessoais da senhora de Conde haviam chegado, e cada qual fora introduzido apresentando a sua carta de convite; e os que por acaso a tinham esquecido, uma vez que fossem reconhecidos por Lenet, eram introduzidos em conseqüência de um sinal que este fazia ao porteiro. Estes convidados, reunidos aos servidores da casa, formavam um total de oitenta ou noventa pessoas, cujo maior número estava reunido à roda do magnífico cavalo branco, que, com uma espécie de orgulho, levava adiante da sua grande sela à francesa um pequeno assento de veludo com espaldar, destinado ao duque de Enghien, e onde este devia tomar lugar quando Vialas, seu escudeiro, se tivesse instalado devidamente na sela principal.
Contudo, ainda se não falava de dar
princípio à caçada, e parecia que eram esperados outros convidados.
Pelas dez horas e meia, três gentis-
homens seguidos dos respectivos criados, armados de ponto em branco, e portadores de malas tão abarrotadas que dir-se-ia irem dar a volta à Europa, entraram no castelo, e vendo no pátio uns postes que pareciam plantados ali para o efeito, quiseram prender a eles os seus cavalos. No mesmo instante, um homem vestido de azul, com um talabarte de prata e de alabarda na mão aproximou-se dos recém-chegados, que pela equipagem ensopada em água e pelas botas enlameadas, facilmente eram reconhecidos como viajantes que vinham de longe.
- De onde vêm, senhores? - disse aquela
espécie de porteiro, atravessando a sua alabarda.
- Do Norte - respondeu um dos cavaleiros.
- E para onde vão?
- Vamos ao enterro.
- E que prova dão disso?
- Veja os nossos fumos.
Com efeito, os três amos tinham, cada
um, o seu fumo na espada.
- Rogo-lhes que me desculpem,
senhores - disse o porteiro. O castelo está à vossa disposição: encontrarão a mesa posta, um quarto com lume, e criados que os sirvam; quanto aos que os acompanham, também se lhes acudirá com o que for preciso.
Os gentis-homens, que tinham fome e
curiosidade, apearam-se, entregaram as rédeas dos cavalos aos lacaios, e, informando-se do caminho para a sala de jantar, dirigiram-se para esse lado. Um camareiro esperava-os à porta, e serviu-lhes de guia.
Enquanto isso, os cavalos foram tirados
das mãos dos lacaios da casa, e levados para as estrebarias, onde lhes deram agasalho e ração.
Ainda os três gentis-homens mal se
haviam sentado à mesa, quando outros seis cavaleiros, seguidos de seus lacaios, armados como os outros que já descrevemos, entraram, tal como eles, e, como eles, vendo os postes, quiseram prender às respectivas argolas as cavalgaduras. Mas o homem da alabarda, que tinha recebido ordens estritas, aproximou-se e renovou as perguntas:
- Donde vêm?
- Da Picardia. Somos oficiais do
exército de Turenne.
- Para onde vão?
- Vamos ao enterro.
- E que provas dão?
- Veja os nossos fumos.
E, tal como os primeiros, mostraram os
fumos que pendiam dos punhos das espadas.
Sendo tratados com a mesma cortesia,
estes últimos foram tomar o seu lugar na mesa; e os mesmos cuidados se deram aos seus cavalos, que foram recolhidos na estrebaria.
Depois destes, apresentaram-se outros
quatro, e ainda se renovou a mesma cena.
Das dez horas até ao meio-dia, dois a
dois, quatro a quatro, cinco a cinco, sós, em grupos suntuosos ou insignificantes, mas todos bem armados, chegaram uns cem cavaleiros, a quem o alabardeiro interrogou do mesmo modo, e que responderam dizendo de onde vinham, ajuntando que iam ao enterro, e mostrando os seus fumos.
Depois que todos jantaram e travaram
conhecimento, enquanto os criados tomavam algum refresco e os cavalos descansavam, Lenet entrou no salão e disse-lhes:
- Senhores, Sua Alteza agradece-lhes,
por meu intermédio, a honra que lhe fazem de passar por sua casa ao encontro do senhor duque de La Rochefoucauld, que os espera para celebrar as exéquias do senhor seu pai. Considerem esta habitação como vossa, e dignem-se participar nos divertimentos de uma caçada que deve ter lugar esta tarde, em execução das ordens dadas pelo senhor duque de Enghien, que hoje pela primeira vez veste calças.
Um murmúrio de aprovação e de
agradecimentos lisonjeiros correspondeu a esta primeira parte do discurso de Lenet, que, como hábil orador, se interrompera, à vista de um efeito certo.
- Concluída a caçada - continuou ele -
encontrarão sentada a cear a senhora Princesa, que deseja ela mesma apresentar-lhes os agradecimentos, após o que terão toda a liberdade para continuar o vosso caminho.
Alguns dos gentis-homens prestaram
uma atenção particular à exposição deste programa, que parecia de algum modo impedi-los de vontade própria. Contudo, prevenidos sem dúvida pelo senhor duque de La Rochefoucauld, esperavam alguma coisa semelhante, visto que ninguém fez reclamação alguma: uns foram ver os seus cavalos, e outros recorreram às suas malas, para se porem em estado de se apresentarem dignamente diante das princesas; outros, enfim, foram-se deixando ficar à mesa, conversando acerca dos negócios do tempo, que pareciam ter uma certa ligação com os acontecimentos daquele dia.
Muitos deles passeavam por baixo da
varanda principal, na ala, depois de terminado o seu atavio, devia aparecer o senhor duque de Enghien, confiado pela última vez ao cuidado das mulheres. O jovem príncipe, no quarto, com as suas amas e as embaladeiras, ignorava qual fosse a sua importância. Mas, cheio de orgulho aristocrático, contemplava com olhos impacientes o rico e severo trajo que ia envergar pela primeira vez. Era um vestido de veludo preto, bordado de prata, e este enfeite dava-lhe o ar sombrio do luto; a mãe queria a todo o preço ser considerada viúva, e tencionava mesmo inserir em certo discurso estas palavras: Pobre príncipe órfão...
Todavia, não era o príncipe quem
olhava com maior avidez para os esplêndidos vestidos e insígnias da sua virilidade, tanto tempo esperada; a dois passos dele, outro menino, que apenas tinha mais alguns meses de idade, de faces rosadas, cabelo louro, todo resplandecente de saúde, força e arrogância, devorava com os olhos o fausto de que se via rodeado o companheiro; até já por diferentes vezes, não podendo resistir à curiosidade, se atrevera a aproximar-se da cadeira sobre a qual estavam prontos os belos vestidos, e sorrateiramente havia apalpado o veludo e acariciado os bordados, enquanto o pequeno príncipe olhava para outro lado. Mas aconteceu que uma vez o duque de Enghien lançou os olhos a tempo, e Pierrot retirou a mão muito tarde.
- Toma sentido - exclamou o príncipe
com enfado - toma, pois, Pedrito! Vais estragar as minhas calças... Olha que são de veludo bordado, e bem vês que se lhe tocares perderá o brilho. Proíbo-te, pois, que ponhas as mãos nas minhas calças.
Pedro ocultou a criminosa mão atrás das costas, encolhendo e tornando a encolher os ombros, com aquele movimento de mau humor que é familiar aos meninos de todas as condições.
- Não se agaste, Luís - disse a princesa
ao filho, desfigurado por uma feia carantonha. - Se Pedro tornar a pôr mão na sua roupa, mandá-lo-emos açoitar.
Pedro substituiu a sua catadura
amuada por uma catadura ameaçadora, e disse:
- Sua Alteza é príncipe, mas eu sou
jardineiro; e se Sua Alteza me quer impedir de pôr a mão na sua roupa, eu, pela minha parte, não o deixarei brincar com as minhas pintadas. Eu tenho mais força de que Sua Alteza, e ele muito bem o sabe...
Ainda não tinha proferido totalmente
estas imprudentes palavras, quando a ama do príncipe, mãe de Pedro, lançou mão ao braço da arrogante criança, e lhe disse:
- Pedrito, esquece-se de que Sua Alteza
é seu amo, senhor de tudo o que há, tanto no castelo, como em torno dele, e que, por conseguinte, as suas pintadas são dele.
- Como eu estava enganado!... - disse
Pedro - julgava que era meu irmão...
- Chamam-lhes irmãos porque foram
criados com o mesmo leite.
- Então, se somos irmãos, é dever nosso
repartirmos; e se as minhas pintadas são dele, os seus vestidos são meus.
A ama ia replicar, por meio de uma
demonstração acerca da diferença que há entre o irmão uterino e um colaço; mas o jovem príncipe, querendo que Pedro assistisse a todo o seu triunfo, porque a ele sobretudo desejava excitar a admiração e a inveja, não lhe deu tempo para isso.
- Não tenhas receio, Pedrito - disse ele -
não estou enfadado contra ti, e logo me verás em cima do meu grande cavalo branco, sentado na minha linda selazinha; hoje vou à caça, e eu é que matarei o gamo.
- Ah! sim?... - respondeu o irreverente
Pedro, com o mais insolente gesto de ironia. - Não se conservará muito tempo a cavalo; quis outro dia montar no meu burro, e ele deitou-o por terra...
- É verdade o que dizes; mas hoje -
replicou o jovem príncipe com toda a majestade que pôde chamar em seu socorro, e que não pôde encontrar nas suas recordações - represento o meu papá : e não cairei; além de que Vialas me aparará em seus braços.
- Vamos, vamos - disse a princesa, para
atalhar a discussão entre Pedro e o duque de Enghien - vistam já o príncipe! Está dando uma hora, e todos os nossos gentis-homens se impacientam com tamanho atraso. Lenet, mande dar o sinal de partida.
XIV
NO mesmo instante, o som da trompa
ecoou nos pátios e penetrou até ao fundo dos quartos. Então, cada qual correu em busca de um cavalo fogoso e descansado, graças aos cuidados que lhes haviam proporcionado, e nele montou. O monteiro, com os seus cães de caça, e os picadores com as suas matilhas, foram os primeiros a partir. Depois, os gentis-homens abriram alas, e o duque de Enghien, no seu cavalo branco, amparado pelo escudeiro Vialas, apareceu rodeado de damas de honra, escudeiros, gentis-homens, e seguido pela mãe, primorosamente ataviada, e montada num cavalo negro como azeviche; junto dela, num cavalo que evolucionava com encantadora graça, vinha a viscondessa de Cambes, adorável no seu trajo mulheril, com que, afinal, com suma satisfação sua, se vestira.
Quanto à senhora de Tourville, debalde
a buscavam com os olhos; desde a antevéspera havia desaparecido como Aquilles: retirara-se para o fundo da sua barraca.
Esta brilhante cavalgada foi recebida
com aclamações unânimes. Todos, erguendo-se nos estribos, tinham os olhos fitos na princesa e no duque de Enghien, desconhecidos da maior parte dos gentis-homens, que nunca tinham ido à corte, e para quem eram estranhas todas estas pompas reais. O menino saudava-os com um lindo sorriso, e a princesa, com uma meiga majestade; era a mulher e o filho daquele a quem os inimigos reconheciam como o primeiro capitão da Europa. Este primeiro capitão da Europa era perseguido e agrilhoado pelos mesmos a quem salvara do inimigo em Lens, e defendera contra os rebeldes em São Germano. Não seria preciso tanto para excitar o entusiasmo; e por isso o entusiasmo chegou ao seu maior auge.
A princesa saboreava a largos tragos
todas estas provas da sua popularidade; depois, em conseqüência de algumas palavras que Lenet lhe disse ao ouvido, deu o sinal de partida, e em breve passaram dos jardins para o parque, cujas portas estavam guardadas por soldados do regimento de Conde. Depois de haverem passado os caçadores, fecharam-se as cancelas; e como se esta precaução ainda não fosse suficiente para que nenhum falso irmão tomasse parte na festa, os soldados ficaram de sentinela por detrás das cancelas, e a cada uma delas estava, de pé, um porteiro, trajado como o da corte, e como ele armado com uma alabarda, tendo recebido ordem de não deixar entrar senão os que pudessem responder às três perguntas convencionais.
Um momento depois de se haverem
fechado as cancelas, o som da corneta e os latidos furiosos dos cães deram anúncio de que se corria atrás de um gamo.
Contudo, do outro lado do parque, em
frente do muro do recinto construído pelo condestável Anne de Montmorency, e além da estrada, seis cavaleiros, aplicando o ouvido aos sons das cornetas e aos latidos dos cães, haviam parado, afagando os seus cavalos esbaforidos, e pareciam consultar-se mutuamente.
À vista do seu trajo absolutamente novo, dos brilhantes arreios dos seus cavalos, dos lustrosos capotes que dos ombros lhes caíam airosamente sobre as garupas dos fogosos animais em que iam montados, do luxo das armas que algumas aberturas dispostas com arte deixavam perceber, podia bem causar espanto a espécie de solidão em que se achavam aqueles gentis-homens, tão belos e tão nobres na hora em que toda a nobreza daqueles sítios estava reunida em Chantilly.
Estes gentis-homens tão brilhantes
eram, contudo, eclipsados pelo luxo do seu chefe, ou daquele que o parecia ser: plumas no chapéu, boldrié dourado, botas finas com esporas de ouro, espada comprida de punhos lavrados e abertos - tal era, com o acompanhamento de um esplêndido capote azul-celeste à espanhola, a equipagem deste cavaleiro.
- Então? - disse ele, passado um
momento de reflexão profunda, durante o qual os seis cavaleiros ficaram olhando uns para os outros com certa perturbação - por onde é que se entra no parque? pela porta ou pela cancela?... Apresentemo-nos, pois, à primeira cancela, ou à primeira porta, e entraremos. Cavaleiros do nosso porte não se deixam na rua, quando se dá entrada a homens trajados como os que temos encontrado desde a manhã.
- Repito, Cauvignac - respondeu um
dos cinco cavaleiros, a quem se dirigia o discurso do seu chefe - esses homens mal vestidos, e que, apesar do seu trajo e modos, se acham a esta hora no parque, tinham sobre nós uma vantagem: a de saberem qual é o santo. Nós não o sabemos, e, portanto, não nos deixarão entrar.
- Acredita, Ferguzon? - disse em tom de
quem tinha certo respeito à opinião do seu tenente aquele que primeiro falara, e que os nossos leitores reconhecem pelo aventureiro que encontraram logo nas primeiras páginas desta história.
- Se o creio?... disso estou certo! Crê então que essa gente vai à caça pelo amor que tem às caçadas?... A mim não me enganam! eles conspiram, e isto é muito positivo.
- Ferguzon tem razão - disse um
terceiro. - Eles conspiram, e nós não entraremos.
- Todavia, na caça ao gamo é fácil
tomar parte, quando na estrada que seguimos nos encontrarmos com os caçadores.
- Sobretudo quando estamos cansados
de dar caça aos homens, não é assim, Barrabás? - replicou Cauvignac. - Ora, pois, não se dirá que esta nos passou por baixo das ventas. Temos quanto nos é preciso para figurar dignamente nesta festa; estamos tão brilhantes como escudos novos. Se o senhor duque de Enghien precisa de soldados, onde poderia encontrá-los mais belos? Se precisa de conspiradores, onde poderia achá-los mais elegantes? O menos suntuoso de nós tem a catadura de um capitão.
- Cauvignac - replicou Barrabás - em
caso de necessidade, passaria por duque e par.
Ferguzon não dizia palavra. - Quer a desgraça - continuou
Cauvignac, sorrindo - que Ferguzon não seja de parecer que se vá hoje à caça.
- Nada disso! - disse Ferguzon. - Não
sou homem de tão pouco gosto; a caça é divertimento próprio de gentis-homens que muito me convém. E por isso, não digo que não me apraz, nem dela dissuado os outros: digo simplesmente que a entrada deste parque onde andam à caça nos é vedada pelas portas e pelas cancelas.
- Ouçam! - exclamou Cauvignac. - Dão
sinal de caça descoberta.
- Mas - continuou Ferguzon - isto não
quer dizer que não caçaremos...
- E como queres tu que cacemos, cabeça
de burro! se não podemos entrar?!
- Eu não digo que não podemos entrar -
replicou Ferguzon.
- E como queres tu que entremos, se as
portas e cancelas, que para os outros são abertas, estão, no teu entender, fechadas para nós?
- Porque não faríamos nós neste muro,
e só para nosso uso, um rombo por onde pudéssemos passar, nós e os cavalos, e por detrás do qual de certo não encontraríamos quem nos pedisse satisfações?...
- Bravo! - exclamou Cauvignac,
atirando o chapéu ao ar. - Dou-te totais parabéns, Ferguzon: és o nosso homem de recursos! E quando eu tiver derrubado o rei da França do seu trono, para nele colocar o príncipe, pedirei para ti o lugar de Mazarino. Mãos a obra, camaradas, mãos à obra!
Dizendo estas palavras, Cauvignac
apeou-se da sua cavalgadura, e, ajudado pelos companheiros, um só dos quais foi bastante para segurar os cavalos de todos, dedicou-se ao derrube das pedras já abaladas do muro.
Num abrir e fechar de olhos, os cinco
improvisados trabalhadores abriram uma brecha de três ou quatro pés de largo. Tornaram então a montar nos seus cavalos, e, guiados por Cauvignac arremeteram para dentro da praça. lhe
- Agora - disse-lhes este, dirigindo-se
para o lado de onde vinha o som das cornetas - sejam corteses, e dêem provas de bom gosto, pois convido-os a cear em casa do senhor duque de Enghien.