A História e Suas Epidemias

Stefan Cunha Ujvari · Capítulo 6 de 7 · parte 1/4

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A História e Suas Epidemias

Capítulo 4

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.

Epidemias no Século das Máquinas

Na segunda m etade do século XVIII, aceleraram -se na Inglaterra as transform ações sociais que ocasionariam a m igração dos trabalhadores do cam po para as cidades. Os principais centros ingleses recebiam trabalhadores assalariados para suas fábricas, que se m ultiplicavam . A Europa cam inhava para a form ação de cidades industriais típicas do século XIX. Aprim oram entos m ecânicos levaram ao surgim ento da m áquina a vapor, introduzida na Inglaterra pelo escocês Jam es Watt em 1760. Com ela, as fábricas não precisavam m ais ser construídas próxim o ao leito dos rios para valer-se da energia fluvial, passando a instalar-se em localidades m ais côm odas e de fácil acesso. A partir da década de 1780, em barcações a vapor tornaram m ais curtas as distâncias entre as diversas regiões. O produto industrial chegava com m ais facilidade e rapidez a seu destino final de consum o, assim com o a m atéria-prim a para a indústria.

A lenha foi substituída pelo carvão, abundante na Inglaterra, para o aquecim ento de m etal líquido. Várias descobertas perm itiram econom ia de com bustível e m elhorias na qualidade do ferro produzido e nos artigos fabricados com esse m etal. Enquanto o núm ero de fábricas crescia, um a rede de ferrovias se entrelaçava nos territórios britânicos, a princípio servindo ao transporte de cargas de m inas, pedreiras, olarias e outros estabelecim entos industriais. Em 1804, em pregava-se o vapor no transporte ferroviário, iniciando-se um a era em que as locom otivas com andariam a m ultiplicação de ferrovias, beneficiando inclusive o transporte de passageiros.

Já na prim eira década do século XIX, era inaugurada em Manchester a prim eira fábrica com ilum inação a gás, inovação rapidam ente adotada nas oficinas algodoeiras. A indústria do algodão em pregava quase cem m il operários e perto de duzentas m il tecedoras m anuais. O com ércio britânico triplicara, detendo um quarto do com ércio m undial; em Londres, havia m ais de cinqüenta bancos privados. A Inglaterra prosperava, Londres com eçava a ter suas ruas ilum inadas a gás em 1807. Na prim eira m etade do século XIX, o país produzia m ais da m etade do carvão e do ferro utilizados na Europa. As fábricas foram responsáveis pela introdução de um a série de transform ações sociais no continente europeu, principalm ente na Inglaterra, que influenciaram na ocorrência das doenças infecciosas do século XIX. A população urbana no início daquele século aum entou exponencialm ente, e aglom erados hum anos com eçaram a aparecer nas localidades em que os centros industriais floresciam , nas proxim idades das fábricas. Entre 1801 e 1840, a população de Londres passou de cerca de um m ilhão para quase dois m ilhões de habitantes. Em m assa, ela m igrou do cam po para as cidades em busca de em prego nas fábricas em ergentes. Com o decorrência dessas alterações, a qualidade de vida e, sobretudo, as condições de saúde sofreram um a queda assustadora, contribuindo m uito para o alastram ento das doenças infecciosas e aum entando as taxas de m ortalidade.

A população em pobreceu ao se transferir para os centros industriais. Os trabalhadores eram explorados ao m áxim o, cum prindo longas j ornadas de trabalho, de m ais de 12 horas. As m ulheres e crianças eram em pregadas em grande núm ero, um a vez que recebiam salários m enores que os dos hom ens, o que gerava lucro para os donos de fábricas à custa da degradação social. Os operários subm etiam -se a trabalho físico extrem o. Não havia alternativa de lazer para as fam ílias, exceto a das cervej arias e bares, que se m ultiplicavam para atender os trabalhadores em seus raros m om entos de folga. A população operária das cidades industriais inglesas, cada vez m ais em pobrecida pelos baixos salários diante das despesas de habitação e alim entação, sofria represálias do governo britânico quando se m anifestava publicam ente. Toda a m assa dos habitantes perm anecia insatisfeita com sua qualidade de vida nas cidades industriais, agravada com o térm ino das guerras napoleônicas em 1815, que desativou a indústria de arm am entos e uniform es. As im portações de trigo do continente aum entaram graças ao preço m ais baixo, m as o governo britânico aprovou a Lei dos Cereais, que lim itava a im portação desse bem de consum o.

Suprim iam -se da população benefícios que ela conquistava, e suas m anifestações eram rapidam ente reprim idas pelo sistem a j udiciário rigoroso da Inglaterra. Em 1819, a cavalaria m assacrou um a m anifestação pelo sufrágio universal em Manchester, deixando 11 m ortos e seiscentos feridos. A Justiça estipulava penas rigorosas para diversos crim es. A pena de m orte era com um , sendo utilizada até com o punição para determ inados delitos com etidos por crianças. A população se aglom erava ao redor do patíbulo das cidades em dias de espetáculo proporcionado pelo enforcam ento de crim inosos. Com a Independência dos Estados Unidos da Am érica, os crim inosos passaram a ser deportados para a Austrália, que os recebeu pela prim eira vez em 1788 em um a arm ada de 11 navios — era o início do estabelecim ento dos ingleses naquela ilha. No ano seguinte, os europeus que chegaram ao porto Arthur (atual Sy dney ) levaram com eles o vírus da varíola, que causou a m orte de quase m etade dos aborígines que habitavam a parte oriental da Austrália e que haviam tido contato com o porto inglês. A epidem ia alastrou-se pelo interior da ilha. As condições de m oradia na Europa industrial foram determ inantes para o surgim ento de doenças infecciosas. Recebendo baixos salários e diante dos altos preços do aluguel, as fam ílias tinham que m orar em locais condizentes com o que podiam pagar, em condições insalubres. As m oradias próxim as das fábricas foram construídas de m aneira desorganizada, tendo em vista apenas a rapidez para lucro posterior com os aluguéis.

As fam ílias aglom eraram -se em regiões pobres, delim itando-se os bairros dessa condição social. As m oradias eram verdadeiros cortiços m iseráveis, sem sistem a de esgoto ou rem oção de lixo. Muitas casas não tinham latrina. Em Manchester, havia duas latrinas para cada 250 pessoas, e em Ashton esse m esm o núm ero

atendia cada cinqüenta fam ílias.{37} Nos quintais, havia um a tina, o "urinol", em que se colocavam os dej etos hum anos para ser esvaziado pela m anhã. A im undície que se form ava nas proxim idades das tinas favorecia significativam ente a transm issão de doenças, que tam bém se dava por m eio dos calçados, que as levavam para dentro dos côm odos. As casas eram entrecortadas por vielas e ruelas im undas — sem pavim entação e com esgoto a céu aberto —, ao longo das quais se acum ulavam entulhos de lixo e dej etos. Nessas m oradias, m uitas vezes as fam ílias se aglom eravam por quarto, e todos os aposentos, incluindo porões e sótãos, eram aproveitados ao m áxim o para com pensar os aluguéis caros. Em Manchester, foram registrados 1.500 porões, nos quais dorm iam três pessoas por cam a; 738 porões com quatro pessoas por

cam a; e 281 com cinco pessoas por cam a.{38} Na m esm a época, em Liverpool, quarenta m il pessoas dorm iam em porões. A m edida que a industrialização se desenvolvia, essa situação não se m ostrava diferente nos dem ais países do continente europeu. Tais condições de vida propiciavam o surgim ento de epidem ias causadas por doenças contagiosas, que eram transm itidas com facilidade de pessoa para pessoa em razão das aglom erações. A tuberculose, existente desde a Antigüidade, encontrou assim m eios ideais para dissem inar-se, e o século XIX seria m arcado pelo auge dessa infecção. Os exam es realizados em m úm ias egípcias revelam grande quantidade de indícios de acom etim ento ósseo pela tuberculose; esses achados são raros nas ossadas européias, apontando-se com o o berço da tuberculose o Egito, lugar onde pode ter-se originado e dali se propagado. Ossos apresentando alterações com patíveis com a tuberculose foram datados de dois m il anos antes de Cristo, e em um a m úm ia descoberta em 1891 em cem itério próxim o a Tebas revelaram -se os m aiores indícios da existência da doença na Antigüidade. Exam inada em 1910, a m úm ia evidenciava alterações em suas vértebras lom bares e torácicas com patíveis com a tuberculose, o que se confirm ou em exam es ao m icroscópio. Apesar de a tuberculose existir desde m ilênios antes da era cristã, som ente no século XIX surgiram condições sociais para que se desse a sua m aior epidem ia. Nos aglom erados industriais da época, os doentes com tuberculose pulm onar apresentavam em agrecim ento progressivo, tosse seca e febre diária. O quadro progredia para enfraquecim ento crônico, e o acom entim ento dos pulm ões estendia-se por dias e m eses. Durante todo esse tem po, o enferm o elim inava, pela tosse, o bacilo da tuberculose nos côm odos das casas sem ilum inação e ventilação, úm idas e com excesso de m oradores, o que facilitava a dissem inação da doença. As pessoas depauperadas pelas longas j ornadas de trabalho e pela m iséria não apresentavam defesa adequada contra a infecção, ficando tuberculosas com facilidade. O século XIX foi o século da tuberculose em razão da urbanização industrial, a que se aliaram condições hum anas para que a doença surgisse e m eios propícios à sua transm issão. As infecções transm itidas de pessoa para pessoa, com o contato próxim o pela tosse, encontraram terreno fértil para propagar-se. Surtos de saram po e varíola dissem inavam -se com facilidade pelos m oradores desses porões e cortiços, sendo as crianças as m ais atingidas. A doença avançava de m oradia para m oradia, de rua para rua e de bairro para bairro. As crianças eram acom etidas por infecções de garganta responsáveis pela escarlatina e difteria. Sendo altam ente contagiosas, essas doenças eram transm itidas nos côm odos e logo se espalhavam pelos bairros pobres.

A difteria m uitas vezes evolui com placas purulentas na garganta, que progridem para dificuldade de respiração por obstrução. Freqüentem ente, com prom ete a função do coração e o sistem a nervoso. Por toda essa com plicação, não é de adm irar o elevado núm ero de m ortes entre as crianças pela difteria aliada à escarlatina. A Europa viveu epidem ias repetidas desses dois m ales, responsáveis por grande parte da m ortalidade infantil ao longo do século XIX. Após 1830, a escarlatina com portou-se de form a m ais virulenta que nos nossos tem pos, ocasionando elevada m ortalidade nos períodos de epidem ia. As infestações de piolhos nos côm odos insalubres eram causadoras das epidem ias de tifo nos bairros pobres. Em Manchester, logo no início de sua transform ação em um dos prim eiros centros industriais, foi docum entada, na segunda m etade do século XVIII, um a série de doenças febris nas com unidades pobres, e em 1795 a população viveu o auge do pânico. Naquele ano, os bairros pobres da cidade enfrentaram um a epidem ia de tifo que precipitou a form ação de um conselho de saúde, na tentativa de solucionar o problem a; porém , m uitas vidas foram levadas em conseqüência da proliferação de piolhos nos cortiços. A ausência de esgoto e a facilidade com que os m oradores entravam em contato com o m aterial fecal despej ado nas vielas, ruelas e nas tinas de "urinol" dos quintais eram responsáveis pela dissem inação das bactérias que ocasionam as diarréias. Os pobres conviviam com a Escherichia coli, a Shigella e a tem ida Salmonella thipy, causadora da febre tifóide. O fato de um a pessoa apresentar diarréia significava o surto de um a epidem ia entre todos os m oradores. As epidem ias de tifo, difteria, saram po, varíola e diarréias foram constantes no século XIX dada a condição específica da urbanização industrial. Em Manchester, de cada cem crianças apenas 35 a quarenta chegavam aos cinco anos de idade.

 

UMA DOENÇA Q UEVEIO DA ÍNDIA

Quando um paciente portador da diarréia causada pela cólera fazia viagens longas e dem oradas, m uitas vezes se recuperava no percurso ou m orria. Com o a doença se m anifesta depressa e a evolução para cura ou óbito é rápida, esses deslocam entos por terra ou por em barcação acabavam por não levar a epidem ia a localidades distantes. A industrialização européia dim inuiu distâncias pelo m undo graças à m áquina a vapor, que revolucionou os m eios de transporte. As estradas de ferro espalharam -se pela Inglaterra e depois pelo continente, e as locom otivas aceleraram a velocidade com que os doentes chegavam a lugares longínquos. Com o o vapor tam bém com eçou a ser usado na navegação, os ventos j á não determ inavam a velocidade com que se cum pria o traj eto, e passou-se a ter data certa para chegar.

Dessa form a, os doentes entravam nos locais de destino portando agentes infecciosos com períodos de incubação e evolução curtos e, portanto, dissem inando epidem ias de cólera. Essa doença é caracterizada por diarréia severa (a diarréia m ais intensa de todas as infecções), que leva o paciente à desidratação, com queda da pressão, parada de funcionam ento dos rins e, geralm ente, quando não subm etido a tratam ento de suporte, ao óbito. A bactéria causadora da cólera é elim inada nas fezes ou nos vôm itos dos doentes. Com o a diarréia é intensa, ocorre um grande núm ero de evacuações líquidas por dia, e pode-se im aginar com o um caso nos aglom erados urbanos da Europa ocasionaria a epidem ia.

O berço da cólera é considerado até hoj e o delta do rio Ganges, na Índia, região de origem das pandem ias vividas nos séculos XIX e XX. A prim eira pandem ia iniciou-se em 1817 com o aum ento do núm ero de casos na região, atingindo a cidade de Calcutá, que era a capital do dom ínio britânico na índia. Por m eio das navegações à Asia, que se realizavam com rapidez graças ao vapor, a doença alastrou-se na China e Oceania, seguindo pelos m ares até alcançar Java, Filipinas e Japão. As rotas com erciais terrestres, assim com o os deslocam entos dos exércitos britânicos ao norte da índia, propiciaram a dissem inação da doença pelo Golfo Pérsico, em 1821, e pela Ásia Menor, até que chegasse ao Egito em 1823. O inverno rigoroso que a Europa viveu naquele ano interrom peu o avanço da cólera na fronteira da Ásia, retardando para a Europa industrial o conhecim ento de sua prim eira catástrofe no século XIX. Em 1826, novam ente o delta do rio Ganges forneceria um a quantidade exorbitante de casos de cólera para o m undo. Dessa vez, a doença avançou para o oeste, em direção à Europa. Nas rotas com erciais e de deslocam ento de populações e exércitos, encontravam -se enferm os que levavam a doença adiante e, passo a passo, em direção às cidades européias industriais. As tropas m ilitares russas de Nicolau I e o exército do Im pério Turco travavam batalhas nas proxim idades de Constantinopla por disputas territoriais. Iniciada em 1828, a guerra entre esses im périos resultou na anexação de territórios ao Im pério Russo em expansão. Assim , terras nos Bálcãs e entre os m ares Cáspio e Negro, com o a Arm ênia e parte da Geórgia, passaram a pertencer aos russos. Com o acordo de paz, perm aneceram transitando por essas regiões as tropas m ilitares de am bos os im périos, que policiavam suas fronteiras. Foi a esses acam pam entos m ilitares que a cólera chegou, e neles encontrou condições favoráveis à sua dissem inação. Os soldados russos percorriam longas distâncias nos deslocam entos de tropas. Um a vez que nos acam pam entos m ilitares não havia sistem a de esgoto, a elim inação do bacilo era feita diretam ente na natureza, provocando a conseqüente contam inação dos alim entos e da água. Tropas levaram a cólera para Moscou em 1830 e soldados infectados e doentes a transportaram para o leste europeu. A doença chegou à Polônia, Alem anha e Hungria em 1831. Na Hungria, os europeus conheceram pela prim eira vez o potencial destruidor daquele m al: dos 250 m il acom etidos, cem m il m orreram . As cidades litorâneas no m ar Báltico serviram de tram polim para a cólera alcançar o Reino Unido e, a partir daí, a Am érica.

Um grande aliado que a cólera encontrou em seu processo de dissem inação foi a cidade de Meca. Em 1831, a doença atingia as im ediações daquele centro, contam inando peregrinos m uçulm anos de diversas localidades. Em suas barracas em Meca ocorreram três m il m ortes naquele ano. Ao retornarem para as regiões de origem , os peregrinos levaram a cólera em várias direções. Os que voltaram a Alexandria a propagaram no norte da África. Nos prim eiros dias da epidem ia nas cidades do Cairo e de Alexandria, m orreram trinta m il pessoas. A Síria e à Palestina chegaram peregrinos infectados que introduziram a doença nessas regiões. Aqueles que regressaram a Istam bul fizeram com que a cólera entrasse na Europa partindo da Hungria e dos Bálcãs. Dessa vez, dificilm ente a Inglaterra e os dem ais países europeus escapariam à doença.

A CÓLERA SE ALASTRA

 

No m ês de outubro de 1831 a cidade portuária inglesa de Sunderland recebeu um a em barcação procedente do porto de Ham burgo com pessoas que portavam a bactéria da cólera. Im ediatam ente se registraram na cidade casos da doença, que depois se propagou pelo país. Passo a passo, a cólera chegou aos principais centros industriais e acom eteu os m oradores nos cortiços. Estim a-se que m ais de trinta m il pessoas tenham m orrido no Reino Unido durante a epidem ia. Na Inglaterra e no País de Gales, ocorreram 21 m il m ortes; na Escócia, quase dez m il. Londres perdeu pouco m ais de cinco m il habitantes; na m aioria dos casos, pessoas pobres, até m esm o m iseráveis, que viviam em precárias condições habitacionais, com o descrito anteriorm ente.

Em razão do pânico da população, vários m édicos foram acusados das m ortes. Espalhou-se pelo país o boato de que eles assassinavam os doentes para pôr em prática técnicas de dissecação de cadáver e aprim orar seus conhecim entos de anatom ia. Navios ingleses levaram a cólera para os portos da Espanha e de Portugal. No ano da chegada da doença à Inglaterra, 1831, Charles Darwin escapava da m orte ao viaj ar com o naturalista na em barcação Beagle. Aos 22 anos, ele partia para a Am érica do Sul, onde, estudando a flora e a fauna das ilhas Galápagos, form ularia sua teoria da evolução. A cólera atingiu Paris em 1832. As cidades preparavam -se para conter o avanço da doença em pregando a quarentena. No início, guardas proibiam a entrada de estrangeiros nos portões das cidades, m as as vias que perm itiam a contam inação pelo bacilo eram insuperáveis. Com a instalação definitiva da epidem ia, essas m edidas foram abandonadas. Os m édicos ficaram perdidos diante de um a doença nunca vista antes. Seu desconhecim ento refletia-se nas tentativas desesperadas de tratam entos com gelo, bebidas geladas, enem as, sangrias, vapores quentes e até m esm o drogas diarréicas. Paris encontrava-se na m esm a situação que as cidades inglesas, com trabalhadores habitando côm odos insalubres, sem sistem a de esgoto, sem latrinas. A água utilizada no abastecim ento era proveniente do rio contam inado pelos dej etos hum anos. As fam ílias bebiam essa água e a utilizavam para lavagens e na cozinha. Foi nas festividades do carnaval parisiense de 1832 que com eçaram a aparecer os prim eiros doentes com cólera. A população alarm ada fugiu em m assa da cidade, na tentativa de livrar-se da doença. Cerca de 120 m il pessoas abandonaram Paris. A cólera castigou a capital francesa, sem piedade dos pobres: m atou 34 m il parisienses, 4% dos habitantes, quase todos dos bairros sim ples, nas proxim idades dos m ercados centrais e do Hotel deVille. A epidem ia fazia aflorar as diferenças sociais num a sociedade m arcada pela exploração excessiva e pelo desgaste do ser hum ano, que foram o gatilho para m anifestações de rebeldia. O desespero dos pobres os m obilizou contra as classes sociais altas, logo suspeitas de ter envenenado o sistem a de abastecim ento de água dos trabalhadores. Assim , iniciou-se em j unho daquele ano um a série de rebeliões nas ruas de Paris contra as classes altas. A França perdeu cem m il habitantes na epidem ia.

A Irlanda foi duram ente acom etida. Com sua população vivendo em condições de pobreza e sendo visitada constantem ente pela fom e, registrou a m orte de 25 m il habitantes. Em 1832, irlandeses em pobrecidos, esfom eados e vitim ados pela cólera resolveram tentar a sorte em igrando para as cidades am ericanas. As autoridades do Canadá desesperavam -se com a possibilidade da chegada da doença. As em barcações procedentes da Irlanda eram obrigadas a se m anter a trinta m ilhas da cidade de Quebec. Ao atingirem o rio São Lourenço, os navios perm aneciam em quarentena na ilha Grosse. Os canadenses entraram em pânico no inicio de j unho quando chegou a brigada Carricks, proveniente da Irlanda, que havia perdido 45 de seus tripulantes por cólera. A quarentena foi instalada, os doentes aloj ados em hospitais especiais. Mas passageiros sadios carregando o bacilo ou doentes sem sintom as, ainda no período de incubação, furaram o bloqueio. Quatro dias depois, chegava o navio Voy ageur, diretam ente a Quebec, sem parada na ilha da quarentena — e, com ele, o bacilo. Quebec com eçava a ver seus prim eiros doentes. Em um a sem ana foram 250 pacientes com cólera, com 161 enterros no cem itério especial reservado para esses casos, o Cham ps des Morts. O Voy ageur dirigiu-se para Montreal, levando a m orte para oitocentas pessoas nas prim eiras duas sem anas e precipitando a epidem ia que m atou 1.800.

Um a vez no solo am ericano, a doença seguiu pelas vias de com unicação hum ana. As fugas de Nova York com eçaram tão logo chegaram as notícias da cólera. No início de j ulho, m orriam 45 pessoas por dia. Dez dias depois, j á m orriam cem pessoas por dia. O governo decretava um a lista de obrigações para a população cum prir com o obj etivo de evitar a doença. Rebeliões ocorreram entre os pobres, m ais acom etidos, contra m em bros do governo e m édicos. Carroças transportavam um núm ero incontável de m ortos diariam ente, m ais da m etade deles enterrada com o indigente. A cólera rum ou para as principais cidades am ericanas, com o Filadélfia e Boston. Atingiu o sul dos Estados Unidos e tam bém a Am érica Central, com oito m il m ortos em Cuba e 15 m il no México. A Europa e a Am érica entravam em contato com um a doença totalm ente nova, nunca antes vista, e seu tem or aum entava por não lhe conhecerem a causa.

UMA EXPLICAÇÃO

 

Enquanto a cólera assolava o território britânico, o Parlam ento fazia a reform a eleitoral em 1832, aum entando o núm ero de deputados representantes dos centros industriais. Em 1834, criava-se a nova Lei dos Pobres, que retirava do governo a obrigação de subsidiar os m iseráveis que habitavam as paróquias; estes eram levados às casas de trabalho e obrigados a aceitar as tarefas oferecidas em troca de salários que pioravam sua qualidade de vida. Com a reform a no Parlam ento inglês, provavelm ente decorrente dos transtornos sociais causados, em parte, pela epidem ia da cólera, foi indicado Edwin Chadwick para participar da com issão de avaliação da antiga Lei dos Pobres, que se ocupava dos problem as dos m iseráveis. Chadwick foi o responsável pela elaboração da nova Lei dos Pobres, m as sua contribuição im portante veio em 1839, ao com andar em Londres um inquérito que posteriorm ente se estendeu para todo o país, vindo a ser publicado em 1842. Esse trabalho, que levantava as condições sanitárias das cidades inglesas, evidenciou a íntim a relação entre a incidência de doenças infecciosas nas fam ílias e a falta de higiene e a im undície. Aos olhos de hoj e, é óbvio que determ inadas infecções se dissem inam por am bientes insalubres, m as nos m eados do século XIX a relação de causa e efeito parecia m uito m ais sim plista. O inquérito reforçou, e praticam ente firm ou, a hipótese de esses locais insalubres, suj os e sem higiene serem os responsáveis pelo aparecim ento de epidem ias — era a teoria dos m iasm as. Desse relatório nasceram os princípios da reform a sanitária das décadas seguintes, que foram estendidos para outros países da Europa e Am érica. Pela teoria dos m iasm as, os locais im undos contendo dej etos e lixo orgânico em decom posição em anavam substâncias invisíveis, m as nocivas e causadoras das doenças infecciosas e epidem ias, im pregnando o ar. Portanto, contraía-se a infecção ao respirar o ar que continha tais substâncias m iasm áticas, e não pelo contágio de pessoa para pessoa. A teoria j á era antiga, haj a vista que se supunha que a m alária provinha do m au cheiro dos pântanos. Os m iasm as, porém , ganharam m ais im portância no século XIX. Iniciou-se um proj eto de com bate rigoroso à im undície das cidades que incluía m edidas para lim peza das ruas, drenagem de alagam entos, suprim ento de água lim pa, sistem a de esgotos. Levou tem po, entretanto, até que essas ações fossem im plantadas, um a vez que necessitavam de aprovações parlam entares.

Hoj e se tem conhecim ento de que as m edidas propostas para fazer frente a doenças infecciosas partiram de teorias erradas, os m iasm as, porém , na prática, surtiram algum efeito benéfico em relação a determ inadas doenças, que deixaram de ser transm itidas a partir de então. Para os responsáveis pela saúde no século XIX, foi difícil entender a com plexidade das infecções. Elas form avam um quebra-cabeça que foi sendo resolvido peça por peça ao longo do século XX, até que, finalm ente, se desse a descoberta dos m icroorganism os. Enquanto a teoria dos m iasm as dom inava a m entalidade européia, cresciam os indícios da outra form a de aquisição das infecções, o contágio, um a teoria que se opunha à prim eira. O contágio acarretaria a dissem inação das infecções por m eio do contato direto de pessoa para pessoa, ou por m eio de obj etos contam inados pelo doente. Apesar de essa tese ser a correta, os m iasm as dom inavam o terreno científico. Seriam necessárias seguidas descobertas futuras para que essa teoria fosse ganhando terreno até, finalm ente, ter a sua consagração com a identificação dos agentes causadores das infecções, os germ es.

Alguns estudos sugeriam a hipótese de agentes vivos causarem doenças infecciosas, m as eram trabalhos isolados que não produziam im pacto no m eio científico. Em 1834, o italiano Agostino Bassi apresentava sua teoria da infecção no bicho-da-seda. Tratava-se de um a praga que causava a m orte desse inseto, prej udicando a indústria de seda da Lom bardia. Bassi a estudou e dem onstrou que era originada de um fungo. Assim , determ inava a hipótese de infecção por m icro-organism o. Apesar de isso ser óbvio nos dias atuais, a consideração de Bassi não ganhou dim ensões m aiores à época. Em 1837, o francês Cagniard-Latour estudou a ferm entação da cervej a, fornecendo um a contribuição im portante para as teorias do contágio, em bora não tivesse essa intenção. Os cervej eiros colocavam o ferm ento, lêvedo de cervej a, na calda da cevada, e dessa form a o líquido ferm entava e espum ava, transform ando o açúcar em álcool — assim , obtinha-se a cervej a. O lêvedo que sobrava desse procedim ento era m uito m ais volum oso que o acrescentado no início do processo. Ao estudar esse fenôm eno ao m icroscópio, Cagniard-Latour dem onstrou que o lêvedo não era sim plesm ente um pó inerte, m as corpúscu- los capazes de se reproduzir; tratava-se de seres vivos. Faltaram estudos convincentes para que a teoria fosse aceita.

Em 1840 apareceu em Berlim um a publicação de Jacob Henle, professor de anatom ia em Zurique, que, por m eio de revisões feitas em descobertas alheias, form ulou a teoria de as infecções serem causadas por agentes vivos, ainda não descobertos pelos m icroscópios im precisos. Esses agentes penetrariam no indivíduo e se reproduziriam , sendo, portanto, seres vivos os causadores de doenças. Os trabalhos de Cagniard-Latour, Bassi e Henle estim ularam a pesquisa nessa direção, em bora ainda se estivesse sob a suprem acia da teoria dos m ias-m as. Essas idéias influenciariam nos trabalhos futuros de um de seus alunos, Robert Koch.

 

Os CAMINHOS DEUMA DESCOBERTA

 

UMA FEBRE MORTAL

 

Enquanto as descobertas e pesquisas surgiam em localidades diversas, os hospitais viviam um problem a sério e antigo, a febre puerperal. Hoj e se sabe que, após o parto, o útero em fase de cicatrização torna-se suscetível a infecções bacterianas, m otivo pelo qual os partos são feitos com m edidas de assepsia, com o em um a cirurgia qualquer. Um a vez tendo acesso ao útero cruento, as bactérias proliferam , causando a infecção, e freqüentem ente se dissem inam pelo organism o, levando à m orte. A infecção inicia-se com febre alta, queda na pressão, delírio, até causar a insuficiência dos órgãos vitais e o óbito.

Em m eados do século XIX, quando ainda não se tinha conhecim ento da existência dos m icroorganism os, os partos eram feitos sem nenhum procedim ento de assepsia. A febre puerperal se dava pela utilização de instrum entos e roupas contam inados e pela própria m anipulação realizada pelos m édicos, m otivo pelo qual a incidência da doença aum entou quando estes com eçaram a realizar os partos, que até então eram um a atribuição das parteiras. Um a vez que se dedicavam apenas ao parto dom iciliar, as parteiras não se contam inavam com agentes infecciosos no am biente hospitalar. Mesm o naquela época, a doença predom inava nos partos em hospitais; os que ocorriam em casa raram ente levavam a essa evolução fatal. Em m édia, m orria um a em cada dez m ulheres que tinham o parto hospitalar. Com freqüência, os m édicos transm itiam , por suas m ãos, as bactérias para as outras parturientes, ocasionando surtos de epidem ias hospitalares que m atavam quase todas as pacientes em determ inados períodos.

Em 1846, o m édico húngaro Ignaz Philipp Sem m elweis foi aceito com o assistente no Hospital Geral de Viena para trabalhar na m aternidade do professor Johan Klin — um a das duas m aternidades, a outra era a do professor Bartch. Num de seus plantões, Sem m elweis surpreendeu-se com o pânico de um a gestante que se recusava a internar-se na m aternidade do professor Klin, suplicando para ser transferida para a do professor Bartch. Sem m elweis tom ou conhecim ento então da crença dos habitantes de Viena de que ir para essa enferm aria seria o cam inho para a m orte pela febre puerperal. Em m aio de 1846, Sem m elweis deparou-se com a assustadora taxa de m ortalidade — 96% — relativa às m ulheres que haviam se internado na enferm aria. Com o a doença ocorria apenas nos partos realizados no hospital, ele acreditou que havia algum fator dentro dos lim ites dessa instalação que ocasionava a febre. A clínica do professor Bartch apresentava taxa de m ortalidade quatro vezes m enor que a de Sem m elweis. Tais dados o levaram a crer que algo peculiar na sua enferm aria precipitava a infecção. Com eçou então a adotar um a série de m edidas baseando-se nas diferenças em relação a outra clínica. Ele chegou até a alterar o percurso que o padre realizava na visita às parturientes e a m udar a posição das m ulheres na hora do parto, de m odo que coincidisse com a posição em que ficavam na clínica do professor Bartch. Nenhum a das m edidas im plem entadas surtiu efeito. Sem m elweis continuou a levantar todos os fatores que pudessem se relacionar com as diferenças existentes entre as enferm arias. A única divergência m arcante que encontrou dizia respeito ao profissional que exam inava as parturientes. Enquanto na enferm aria do professor Klin eram os estudantes de m edicina que as exam inavam , na do professor Bartch eram as parteiras. Sem m elweis relacionou a doença aos alunos, assim os afastou e obteve resultado na dim inuição das taxas de infecção puerperal. Mas ainda não foi capaz de esclarecer a causa da doença. Ele som ente conseguiu associar a causa quando atentou para o que se passava com seu colega Kolletschaka, professor de m edicina legal, que se ferira com o bisturi ao realizar um a necropsia. O ferim ento progredia, debilitando a saúde do professor, que definhou a olhos vistos até apresentar um a infecção dissem inada, com sintom as e sinais idênticos aos da febre puerperal, e m orrer. Sem m elweis constatou que a causa da m orte de seu colega era a m esm a da febre puerperal, um a vez que apresentação clínica era idêntica, assim com o os sinais e sintom as. Mas a causa da m orte do m édico legista era atribuída ao ferim ento pelo bisturi usado nos cadáveres. Finalm ente, Sem m elweis identificava um agente proveniente do m aterial cadavérico, que era introduzido no corpo hum ano e ocasionava a doença. Faltava fazer a ligação dos cadáveres com as puérperas, e o elo veio com os estudantes de m edicina. Na enferm aria obstétrica de Sem m elweis, os alunos punham em prática as aulas dadas por ele, o que não acontecia na outra clínica, dedicada às parteiras. E m ais, antes de iniciaram suas atividades na enferm aria, os alunos dissecavam cadáveres na aula de anatom ia. Após a dissecção, eles lavavam as m ãos com água, enxugavam -nas em toalhas suj as e seguiam para o exam e das parturientes, levando-lhes provavelm ente a substância causadora da doença. Se a teoria de Sem m elweis estivesse certa, a lavagem rigorosa das m ãos dos alunos com produtos quím icos poderia destruir a substância cadavérica. Assim , em m aio de 1847, ele com eçou a usar o cloro para elim iná-la. Os alunos e professores eram obrigados a m ergulhar as m ãos num a bacia contendo água e cloro, esfregando-as com a areia depositada no fundo, para, aí sim , lavá-las com água e sabão antes do exam e das parturientes. Com esses m étodos, a febre puerperal, que atingia 12% das pacientes, caiu para cerca de 1,2% em dois m eses.

Logo após a adoção desse procedim ento, ocorreu um surto de febre puerperal nas pacientes de um a m esm a fileira de cam as. O acontecim ento fez Sem m elweis notar que a prim eira m ulher exam inada j á tinha a doença e que, na verdade, os alunos haviam levado a febre às parturientes exam inadas depois dela. Esse fato m ostrava ao m édico que o agente não era apenas cadavérico; podia vir da própria secreção da paciente. Portanto, não seria suficiente que fizessem a lim peza das m ãos apenas antes de entrarem na enferm aria, deveriam repeti-la sem pre que fossem exam inar a próxim a gestante. Pouco a pouco, o m ecanism o de transm issão era esclarecido e, extraordinariam ente, apenas por observações clínicas.

Se hoj e as explicações e conclusões de Sem m elweis parecem óbvias, não era essa a im pressão que causavam aos m édicos da época. O diretor do hospital não aceitava as m edidas defendidas por ele e não concordava com suas teorias, assim com o vários m édicos im portantes. Sem m elweis não obteve êxito em im por sua descoberta aos acadêm icos. Suas m edidas não foram aceitas durante anos, até que em 1850 ele retornou à Hungria, onde m orreu no esquecim ento e no anonim ato em 1865. O trabalho de Sem m elweis, apesar de perfeito quanto à elaboração, coleta de dados, interpretação de resultados e conclusão, foi realizado cedo dem ais para a história das doenças infecciosas — num tem po em que a teoria dos m iasm as era m uito forte no m eio m édico. Enquanto Sem m elweis iniciava suas observações na enferm aria em 1846, com eçava a m uitos quilôm etros dali, nas ilhas Faroe, um a epidem ia de saram po. Nesse arquipélago form ado por 17 ilhas, os habitantes ficavam isolados das doenças do continente europeu. O últim o caso de saram po havia ocorrido 65 anos antes, por isso quase toda a sua população era suscetível à doença. Sua falta de im unidade tornava possível a ocorrência de um a epidem ia violenta. No final de m arço de 1846, um carpinteiro que fora visitar am igos em Copenhague retornava às ilhas levando com ele o vírus do saram po. A doença espalhou-se no arquipélago: dos quase oito m il habitantes, m ais de seis m il adoeceram nos prim eiros seis m eses.

O governo dinam arquês enviou às ilhas Peter Ludwig Panum , recém -form ado em m edicina, para estudar a epidem ia. Com o a doença eclodiu num local isolado, seria a oportunidade de ouro para que se pesquisasse o processo de propagação — o que Panum fez visitando as 52 vilas acom etidas. Dessa tarefa nasceu todo o conhecim ento que se acum ulou sobre o saram po ao longo do século XX. Valendo-se apenas da observação, Panum verificou que a transm issão ocorria diretam ente de pessoa para pessoa, determ inou o período de incubação, com provou a presença de im unidade após a doença e observou que a transm issão se dava m ais intensam ente no período do aparecim ento das lesões cutâneas e que deixava de ocorrer na fase de descam ação da pele. Constatando que 98 idosos não ficaram doentes porque haviam sido acom etidos na últim a ocorrência do saram po na ilha, que se dera 65 anos antes, concluiu que a doença transm itia um a proteção perpétua, isto é, que só era adquirida um a vez. Enfim , docum entou o contágio da doença e o m odo de controlá-la por m eio do isolam ento dos pacientes. Ficavam cada vez m ais evidentes as form as de transm issão das doenças pelo contágio direto de pessoa para pessoa; entretanto, perm anecia a relutância em se aceitar essa teoria. A tese dos m iasm as ainda triunfava.

 

O CONTÁG IO

As condições precárias de saúde na Inglaterra agravaram -se na década de 1840, em parte pela grande im igração de irlandeses refugiados que recebeu. As intervenções da Inglaterra na Irlanda com eçaram em 1605 quando o Rei Jaim e I instalou na ilha colonos protestantes; passando por 1649, quando Crom well reprim iu os irlandeses, alegando um a rebelião dos católicos. Naquela época, padres e m onges foram perseguidos e as terras católicas do norte, confiscadas e entregues a colonos protestantes. A população nativa católica da ilha viveu num regim e agrícola. Por preços elevados, arrendava as terras de proprietários que m oravam , m uitas vezes, na Inglaterra.

A Irlanda perm aneceu na idade pré-industrial, dependendo de sua agricultura para a subsistência da população. Com a introdução do cultivo da batata, este vegetal, por seu preço m ódico e bom rendim ento, passou a constituir a base alim entar dos irlandeses. A pobreza e o crescim ento dem ográfico verificados no país intensificavam a dissem inação de doenças. Quando a colheita não era suficiente e a fom e se instalava, grandes epidem ias eram inevitáveis. Assim , em 1816, a população de seis m ilhões de pessoas sentiu a fom e causada pela m á colheita. O tifo fez m ais de setecentos m il doentes e a epidem ia de disenteria m atou 45 m il habitantes. Mas o pior seria visto pela geração sobrevivente. Em m eados do século XIX, a população da Irlanda som ava cerca de nove m ilhões, a m aior concentração hum ana em toda a Europa, e sua subsistência provinha predom inantem ente das plantações de batata. A tragédia ocorreu em m eados da década de 1840 com a chegada, por navio, de um a praga causada por um fungo nativo do Peru, que atingiu os Estados Unidos e, finalm ente, a Irlanda. O fungo atacava as plantações de batata, destruindo-as em pouco tem po. Apesar de tam bém ter causado tais estragos em outros Estados europeus, nenhum deles sofreu conseqüências tão danosas com o a Irlanda. As plantações de batata foram arrasadas em pouco tem po, ocasionando devastação e fom e na ilha. A plantação de 1845 foi parcialm ente perdida e as de 1846 e 1848, com pletam ente arruinadas.

A desnutrição e a m iséria precipitaram o surgim ento das epidem ias de tifo e disenteria. Entre 1846 e 1850, foram registradas 166 m il m ortes por febre e cem m il pela disenteria, sem contar as que se deveram à fom e. Com o núm ero de m ortes subestim ado, acredita-se terem m orrido entre oitocentas m il e um m ilhão de pessoas. Não restava alternativa para a população de m iseráveis senão partir da ilha. Iniciou-se a m aior em igração do século XIX, em direção aos Estados Unidos e às docas de Liverpool e Glasgow. Os que em igraram para a Inglaterra foram , em sua m aioria, para a m etade norte do país, onde desencadearam epidem ias de tifo, principalm ente em Lancashire e Cheshire. Só no ano de 1847, m orreram trinta m il pessoas na ilha. A "fom e das batatas", assim cham ada, reduziu o núm ero de habitantes da Irlanda em três m ilhões — cerca de dois m ilhões m ortos e um m ilhão em igrados.

A Am érica recebeu a m aioria dos im igrantes irlandeses e, com eles, o tifo. Em 1847, a doença m atou no Canadá 14 m il pessoas, em sua m aior parte im igrantes. Em m aio daquele ano, chegavam à estação de quarentena da ilha Grosse, próxim a a Quebec, 12 m il irlandeses em cerca de trinta em barcações, que j á haviam perdido setecentas pessoas pelo tifo durante a travessia do Atlântico. Os im igrantes eram aglom erados na ilha de Grosse, aj udando na dissem inação da doença; em um m ês, j á eram dois m il os enferm os, e os im igrantes continuavam a chegar. Em agosto, havia oitenta m il deles, e o núm ero de m ortos era então de 2.500; em dezem bro, subiu para 5.400. O Canadá foi obrigado a fechar sua estação de quarentena e enviar um apelo form al à Rainha Vitória, protestando contra a im igração em m assa. O tifo entrava na Am érica num m om ento histórico de calam idade irlandesa e, m enos significativa, inglesa. A Irlanda — com sua população depauperada pela fom e — e a Inglaterra — com sua condição precária de higiene, agravada pela im igração dos irlandeses — ficaram atônitas com a notícia da chegada a Istam bul, em 1847, da terceira pandem ia de cólera, diante da qual estavam im potentes. Seriam necessários apenas m ais dois anos para a doença se abater sobre as ilhas britânicas e a Am érica.

No caso da Am érica, não havia com o evitar a entrada da cólera. As im igrações européias tinham se intensificado nos últim os anos, sobretudo com a chegada dos irlandeses. Em 1849, passaram pela quarentena do rio São Lourenço cerca de 38 m il im igrantes, dez m il a m ais que no ano anterior. A doença chegou ao continente em 1849, dissem inando-se pelas cidades de Quebec, Toronto e Montreal. Nos Estados Unidos, atingiu inicialm ente Nova York; depois, se alastrou pelos principais centros do país de norte a sul. A cólera atingiu a Inglaterra tam bém em 1849 e com a m esm a agressividade; naquele ano, em Londres, m atou 53 m il pessoas, cerca de 2,5% da população. Na França, causou 150 m il m ortes.

Na segunda m etade da década de 1840, trabalhava em Londres o anestesista John Snow, que introduziu na Inglaterra a anestesia com éter, aplicada em pacientes subm etidos à cirurgia. O éter foi usado pela prim eira vez em 1842 nos Estados Unidos pelo cirurgião Crawford Long para a retirada de um tum or do pescoço de um paciente. Entretanto, só foi reconhecido com o anestésico depois que o dentista am ericano William Morton publicou um relato de sua utilização para esse fim em extração dentária em 1846. Pôde, assim , ser introduzido na rotina inglesa por John Snow.

Em 1847, o britânico Jam es Sim pson descobriria as propriedades do clorofórm io com o anestésico na obstetrícia, o que entraria em choque com a opinião da Igrej a. Esta pregava que as dores do parto se davam pela vontade de Deus, um a form a de castigo im posto a Eva — e a todas as suas descendentes —, por ter desobedecido à sua vontade. Sim pson respondia que o próprio Deus colocara Adão em sono profundo quando retirou sua costela. A balança pendeu a favor do anestésico quando a Rainha Vitória concordou em subm eter-se aos seus efeitos durante o parto de seu oitavo filho.

Apesar de a área m édica de John Snow estar em franco desenvolvim ento, esse anestesista fam oso, que anestesiou a Rainha Vitória em duas ocasiões, destacou-se por seus trabalhos sobre a transm issão da cólera. Snow acreditava que, sendo um a doença do trato digestivo, que provocava vôm itos e diarréia, a causa deveria estar associada à ingestão de alim entos ou água. Assim , defendia a hipótese de que a substância, ou veneno, causadora da doença seria elim inada nas fezes e no vôm ito e entraria na pessoa por água ou alim entos contam inados. Snow com eçou a deter-se na form a de transm issão pela água à m edida que suas observações e anotações confirm avam essa hipótese.

Em j ulho de 1849, quando se registrou a ocorrência de oitenta casos de cólera na rua Silver, Snow os correlacionou ao local de abastecim ento de água dos m oradores, o poço. Constatou que este recebia o líquido proveniente de um vazam ento no sistem a de esgoto que passava próxim o; e, interditando-o, conseguiu bloquear o alastram ento da doença. Mas som ente em 1854 ele pôde avaliar um núm ero m aior de casos para pôr em prática suas estatísticas. Enquanto quinhentos m oradores m orreram na rua Broad, tendo em com um a coleta de água do m esm o poço, as quinhentas pessoas pobres de um asilo próxim o que consum iam água de outra fonte foram poupadas da doença, assim com o os operários de um a cervej aria da m esm a localidade que não ingeriam água, m as cervej a. Sua teoria de contam inação ganhava força. Fazendo o levantam ento de dados do abastecim ento de água da cidade, então a cargo de duas em presas distribuidoras, Snow constatou que havia um a diferença significativa entre elas quando se analisava o núm ero de acom etidos pela doença. Surgiam cerca de 114 doentes de cólera em cada cem m il habitantes que consum iam a água fornecida pela Southwark & Vauxhall, enquanto não havia um doente sequer entre aqueles que usavam o serviço da Lam bert. A conclusão de Snow firm ou-se com a investigação do local de coleta da água pelas duas em presas — a Southwark & Vauxhall a retirava de um a área do rio Tâm isa que recebia esgoto e a Lam bert, de um a fonte pura. Snow apresentou seus trabalhos em um livro que esclarecia a transm issão da cólera, porém a teoria dos m iasm as ainda estava enraizada na Europa; assim , suas idéias, interpretadas de m aneira errônea, foram refutadas. Cada vez m ais afloravam diante do conhecim ento científico dem onstrações a favor do contágio das doenças; contudo, faltavam fatores m ais convincentes para com bater a teoria dos m iasm as. A balança com eçaria a pender para o lado dos m icroorganism os com os trabalhos futuros de Pasteur.

 

ASCULPADAS

Term inadas as guerras napoleônicas, a França entrou num a fase de desenvolvim ento econôm ico com a industrialização. Na década de 1840, triplicou-se a extensão das ferrovias, as cidades e portos se expandiram , surgiram novas instituições bancárias e tratados com erciais com outros países proporcionaram crescim ento econôm ico e com petitividade internacional. Foi nesse contexto de crescim ento econôm ico que em 1856 o Sr. Bigo, industrial de Lille, com eçou a ter problem as em suas indústrias de produção de álcool — este era então obtido por m eio da ferm entação da beterraba. Muitas vezes a ferm entação não era adequada, o que resultava em um álcool de m á qualidade, com gosto ácido e odor fétido. Bigo tentaria solucionar seu problem a na Faculdade de Ciências da Universidade de Lille, onde lecionava um quím ico j á conceituado por trabalhos anteriores. Tratava-se de Louis Pasteur, que inovara a quím ica ao utilizar o m icroscópio para a análise das reações quím icas estudadas, um a revolução à época.

A ferm entação é utilizada desde a Antigüidade — era o m étodo em pregado pelos egípcios para produzir a cervej a. A explicação do fenôm eno ao longo da História sem pre foi questão de controvérsias e discussões, levantando teorias nada com prováveis. Finalm ente, Antoine Laurent de Lavoisier, no século XVIII, definiu a polêm ica com a equação quím ica que dem onstra que o açúcar é decom posto para a form ação do álcool e do gás carbônico. Ele não pôde assistir à sua consagração ao tentar resolver a pendência, pois foi guilhotinado em 1794, vítim a do Terror da Revolução Francesa. O esclarecim ento do fenôm eno e a dem onstração da im portância das leveduras aguardariam o quím ico de Lille. Pasteur im provisou um laboratório nas adegas do Sr. Bigo e com o auxílio do m icroscópio chegou à conclusão delineadora de seu estudo. Quando a ferm entação é bem -sucedida, as leveduras adquirem form ato arredondado; nas m al-sucedidas, o form ato é alongado com apresentação de ácido láctico. Ao estudar as ferm entações m alsucedidas, com ácido láctico, Pasteur observou m anchas acinzentadas no m eio e, após cultivá-las, identificou-as com o form as de leveduras lácticas. Em 1858, ele descreveu a reação com o nutrientes para um a form a viva — a levedura — form ar álcool ou ácido láctico. Ele não só esclareceu o papel da levedura na ferm entação, com o contrariou a idéia m ais aceita de sim ples reação quím ica estabelecida por Lavoisier e defendida pelo quím ico alem ão Justus Liebig, autoridade no assunto. Explicou que a produção da ferm entação láctica das beterrabas do Sr. Bigo se devia à contam inação do procedim ento por levedura láctica, orientando cuidados para evitá-la. E concluiu que essa contam inação se dava pelo ar — por m eio de m icro-organism os nele suspensos.

Ao estudar a form ação do ácido butírico, que causa o odor na m anteiga rançosa, Pasteur descobriu em seu m icroscópio organism os m óveis e os batizou de "vibriões butíricos". Ele estava diante de novos seres com capacidade de locom oção. Com eçava assim um a era m ais abrangente que a das leveduras, a era bacteriológica. Com o as bactérias que ficavam na periferia das gotículas perm aneciam im óveis e as que se localizavam no centro apresentavam m ovim ento, Pasteur deduziu que a proxim idade com o oxigênio neutralizava sua ação, e assim criou o term o "m icro-organism os anaeróbios", referente aos que vivem som ente na ausência do oxigênio.

Continuar: parte 2 de 4