A História e Suas Epidemias

Stefan Cunha Ujvari · Capítulo 4 de 7

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A História e Suas Epidemias

Capítulo 2

Deuses, G uerras e Epidemias

Quando um de nossos filhos com eça a apresentar febre, j á sabem os que deve

estar se m anifestando nele um processo infeccioso, geralm ente um a das

fam osas viroses de que os m édicos falam . Mas a interpretação da febre pelas

prim eiras civilizações nascidas nas m argens férteis dos principais rios era

bem diferente, e foi necessário um árduo percurso até que se chegasse ao

term o "virose". Os povos antigos acreditavam que os fenôm enos da natureza,

assim com o as infecções, fossem obras de forças divinas, representadas pelas

m ais diferentes entidades dependendo da civilização em questão. Seus líderes

e m uitas fam ílias das diversas dinastias desses povos eram representantes das

entidades divinas, e adm irados e respeitados por isso.

Algum as vezes as doenças infecciosas, acreditava-se, eram enviadas pelos

deuses com o ação benéfica. No final do século VIII a.C., Ezequias, rei de

Judá, atribuiu a doença à defesa divina de Jerusalém . O exército assírio sitiou

a cidade e ia invadi-la, m as um a epidem ia virulenta acom eteu seu

acam pam ento, que não apresentava boas condições higiênicas, assim

favorecendo a contam inação e a dissem inação da doença. Em pouco tem po,

aum entou o núm ero de cadáveres de assírios. A Bíblia relata com o obra do

Senhor o exterm ínio de m ais de cem m il inim igos de Jerusalém .

O povo grego, o que m ais influenciou a cultura ocidental, acreditava que as

doenças eram enviadas pelo deus Apolo. A guarda de Asclépio, filho de

Apolo com a m ortal Coronis, foi dada ao centauro Quíron, de quem obteve

grande conhecim ento sobre o poder das plantas m edicinais. Se a doença

infecciosa era enviada por um deus, nada m ais cabível para a cura do que

recorrer a um m ito. Assim nasceu o m ito segundo o qual Asclépio detinha a

arte da cura das doenças. O culto a Asclépio iniciou-se no século VI a.C.,

naTessália, e perm aneceu por quase m il anos com a construção de m ais de

duzentos tem plos. No altar, sua figura era representada tendo nas m ãos um

bastão ao qual se enrolara um a serpente.

Os doentes que se dirigiam a esses tem plos eram acom odados nos pavilhões e

se purificavam por m eio do j ej um , banhos e óleos passados na pele.

Posteriorm ente, adorm eciam e tinham a chance da cura pelo sono, no qual

recebiam entidades que os curavam ou os orientavam sobre procedim entos

terapêuticos. Dessa form a, as doenças infecciosas eram encam inhadas ao

poder de Asclépio; e a m orte dos doentes tinha com o explicação não um a

bactéria, m as o fato de eles não terem se purificado adequadam ente ou de

serem incuráveis.{3} Entre os m uitos tem plos erigidos a Asclépio, um dos

m ais fam osos foi o de Epidauro, local em que, acredita-se, passou sua

infância ou estava seu sepulcro. Após o apogeu no século III a.C., esses

tem plos foram fechados por um a bula do Im perador Constantino, j á no

Im pério Rom ano, em 335 d.C.

Asclépio tinha duas filhas: Higéia, responsável pela m anutenção e restauração da saúde dos doentes, que deu origem à palavra higiene; e Panacéia, responsável pelo conj unto das substâncias em pregadas para a cura de enferm os. Enquanto várias pessoas com infecção se aglom eravam nos tem plos, era plantada a prim eira sem ente para entender as doenças infecciosas de m odo m ais racional. O percurso para alcançar a com preensão que hoj e se tem das infecções foi longo e árduo. Envolveu o avanço do pensam ento científico e m edidas do poder público para sanear am bientes naturais não propícios ao estabelecim ento dos hom ens e tam bém para prom over a higiene com o hábito coletivo. Um dos prim eiros passos foi dado na Grécia Antiga com o nascim ento da filosofia. Na costa da atual Turquia, um a cidade grega se destacava com o centro econôm ico com crescim ento potencial: Mileto. Foi nela que, no século VI a.C., floresceu um a força cultural e surgiram os prim eiros grandes pensadores que com eçaram a interpretar a natureza em term os naturais, libertando-se dos m itológicos. Entre esses pensadores estava Tales, considerado um dos prim eiros revolucionários de sua época. Ele influenciou os dem ais pensadores daquele tem po com suas teorias desvinculadas dos m itos e crenças. Em 585 a.C., Tales, por m eio do conhecim ento adquirido em observações e do em prego da razão, previu a ocorrência de um eclipse solar. Foi o prim eiro a tentar entender o m undo natural, que postulou ser constituído de água em diversas form as. Várias observações contribuíram para a sua teoria: a água transform ava-se em pedra nas baixas tem peraturas e em vapor nas tem peraturas elevadas, as plantas cresciam ao receber água das chuvas e todos os seres vivos necessitavam ingerir água para viver. Tales deixou discípulos que perpetuaram sua escola. A escola de Mileto, fundam ental para a form ação da filosofia ocidental, foi destruída em 494 a.C. quando o Im pério Persa, em expansão no Oriente, conquistou a cidade, berço da filosofia. Mas as portas para o desenvolvim ento da razão estavam abertas e iniciava-se o processo que continua até hoj e.

Outros hom ens de diversas com unidades gregas perpetuaram as bases dessa razão, e alguns conhecem os dos estudos escolares, com o Pitágoras. Vários tam bém fizeram sua história naquele tem po áureo da filosofia: Anaxim andro, Anaxim enes, Parm ênides, Em pédocles. Foi assim que os habitantes gregos privilegiados receberam cada vez m ais inform ações dos filósofos em ergentes com suas teorias, ou m elhor, com seu pensam ento. A cultura hum ana florescia com os debates e discussões dos gregos.

A Grécia conheceu, no século V a.C., os escritos de um m édico que influenciaria não só os anos seguintes, m as os próxim os séculos. Ele ficou conhecido com o "o pai da m edicina", Hipócrates. Nascido na ilha de Cós, por volta do ano de 460 a.C., Hipócrates contribuiu para desvincular as causas das doenças das explicações dos deuses. Seus trabalhos, escritos em dialeto j ônico, foram reunidos na era de ouro da Biblioteca de Alexandria e constituem o Corpus hippocraticus. Acredita-se que m uitas das obras do Corpus não foram escritas por Hipócrates, m as por m édicos sucessores, em épocas distintas. Ele difundiu a teoria de que as doenças são ocasionadas pela natureza e que seus sintom as são um a reação do organism o. De acordo com esse raciocínio, há no corpo quatro tipos de elem entos líquidos, os hum ores: a bile am arela, produzida no fígado; a bile negra, originada no estôm ago e no baço; o sangue e a pituíta, esta proveniente do cérebro. O organism o seria sadio se esses quatro elem entos estivessem distribuídos de m aneira proporcional; se houvesse excesso ou falta de um deles, contrairia doenças. A distribuição desses hum ores tam bém influenciaria alterações no com portam ento da pessoa; daí, as expressões "bem -hum orado" e "m al-hum orado". Com o na evolução de cura o excesso do hum or responsável pela doença era elim inado, Hipócrates achava fundam ental exam inarem -se as substâncias que são elim inadas, com o a urina, o escarro, o sangue, o vôm ito, as fezes e o suor.

Na sua proposta de tratam ento, o m édico apenas auxiliaria a natureza a curar o paciente com recom endações de um a dieta adequada, responsável pela produção dos hum ores, e orientações sobre ginásticas, m assagens, banhos e substâncias que aj udassem na elim inação do excesso desses líquidos, com o as que provocam diarréia ou vôm ito. Hipócrates escreveu sobre as epidem ias e atribuiu às alterações clim áticas, ventos e frio a responsabilidade pelo aparecim ento de determ inadas infecções. Quando nossos pais nos m andavam sair do vento frio para não pegarm os gripe, usavam postulados de 1.500 anos atrás. A água de regiões insalubres de pântanos tam bém ocasionava diarréias e a fam osa febre quartã (m alária). Hipócrates postulou que tais doenças vinham dessas áreas e que, portanto, se devia evitar a m oradia em locais alagados e pantanosos. A relação que ele estabeleceu entre a estagnação e a doença foi oportuna para a prevenção das m oléstias.

Hipócrates não tinha condição de visualizar as bactérias que provocavam a diarréia nem o agente causador da m alária, que habitava os m osquitos dos terrenos alagados; entretanto, sua conclusão foi de grande auxílio para os m édicos da época. Com eçaram a ser interpretados os efeitos que o m eio am biente — antes despercebidos — causavam ao organism o hum ano. Hipócrates valeu-se da palavra epidem ia para denom inar as doenças febris explosivas num a população. Epidemos era um term o em pregado pelos gregos em referência aos indivíduos que não m oravam nas cidades, m as que sim plesm ente perm aneciam algum tem po e depois partiam . Os habitantes, por sua vez, eram endemos. O m édico com parou as doenças infecciosas de aparecim ento súbito e em larga escala populacional com epidem ias porque elas não eram da região e iam em bora.

No seu livro sobre as epidem ias, Hipócrates docum enta a que ocorreu na cidade portuária do m ar de Márm ara, próxim o a Istam bul. Ele descreve sintom as de tosse, angina e pneum onia, que podem ter sido causados pelo vírus da gripe ou pela difteria. O tratam ento que prescrevia, na intenção de elim inar o hum or em excesso no organism o, tinha por alvo as substâncias causadoras de diarréia ou vôm ito, e pela m esm a razão com eçaram a ser em pregadas na m edicina rom ana as sangrias para a elim inação do hum or sangue. Esse tratam ento, am plam ente utilizado pelos m édicos ao longo da História no com bate às doenças infecciosas, foi m antido praticam ente até o século passado. E, com certeza, agravou o estado de m uitos pacientes portadores de processos infecciosos.

 

PREVENINDOEPIDEMIAS

 

A crença na origem divina das doenças e epidem ias não im pediria que povos

da Antigüidade, com o os etruscos, j á expressassem em sua cultura cuidados

com a higiene e o saneam ento. Desde a época dos etruscos, prim eiros

habitantes da Península Itálica, a im portância dada à saúde pública aparecia

com a realização da drenagem dos pântanos e o suprim ento de água lim pa e

potável. Os pântanos eram relacionados ao surgim ento de doenças

infecciosas, as fam osas febres, o que os tornava localidades pestilenciais.

Evitavam -se construções de cidades próxim as a esses locais e,

posteriorm ente, iniciaram -se a drenagem e o aterro dos pântanos ao redor

das cidades.

Naquela época, ao longo da costa do Mediterrâneo, existia a m alária,

responsável pelas febres originárias dos pântanos. O parasita que causa a

m alária reproduz-se em m osquitos, e o hom em a adquire ao ser picado por

esses insetos, que inoculam o agente no sangue. Com o o m osquito prolifera

em regiões alagadas, a doença era m uito com um em tais locais e nos

pântanos. Após a drenagem ou aterro de um a área alagada, elim inavam -se

os reservatórios de água parada, lugares de reprodução dos m osquitos. Um a

das prim eiras observações era a de que as febres, com uns nessas regiões,

term inavam . Jam ais se relacionou o aterro ou a drenagem à extinção dos

m osquitos, m as sim ao fim do odor desagradável que a região apresentava,

ou sej a, ao "m au ar" que provocava as febres. Isso deu origem ao nom e das

febres: m alária ("m au ar").

Para os habitantes da Rom a im perial era indiscutível que as febres

desapareciam graças às m edidas destinadas a evitar o m au ar dos pântanos.

Essa relação de causa e efeito reforçava, culturalm ente, a im portância de

água lim pa e higiene para a população. As ruas eram lim pas sob fiscalização,

cabendo aos m oradores a responsabilidade de rem over as suj eiras ali

encontradas. Os m ercados eram vigiados, incluindo os bens de consum o.

Alim entos tam bém passavam por rigorosa inspeção, o que evitava a com pra

de produtos estragados e contam inados. Os funerais eram proibidos dentro da

cidade, restringindo-se às localidades além de seus m uros, com uns na Via

Ápia. Posteriorm ente, passou-se ao hábito da crem ação. A im portância de consum ir água potável obtida em poços surgiu nessa época rem ota, em que se evitava a ingestão da água do rio Tibre e se construiu o prim eiro aqueduto — Água Ápia — no final do século IV a.C., obra do censor Ápio Cláudio Crasso. Cinqüenta anos depois, foi necessária a edificação de um segundo aqueduto, Água Anio. Com o constante desenvolvim ento da cidade, o núm ero de aquedutos cresceu: foi erguido o Água Márcia, no século II a.C.; e os aquedutos Júlia, Augusto e Virgo, no tem po do Im perador Augusto. O Água Márcia fornecia água lim pa retirada a 37km da cidade. Foram construídos 14 aquedutos que forneciam água lim pa e potável para a população. No percurso dessas construções, havia bacias que funcionavam com o piscinas para a sedim entação das im purezas, o que tornava a água ainda m ais lim pa. A população rom ana recebia quarenta m ilhões de galões de água por dia, cerca de quarenta galões por pessoa.

Além de dispor de água lim pa para consum o, Rom a tinha um a rede eficaz de esgotos. Existiam m ais de 150 latrinas públicas em toda a cidade, que encam inhavam adequadam ente os dej etos para um sistem a de esgoto

subterrâneo, e a Cloaca Máxim a foi o m aior exem plo disso visto até hoj e. {4} Todos sabem os que, ao surgirem os prim eiros sintom as de diarréia, tentam os nos lem brar de algum a com ida suspeita ou de água contam inada que tenham os ingerido. As bactérias causadoras de diarréia entram no organism o desse m odo, e os rom anos correram um risco m uito pequeno de enfrentar epidem ias desse m al. Mesm o desconhecendo as bactérias, eles construíram um a rede de abastecim ento de água potável e um sistem a de esgotos responsável pela profilaxia de diarréias.

E curioso que esse sistem a eficaz tenha sido construído há dois m il anos em Rom a e, após a decadência do Im pério, não tenha sido adotado nos séculos seguintes, m as apenas no século XIX. Pelo contrário, as cidades m edievais não dispunham de sistem as de esgotos, os dej etos acum ulavam -se próxim o aos m uros e fluíam para os rios, de onde a população m uitas vezes retirava a água que ingeria.

A cultura do Im pério Rom ano instituiu o hábito e o prazer do banho. A quantidade de term as aum entou naquele período. Os habitantes pagavam a entrada e passavam horas desfrutando dos banhos quentes e frios. No tem po do Im perador

Diocleciano, estim a-se que havia m ais de oitocentas casas para banho. {5} Desde pequenos, som os orientados sobre a im portância de lavar as m ãos antes das refeições e tom ar banhos diários. A higiene constante das regiões íntim as dim inui a contam inação das m ãos com bactérias fecais, o que evita diarréias. Assim , o hábito do banho tam bém contribuiu para a prevenção de diversas infecções. Além disso, dificultava as infestações por piolhos e, com isso, prevenia-se o tifo.

 

PROVOCANDOEPIDEMIAS

Na história da hum anidade, as m edidas que procuram evitar as doenças convivem com outras que são responsáveis por seu surgim ento. Mais que hoj e, na Antigüidade, as guerras e as destruições foram fatores de expansão de epidem ias.

No com eço do séculoV a.C., a Grécia viu-se am eaçada de invasão pelo Im pério Persa, na Ásia Menor. Esse im pério tornara-se um a potência no final do século VI a.C., estendendo suas fronteiras da Índia ao Egito e aproxim ando-se da conquista da Grécia. Em 490 a.C., as forças persas atravessaram o m ar Egeu, dando início às guerras m édicas, que envolveram as cidades-estado gregas; estas teriam de unir forças contra o inim igo. A população de Atenas partiu para o confronto com persas num a batalha terrestre que ficou conhecida com o Maratona. Mesm o sem a chegada da aj uda solicitada à cidade de Esparta e m esm o não sendo eficaz em guerras terrestres, Atenas acabou por derrotar os persas. Mal acabara a prim eira guerra m édica, os persas reuniram forças para um novo ataque. Com andados por Xerxes, fizeram em 480 a.C. um a investida m aior contra a Grécia, o que obrigou novam ente as cidades-estado a se organizarem .

Depois das prim eiras batalhas deTerm ópilas e Salam ina, Xerxes m anteve o exército persa na região daTessália. A fom e castigou os acam pam entos m ilitares, os persas sentiam os sinais de sua fraqueza, e, segundo relatos talvez exagerados, com iam gram a, capim , folhas e cascas de árvore para que pudessem sobreviver. O caos se instalou com o surgim ento de um a epidem ia de disenteria nos acam pam entos m ilitares im provisados. A contam inação das águas de riachos e lagoas favoreceu a dissem inação da doença, que m atou m uitos guerreiros persas. A bactéria causadora da infecção intestinal era elim inada pela diarréia no m eio am biente, contam inava a água e os alim entos ingeridos pelo exército, fazendo com que a doença se alastrasse. O contato de pés e m ãos com obj etos ou substâncias contam inadas pelas bactérias e o contato dessas m ãos com as de outros guerreiros e com os alim entos levados à boca provocavam a diarréia

{6}

geral. O debilitado exército persa foi derrotado em Platéias, e a Grécia

livrou-se dessa am eaça. A epidem ia, conhecida com o a "peste de Xerxes", foi descrita pelo historiador grego Heródoto (484—420 a.C.), considerado o "pai da História". Dessa vez, as cidades gregas contaram com a aj uda das doenças infecciosas para a defesa de seu território.

Com o decorrência das guerras m édicas, as cidades-estado form aram um a associação com a finalidade de acum ular fundos para a defesa contra ataques persas. Criada na ilha de Delos, a entidade ficou conhecida com o a Liga de Delos. As cidades contribuíam fornecendo navios ou dinheiro. Com o Atenas foi a principal responsável pela defesa da Grécia, coube-lhe a adm inistração dos fundos da liga, o que a fortaleceu e lhe proporcionou m aior poderio nos anos futuros. A Liga de Delos transform ou-se no Im pério de Atenas — a cidade obtinha recursos para interesses próprios e am pliava sua frota naval. O apogeu do Im pério Ateniense deu-se no período de com ando do General Péricles (495-429 a.C.), por m ais de trinta anos. Foi reconstruída a acrópole e iniciaram -se edificações grandiosas, com o o Partenon, ginásios, teatros, estátuas e tem plos. A cidade conheceu seu esplendor cultural e intelectual. Os habitantes de Atenas usufruíam os benefícios do crescim ento econôm ico, social e cultural. As crianças eram encam inhadas ao ensino com sete anos de idade, aprendiam a ler e a escrever — condição básica num a cidade dem ocrática que afixava em sua ágora as leis e notícias políticas. A m úsica era ensinada na lira, e a educação física era praticada com corridas, saltos, arrem esso de dardo e disco, boxe e luta livre.

Com o passar do tem po, m ultiplicaram -se os professores particulares, os sofistas, que ensinavam todas as m atérias para os alunos m ais abastados, desde astronom ia e direito até m atem ática e retórica. Posteriorm ente, esses m estres foram acusados de charlatanism o, falsidade e de exercerem influência m aléfica sobre os j ovens; assim , o term o "sofista" tornou-se pej orativo. A cultura aflorava nas diversas partes da cidade, com um a nunca vista profusão de escultores, arquitetos e poetas; em diversos locais, se reuniam grupos de cidadãos para debates e discursos sobre m uitos assuntos.

De tem pos em tem pos, pessoas se dirigiam à colina a sudoeste da ágora, local de assem bléias, para tom ar decisões políticas após a exposição dos oradores que se candidatavam a falar. Nesse am biente dem ocrático, Sócrates j á circulava pelas ruas debatendo com os j ovens, o que acabaria sendo interpretado com o influência negativa e corruptora e levaria à condenação do filósofo à m orte. O porto do Pireu transform ou-se no centro com ercial da parte oriental do Mediterrâneo. Por ele entravam e saíam todas as m ercadorias de Atenas. Chegavam o trigo e a cevada im portados para sustentar a população cada vez m aior, a m adeira usada na construção de seu poderio naval de trirrem es — tanto com ercial com o m ilitar — e escravos provenientes da Trácia e da Ásia Menor. Logo após as guerras m édicas, um a das prim eiras construções feitas pelos atenienses foi o m uro que protegia a cidade e se estendia até o porto em Pireu. Essa construção desencadeou um descontentam ento em Esparta, a segunda m aior cidade-estado da Grécia, que atribuiu a obra ao interesse individual de Atenas e a considerou um a atitude ostensiva em relação às dem ais cidades. Esse estrem ecim ento das relações entre Atenas e Esparta se agravava à m edida que Atenas progredia e se destacava com seu im pério. Esparta retirou-se da Liga de Delos, por m otivos com petitivos, e estabeleceu um a aliança com as cidades do Peloponeso. A Liga do Peloponeso organizou um a investida contra a hegem onia de Atenas, desencadeando as Guerras do Peloponeso, em 464 e 431 a.C. Foi durante a segunda Guerra do Peloponeso, no ataque dos aliados dos espartanos, que Péricles reuniu em Atenas a população de refugiados da região da Ática invadida. O núm ero de habitantes de Atenas cresceu em pouco tem po. Form aram -se aglom erados hum anos nas casas e o excedente foi aloj ado em barracas e cabanas im provisadas ao longo dos m uros que iam até o Pireu. As condições de higiene desfavoráveis criaram um terreno propício para a dissem inação de epidem ias.

Em 430 a.C., habitantes de Atenas com eçaram a apresentar m anifestações infecciosas. Rapidam ente o núm ero de cidadãos febris aum entou: era o que ficaria conhecido com o a epidem ia de Atenas, que, partindo da Etiópia para o Egito e a Líbia, chegou ao porto do Pireu num a das num erosas em barcações que ali aportavam . Esse porto, decisivo para o desenvolvim ento da cidade, foi tam bém o responsável pela chegada da grande epidem ia a Atenas. No início, os atenienses desconfiaram de que os inim igos haviam envenenado os poços do Pireu.

A doença alastrou-se com facilidade por encontrar aglom erações de refugiados, em condições de guerra, que incluem escassez de alim ento, fom e e estado im unológico debilitado. Esses fatores, que favorecem o surgim ento de epidem ias, j á tinham sido descritos por Heródoto durante a epidem ia da cidade de Quios quando ele traçou a ligação das epidem ias com catástrofes e guerras. A de Atenas foi tam bém descrita por Tucídides (460—400 a.C.), o historiador da Guerra do Peloponeso. Ele viveu o m om ento da epidem ia, foi acom etido pela doença, m as sobreviveu.

Contem porâneo de Heródoto, Tucídides diferenciou-se por trabalhar com base em dados concretos, sem se valer de opiniões, lendas e boatos, o que valoriza sua descrição da epidem ia. A doença foi referida com o um a dor de cabeça súbita no início, um a verm elhidão nos olhos acom panhada de inflam ação na língua e boca, com sangram ento, espirros, tosse e rouquidão. O quadro era seguido de vôm ito, diarréia e excesso de sede, aparecim ento de m anchas averm elhadas na pele que podiam ulcerar e causar necrose nas extrem idades dos dedos e dos genitais. Geralm ente, a m orte ocorria entre o sétim o e o nono dia. O doente que sobrevivia ao m al recuperava-se com alteração visual e fraqueza. Apesar de toda essa riqueza de detalhes sobre a doença, ainda hoj e é difícil saber qual foi a infecção responsável pela epidem ia. Alguns autores acreditam que pode ter sido um a infecção j á extinta ou m odificada ao longo dos séculos; outros concluem que, dada a aglom eração de pessoas debilitadas, tenha ocorrido um a epidem ia por agentes infecciosos diferentes num m esm o m om ento, levando à

som atização dos sintom as descritos. {7} A epidem ia chegou num a época quente do ano, o que favoreceu sua dissem inação e a m ortalidade. Os cadáveres eram em pilhados e m oribundos eram reunidos nas proxim idades das fontes de água, para tentar saciar a sede, ou nas construções sacras, para suplicar por aj uda. Os enterros j á não apresentavam os rituais da época, eram feitos com o se podia. Segundo relatos deTucídides, as pessoas tinham noção da possibilidade de contágio e pânico de que isso lhes acontecesse, os cidadãos atenienses evitavam a proxim idade com os doentes por m edo de contrair a doença. Muitos m orriam em casa sem auxílio, abandonados por causa do pavor do contágio.

A epidem ia produziu conseqüências desastrosas para Atenas. Num prim eiro instante, ocasionou a fuga das forças espartanas da Ática. É difícil calcular o núm ero de m ortes, m as acredita-se que tenha dizim ado cerca de um quarto da população de cinco m il hom ens da força m ilitar de infantaria e cavalaria, o que contribuiu para com prom eter o poderio ateniense e facilitar sua posterior subj ugação por Esparta.

Péricles foi deposto pela população insatisfeita. Acom etido pela infecção, m orreu em 429 a.C., ano de sua reeleição pelo m esm o povo que o depôs. Com a decadência do Im pério e conseqüente derrota de Atenas, Esparta conheceu sua hegem onia sobre a Grécia, m as as guerras das cidades-estado continuavam e a hegem onia m udou de m ãos entre elas. O desgaste que as guerras ocasionaram propiciou a conquista do território grego pela Macedônia, que, sob o com ando de Alexandre Magno, estendeu seu Im pério até a Índia. Pouco antes de com eçarem as guerras m édicas, Clístenes, filósofo, político e legislador, instaurara a dem ocracia em Atenas (508 a.C.), um regim e político que seria futuro m arco do desenvolvim ento da cidade. Na m esm a época, um a cidade da Península Itálica, Rom a, testem unhava um golpe político que transform aria o seu sistem a de governo, com a m onarquia dos reis etruscos passando a ter seus dias contados. A transform ação deu-se com a República Rom ana, chefiada pelos aristocratas — no caso, os patrícios. Com a República, Rom a viveu um a expansão das relações com erciais, dom inou as dem ais cidades italianas e conquistou todo o território da península. Enquanto prosperava, eclodiu em 451 a.C. um a epidem ia na cidade. As epidem ias acom panhariam a história de Rom a até a decadência da República. A de 451 a.C. não foi descrita em detalhes e sua causa tornou-se um enigm a. Quase todos os escravos rom anos m orreram , assim com o m em bros do Senado, quatro tribunos e um cônsul. O que torna a causa da epidem ia m ais intrigante é o fato de ter afetado tam bém o gado e os carneiros. Para os rom anos, pestilento era qualquer fenôm eno que ocasionava um m al para os habitantes, e peste era o nom e geral dado às epidem ias, independentem ente do tipo de infecção envolvida. Na história rom ana, m uitas dessas pestes podem ter sido provocadas por varíola, saram po, diarréias, catapora, gripe e outras doenças. Ou, quem sabe, até m esm o por algum agente infeccioso extinto ou que tenha sofrido m utações ao longo dessas centenas de anos, não m ais causando doença infecciosa no hom em . Muitas epidem ias dessa fase histórica, cham adas apenas de peste, não chegaram a ser suficientem ente descritas em term os de sintom as para que se saiba que tipo de infecção lhes deu origem . Outras, referidas com m ais detalhes, podem ser presum idas.

A conquista por Rom a das cidades gregas do sul da península — a Magna Grécia — aum entou as rivalidades políticas e econôm icas com a cidade de Cartago, antiga colônia fenícia localizada no norte da África. Am bas alm ej avam o controle com ercial das rotas do Mediterrâneo, e a disputa culm inou com o acirram ento do conflito de interesses econôm icos pela ilha da Sicília. Deflagraram -se os em bates entre essas duas cidades que seriam conhecidos com o as Guerras Púnicas. De um lado, a cidade de Rom a com sua população m obilizada para as guerras, abandonando sua econom ia agrária, suas terras agrícolas, em favor da cam panha m ilitar; de outro, o exército profissional de Cartago, com salário estabelecido, sob o com ando do General Aníbal. As guerras iniciadas em 264 a.C. estenderam -se até 146 a.C., com a derrota definitiva de Cartago.

A segunda Guerra Púnica com eçou com o exército de Aníbal cruzando os Alpes, em 218 a.C., após percorrer toda a Espanha. Enquanto as tropas de Aníbal destruíam os rom anos em plena Península Itálica, a ilha da Sicília preparava-se para o confronto de rom anos com cartagineses. Siracusa fora a m ais im portante cidade do Mediterrâneo no século V a.C. pelo florescim ento da cultura grega e por seu porto, grande centro econôm ico. Na segunda Guerra Púnica, a cidade se tornou um ponto estratégico, pois quem a conquistasse dom inaria a rota naval de Cartago a Rom a. Tropas de Aníbal desem barcaram no sul da Sicília, enquanto o exército rom ano tentava vencer a m uralha de Siracusa. Os rom anos não contavam com a defesa eficaz da m uralha, planej ada pelo m atem ático e cientista Arquim edes. Realizaram várias tentativas de invasão inutilm ente até que, em 212 a.C., conseguiram penetrar pelo lado norte da cidade, m enos guarnecido.

A invasão foi m arcada pelas atrocidades contra o povo de Siracusa — m orreram m ilhares de cidadãos, incluindo Arquim edes — e pela pilhagem da arte grega, que os rom anos carregaram . O exército de Cartago, que partira do sul da ilha, foi obrigado a aquartelar-se no delta do rio Anapo, onde j á se sabia haver febres. Talvez a m alária tenha sido o m otivo da m orte de m ilhares de soldados do exército cartaginês e de dois de seus generais, que não chegaram a Siracusa. Os soldados cartagineses pagaram um preço elevado por adentrar terrenos alagados e não habitados pelo hom em , onde tiveram contato com algum agente infeccioso, provavelm ente a m alária, presente nas regiões do Anapo. A vitória rom ana na Sicília foi im portante na Guerra Púnica porque isolou na Itália o exército de Aníbal, cuj a base era em Cartago. Rom a conseguia dom inar a rota naval até o norte da África. Aníbal não resistiria e perderia a segunda Guerra Púnica em 201 a.C., o que abriu cam inho para a definitiva expansão rom ana no m ar Mediterrâneo. Com o conseqüência das vitórias sobre Cartago, Rom a não encontrou adversários que a im pedissem de am pliar suas conquistas no Mediterrâneo.

Assim , Rom a em preendeu sucessivas cam panhas m ilitares, som ando um núm ero m aior de territórios dom inados e recebendo um fluxo de dinheiro nunca antes visto, resultante da série de m edidas que estabeleceu em cada território sob seu poder. Houve saques, im postos, escravidão, safras, indenizações cobradas aos povos subj ugados e exploração de j azidas de m inérios com transferência de ouro e prata para o Estado rom ano. Com a canalização im ensa de bens a seu favor, Rom a firm ou-se com o a capital desse im pério do Mediterrâneo, o principal centro financeiro da época. A cidade im perial tornou-se um a cidade de m árm ore, com um a série de construções opulentas e de m onum entos m aravilhosos.

Dos territórios dom inados eram enviados prisioneiros para o trabalho escravo em Rom a. Os m ais inteligentes eram destinados a atividades dom ésticas, que requeriam m enos esforço físico e até m esm o aptidão intelectual. Aos m ais fortes e corpulentos reservaram -se os serviços braçais. Em 256 a.C., Rom a recebeu cinqüenta m il escravos cartagineses; em 167, 150 m il escravos epirotas da Grécia Antiga; e em 104, 140 m il cim bros e teutões da Germ ânia. No final da República e do século I a.C., Rom a dispunha de três escravos para cada cinco hom ens livres.

As m igrações que com eçaram a ocorrer do cam po para a cidade de Rom a, aliadas à constante entrada de escravos, provocou um grande crescim ento dem ográfico que, a partir do século II a.C., foi responsável por m udanças na arquitetura da cidade, com o obj etivo de suprir as necessidades de habitação e lazer da população. Realizaram -se construções ou am pliações de circos para as fam osas corridas de carros atrelados a cavalos. O Circus Maxim us, o m ais antigo e m aior de todos, foi um exem plo desse espaço de lazer e serviu de m odelo para os dem ais. Estim a-se que, após sua am pliação, passou a acom odar 150 m il espectadores. O núm ero de corridas realizadas aum entou da República para o Im pério e de um reinado para outro.

Novos aquedutos para suplem entação hídrica foram criados e vias urbanas surgiram ou foram am pliadas em Rom a. Os anfiteatros — inicialm ente erguidos com m adeira nos dias de apresentação e depois edificados com pedra — constituíram um m arco entre as diversões do povo. Atingiram seu esplendor com a inauguração do Coliseu, em 80 d.C. Neles se davam lutas de gladiadores de regiões diferentes e com arm as distintas, apresentações de anim ais selvagens am estrados e lutas de hum anos com anim ais, bem com o de anim ais de espécies diferentes.

As term as públicas rom anas se m ultiplicaram com suas salas para lazer, ginástica e repouso, bibliotecas, j ardins e áreas para passeios. Esses locais recebiam diariam ente pessoas influentes da política para discussões e m esm o conchavos. Rom a era agora um im pério que se estendia do Oriente à Inglaterra e chegava ao norte da África. A cultura e os hábitos rom anos proporcionaram grandes vantagens para o controle de epidem ias. Por outro lado, sua expansão territorial produziu conseqüências desastrosas em razão das epidem ias.

 

UM MUNDO DOENTE

 

As transform ações ditadas pelo crescim ento da cidade de Rom a foram a causa de um a série de problem as urbanos com paráveis com os das m etrópoles atuais. A população pobre não parava de crescer; e sem condições financeiras de habitação, as pessoas eram obrigadas a m orar aglom eradas em quartos baratos, as insulas. O aum ento do núm ero de insulas, com a construção de prédios que as abrigavam , deu início ao crescim ento vertical de Rom a. As insulas proporcionavam m oradia não tão adequada quanto se im agina, com côm odos pequenos e aluguéis caros. Eram constantes as am eaças de desastres nesses edifícios, que tinham a base m uitas vezes desproporcional à sua altura, o que resultava em desabam entos. O em prego de vigas grossas de m adeira e a com bustão provocada pelo uso de tochas, velas, lâm padas fum arentas e aquecedores portáteis causavam incêndios freqüentes, com o o de 64 d.C., no im pério de Nero, que devastou um a parte im ensa da cidade e durou nove dias. As ruas rom anas constituíam um labirinto, com intenso com ércio de dia e dificuldade para se cam inhar. Já no século I a.C., Júlio César decretou que os carros não poderiam transitar em determ inados locais durante o dia. Essa lei se m anteve em decorrência do crescente problem a de trânsito, de tal form a que um século e m eio depois ainda vigorava no período de Traj ano. Rom a e outras grandes cidades atraíram aglom erações populacionais. Se um agente infeccioso com o qual essa população ainda não tivesse tido contato fosse introduzido nas cidades, haveria epidem ias devastadoras. Por se tratar de um agente novo, quase todos os habitantes ficariam sem defesa específica, diferentem ente do que acontece em nossa fam ília quando, por exem plo, um a criança apresenta catapora: m uitos ficam tranqüilos, porque j á tiveram a doença na infância. Os centros urbanos daquele período eram vulneráveis a qualquer agente desconhecido que chegasse — m as com o poderia chegar? O apogeu das conquistas rom anas ocorreu no século II d.C., sob o Im perador Traj ano, quando Rom a inaugurou seu foro, com a basílica, duas bibliotecas, um im enso m ercado coberto e sua coluna de 38m de altura. O Im pério Rom ano era então cortado por um a rede de vias ligando diversas regiões da Europa, do norte da África ao norte europeu e da Ásia à ilha Bretanha. Essas vias foram proj etadas para atender às necessidades m ilitares do Im pério, ao deslocam ento de suas legiões e destacam entos. Construídas com m ateriais seguros e resistentes, com boa drenagem e superfície duradoura que facilitava a locom oção, serviram de suporte para atividades civis, intensificando a m ovim entação de viaj antes, m igrantes e com erciantes, o que fez com que o trânsito por elas atingisse intensidade elevada, só superada no século XVIII. Além das rotas terrestres, desenvolveu-se no Mediterrâneo um a circulação m arítim a tam bém intensa. Grandes em barcações seguiam suas rotas com erciais ao longo da costa. Esse fluxo naval convergia para Rom a, o que levou, por exem plo, à am pliação de seu porto de Óstia. A cidade recebia m ercadorias de todas as regiões do Mediterrâneo: telhas, tij olos, legum es, frutas e vinho da Península Itálica; trigo do Egito, Sicília e norte da África; azeite da atual Espanha; carne de caça, m adeira e lã da Gália; alim entos da Bélgica; m árm ore da Toscana, Grécia e Num ídia; m inérios da Península Ibérica; tecidos do Oriente; vidros da Fenícia e da Síria; gado da Itália e da Ásia Menor. Por todas essas rotas terrestres e m arítim as tam bém transitavam os agentes infecciosos. A locom oção hum ana sem pre esteve associada ao transporte de m icróbios para outras regiões. Pessoas doentes ou que estão incubando germ es em seu organism o levam a doença para outros locais e contam inam seus m oradores. Os que então partirem em viagem levarão os m icróbios adiante. Ainda nos lem bram os da epidem ia de cólera que chegou ao Brasil em 1991. Doentes de cólera deixaram a índia em um a em barcação com destino ao litoral peruano. Chegada a cólera ao Peru, os doentes ou portadores sem sintom as a transportaram por vias terrestres para outras regiões. No Brasil, a epidem ia atingiu a Região Norte e foi levada para o Nordeste e o Sudeste. Esse vasto e eficiente sistem a de transporte desenvolvido pelo Im pério Rom ano, com a dim inuição das distâncias, criou condições para que germ es de outros continentes, Ásia e África, chegassem à Europa. E condições para as epidem ias percorrerem áreas extensas — as prim eiras pandem ias da História. O agente infeccioso era introduzido em determ inada localidade do Im pério e, pelas estradas rom anas, levado a regiões contínuas por cam inhos percorridos pelas pessoas infectadas, com o legionários, com erciantes e viaj antes. O traj eto seguido pelas epidem ias era concordante com os percursos de locom oção hum ana. E, com o todos os cam inhos levavam a Rom a, a cidade foi o alvo das epidem ias. As doenças chegavam a Rom a, centro com ercial do m undo, porque a cidade recebia habitantes de todos os cantos, e encontravam terreno adequado para se dissem inar dadas as condições de vida ali existentes — seus aglom erados populacionais favoreciam o aparecim ento das epidem ias. Dessa form a, Rom a apresentava condições propícias a acolher agentes infecciosos de diversas regiões do Mediterrâneo e, por conseguinte, deixar que grandes epidem ias se instalassem . Foram descritas em Rom a 11 grandes epidem ias oriundas das m ais diferentes regiões.

Desde o início do Im pério, Rom a conheceu algum as epidem ias provenientes da África que foram pouco relatadas e docum entadas. Na década de 70 d.C., os rom anos com em oravam o esplendor da cidade, com a conquista, por seu im perador, Tito, dos territórios da Judéia, de onde obtiveram os m etais preciosos do tem plo de Salom ão. Foi em 79, ano em que ocorriam os preparativos para a inauguração do m aior anfiteatro, o Coliseu, que a Península Itálica conheceu duas grandes tragédias. A prim eira, a erupção do vulcão Vesúvio, com a destruição das duas cidades próxim as, Pom péia e Herculano; a segunda, a epidem ia procedente do Egito, que devastou a região central da atual Itália. Essa pandem ia, possivelm ente a m alária ou o anthrax, percorreu o Egito, estendeu- sé pela Mesopotâm ia e o norte da Grécia e chegou à Itália. Em 125, um a nova epidem ia procedente da África atingiu Rom a — a que seria conhecida com o a peste de Orósio. Talvez, saram po.

A ligação de Rom a com o continente asiático era estabelecida pelo com ércio realizado ao longo do m ar Indico, assim com o pelos povos que m antinham contato com as fronteiras rom anas, os hunos. O governo, no século II, "agrupou forças m ilitares na Mesopotâm ia contra o povo daquela região, os partos. As tropas rom anas avançaram pelo rio Eufrates em 164 para a conquista do território, conseguida após num erosas batalhas. Em Selêucia, antiga cidade da Babilônia, às m argens do Tigre, as tropas do General Cássio enfrentaram um a epidem ia que causou um grande núm ero de baixas. A tropa assim adoecida foi a responsável, no seu regresso, por levar a epidem ia para a Síria, região com m aior com plexo de entroncam entos viários.

A epidem ia alastrou-se pela Asia Menor, Grécia e Egito e atingiu Rom a em 166, onde perm aneceu por 15 anos. Na época, j á era conhecida com o a "peste dos Antônios", nom e da fam ília do im perador que então governava. No período dessa pandem ia na península, estim a-se que um quarto a um terço da população italiana tenha sido dizim ada. No auge de sua incidência, foram contadas duas m il m ortes diárias em Rom a, e o Im perador Marco Aurélio se referiu a cadáveres que eram transportados em carroças e vagões de carga. A epidem ia estendeu-se da Pérsia ao rio Reno. Em 180, não poupou Marco Aurélio, que faleceu sete dias após contrair a doença.

Naquela época, vivia em Rom a o conceituado m édico Cláudio Galeno, que assistia o im perador e que descreveu a epidem ia, posteriorm ente denom inada tam bém "peste de Galeno". Nascido em Pérgam o, na Ásia Menor, no ano de 138, Galeno influenciou os m édicos de seu tem po e seus escritos foram lidos nos séculos seguintes, na Idade Média, até o século XVII. Adepto da filosofia de Hipócrates, difundiu o m étodo de sangria com o tratam ento para retirar o hum or supostam ente em excesso. Descreveu a peste com o um quadro inflam atório de faringe, febre e diarréia, com evolução para erupções cutâneas. Acredita-se, pelos relatos, que tenha sido varíola ou um a doença m uito parecida, coincidindo com seu surgim ento na Europa — procedente da Ásia e da Índia, e propagada pelos hunos na China, a leste, e na Europa, a oeste. No século seguinte, em 250, iniciou-se, na Etiópia, na África, um a nova pandem ia. Descrita por São Cipriano e tam bém denom inada "peste de Cipriano", atingiu Rom a depois de passar pelo Egito e Cartago, causando a m aior m ortandade e devastação na cidade de Alexandria. Instalou-se do Im pério Rom ano do Egito até a atual Escócia, e os relatos descrevem cinco m il m ortes diárias em Rom a. Assem elhava-se às pandem ias anteriores, incluindo a epidem ia de Atenas.

Diversos fatores contribuíram para a crise do Im pério Rom ano, entre os quais a escassez de escravos, um a vez que o sistem a econôm ico se baseava no escravism o e na agricultura latifundiária. Outro fator foi o núm ero crescente de invasões dos povos bárbaros no século IV, que se estendeu até o século seguinte com as invasões finais, assinalando o térm ino do Im pério do Ocidente. Contudo, as epidem ias foram coadj uvantes no declínio desse im pério. Tais catástrofes infecciosas causaram , em parte, a dim inuição populacional em toda a Europa entre os séculos III e VIII — estim a-se de setenta m ilhões para trinta m ilhões de habitantes.

Com a decadência do Im pério Rom ano, tentou-se um a m edida adm inistrativa para salvá-lo. Em 395 o Im pério foi dividido em dois, o do Ocidente e o do Oriente; este, denom inado Im pério Bizantino, tinha Constantinopla com o capital. Criado pelo Im perador Teodósio, o Im pério Bizantino perm anecia fortalecido m esm o com a queda de seu irm ão do Ocidente. Tinha início a decadência com ercial de Rom a e Constantinopla era, agora, o centro com ercial do Mediterrâneo.

O Im pério Bizantino alcançou seu m áxim o esplendor na época do Im perador Justiniano (527—565). Justiniano dedicou-se à tentativa de reconstituir o Im pério Rom ano na totalidade, e para tal se em penhou na guerra de reconquista do Ocidente, m as seu sucesso foi efêm ero. Naquele período, Constantinopla desenvolvia-se e crescia, com novos edifícios, tem plos e as igrej as de Santa Irene e Santa Sofia. O com ércio pelas em barcações m editerrâneas agora convergia para essa cidade. Do Egito chegavam em barcações carregadas de trigo, seda e especiarias; estas, porém , provenientes do com ércio realizado no m ar Verm elho pelos navios procedentes da Índia, berço de várias epidem ias. Essa rota com ercial desconhecida dos rom anos provavelm ente transportou ratos infectados da costa indiana. Seguindo pelo m ar Verm elho, esses anim ais atingiram o litoral africano por vias com erciais terrestres até chegarem ao Egito. Os ratos levaram , em pulgas, a bactéria Yersinia pestis, causadora da peste bubônica. Foi o prim eiro caso da peste que definim os nos dias atuais — a peste bubônica —, transm itida pela picada da pulga do rato. Não m ais um a peste no sentido de um grande m al infeccioso.

Em 542, iniciou-se a pandem ia de peste bubônica conhecida com o "peste de Justiniano". Essa pandem ia foi bem descrita, e portanto bem definida com o tal, por Procópio, historiador que, com riqueza de detalhes, apresentou seu quadro clínico: um estado febril, acom panhado de tum orações na virilha, na axila ou em baixo da orelha. Se houvesse ruptura dessas tum orações com supuração, o paciente teria chance de cura; caso contrário, apresentaria piora clínica no quinto dia, com letargia, delírio, vôm itos sanguinolentos e m orte. A dissem inação da peste bubônica tam bém foi favorecida pela elim inação da bactéria na tosse dos doentes quando o acom etim ento era pulm onar. A epidem ia com eçou no delta do rio Nilo, em Pelúsio. Em barcações m editerrâneas a levaram para a cidade de Constantinopla. Durante quatro m eses, m orriam por dia cinco a dez m il pessoas. No prim eiro ano, acredita-se que tenham m orrido trezentas m il. As pessoas trancavam -se em casa com receio de que portadores de fluidos sobrenaturais causadores da peste entrassem em suas residências enquanto elas estivessem sonhando. Justiniano foi acom etido pela peste bubônica, m as sobreviveu. A epidem ia espalhou-se no leste pelas estradas rom anas e invadiu os territórios da Síria e da Pérsia. O com ércio m editerrâneo levou a m orte para os portos litorâneos da Itália, norte da África e sul da atual França. Várias cidades ficaram desabitadas em razão da m orte da população. A infecção espalhou-se por terra pelo interior dos continentes, porém sem pre próxim o ao litoral, poupando regiões m ais centrais. Procópio descreveu não só o quadro clínico da peste bubônica com o a sua dissem inação, avançando das cidades litorâneas para o interior da costa do Mediterrâneo. Foi um a das epidem ias m ais devastadoras até aquela época, e não se sabe por que desapareceu da Europa depois disso. Quando retornou em 1347, m ostrou que continuava sendo a epidem ia m ais tem ível.