A História Secreta da Criatividade

Kevin Ashton · Capítulo 6 de 16

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A História Secreta da Criatividade

Capítulo 5 | Dê o crédito

5

 

 

DÊ O CRÉDITO

 

1 | ROSALIND

 

A neve caía sobre os guarda-chuvas pretos no cemitério judeu

em Londres. Era 17 de abril de 1958. Do outro lado do mar,

em Bruxelas, a Feira Mundial era inaugurada tendo o modelo

em escala de um vírus como atração principal. No cemitério,

um caixão contendo o corpo da cientista que havia construído

o modelo era depositado na terra. Seu nome era Rosalind

Franklin. Tinha morrido de câncer no dia anterior, aos 37 anos.

Seu trabalho era entender a mecânica da vida.

Com suas câmaras de gás, seus mísseis teleguiados e

bombas de fissão, a Segunda Guerra Mundial foi o ápice da

engenharia da morte. Depois da guerra, os cientistas

procuravam um novo “apogeu”. O físico Erwin Schrödinger

capturou o espírito da época com uma série de palestras em

Dublin chamada de “O que é a vida?”. Ele dizia que as leis da

física se baseiam na entropia, a “tendência da matéria de

entrar em desordem”. Mas a vida resiste à entropia, “evitando

a decadência rápida para o inerte”, por meio de motivos que

então eram enigmáticos. Schrödinger estabeleceu um objetivo

ousado para a ciência do resto do século: descobrir como a

vida vive.

De todas as coisas no universo, só a vida escapa à

inércia e à decadência, ainda que brevemente. Um organismo

individual atrasa a destruição consumindo matéria do

ambiente – respirando, comendo e bebendo, por exemplo – e usando-a para se reabastecer. Uma espécie adia a destruição

transferindo seu projeto básico de pai para filho. A vida em si

adia a destruição adaptando-se e diversificando esses

projetos básicos. No início da década de 1950, o mecanismo

da vida era um mistério; no fim da década, boa parte do

mistério havia sido resolvido. O modelo de um vírus feito por

Rosalind Franklin para a Feira Mundial era uma celebração

desse triunfo.

O modelo mostrava o vírus do mosaico do tabaco,

conhecido pelos cientistas como TMV (sigla em inglês para

Tobacco Mosaic Virus) e estudado em todo o mundo porque é

fácil de obter, tremendamente infeccioso e relativamente

simples. O TMV recebeu esse nome por causa da destruição

que causa nas folhas de fumo, que ele mancha formando um

desenho marrom parecido com o de um mosaico. Em 1898, o

botânico holandês Martinus Beijerinck mostrou que a infecção

não era causada por bactérias, e sim por algo menor e sem

célula. Ele o chamou de “vírus”, usando a palavra latina que

significa “veneno”.

As bactérias são células que se dividem para se

reproduzir, como as células de outras formas de vida. Um

vírus não tem células. Ocupa, ou infecciona, células e

reorganiza seus motores de reprodução para fazer cópias de

si mesmo – é um cuco microbiológico. Um vírus contém as

informações de que precisa para fazer cópias de si mesmo e

pouca coisa a mais. Mas como a informação é armazenada?

Como ele duplica as informações numa nova célula sem abrir

mão de seu único exemplar?

Essas perguntas eram mais importantes do que o fumo

ou os vírus. Toda reprodução é como a reprodução viral. Os

pais não se cortam ao meio para fazer um filho. Como os

vírus, eles fornecem apenas as informações: um

espermatozoide é uma mensagem envolta em matéria. Para

entender um vírus é necessário entender a vida.

A informação da vida é uma série de instruções que dão

funções específicas às células. Uma criança não é, como

acreditavam os cientistas do século XIX, uma fusão do pai e da mãe; ela herda informações distintas de cada um deles.

Essas instruções distintas são chamadas de “genes”.

Os genes foram descobertos em 1865 por Gregor

Mendel, um frade da Abadia de São Tomás, em Brünn, que

agora faz parte da República Tcheca. Mendel cultivou, fez

fertilização cruzada e analisou dezenas de milhares de pés de

ervilha e descobriu que características presentes numa planta

podiam ser introduzidas em sua prole, mas que, na maioria

dos casos, não podiam ser fundidas. Por exemplo, as ervilhas

podiam ser redondas ou enrugadas, mas não podiam ser as

duas coisas, nem podiam ter alguma forma intermediária.

Quando Mendel cruzou ervilhas redondas com outras

enrugadas, suas descendentes foram sempre redondas e

jamais enrugadas. A instrução “seja redonda” dominava a

instrução “seja enrugada”. Mendel chamou essas instruções

de “caracteres”; hoje em dia chamamos de “genes”.

O trabalho de Mendel foi ignorado – nem mesmo Darwin

sabia sobre ele – até 1902, quando foi redescoberto e se

tornou a base da “teoria dos cromossomos”. Os cromossomos

são pacotes de proteínas e ácidos encontrados no núcleo das

células vivas. Seu nome vem de uma das primeiras coisas

descobertas sobre eles – que se tornam muito coloridos

quando tingidos durante experiências científicas: em grego,

chroma é “cor” e soma é “corpo”. A teoria dos cromossomos,

desenvolvida em paralelo por Walter Sutton e Theophilus

Painter e formalizada por Edmund Beecher Wilson, explicava

o que os cromossomos fazem: carregam os genes que

permitem que a vida se reproduza.

A princípio os cientistas presumiram que as proteínas dos

cromossomos fossem a fonte da informação da vida. As

proteínas são moléculas longas e complicadas. Os ácidos, o

outro componente dos cromossomos, são relativamente

simples.

Rosalind Franklin acreditava que os mensageiros da vida

podiam ser os ácidos dos cromossomos, e não suas

proteínas. Ela chegou a esse tema indiretamente. Durante os

anos de faculdade, Franklin desenvolveu um interesse por cristais e aprendeu a estudá-los usando raios X. Ficou perita

na estrutura do carvão – ou, como ela chamou, “buracos no

carvão” –, o que lhe deu uma reputação como talentosa

cristalógrafa com o uso de raios X. Isso levou-a a dois cargos

de pesquisadora na Universidade de Londres, onde analisava

amostras biológicas em vez de geológicas. Foi durante seu

segundo cargo, na Birkbeck College, que ela estudou o vírus

do mosaico do tabaco.

A palavra “cristal” evoca coisas quebradiças como flocos

de neve, diamantes e sal, mas, em ciência, cristal é qualquer

sólido com átomos ou moléculas arrumados num padrão

tridimensional repetitivo. Os dois ácidos encontrados nos

cromossomos, o ácido desoxirribonucleico e o ácido

ribonucleico, ou DNA e RNA, são cristais.

As moléculas dos cristais são bem compactadas: o

espaço entre elas mede alguns bilionésimos de metro. As

ondas de luz são centenas de vezes mais longas do que isso,

de modo que a luz não pode ser usada para analisar a

estrutura dos cristais – ela não consegue passar através das

aberturas do cristal. Mas as ondas de raios X são do mesmo

tamanho dessas aberturas. Elas conseguem passar pela

trama do cristal e, ao fazer isso, são desviadas (ou

“refratadas”) toda vez que batem num dos átomos desse

sólido. Os cristalógrafos deduzem a estrutura do cristal

enviando raios X através dele, de todos os ângulos possíveis,

e depois analisando os resultados. O trabalho exige precisão,

atenção aos detalhes e a capacidade de imaginar em três

dimensões. Rosalind Franklin era uma cristalógrafa magistral.

Ela precisou de toda a sua habilidade para resolver o

problema de como os vírus se reproduzem. Diferentemente

das bactérias, os vírus são metabolicamente inertes – o que

significa que não mudam de modo nenhum e não “fazem”

nada – se não tiverem penetrado numa célula. O vírus do

mosaico do tabaco, por exemplo, é apenas um tubo que

contém instruções mortais codificadas em RNA. Quando

Franklin atacou o problema, já fora determinado que não havia nada além de espaço vazio no centro do vírus do mosaico do

tabaco. Então onde estavam as instruções mortais?

A resposta, como ela descobriu, era que o vírus é

estruturado como uma broca de perfuração: seu exterior de

proteína tem sulcos retorcidos e o núcleo é marcado por

espirais de ácido. Esse formato de arma também mostra o

modo como os vírus funcionam. A proteína perfura a célula e

então o RNA se desenrola e assume a máquina reprodutiva

do núcleo da célula, clonando-se e espalhando a infecção.

No início de 1958, Franklin publicou o resultado de seu

trabalho, realizado enquanto fazia tratamento para o câncer

que sofria desde 1956. Ela fez o modelo para a Feira Mundial

enquanto estava morrendo.

Sua morte foi citada no New York Times e no Times, de

Londres. Os dois jornais a descreveram como uma

cristalógrafa hábil, que havia ajudado a descobrir a natureza

dos vírus.

Nos anos seguintes à sua morte, uma nova verdade foi

contada. A contribuição de Rosalind Franklin para a

humanidade era muito maior do que seu trabalho sobre o

vírus do mosaico do tabaco. Durante muito tempo, as únicas

pessoas que sabiam de fato o que ela havia executado eram

os três homens que roubaram secretamente seu trabalho:

James Watson, Francis Crick e Maurice Wilkins.

 

2 | OS CROMOSSOMOS ERRADOS

 

Watson e Crick eram pesquisadores da Universidade de

Cambridge. Wilkins fora colega e supervisor de Rosalind

Franklin em seu primeiro cargo na King’s College, na

Universidade de Londres. Os três homens queriam ser os

primeiros a responder à grande questão da época: qual é a

estrutura do DNA, o ácido que transporta as informações da

vida, e como ele funciona? Eles se comportavam como se

estivessem numa competição. Wilkins chamava o trio de

“ratos” e desejou aos outros dois uma “corrida feliz”.

Rosalind Franklin sabia da corrida, mas não competia

nela. Acreditava que uma corrida tornava a ciência apressada,

e ela tinha uma limitação: era mulher.

Segundo uma perspectiva genética, a diferença entre um

homem e uma mulher é de um entre 46 cromossomos. As

mulheres têm dois cromossomos X. Os homens têm um

cromossomo X e um Y. O cromossomo Y carrega 454 genes,

menos de 1% do número total num ser humano. Por causa

dessa diferença minúscula, o potencial criativo das mulheres

foi suprimido durante a maior parte da história humana.

Em certo sentido, Franklin teve sorte. Formou-se na

Newnham College, na Universidade de Cambridge. Se tivesse

nascido algumas gerações antes não teria sido admitida

naquela universidade. A Newnham foi fundada em 1871, a

segunda faculdade de Cambridge voltada apenas para

mulheres. A outra, Girton, foi criada em 1869. A Universidade

de Cambridge foi fundada em 1209. Em seus primeiros 660

anos – mais de 80% de sua existência – nenhuma mulher foi

aceita. Mesmo quando se permitiu que ingressassem ali, as

mulheres não eram consideradas iguais aos homens. No caso

de Rosalind Franklin, embora tenha tirado primeiro lugar no

exame de admissão para o curso de química, ela não podia

ser membro ou aluna de graduação da universidade. As

mulheres eram “alunas da Girton e da Newnham Colleges”.

Não podiam receber diploma. Mas esse lugar nos níveis mais

baixos da universidade era um privilégio. O número de

mulheres que recebia permissão de estudar em Cambridge

era de no máximo quinhentas, para garantir que 90% dos

alunos fossem homens.

A ciência, aparentando ser desapaixonada e racional, foi

uma ativa opressora das mulheres. A Royal Society da Grã-

Bretanha proibiu a entrada de mulheres durante quase

trezentos anos, baseada inclusive em argumentos de que elas

não eram “legalmente pessoas”. As primeiras mulheres foram

admitidas na sociedade em 1945. Ambas pertenciam a

campos semelhantes ao de Franklin: Kathleen Lonsdale era

cristalógrafa; Marjory Stephenson, microbióloga.

Marie Curie, a cientista mais famosa da história, não se

saiu melhor. A Academia Francesa de Ciências – equivalente

à Royal Society britânica – rejeitou sua candidatura. A

Universidade Harvard recusou-se a lhe dar um diploma

honorário porque, nas palavras de Charles Eliot, então

presidente emérito, “o crédito não pertence totalmente a ela”.

Eliot presumiu que o marido de Marie, Pierre, tinha feito todo o

trabalho – assim como quase todos os colegas de Marie

Curie. Eles não tinham problema em presumir que o crédito

“pertencesse totalmente” a qualquer um dos homens a quem

quisessem homenagear.

Essas rejeições aconteceram apesar de Curie ser a

primeira mulher a ganhar um Prêmio Nobel de ciência e a

única pessoa, homem ou mulher, a receber Prêmios Nobel em

duas ciências diferentes (física em 1903 e química em 1911).

Os prêmios foram, em parte, resultado de sua luta pelo crédito

que ela merecia. Quando aceitou seu segundo Nobel, Curie

usou a palavra “mim” várias vezes em seu discurso, sempre

enfatizando: “O trabalho químico destinado a isolar o rádio no

estado de sal puro e em caracterizá-lo como um novo

elemento foi realizado especificamente por mim.” A segunda

mulher a receber um Prêmio Nobel de ciência foi Irène, filha

de Marie Curie. As duas compartilharam os prêmios com seus

maridos, a não ser o de química de Marie, que foi dado depois

da morte de Pierre Curie.

O sucesso das Curie não ajudou Lise Meitner. Ela

descobriu a fissão nuclear, mas viu seu colaborador Otto Hahn

receber o Prêmio Nobel em 1944 pelo trabalho dela. A terceira

mulher a receber um Nobel de ciência – e a primeira que não

era da família Curie – foi a bioquímica Gerty Cori, em 1947;

ela, como as duas Curies, compartilhou o prêmio com o

marido. A primeira mulher a ganhar sem o marido foi a física

Maria Goeppert-Mayer, em 1963. No total, apenas 15

mulheres receberam o Nobel de ciência, contra 540 homens,

tornando as mulheres 36 vezes menos prováveis de vencer do

que um homem. As chances mudaram pouco desde os

tempos de Marie Curie: uma cientista recebe esse prêmio cerca de uma vez a cada sete anos. Apenas duas mulheres

que não Curie receberam o prêmio sozinhas; só houve um

ano, 2009, em que mulheres ganharam prêmios em duas de

três categorias científicas ao mesmo tempo; mulheres jamais

ganharam prêmios de ciência na mesma categoria em dois

anos consecutivos; e dez dos dezesseis prêmios dados a

mulheres foram na “categoria de medicina ou fisiologia”. Só

duas mulheres que não se chamavam Curie receberam o

Nobel de química. E apenas uma que não se chamava Curie

recebeu um Nobel de física.

Isso não acontece porque as mulheres têm menos

aptidão para a ciência. Rosalind Franklin, por exemplo, fez

imagens do DNA melhores do que qualquer outra pessoa,

depois usou uma complexa equação matemática chamada

“função de Patterson” para analisá-las. A equação,

desenvolvida por Arthur Lindo Patterson em 1935, é uma

técnica clássica na cristalografia de raios X. As duas principais

propriedades das ondas eletromagnéticas são sua

intensidade, ou “amplitude”, e seu comprimento, ou “fase”. A

imagem criada por raios X mostra amplitude, mas não fase,

que também pode ser uma rica fonte de informação. A função

de Patterson supera essa limitação calculando a fase baseada

na amplitude. Nos anos 1950, antes dos computadores ou

mesmo das calculadoras, esse trabalho demorava meses.

Rosalind Franklin precisou usar uma régua de cálculo,

pedaços de papel e cálculos manuais para deduzir as fases

de cada imagem, cada uma das quais representava uma fatia

da molécula tridimensional do cristal que ela estava

analisando.

Enquanto Franklin concluía esse trabalho, seu colega

Maurice Wilkins, da King’s College, mostrou, sem o

consentimento ou o conhecimento dela, seus dados e suas

imagens a James Watson e Francis Crick. Watson e Crick

saltaram direto à conclusão que Rosalind estava provando

diligentemente – de que a estrutura do DNA era uma hélice

dupla –, publicaram-na e depois dividiram o Prêmio Nobel com

sua fonte secreta, Wilkins. Quando Rosalind Franklin morreu, não sabia que os três haviam roubado seu trabalho. Mesmo

depois de sua morte, eles não lhe deram crédito. Ela não

recebeu nem mesmo um agradecimento no discurso que eles

fizeram ao aceitar o Nobel, diferentemente de muitos homens

que fizeram contribuições bem menores. Wilkins se referiu a

Franklin apenas uma vez durante seu discurso, fazendo uma

menção ínfima de sua importância ao dizer que ela havia feito

“contribuições bastante valiosas à análise de raios X” em vez

de confessar que ela fez toda a análise de raios X e muito

mais do que isso. Watson e Crick nem sequer a mencionaram

em seus discursos.

 

3 | A VERDADE ACORRENTADA

 

Rosalind Franklin foi a pessoa mais importante na história da

descoberta do DNA. Foi o primeiro membro da raça humana –

ou de qualquer outra espécie na Terra – a ver o segredo da

vida. Ela respondeu à pergunta de Schrödinger, “O que é a

vida?”, com uma foto que tirou em 1o de maio de 1952.

Apontou sua máquina fotográfica para uma única tira de DNA

a 15 milímetros da lente, marcou o tempo de exposição para

cem horas e abriu o obturador. Era de fato sua máquina

fotográfica. Franklin a havia projetado e supervisionado sua

construção na oficina da King’s College. A máquina se

inclinava de modo preciso para tirar fotos de espécimes de

DNA em diferentes ângulos. Podia tirar fotos de muito perto.

Franklin protegia os espécimes de DNA da umidade com um

lacre de latão e borracha que também lhe permitia remover o

ar ao redor de uma amostra e substituí-lo por hidrogênio, um

meio melhor para a cristalografia. Não havia nada igual em

todo o mundo.

Quatro dias depois, a foto estava pronta. É uma das

imagens mais importantes da história. Para qualquer olho não

treinado, não parece grande coisa: um círculo sombreado em

volta de algo que parece um rosto fantasmagórico, os olhos,

as sobrancelhas, as narinas e sardas alinhadas simétrica e diagonalmente, sorrindo como um Buda, uma deusa ou talvez

o próprio Deus.

Para Rosalind, estava muito claro o que a foto mostrava.

O DNA tinha a forma de duas hélices, como uma escada

espiral sem apoio central. A forma dava uma indicação clara

de como a vida se reproduzia. A escada em espiral poderia se

copiar desenrolando-se e se replicando.

A cientista sabia o que tinha nas mãos, mas não saiu

disparada pelos corredores da King’s College gritando algum

equivalente de “Eureca!”. Estava decidida a não saltar direto

às conclusões. Queria trabalhar a matemática e ter provas

antes de publicar, e estava decidida a manter a mente aberta

até reunir todos os dados. Por isso deu o número de série 51

à imagem e continuou seu trabalho. Ainda estava terminando

seus cálculos com a função de Patterson e havia muitas fotos

a tirar. Então Maurice Wilkins mostrou a foto 51 a James

Watson e Francis Crick e os três receberam um Prêmio Nobel

pelo trabalho de uma mulher.

O mesmo aconteceu quando Marietta Blau, uma mulher

que trabalhava sem salário na Universidade de Viena,

desenvolveu uma técnica para fotografar partículas atômicas.

Blau não conseguiu um cargo remunerado em lugar algum,

ainda que seu trabalho fosse um enorme avanço na física de

partículas. C. F. Powell, um homem que “adotou e melhorou”

suas técnicas, recebeu o Prêmio Nobel em 1950. Agnes

Pockels teve negada uma formação universitária porque era

mulher. Aprendeu ciência sozinha, com os livros didáticos do

irmão, criou um laboratório em sua cozinha e usou-o para

fazer descobertas fundamentais sobre a química dos líquidos.

Seu trabalho foi “adotado” por Irving Langmuir, que ganhou

um Nobel por ele em 1932. Há muitas histórias semelhantes.

Muitos homens ganharam Prêmios Nobel de ciência por

descobertas feitas no todo ou em parte por mulheres.

 

4 | O EFEITO HARRIET

Mesmo nos dias de hoje, o jogo do crédito é preparado para

pender a favor dos homens. Um motivo para isso é o

desequilíbrio registrado pela primeira vez há 50 anos por uma

socióloga chamada Harriet Zuckerman. Ela tentava descobrir

se os cientistas eram mais bem-sucedidos trabalhando

sozinhos ou em equipe. Zuckerman entrevistou 41 vencedores

do Prêmio Nobel e descobriu algo que mudou para sempre a

direção de suas pesquisas: após ganhar o prêmio, muitos

laureados com o Nobel ficavam cautelosos em participar de

equipes porque descobriam que recebiam muito crédito

individual por coisas que o grupo fez. Um deles disse: “O

mundo é peculiar nessa questão de como dar crédito. Ele

tende a dá-lo às pessoas que já são famosas.” Outro

declarou: “O homem mais conhecido recebe mais crédito, uma

quantidade absurda de crédito.” Quase todo cientista

vencedor do Nobel disse a mesma coisa.

Antes da pesquisa da socióloga, a maioria dos estudiosos

presumia que os estratos da ciência eram mais ou menos

meritocráticos. Zuckerman mostrou que não. Os cientistas

mais reconhecidos recebem mais reconhecimento e os menos

reconhecidos recebem menos reconhecimento, não

importando quem faça o trabalho.

A descoberta de Zuckerman é conhecida como efeito

Mateus, por causa do texto em Mateus 25.29: “Pois a quem

tem, mais será dado, e terá em grande quantidade. Mas a

quem não tem, até o que tem lhe será tirado.” Esse foi o nome

que Robert Merton, um sociólogo muito mais eminente, deu à

descoberta de Zuckerman. Ela descobriu o efeito, depois o

experimentou; o crédito para o trabalho de Zuckerman foi

dado a Merton. Merton deu todos os créditos e

agradecimentos a Zuckerman, mas isso fez pouca diferença.

Como ela havia previsto, ele tinha reconhecimento, por isso

recebeu mais. Não houve ressentimentos. Zuckerman

colaborou com Merton e depois se casou com ele.

O efeito Mateus – ou talvez, mais corretamente, o efeito

Harriet – é parte do problema mais amplo: enxergamos o que

pensamos em vez de vermos o que de fato é. É incomum que cientistas, como os que participaram do estudo de Zuckerman,

sejam suficientemente honestos para ver que estão

recebendo crédito que não merecem. Assim como temos

preconceitos em relação aos outros, também temos

preconceitos em relação a nós mesmos. Durante séculos os

homens brancos tentaram convencer os outros de que são

superiores. Nesse processo, muitos homens brancos se

convenceram de sua própria superioridade. Frequentemente

as pessoas dão e recebem crédito segundo seus

preconceitos. Se há uma pessoa de um grupo “superior” na

sala quando algo é criado, os membros do grupo costumam

presumir que aquele indivíduo “superior” fez a maior parte do

trabalho, mesmo quando o oposto é verdadeiro. Na maior

parte do tempo, o “superior” tem a mesma suposição.

Certa vez me repassaram um e-mail que um cientista

importante, branco e do sexo masculino havia mandado para

uma cientista iniciante e não branca. Ela se candidatara a

obter uma patente. O cientista exigiu ser citado como inventor

na patente dela, sob a alegação de que a pesquisa dela

poderia ter sido “conectada” a ele. Ele dizia não ter interesse

em receber o crédito – só estava “certificando-se de que a

candidata fizesse as coisas do modo correto”. A lei de

patentes é complicada, mas a definição de inventor segundo o

departamento de patentes não é. “A menos que uma pessoa

colabore para a concepção da invenção”, diz ela, “ela não é

inventora.” Se a cientista o citasse como inventor, arriscava-se

a invalidar sua patente. Se não fizesse isso, arriscava sua

carreira.

O ardil do cientista funciona: ele é citado como inventor

em quase cinquenta patentes, um número improvável,

especialmente porque a maioria das patentes tem muitos

inventores, ainda que o número médio de pessoas que

“colaborem para a concepção” de um invento seja dois. O

sujeito acreditava sinceramente que devia ter tido algo a ver

com aquela invenção, embora jamais tivesse visto ou ouvido

falar dela até ver o pedido de patente.

5 | OMBROS, MAS NÃO DE GIGANTES

 

O marido de Harriet Zuckerman, Robert Merton, era um ímã

para créditos, e não somente por ser homem: também foi um

dos pensadores mais importantes do século XX. Merton

fundou um campo de conhecimento chamado “sociologia da

ciência”, que, junto com a “filosofia da ciência” de seu amigo

Thomas Kuhn, examina os aspectos sociais da descoberta e

da criação.

Merton dedicou a vida a entender como as pessoas

criam, especialmente no âmbito científico. Embora a ciência

fosse tida como objetiva e racional, e ainda que seus

resultados às vezes o sejam, Merton suspeitava de que os

praticantes não eram.

Essas pessoas são capazes de ser tão subjetivas,

emotivas e tendenciosas quanto todo mundo. E por isso os

“cientistas” puderam justificar tantas coisas erradas, desde a

inferioridade racial e de gênero até os canais de Marte e a

ideia de que o corpo é feito de “humores”. Os cientistas, como

todos os indivíduos criativos, atuam em ambientes – Merton

os dividiu no que ele chamou de microambientes e

macroambientes – que moldam o que eles pensam e fazem.

O modo de enxergar que Kuhn chamou de “paradigma” faz

parte do macroambiente; as pessoas cujas contribuições são

reconhecidas, e por que são reconhecidas, fazem parte do

microambiente.

Uma das observações de Merton era que a própria ideia

de dar o crédito a um único indivíduo é fundamentalmente

falha. Todo criador está cercado por outros tanto no espaço

quanto no tempo. Há criadores trabalhando ao lado deles,

criadores trabalhando do outro lado do corredor, criadores

trabalhando do outro lado do continente e criadores mortos ou

aposentados que trabalharam antes deles. Todo criador herda

conceitos, contextos, ferramentas, métodos, dados, leis,

princípios e modelos de milhares de outras pessoas, mortas e

vivas. Parte dessa herança se vê de imediato, parte não. Mas

todo campo criativo é uma vasta comunidade de conexões. Nenhum criador merece crédito demais porque todo criador

tem dívidas demais.

Em 1676, Isaac Newton descreveu esse problema

quando escreveu: “Se eu vi mais longe é porque estou de pé

no ombro de gigantes.” Isso pode parecer modéstia, mas

Newton usou a frase numa carta em que discutia sobre crédito

com o cientista rival Robert Hooke. O comentário ficou famoso

e Newton com frequência é citado como tendo cunhado a

frase. Mas o cientista já estava de pé sobre os ombros de

outro quando a escreveu. Ele a pegou de George Herbert, que

em 1651 escreveu: “Um anão no ombro de um gigante é, dos

dois, o que enxerga mais longe.” Herbert pegou-a de Robert

Burton, que escreveu em 1621: “Um anão de pé nos ombros

de um gigante pode ver mais longe até mesmo do que um

gigante.” Burton pegou-a de um teólogo espanhol, Diego de

Estella, também conhecido como Didacus Stella, que

provavelmente pegou-a de John de Salisbury (1159): “Somos

como anões nos ombros de gigantes, de modo que podemos

ver mais do que eles, e podemos ver coisas a uma distância

maior, não por virtude de alguma acuidade visual da nossa

parte ou de qualquer distinção física, mas porque somos

carregados no alto e erguidos por seu tamanho gigantesco.”

John de Salisbury pegou-a de Bernard de Chartres (1130):

“Somos como anões de pé nos ombros de gigantes, por isso

somos capazes de enxergar mais e ver mais longe do que os

antigos.” Não sabemos de quem Bernard de Chartres a

pegou.

Robert Merton colocou essa cadeia de apropriações num

livro, On the Shoulders of Giants (Sobre os ombros de

gigantes), para exemplificar a longa sequência de mãos que é

a realidade da criação e para mostrar como uma pessoa,

geralmente famosa, pode acumular crédito imerecido. Na

verdade, a frase de Newton era quase um clichê na época em

que ele a escreveu. Ele não estava fingindo ser original; era

um aforismo tão comum que ele não precisava citar a fonte.

Seu leitor, Hooke, já estaria familiarizado com a ideia.

Mas há um problema nessa afirmação, quer a atribuamos

a Newton, quer a outra pessoa: a ideia de “gigantes”. Se todo

mundo enxerga mais longe porque está nos ombros de

gigantes, então não existem gigantes, apenas uma torre de

pessoas, cada uma sobre os ombros de outra. Os gigantes,

como os gênios, são um mito.

Quantas pessoas estão nos sustentando? Uma geração

humana dura cerca de 25 anos. Somente há cinquenta mil

anos nossa transição para o Homo sapiens sapiens – pessoas

criativas – se completou; então tudo que fazemos é nos

aproveitar de duas mil gerações de engenhosidade humana.

Não vemos mais longe por causa de gigantes; vemos mais

longe por causa de gerações.

 

6 | HERANÇA

 

Rosalind Franklin, a cristalógrafa magistral, estava sobre uma

torre de gerações quando se tornou a primeira pessoa a

enxergar o segredo da vida.

Quase nada era conhecido sobre cristais no início do

século XX. Mas eles já haviam sido tema de curiosidade pelo

menos desde o inverno de 1610, quando Johannes Kepler se

perguntou por que os flocos de neve tinham seis lados. Kepler

escreveu um livro, O floco de neve de seis lados, em que

especulava que a solução da charada do floco de neve, ou

“cristal de neve”, iria nos permitir “recriar todo o universo”.

Muitas pessoas tentaram entender os flocos de neve,

inclusive Robert Hooke, que recebeu a carta de Newton sobre

os “ombros de gigantes”. Eles foram desenhados, descritos e

categorizados durante três séculos, mas jamais explicados.

Ninguém conseguia compreendê-los porque ninguém sabia o

que era um cristal, e isso porque ninguém conhecia a física da

matéria sólida.

Os mistérios dos cristais são invisíveis ao olho. Para vê-

los, Rosalind Franklin precisou de uma ferramenta que tem

suas origens no tempo de Kepler: raios X.

Enquanto a curiosidade de Kepler sobre os flocos de

neve tem uma conexão clara com os cristais, a origem dos

raios X é menos óbvia: remonta às melhorias na tecnologia da

bomba de ar, que permitiram aos cientistas se perguntar sobre

o vácuo. Um desses cientistas foi Robert Boyle, que usou o

vácuo para tentar entender a eletricidade. Outros

desenvolveram o trabalho de Boyle até que, cerca de

duzentos anos depois, o soprador de vidro alemão Heinrich

Geissler criou o “tubo de Geissler”, um vácuo parcial numa

garrafa que emitia luz sempre que uma bobina elétrica

conectada a ele era descarregada. Durante sua vida, a

invenção de Geissler foi uma novidade, um “interessante

brinquedo científico”, mas décadas depois tornou-se a base

para a iluminação a neon, para as lâmpadas incandescentes e

para a válvula eletrônica – o principal componente dos

primeiros rádios, televisores e computadores.

Então, em 1895, o físico alemão Wilhelm Röntgen notou

um brilho estranho no escuro enquanto trabalhava com um

tubo de Crookes. Ele comeu e dormiu no laboratório durante

seis semanas investigando aquilo até que um dia colocou a

mão de sua mulher numa chapa fotográfica e apontou seu

tubo de Crookes para ela. Quando mostrou o resultado à

mulher, uma foto de seus ossos – a primeira imagem, na

história, de um esqueleto vivo –, ela disse: “Eu vi minha

morte.” Röntgen deu à sua descoberta o nome do símbolo

usado para algo desconhecido: “Raios X”.

Mas o que eram esses raios desconhecidos? Eram

partículas, como elétrons, ou ondas, como a luz?

O físico Max von Laue respondeu a essa pergunta em

1912. Laue pôs cristais entre raios X e placas fotográficas e

descobriu que os raios X deixavam nas placas padrões de

interferência – que são semelhantes à luz do sol se refletindo

na água ondulada. As partículas não podiam passar através

das moléculas de cristal muito compactas – e, se passassem,

provavelmente não criariam padrões de interferência.

Portanto, concluiu Laue, os raios X eram ondas.

Meses depois de ouvir falar no trabalho de Laue, um

jovem físico chamado William Bragg mostrou que os padrões

de interferência também revelavam a estrutura interna do

cristal. Em 1915, aos 25 anos, ele ganhou o Prêmio Nobel de

física por sua descoberta, tornando-se o mais jovem cientista

a ser premiado com o Nobel. Seu pai, também um físico

chamado William, recebeu o prêmio junto com o filho, mas

isso foi somente “efeito Mateus”. Bragg pai não exerceu

praticamente nenhum papel na descoberta do filho.

O trabalho de Bragg transformou o estudo dos cristais.

Antes dele, a cristalografia era um ramo da mineralogia e boa

parte do trabalho consistia em coletar e catalogar. Depois de

Bragg, o campo se tornou “cristalografia de raios X”, uma

fronteira selvagem da física habitada por cientistas decididos a

penetrar no mistério da matéria sólida.

Essa mudança súbita teve uma consequência importante

e inesperada: fez avançar a carreira de mulheres cientistas.

No final do século XIX, as universidades começaram a admitir

mulheres nas aulas de ciência, ainda que com relutância. A

cristalografia, um campo relativamente modesto, era uma área

de estudo em que as mulheres conseguiam encontrar trabalho

depois da formatura. Uma delas, Florence Bascom, ensinava

geologia na Bryn Mawr College, na Pensilvânia, quando Bragg

recebeu o Nobel. Florence Bascom foi a primeira mulher a

receber um Ph.D. na Universidade Johns Hopkins, onde era

obrigada a assistir às aulas sentada atrás de uma tela, de

modo a não “distrair os homens”. Além disso, foi a primeira

geóloga nomeada pela United States Geological Survey, o

serviço geológico americano, e era especialista em cristais

muito antes de os físicos se interessarem por eles.

Quando o estudo dos cristais passou da compreensão do

seu exterior – mineralogia e química – para a compreensão do

seu interior – física do estado sólido –, Bascom foi atrás,

levando suas alunas junto.

Uma delas se chamava Polly Porter e fora proibida de

cursar faculdade porque seus pais não acreditavam que as

meninas devessem estudar. Quando Polly tinha 15 anos, sua família se mudou de Londres para Roma. Enquanto seus

irmãos estudavam, Polly andava pela cidade recolhendo

fragmentos de pedra e catalogando o mármore que os antigos

romanos haviam usado para construir a capital de seu

império. Mais tarde, ao se mudar com a família para Oxford,

Polly encontrou pedaços de Roma ali também: o Museu de

História Natural da Universidade de Oxford tinha uma coleção

de mármore romano antigo que precisava ser limpo e

classificado. Henry Miers, o primeiro professor de mineralogia

de Oxford, notou as visitas regulares de Polly Porter à coleção

e a contratou para traduzir o catálogo e reorganizar as pedras.

Ela descobriu a cristalografia por intermédio de Miers. Ele

disse aos pais de Polly que ela deveria tentar entrar para a

universidade, mas eles recusaram a ideia.

Polly, então, pegou um trabalho de tirar a poeira. Mas não

era uma poeira qualquer – era a poeira do laboratório de

Alfred Tutton, cristalógrafo da Royal School of Mines, de

Londres. Tutton ensinou Polly a produzir e medir cristais.

Depois a família Porter se mudou para os Estados Unidos, o

que levou Polly a catalogar mais pedras, primeiro no Instituto

Smithsonian, depois na Bryn Mawr College, onde Florence

Bascom a descobriu e apelou a Mary Garrett, uma sufragista e

herdeira de ferrovia, pedindo verbas para que ela pudesse

estudar. Ali ela ficou até 1914, o ano em que o Prêmio Nobel

de Bragg foi anunciado e a cristalografia passou das margens

da geologia para a base da ciência. Nesse ponto, Bascom

escreveu a Victor Goldschmidt, mineralogista da Universidade

de Heidelberg, na Alemanha:

 

Caro professor Goldschmidt,

 

Há tempos desejo lhe escrever, visando fazê-lo

interessar-se pela Srta. Porter. Ela está trabalhando

este ano no meu laboratório e eu gostaria que o

senhor a recebesse em seu laboratório no ano que

vem. O coração da Srta. Porter está voltado para o

estudo da cristalografia, e ela deveria ir à fonte maior

de inspiração.

A vida desta moça tem sido incomum. Como

nunca frequentou escola ou faculdade, há grandes

lacunas em sua educação, particularmente em

química e matemática. Mas, para superar isso, creio

que o senhor descobrirá que ela tem uma aptidão

rara e um amor profundo por seu campo de estudo.

Quero garantir que ela tenha as oportunidades que

lhe foram negadas por tanto tempo. Tenho grande fé

em seu sucesso.

 

Atenciosamente,

Florence Bascom

 

Goldschmidt recebeu Polly Porter em junho de 1914.

No mês seguinte começou a Primeira Guerra Mundial.

Polly obteve sucesso em seu trabalho de aprender a arte

da cristalografia apesar das dificuldades da guerra, da

depressão econômica e da distração de Goldschmidt. Três

anos depois recebeu um diploma em ciência em Oxford, onde

permaneceu realizando pesquisas e ensinando aos

estudantes de graduação sobre os cristais, que continuaram

sendo sua paixão até ela se aposentar em 1959. Um de seus

atos de efeito mais duradouro foi inspirar e encorajar uma

mulher que se tornaria uma das maiores cristalógrafas do

mundo e mentora de Rosalind Franklin: Dorothy Hodgkin.

Dorothy Hodgkin era apenas uma criança no alvorecer da

revolução dos cristais. Tinha 2 anos quando Bragg inventou a

cristalografia de raios X, 5 quando ele e seu pai ganharam o

Nobel e 15 anos quando ouviu Bragg pai falar nas Palestras

de Natal da Royal Institution para crianças. Na Grã-Bretanha,

as palestras, que foram iniciadas por Michael Faraday em

1825, são parte da temporada natalina tanto quanto as festas

e os corais. O tema de Bragg em 1923 foi “A Natureza das Coisas” – seis palestras descrevendo o mundo subatômico

recém-revelado.

“Nos últimos 25 anos”, observou ele, “ganhamos novas

perspectivas. As descobertas da radioatividade e dos raios X

mudaram toda a situação. E esse é de fato o motivo para a

escolha do tema destas palestras. Agora podemos entender

muitas coisas que estavam ocultas e vemos um maravilhoso

mundo novo se abrindo diante de nós, esperando para ser

explorado.”

Três palestras de Bragg foram sobre cristais. Ele explicou

a atração que eles exercem: “O cristal tem um charme

particular devido ao brilho e à regularidade perfeita das linhas.

Sentimos que algum mistério e beleza deve estar subjacente

às características que nos agradam, e esse é, de fato, o caso.

Através do cristal olhamos as primeiras estruturas da

natureza.”

As palestras inspiraram Dorothy Hodgkin a buscar uma

carreira na cristalografia, mas Oxford a desapontou: as

estruturas dos cristais eram uma pequena parte do currículo

básico da universidade. Só no último ano ela conheceu Polly

Porter, que ensinava cristalografia ao mesmo tempo que

realizava pesquisas para classificar todos os cristais do

mundo. Porter inspirou Dorothy de novo e até pode tê-la

impedido de se aventurar em outro campo. Dorothy Hodgkin

escreveu: “Havia uma massa de materiais tão grande já

evidentemente disponível nas estruturas de cristais e que eu

não conhecia – imaginei, por um momento, se haveria algo

para eu descobrir –, e aos poucos percebi as limitações do

presente que poderíamos superar.”

O que Dorothy Hodgkin viu antes da maioria dos outros

cientistas foi que a cristalografia de raios X podia ser aplicada

não somente a rochas, mas também a moléculas vivas, e que

ela poderia revelar os segredos da própria vida. Em 1934,

pouco depois de se formar, partiu para provar sua ideia

analisando um hormônio humano cristalino, a insulina. A

molécula não cedeu à tecnologia da década de 1930. Em

1945, ela determinou a estrutura cristalina de uma forma de colesterol, a primeira estrutura biomolecular a ser identificada,

ou “solucionada”, depois determinou a estrutura de uma

segunda biomolécula, a penicilina. Em 1954 determinou a

estrutura da vitamina B12, e por essa descoberta ganhou o

Prêmio Nobel.

No mesmo ano o físico japonês Ukichiro Nakaya resolveu

o mistério do floco de neve. Os flocos de neve que se formam

a temperaturas acima de 40 graus Celsius negativos não são

de água pura. Eles se formam ao redor de outra partícula,

quase sempre biológica, em geral uma bactéria. É uma linda

coincidência que a vida, na forma de uma bactéria, seja o

núcleo de um cristal abundante, a neve, e que um cristal, o

DNA, seja o núcleo da vida abundante. Nakaya também

demonstrou por que os flocos de neve têm seis lados: eles

crescem a partir de cristais de gelo, e a estrutura cristalina do

gelo é hexagonal.

Quando Rosalind Franklin começou a analisar o DNA

usando cristalografia de raios X, estava herdando uma técnica

cuja pioneira foi Dorothy Hodgkin, que foi inspirada por Polly

Porter, que era protegida de Florence Bascom, que abriu

caminho para todas as mulheres na ciência, seguindo o

trabalho de William Bragg, que foi inspirado por Max von

Laue, que seguiu Wilhelm Röntgen, que seguiu William

Crookes, que seguiu Heinrich Geissler, que seguiu Robert

Boyle.

Até mesmo a maior contribuição individual é um passo

minúsculo no caminho da humanidade. Nós devemos

praticamente tudo a outras pessoas. As gerações também são

geradoras. O propósito do fruto é a árvore e o propósito da

árvore é o fruto.

Hoje, o mundo inteiro está sobre os ombros de Rosalind

Franklin. Todos se beneficiam do trabalho dela. Ele é um elo

na longa cadeia que levou – dentre muitas outras coisas – à

virologia, à pesquisa de células-tronco, à terapia genética e às

provas de crimes baseadas em DNA. O trabalho de Franklin,

junto ao de Bragg, de Röntgen e de todos os outros até

mesmo viajou para além deste planeta. A robô Curiosity, da NASA, analisa a superfície de Marte usando cristalografia de

raios X. As nucleobases, componentes essenciais do DNA,

foram encontradas em meteoritos, e o glicolaldeído, uma

molécula parecida com o açúcar que faz parte do RNA, foi

descoberto orbitando uma estrela a quatrocentos milhões de

anos luz de nós. Como encontramos esses blocos de

construção tão distantes, agora parece possível que a vida

não seja rara e esteja em toda parte. A vida era misteriosa

quando Franklin a fotografou pela primeira vez; agora nós a

entendemos tão bem que suspeitamos que o universo possa

estar repleto dela.

Rosalind Franklin morreu por causa de seu DNA. Ela era

uma judia asquenaze, descendendo, em parte, de pessoas

que migraram do Oriente Médio para as margens do rio Reno,

na Europa, durante a Idade Média. O sobrenome de sua

família já fora Fraenkel; seus ancestrais eram de Wroclaw,

agora na Polônia e na época capital da Silésia. Sua herança

genética era mais europeia do que asiática: a comunidade

asquenaze começou quando homens judeus converteram

mulheres europeias e sobreviveu a partir da proibição do

casamento fora de seu grupo. Três desses povos tiveram

falhas genéticas: dois tiveram mutação de genes supressores

de tumor de câncer de mama tipo 1, chamados de genes

BRCA1; outro teve uma mutação chamada 6174delT no

supressor de tumor de câncer de mama tipo 2, ou gene

BRCA2. Franklin provavelmente herdou um desses genes

alterados. A mutação BRCA2 torna quinze vezes mais

provável que a mulher tenha câncer nos ovários; a mutação

BRCA1 aumenta suas chances num fator de trinta. Rosalind

Franklin morreu de câncer no ovário.

Nada disso poderia ser imaginado antes que ela

fotografasse o DNA. Hoje, as mulheres judias asquenaze,

todas literalmente primas de Rosalind Franklin, podem fazer

um teste para saber se possuem as mutações BRCA1 ou

BRCA2 e, caso possuam, tomar medidas preventivas. Essas

medidas são duras: incluem a remoção cirúrgica dos dois

seios, para reduzir o risco de câncer de mama, e a remoção cirúrgica dos ovários e trompas de Falópio, para reduzir o

risco de câncer no ovário. Mas num futuro próximo haverá,

sem dúvida, uma terapia impedindo que a mutação provoque

o câncer, sem a necessidade da cirurgia. Isso também será

verdadeiro para outras mutações genéticas, outros cânceres e

doenças. Franklin não conseguiu salvar a própria vida, mas

pôde ajudar a salvar a vida de dezenas de milhares de

mulheres que nasceram depois da sua morte, muitas das

quais jamais saberão seu nome.

Nada disso teria acontecido, ou só teria acontecido mais

tarde, se as mulheres ainda fossem proibidas de exercer a

ciência – não porque são mulheres, mas porque são humanas

e, portanto, têm tanta probabilidade de criar, inventar ou fazer

descobertas quanto qualquer pessoa. O mesmo é verdade

para indivíduos negros, pardos ou homossexuais. Uma

espécie que sobrevive criando não deve limitar quem pode

criar. Mais criadores significa mais criações. A igualdade traz a

justiça para alguns e a riqueza para todos.