A História Secreta da Criatividade
Capítulo 8 | Crie organizações
8
CRIE ORGANIZAÇÕES
1 | KELLY
Em janeiro de 1944, Milo Burcham caminhou por uma pista de
pouso no deserto de Mojave, na Califórnia, e subiu num avião
chamado Lulu Belle. O Lulu Belle parecia um inseto: verde
brilhante com asas curtas e sem hélices. Um grupo de
homens usando sobretudos assistia àquilo em silêncio.
Burcham deu a partida no motor, um de Havilland Goblin vindo
da Inglaterra – o único de seu tipo no mundo –, lançou um
olhar malicioso para a plateia e acelerou rumo ao céu.
Quando alcançou 807 quilômetros por hora, baixou o Lulu
Belle e o fez voar tão perto dos homens que pôde ver seus
rostos atemorizados. Eles ainda o olhavam atônitos quando
Burcham pousou e abriu o cockpit. Saiu do avião como se
tivesse acabado de voltar de uma caminhada pelo parque. E
então os homens começaram a gritar e correram para ele,
uivando e batendo palmas como se nunca tivessem visto um
avião. Burcham abriu um sorriso do tamanho do céu. Era o
primeiro voo do Lulu Belle. Nenhum avião americano tinha
voado tão rápido antes.
O nome oficial do Lulu Belle era “Lockheed P-80 Shooting
Star”. Foi o primeiro caça a jato dos Estados Unidos. Fazia 40
anos desde o primeiro voo dos irmãos Wright em Kitty Hawk e
143 dias desde que o P-80 fora concebido.
Se a criação é mais bem feita por pessoas sozinhas com
motivação intrínseca e livre escolha, como as equipes criativas trabalham? Como alguém pode construir uma
organização que crie?
A equipe que construiu o P-80 no auge da Segunda
Guerra Mundial estava diante de um problema difícil: construir
um avião a jato que pudesse lutar, e construí-lo depressa. A
urgência era questão de vida ou morte. Em 1943, os
decifradores de códigos ingleses tinham descoberto uma
coisa horrível: os engenheiros de Hitler haviam construído um
caça a jato com velocidade máxima de 965 quilômetros por
hora. O avião, chamado de Messerschmitt Me 262 Schwalbe,
ou Andorinha, era ágil e altamente manobrável, apesar de
carregar quatro metralhadoras, foguetes e, se necessário,
bombas. Estava sendo produzido em massa. Faria a morte
chover na Europa no início de 1944. Os nazistas estavam
vencendo um novo tipo de guerra: uma guerra no céu, usando
tecnologias inconcebíveis até alguns anos antes.
O homem que liderou a equipe para enfrentar a ameaça
do Messerschmitt foi Clarence Johnson, um engenheiro
conhecido por todos como “Kelly”. A urgência e a
complexidade do desafio não eram os únicos problemas de
Johnson – o governo dos Estados Unidos também tinha
certeza de que espiões alemães estavam escutando suas
comunicações. Johnson precisou, então, construir um
laboratório secreto, utilizando caixas velhas e uma tenda de
lona alugada de um circo, escondendo-a perto de um túnel de
vento na fábrica da Lockheed em Burbank, Califórnia. Não
podia contratar secretárias nem faxineiros e seus engenheiros
não podiam contar a ninguém, nem às famílias, o que
estavam fazendo. Um engenheiro chamou o lugar de “Skonk
Works” por causa de uma fábrica clandestina que moía
gambás e sapatos para fazer óleo numa popular tira de
quadrinhos chamada Li’l Abner (Ferdinando, ou Família
Buscapé, no Brasil). O nome pegou até muito tempo depois
da guerra e, quando o segredo foi revelado, o editor dos
quadrinhos fez a Lockheed mudar o nome. A partir de então, a
operação, que tecnicamente era a divisão de projetos
avançados da Lockheed, foi chamada de “Skunk Works”.
As circunstâncias do trabalho de Kelly Johnson, que
pareciam adversas, acabaram sendo fortuitas – ele descobriu
que um grupo pequeno, isolado e altamente motivado é o
melhor tipo de equipe para criação. Os militares deram a
Johnson e sua equipe seis meses para projetar o primeiro
caça a jato dos Estados Unidos. Eles precisaram de menos de
cinco. O P-80 foi o primeiro avião desenvolvido pelos
engenheiros da Skunk Works. E eles continuaram e
inventaram o supersônico F-104 Star Fighter; o avião de
vigilância U-2; o avião de vigilância Blackbird, que voava a
três vezes a velocidade do som; e aeronaves que podiam
escapar da detecção dos radares. Além de criar aviões,
Johnson criou outra coisa: uma organização-modelo para
alcançar o impossível rapidamente.
2 | MOSTRE-ME
Kelly Johnson começou a trabalhar na Lockheed em 1933.
Era uma pequena fábrica de aeroplanos com apenas cinco
engenheiros, restruturando-se depois da falência e lutando
para competir com duas companhias muito maiores: a Boeing
e a Douglas (mais tarde McDonnell Douglas). O primeiro dia
de Johnson na Lockheed poderia ter sido o último. Sua
contratação acontecera, em parte, porque, como aluno da
Universidade de Michigan, ajudara a testar o novo avião da
Lockheed, o Model 10 Electra, totalmente feito de metal, no
túnel de vento da universidade. Seu professor, Edward
Stalker, chefe do departamento de engenharia aeronáutica da
universidade, tinha feito um bom relatório sobre o Electra.
Johnson discordou. Com apenas um dia na Lockheed, o rapaz
de 23 anos que havia acabado de receber seu diploma em
aeronáutica e fora contratado não como engenheiro, e sim
para fazer desenhos técnicos, disse:
Eu anunciei que o novo avião, o primeiro projetado
pela empresa reorganizada e aquele em que se
baseavam suas esperanças para o futuro, não tinha
um bom projeto; na verdade, era instável. Eles
ficaram um tanto abalados. Esse não é o modo
convencional de iniciar num emprego. Na realidade,
foi muita presunção minha criticar meus professores
e projetistas experientes.
Hoje em dia, há poucas empresas onde esse seria um
bom passo para a carreira. Na década de 1930 provavelmente
havia menos ainda. O que aconteceu em seguida quase
explica por si só o sucesso da Lockheed.
O chefe de Johnson era Hall Hibbard, o engenheiro-chefe
da Lockheed. O diploma de engenharia aeronáutica de
Hibbard era do Instituto de Tecnologia de Massachusetts, que
tanto na época quanto hoje é uma das melhores escolas de
engenharia do mundo. Ele queria o que chamava de “sangue
novo e jovem” – pessoas que tivessem “acabado de sair da
escola com ideias mais novas”. Hibbard contou: “Quando
Johnson me falou que o avião que tínhamos acabado de
mandar para o túnel de vento da universidade não era bom e
que era instável em todas as direções, fiquei meio abalado. E
não tive muita certeza de que deveríamos contratar o sujeito.
Mas então pensei melhor. Afinal de contas, ele vinha de uma
boa escola e parecia inteligente. E decidi: vamos nos arriscar.”
Em vez de demitir Johnson por insolência, Hibbard
mandou-o em sua primeira viagem profissional, dizendo:
“Kelly, você criticou esse relatório do túnel de vento sobre o
Electra, assinado por duas pessoas de grande conhecimento.
Volte e veja se consegue fazer algo melhor com o avião.”
Johnson dirigiu 3.800 quilômetros até Michigan com um
modelo do Electra equilibrado na traseira do carro. Testou-o
72 vezes no túnel de vento até resolver o problema com uma
incomum cauda “gêmea”, que tinha uma barbatana de cada
lado da aeronave e nada no centro.
A reação de Hibbard à nova ideia foi trabalhar até tarde
escrevendo uma carta para Johnson:
Caro Johnson,
Você terá que desculpar a datilografia, já que estou
escrevendo tarde da noite aqui da fábrica e esta
máquina de escrever não é muito boa.
Pode ter certeza de que houve uma grande
comemoração quando recebemos seus telegramas
contando sobre a nova barbatana e como a solução
foi realmente simples. Aparentemente é uma
descoberta muito importante e acho ótimo que tenha
sido você a desvendar o segredo. Desnecessário
dizer que o acréscimo dessas partes é uma questão
muito fácil; e acho que vamos esperar até você
voltar, talvez, antes de fazer muita coisa nessa linha.
Bom, vou parar agora. Acho que você vai ficar
bem surpreso com o Electra quando chegar aqui. Ele
está ficando muito bom.
Sinceramente,
Hibbard.
Quando Johnson voltou à Lockheed, descobriu que fora
promovido. Agora era o sexto engenheiro da empresa.
A história da Skunk Works – o primeiro caça a jato
americano, suas aeronaves supersônicas, a tecnologia
invisível ao radar e qualquer outra coisa que possa vir em
seguida – começou com aquele ato único. Em qualquer outra
companhia, ou falando com praticamente qualquer outro
administrador, Johnson seria expulso da sala e demitido.
Aquilo foi puro instinto de Hibbard. Mas Hibbard tinha uma
característica rara: era intelectualmente seguro.
As pessoas intelectualmente seguras não precisam
mostrar a ninguém como são inteligentes. São empíricas e
enxergam a verdade. As pessoas intelectualmente inseguras precisam mostrar a todo mundo como são inteligentes. Elas
são egoístas e buscam o triunfo.
A segurança intelectual não tem relação com o intelecto.
Os indivíduos que são mais hábeis com as mãos do que com
a mente costumam ser intelectualmente seguros. Eles sabem
o que sabem e gostam de pessoas que sabem mais. Em geral
as pessoas brilhantes também são intelectualmente seguras –
e pelo mesmo motivo.
A insegurança intelectual é encontrada mais comumente
no resto de nós: indivíduos medianos. Não somente somos a
vasta maioria, como também somos as pessoas com mais
probabilidades de chegar a um cargo de administração. As
pessoas que são principalmente hábeis com as mãos não se
interessam mais pela administração do que os premiados com
o Nobel. Em resultado, a maioria dos administradores e
executivos é intelectualmente insegura. Hall Hibbard era
incomum, e estava no lugar certo na hora certa.
A reação de Hibbard à afirmação ousada de seu novo
funcionário, de que o avião da Lockheed não prestava, foi
perfeita. Uma das coisas mais poderosas que um
administrador pode dizer é “Mostre-me”.
Frank Filipetti, produtor musical que trabalha com artistas
como Foreigner, Kiss, Barbra Streisand, George Michael e
James Taylor, usa o “mostre-me” para administrar conflitos
criativos no estúdio de gravação:
Quando você está lidando com um processo criativo,
sempre há ego envolvido. Tenho uma filosofia: jamais
quero entrar numa discussão ou debater sobre como
alguma coisa vai soar. Já tive pessoas sentando-se
aqui e dizendo por que não vai funcionar colocar os
backings no primeiro refrão, e elas expõem isso
durante trinta minutos, quando tudo que é necessário
é tocar aquela porcaria para a gente ouvir. E na
maioria das vezes todo mundo concorda assim que
ouve. Mas elas têm que discutir sem ouvir. Você
pode intelectualizar todo esse negócio até ficar azul,
mas o resultado final é o som, e às vezes isso pode
surpreender a gente. Houve ocasiões em que
acreditei que estava absolutamente certo e que
aquilo que queriam fazer não ficaria bom de jeito
nenhum; então parei, escutei e precisei admitir: “Na
verdade isso está muito bom.” Quando a gente chega
ao estágio em que diz “Vamos simplesmente tocar”, é
incrível como todo mundo de fato escuta a mesma
coisa. E isso tira essa coisa de ego, também.
A carta de Hibbard foi o equivalente a “Na verdade isso
está muito bom”. Ela significou tanto para Johnson que ele a
guardou durante toda a vida.
3 | A VERDADE E A COLA
Em novembro de 1960, Robert Galambos deduziu algo. Disse
em voz alta, para ninguém em particular: “Sei como o cérebro
funciona.”
Uma semana depois, Galambos apresentou a ideia a
David Rioch, seu gerente nos últimos dez anos. A reunião foi
ruim. Rioch não disse “Mostre-me”. Na verdade, a ideia de
Galambos deixou Rioch com raiva. Ele ordenou que
Galambos não falasse aquilo em público nem escrevesse a
respeito e previu que a carreira dele estava acabada. E quase
acabou mesmo: em poucos meses Galambos precisou
procurar um emprego novo.
Os dois eram neurocientistas do Instituto de Pesquisa
Walter Reed, pertencente ao Exército, em Silver Spring,
Maryland. Tinham trabalhado juntos durante uma década,
tentando entender como o cérebro funciona e como consertá-
lo. Eles e seus colegas haviam tornado o Walter Reed um dos
centros de neurociência mais respeitados e prestigiosos.
Galambos, na época com 46 anos, era mais do que apenas
um neurocientista competente – também era famoso. Quando era pesquisador em Harvard, tinha provado conclusivamente,
pela primeira vez, com a colaboração de Donald Griffin, que
os morcegos usam ecolocalização para “enxergar no escuro”
– uma descoberta radical que não foi aceita de imediato por
especialistas, mas que agora é aceita sem contestação.
Apesar de sua reputação e da longa história de trabalho
conjunto bem-sucedido, Rioch rapidamente forçou Galambos
a sair do emprego por causa de sua nova ideia. Seis meses
depois, Galambos deixou o Walter Reed para sempre.
A ideia de Galambos era aparentemente simples: sua
hipótese era de que células chamadas de “glia” são cruciais
na função cerebral. Quarenta por cento de todas as células do
cérebro são glia, mas em 1960 presumia-se que elas não
faziam nada além de segurar as outras células mais
importantes e talvez sustentá-las e protegê-las. Essa
suposição estava até mesmo em seu nome: a palavra glia
significa “cola” em grego medieval.
O problema de Rioch com a ideia de Galambos remonta a
um espanhol do século XIX, Santiago Ramón y Cajal. Cajal foi
um cientista ganhador do Prêmio Nobel e figura central no
desenvolvimento da ciência cerebral moderna. Por volta de
1899, ele concluiu que um tipo específico de célula
eletricamente excitável era a unidade crítica para o
funcionamento do cérebro. Chamou esse tipo de célula de
“neurônio”, a partir da palavra grega que significa “nervo”. Sua
ideia passou a ser conhecida como a “doutrina neuronal de
Cajal”. Em 1960, todo mundo da área acreditava nela. Como
acontecia com a glia, a ideia estava bem ali, no nome – depois
de Cajal o estudo do cérebro passou a ser conhecido como
“neurociência”. A ideia de Robert Galambos, de que as células
gliais tinham um papel igualmente importante no
funcionamento do cérebro, desafiava o que todo
neurocientista, incluindo Dave Rioch, havia acreditado durante
toda a carreira. Ela questionava os fundamentos da área,
arriscava-se a provocar uma revolução e ameaçava o império
do neurônio. Rioch sentiu o risco e tentou calar Galambos.
Desde esse confronto, a ideia de Galambos se tornou
amplamente aceita. Os cientistas não são mais demitidos por
terem ideias sobre as células gliais. Provavelmente são
promovidos. Há cada vez mais provas de que Galambos
estava certo e que elas representam um papel vital na
sinalização e na comunicação dentro do cérebro. Elas
secretam fluidos com propósitos ainda desconhecidos e
podem ter uma influência crucial em doenças do cérebro,
como o mal de Alzheimer. Um tipo de glia, as células em
forma de estrela chamadas astrócitos podem ser sinalizadores
mais sensíveis do que os neurônios. Cinquenta anos depois
do confronto de Galambos com Rioch, uma resenha científica
concluiu: “É possível que os papéis mais importantes das glias
ainda precisem ser imaginados.”
O fato de Galambos acabar estando certo não é o que
importa. As organizações não deveriam funcionar desse
modo. O pensamento brilhante e inovador deveria ser
encorajado. Galambos e sua ideia deveriam e poderiam ter
criado um ambiente totalmente novo de férteis oportunidades
de pesquisa. Em vez disso, descobertas importantes sobre as
células gliais e o cérebro foram adiadas por décadas. Hoje
estamos aprendendo coisas que poderíamos ter descoberto
na década de 1970. Então por que um cientista notável como
David Rioch se deixaria levar pela raiva por uma ideia
proposta por um cientista igualmente notável como Robert
Galambos?
O problema não era Rioch. A história de Robert
Galambos é típica – acontece na grande maioria das
organizações quase o tempo todo. A de Kelly Johnson não é.
Os dois homens são exemplos do que os estudiosos da
administração Larry Downes e Paul Nunes chamam de
“contadores da verdade”:
Os contadores da verdade são apaixonados por
resolver problemas. Eles pegam no pé dos outros
falando sem parar de sua visão e, como resultado,
raramente ficam muito tempo em uma empresa. Não
são funcionários-modelo – sua lealdade é com o
futuro, e não com os lucros do próximo trimestre.
Eles podem dizer o que virá, mas não
necessariamente quando ou como. Os contadores da
verdade costumam ser excêntricos e difíceis de ser
administrados. Falam uma língua estranha, que não
é centrada na fala empresarial educada. Aprender a
encontrá-los é difícil. Aprender a entendê-los e
apreciar seu valor é mais difícil ainda.
Os contadores da verdade são como as glias das
organizações: desconsiderados durante muito tempo, mas
essenciais para a regeneração. Eles não são muito populares.
A verdade é, com frequência, incômoda e mal recebida, assim
como as pessoas que a dizem.
Como vimos em nossas discussões sobre rejeição, os
confrontos sobre ideias estão entranhados na natureza
humana. A principal característica de uma organização criativa
é ser muito mais receptiva aos novos pensamentos do que o
mundo em geral. Uma organização criativa não se ressente
dos conflitos sobre os conceitos; ela os soluciona. No entanto,
a maioria das organizações não é como a Lockheed – é como
o Walter Reed. De modo que a maior parte dos contadores da
verdade não é tratada como Kelly Johnson – é tratada como
Robert Galambos. Não entramos num mundo acolhedor
quando temos o dom das grandes ideias. As grandes ideias
são grandes ameaças.
4 | SEJA RÁPIDO, SEJA SILENCIOSO, SEJA PONTUAL
O lema de Kelly Johnson era “Seja rápido, seja silencioso,
seja pontual”. Isso nunca foi mais importante do que quando
lhe pediram que construísse o Lulu Belle, o primeiro caça a
jato dos Estados Unidos. O Lulu Belle não somente voava
mais rápido do que os outros aviões como também foi projetado e desenvolvido mais rapidamente do que os outros
aviões. Isso era necessário: o futuro do mundo livre dependia
dele.
Durante a Segunda Guerra Mundial, os aviões ficaram
mais velozes, até alcançarem um limite misterioso: quando
chegavam a 800 quilômetros por hora saíam do controle ou se
despedaçavam. A Lockheed experimentou esse problema
pela primeira vez com seu caça P-38 Lightning, que era tão
eficaz que os alemães o denominavam “diabo da cauda
bifurcada” e os japoneses o chamavam de “dois aviões, um
piloto”. Vários pilotos de testes da Lockheed morreram
tentando levar o P-38 para além dos 800 quilômetros por hora.
Tony LeVier, um dos maiores pilotos de testes da Lockheed,
disse que quando uma aeronave alcançava essa velocidade
parecia que “uma mão gigantesca sacudia o avião tirando-o
do controle do piloto”. O problema era tão sério que não podia
ser explorado experimentalmente: em altas velocidades os
modelos de avião eram jogados de um lado para outro com
tanta violência que podiam danificar o túnel de vento.
Enquanto Johnson e sua equipe trabalhavam para
entender esse problema, descobriram algo alarmante: os
nazistas já o haviam solucionado.
Em 27 de agosto de 1939, quatro dias antes do início da
Segunda Guerra Mundial, um avião chamado de Heinkel He
178 decolou de Rostock, no litoral norte da Alemanha, e voou
sobre o mar Báltico. O 178 era notável porque não possuía
hélices. Em vez disso, tinha algo que nenhum avião anterior já
tivera: um motor a jato.
Os aviões criam ondas no ar. As ondas viajam à
velocidade do som. Quanto mais rápido o avião voa, mais
próximas as ondas ficam, até que começam a se fundir. Em
aerodinâmica, essa fusão é chamada de “compressibilidade”.
A compressibilidade cria uma parede de tijolos contra a qual
os aviões voam quando estão a cerca de 800 quilômetros por
hora – mas só se tiverem hélices.
Os motores a jato empurram o ar através de um funil.
Quando o ar é forçado pela parte de trás do motor, uma reação igual e oposta empurra o avião para a frente. Os
aviões a jato não voam contra a parede da compressibilidade;
eles a empurram para longe. Os novos Messerschmitts a jato
da Alemanha, descendentes do He 178, poderiam manobrar
melhor, e provavelmente destruir, qualquer outro avião no céu,
a não ser que os Aliados também desenvolvessem um caça a
jato.
Kelly Johnson quisera construir um avião a jato para as
Forças Aéreas do Exército dos Estados Unidos,
predecessoras da Força Aérea dos Estados Unidos, assim
que ficou sabendo sobre o He 178, mas as Forças Aéreas
disseram que em vez disso ele deveria tornar os aviões
existentes mais rápidos. Somente muito mais tarde, quando
descobriram a iminente introdução dos Messerschmitts a jato
pela Alemanha, os comandantes americanos entenderam que
construir um jato era o único modo de fazer os aviões voarem
mais rápido.
Os ingleses haviam desenvolvido um motor a jato, mas
colocá-lo num avião existente era ineficaz. Os motores a jato
precisavam de uma aeronave totalmente nova. E assim, em 8
de junho de 1943, exatamente às 13h30, as Forças Aéreas do
Exército dos Estados Unidos assinaram com a Lockheed um
contrato para construir um caça a jato e foi estipulado que
teriam apenas 180 dias para fazê-lo.
Nem mesmo Kelly Johnson sabia se poderia vencer esse
desafio. A Lockheed já construía 28 aviões por dia,
trabalhando em três turnos diários, com exceção dos
domingos. A companhia não possuía capacidade de
engenharia extra, não tinha espaço extra e seu equipamento
estava em uso constante. O presidente da Lockheed, Robert
Gross, disse a Johnson: “Foi você que arranjou isso, Kelly. Vá
em frente e faça. Mas você precisa montar seu próprio
departamento de engenharia e seu pessoal de produção e
resolver onde colocar esse projeto.”
Essas limitações aparentemente impossíveis de
ultrapassar nos deram a organização criativa modelo.
Johnson acreditava que os engenheiros deveriam ficar
muito próximos da ação, por isso usou a falta de capacidade
extra da Lockheed como desculpa para montar uma
organização “magra”, onde os músculos de sua equipe –
projetistas, engenheiros e mecânicos – tinham ligação direta
uns com os outros, sem a “gordura” de gerentes e de pessoal
administrativo mantendo-os separados.
A falta de espaço extra, aliada à necessidade de alta
segurança, deu-lhe o pretexto para montar uma organização
isolada, incomunicável. Ninguém mais tinha permissão de
entrar no “prédio” feito de caixas e lona da Skunk Works. Além
de manter o projeto em sigilo, isso trazia outro benefício: os
segredos compartilhados e o espaço de trabalho exclusivo
davam um elo único à equipe.
Dentro da tenda, um “calendário placar” fazia a contagem
regressiva dos 180 dias, mantendo todo mundo focado no
recurso mais precioso da criação: o tempo.
Com o avançar do projeto, os desafios cresceram:
metade da equipe ficou doente por causa do excesso de
trabalho, do prédio improvisado praticamente sem
aquecimento e do inverno mais frio do que o usual. Eles
precisavam construir o avião sem nunca terem visto o motor.
O motor fora enviado da Inglaterra, mas o especialista que o
trouxe em segredo, quando não pôde explicar por que estava
nos Estados Unidos, foi preso por suspeita de espionagem.
Então, um dia antes de o avião ser programado para voar, o
motor explodiu. Não houve opção a não ser esperar outro – o
único sobressalente que existia.
A organização deu resultado. Apesar de todos os
obstáculos, a Skunk Works conseguiu terminar o projeto antes
do prazo e o Lulu Belle voou pela primeira vez.
5 | O SEGREDO DE BETO E ÊNIO
Mike Oznowicz e sua mulher, Frances, escaparam dos
nazistas duas vezes durante a década de 1930. Primeiro fugiram da Holanda para o norte da África e depois, quando a
guerra os acompanhou, deixaram a África e seguiram para a
Inglaterra. Tiveram dois filhos enquanto estavam na Inglaterra;
o segundo, Frank, nasceu na cidade-alojamento de Hereford,
em maio de 1944. Em 1951, Mike e Frances gastaram seus
últimos dólares levando a família para os Estados Unidos e
acabaram se estabelecendo na Califórnia, onde Mike
encontrou trabalho como vitrinista.
A paixão de Mike e Frances eram os fantoches. Ambos
eram membros ativos da Puppeteers of America, uma
organização sem fins lucrativos fundada em 1937 para ajudar
a promover e melhorar a arte do teatro de bonecos. Em 1960,
o Festival Anual de Bonecos da Puppeteers aconteceu em
Detroit, Michigan. Mike e Frances ficaram amigos de um
jovem, chamado Jim Henson, que ia pela primeira vez ao
festival. Henson, com a mulher e a filha de três meses, dirigira
800 quilômetros desde sua casa em Bethesda, Maryland, num
Rolls-Royce Silver Shadow, para comparecer ao evento. Um
dia, um amigo dirigiu o Rolls-Royce por Detroit enquanto
Henson manipulava, através do teto solar, um boneco de luva
em forma de sapo que ele chamava de “Caco” (ou “Kermit”).
Henson se tornou íntimo dos Oznowicz. Em 1961, quando
o Festival de Bonecos aconteceu em Pacific Grove, Califórnia,
eles o apresentaram ao seu filho Frank, que tinha acabado de
completar 17 anos. Frank, hábil manipulador de marionetes,
venceu o concurso de talentos do festival – mesmo preferindo
o beisebol e, segundo ele próprio, sendo praticante do teatro
de bonecos só porque era filho de uma família de titereiros.
Henson estava fazendo sucesso com comerciais para a
TV usando um novo estilo de bonecos chamado de “Muppets”
e, achando que Frank tinha grande talento, quis contratá-lo. A
princípio Frank recusou – queria ser jornalista, e não lidar com
bonecos, e afinal tinha apenas 17 anos. Mas havia algo em
Jim Henson, e na reunião, que ele não pôde esquecer: “Jim
era um cara muito quieto, tímido, que fazia uns bonecos
sensacionais, totalmente novos e revigorantes, que nunca
tinham sido feitos antes.”
Depois de terminar o ensino médio, Frank concordou em
aceitar um cargo de meio expediente na companhia de
Henson, a Muppets, Inc., e também se matriculou na City
College de Nova York para ter uma formação. Mas depois de
dois semestres parou de ir à faculdade e começou a trabalhar
em tempo integral com Henson. Frank conta: “O que estava
acontecendo com os Muppets era empolgante demais.”
Em 1963, quando Frank se juntou a Henson, os Muppets
estavam indo além dos comerciais. Um cantor popular de
música country, chamado Jimmy Dean, planejava um
programa de variedades para a rede de televisão ABC e quis
que Henson fornecesse um boneco para o programa. Henson
criou Rowlf, um cachorro marrom de orelhas caídas. Rowlf
chegou a ter oito minutos no ar em cada episódio, roubando
com frequência a cena de Dean, e recebia milhares de cartas
de fãs a cada semana.
Rowlf era um “Muppet de luva em dupla”. Alguns
Muppets, como o Sapo Caco, são “Muppets de luva e vara”:
um único manipulador coloca uma das mãos na cabeça do
Muppet e usa a outra para manipular as mãos do Muppet
usando varas. Os bonecos de luva em dupla precisam de dois
manipuladores: um coloca uma das mãos, geralmente a
direita, na cabeça do Muppet e a outra na mão esquerda, em
forma de luva. Um segundo manipulador coloca a mão direita
na mão direita do Muppet. Os dois manipuladores ficam perto
um do outro e devem pensar e se mover como um só. Henson
fazia a voz de Rowlf, a cabeça, a boca e a mão esquerda;
Frank era a mão direita de Rowlf. Uma noite, Jimmy Dean, o
anfitrião do programa, empacou ao dizer “Oznowicz” no ar e
acidentalmente deu a Frank um nome mais mágico: Oz.
Oz e Henson estavam no início do que iria se tornar uma
poderosa parceria criativa.
Alguns anos depois – em parte por causa de Rowlf –
Henson, Oz e o resto da Muppets, Inc. foram recrutados para
fazer parte de uma nova série de TV para crianças que seria
chamada de Vila Sésamo.
Enquanto se preparavam para o primeiro programa,
Henson e Oz encontraram, na sala de ensaio, dois novos
Muppets, feitos e projetados pelo mestre de bonecos Don
Sahlin, construtor de Rowlf. Um deles era um boneco de luva
e vara alto, com uma cabeça amarela e comprida como uma
bola de futebol americano e uma sobrancelha longa e grossa.
O outro era o oposto, um boneco de luva em dupla pequeno,
com uma cabeça laranja e atarracada, sem sobrancelhas e
com um tufo de cabelos pretos.
Henson pegou o boneco amarelo e Oz o laranja, tentando
descobrir os personagens que habitavam neles. Os bonecos
pareciam errados. Os dois trocaram. Henson pegou o laranja
e baixo com cabelo de gato espantado; Oz pegou o alto com a
sobrancelha única. Tudo se encaixou. O boneco amarelo,
manipulado por Oz, tornou-se “Beto”, cuidadoso, sério e
sensato; o Muppet laranja, manipulado por Henson, virou
“Ênio”, um sujeito brincalhão e engraçado que gostava de se
arriscar. Beto era o tipo de sujeito que queria ser jornalista, e
não titereiro. Ênio era o tipo de cara que atravessaria Detroit
num Rolls-Royce balançando um sapo através do teto solar.
E, no entanto, Beto e Ênio eram espíritos aparentados, que
valiam mais juntos do que separados.
O primeiro episódio de Vila Sésamo foi transmitido em 10
de novembro de 1969, uma segunda-feira. Depois das
palavras “Em Cores”, dois monstros de animação em argila
aparecem, seguidos por uma passagem em arco com as
palavras “Sesame Street”. Os monstros passam pelo arco, a
tela escurece e a música tema do programa nos Estados
Unidos, “Can You Tell Me How to Get to Sesame Street?”, se
inicia, cantada por um coro infantil e com imagens de crianças
urbanas reais – não os anjos limpos e arrumadinhos
normalmente vistos na televisão naquela época – brincando
em parques da cidade. Os créditos de abertura terminam e o
programa começa, enquanto uma versão instrumental da
música é tocada numa gaita pelo músico de jazz Toots
Thielemans. Um professor negro chamado Gordon está
mostrando o bairro a uma menininha branca chamada Sally. Depois de apresentá-la a alguns personagens humanos e a
um Muppett-roupa completa de 2,40 metros chamado
“Garibaldo”, Gordon ouve uma cantiga vinda do porão do
número 123 da Vila Sésamo e aponta para a janela do lugar,
dizendo: “Esse é o Ênio. Ênio mora no porão, e mora ali com o
amigo Beto. Sempre que você escutar o Ênio cantando, pode
apostar que ele está tomando banho.”
O programa corta para Ênio na banheira, cantando
enquanto se esfrega.
ênio: Ei, Beto. Pode me arranjar um sabonete?
beto (entrando): Posso.
ênio: Joga aqui dentro da Rosie.
beto: (olhando em volta, perplexo): Quem é Rosie?
ênio: A banheira. Eu chamo minha banheira de
Rosie.
beto: Ênio, por que você chama sua banheira de
Rosie?
ênio: Porque, como na canção “Ring Around the
Rosie”, toda vez que tomo banho eu deixo um anel
em volta da Rosie.
Ênio dá uma risada gutural. Beto olha para a câmera,
como se perguntasse ao público se ele acredita naquele cara.
Com essa sequência Beto e Ênio se tornaram os primeiros
bonecos a aparecer em Vila Sésamo. Ainda hoje são
personagens importantes.
O relacionamento entre Beto e Ênio sempre levantou
suspeitas. O que dois bonecos do sexo masculino estavam
fazendo juntos? Por que eram tão íntimos? O pastor
pentecostal Joseph Chambers, de Charlotte, Carolina do
Norte, achou que sabia a razão: “Beto e Ênio são dois homens
adultos que dividem uma casa e um quarto. Compartilham
roupas, comem e cozinham juntos e têm características
descaradamente afeminadas. Num episódio Beto ensina Ênio
a costurar. Em outro, eles cuidam juntos de plantas. Se isso não representa uma união homossexual, não consigo
imaginar o que deveria representar.”
Mas não, Beto e Ênio não são gays. Para descobrir o que
os personagens representam não precisamos olhar para além
dos homens que estão dentro dos bonecos. Não somente
Henson e Oz eram Ênio e Beto; Beto e Ênio eram Oz e
Henson. O escritor de Vila Sésamo, John Stone, lembra: “A
relação deles refletia o relacionamento real entre Jim e Frank.
Jim era o instigador, o provocador, o palhaço. Frank era o
conservador, a vítima cautelosa. Mas o essencial para a
conexão entre ambos era o afeto e o respeito que esses dois
homens tinham um pelo outro. Ênio e Beto são melhores
amigos; o mesmo acontecia com Jim e Frank.”
Alguns dos trabalhos mais criativos vêm de pessoas que
trabalham em dupla. A parceria é a unidade mais básica de
organização criativa e traz muitas lições sobre como montar
equipes criativas. Alguns parceiros criativos são casados,
como Pierre e Marie Curie; alguns são parentes, como Orville
e Wilbur Wright; a maioria, porém, não é uma coisa nem outra.
Podem até não ser amigos. São pessoas como Simon e
Garfunkel, Warren e Marshall, Abbott e Costello, Lennon e
McCartney, Page e Brin, Hanna e Barbera, Wozniak e Jobs,
Henson e Oz.
Como na história de Beto e Ênio, a intimidade da parceria
criativa confunde algumas pessoas, talvez porque elas
superestimem a importância dos indivíduos.
O segredo de Beto e Ênio é que nada é criado sozinho. O
conselho de Steve Wozniak, “Trabalhe sozinho”, mencionado
antes, não é tão simples quanto parece. Como observou
Robert Merton, nunca agimos como indivíduos sem interagir
com milhares de outros – lendo suas palavras, lembrando-nos
de suas lições e usando as ferramentas que eles fizeram.
Uma parceria coloca essa interação no mesmo ambiente.
6 | QUANDO A ESTRADA PARECE LONGA Numa parceria criativa, a conversa cotidiana e os ciclos de
problema e solução do pensamento comum se combinam: os
parceiros usam o mesmo processo criativo como indivíduos,
mas pensam em voz alta, vendo problemas nas soluções um
do outro e encontrando soluções para os problemas um do
outro.
Trey Parker e Matt Stone são parceiros criativos desde
que se conheceram na Universidade do Colorado em 1989.
Em 2011, ganharam nove Prêmios Tony por The Book of
Mormon, um musical da Broadway que escreveram com
Robert Lopez; eles criaram filmes, livros e videogames, mas
são mais conhecidos por South Park, uma série de animação
para a TV que criaram em 1997. Parker e Stone escreveram,
produziram e colocaram voz em centenas de episódios de
South Park, a maioria deles feitos, desde a concepção até o
término, em seis dias.
O processo começa numa sala de reuniões em Los
Angeles, numa manhã de quinta-feira, onde os dois discutem
ideias com seus principais roteiristas e começam a criar o
programa que irá ao ar na quarta-feira seguinte. Stone
descreve a sala como “uma área de segurança, porque,
apesar de todas as boas ideias que temos, há uma centena
de ideias ‘não tão boas’”. Ninguém além deles tem permissão
de entrar, mas em 2011 Parker e Stone deixaram o cineasta
Arthur Bradford colocar câmeras na sala para fazer um
documentário chamado 6 Days to Air: The Making of South
Park (6 dias para ir ao ar: a criação de South Park).
No primeiro dia do filme, Parker e Stone discutem ideias
de roteiro, inclusive o tsunami do Japão, trailers de filmes
ruins e basquete universitário, improvisando roteiros
possíveis, algo bem parecido com Henson e Oz
experimentando Beto e Ênio pela primeira vez. No fim do dia,
Parker e Stone não têm nada – ou pelo menos nada de que
gostem. Parker está preocupado. E diz a Bradford:
– Há um episódio nesta quarta-feira. Nem sabemos como
será. Ainda que este seja o modo como sempre fazemos, há
uma vozinha que diz: “Ah, vocês estão ferrados.”
Na manhã do segundo dia, Parker sugere a Stone:
– Vamos experimentar o seguinte: até as onze e meia
tentaremos encontrar uma coisa completamente nova; das
onze e meia até meio-dia e meia, escolheremos qual ideia de
ontem vamos fazer.
– Um episódio totalmente diferente? – questiona Stone
um tanto cético.
Em vez de argumentar a favor de melhorar ideias
existentes, Stone aceita. Parker apresenta uma ideia sobre
algo que ele acha frustrante:
– Ontem à noite entrei no iTunes e apareceu de novo
aquela janela que diz “Seu iTunes está desatualizado”, sabe?
Uma coisa que acontece o tempo todo. E eu fiquei lá xingando
e procurando baixar outra versão do iTunes. Quantas vezes
eu cliquei no “Concordo” com aqueles termos e condições e
nunca nem ao menos li uma linha deles?
Stone gargalha, depois sugere como a frustração de
Parker com o iTunes pode gerar um argumento:
– A piada é que todo mundo sempre lê os termos e
condições, menos o Kyle – propõe ele.
(Kyle é um dos personagens principais.)
Naquele momento ambos perceberam que “isso está
começando a ser alguma coisa”.
O padrão – Parker dirigindo o processo e encontrando os
pontos de partida, e Stone refinando e construindo a partir
deles – é típico do relacionamento de trabalho de Parker e
Stone. As parcerias não costumam ser hierárquicas – no
sentido de uma pessoa ter autoridade sobre a outra –, mas
raramente deixam de ter líderes. Na parceria dos dois, Parker
lidera.
– Ainda que a gente tenha uma parceria e cada um traga
algo diferente para a mesa, o modo como as histórias são
expressas é totalmente Trey – afirma Stone.
Parker concorda, mas não tem dúvidas quanto à igual
importância de Stone. E diz que, no trabalho, sem Matt Stone
não há Trey Parker.
Na segunda-feira, com menos de três dias para o
episódio ir ao ar, o roteiro ainda não está terminado. Estão
sendo feitas a animação e a gravação das vozes da trama
principal, que mostra Kyle sendo obrigado a fazer as coisas
malucas com as quais concordou ao aceitar os termos e
condições do iTunes. Mas o episódio carece de uma trama
secundária e de um final. Parker começa o dia descrevendo a
Stone os problemas que restam:
– Temos ingredientes demais; não apresentamos a ideia
dos aplicativos e estou preocupado com o tempo. O que quer
que seja essa coisa no final, tem de ser rápida.
Então Parker começa a solucionar esses problemas – por
exemplo, descrevendo uma trama secundária em que outro
personagem principal, Eric, tenta convencer a mãe a lhe
comprar um iPad. Aqui o papel de Stone é de avaliação: ele ri
enquanto Parker representa a ideia.
Parker está preocupado. Naquela noite diz ao
documentarista Bradford:
– Estou com medo porque já tenho 28 páginas de roteiro
e ainda preciso escrever cinco cenas. Cada cena tem
geralmente um minuto, de modo que isso vai acabar sendo
um roteiro de quarenta páginas, o que fica brutal, porque terei
de começar a pegar cenas e pensar em como fazer a mesma
coisa em metade do tempo.
Numa parceria, o ato literal, físico, de escrever – escolher
as palavras em vez de ter as ideias – é uma atividade
individual. É isso que Wozniak quer dizer quando fala
“Trabalhe sozinho”. Duas pessoas e uma página em branco
não é fórmula para criação: um lápis é um instrumento de
apenas uma pessoa. Stone não fica ao lado de Parker
tentando ser útil. Está em outra sala, trabalhando nas
alterações do roteiro. Parker diz:
– Odeio escrever porque é uma coisa solitária e triste. Sei
que todo mundo está esperando que eu termine, e é uma
batalha lutar com as frases e tentar deduzir o melhor modo de
dizer as coisas. Odeio demais.
Quando a segunda-feira termina, Parker anda de um lado
para outro enquanto Stone, sentado, o observa. Os dois estão
coçando a cabeça e Parker resume o problema naquele
instante:
– Estamos com pouco tempo e tenho quatro cenas para
escrever.
Em quatro dias ele havia passado da preocupação por
não ter material para a preocupação por ter material demais.
Stone diz que ele chega ao fundo do poço todo domingo e
Parker aparece no fundo um dia depois. De fato, na segunda-
feira Parker afirma:
– Estou me sentindo terrível com relação ao episódio.
Estou sem graça de colocar essa droga no ar.
O riso de alguns dias atrás sumiu. Parker e Stone andam
pelo estúdio encolhidos e arrasados.
A terça-feira, véspera da transmissão do episódio,
começa com animadores exaustos dormindo embaixo das
mesas ou diante dos teclados. Às seis da manhã, Parker e
Stone se encontram a sós na sala dos roteiristas. Parker
apagou as figuras grosseiras que estavam no quadro branco
alguns dias antes; agora há uma lista de cenas com nomes
como “Playground”, “Casa de Eric”, “Cena da Cadeia” e “No
Bar dos Gênios”. Parker para diante do quadro com um
marcador na mão enquanto Stone se recosta numa poltrona,
as mãos na nuca.
Os papéis mudaram. Parker já não lidera. Está lançando
ideias:
– Início do segundo ato, nós voltamos, e é quando rola o
“Certo, os Gênios vão nos receber agora”. E depois o terceiro
ato: simplesmente começamos revelando a coisa. E então
vamos para: eles estão fazendo o negócio da bolha, e o
Gerald pira de vez, entra para a Apple. Estamos de volta, e é
isso aí.
E Stone não está sendo liderado; está instigando e
adulando. Parece paternal quando diz:
– Fantástico. É, isso funciona.
Revigorado, Parker retorna para o teclado. Uma hora
depois os animadores são acordados e recebem o roteiro
completo do episódio 1.501 de a South Park : o primeiro da 15
temporada e o 211 o escrito por Parker e Stone.
Essa história mostra como muitas parcerias criativas
funcionam. Parker confia em Stone. Stone complementa
Parker. Pode parecer que Parker dá uma colaboração criativa
maior, mas Stone a faz acontecer, em particular dando apoio
emocional ao amigo durante a solidão e a tensão da criação.
Stone também cria, e Parker faz isso acontecer
proporcionando ímpeto. Os parceiros criam juntos ajudando
um ao outro a criar individualmente.
7 | O TIPO ERRADO DE ORGANIZAÇÃO
O fio comum que conecta uma pessoa criando a duas
pessoas criando pode – ou deveria – se estender a grupos
maiores também. Os parceiros criativos expondo ideias se
assemelham a indivíduos criativos pensando em voz alta, e
nada precisa mudar quando o grupo fica maior. O objetivo de
uma conversa criativa é identificar e resolver problemas
criativos, como “Sobre o que deveria ser este episódio?” ou
“Em que ordem essas cenas deveriam estar?”. Os únicos
participantes da conversa devem ser pessoas que possam dar
uma colaboração para responder a essas perguntas, motivo
pelo qual a sala dos roteiristas de Parker e Stone é uma “área
de segurança”, proibida para todos, com exceção de uns
poucos roteiristas. Não existe espaço para administradores,
“advogados do diabo” ou qualquer outra espécie de
espectador numa conversa criativa. Essa conversa é o
principal objetivo de criar num grupo. O trabalho criativo
detalhado ainda é feito sozinho, a não ser que uma ajuda –
prática, emocional ou as duas coisas – seja necessária para
superar as pressões e os fracassos inevitáveis.
A empresa de Parker e Stone, a South Park Digital
Studios, é muito parecida com a Skunk Works da Lockheed: faz parte de uma grande corporação, a Viacom; é isolada em
sua própria localização física; e a capacidade de trabalhar
rápido é impressionante. Enquanto são necessários seis dias
para fazer um episódio de South Park, são necessários seis
meses para a maior parte das outras empresas de produção
fazer um episódio da maioria das séries animadas.
No tipo errado de organização, o talento criativo de
Parker e Stone pode se tornar rapidamente destrutivo. Em
1998, a Viacom pediu que os dois realizassem um filme de
South Park com outra das suas subsidiárias, a Paramount
Pictures. Parker e Stone começaram a brigar com os
executivos da Paramount tão logo a produção começou. Uma
das primeiras batalhas foi sobre a idade do público-alvo.
Parker e Stone queriam um filme com temas e linguagem que
o classificariam como R – que indica proibido para menores
de 17 anos, a não ser que sejam acompanhados por um dos
pais ou adulto responsável. A Paramount queria uma
classificação PG-13 – que indica um filme mais ameno, que
pode ser visto por qualquer pessoa, ainda que os pais sejam
alertados de que parte do conteúdo seria inadequado para
crianças com menos de 13 anos.
Parker se rebelou: “Depois de eles mostrarem os gráficos
sobre quanto dinheiro a mais ganharíamos com um PG-13,
nós partimos para o ‘R ou nada’.”
Parker declarou o que mais tarde chamou de “guerra”. A
Paramount mandou a eles fitas com trailers do filme. Parker e
Stone as quebraram ao meio e remeteram de volta. Enviaram
faxes grosseiros para todo mundo que conheciam na
Paramount, inclusive um, intitulado “Uma fórmula para o
sucesso”, que dizia: “Cooperação + vocês não fazendo nada =
sucesso”. Parker roubou a única cópia de uma fita de vídeo
promocional para impedir que passasse na MTV. Depois
desse incidente – a fita era resultado de vários dias e noites
de trabalho duro dos funcionários da Paramount –, a
Paramount ameaçou processar os dois.
O maior protesto de Parker e Stone contra a Paramount
acabou sendo o próprio filme. Eles o transformaram num musical de longa-metragem sobre sua frustração com as
tentativas da Paramount de censurá-los. Em South Park:
Maior, Melhor e Sem Cortes, os Estados Unidos declaram
guerra ao Canadá por causa de um programa de TV
canadense que tem palavrões; um professor tenta reabilitar
crianças que falam palavrões cantando uma música baseada
em “Dó-Ré-Mi”, de A Noviça Rebelde; e personagens dizem
coisas como “Este filme tem uma linguagem péssima e pode
fazer com que seus filhos comecem a usar palavrões” e
“Desculpe! Não posso evitar! Este filme deturpou minha
mentezinha frágil”.
Segundo os padrões de curto prazo de lucro e prejuízo, a
colaboração entre a Paramount e a South Park foi um
sucesso: o filme teve um rendimento bruto de 83 milhões de
dólares para um orçamento de 21 milhões, ganhou prêmios e
Parker e o corroteirista Marc Shaiman receberam uma
indicação para o Oscar pela canção “Blame Canada”. Mas, na
perspectiva de longo prazo de montar uma organização
criativa, o projeto foi uma catástrofe, e cara: apesar do
resultado positivo e de ter os direitos para as continuações, a
Paramount jamais conseguirá fazer outro filme de South Park.
Parker disse à Playboy: “Eles não poderiam pagar o
suficiente para trabalharmos com eles de novo.”
Stone acrescentou: “Havia batalhas de marketing,
batalhas jurídicas, todo tipo de batalhas. Mesmo com a
vantagem de ter uma franquia enorme que rendera centenas
de milhões de dólares à Viacom, o estúdio fez todo o possível
para nos derrubar e derrubar o espírito do filme.”
Se Parker e Stone parecem infantis é porque eles são
infantis – do melhor modo possível. As habilidades sociais que
permitem a criação através da cooperação – e o
comportamento antissocial que pode resultar quando a
criação é excessivamente controlada – são características que
todos temos na infância, mas que morrem à medida que
crescemos e nos educamos. Nós desenvolvemos a
capacidade de criar em grupo quando desenvolvemos a
capacidade de falar. No entanto, com frequência a perdemos durante os anos de escola e podemos perdê-la por completo
ao começarmos no primeiro emprego. Uma das primeiras
pessoas a descobrir isso foi um homem na Bielorrússia, na
década de 1920. Um dos melhores jeitos de demonstrar isso é
com um marshmallow.
8 | UM POUCO MENOS DE CONVERSA
Em 2006, Peter Skillman, um desenhista industrial, fez uma
apresentação de três minutos num congresso em Monterey,
Califórnia. Falou logo depois do ex-vice-presidente e futuro
ganhador do Prêmio Nobel Al Gore e imediatamente antes do
projetista de espaçonaves Burt Rutan. Apesar da falta de
tempo e da concorrência difícil, a palestra de Skillman causou
um grande impacto. Ela descrevia o que ele chamou de
“desafio do marshmallow”, uma atividade de construção de
equipe que ele desenvolveu com Dennis Boyle, um membro
fundador da consultoria de projetos IDEO. O desafio é
simples: cada equipe recebe um saco de papel pardo
contendo vinte varetas de macarrão cru, um metro de
barbante, um metro de fita-crepe e um marshmallow. O
objetivo é construir a maior estrutura que fique de pé e suporte
o peso do marshmallow – os participantes não podem torná-lo
mais leve comendo parte dele, mas podem quebrar o
macarrão, cortar o barbante e a fita-crepe. Eles têm 18
minutos e não podem ficar segurando a estrutura quando o
tempo acabar.
A descoberta mais surpreendente de Skillman: os
melhores resultados são de crianças de 5 e 6 anos. Skillman
explica: “As crianças do jardim de infância, em relação a
qualquer medida objetiva, têm a maior média de qualquer
grupo que já testei.” O profissional criativo Tom Wujec
confirmou isso: ele realizou oficinas de desafio do
marshmallow mais de setenta vezes entre 2006 e 2010 e
gravou os resultados. As torres das crianças de jardim de
infância têm em média 68 centímetros. Os CEOs de empresas só conseguem torres de 53 centímetros, advogados
constroem torres de 38 centímetros e as piores notas vêm de
alunos de escolas de administração, cujas torres costumam
ter 25 centímetros, cerca de um terço daquelas construídas
por crianças do jardim de infância. CEOs, advogados e alunos
de escolas de administração desperdiçam minutos em lutas
de poder e planejamento, deixam apenas tempo suficiente
para construir uma torre e não descobrem a suposição que
torna o desafio tão instigante: os marshmallows são mais
pesados do que parecem. Quando finalmente descobrem isso,
não resta tempo para fazer quase nada. Wujec narra esses
últimos instantes: “Várias equipes terão o desejo de segurar a
sua estrutura até o final, em geral porque o marshmallow, que
os participantes acabaram de colocar sobre ela, está fazendo
a estrutura se dobrar.”
As crianças vencem porque colaboram de forma
espontânea. Constroem torres mais cedo e com mais
frequência, em vez de perder tempo lutando por liderança e
domínio. Elas não ficam sentadas falando – ou “planejando” –
antes de agir; descobrem rápido o problema do peso do
marshmallow e têm tempo de sobra para resolvê-lo.
Por que as crianças fazem isso? Essa pergunta é
respondida pelo trabalho de Lev Vygotsky, um psicólogo da
Bielorrússia. Na década de 1920, Vygotsky descobriu que os
desenvolvimentos da linguagem e da capacidade criativa
estão tão conectados que podem até ser a mesma coisa.
A primeira coisa que fazemos quando desenvolvemos a
fala é organizar o ambiente ao nosso redor. Damos nomes às
pessoas importantes, como “mamãe” e “papai”, e aos objetos
importantes, tanto os naturais, como “au-au” e “gato”, quanto
aqueles feitos pelo homem, como “carro” e “copo”. A segunda
coisa que fazemos é organizar nosso comportamento.
Estabelecemos objetivos para nós mesmos, como perseguir o
cachorro ou pegar o copo, e comunicamos necessidades,
como chamar a mamãe. Podíamos ter esses objetivos e
necessidades antes de conseguirmos falar, mas as palavras
nos permitem torná-los mais explícitos, tanto para nós mesmos quanto para os outros. Quando conhecemos a
palavra para “cachorro”, temos mais probabilidade de
perseguir um cachorro, porque somos mais capazes de
decidir fazê-lo. É por isso que as crianças pequenas dizem
repetidamente “au-au” para si mesmas enquanto perseguem
um cachorro. As palavras geram os desejos. Outra coisa que
fazemos ao desenvolver a fala é criar: quando podemos
manipular uma palavra, podemos manipular o mundo. Ou,
como disse Vygotsky:
Ainda que o uso de ferramentas por parte das
crianças durante seu período pré-verbal seja
comparável ao dos macacos, assim que a fala e o
uso de sinais são incorporados em qualquer ação, a
ação se transforma e é organizada em novas linhas.
Desse modo, o uso especificamente humano das
ferramentas é realizado, indo muito além do uso mais
limitado de ferramentas pelos animais.
Por exemplo, quando a pesquisadora Roza Levina,
associada de Vygotsky, pediu a Milya, uma menina de 4 anos,
que fizesse um desenho a partir da frase “A professora está
com raiva”, Milya não conseguiu realizar a tarefa. Levina
informa o que Milya disse:
“A professora ‘tá’ com raiva. Não posso desenhar a
professora. É assim que ela é.” (Ela desenha
apertando o lápis com força.) “‘Tá’ quebrado. ‘Tá’
quebrado o lápis. E Olya tem um lápis e uma caneta.”
(A criança se remexe na cadeira.)
A reação de Milya é típica de uma criança no primeiro
estágio do uso da linguagem – rotulando seu mundo. Sua fala ainda não é um sistema de signos que a ajude a alcançar
seus objetivos; é uma narrativa do aqui e agora.
Anya, com 3 anos e 7 meses, é mais nova do que Milya,
mas está no estágio seguinte de desenvolvimento. (Outra
descoberta de Vygotsky foi algo que agora consideramos
ponto pacífico: a mente das crianças se desenvolve em
velocidades diferentes.) Vygotsky colocou algumas balas em
cima de um armário, pendurou uma vara na parede e pediu a
Anya que pegasse a bala. A princípio houve um longo silêncio.
Então Anya começou a falar e a trabalhar no problema. O
psicólogo relata:
“É muito alto.” (Ela sobe no divã e estende a mão
para as balas.) “É muito alto.” (Ela estica o braço.)
“Não dá pra pegar. É muito alto.” (Ela pega a vara e
se apoia nela, mas não a usa.) “Não consigo pegar. É
muito alto.” (Ela segura a vara com uma das mãos e
estende a outra para a bala.) “Meu braço ‘tá’
cansado. Não dá pra pegar. Nosso armário é alto.
Papai bota as coisas lá em cima e eu não consigo
pegar.” (Ela estende a mão.) “Não, não dá pra pegar
com a mão. Ainda sou pequena.” (Ela fica de pé na
cadeira.) “Vamos lá. Posso pegar melhor na cadeira.”
(Ela estende a mão. Fica de pé na cadeira e balança
a vara. Mira a bala.) “Uh-uh.” (Ela ri e empurra a
vara. Olha para a bala, sorri e pega-a com a vara.)
“Pronto, consegui com a vara. Vou levar pra casa e
dar pro meu gato.”
A diferença entre Anya e Milya é de desenvolvimento, não
de capacidade. Logo Milya poderá fazer o mesmo que Anya:
usar a linguagem não só para rotular o mundo, mas também
para manipulá-lo a fim de alcançar um objetivo. Vygotsky não
precisou pedir que Anya pensasse em voz alta sobre a
tentativa de pegar a bala – as crianças nesse estágio fazem
isso de modo natural. Os pensamentos de Anya a conectam a seus atos porque nós não manipulamos o mundo e depois
descrevemos o que fizemos; nós manipulamos a linguagem
para podermos manipular o mundo.
Linguagem e criação estão tão conectadas que uma coisa
não pode existir sem a outra. Nesse sentido, linguagem
significa um sistema de símbolos e regras que nos permitem
criar e manipular uma representação mental do passado, do
presente e de possíveis estados futuros. As pessoas que
preferem as imagens às palavras, por exemplo, ainda movem
símbolos – por acaso alguns símbolos são imagens. Anya
desenvolveu essa capacidade relativamente cedo; em geral
as crianças passam do estágio de rotular com a linguagem
para o de manipular com a linguagem entre os 4 e os 5 anos.
A conexão entre linguagem e criação tem uma
consequência importante: assim que as crianças conseguem
resolver problemas falando sobre o que estão fazendo, elas
adquirem as capacidades básicas de que precisam para criar
com os outros.
O surpreendente sobre o desafio do marshmallow, então,
não é o desempenho das crianças, e sim o dos adultos. Os
alunos de administração que constroem uma torre de 25
centímetros hoje teriam construído uma de 68 quando
estavam no jardim de infância. Para onde foram aqueles 43
centímetros? O que aconteceu com os estudantes nos anos
intermediários?
Os estudantes de administração, como a maioria de nós,
perdem boa parte da capacidade de cooperar. O foco na
realização individual, dado pela educação e pelo ambiente,
lhes ensinou que era mais valioso realizar tarefas individuais,
especialmente resolvendo problemas com respostas
definidas, do que trabalhar em equipe para resolver coisas
ambíguas. A capacidade colaborativa natural que
desenvolveram na infância foi esmagada, assim como suas
torres de marshmallow.
Pior ainda, ao se tornarem adultas as outrora crianças já
aprenderam que falar é uma alternativa ao fazer. Na escola, a
maior parte dos trabalhos é feita individualmente e em silêncio – em especial a maioria dos que são avaliados. Uma das
regras mais comuns da sala de aula é “não falar”. A
mensagem é clara: não é possível fazer e falar ao mesmo
tempo.
A divisão entre palavras e ações persiste no local de
trabalho, onde os grupos resolvem problemas falando – ou
“planejando” – até que concordem com relação ao que acham
ser a melhor resposta; só depois agem. As crianças não
fazem reuniões na escola; elas descobrem sua existência
quando ficam adultas, no trabalho. As crianças veem o desafio
do marshmallow como uma chance de colaborar; os adultos o
tratam como uma reunião. Todas as crianças que fazem parte
da equipe constroem e experimentam, comparam resultados,
aprendem umas com as outras e criam em comunidade assim
que o relógio começa a marcar o tempo. Não discutem
antecipadamente. Só vão adiante. Todos os adultos numa
equipe não fazem nada nos primeiros minutos, porque, em
vez disso, estão falando; e a maioria deles não faz nada além
de olhar – ou “administrar” – outra pessoa que está
construindo uma torre durante o resto do tempo. Segundo os
dados de Tom Wujec, as crianças do jardim de infância tentam
colocar o marshmallow na torre em média cinco vezes durante
os 18 minutos. A primeira tentativa costuma acontecer entre o
quarto e o quinto minutos. Os alunos de administração, em
geral, colocam o marshmallow na torre uma única vez – no
último minuto.
A pesquisa de Vygotsky explica por que as crianças agem
enquanto os adultos planejam. A conexão entre expressão e
ação é mais forte quando somos mais novos. Isso fica mais
óbvio em experiências que envolvem escolha. Vygotsky pediu
a crianças de 4 e 5 anos para apertar uma de cinco teclas
correspondente à imagem que lhes era mostrada. As crianças
não pensavam com palavras, e sim com ações. Ele constata:
Talvez o resultado mais notável seja que todo o
processo de seleção feito pela criança é externo e
concentrado na esfera motora. A criança faz a
seleção enquanto realiza qualquer movimento que a
escolha exija. Os adultos tomam uma decisão
preliminar internamente e depois realizam a escolha
sob a forma de um único movimento que executa o
plano. Os movimentos da criança são repletos de
tentativas difusas que se interrompem e se sucedem.
Um mero olhar para o gráfico que acompanha os
movimentos da criança basta para nos convencer da
natureza motora básica do processo.
Ou seja: os adultos pensam antes de agir; as crianças
pensam agindo.
Falar enquanto age é útil, mas falar sobre agir não é – ou
pelo menos não frequentemente, e não por muito tempo. É
por isso que o “Mostre-me” é uma coisa tão poderosa de se
dizer. O “Mostre-me” faz parar a especulação e dá início à
ação.
Outra coisa que os adultos aprenderam e na qual as
crianças do jardim de infância não pensam é que os grupos
precisam ser hierárquicos. Os adultos começam com alguns
membros da equipe trocando chifradas para obter a liderança.
As crianças começam com todo mundo trabalhando junto.
As parcerias criativas são pouquíssimo hierárquicas – não
seriam “parcerias” se não fossem. Muito pouca energia, ou
nenhuma, é despendida nos rituais de domínio. Jim Henson
estava numa posição superior a Frank Oz em todos os
sentidos, menos em um: quando Henson e Oz trabalhavam
juntos eles eram iguais. Não existe parceria sem igualdade.
Henson e Oz não desperdiçavam tempo com lutas de poder;
gastavam-no fazendo, falando em voz alta como as crianças
na pesquisa de Vygotsky, resolvendo problemas e ajudando
um ao outro a crescer. O nascimento de Beto e Ênio é um
exemplo perfeito. Henson e Oz não fizeram uma reunião nem
efetuaram planos. Pegaram os bonecos e foram pensando em
voz alta até que Beto e Ênio apareceram.
9 | DE QUE SÃO FEITAS AS ORGANIZAÇÕES
Em 1954 aconteceu uma coisa sem precedentes em seis
julgamentos em Wichita, Kansas, nos Estados Unidos. Eram
julgamentos típicos com processos típicos, advogados típicos
e condenações e absolvições típicas. Só eram atípicas as
unidades de aquecimento na sala do júri. Elas continham
microfones escondidos, instalados ali por pesquisadores da
Universidade de Chicago que os usavam para gravar as
deliberações dos jurados. Juízes e advogados sabiam sobre
os microfones, mas os jurados, não.
As gravações ficaram lacradas até o final de cada caso,
após todas as apelações serem descartadas. Então os
pesquisadores analisaram as interações para aprender sobre
o comportamento de grupo numa sala de júri. Quando as
descobertas foram publicadas, um ano depois, provocaram
um escândalo nacional. Numa das primeiras controvérsias
sobre privacidade, o Subcomitê de Segurança Interna do
Senado processou os pesquisadores e mais de uma centena
de editoriais jornalísticos os condenaram por ameaçar o
alicerce do sistema jurídico americano.
O escândalo foi esquecido, mas o método, não. Harold
Garfinkel, um dos pesquisadores que analisaram as fitas da
sala do júri, chamou-o de “microssociologia”. Os cientistas
realizaram milhares de experiências usando microfones e
câmeras de vídeo para entender as minúcias do
comportamento humano que compõem a sociedade.
Um dos motivos para a sociologia tradicional, ou
“macrossociologia”, olhar os grandes grupos de longe e em
longos períodos de tempo é tecnológico. Quando as ciências
sociais foram concebidas – em grande parte pelo francês
Émile Durkheim na década de 1890 –, não havia um modo
prático de registrar e observar em detalhe as interações
cotidianas. A microssociologia só se tornou possível na
década de 1950, com a invenção do gravador de fita
magnética, do transistor e dos microfones elétricos produzidos
em massa.
Como os sociólogos tradicionais, os teóricos da
administração – frequentemente ex-alunos de escolas de
administração – olham as organizações como se estivessem
voando lá no alto, acima delas. Veem o quadro geral: as
fusões, as mudanças no preço das ações e os grandes
lançamentos de produtos; mas, com exceção de uns poucos
executivos de nível mais elevado, os indivíduos são invisíveis.
Não é possível aprender muito olhando uma organização
a partir do céu, como se se estivesse dentro de um avião
prestes a aterrissar. As organizações só existem no chão. Não
são, como afirmam comumente, feitas de pessoas. As
organizações são feitas de pessoas interagindo. O que uma
instituição faz é organizar as interações humanas cotidianas.
A microssociologia nos mostra que essas interações não
são triviais. Tudo que acontece entre duas pessoas ou mais
tem uma riqueza de significados.
Antes da microssociologia, a suposição dominante era de
que as pessoas em grupo tomam decisões usando o
raciocínio, numa série de passos mais ou menos assim:
1. Definir a situação.
2. Definir a decisão a ser tomada.
3. Identificar os critérios importantes.
4. Considerar todas as soluções possíveis.
5. Calcular as consequências dessas soluções
versus os critérios.
6. Escolher a melhor opção.
A microssociologia demonstrou de modo conclusivo que
raramente pensamos assim, em especial se estamos em
grupos. Nas interações de grupos nossas decisões têm mais
probabilidade de se basear em regras não escritas e em
suposições culturais do que na razão pura. O filósofo austro-
britânico Ludwig Wittgenstein disse que essas interações, que
na superfície se parecem apenas com conversas, são como um jogo, porque consistem em “jogadas” e “reviravoltas”. Ele
chamou esse jogo de Sprachspiel, ou “o jogo da linguagem”.
Num grupo, as palavras são ouvidas num contexto que
inclui emoção, poder e relacionamentos existentes com os
outros membros do grupo. Todos somos camaleões sociais,
ajustando a pele para nos fundirmos ao grupo ou, às vezes,
para nos destacarmos dele.
O sociólogo Erving Goffman chamou as jogadas no jogo
da linguagem de “rituais de interação”. Mais tarde seu colega
Randall Collins chamou séries dessas jogadas de “cadeias de
interação ritual”. A cadeia começa com a situação – por
exemplo, uma reunião de negócios. O modo como cada
indivíduo se comporta na reunião dependerá de várias coisas:
de seu nível de autoridade, do humor, da experiência prévia
com reuniões semelhantes e do relacionamento atual com os
demais participantes. Tudo isso influencia no comportamento
da pessoa. Ela não agirá como faria numa situação diferente –
por exemplo, quando não está bem de saúde e vai ao médico.
Na reunião, o cumprimento “Como você está?” não significa
nada além de cortesia. Collin escreve: “‘Como você está?’ não
é um pedido de informação, e responder como se o
interlocutor quisesse saber detalhes de nossa saúde é uma
violação do espírito da coisa.”
No outro caso, quando alguém vai ao médico, a pergunta
“Como você está?” no início da consulta é um pedido de
informação. Seria uma violação não fornecer detalhes sobre a
saúde. Uma mesma pessoa que ouve a mesma pergunta
nessas duas situações dá uma resposta diferente porque está
participando de rituais distintos.
As organizações são feitas de rituais – milhões de
pequenas transações que duram instantes entre indivíduos
em grupos – e são esses rituais que determinam quanto uma
organização cria.
10 | RITUAIS DO FAZER
A maior lição da história de Kelly Johnson e da Skunk Works é
que criação é fazer, e não falar. As organizações mais
criativas priorizam os rituais do fazer; as organizações menos
criativas priorizam os rituais do falar, e o mais comum deles é
a reunião. “Reunião” é um eufemismo para “falar”; portanto as
reuniões são uma alternativa ao trabalho. Apesar disso, o
trabalhador de escritório mediano comparece a seis reuniões
de uma hora por semana, quase um dia inteiro de trabalho. Se
uma organização usar o programa Outlook da Microsoft para
programar automaticamente as reuniões, seus empregados
comparecem a mais reuniões ainda – nove reuniões de uma
hora por semana. Não há criação nas reuniões. Criação é
ação, e não conversa. As organizações criativas têm reuniões
externas – por exemplo, com clientes, como a Lockheed fez
para obter seus contratos a fim de fazer aviões no período da
guerra –, mas quanto mais criativa é uma organização, menos
reuniões internas ela costuma ter, e menos pessoas
costumam estar nessas reuniões. O resultado é mais pessoas
passando mais tempo com a mão na massa da criação.
Boa parte do que acontece nas reuniões internas é
chamada de “planejamento”, mas o planejamento tem valor
limitado, porque nada jamais acontece de acordo com os
planos. Kelly Johnson tinha pouca utilidade para os planos e
não precisava saber os detalhes de como as coisas iriam
acontecer antes de fazê-las. Os projetos de engenharia são
importantes para construir um produto, mas eles consistem
em fazer, não em falar. Mesmo assim, alguns projetos de
engenharia são feitos depois que o produto é construído.
Johnson descreve seu primeiro dia na Lockheed:
Fui posto para trabalhar com Bill Mylan no
departamento de ferramentaria, projetando
ferramentas para a montagem de um Electra. Mylan
era um sujeito experiente e conhecia o serviço. “Eu
vou construí-las, garoto, e você pode desenhá-las
mais tarde”, explicou ele.
Não é possível controlar o futuro. Ser rígido demais
quanto a garantir com que as coisas aconteçam exatamente
como planejado impede você de reagir aos problemas
emergentes e o faz perder oportunidades. Tenha grandes
expectativas com relação a o quê e poucas com relação a
como. Isso é o oposto do modo como a maioria das
organizações atua. Muitos “executivos” passam metade da
semana em reuniões de “planejamento” e a outra metade
preparando-se para elas. Não é possível montar um plano que
preveja as dificuldades – como o especialista em motor a jato
ser preso como espião ou o motor explodir na primeira vez em
que é ligado –, mas você pode montar uma organização que
execute mesmo assim.
Falar em vez de fazer é mais do que improdutivo: é
contraproducente. Em 1966, Philip Jackson, um dos
psicólogos que descobriram que os professores não gostam
de crianças criativas, apresentou um novo termo para
descrever como as organizações transmitem valores e
moldam o comportamento: o “currículo oculto”.
Jackson usou essa expressão para descrever as escolas:
Os grupos de pessoas, os elogios e o poder que se
combinam para dar um sabor distinto à vida na sala
de aula formam coletivamente um currículo oculto
que cada aluno (e professor) deve dominar para
passar de modo satisfatório pela escola. As
exigências criadas por essas características da vida
em sala de aula podem ser comparadas com as
exigências acadêmicas – o currículo “oficial” – às
quais os educadores tradicionalmente prestam mais
atenção.
Aprendemos o currículo oculto na infância, quando nossa
mente está mais ansiosa, sentimos fome de amigos e temos
mais medo da vergonha. Nós o aprendemos sem saber: o
currículo oculto é um conjunto de regras não escritas, implícitas, frequentemente contrárias ao que nos dizem.
Aprendemos o oposto do currículo oficial: que a originalidade
produz ostracismo, que a imaginação isola, que o risco é
ridicularizado. Quando criança, você enfrentava uma opção da
qual talvez não se lembre: ser você mesmo e ficar sozinho ou
ser como os outros e estar com os outros. Educação é
homogeneização. É por isso que os nerds são alvos e os
amigos se movem em rebanhos.
Nós carregamos essa lição por toda a vida. A educação
pode ser esquecida, mas a experiência fica entranhada. O que
dividimos em pequenos períodos como “ensino médio”,
“faculdade” e “trabalho” é, na verdade, um continuum. E assim
o currículo oculto opera em todas as organizações, desde as
corporações até as nações. Jackson diz:
À medida que os cenários institucionais se
multiplicam e se tornam, para um número cada vez
maior de pessoas, as áreas em que uma parte
significativa da vida acontece, precisamos aprender
muito mais do que sabemos no presente sobre como
alcançar uma síntese razoável entre as forças que
levam a pessoa a buscar a expressão individual e as
que a levam a ceder aos desejos dos outros.
As organizações são construídas com base em uma
competição entre obediência e criação. Às vezes os líderes de
nossas organizações podem pedir para criarmos, mas eles
sempre exigem que obedeçamos. Na maioria das
organizações, a obediência é mais importante do que a
criação, embora finjam o contrário. Se você obedece, mas não
cria, pode ser promovido. Se você cria, mas não obedece, vai
ser demitido. Quando recompensas são oferecidas pela
obediência, e não pela colaboração, chama-se isso de
“política de escritório”. Somos intimados a obedecer não ao
que a organização diz, e sim ao que a organização faz. Se um
CEO se levanta e faz a apresentação anual para toda a companhia usando o PowerPoint para falar de seu amor pelos
inovadores e os que correm riscos, mas em seguida aloca a
maior parte do dinheiro da empresa nos grupos de produtos
antigos e promove todas as pessoas que os administram, ele
manda um sinal claro para quem conhece o currículo oculto:
faça o que o CEO faz e não o que o CEO diz. Fale sobre
inovação e correr riscos, mas não faça isso. Trabalhe nos
grupos de produtos antigos e concentre suas ações nos
produtos antigos. Deixe os produtos inovadores e arriscados
para pessoas mais criativas, menos aptas
organizacionalmente, que serão demitidas assim que
fracassarem – e que vão fracassar porque não recebem
nenhum recurso. Essa abordagem para o avanço é o que
muitas organizações exigem, ainda que não percebam e não
admitam isso. Jackson escreve:
Não importa qual seja a exigência ou quais os
recursos pessoais do indivíduo que esteja diante
dela, há pelo menos uma estratégia aberta a todos: a
do recuo psicológico, que consiste em reduzir
gradualmente a preocupação e o envolvimento
pessoais até o ponto em que nem a exigência nem o
sucesso ou o fracasso ao lidar com aquilo seja
sentido de modo agudo.
Será que alguém pode ser ao mesmo tempo criativo e
seguir o currículo oculto que coloca a obediência e a lealdade
acima da criação e da descoberta? Talvez, mas as duas
coisas são opostas:
As qualidades pessoais que têm um papel no
domínio intelectual são muito diferentes das que
caracterizam o Homem de Empresa. A curiosidade,
por exemplo, tem pouco valor para reagir às
exigências da conformidade. A pessoa curiosa
tipicamente se engaja numa espécie de sondagem e
exploração que é quase a antítese da atitude do
conformista passivo. O domínio intelectual pede
formas sublimadas de agressividade em vez de
submissão às restrições.
E, além disso, por que se incomodar? Por que gastar a
energia e a imaginação necessárias para manter uma
identidade falsa – ser um Clark Kent conformista para ser
capaz de manter sua superidentidade secreta – quando você
pode ter resultados igualmente bons conformando-se sem
criar ou levando suas capacidades criativas para outro lugar
onde elas poderão ser apreciadas? Esse é o dilema que as
pessoas criativas enfrentam em todo lugar. Elas raramente
optam por ser criativas em segredo. A maioria se demite ou é
demitida depois de levar, para avaliação, uma nova ideia ao
chefe. Propor algo novo é uma transação de alto risco. Para
Kelly Johnson na Lockheed, na década de 1930, deu certo.
Para Robert Galambos no Instituto de Pesquisa Walter Reed,
nos anos 1960, como em quase todas as organizações na
maior parte do tempo, não deu.
Montar uma organização criativa é difícil, mas mantê-la
criativa é muito mais. Por quê? Porque todo paradigma muda,
e só os melhores criadores podem mudar junto com as
consequências de suas criações.
No verão de 1975, alguns meses depois da queda de
Saigon e do fim da Guerra do Vietnã, um engenheiro da
Skunk Works chamado Ben Rich apresentou uma ideia a Kelly
Johnson. Era o projeto de um avião em forma de ponta de
flecha: chato, triangular e com a ponta afiada. Rich e sua
equipe o chamaram de “Hopeless Diamond” (Diamante sem
Esperança, brincadeira com o famoso Diamante Hope). A
reação inicial de Johnson não foi positiva. Rich conta: “Ele deu
uma olhada no esboço do Hopeless Diamond e entrou
intempestivamente na minha sala. Kelly me deu um chute
forte na bunda. Depois amarrotou a proposta e jogou-a aos meus pés. ‘Ben Rich, seu idiota’, disse ele furioso, ‘perdeu a
porcaria da cabeça?’”
A chegada de Kelly Johnson à Lockheed, em 1933, foi
seguida pelo início da Segunda Guerra Mundial. Em parte
como resultado do trabalho de Johnson, a Segunda Guerra foi
a primeira grande guerra aérea: os aviões mataram 2,2
milhões de pessoas – mais de 90% delas, cerca de 2 milhões,
eram civis, na maioria mulheres e crianças. As armas usadas
como defesa contra os ataques aéreos eram grosseiras e
ineficazes: canhões antiaéreos que, na média, disparavam
três mil balas para cada bombardeiro que destruíam. Em
resultado, quase todos os bombardeiros chegavam ao alvo.
Na era da bomba nuclear, essa era uma estatística
apavorante.
Imediatamente depois da guerra, o novo problema
urgente era como se defender contra a morte vinda do céu, e
a solução foram os mísseis terra-ar, que usavam as novas
tecnologias de computadores e radares para localizar,
perseguir e destruir uma aeronave que atacasse. No Vietnã,
na grande guerra aérea após a Segunda Guerra Mundial, os
mísseis terra-ar destruíram 205 aviões americanos, um para
cada 28 mísseis disparados – um desempenho mais de dez
vezes melhor do que os canhões antiaéreos da Segunda
Guerra. Voar sobre território inimigo havia se tornado tão
perigoso que era quase suicida.
Esse foi o contexto em que aconteceu a proposta do
Hopeless Diamond, de Ben Rich. O paradigma para entender
as aeronaves havia mudado. O problema agora não era como
voar, nem como voar mais rápido, e sim como voar em
segredo.
O Hopeless Diamond era uma tentativa de solucionar
esse problema.
Depois de entrar intempestivamente na sala de Ben Rich,
chutá-lo e jogar sua proposta no chão, Kelly Johnson gritou:
“Essa droga nunca vai sair do chão.”
Nem todo grande inovador é um grande administrador de
inovações. Os gritos de Johnson poderiam ter sido o fim da proposta de Rich, não fosse uma coisa: a regra do “Mostre-
me”.
Os engenheiros da Skunk Works haviam desenvolvido
uma tradição: quando havia uma disputa com relação a
alguma coisa técnica, eles apostavam 25 centavos uns contra
os outros e depois faziam uma experiência. Johnson e Rich
haviam feito cerca de quarenta apostas desse tipo ao longo
dos anos em que trabalhavam juntos. Johnson ganhara todas.
Havia duas coisas que Johnson sempre parecia vencer:
quedas de braço – ele havia trabalhado como carregador de
tijolos na juventude e tinha desenvolvido braços que pareciam
cordas grossas – e as apostas técnicas de 25 centavos.
Rich disse: “Kelly, esse Diamond tem sinal entre dez mil e
cem mil vezes mais baixo na seção transversal do radar do
que qualquer avião militar americano ou qualquer novo MiG
russo.”
Johnson refletiu sobre aquilo. A Lockheed tinha alguma
experiência em construir aeronaves que escapavam do radar.
Na década de 1960, a companhia havia desenvolvido uma
aeronave teleguiada chamada de D-21 que tirava fotos,
largava a câmera para ser apanhada mais tarde e depois
explodia. A tecnologia funcionava, mas o programa tinha sido
um fracasso comercial. Johnson pensou no drone de doze
anos antes que fracassara e disse: “Ben, aposto 25 centavos
que nosso antigo drone D-21 tem uma seção transversal
menor do que a porcaria desse Diamond.”
Isso foi como falar: “Mostre-me.” E assim, em 14 de
setembro de 1975, os dois se encontraram no equivalente
criativo de um duelo.
A equipe de Rich colocou um modelo em escala do
Hopeless Diamond numa câmara eletromagnética e mediu a
dificuldade de detectá-lo num radar – qualidade que os
engenheiros da Lockheed haviam começado a chamar de
“stealth” (furtividade).
Rich e Johnson receberam os resultados e os olharam
ansiosos. O Hopeless Diamond era mil vezes mais furtivo do
que o D-21. Rich havia vencido sua primeira aposta contra Johnson. Johnson jogou 25 centavos para Rich e disse: “Não
gaste até ver essa porcaria voar.”
O avião, cujo codinome era “Have Blue”, voou. Era a
primeira aeronave “furtiva”, mãe de todas as aeronaves
impossíveis de detectar construídas mais tarde, desde o F-117
Nighthawk até os helicópteros MH-60 Black Hawk, usados no
ataque contra a casa de Osaba bin Laden no Paquistão em
2011, e o Lockheed SR-72, um avião quase invisível que voa
a mais de 7.200 quilômetros por hora. Foi produto de uma
organização que valorizava mais a ação do que a conversa,
gastava pouco tempo planejando e muito tempo
experimentando e solucionava disputas sobre ideias não com
quedas de braço ou carteiradas, e sim com um pedido
simples: “Mostre-me”.