A História e Suas Epidemias

Stefan Cunha Ujvari · Capítulo 7 de 7 · parte 1/3

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A História e Suas Epidemias

Capítulo 5

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

UM SÉCULO DE PROG RESSO E...

NOBRASIL, UMA REVOLTA

Após o controle da epidem ia de peste no porto de Santos em 1900, Osvaldo Cruz regressou à cidade do Rio de Janeiro. O outro proj eto para fabricação do soro antipestoso, além do Instituto Butantan, foi o Instituto Soroterápico do Rio de Janeiro, dirigido pelo Barão Pedro Afonso, que confiou o serviço a Osvaldo Cruz, credenciado pelo estágio no Instituto Pasteur. No Instituto Soroterápico, ele com andava experiências, treinava alunos, m édicos e funcionários, além de ter à disposição a fazenda de Manguinhos para o que m ais fosse preciso. Naquele ano, o soro estava sendo produzido, e Manguinhos j á era reconhecido com o um centro de pesquisas, atraindo o interesse de vários profissionais da área. As cidades portuárias do Brasil perm aneciam em condições precárias de saúde pública. Favelas com eçavam a subir os m orros; as ruas sem calçam ento eram lam açais contendo todo tipo de suj eiras anim ais ou vegetais; o com ércio desorganizado deixava detritos nas ruas, por onde proliferavam os ratos. As epidem ias se repetiam todos os anos, sendo um a constante a febre am arela, a varíola, a peste bubônica e a cólera.

Essa im agem do País atrapalhava cada vez m ais a política de im igração defendida pela República. Os navios que partiam da Europa com destino a Buenos Aires reforçavam sua propaganda de não fazer paradas nas cidades brasileiras. Em 1895, chegava ao Rio de Janeiro o navio italiano Lom bar dia para um a visita de cortesia. O Presidente Prudente de Morais presenciou um a catástrofe nas festividades. Dos 340 tripulantes, quase todos adoeceram e 234 m orreram . A im agem do Brasil cam inhava para o lim bo da saúde, a m ão-de-obra dos im igrantes era am eaçada; as cidades que sustentavam a econom ia nacional, Santos e Rio de Janeiro, eram vistas com reservas; algum a atitude precisava ser tom ada para reverter esse quadro. Acom panhando os acontecim entos de Havana, em 1900, Osvaldo Cruz adm itia que a transm issão da febre am arela se dava pelo m osquito. Encontrava com o aliado o diretor do Serviço Sanitário de São Paulo, Em ílio Ribas, que com andou, em 1901, um a cam panha destinada ao controle desse inseto. Entre os ouvintes de Osvaldo Cruz estava seu am igo Sales Guerra, então titular do Ministério da Justiça e Negócios. Foi ele quem indicou Osvaldo Cruz para assum ir o cargo da Diretoria de Saúde Pública.

O Presidente Rodrigues Alves era grande defensor do controle da febre am arela. Fazendeiro de café no interior de São Paulo e um dos presidentes paulistas da política do "café com leite", queria que se obtivesse o controle da doença para que esta não am eaçasse as exportações do produto. Era tam bém interessado em saúde pública — participava de reuniões científicas e acom panhava os trabalhos de Em ílio Ribas, tinha um filho estudando m edicina e um m otivo trágico, perdera um a filha vitim ada pela febre am arela.

Osvaldo Cruz foi então nom eado, em 1903, diretor da Saúde Pública do Brasil, e sua m eta principal era acabar com a febre am arela. Organizou um sistem a de saúde pública vinculado ao Poder Judiciário para que as m edidas instituídas fossem obedecidas. Era constituída a "polícia sanitária", com a participação de guardas sanitários. Aliada ao prefeito da cidade, Pereira Passos, a "ditadura" da saúde pública iniciou seus trabalhos no Rio de Janeiro. A cam panha foi m ontada nos m oldes de um a verdadeira operação m ilitar, com a cidade dividida em dez distritos para a ação. Todas as áreas urbanas que favoreciam a proliferação de m osquitos foram atacadas. Aterraram -se alagados; os lixos foram retirados das ruas; os cortiços, esvaziados e dem olidos. Com batendo tam bém a peste, Osvaldo Cruz prom ovia a desratização. Pagavam -se cerca de trezentos réis por cada rato m orto que as pessoas levassem aos agentes sanitários, o que incentivava o apoio da população ao obj etivo de se dim inuir o núm ero desses anim ais na cidade.

Com o todas as m edidas foram prej udiciais às classes pobres, iniciaram -se os protestos dessa m aioria. Os cronistas satirizavam o trabalho de Osvaldo Cruz, m as os resultados vieram no final daquele m esm o ano de 1903. Em fevereiro de 1904, em pleno verão, não aconteceu a anual epidem ia de febre am arela; e em abril, nenhum caso de peste foi registrado. As m edidas adotadas foram coroadas de pleno sucesso, e o trabalho de Osvaldo Cruz reconhecido pelos j ornalistas que o haviam atacado. Mas, se no com eço do ano se obteve o controle da febre am arela e da peste, não ocorreu o m esm o em relação à varíola — por não depender de nenhum anim al para ser transm itida, dissem inou-se de form a assustadora. Em m eados de 1904, os hospitais ficaram lotados de doentes. Osvaldo Cruz intensificou as m edidas de com bate à doença, o que culm inou num a das m aiores revoltas da população em razão da política sanitária que obrigava à vacinação.

A vacina contra a varíola j á era obrigatória para as crianças desde 1832, pelos esforços de Dom João VI, que vira dois irm ãos e um filho m orrerem da doença. Mas essa lei nunca fora seguida pela população, assinalando-se o uso em larga escala da vacina apenas pelos fazendeiros, que a aplicavam em sua "propriedade" escrava para evitar a perda de seu "patrim ônio". Os benefícios da vacina ficavam evidentes quando se relaxava nas cam panhas de vacinação, com o ocorreu em 1886, ano em que se desorganizou esse sistem a. Um ano depois, m orreriam vinte pessoas por dia em decorrência da varíola. Em 1877, o Nordeste enfrentou um a das piores secas por causa da alteração clim ática provocada pelo fenôm eno El Nino. A seca precipitou a m igração de

quatrocentas m il pessoas para os territórios litorâneos.{49} A cidade de Fortaleza tinha 170 m il habitantes, 110 m il deles refugiados. Um a nova epidem ia de varíola, iniciada em 1878, encontrou condição m uito propícia para dissem inar-se, levando à m orte m ais de 56 m il pessoas. Dez anos depois, o Ceará seria castigado novam ente pela seca e por outra epidem ia da doença, registrando-se até m il m ortes num dia em Fortaleza.

O Brasil com eçou a produzir a vacina anim al apenas em 1887, com a vinda de am ostras viáveis do vírus da Europa. O Barão Pedro Afonso conseguiu então a inoculação em vitelos na Santa Casa de Misericórdia e iniciou a produção da vacina no Brasil, criando o Instituto Vacínico.

No auge da epidem ia de 1904, Osvaldo Cruz em preendeu sua cam panha para a vacinação m aciça da população contra a varíola. Em j ulho daquele ano, era aprovado no Senado o proj eto de lei que obrigava à vacinação contra a doença. Os efeitos das reações à lei, bem com o os resultados das propagandas contra a obrigatoriedade da vacina que ocorreram em j ulho, puderam ser observados no núm ero de vacinações registrado em agosto. Enquanto cerca de vinte m il pessoas foram vacinadas tanto em j unho quanto em j ulho, apenas seis m il se subm eteriam à vacinação no m ês seguinte, o que m ostrava a relutância da população em conseqüência dos acontecim entos de j ulho. Mem bros do Senado j á incitavam a população contra a violação da liberdade individual caracterizada pela obrigatoriedade da vacina, que m uitos classificavam de um "despotism o da saúde pública". Entre eles estava o senador Barata Ribeiro, com peso por ser m édico docente da Faculdade de Medicina. Outro protesto contrário à vacinação sustentava-se na afirm ação de que a vacina seria feita de m aterial purulento retirado de anim al sifilítico, sendo, portanto, um a fonte para se contrair a doença. A aquisição de sífilis vinha desde a época em que se praticava a variolização no século XVIII, um a vez que tal m étodo consistia na retirada de m aterial purulento do braço de indivíduos doentes e sua aplicação em pessoas sadias — sem dúvida, um a m aneira de contam inação. Com o início da vacinação utilizando-se o vírus bovino, esse m étodo deu continuidade ao processo de transm issão da doença pelo risco de se retirar o m aterial do braço de pessoas sifilíticas, sendo evitado apenas quando o m aterial era extraído diretam ente da vaca e inoculado nas pessoas.

Os protestos ganharam força com a necropsia que o legista Cunha e Cruz realizou num a paciente vítim a da vacinação, constatando que a m orte ocorrera pela dissem inação do im unizante. A Osvaldo Cruz coube revisar o cadáver para a im pugnação do atestado de óbito, m as sua intervenção se deu tarde dem ais — o fato j á havia influenciado a opinião pública. Panfletos foram espalhados pela cidade, protestos cresciam entre a população, que j á não tinha habitação em conseqüência da caça aos cortiços e se via obrigada à vacinação. Enquanto os m aridos trabalhavam , suas esposas e filhas eram obrigadas a levantar as roupas para os agentes sanitários lhes vacinarem o braço, o que instigou o puritanism o da sociedade. Alguns m ilitares contrários ao regim e da oligarquia cafeeira atacavam Rodrigues Alves, protestando contra a vacinação obrigatória. Colocavam -se ao lado da população am edrontada. O General Lauro Sodré, líder de grande prestígio, incluía-se entre esses opositores. Na época era articulado no Rio de Janeiro o m ovim ento operário. Desde o início, o Centro da Classe Operária organizou protestos e m ovim entos contrários à vacina obrigatória, com o apoio de outras classes sociais. Em novem bro de 1904, fundou a Liga Contra a Vacinação Obrigatória, que uniu o operariado e era presidida pelo m ilitar Lauro Sodré. Após reuniões, discursos e pronunciam entos, o inevitável aconteceu: a revolta popular.

Em 10 de novem bro de 1904, um grupo de estudantes saiu às ruas para um a passeata de protesto contra a vacina. No início, o que seria um a m anifestação estudantil sem m aiores conseqüências ganhou notoriedade pela repressão da polícia, com violência e prisões. Apesar da calm a naquela noite, o núm ero de adeptos do grupo estudantil cresceria no dia 11, e m ais ainda no dia seguinte. Ocorreram disparos que inflam aram o conflito. Finalm ente, a população protestou, Lauro Sodré discursou a favor de um a resistência à vacinação, conseguindo a adesão dos cadetes da Escola Militar da Praia Verm elha, enquanto o Exército era posto de prontidão para agir a qualquer m om ento. A franca rebelião explodiu no dia 13, com a população tom ando vários bairros na região central da cidade. Barricadas eram construídas nas ruas, bondes eram tom bados e incendiados, lam piões a gás eram quebrados, o conflito deixava feridos e causava prisões. Osvaldo Cruz recebeu cartas anônim as anunciando seu assassinato, sua casa foi cercada e am eaçada de invasão na noite do dia 14 — o que o forçou a fugir pelos fundos com am igos. No dia 15, chegaram de São Paulo e Minas Gerais os batalhões para apoiar o Exército da República. A batalha final deu-se no bairro da Saúde, e o Exército e a polícia venceram as barricadas. A repressão foi eficaz, com prisão e deportação de revoltosos. A rebelião estava controlada, m as a população obteve sua vitória: suspendeu-se a lei da vacinação obrigatória.

Com isso, Osvaldo Cruz viu interrom pida sua política de saneam ento, e a população com em orou vitoriosa. Mas o benefício de que ela fora privada se evidenciaria em 1908 quando um a nova epidem ia se alastrou no Rio de Janeiro, atingindo aqueles que não haviam sido vacinados — foram nove m il casos de varíola e o índice de um a m orte em cada cem habitantes. A razão de Osvaldo Cruz era finalm ente com provada aos olhos do povo. Em 11 de fevereiro de 1917, Osvaldo Cruz m orreu em decorrência de insuficiência renal.

 

NA ÉPOCA DA PRIMEIRA G RANDE G UERRA

 

Unificada a Alem anha em 1871, as nações européias m ergulharam num conflito político e econôm ico. No final do século XIX, a Alem anha iniciou sua ascensão com o potência econôm ica, alcançando a Inglaterra e a França. Com eçaram as disputas pelo m ercado econôm ico, que, associadas ao fortalecim ento do espírito nacionalista, precipitaram novos conflitos.

Após a Revolução Francesa e a era de Napoleão, a população européia percebeu que povos da m esm a origem étnica, com o m esm o idiom a e os m esm os ideais políticos, tinham um a identidade de nação independente. No século XIX, a Bélgica conquistou sua independência dos Países Baixos (1831), a Itália foi unificada em 1861 e a Alem anha em 1871. Esses m ovim entos refletiam e intensificavam o nacionalism o vivido na Europa, que era m enosprezado pelas m onarquias. Cada vez m ais, aum entavam os conflitos nas localidades fronteiriças dos países, em que conviviam grupos diferentes. O im perialism o era um a necessidade econôm ica das nações para conquistar seu m ercado consum idor e, especialm ente, sua fonte de m atéria-prim a para a indústria. Ao m esm o tem po, era um a m anifestação do nacionalism o vigente na Europa. A disputa econôm ica por essas regiões m arcava os confrontos, principalm ente na África. A França m antinha conflitos com a Inglaterra, e am bas, por sua vez, com a Alem anha. Aos poucos foram feitas alianças políticas, estabelecendo-se de um lado a união da Rússia, Inglaterra e França e, do outro, da Alem anha, do Im pério Austro-Húngaro e da Itália. No início do século XX, vários conflitos internacionais intensificaram a rivalidade entre as nações e o fortalecim ento m ilitar. Em 1905, a Alem anha apoiou a independência do território do Marrocos sob o dom ínio francês, e o em bate foi evitado por conferência internacional. Em 1908, o Im pério Austro- Húngaro anexava o território da Bósnia, que era reivindicado pelo m ovim ento nacionalista da Sérvia. A guerra entre a Sérvia e o Im pério foi evitada porque a Rússia não tinha condições de aliar-se à Sérvia. Em 1911, novam ente o im passe no Marrocos fez com que a Alem anha enviasse navios de guerra para o seu litoral, esfriando-se o conflito por m ovim ento dos dem ais países. Em 1912, teve início um confronto nos Bálcãs, com a Sérvia reivindicando territórios sob o dom ínio do Im pério Austro-Húngaro que eram habitados por povos eslavos. Finalm ente, o pretexto para a guerra ocorreu em j unho de 1914. O sucessor do trono Austro-Húngaro, Francisco Ferdinando, em visita ao território da Bósnia, foi assassinado. O Im pério atribuiu a autoria do crim e ao m ovim ento nacionalista da Sérvia e declarou guerra a esta nação. Com o um a cascata, o conflito faria entrar países aliados nos dois lados, ocasionando a generalização do confronto. Doenças causadas pelo tifo não assustavam a população m undial desde o final do século XIX e estavam sob controle. Diversas regiões relatavam casos esporádicos por ano e m esm o epidem ias, m as de dim ensões nada alarm antes. Apenas um a delas perm anecia com o área endêm ica, com taxas anuais da doença não tão desprezíveis, o Leste Europeu. A Rússia apresentava um a m édia de noventa m il casos por ano. Qualquer situação histórica que proporcionasse fom e e guerra, com aglom eração de pessoas e proliferação dos piolhos, poderia criar condições para que o tifo eclodisse em um desastre hum ano. As forças do Im pério Austro-Húngaro iniciaram seu ataque à Sérvia, bom bardeando e cercando Belgrado, e finalm ente tom aram a cidade em novem bro de 1914. Enquanto os austríacos com em oravam a invasão desse território, os civis e m ilitares da Sérvia aglom eravam -se ao sul, em condições propícias para o surgim ento do tifo. Em novem bro, a epidem ia eclodiu entre os povos da Sérvia, que, no m ês seguinte, lançou um contra-ataque ao exército austríaco e retom ou a cidade de Belgrado. Mas a situação da região era diferente — as cidades estavam em ruínas, não dispunham de locais para o atendim ento dos doentes; a população vivia em aloj am entos im provisados com lotação acim a do ideal; e havia, principalm ente, prisioneiros austríacos, m uitos com tifo, totalizando sessenta m il soldados. Esses hom ens eram enviados a prisões da Sérvia em trens lotados, os exércitos sérvios eram transferidos para áreas diferentes e a população peregrinava à procura de condições m elhores de m oradia.

O tifo dissem inou-se com m ais velocidade no inverno de 1815, nos m eses dé fevereiro e m arço, atingindo o auge em abril. A taxa de m ortalidade chegou a 60% — 150 m il pessoas acom etidas m orreram em apenas seis m eses. As ocorrências eram de até seis m il por dia em diversas regiões da Sérvia, e incluíam m ilitares e civis. O núm ero de m édicos no território sérvio sofreu baixa em decorrência do tifo — do total de 350, 126 m orreram ; alguns hospitais perderam até 80% dos m édicos. Metade dos prisioneiros austríacos m orreu nos cam pos vitim ada pelo m al. As operações m ilitares da Sérvia foram suspensas para o controle da doença por vários m étodos de saneam ento, que visavam ao com bate dos piolhos (conhecido com o causador do tifo desde 1909), o que não im pediu a m orte de cerca de 25% de seu exército. Enquanto isso, a força austríaca não pôde prosseguir com a invasão, e a guerra nessa fronteira oriental perm aneceu parada por seis m eses.

A Rússia sofreu várias derrotas na fronteira com a Alem anha e o Im pério Austro-Húngaro, sendo obrigada a recuar, perdendo territórios. Os soldados perm aneciam nas trincheiras, onde a dissem inação dos piolhos os fazia ter m ais m edo do tifo do que da própria guerra. No prim eiro ano do confronto, cem m il casos da doença ocorreram na Rússia; após as derrotas do ano de 1916, com o recuo do exército, o núm ero de casos j á atingia 150 m il. Mas seria entre os anos de 1917 e 1921 que a população m ais sofreria com as epidem ias de tifo, registrando-se um total de trinta m ilhões de acom etidos. Nas cidades russas, a insatisfação da população aum entava com a escassez de alim entos, o aum ento dos preços e as derrotas na guerra. Fom e, m iséria e doenças alastravam -se no cam po e nas cidades. Não suportando m ais a situação, o Czar Nicolau II foi obrigado a renunciar em m arço de 1917, e um governo provisório assum iu. O novo governo e o seguinte não foram capazes de resolver os problem as, persistindo na guerra, o que levou à Revolução Bolchevista em novem bro daquele ano. Lênin, que organizava a revolução socialista, com andava a form ação da Guarda Verm elha arm ada, que pôde colocar em ação na Revolução de novem bro. Ele assum iu o poder e tratou de assinar um acordo de paz, tudo o que a população pleiteava.

Com Lênin no com ando, os bolchevistas deram início a reform as no sistem a político e econôm ico da Rússia, o que acarretaria um a guerra civil em condições de vida adequadas à persistência das epidem ias de tifo. As terras agrícolas foram nacionalizadas e distribuídas aos cam poneses; os estabelecim entos industriais e bancos, tom ados pelo Governo; e o controle das fábricas, transferido para as m ãos dos operários. Não dem oraram a surgir opositores ao regim e de Lênin, entre os quais capitalistas e proprietários de fábricas, indústrias e terras, que arregim entaram partidários diversos. Com eçava assim a guerra civil entre o Exército Verm elho e os contra-revolucionários, cham ados de Brancos. O "terror" foi im plantado na Rússia — toda pessoa suspeita de ser contrária ao regim e era aprisionada ou assassinada. Som ente em 1922 a guerra civil chegou ao fim , m as deixando a Rússia em crise econôm ica.

Desde as derrotas do exército russo em 1916, passando pela Revolução Bolchevista de Lênin, até 1923, a população enfrentou m iséria, fom e, desnutrição e condições insalubres de vida, enquanto se construíam setenta m il cam pos de

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concentração para prisioneiros políticos. Tais circunstâncias contribuíram

para a dissem inação dos piolhos e o acom etim ento de trinta m ilhões de pessoas pelo tifo, com a m orte de três m ilhões, um a das m aiores epidem ias da História. O ano de 1918 m arcou as constantes derrotas da Alem anha e do Im pério Austro-Húngaro. Territórios eram conquistados pelas forças adversárias. Finalm ente, no final daquele ano, em 11 de novem bro, foi assinado o tratado que colocou fim à Prim eira Grande Guerra, com a derrota dessas forças centrais da Europa, que foram obrigadas a ceder a um a série de exigências do Tratado de Versalhes, responsáveis pela crise que precipitaria a Segunda Guerra Mundial anos depois. Na história da hum anidade, o vírus da gripe causou diversas epidem ias. Entretanto, a taxa de m ortalidade pela doença sem pre foi baixa e decorrente de com plicações com o a pneum onia, que acom ete m ais crianças de faixa etária m uito baixa e os idosos. Mas o ano de 1918 m arcou o surgim ento de um novo vírus da gripe com poder de invasão m uito m aior que se alastrou pelo m undo todo, causando um a m ortandade nunca vista antes e atingindo tam bém os j ovens. Por aparecer no últim o ano da guerra, sua dissem inação foi facilitada pelos m ilitares com batentes.

Cerca de um quinto da população m undial foi acom etido pela doença nos anos de 1918 e 1919, com um a taxa de m ortalidade ao redor de 0,5% a 1,2%, o que significou a m orte de cerca de 22 m ilhões de pessoas, m uito m ais que os oito m ilhões de com batentes da guerra. A m ortalidade variou de região para região, e foi m uito m aior nas áreas em que a doença nunca havia ocorrido, onde, portanto, a população não lhe tinha im unidade. Assim , enquanto nos Estados Unidos 0,5% da população m orria, em Sam oa esse percentual chegava a 25%; no Alasca, várias vilas de esquim ós eram dizim adas; e a índia, a principal vítim a da gripe, perdia 12 m ilhões de vidas. Apesar de o núm ero oficial de m ortes ter sido estim ado em 22 m ilhões, aventa-se a possibilidade de um núm ero m uito m aior pela dificuldade de estatísticas de óbitos nos países da África; na Rússia, que vivia sua revolução e conseqüente desorganização; e nas regiões superpovoadas da Ásia.

 

A G RIPE SE PROPAG A

 

A prim eira onda am ericana da epidem ia de gripe ocorreu na prim avera de 1918. Iniciou-se em m arço com um dos prim eiros relatos entre os m ilitares do cam po Funston, no Kansas, ocasionando um núm ero significativo de m ortes. Não se sabe ao certo a origem da epidem ia, acredita-se que tenha aparecido nos Estados Unidos ou na Ásia. Alastrou-se pelo m undo, alcançando os países da Europa no verão daquele ano e, posteriorm ente, todos os continentes. Ao atingir a Espanha no verão de 1918, a doença acom eteu cerca de oito m ilhões de pessoas. Em Madri, um em cada três habitantes ficou doente, fato que prej udicou a rotina da cidade. O próprio rei da Espanha contraiu a doença. As agências espanholas relataram ao exterior a gravidade da nova epidem ia que assolava o país, alertando a com unidade m undial, m otivo que contribuiu para que a epidem ia recebesse o nom e de "gripe espanhola". Quando a doença j á se dissem inava pelo m undo, veio a segunda onda da gripe e a m ais devastadora. Com eçou no m ês de agosto de 1918 de form a sim ultânea nos Estados Unidos, Europa e costa oeste da África. A cidade africana de Freetown, em Serra Leoa, recebeu a gripe pelas em barcações inglesas em agosto, e em um m ês a doença j á atingia dois terços da população, m atando 3% dos enferm os. Nas cidades dos Estados Unidos, a gripe alastrou-se por Boston, m as os acam pam entos m ilitares lotados com com batentes preparados para serem enviados à Europa foram os locais onde causou seu grande im pacto. No outono de 1918, a segunda onda da epidem ia de gripe, m ais devastadora, tom ou proporções im portantes na Europa em guerra e nos cinco continentes. Um dos relatos que descrevem m elhor a fúria da gripe foi feito sobre um a tropa m ilitar am ericana que se encam inhava para a luta arm ada na Europa. A epidem ia iniciou-se entre os m ilitares da infantaria que se preparavam para um a m issão na França. Ao longo de sua m archa de Nova Jersey para Nova York, onde em barcariam , com eçaram a surgir doentes com gripe que foram abandonados nas estradas.

Chegando a Nova York, os não acom etidos pela doença, um total de nove m il m ilitares, em barcaram no navio Leviathan rum o ao extrem o oeste da França, no dia 29 de setem bro. Mas nas prim eiras 36 horas de viagem j á apareceram cerca de setecentos m ilitares doentes, com notificação da prim eira m orte. O núm ero de enferm os subia para dois m il e, com apenas quatro dias no m ar, crescia a quantidade de m ortes diárias: três, sete, dez e 24, chegando a 31 em 7 de outubro quando, finalm ente, o Leviathan aportou na cidade francesa de Brest. Na viagem , os m ortos eram lançados ao m ar sem identificação, os quartos pouco arej ados ficavam lotados de doentes e até m esm o de cadáveres que dem oravam a ser rem ovidos. O pânico tom ou conta das pessoas, que se recusavam a lim par o chão contendo sangue proveniente de hem orragias, pois tinham m edo do contágio. A gripe persistia espalhando-se entre os m ilitares em m archa pela

Europa.{51}

A taxa de m ortalidade pela doença atingiu o pico no m ês de outubro de 1918 — os am ericanos internaram cerca de 45 m il hom ens nos hospitais de guerra e 10% deles m orreram . Os alem ães perderam 225 m il pessoas. A cidade de Dam asco teve dificuldade de resistir aos ataques dos aliados em razão do estado de saúde dos turcos acom etidos pela gripe. Na Itália, a doença m atou 375 m il habitantes, com a cidade de Turim com putando quatrocentas m ortes por dia. Paris contou cinco m il m ortos por sem ana; na Inglaterra, o núm ero de óbitos foi de 228 m il. Nos Estados Unidos, a doença atingiu todos os estados. No auge da epidem ia, na Filadélfia, m orreram cerca de sete m il pessoas em duas sem anas. O núm ero de m ortes excedia a quantidade de caixões existentes para os enterros; assim , m edidas de em ergência foram adotadas para produzi-los. Os bondes eram usados para levar os corpos dos doentes, aum entou o núm ero de crianças órfãs no país. O total de m ortes, só nos Estados Unidos, foi de quinhentos m il a 650 m il; levando-se em conta que o censo da época era rudim entar e ineficaz, esse núm ero pode ter sido bem m aior.

No final de m aio de 1919, a gripe chegou a Bom baim levada nas em barcações com doentes. Pelas estradas ferroviárias espalhou-se por toda a Índia, acom etendo m ais da m etade da população. Em Bom baim , em um a sem ana, m orreram cerca de 1.500 pessoas. A cidade de Madras parou no tem po, as escolas suspenderam suas atividades pela ausência de alunos sadios, os bondes foram recolhidos por falta de funcionários, os órgãos públicos não abriram pelo m esm o m otivo e os correios fecharam . A produção indiana de algodão e j uta dim inuiu, contribuindo para o prej uízo econôm ico. Com o as m onções foram am enas naquele ano, a colheita foi fraca, o que ocasionou a fom e e contribuiu para que 12 m ilhões de pessoas m orressem em decorrência da gripe.

A econom ia m undial entrou em crise, dim inuíram as explorações de ouro na África do Sul, com a falência de em presas em todos os continentes — as plantações de café na Am érica Central foram duram ente prej udicadas, a fom e agravou a situação no vale do rio Ganges, batatas não eram plantadas na Polônia. Sem contar a situação que vivia a Europa, recém -saída da Prim eira Grande Guerra.

Quem im agina que a história da gripe espanhola é coisa do passado se engana. Um a nova epidem ia de gripe, tão m ortal quanto a vivida no ano de 1918, é um a am eaça constante ainda hoj e, a m erecer atenção do Center for Disease Control (CDC) de Atlanta, nos Estados Unidos, instituição que m antém vigilância sobre as diversas doenças infecciosas no globo terrestre. O vírus causador da gripe espanhola, o influenza, é universal na natureza e apresenta taxas de m utação elevadas, o que torna a vacinação necessária todos os anos. Mas o vírus influenza que pode causar a tem ida pandem ia não decorre dessas m utações. O que existe é o risco da form ação de um novo vírus influenza, com poder m aior de infecção e de m ortalidade.

O influenza é classificado em tipos diferentes, de acordo com os constituintes de sua estrutura. Apresenta na sua form ação as substâncias hem aglutinina e neuram inidase, pelas quais se pode dividi-lo em H1, H2, H3 ou NI, N2, e assim por diante. O século XVIII foi m arcado por três grandes epidem ias de gripe e o século XIX, por quatro. Não se pode m enosprezar o potencial de surgim ento de um novo tipo de vírus da gripe causador de alta m ortalidade. Estudos em m aterial de necropsia conservado de soldados am ericanos m ortos na pandem ia de 1918 provaram que a epidem ia daquele ano foi ocasionada pelo vírus H1N1. Ao longo do século XX, houve m ais duas epidem ias decorrentes de m ais dois tipos de vírus identificados, o H2N2, que m atou cerca de um m ilhão de pessoas na Ásia em 1957; e o H3N3, em 1968, em Hong Kong. No dia-a-dia, não im aginam os que vivem os sob a am eaça constante do surgim ento de um novo tipo de influenza, que assolaria a hum anidade. Mas o ano de 1997 m ostrou com o esse risco é real.

 

1997 — Q UASE OUTRA TRAG ÉDIA

 

Era m arço de 1997, os m em bros do governo de Hong Kong preocupavam -se com um problem a que, no início, parecia afetar apenas a econom ia da região. As fazendas passavam por sérias dificuldades com um a epidem ia de gripe, iniciada perto de Yuen Long, que acom etia as criações de galinhas. Sete m il desses anim ais m orreram em conseqüência da doença, que se espalhou para as fazendas vizinhas. O departam ento da agricultura identificou o agente causador do m al, o vírus influenza H5. Conhecido por infectar as aves e não o hom em , tratava-se de um fato sem elhante ao ocorrido anos atrás no México, e alarm ou apenas os órgãos econôm icos.

Em m aio de 1997, dois m eses após o episódio da epidem ia das galinhas, internava-se num hospital de Hong Kong um a criança de apenas três anos com sintom as de gripe. Estranham ente, ela evoluiu com deterioração clínica, com plicações pulm onares e óbito em 12 dias. Seus fluidos orgânicos foram enviados para o laboratório de virologia, onde se identificou o agente causador da doença, o influenza. Mas nenhum a das cepas testadas, H1 e H3, era identificada com o responsável. As am ostras foram encam inhadas para novos testes nas unidades do CDC em Atlanta e Londres.

Em agosto chegavam m em bros do CDC a Hong Kong para investigar o caso, por um m otivo m uito sim ples m as extrem am ente alarm ante: as cepas haviam sido identificadas com o do tipo HS, nunca visto em hum anos. O laboratório de virologia de Hong Kong foi exam inado para descartar um a contam inação. Colheram -se am ostras de sangue e secreções da garganta de todas as pessoas que m antiveram contato com a criança e tam bém da população, totalizando cerca de dois m il indivíduos. Apenas nove deles m ostravam indícios de contato prévio com esse tipo de vírus, m as nenhum ficara doente. A fonte suspeita da infecção que acom eteu a criança foi um local de sua escola em que ela brincava e onde haviam m orrido galinhas. O caso ganhava interpretação de um episódio isolado e não causou grande repercussão.

As autoridades m édicas perm aneceram em estado de alerta. Por seis m eses, nenhum caso novo aparecera, o episódio estava aparentem ente resolvido. Mas, no fatídico m ês de novem bro, o m undo esteve sob a am eaça de reviver os acontecim entos de 1918. No dia 6, internava-se outra criança, de dois anos, com sintom as de gripe, e o laboratório j á isolava o tipo H5. Naquele m esm o m ês, o núm ero de pacientes internados por influenza H5 subiu para quatro, registrando-se duas m ortes. Em dezem bro, j á eram dez pacientes internados com o tipo H5; a m aioria deles havia tido contato com as aves, trabalhava em m ercados de galinhas, as com prara ou m anuseara. No total da epidem ia, foram identificados 18 casos de gripe pelo infuenza HS e a assustadora taxa de m ortalidade de 33%. Mem bros do CDC retornaram a Hong Kong.

O ijfluenza, responsável pela gripe nas aves, não apresenta receptores para causar doença no hom em , porém pode infectar os suínos, da m esm a form a que o vírus do hom em . No caso dos suínos, o que ocorre é um a fusão de genes dos vírus da galinha e do hom em para a form ação de um novo tipo capaz de retornar para as aves e, aí sim , infectar o hom em . Durante a epidem ia de 1957, foi evidenciada um a seqüência de genes do vírus hum ano com o vírus das aves, e j á se conhecia o risco potencial da transm issão pelas galinhas. O CDC não tinha outra opção para o controle da epidem ia que am eaçava a hum anidade. Em reunião com os Departam entos de Saúde e Agricultura, a decisão foi tom ada: tinham de sacrificar as galinhas. No final de dezem bro de 1997, iniciou-se o controle da epidem ia, e cerca de 1,2 m ilhão de galinhas foram m ortas, além de quatrocentas m il outras aves. A epidem ia foi controlada, e não se registraram m ais casos. O estudo posterior desse tipo de influenza revelou um a taxa de evolução fantástica: em poucos m eses, poderia ter a capacidade de transm issão de pessoa para pessoa, desencadeando um a nova pandem ia. O episódio dem onstrou o constante risco em que vivem os, e m ais: a dinâm ica dos agentes das doenças infecciosas faz com que um a epidem ia vista no passado não sej a um episódio distante e pertencente à História, m as sim de potencial risco futuro.

UMA DESCOBERTA SALVADORA

No com eço do século XX, nos Estados Unidos, quase 1% da população m orria por ano em decorrência de algum processo infeccioso. As infecções eram um tem or, o pânico aflorava nas fam ílias quando um dos seus era acom etido pela febre. A criança era um a vítim a em potencial. Em 30% dos óbitos, a pessoa tinha m enos de cinco anos. A pneum onia, a tuberculose e as diarréias eram , respectivam ente, a prim eira, segunda e terceira principais causadoras de m ortes na população am ericana. As três infecções ocasionavam um terço de todos os óbitos ocorridos nos Estados Unidos, 40% dos quais de crianças. Os prim eiros quarenta anos do século XX m ostraram o reflexo dos avanços científicos do final do século anterior. As descobertas dos m icro-organism os com o causadores dos processos infecciosos e, especialm ente, do m ecanism o de transm issão das infecções por m eio de m osquitos, água contam inada, ratos e contato íntim o de pessoa com pessoa levaram à adoção de m edidas de controle. Iniciou-se a grande atividade da saúde pública nas cidades m undiais. Sistem as de esgotos foram desenvolvidos e aperfeiçoados, a água com eçou a ser tratada com cloração antes de chegar às residências, difundia-se a educação e o esclarecim ento da população sobre a im portância de lavar as m ãos, os alim entos eram rigorosam ente inspecionados e tratados, os m osquitos eram exterm inados do m eio urbano, os ratos eram perseguidos e controlados, os pacientes transm issores de doenças contagiosas eram isolados. Todas essas m edidas causaram um im pacto enorm e nas taxas de m ortalidade por doenças infecciosas. Sem a descoberta de nenhum a droga terapêutica, m as apenas sabendo a causa da transm issão das infecções e com as m edidas de prevenção, o núm ero de óbitos nos Estados Unidos foi quatro vezes m enor. Em 1940 m orria, de algum processo infeccioso, 0,2% da população am ericana, bem

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m enos que o quase 1% de 1900.

Apesar de todo o avanço do conhecim ento m édico e do sucesso das m edidas preventivas, as infecções perm aneciam um tem or. Outro capítulo das doenças infecciosas seria escrito com a descoberta dos antibióticos, que proporcionaria um a nova queda da m ortalidade por esses m ales. A penicilina foi descoberta em 1928 por Alexander Flem ing, nascido na Escócia em 1881. Graças a um a bolsa de estudos, Flem ing cursou a Universidade de Londres, sendo em pregado no Hospital Saint Mary, onde trabalhou no Departam ento de Inoculação até aposentar-se. Foi no laboratório desse departam ento que ele se viu agraciado com um a série de eventos que lhe perm itiriam realizar um a das grandes descobertas do século XX, a penicilina. Flem ing cultivava estafilococos em sua bandej a, que continha m eio de cultura para o crescim ento dessas bactérias, quando se deparou com a contam inação de algum as colônias pelo fungo Penicillium notatum. Ele observou que ao redor dos fungos não havia crescim ento do estafilococo e deduziu que o Penicillium notatum produzia algum a substância inibidora da bactéria ou que até m esm o tinha a capacidade de destruí-la. A penicilina, assim batizada em razão do nom e do fungo que a produzia, estava à beira de ser descoberta. Vários fatos contribuíram para o sucesso da descoberta de Flem ing naquele setem bro de 1928. Sua bandej a de cultura não poderia ser contam inada pelos esporos do Penicillium notatum se estes não estivessem suspensos no ar de seu laboratório em quantidade m uito grande. O laboratório de Flem ing recebeu os esporos do fungo pela porta, perm anentem ente aberta. Eles entraram pelo corredor, provenientes do andar de baixo, onde funcionava o laboratório de bolores, que cultivava o Penicillium notatum. Este contam inou a bandej a no m om ento exato em que Flem ing inoculava o estafilococo, cuj o crescim ento foi inibido pelo fungo; caso houvesse contam inação após o início da proliferação do estafilococo, o fungo não teria a capacidade de inibir a bactéria e a descoberta não se concretizaria. Se Flem ing estivesse cultivando outra bactéria, não sensível à ação do Penicillium notatum, o m undo aguardaria m ais tem po por essa descoberta. O fungo tam bém não teria conseguido crescer na bandej a se a forte onda de calor que se abatia sobre Londres tivesse perm anecido, pois a tem peratura elevada im possibilitaria seu desenvolvim ento. Não é todo Penicillium que produz a penicilina. Por sorte, o fungo que estava sendo cultivado no andar abaixo do de Flem ing era um a variante produtora da substância; caso contrário, a bandej a contam inada seria desprezada no lixo. E, finalm ente, contrariando um a rotina em seu laboratório, Flem ing não colocou a bandej a na incubadora, cuj a tem peratura elevada propiciava um crescim ento m uito m ais rápido do estafilococo. Se a bandej a tivesse sido levada à incubadora, a alta tem peratura não teria deixado o Penicillium crescer. Com o Flem ing entraria em férias por duas sem anas, não viu necessidade de acelerar o processo, o que o fez deixar a bandej a na bancada, à tem peratura am biente, para garantir um bom crescim ento do estafilococo até seu retorno. Isso propiciou o desenvolvim ento do

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fungo.

Flem ing com eçou seus estudos a partir do caldo de cultura em que se deu o crescim ento do fungo, descobrindo que a penicilina apresentava ação destruidora sobre várias bactérias. O trabalho era anim ador, graças ao efeito eficaz contra bactérias causadoras de infecções de pele, garganta, pneum onia, gonorréia e m eningite. Assim , ele deu início aos tratam entos por m eio da aplicação local da penicilina nos tecidos infeccionados, lavando ferim entos de pele com a nova droga e aplicando-a em olhos infectados. Flem ing estava longe de considerar a adm inistração da penicilina por com prim idos ou na veia para agir em infecções. Conhecido com o um a autoridade no tratam ento de pacientes com sífilis, Flem ing foi o prim eiro m édico na Inglaterra a adm inistrar, na veia, um a nova e prom issora droga, o salvarsan. Por ironia, se tivesse testado a penicilina no com bate à doença que o consagrava na prática m édica diária, teria visto um efeito ótim o, e provavelm ente m udaria a história de seu trabalho. A penicilina é usada até hoj e com o a droga de eleição para o tratam ento da sífilis. Naquela época, os m édicos estavam distantes da aceitação de um a substância que pudesse ser inj etada na veia para debelar infecções, o que aj udou na decisão de Flem ing de abandonar os estudos sobre a penicilina para retornar a seus proj etos anteriores.

Os resultados de Flem ing foram apresentados à com unidade científica no ano de 1929. Seu trabalho, publicado num a renom ada revista científica britânica, podia ser lido pelo m eio m édico m undial. No m esm o ano em que a Inglaterra com eçava a conhecer a possibilidade de um a substância com poder contra bactérias, ocorria um fato do outro lado do Atlântico que favoreceria o em prego da penicilina no futuro — a quebra da Bolsa de Nova York. Num a terça-feira de outubro, cerca de dez m il pessoas se aglom eraram nos redores da sede da Bolsa de Valores de Nova York, em Wall Street, para receber notícias da queda das ações. No final do dia, consum ou-se a queim a de US$ 15 bilhões, incluindo a queda vertiginosa da poderosa General Motors, da RCA e da siderúrgica US Steel. Os Estados Unidos viram sua econom ia crescer exponencialm ente após a Prim eira Grande Guerra; passaram de m aiores devedores m undiais para a m aior potência econôm ica do planeta. Recebiam dólares do exterior — quase m eio m ilhão em 1929 —, provenientes de Paris, Am sterdã, Londres, Berlim , Bruxelas e de outras cidades. Com a quebra da Bolsa, o país reduziu os em préstim os bancários para outras nações e suspendeu as im portações para proteger o m ercado interno. Assim , alastrava-se a pior crise econôm ica que o m undo veria na sua história. Um dos países m ais afetados foi a Alem anha, que ainda pagava as pesadas indenizações da Prim eira Grande Guerra, im postas pela Inglaterra e França. Além disso, sua situação agravou-se quando, em 1923, a França ocupou o vale do Ruhr, região alem ã rica em carvão e aço, por atraso no pagam ento das dívidas. A suspensão dos em préstim os bancários que a Alem anha recebia dos Estados Unidos fez com que o desem prego entrasse em curva ascendente no país. No auge da crise, em 1932 e 1933, o desem prego m undial alcançou pouco m ais que 20%, enquanto a Alem anha chegou a ter seis m ilhões de desem pregados — 40% da sua população, que dem onstrou sua insatisfação e seu desespero nas urnas eleitorais.

A República Dem ocrática Alem ã, que governava o país desde o final da Prim eira Grande Guerra, perdeu sua força. Cresceram as votações no Partido Nazista, de extrem a direita, fundado em 1920 por Adolf Hitler, que com batia a dem ocracia, o com unism o e, principalm ente, criava esperanças para um a população hum ilhada em razão das m edidas im postas pelas nações vencedoras da guerra. O Partido Nazista, que obteve seis m ilhões de votos nas eleições de 1930, ganhou prestígio. Em 1932, recebeu 14 m ilhões de votos; no ano seguinte, tornava-se o partido m ais forte, com 17 m ilhões de votos. Em j aneiro de 1933, Hitler foi eleito chanceler pelo Presidente Paul von Hindenburg; estavam abertas as portas para a ascensão definitiva do nazism o. Hitler consolidava seu poder enquanto as pesquisas da penicilina estacionavam , aguardando que o destino os unissem . O Presidente Roosevelt aplicava sua política de recuperação econôm ica nos Estados Unidos, o New Deal, e Hitler com eçava a sua na Alem anha de form a bem diferente. Suspendeu o pagam ento das dívidas da guerra, im pôs seu regim e de governo com a proibição de qualquer outro partido e a perseguição aos políticos que lhe eram contrários, assim com o à população que não pertencesse à "raça superior" alem ã. Os cofres do nazism o eram abastecidos com os recursos que não m ais se destinavam ao pagam ento das indenizações da guerra, assim com o com o dinheiro confiscado dos perseguidos políticos e j udeus e com o das em presas alem ãs, obrigadas a entregar seus lucros excedentes. A Alem anha nazista investia na construção de casas populares, sistem as de transporte, hospitais e, principalm ente, na indústria m ilitar. Em preendia seu fortalecim ento nessa área com a fabricação de tanques, aviões e barcos de guerra, todos cam uflados por terem sido proibidos pelos acordos do fim da Prim eira Grande Guerra. Com a recuperação industrial, o desem prego no país despencou para um m ilhão em 1937.

A Alem anha nazista tornava-se cada vez m ais insuportável para os perseguidos pelo regim e de Hitler. Muitas pessoas eram obrigadas a tentar a vida em outros países. Entre esses fugitivos encontravam -se Ernst Boris Chain, que transferiu sua atividade científica para a Universidade de Oxford, na Inglaterra, sob o com ando de Howard Walter Florey. Ao saber da existência das culturas dos fungos de Flem ing na universidade, e anim ado pelos novos estudos da década que dem onstravam o uso de substâncias adm inistradas na veia em pacientes com infecções, Chain se interessou pela pesquisa da penicilina. Apoiado e incentivado por Florey, com ele retom ou as pesquisas do potencial terapêutico da nova droga, conseguindo verba da Fundação Rockefeller. No m esm o ano em que Florey e Chain iniciaram seus trabalhos, Hitler invadiu a Polônia e deflagrou a Segunda Guerra Mundial.

Florey e Chain determ inaram a quantidade de penicilina produzida pelo fungo e o quanto seria necessário para a sua atividade. Purificaram a droga e conseguiram , por congelação, desenvolver o pó para diluição e adm inistração pela veia. Encontraram sua form a ativa na urina de cam undongos que a receberam pela veia, anim ando-os a possibilidade de sua distribuição por todos os fluidos do corpo. Inj etaram estreptococos em ratos e dem onstraram que a adm inistração da penicilina desse m odo curava as infecções causadas por essas bactérias. Os trabalhos de Florey e Chain foram publicados em agosto de 1940. Enquanto o m undo conhecia o poder da penicilina adm inistrada para o tratam ento de infecções, Hitler dava início aos ataques aéreos com o bom bardeio da cidade de Londres, que duraria quase um ano, m atando quarenta m il civis. Os prim eiros tratam entos à base de penicilina foram feitos em crianças, que necessitavam de quantidade m enor da droga, ainda indisponível em grande escala. Com os resultados anim adores apresentados pela penicilina e diante do grande núm ero de feridos na guerra, Florey e Chain iniciaram a produção de sua nova droga em m aior quantidade. Florey criou em Oxford um "departam ento de produção" — era a prim eira vez na História que um a universidade produzia um a substância em grande escala. Oxford se organizava para isso: os frascos do m eio de cultura eram fabricados para m elhorar a produção, nutrientes eram desenvolvidos para que o fungo produzisse m ais penicilina e pessoas se revezavam para o rolam ento (agitação) dos frascos. A necessidade de aum entar a produção da penicilina fez proliferarem as m inifábricas em Londres. As Indústrias Quím icas Im periais com eçaram a fabricá-la. Com os bom bardeios alem ães, os locais de produção da droga se espalharam pela cidade. A com panhia Kendall, um a das principais fabricantes, situava-se a leste de Londres, local de preferência dos ataques nazistas dada a presença de estaleiros e indústrias. Por sorte, a Kendall sobreviveu às bom bas alem ãs. A penicilina era produzida em quantidade suficiente para o tratam ento de civis e m ilitares feridos; o hom em conseguia reduzir a taxa de m ortalidade do conflito, diferentem ente do que ocorrera na Prim eira Grande Guerra. Os Estados Unidos com eçaram a produzir e em pregar a nova droga desde a apresentação dos trabalhos em Oxford. O prim eiro paciente tratado sistem aticam ente com a penicilina estava internado em Nova York. Em j ulho de 1941, Florey viaj ou aos Estados Unidos, aprofundando as relações científicas dos continentes. Mas essas relações sofreriam abalos com a entrada dos Estados Unidos na guerra em dezem bro de 1941; os estudos am ericanos para a fabricação da penicilina com eçaram a ser realizados sem o conhecim ento da Inglaterra. Os dois países passaram a desenvolver seus trabalhos em sigilo. Nos bastidores da guerra, eram feitas pesquisas em segredo absoluto. Em agosto de 1942, Roosevelt lançava o sigiloso Proj eto Manhattan, com físicos com andados por Oppenheim er, que, três anos depois, conseguiriam produzir a bom ba atôm ica do urânio 235. O bom bardeiro Enola Gay estrearia a nova arm a em Hiroshim a, no Japão, m atando 140 m il dos 350 m il habitantes da cidade. A penicilina tornava-se outro segredo da Segunda Guerra. Todos os cuidados, por parte da Inglaterra e dos Estados Unidos, eram tom ados para que am ostras do m ofo de Flem ing não caíssem nas m ãos dos nazistas. A descoberta da penicilina e, principalm ente, a sua utilização no tratam ento de infecções abriram horizontes para pesquisas de novas drogas. Surgia a sulfa. Em 1943, Selm an A. Waksm an descobriria a estreptom icina, prim eira substância eficiente no com bate à tuberculose. Os Estados Unidos conseguiriam , em dez anos, reduzir a m ortalidade causada por essa doença: de quarenta para nove em cada cem m il habitantes. Em 1949, a Parke-Davis produziu o prim eiro antibiótico sintetizado em laboratório, o cloranfenicol — era a vez de com bater a febre tifóide. As próxim as décadas vivenciaram a inundação de novos antibióticos no m ercado m undial.

Continuar: parte 2 de 3