A História e Suas Epidemias

Stefan Cunha Ujvari · Capítulo 5 de 7 · parte 1/5

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A História e Suas Epidemias

Capítulo 3

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 5 partes.

Da Crença à Razão

Após a queda do Im pério Rom ano, instalou-se na Europa um a vida rural que

caracterizaria o sistem a feudal dos séculos seguintes. Do século VI ao X, a

econom ia européia baseou-se no sistem a agrícola feudal. Os escravos foram

substituídos por hom ens livres m as ligados a terra, presos a ela, os servos.

A Igrej a adquiriu, na Idade Média, um poder excepcional. O cristianism o,

com sua pregação no sentido de todos servirem a um único Deus, e com a

idéia de que os sofredores ganhariam o reino do Céu, alcançou grande

aceitação na sociedade rom ana, caracterizada por seu grande núm ero de

escravos e pobres. Seu crescim ento foi tal que, j á no século IV, ela se tornou

a religião oficial do Im pério Rom ano. Com a conversão de Clóvis, rei dos

francos, ao cristianism o rom ano, a Igrej a am pliou seu reconhecim ento e

poder. No período m edieval, firm ou-se com o grande proprietária de terras

em toda a Europa. Os senhores lhe doavam terras com o obj etivo de obter

conforto para sua consciência pecadora e conseguir o perdão divino.

Enquanto os nobres dividiam suas terras com aliados e vassalos, a Igrej a as

acum ulava, o que a tornou a instituição m ais rica da Idade Média, e com

grande poder.

A Europa era então dividida em propriedades de terras, os feudos,

pertencentes aos cham ados "senhores". No feudo, que consistia em um a

aldeia e terras aráveis, plantava-se a alim entação necessária - trigo, centeio,

cevada —, m uitas vezes em quantidade lim itada, j á que os m étodos agrícolas

eram rudim entares. Nos bosques, os m oradores obtinham a lenha, im portante

para as atividades diárias do feudo, e criavam anim ais, geralm ente suínos,

para a alim entação com plem entar. Na aldeia, transform avam as m atérias-

prim as produzindo óleo, queij o, vinho, m anteiga e farinha. Havia tam bém

oficinas artesanais destinadas à produção de utensílios necessários e serviços

de alfaiate, ferreiro, arm eiro, sapateiro, fundidor, carpinteiro e pedreiro.

Por esse sistem a, fica claro que a riqueza principal do hom em era a posse da

terra — m otivo pelo qual ocorriam constantes disputas — e que os guerreiros

eram um a classe fundam ental. Existia tam bém um pequeno com ércio para

suprir algum bem necessário a determ inados feudos incapazes de produzi-lo,

com o, por exem plo, o com ércio de sal.

Enquanto a Igrej a se expandia e se fortalecia, arrem atava para sua

responsabilidade o conhecim ento da m edicina e os cuidados com os doentes.

A arte da leitura restringia-se aos m em bros do clero, responsáveis pela

m anutenção da cultura, enquanto o continente abrigava um a população

grande de analfabetos. Os tratados m édicos eram copiados e perm aneciam

vivos nas bibliotecas católicas. Entre as tarefas de caridade cristã encontrava-

se a de cuidar dos enferm os, além de dar água a quem tinha sede, dar de

com er a quem tinha fom e, hospedar estrangeiros, agasalhar os que sentiam

frio e sepultar os m ortos.

Com a finalidade de auxiliar os doentes, foram construídas pensões

tem porárias que depois se transform aram nas obras do nosocomium. Eram as

prim eiras edificações com esboço de hospital para abrigar os enferm os e

tratá-los, e delas originou-se o term o "nosocom ial" (relativo a hospital). A

principal obra com esse propósito foi feita na Capadócia, na atual Turquia,

por São Basílio, ao lado de seu convento, no século IV. Desenvolveu-se tão

bem que se tornou um a cidade dentro da cidade. Acredita-se que esse

crescim ento da construção de Basílio tenha dado origem à palavra "basílica",

referente ao grande edifício do culto cristão.{8}

A m edicina m onástica expandia-se pela Europa. São Bento de Núrsia fundara

no início do século VI sua ordem m onástica, a dos beneditinos. Com a eleição

do Papa Gregório, essa ordem foi usada com o m eio de difusão do

cristianism o. Instalou-se prim eiro em Monte Cassino, na atual Itália, com a

construção do principal m osteiro. Recebia pessoas influentes de toda a

Europa. Tornou-se um centro im portante de ensino m édico, um depósito

valioso de m anuscritos clássicos, tanto originais com o cópias. A doutrina de

São Bento difundiu-se pela Europa e instalou-se na Inglaterra, em Oxford,

Cam bridge e Winchester; na França, em Tours; e na Alem anha, em Fulda e

S. Gall. Os m osteiros m ultiplicaram -se pelo continente europeu. Suas

instalações anexas funcionavam com o nosocomium. Proliferavam nos

entroncam entos das rotas de peregrinação e com ércio.

A Igrej a fazia parte da vida cotidiana das cidades, aj udava os doentes,

auxiliava os m endigos, dedicava-se à atividade cultural com bibliotecas. No

início do florescim ento das universidades, a teologia era o curso m ais

concorrido.

Essa dom inação era tal que, praticam ente, reconhecia-se um a cidade nova

apenas quando sua igrej a era construída. A Igrej a influenciou, com todo o seu

poder, a aceitação pela im ensa população cristã européia de seus dogm as e

crenças, que eram seguidos de olhos fechados. E foi assim tam bém nas

situações de epidem ia. Nesses casos, notam -se algum as atitudes curiosas, até

em relação a um a epidem ia m ais intensa do que realm ente devia ter sido, a

de lepra.

Desde o final do século XI, com a prim eira cruzada, a Europa entrou num

período de fé exacerbada, em que o cristianism o concretizou sua suprem acia

no dia-a-dia dos cidadãos. Aum entou m uito o núm ero de ordens religiosas,

assim com o o de peregrinações à Terra Santa em busca de relíquias sagradas.

A vida cotidiana era cada vez m ais influenciada pela Igrej a.

No início da Idade Média, a Europa apresentou um a regressão nas

ocorrências das epidem ias desastrosas, e as locom oções hum anas não eram

m ais tão freqüentes quanto na época do Im pério Rom ano. O principal m otivo

foi a característica de auto-suficiência do sistem a feudal. Cada feudo se

isolava dos dem ais, pois tinha em sua propriedade tudo de que precisava;

assim , deixavam de ser necessários os intercâm bios com erciais entre regiões

e, m enos ainda, as m igrações. As antigas e desenvolvidas vias rom anas

caíram em desuso, ficaram desabitadas e abandonadas. Os m oradores das

aldeias eram visitados com freqüência por infecções que até se

transform avam em epidem ias, m as j á não ocorria transm issão dos agentes

bacterianos para outras localidades. Os agentes restringiam -se à aldeia e se

esvaíam no m om ento em que não havia m ais indivíduos suscetíveis a contraí-

los.

Som ente nos séculos IX e X a população européia se recuperou e voltou a

crescer, graças às condições favoráveis para isso. A escassez de epidem ias e

de grandes guerras proporcionou um a dim inuição da m ortalidade. Tam bém

naquela época foi docum entada um a alteração clim ática na Europa que

favoreceu a agricultura e aum entou a dem anda por alim entos. Os arados de

m adeira foram substituídos pelos de m etal, usados com cavalos e não m ais

com bois. Essas m udanças elevaram a produtividade agrícola do feudo e

incentivaram a utilização de m aiores áreas no plantio da cevada, alim ento

básico para os cavalos. Surgiram assim os arroteam entos, com o

desm atam ento e o aterro de pântanos para am pliação das áreas de plantio. O aum ento da produtividade fez surgir o excedente para com ercialização, e intensificaram -se as transações com erciais entre regiões distantes. Um novo fato ocorreu em novem bro de 1095 quando o Papa Urbano II abriu o Concílio de Clerm ont. Um a im ensa população de devotos acom odados em diversas tendas, das m ais luxuosas às m ais hum ildes, ouviu o apelo do papa para que se iniciasse um a grande m archa de cristãos arm ados para reconquistar as terras sagradas, em especial Jerusalém , em poder dos m uçulm anos. Com eçavam as cruzadas. Seria considerada um a guerra santa, portanto, garantindo liberdade e perdão para que se com etessem atos violentos. Os com batentes teriam por recom pensa um a indulgência para ganharem o reino do Céu, livres de pecados. O espírito religioso, aliado ao de aventura, incentivou grande parte da população européia, descontente com os períodos de fom e e com a falta de perspectivas da vida cotidiana. O apelo do papa alastrou-se por todo o continente e alcançou tal poder que nunca se m obilizaram tantas pessoas de regiões e classes sociais tão diferentes. Nos acam pam entos cristãos e nas cidades sitiadas, durante a m archa das cruzadas no Oriente, foram com uns as epidem ias de diarréia por contam inação da água e dos alim entos com bactérias fecais. As cruzadas im pulsionaram as transações com m ercadorias originárias do Oriente, os artigos de luxo cobiçados pelos nobres feudais. Com essa ascensão das transações com erciais, foram desenvolvidas e criadas as cidades européias que tornariam novam ente possível as aglom erações hum anas, favorecedoras das epidem ias de m aior im portância. Do século XII ao XIV, essas cidades cresceram de m aneira assustadora. A atividade com ercial fervilhava, intensificava-se a tal ponto que o aum ento do núm ero de artesãos fez crescer o de corporações para que se organizasse o com ércio. Novos m uros tiveram de ser erguidos nas cidades para englobar as residências construídas do lado de fora em razão do crescim ento urbano.

Construções e ordens religiosas surgiam sem cessar. A população, que era de cerca de 42 m ilhões no ano 1000, passou a ser de aproxim adam ente 73 m ilhões em 1300. O núm ero de habitantes da França praticam ente triplicou naquele período. Em resum o, a Europa voltava a ter grandes aglom erados populacionais, o que favorecia a dissem inação de infecções e epidem ias. Essas concentrações hum anas se interligavam pelas rotas com erciais, que propiciavam o deslocam ento dos m icroorganism os responsáveis por infecções de cidade para cidade.

 

UMA ENCARNAÇÃO DOMAL

No período de decadência do Im pério Rom ano, os im peradores cristãos j á condenavam as práticas de m agia, e os m agos eram suj eitos à punição. Constantino e Graciano baixaram dois decretos contra a heresia; Teodósio I e Arcádio, outros 12 a 15. Essas punições e perseguições estenderam -se para o Im pério Rom ano do Oriente, com Justiniano; depois, com a queda do Im pério Rom ano, chegaram aos reinados de Carlos Magno e Carlos, o Calvo. Restabelecidos os direitos rom anos no século XII, os m onarcas perpetuaram as perseguições aos hereges, e foram rigorosas as que deflagraram Frederico Barba-Roxa, Oto III e Frederico II. A Igrej a fazia um a crítica severa às perseguições, protegendo m uitos acusados e condenando a punição capital vigente, além de considerar ilusórias as crenças de ligação do m ago com o dem ônio. Por toda a Alta Idade Média, a Igrej a não participou desse m ovim ento persecutótio à bruxaria ou à m agia. Som ente na transição do século XII para o XIII, a situação se inverteu, e ela passou a ser a principal responsável pela perseguição aos hereges.

Nesse clim a religioso, ascendeu ao papado Inocêncio III, em 1198. Seu pontificado seria m arcado por um a série de acontecim entos que dariam à Igrej a a suprem acia na punição de hereges. Inocêncio III proibiu o reconhecim ento de novas ordens religiosas, considerando dem asiado o núm ero j á existente. Mas ele m esm o aceitaria outras duas, as que m ais m arcariam as diretrizes da Igrej a. Francisco de Assis, nascido em 1182, abdicaria de sua vida fam iliar em favor da pobreza, pregando a sim plicidade, o desapego aos bens m ateriais. Recebeu um a capela ao pé da cidade de Assis e fundou a Ordem dos Irm ãos Menores, para viver prestando auxílio aos pobres, m endigos, leprosos e necessitados. Em 1215, o Papa Inocêncio III teve de reconhecer a im portância e os serviços da ordem de São Francisco. São Francisco de Assis viaj ou pelo território europeu até as terras dos m uçulm anos na Península Ibérica e no norte da África, incluindo o Egito, sem pre em penhado em pregar as regras de sua ordem . O núm ero de franciscanos aum entou em toda a Europa: os adeptos eram atraídos pelo seu espírito de solidariedade, pela luta contra a tirania, pela bondade e sim plicidade, que j ulgavam fundam entais na difusão do cristianism o. Em 1170, nascia na Espanha um a personalidade pertencente à casa dos Gusm ãos que m udaria a história da Igrej a no século seguinte — Dom ingos de Gusm ão. Já na vida religiosa na Catedral de Osm a, ele era adepto da doutrina de vencer a heresia por m eio da pregação, levando um a existência pobre e penosa. Essa doutrina, estabelecida pelo Bispo Diego de Azehes para vencer a heresia no sul da França, não durou m uito. Mas Dom ingos de Gusm ão viveu e pregou no território do Languedoc, onde conviveu com as m aiores heresias possíveis: do não-oferecim ento de pão aos fiéis à falta de batism o das crianças. E sentiu a represália da população ao seu trabalho.

Um ano depois de Francisco de Assis ter sua ordem reconhecida, era a vez de Dom ingos de Gusm ão obter do Papa Inocêncio III o reconhecim ento da Ordem dos Pregadores. Os dom inicanos tam bém exerceram papel im portante na cristianização européia, principalm ente protegendo os bens da Igrej a e com batendo a heresia. Dessa ordem sairiam os responsáveis pelos tribunais da Inquisição, que estava por nascer.

A perseguição aos que praticavam heresias estava instalada em todos os territórios europeus, m as era no sul da França, no Languedoc, que havia a m aior concentração de atividades hereges. Naquela região, a população se considerava cristã, apesar de pregar o catarism o. Acreditava em dois deuses: o deus do bem — representado pela bondade — e o deus do m al — responsável pelas coisas ruins. Na cidade de Albi, centralizavam -se as principais m anifestações do catarism o, m otivo pelo qual seus adeptos receberam o nom e de "albigenses". Com o m eta de seu pontificado, Inocêncio III obj etivou a elim inação dos hereges, especificam ente no território do Languedoc, que estava sob o com ando do conde deToulouse, Raim undo VI. Sendo um príncipe extrem am ente poderoso na região, Raim undo VI não cedeu às pressões do papa. Travou guerras no sul da França, com a destruição de igrej as e a expulsão de bispos, e cercou-se de j udeus, m otivos que bastariam para a intervenção do papa. A gota d'água foi o assassinato de Pedro de Castelnau, m em bro do papado em serviço na região. Inocêncio III decretou guerra aos hereges daquele território, conclam ando um a cruzada, dessa vez não contra os m uçulm anos, m as contra os cristãos hereges do Languedoc. O apelo do papa recebeu adesão rápida e efetiva da população, e para isso contribuiu o fato de que os senhores ansiavam pela aquisição de terras novas com a vitória. E o Languedoc, com suas riquezas, aj udou a engrossar a lista de cruzados. Um a cruzada ao lado de casa estim ulava os voluntários que queriam indulgências, e o rei da França apoiou o papa enviando forças do exército. O Languedoc tinha cultura e costum es diferentes dos do norte da França, além de falar outra língua, que originou o nom e da região. Um a vitória da cruzada, portanto, significaria tam bém um a facilidade para a unificação da França pelo seu rei.

A cruzada iniciou-se em j ulho de 1209 com a partida de trezentos m il soldados em direção ao Languedoc. O obj etivo era a cidade de Béziers, que foi cercada e invadida, procedendo-se à m ortandade da população. Essa prim eira vitória dos cruzados refletiu o que seria o espírito de conquista. Vinte m il m oradores de Béziers foram m ortos; sete m il deles, queim ados. Muitos refugiados se uniram aos habitantes da cidade de Carcassonne, que teria o m esm o destino de Béziers nas m ãos dos cruzados. Seguiram -se as conquistas de Lavaur, Narbonne e Toulouse. A população fugia para as m ontanhas dos Pireneus à m edida que as cidades caíam um a a um a nas m ãos dos cruzados. A cruzada contra os albigenses durou vinte anos, tem po suficiente para a conquista das localidades que resistiam no sul da França.

Com a derrota, os albigenses foram obrigados a aceitar um a série de im posições da Igrej a que influenciaram a vida privada e cotidiana da população. Mas a principal conseqüência da cruzada deu-se com a form ação da estrutura destinada a não perm itir a volta do catarism o. Os bispos das cidades nom eariam m em bros para vigiar e procurar os hereges, que estariam à disposição do tribunal eclesiástico. Qualquer pessoa poderia procurar hereges e denunciá-los à Igrej a, que cuidaria de sua prisão e interrogatório e, posteriorm ente, instituiria a tortura. Nasciam assim as bases da Inquisição, que sairia da região do Languedoc para o resto da Europa e outros continentes. Aum entavam a busca e punição aos cristãos desviados dos dogm as da Igrej a.

No inicio do século XIV, os tribunais da Inquisição j á eram fortes o bastante para que o rei da França, Filipe, o Belo, arquitetasse a heresia e a utilizasse com o pretexto para perseguir a Ordem dos Tem plários, um a das m ais conceituadas e poderosas da Europa, com riquezas incalculáveis. Os líderes da ordem foram presos em 1307 na França, confessando crim es de heresia sob tortura e sendo subm etidos ao tribunal da Inquisição. O Papa Clem ente V não teve opção diante do que confessaram os m em bros da ordem , sob tortura. Em 1314, foram queim ados os principais líderes tem plários em Paris. Filipe, o Belo, com andou o ato.

No início do século XIV, cresciam entre a população as acusações de realização de m agia. Descreviam -se m ais ritos satânicos, com atitudes desrespeitosas à Igrej a. Pessoas da corte francesa foram acusadas de usar m agia em bonecos de cera na intenção de m atar o rei; o bispo deTroy es, de assassinar a rainha da França utilizando-se da m agia; e m em bros da nobreza, de usar a m agia para diversos fins. Nesse clim a tenso, João XXII, em 1326, assinou a bula que determ inava ser a bruxaria crim e de heresia, perm itindo a perseguição, pelos inquisidores, daqueles que a praticavam .

As perseguições com eçaram e intensificaram -se na região m ais am eaçadora da Europa, novam ente o Languedoc, m otivadas pelo catarism o. Os inquisidores descobriram , outra vez com aplicação da tortura, seitas que faziam rituais noturnos, recebiam Satã encarnado num bode, realizavam libertinagem , profanavam a hóstia, renegavam Cristo. Esses ritos foram pela prim eira vez denom inados "sabá" e perseguidos na região. Aos poucos, no decorrer dos séculos XIV e XV, os processos contra o crim e de bruxaria ganharam espaço, totalizando algum as dezenas ou m esm o poucas centenas, m as m uito longe da explosão de acusações e assassinatos que ocorreria no período 1550—1700. A Igrej a com andou a vida cotidiana dos europeus, ditou regras, j ulgou e condenou atos da população. Nos m om entos de epidem ia, era responsável pela interpretação do m al que se abatia sobre a população desesperada por não saber sua causa. Os germ es transitavam livrem ente sem serem vistos; logo, j am ais seriam acusados pela Igrej a. Duas grandes epidem ias daquela época m erecem consideração especial pelas explicações curiosas que lhes foram dadas — as de lepra e peste bubônica.

 

A LEPRA, UMA EPIDEMIA?

Originária da Índia e da China, acredita-se que a lepra tenha sido levada para

as proxim idades do Mediterrâneo pelas conquistas de Alexandre, o Grande,

rei da Macedônia, que se estenderam da Grécia à índia. Durante as

cam panhas rom anas, partiu do Egito e do Oriente para a Itália. Mas o início

do surgim ento de um m aior núm ero de leprosos no território europeu

coincidiu com o da época das cruzadas, no final do século XI. O agente

causador da lepra, presente no Oriente e no Egito, deve ter sido levado da

Terra Santa para a Europa pelos com batentes cristãos. Ao circular pelas

cidades européias, o agente encontrou um a população que não havia tido

contato prévio com a lepra. Esse fato provavelm ente ocasionou um rápido

aum ento do núm ero de pessoas portadoras das lesões cutâneas provocadas

pela doença.

A Igrej a tom ou a dianteira do controle desses casos, sob a orientação de suas

crenças. No Antigo testamento hebreu, o Levítico descreve doenças de pele

com o im purezas da alm a que afloram e, por isso, as pessoas que as possuem

devem ser banidas da com unidade para sua purificação. Não há referência

nessas Escrituras ao nom e lepra nem m esm o há indícios de leprosos à época.

No século III d. C. , nas atividades da Biblioteca de Alexandria, a doença do

Levítico foi traduzida para o grego com o lepra. Diante do aum ento de casos

com o retorno dos cruzados, a Igrej a sustentou que as lesões eram sinais de

im purezas pelas quais as pessoas estavam sendo castigadas por Deus. Cada

cidadão que surgia com m anchas na pele tinha sua m oral j ulgada pelos

vizinhos. Para m anter o m undo cristão livre de im oralidades e pecados, era

necessário procurar os que Deus estava punindo e bani-los das com unidades.

No final do século XI, ocorreu o início da grande perseguição aos leprosos,

que se perpetuaria por três séculos. Foi caracterizada pela descoberta de

m uitas pessoas com lepra, e estas foram segregadas das com unidades sob

orientação da Igrej a. Fica a dúvida sobre se o aum ento de casos da doença

foi um a epidem ia verdadeira ou um a perseguição alucinada e frenética

com andada pelos dogm as da Igrej a, segundo os quais diversas doenças de

pele recebiam um só diagnóstico, a lepra. Não é um a doença que se adquire

facilm ente, diferentem ente de outras com o a varíola, que se torna epidem ia

em pouco tem po. Quando um paciente apresenta a lepra, seus fam iliares são

orientados a m anter a rotina dom iciliar norm al, sem nenhum a alteração.

Pelo fato de não ser um a doença de contágio tão fácil, é com plicado entender

com o apareceram tantos casos de lepra na Europa no período da

perseguição. E m ais, não é todo paciente que, ao entrar em contato com o

agente causador da doença, vai desenvolvê-la. Portanto, além de a doença

não ser tão contagiosa, quem a adquire precisa ser suscetível ao agente

transm issor. É difícil, pois, acontecer um a epidem ia dessa doença, em bora

ela possa ter um com portam ento endêm ico. A epidem ia de lepra deve ter

sido "criada" em razão do dogm a religioso, ao qual um im enso núm ero de

seguidores da Igrej a obedecia com rigor participando da busca de casos entre

a população.

Além disso, as pessoas com suspeita de ter a lepra, ou sej a, as pessoas

im puras, pecadoras, sem m oral — portanto, punidas por Deus com a doença

— eram subm etidas a exam e de confirm ação por um j úri nada eficaz. Não

se tinha experiência em relação a essa nova doença, o que tornava difícil seu

diagnóstico apenas pelo exam e das lesões. O j úri era com posto basicam ente

por pessoas com uns ou do clero, e m uitos erros se com etiam . Dessa form a,

m ilhares de indivíduos foram expulsos das cidades e condenados ao

anonim ato e à segregação, ingressando nas colônias de leprosos ou

m endigando na periferia das cidades. Associadas a eles estavam pessoas com

outras doenças de pele que, por ignorância da com unidade ou por um

diagnóstico errado, eram incluídas entre os doentes.

O leproso identificado era excluído da com unidade por um a cerim ônia

religiosa, a "m issa dos leprosos". Era apresentado diante do altar com um

capuz negro a cobrir-lhe a cabeça e recebia sua sentença. Sob pena de

excom unhão, era proibido de exercer atividades diárias na cidade, lavar-se

ou usar as fontes, entrar em lugares religiosos e tocar nas pessoas,

principalm ente nas crianças. Após as proibições, recebia um par de luvas,

pão e um instrum ento sonoro — um a m atraca de m adeira e ferro para

anunciar sua chegada a lugares públicos. Após a cerim ônia, era levado ao

portão da cidade, onde j ogavam punhados de terra em seu corpo. Isso

representava o ato final de banim ento do leproso na sociedade m edieval. Com o núm ero crescente de leprosos expulsos das com unidades, foi necessário hospedá-los, um a vez que a Igrej a os afastava para aguardar sua purificação. Surgiram assim m oradias específicas para eles, os leprosários. A dim ensão dessa epidem ia de lepra pode ser estim ada pela quantidade de leprosários abertos na Europa naquele período: cerca de 19 m il. Só na França, houve m ais de duas m il

colônias de leprosos.{9}

No com eço, os leprosários eram construções sim ples com capacidade para abrigar um pequeno núm ero de doentes, e sua função era apenas asilar os excluídos da sociedade. Com o passar dos anos, foi dada m aior atenção ao bem -estar desses excluídos — houve m elhorias nas suas instalações e construções de capelas. Com a introdução da Ordem dos Hospitalários nos leprosários, esses esforços de m elhoria intensificaram -se. Hom enageavam -se São Lázaro e Santo Egídio cham ando-se os leprosários de lazaretos ou "casas de Lázaro". No futuro, os lazaretos teriam suas funções am pliadas de m odo que acolhessem enferm os de outras doenças — dada a m aior dem anda nas epidem ias, com o a da peste — e tam bém serviriam com o locais de quarentena. Em todo o tem po, os leprosos eram alvo de acusações e perseguições. No ano da grande perseguição, 1321, o rei da França, Filipe V, organizou um a assem bléia em Poitiers com a finalidade de arrecadar fundos para financiar um a nova cruzada de reconquista da Terra Santa. Na m esm a época, surgiam suspeitas, levantadas pelo bispo da cidade de Pam iers, Jacques Fournier, de que os leprosos estariam planej ando o envenenam ento dos poços da França, o que contam inaria toda a população. Os líderes do plano, se vitoriosos, se tornariam reis. Inform ado, Filipe V reuniu-se com um conselho de inquisidores dom inicanos, incluindo o bispo de Pam iers, e decidiram organizar um a perseguição em m assa aos leprosos para pôr fim à conspiração.

Milhares de leprosos suspeitos de envolvim ento foram perseguidos. Por m eio de tortura, j á em prática desde o século anterior pelos inquisidores, obtiveram -se confissões que levaram a outros cúm plices, nada difíceis de incrim inar. Os inquisidores descobriram que com unidades j udaicas estariam patrocinando o plano dos leprosos, e m ais: que os fundos para a ação partiam da Babilônia e do rei m uçulm ano de Granada. Dessa form a, a Igrej a descobria um plano de todos os que não adotavam o dogm a católico: os leprosos, os j udeus e os m uçulm anos. Por um decreto de j unho de 1321, Filipe V exigiu que os leprosos condenados fossem queim ados e suas propriedades confiscadas. Seguiria as atitudes que seu pai, Filipe IV, o Belo, tom ou ao perseguir a ordem religiosa dos Cavaleiros do Tem plo, os tem plários, os quais condenou e dos quais confiscou as posses, enriquecendo a Coroa. Milhares de leprosos foram m ortos nas fogueiras. Tornou-se um a perseguição em m assa feita pela população, que j á não seguia nenhum critério de j ulgam ento. Concediam -lhe um a espécie de direito de m atar leprosos. Acredita-se que dois terços dos que então viviam na França foram m ortos. Um a década depois, em 1334, um dos m aiores responsáveis pela m ortandade foi coroado papa. Era Jacques Fournier, que reinou com o Benedito XII. Finalm ente, em 1336, o Papa Benedito XII adm itiu que a perseguição de 1321 fora inj usta, que os leprosos eram inocentes e que haviam sido vitim as de um plano fabricado

pelos burocratas. {10}

No século XIV, houve um a dim inuição da perseguição a esses doentes. Ao que tudo indica, a Igrej a voltou-se m ais para perseguir j udeus, bruxas e hereges. Outro fator da dim inuição do núm ero de casos foi a inovação j udicial que colocou m édicos no j úri responsável pelo diagnóstico de caso suspeito de lepra. E por fim , em 1363, o m édico do papa, Guy de Chauliac, lançou m anuscritos com a descrição das lesões m ais específicas para o diagnóstico da doença, o que lim itou em m uito o núm ero de casos em razão do critério utilizado. A incidência de lepra dim inuiu no século XIV. A Europa entrava num século m arcado pela grande tragédia da peste bubônica, que colocou a questão dos leprosos em segundo plano ou ocasionou a m orte de um grande núm ero deles por j á estarem debilitados pela doença.

 

A PESTE BUBÔNICA

 

Com o vim os, com o florescim ento das cidades m edievais e do com ércio, a Europa novam ente criava condições de com unicação entre as diferentes regiões. Havia assim a possibilidade de deslocam ento dos m icro-organism os entre as localidades e seu encontro com aglom erações, o que favorecia sua rápida dissem inação, propiciando o aparecim ento de epidem ias. As vias com erciais foram reatadas, dessa vez em condições difíceis — estradas estreitas e lam acentas pela m á conservação. O transporte de m ercadorias por esses cam inhos era dificultado tam bém pelos altos pedágios que os proprietários dos feudos cobravam e pela insegurança causada por freqüentes assaltos. Pelas rotas m arítim as, as cidades italianas m antinham íntim as relações com erciais com o Oriente; Veneza era ligada às cidades do Im pério Bizantino, Gênova estava em contato com cidades do m ar Negro. As cidades nórdicas européias, com o Bruges, na atual Bélgica, tinham rotas com erciais que incluíam as cidades do m ar Nórdico. Tais rotas se encontravam durante o ano nas fam osas feiras de Cham pagne, realizadas em Troy es, Provins, Lagny e Bar-sur-Aube. Eram feiras que recebiam m ercadores de todo o continente, que nelas com ercializavam tecidos e lã das regiões nórdicas e especiarias do Oriente, com o pim enta e canela; além de m etais e pedras preciosas, sal, corantes, açúcar, vinhos, grãos, peles, etc.

Gênova criara um a relação com ercial na região da Crim éia, no m ar Negro. As m ercadorias do Oriente chegavam a esse território term inal da rota onde se encontravam os com erciantes genoveses, cada vez em m aior núm ero. Assim , foram se tornando m ais freqüentes as chegadas e partidas de suas em barcações, que levavam m ercadorias para a Europa. A harm onia quebrou-se no final de 1347 quando a Crim éia foi atacada pelos tártaros, originários da Ásia. No ano de 1347, os tártaros atacaram a cidade de Kaffa (hoj e, Feodósia), sede com ercial dos genoveses. Montaram um cerco enclausurando os genoveses no interior dos m uros. Durante essa ação, nos acam pam entos dos tártaros, dissem inou-se um a doença infecciosa letal, a peste bubônica. Os tártaros adoeciam um a um , e o núm ero de m ortos aum entava a cada dia, o que os im pediu de continuar o cerco à cidade e os obrigou a recuar e abandonar o ataque. Há relatos de que os m ortos eram arrem essados por cim a dos m uros por catapultas, com a intenção de espalhar a doença entre os genoveses, o que representou um a das prim eiras tentativas de guerra bacteriológica da História. Não se sabe quanto conhecim ento os tártaros tinham sobre a doença, m as essa atitude pode refletir que tivessem algum , talvez de seu contágio.

Os genoveses ficaram aliviados quando os inim igos recuaram . Voltaram à

reconstrução das áreas danificadas, m as, com a epidem ia que lhes fora

levada pelos tártaros, circulavam pela cidade os ratos com o bacilo da peste

em suas pulgas. Esses roedores habitavam as áreas de arm azenagem de

alim entos e m ercadorias, locais próxim os aos navios; foi assim que os

genoveses retornaram ao Mediterrâneo levando nas em barcações um

viaj ante novo, que seria responsável pela m aior calam idade vista na Europa

até então, a bactéria causadora da peste bubônica, a Yersinia pestis.

UMA APRESENTAÇÃO

 

A peste bubônica é causada pela introdução da Yersinia pestis, com form a de

bacilo, na pele da pessoa. A introdução se dá pela picada da pulga do rato

portadora do bacilo; este se desenvolve no local da picada e progride para os

gânglios linfáticos próxim os do local de sua inoculação. Os gânglios

aum entam de tam anho com a form ação de pus no seu interior, o que faz

surgir o cham ado "bubão", com um nas axilas e virilhas por serem freqüentes

as picadas nos braços e pernas, respectivam ente. O bubão, que pode atingir

tam anho com parável ao de um lim ão, aj udou a denom inar a doença,

conhecida com o peste bubônica.

Caso atinj a a corrente sangüínea, o bacilo dissem ina-se por outros órgãos, e

um a form a grave da doença, com m aior possibilidade de levar ao óbito,

instala-se: a peste septicêm ica. Chegando aos pulm ões, o bacilo pode ser

elim inado pela respiração e tosse. Assim , m antendo-se suspensos no ar, os

bacilos podem infectar outra pessoa por respiração, ou inalação. Os que se

contam inam pela inalação de bacilos desenvolvem a doença pulm onar,

tam bém cham ada de "peste pulm onar", que pode levar à lesão nos pulm ões,

acarretando falta de ar e m orte.

Os sintom as gerais do processo infeccioso m anifestados pelos doentes são

dores pelo corpo, dor de cabeça, m al-estar, falta de apetite, febre e a

presença dos bubões, extrem am ente dolorosos, que podem progredir para

cura. Nas form as graves — pulm onar e septicêm ica — evoluem para

letargia, sonolência e dim inuição da pressão arterial. A pele deixa de receber

oxigenação adequada em decorrência da queda da pressão arterial e

insuficiência dos pulm ões, o que a faz adquirir coloração azulada e escura,

daí o nom e "peste negra". Os órgãos param de funcionar e o óbito ocorre na

grande m aioria dos casos.

A peste bubônica pode ser introduzida num a região com o aparecim ento de

ratos, seus portadores, que têm pulgas j á contam inadas pelo bacilo; ou com a

entrada de im igrantes acom etidos pela doença. Portanto, o deslocam ento

hum ano por m igração, com ércio e guerra é um dos fatores que aj udam na

chegada da peste bubônica a regiões diferentes. A facilidade que o hom em

cria para transferir ratos portadores para áreas distantes é outro fator de

ocorrência de epidem ias, e, no caso, as em barcações m arítim as têm em seus

porões verdadeiros ninhos desses anim ais. Esses roedores são provenientes do

cais do porto, local em que encontram um a quantidade grande de alim entos

que favorecem sua proliferação.

Um a vez instalada a epidem ia na região, os doentes com a form a pulm onar

passarão o bacilo para outros hum anos pela tosse, transm issão conhecida

com o de pessoa a pessoa por via direta. Aqueles que desenvolverem a form a

septicêm ica, com bacilos na corrente sangüínea, passarão a doença para as

pulgas e estas para hum anos sadios — transm issão conhecida com o de pessoa

a pessoa por m eio da pulga. A presença de ratos — que por sua vez serão

contam inados pelas pulgas que abandonarem os ratos m ortos — potencializa

a epidem ia, aum entando o núm ero de casos da doença. Portanto, as

epidem ias encontram terreno propício nas regiões com aglom erados

populacionais e condições precárias de higiene, em que ocorre grande

proliferação de ratos com partilhando espaço com os habitantes.

A vida m edieval criava um a série de condições para a propagação da peste

bubônica, ou sej a, para um a superpopulação de ratos e para a transm issão de

pessoa para pessoa. Os transeuntes das cidades m edievais passavam por ruas

e becos estreitos com pouca ilum inação, m uitas vezes lam acentos por causa

das chuvas. Não era raro que das j anelas se j ogassem excrem entos nesses

becos. As pessoas não se apercebiam da quantidade de ratos ali existentes em

tem pos quentes. Poucas localidades contavam com ruas pavim entadas. Os

habitantes das cidades m uradas tinham por hábito a criação de anim ais, com o

a de porcos, por exem plo. Um com ércio com um era o que se fazia nos

m atadouros, alguns dos quais construídos de m aneira que os m iúdos e as

carcaças pudessem ser lançados nos riachos ou córregos, m uito com uns e

repletos de ratos.

A privacidade não era im portante para a população da Idade Média. As

pessoas dorm iam num m esm o quarto. As fam ílias de posses tinham um a

cam a larga na qual dorm iam várias pessoas; os pobres podiam não ter cam a,

m as tam bém dorm iam num m esm o recinto. Nessas casas, eram colocadas

de tem pos em tem pos tinas de água para o banho. As fam ílias travavam um a

luta constante contra as pulgas, que dificilm ente eram derrotadas. Quando um

de seus m em bros adoecia, era tratado pelos dem ais. Entretanto, com o todos

habitavam um m esm o quarto, se essa pessoa tivesse a form a pulm onar da

doença, poderia propagá-la ao tossir e expelir a bactéria. Caso fosse picada

pelas pulgas, estas se infectariam e, por sua vez, transm itiriam a doença para

os dem ais m em bros da fam ília. Os m uros das cidades lim itavam a

acom odação da população, cada vez m aior, o que aum entava a aglom eração

hum ana.

Assim , o rato foi um instrum ento fundam ental para a dissem inação da peste

bubônica no século XIV, fornecendo a bactéria em suas pulgas. Outro

instrum ento foram as cidades, que propiciaram um m eio excepcional para a

proliferação da doença. Apesar de o rato ser sem pre incrim inado nas

epidem ias de peste, a transm issão hom em para hom em tam bém foi um fator

im portante, senão o principal, na devastadora propagação. Nota-se um a

dissem inação m aior da doença pelos cam inhos da locom oção hum ana — por

exem plo, nas estradas. Isso sugere que a bactéria era levada pelos hom ens

doentes ou por suas pulgas.

Além disso, nos prim eiros seis m eses da chegada da peste bubônica, que

coincidiu com o inverno europeu — época em que as pessoas ficam m ais

aglom eradas, favorecendo as transm issões de infecção por via respiratória

—, a doença se alastrou m uito m ais velozm ente que nos m eses seguintes, de

período quente. E ainda, em Londres, a form a pulm onar predom inou no

inverno, enquanto a bubônica, transm itida m ais pela picada da pulga, na

estação quente.

As cidades m edievais acordaram num certo dia de outubro de 1347 com o se fosse um dia qualquer. A noite, os m em bros do clero coordenaram as horas pela queim a das velas ou pelo relógio de água (clepsidra). Em algum as cidades, j á havia os relógios m ecânicos nas torres, invenção do final do século anterior. Fosse qual fosse a m edição do tem po, as pessoas foram acordadas para o dia de trabalho pelos sinos das cidades. Os m ercados seriam abertos e perm aneceriam até as badaladas seguintes que com andavam seu fecham ento. O com ércio estruturado pelas corporações iniciava sua rotina. As pessoas transitavam pela rua dos padeiros, dos açougueiros, dos artesãos, pelo m ercado e assim por diante. As praças recebiam os m oradores para encontros com erciais ou sim ples conversas; alguns patíbulos, quem sabe, estariam em atividade do lado externo dos m uros, assim com o alguns pelourinhos. Em algum as cidades, artesãos experim entavam a novidade dos óculos inventados no final do século anterior, em Pisa, até finalm ente acharem as lentes que possibilitariam m elhor visão para o trabalho. Nesse im preciso dia, os europeus ainda não sabiam que um navio genovês rum ava à ilha da Sicília, e que m udaria a história de suas cidades.

OSPRIMEIROS CASOS

 

As em barcações genovesas chegaram às cidades litorâneas do Mediterrâneo. A prim eira a notar o aparecim ento de um a nova doença que fazia sucum bir a população, com grande núm ero de m ortos, foi Messina, na Sicília, no final de 1347. A seguir, outras cidades conheceram a crueldade daquela doença. Sicília, Gênova e Veneza foram as portas de entrada da peste bubônica na Europa. Na época da chegada daquele m al, os habitantes europeus viviam m om entos difíceis. Na transição do século XIII para o XIV, a Europa tinha um a superpopulação em razão do crescim ento dem ográfico dos séculos anteriores. Não havia m ais terras para o plantio, sendo im possível, assim , aum entar a produtividade de alim entos. A situação piorou num prim eiro instante, com um a m udança clim ática na Europa. Dim inuiu a tem peratura do continente e am pliaram -se as áreas de geleiras no norte. Além de não ter novos espaços para plantar, a população foi privada de regiões da Escandinávia e da Inglaterra. As colheitas supriam suas necessidades alim entares de form a j usta, sem excedentes para arm azenar, o que ocasionava expectativa da população por um a boa safra e pavor de fenôm enos naturais que acarretassem m á colheita e, portanto, fom e. Dessa form a, a Europa entrou no século XIV enfrentando as prim eiras grandes fom es. As piores ocorreram nos anos de 1315 a 1317, quando grande parte da população de determ inadas localidades m orreu em decorrência da falta de com ida e de surtos de diarréia. Algum as cidades perderam 5% a 10% de seus

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habitantes, com oYpres e Bruges. Na França, alterações clim áticas eram

responsáveis por m á safra, o que levou às grandes fom es de 1338 e 1343. Para agravar a situação agrária, em 1337, um a década antes da chegada da peste bubônica, com eçou a guerra entre a França e a Inglaterra, aquela que seria a Guerra dos Cem Anos. Com esse conflito, a Europa perdeu m ais terrenos aráveis e ficou suj eita às calam idades da fom e.

As colheitas na véspera da entrada da peste bubônica não foram satisfatórias e houve grande fom e na Inglaterra, Itália, Áustria e Alem anha. Foi nesse m om ento de crise agrária, com boa parte da população desnutrida, predisposta a doenças, que a peste bubônica chegou. Alguns autores apontam essa situação de fragilidade dos habitantes com o fator contribuinte para a alta m ortalidade ocasionada pela peste bubônica na Europa, onde a doença m atou cerca de um terço da população em apenas três anos.

Apavorados com as noticias sobre as cidades do sul, que registravam um grande núm ero de m ortes em tão pouco tem po, os europeus ouviam falar da m esm a doença por notícias do leste asiático. A peste bubônica cam inhou para as cidades do norte, e a Itália foi um dos prim eiros países que alcançou. Suas cidades, atingidas um a a um a, sem piedade, sofreram um a das m aiores m ortandades por epidem ia ocorridas na Europa. Perderam m etade dos seus habitantes — e j am ais desconfiaram de que as dezenas de ratos em suas casas, que se alim entavam nas soleiras das portas, eram portadores de tam anho m al; j am ais suspeitaram de que, ao se aglom erar nos leitos dos quartos com os fam iliares, um a pessoa poderia estar passando a peste bubônica para as dem ais. Em j aneiro de 1348, a doença j á alcançava as localidades do norte da Itália. Em Pisa, m orriam quinhentas pessoas por dia. A construção da grande Catedral de Siena, que seria a m aior do m undo, foi paralisada por falta de m ão-de-obra, um a vez que m etade de sua população m orrera. As grandes cidades, com m ais de cem m il habitantes — Florença, Veneza e Gênova —, perderam de um a dois terços de sua população. Os m oradores abastados buscavam refúgio em vilas fora da cidade para esperar a passagem daquele m al que acreditavam ser transm itido pelo ar.

Dessa form a, um grupo de dez m oradores de Florença ficou isolado fora da cidade por dez dias, contando histórias uns para os outros e concluindo, assim , o grande clássico de Bocaccio, Decameron. Em Veneza, ocorreu o pavor de a peste bubônica chegar nas em barcações procedentes do Mediterrâneo, e a adm inistração urbana decidiu que todas elas perm anecessem isoladas na baia por quarenta dias antes que seus ocupantes pudessem desem barcar — nascia assim a "quarentena". Quando a doença atingiu Pisa e Luca, os m oradores de Pistóia foram im pedidos de regressar à sua cidade por ordem dos órgãos m unicipais. De j aneiro a m arço de 1348, a peste bubônica entrou na França por Marselha, alastrou-se pela região do Languedoc, atingiu Avignon e a Espanha; em j ulho, alcançou Paris e a Norm andia. Na chegada da peste bubônica à França, até o Papa Clem ente VI ficou isolado em seus aposentos, próxim o da lareira, sob a orientação de seu m édico Guy de Chauliac. Esse país tam bém não foi poupado: m orriam cerca de quatrocentas pessoas por dia em Avignon, e m etade da população foi exterm inada. Os dias am anheciam com filas de cadáveres às portas das casas e nas ruas. Os m ortos eram então colocados em carroças lotadas e transportados aos cem itérios. Posteriorm ente, passaram a ser j ogados nos rios. Paris, com m ais de cem m il habitantes, viu m etade da sua população sum ir pela doença: os cem itérios não podiam receber os oitocentos cadáveres que apareciam todos os dias. Os habitantes da cidade assustavam -se diante da possibilidade de um a m orte fulm inante, que não lhes perm itisse sequer fazer suas confissões e os levasse a ser enterrados sem orações. O papa sentiu-se obrigado a decretar o perdão a todos os que m orressem em decorrência da peste bubônica.

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Em m eados de 1348, a doença foi levada da França para a Inglaterra, e da Itália, atravessando os Alpes, chegou às regiões da Suíça e da Hungria. Em Londres, foram construídas fossas para enterros coletivos, os bispos autorizavam as confissões m útuas entre leigos nos m om entos que precediam o fim inevitável. Vilas inglesas deixaram de existir, e até hoj e se vêem suas ruínas nos terrenos em que um dia foram erguidas. Em 1349, a peste bubônica com pletava sua m igração ao atingir a Escócia, a Irlanda, os Países Baixos, a Noruega, a Suécia e, finalm ente, a Rússia.

Um a a um a, as cidades eram tom adas pela nuvem negra da m ortandade que se dissem inava pela Europa; nos prim eiros seis m eses, no inverno, alcançou o norte da França e o leste na Península Ibérica, e, em dois anos, havia atingido todo o continente. As cidades viam os habitantes sucum birem à doença em proporções nunca im aginadas. As m ortes variaram de um oitavo a dois terços da população das cidades. Ao todo, a Europa perdeu um terço de seus habitantes. Estim a-se que a peste bubônica tenha m atado vinte m ilhões de pessoas.

POR VONTADE DE...

 

A população em desespero nunca tivera relato de nada igual, cabendo à Igrej a orientá-la quanto às explicações e m étodos para evitar o m al. Segundo os m em bros do clero, a peste era decorrente de castigo enviado por Deus para punir os pecados da hum anidade. Deus a enviou enraivecido pela quantidade de blasfêm ia, avareza, usura, luxúria, cobiça e falsidade com etidas pelos m ortais. Aum entaram assim as penitências na tentativa de evitar o castigo. Várias pinturas, tem pos depois, reproduziam a figura de Deus a lançar flechas com a doença na hum anidade. O caráter súbito do castigo era representado com a queda de pessoas em contato com doentes, com o m édicos, carregadores de caixão e fam iliares. Essas pinturas repetiram -se nos séculos seguintes. A Europa buscou em São Sebastião a salvação para a peste bubônica. Esse santo havia resistido à m orte pelas flechas dos arqueiros rom anos do Im perador Dioclesiano, m as foi executado depois de se restabelecer, tornando-se m ártir cristão. A população acreditava que São Sebastião afastava as flechas da peste bubônica enviadas por Deus e o prom oveu protetor contra a doença; ele assim perm aneceria pelos séculos seguintes. Os serm ões proliferavam , bem com o o culto ao santo protetor. As ruas das cidades testem unhavam constantes procissões de desesperados na tentativa de conter a ira de Deus. Entre as pessoas que não fugiram da peste destacaram -se aquelas que perm aneceram exercendo seu papel na com unidade, m em bros do clero e dos conselhos m unicipais. Algum as delas continuaram aglom eradas e enclausuradas, e assim foram vítim as do m al. Todos os agostinianos de Avignon m orreram , bem com o todos os franciscanos de Carcassonne e Marselha, que eram em torno de 150. Dos 160 franciscanos de Maguelone, 153 m orreram ; em Montpellier, sobraram apenas sete franciscanos dos 140 ali existentes. A doença dissem inava-se pelos m osteiros: entre os padres, perecia um em cada três e, entre os bispos, um em cada vinte.

A Igrej a foi obrigada a adm inistrar a onda de autopunição que se alastrou pela Europa. Iniciou-se com grupos de flagelantes, entre duzentas e trezentas pessoas, que entravam nas cidades e pregavam a auto-flagelação com chicotes de couro que tinham pontas de ferro e faziam sangrar as costas. Sem se alim entar e dorm indo ao relento, essas pessoas pregavam a punição com o form a de pagar os pecados com etidos e fazer cessar a ira de Deus. Essa prática ganhou adeptos nos lugares por onde os flagelantes passaram fazendo pregações e condenando condutas da Igrej a, o que ocasionou sua repressão. Em m eio ao caos a que os conselhos m unicipais tentavam pôr fim , esses m em bros da adm inistração tinham de lidar com suas próprias baixas. Veneza e Ham burgo perderam cerca de 70% dos m em bros de seu conselho; Montpellier, 83%; em Béziers, todo o conselho m unicipal foi dizim ado pela doença.

Continuar: parte 2 de 5