A História Secreta da Criatividade
Capítulo 3 | Espere a adversidade
3
ESPERE A ADVERSIDADE
1 | JUDAH
Numa noite de verão em 1994, uma menina de 5 anos
chamada Jennifer desceu a escada para dizer à mãe que seu
ouvido doía. O pediatra de Jennifer prescreveu gotas para o
ouvido. A dor piorou. Um lado do rosto dela estava inchado. O
pediatra dobrou a dose. O inchaço cresceu. Os raios X não
revelaram nada. O calombo ficou maior do que uma bola de
beisebol. Jennifer ardia em febre e perdia peso. Cirurgiões
removeram o calombo. Ele voltou. Retiraram a metade da
mandíbula de Jennifer. O calombo retornou. Foi removido.
Voltou uma quarta vez, estendendo-se na direção do crânio. A
medicina não funcionou. A única chance de Jennifer era a
radioterapia. Ninguém sabia se isso afetaria o tumor. Mas todo
mundo sabia que aquilo interromperia o crescimento de
metade de seu rosto.
Então o médico de Jennifer ouviu boatos sobre um
pesquisador com uma teoria controvertida de que os tumores
criavam seu próprio suprimento de sangue. Esse homem dizia
que os tumores como os da menina poderiam ser destruídos
cortando-se seu acesso ao sangue. Muito poucas pessoas
acreditavam nele, e sua abordagem, de tão experimental, era
praticamente uma charlatanice. O nome dele era Judah
Folkman.
O médico contou aos pais da menina sobre essa teoria
não comprovada. Alertou que Folkmam era um homem controvertido, que era mais possivelmente um fantasista do
que um cientista. Os pais de Jennifer sentiram que tinham
pouco a perder. A palavra “fantasia” fez com que pensassem
em outra: esperança. Eles assinaram um formulário de
consentimento e colocaram a vida da filha nas mãos de
Judah.
Folkman prescreveu injeções de uma droga nova.
Durante semanas o pai de Jennifer aplicou-as em seus
bracinhos, sob seus gritos lacrimosos de protesto. Ela piorou.
Agonizou em febre e foi aterrorizada por visões. Os vizinhos a
ouviam gritar durante a noite e oravam por ela.
Folkman chamava sua teoria de angiogenesis – em latim,
“crescimento de novos vasos sanguíneos”. Ele havia
concebido isso mais de 30 anos antes, quando uma das suas
experiências dera errado. Ele servia na Marinha americana
como cirurgião, pesquisando novos modos de armazenar
sangue para viagens longas. Para ver que métodos poderiam
funcionar, montou um labirinto de tubos que fazia circular
sangue através de uma glândula de coelho e injetou na
glândula as coisas de crescimento mais rápido que ele
conhecia: células cancerosas de um camundongo. Esperava
que as células crescessem ou morressem. Mas outra coisa
aconteceu. As células ficaram grandes, como os pontos pretos
de um dado, depois pararam. Ainda estavam vivas; quando
Folkman as colocou de volta nos camundongos, elas
incharam até virar tumores mortais. Ali estava um mistério.
Por que o câncer não avançava numa glândula, porém
matava um camundongo?
Folkman notou que os tumores nos camundongos
estavam cheios de sangue, mas os tumores nas glândulas,
não. Nos camundongos, novos vasos sanguíneos se
estendiam, encontrando os tumores, alimentando-os e
fazendo-os crescer.
Outros cientistas do laboratório da Marinha acharam
aquilo interessante. Para Judah Folkman, tratava-se de algo
capaz de mudar a vida. Tinha certeza de que havia
descoberto alguma coisa realmente importante. E se os tumores estivessem, eles próprios, criando aqueles vasos
novos, tecendo para si mesmos uma teia de sangue com o
qual crescer? E se fosse possível impedir que isso
acontecesse?
Folkman era cirurgião. Com as mãos enfiadas até os
pulsos na carne viva, esses profissionais veem coisas que os
cientistas de laboratório não veem. Para um cirurgião, um
tumor é uma sujeira molhada e vermelha, como gordura num
bife. Para um cientista, ele é seco e branco, como uma couve-
flor. “Eu tinha visto e manuseado cânceres, e eles eram
quentes, vermelhos e sangrentos”, disse Folkman. “Assim,
quando os críticos diziam ‘Bem, nós não vemos nenhum vaso
sanguíneo nesses tumores’, eu sabia que eles estavam
olhando tumores que haviam sido retirados. Todo o sangue
fora drenado. Eram espécimes.”
Após deixar a Marinha, Folkman entrou para o City
Hospital, em Boston. Seu laboratório era minúsculo e a única
luz natural ali vinha de janelas perto do teto alto.
Trabalhou sozinho durante anos. Quando finalmente
recrutou uma equipe, ela consistia de um estudante de
medicina e um calouro universitário. Eles trabalharam durante
noites e fins de semana num primeiro artigo sobre como os
vasos sanguíneos dependem de fragmentos de células
chamados plaquetas. O texto foi publicado na Nature em
1969.
Depois disso o trabalho de Folkman foi rejeitado. Cell
Biology, Experimental Cell Research e o British Journal of
Cancer recusaram-se a publicar seus artigos sobre a ligação
entre tumores e sangue. Seus pedidos de verbas foram
negados. Os críticos diziam que suas conclusões iam além
dos dados, que o que ele via em seu laboratório não seria
visto nos pacientes e que suas experiências eram mal
projetadas. Alguns o chamavam de louco.
Nas décadas de 1960 e 1970 ninguém na área do câncer
se importava com o sangue. Toda a glória ia para os
matadores de tumores que usavam radiação e veneno. Os
médicos enxergavam as células malignas como exércitos furiosos e as atacavam com tratamentos inspirados pela
guerra. A quimioterapia foi desenvolvida a partir das armas
químicas da Primeira Guerra Mundial; a radioterapia lembrava
as armas nucleares da Segunda Guerra. Folkman imaginava o
câncer como uma doença da regeneração, e não da
degeneração – uma condição provocada pelo crescimento do
corpo, diferentemente da maioria das doenças, que são
causadas pela decadência ou por uma falha no corpo. Ele não
visualizava os tumores como invasores. Achava que eram
células que se comunicavam naturalmente, tendo o que seu
primeiro assistente de pesquisa, Michael Gimbrone, chamava
de “diálogo dinâmico” com o corpo. Folkman estava
convencido de que podia interromper essa comunicação e
fazer com que os tumores morressem de causas naturais.
A razão de Folkman enfrentar aquele ceticismo era o fato
de ser cirurgião. O lugar do cirurgião era no açougue da sala
de cirurgia, não na biblioteca do laboratório. Mas Folkman
dizia que a visão do câncer em pessoas vivas ajudava o seu
trabalho. Certa vez ele correu ao laboratório inspirado por uma
paciente cujo câncer de ovário se espalhara para fora dos
ovários. Durante o procedimento cirúrgico para salvá-la, ele
havia encontrado um grande tumor cheio de sangue orbitado
por pequenos tumores que ainda não tinham sinalizado para
obter um suprimento. Ele achou que a vida estava
confirmando suas ideias, ainda que todos os especialistas as
rejeitassem.
E a rejeição era feroz. Na melhor das hipóteses, as
palestras de Folkman eram recebidas com apatia. Na pior, a
plateia se retirava quando chegava sua vez de falar, deixando-
o diante de uma sala vazia. Um membro de um comitê de
liberação de verbas escreveu que ele estava “trabalhando
com sujeira”. Outro disse que ele estava numa “busca sem
esperança”. Um professor de Yale chamou-o de “charlatão”.
Pesquisadores eram aconselhados a não entrar para seu
laboratório. Membros da diretoria do Hospital Infantil de
Boston, onde ele era cirurgião-chefe, preocuparam-se com a
hipótese de Folkman estar prejudicando a reputação do hospital. Cortaram seu salário pela metade e o obrigaram a
parar de fazer cirurgias. Um dia, em 1981, ele consertou a
garganta deformada de um bebê recém-nascido, lavou-se e
nunca mais teve permissão de operar.
Os ataques vindos de fora do laboratório de Folkman
correspondiam ao desapontamento do lado de dentro. Tentar
provar sua hipótese implicava experiências monótonas, em
sua maioria malsucedidas. Ele colocou uma placa na parede
que explicava, e desculpava, a falta de progresso. Ela dizia: “A
inovação é uma série de repetitivos fracassos.”
Num sábado de novembro de 1985, Donald Ingber, um
dos pesquisadores de Folkman, encontrou fungo
contaminando uma das experiências. Isso não é incomum em
laboratórios e, em geral, os cientistas seguem um protocolo
rígido: jogam fora as experiências contaminadas. Mas Ingber
não fez isso. Ele examinou os vasos sanguíneos que cresciam
na placa de Petri. O fungo estava obrigando-os a recuar.
Ingber e Folkman fizeram experiências com o fungo,
vendo-o bloquear o crescimento das células sanguíneas em
placas de cultura, depois em embriões de galinha e, em
seguida, em camundongos.
Então apareceu Jennifer. Folkman tentou exorcizar o
tumor dela para provar sua teoria maluca de angiogênese. E,
após Jennifer se retorcer e gritar sob a tortura do “tratamento”,
sua família passou a perceber por que Folkman não podia ser
publicado e financiado nem realizar cirurgias. E por que outros
cientistas o chamavam de charlatão maluco que estava numa
busca sem esperança e todas aquelas coisas.
O motivo era que sua ideia era completamente nova.
Depois das primeiras semanas agonizantes, as febres de
Jennifer diminuíram. As alucinações passaram. O calombo na
cabeça encolheu até abandoná-la para sempre. A mandíbula
tornou a crescer. Ela era uma menina bonita outra vez. Judah
Folkman havia salvado sua vida.
2 | FRACASSO
Não existem atalhos para a criação. O caminho é feito de
muitos passos – nem retos nem sinuosos, mas como num
labirinto.
Judah Folkman caminhou pelo labirinto. É fácil entrar e
difícil ficar.
A criação não é um momento de inspiração, e sim uma
vida inteira de resistência. As gavetas do mundo estão cheias
de coisas começadas. Esboços inacabados, pedaços de
invenções, ideias de produtos incompletos, cadernos com
hipóteses formuladas pela metade, patentes abandonadas,
manuscritos parciais. Criar é mais monotonia do que aventura.
É acordar cedo e dormir tarde: longas horas realizando um
trabalho que provavelmente irá fracassar – um processo sem
progresso que deve ser repetido diariamente durante anos.
Começar é difícil, mas continuar é ainda mais. Aqueles que
procuram uma vida glamourosa não devem buscar a arte, a
ciência, a inovação ou a invenção. A criação é uma longa
jornada onde a maioria das curvas é errada e a maioria dos
becos, sem saída. O que os criadores fazem de mais
importante é trabalhar. O que eles fazem de mais importante,
também, é não desistir.
O único modo de ser produtivo é produzir mesmo quando
o produto é ruim. Esse é o caminho para fazer direito. Até
salvar a vida de Jennifer, Folkman descrevia seu trabalho
como “uma série de repetitivos fracassos”. Esses fracassos
não foram fáceis. Foram experiências nojentas com olhos de
coelhos, embriões de frangos e intestinos de cachorros.
Algumas ideias precisavam de enormes quantidades de
cartilagem de vaca; outras, de galões de urina de
camundongo. Muitas experiências tinham que ser repetidas
inúmeras vezes. Algumas deram errado e foram jogadas fora.
Outras deram certo, mas produziram resultados que não
ajudavam. Boa parte do trabalho ocupava noites e fins de
semana. Longos períodos de esforço podiam resultar em
nada. Certa vez, Folkman se perguntou qual era a diferença
entre futilidade e tenacidade, e chegou a uma conclusão que
se tornou seu mantra: “Se sua ideia é bem-sucedida, todo mundo diz que você é persistente. Se não é, que você é
teimoso.”
Folkman salvou mais vidas depois da de Jennifer. A
angiogênese tornou-se uma teoria importante no tratamento
do câncer. Médicos e cientistas louvaram Folkman não
apenas como uma pessoa persistente, mas como gênio. No
entanto ele só recebeu essa distinção depois de provar sua
hipótese.
O fungo de Donald Ingber não foi a coincidência
milagrosa que pode ter parecido. A persistência costuma
encontrar a sorte. Folkman e sua equipe trabalharam anos
para descobrir modos de cultivar vasos sanguíneos, testar
agentes bloqueadores e entender a natureza do crescimento
dos tumores. Ingber era um cientista brilhante, que trabalhava
sem descanso, preparado para o acaso. Em qualquer
laboratório o fungo teria sido descartado. Em outros
laboratórios, numa pesquisa diferente, ele certamente teria ido
para o lixo. Esse evento foi uma culminância, um clímax, e
não uma revelação. A sorte favorece o trabalho.
Entramos no labirinto da criação enfrentando problemas a
cada passo que damos. O começo de Folkman, trabalhando
sozinho num laboratório minúsculo e mal-iluminado, não foi
auspicioso. Nem os seus primeiros experimentos. Ele
começou com mais perguntas do que respostas. Exatamente
como acontece conosco. Algumas perguntas nós próprios
fazemos. Outras são feitas pelos outros. Não sabemos as
respostas e não temos ideia de como encontrá-las. A criação
exige a crença para além da razão. Nosso suporte é a fé – em
nós mesmos, em nosso sonho, em nossas chances de
sucesso e no poder cumulativo, combinado e criativo do
trabalho. Folkman não tinha motivo para achar que estava
certo e tinha incontáveis razões para acreditar que estava
errado – muitas delas fornecidas por seus colegas. Continuou
por causa da fé.
A fé é o modo como encaramos o fracasso. Não a fé num
poder mais elevado – se bem que podemos escolher isso
também –, mas a crença de que há um caminho adiante. Os criadores redefinem o fracasso ou a falha. O fracasso não é
final. Ele não carrega julgamento e não leva a conclusões. O
verbo falhar vem do latim fallere, enganar. A falha é o engano.
Ela objetiva nos derrotar. Não devemos ser enganados. Falhar
é uma lição, e não uma perda; é ganho, e não vergonha. Uma
jornada de 1.000 quilômetros termina com um único passo.
Será que todos os outros foram falhas ou fracassos?
Stephen Wolfram, cientista, escritor e empreendedor, é
mais conhecido por seu programa de computador
Mathematica. Além de escrever livros e criar códigos, ele junta
obsessivamente informações sobre a própria vida. Ele reuniu
o que chama de “uma das maiores coleções de dados
pessoais do mundo”. Sabe quantos e-mails enviou desde
1989, de quantas reuniões participou desde 2000, quantas
ligações telefônicas fez desde 2003 e quantos passos deu
desde 2010. Sabe essas coisas com exatidão. Registrou,
desde 2002, cada tecla que digitou em seu computador.
Teclou mais de cem milhões de vezes entre 2002 e 2012 e
ficou surpreso ao descobrir que a tecla que mais apertou foi a
DELETE. Usou-a mais de sete milhões de vezes: apagava
sete em cada cem caracteres que digitava – um ano e meio
de escrever e em seguida deletar.
As medições de Wolfram incluem cerca de duzentos mil
e-mails. Ele descobriu que deletava com mais frequência
quando estava escrevendo para alguma publicação. Isso
também é verdade para os escritores profissionais. Stephen
King, por exemplo, publicou mais de oitenta livros, a maioria
de ficção. Ele diz que escreve duas mil palavras por dia. Entre
o início de 1980 e o fim de 1999, publicou 39 livros novos,
num total de mais de cinco milhões de palavras. Mas escrever
duas mil palavras por dia durante vinte anos produz quatorze
milhões de palavras: King deve apagar cerca de duas
palavras para cada uma que mantém. Ele diz: “Há um bom
motivo para a tecla DELETE estar na sua máquina.”
Para onde vão as palavras deletadas por Stephen King?
Nem todas são perdidas apenas em alteração das frases. Um
de seus livros mais populares é um romance chamado A dança da morte, publicado em 1978. Quando entregou o
manuscrito à editora, depois de feitos todos os cortes que ele
achara necessários, o livro tinha, segundo o autor, “1.200
páginas e pesava 5,5 quilos, o mesmo peso da bola de
boliche de que mais gosto”.
Seus editores ficaram preocupados com a hipótese de um
livro tão longo não vender, por isso King apagou mais
trezentas páginas.
King foi capaz de jogar fora trezentas páginas, cerca de
sessenta mil palavras que lhe haviam custado mais de um
mês debruçado sobre a máquina, por achar que elas não
eram suficientemente boas.
O sucesso é a culminância de muitos fracassos. Quando
James Dyson, um inventor, encontra um problema, ele
imediatamente constrói algo que não o soluciona, uma
abordagem que ele chama de “fazer, quebrar, fazer, quebrar”.
O que o mundo chama de fracasso, o engenheiro chama de
protótipo. Do site de Dyson:
Há um conceito equivocado de que invenção é você
ter uma grande ideia, lidar com ela em sua oficina
durante alguns dias e depois aparecer com o projeto
pronto. Na verdade, em geral é um processo muito
mais longo e repetitivo – experimentar algo várias
vezes, mudando uma pequena variável de cada vez.
Tentativa e erro.
Dyson se descreve como “apenas uma pessoa comum.
Fico com raiva quando as coisas não funcionam”. Algo que o
deixou com muita raiva foi um aspirador de pó que perdia a
força de sucção à medida que o saco se enchia. Ele estava
pensando nisso enquanto passava de carro diante de uma
fábrica onde havia um extrator de poeira baseado num
princípio chamado “separação ciclônica”. Os separadores
ciclônicos, ou ciclones, giram o ar numa espiral, levando junto
qualquer outra coisa – como poeira e sujeira – até que ela eventualmente caia. Foi assim que Dorothy, de O mágico de
Oz, chegou a Oz:
Os ventos norte e sul se encontraram onde a casa
ficava e fizeram dela o centro exato do ciclone. No
meio de um ciclone o ar geralmente fica parado, mas
a forte pressão dos ventos em todos os lados da
casa a ergueu mais e mais alto, até que ela
chegasse ao topo do ciclone. A menina soltou um
grito de espanto e olhou ao redor. O ciclone pousou a
casa muito gentilmente – para um ciclone – no meio
de um lugar de intensa beleza.
A beleza da extração do pó por meio de ciclone é
simples: não existe filtro para entupir, o que significa que nada
reduz a sucção. Os filtros eram o motivo de a maioria dos
aspiradores de pó entupir. A ideia de Dyson foi igualmente
simples: fazer um aspirador que usasse tecnologia de ciclone
em vez de sugar o ar e a poeira através de um filtro.
A matemática do ciclone não é simples – combina a
mecânica dos fluidos, para descrever o movimento do ar, com
equações de transporte de partículas, para prever o
comportamento da poeira. Dyson não perdeu muito tempo
com essa matemática. Como os irmãos Wright, fez uma
observação e partiu para a execução. E a primeira coisa que
ele construiu – com papelão e um aspirador de pó
desmontado – não deu certo. Nem a segunda, nem a terceira
nem a quarta.
Dyson enfrentou muitos problemas. Precisava fazer o
menor ciclone do mundo, que fosse capaz de extrair as
partículas de poeira doméstica, que têm cerca de um
milionésimo de metro de diâmetro. E tinha que torná-lo
adequado para ser usado em casa e produzido em massa.
Foram necessários mais de cinco mil protótipos,
construídos no decorrer de cinco anos, para criar um
aspirador de pó funcional baseado na tecnologia de ciclone. Ele diz: “Sou um fracasso gigantesco, pois cometi 5.126
erros.” E, em outra ocasião:
Quase todo dia eu pensava em desistir. Muitas
pessoas desistem quando tudo está difícil e o mundo
parece estar contra elas. E, no entanto, esse é
exatamente o momento de pressionar um pouquinho
mais. Eu uso a analogia de disputar uma corrida. Há
um instante de exaustão em que parece que você
não conseguirá continuar, mas, se ultrapassar a
barreira da dor, vai enxergar o fim e ficar bem. E, em
geral, a solução vem logo a seguir.
A solução de Dyson foi – enfim – um aspirador de pó
funcional, com base no ciclone, que gerou uma empresa
bilionária e uma fortuna pessoal de mais de 5 bilhões de
dólares.
A observação de Judah Folkman, de que “a inovação é
uma série de repetitivos fracassos”, se aplica a todos os
campos de criação e a todos os criadores. Nada de bom é
criado na primeira vez. A abordagem do passo a passo para a
solução de problemas, que Karl Duncker observou, não diz
respeito somente a movimentos para a frente, como os
esboços de Kandinsky; alguns passos são para trás. Mas a
persistência transforma tudo em progresso. A definição da
escritora Linda Rubright de “processo repetitivo” é: “Fracasso
total. Repita.” Os criadores devem estar dispostos a fracassar
e repetir até encontrar o passo que chega ao sucesso. Samuel
Beckett disse isso do melhor modo: “Tente de novo. Fracasse
de novo. Fracasse melhor.”
3 | ESTRANHOS QUE OFERECEM DOCES
O fracasso não é um desperdício; ele é útil. O tempo passado
fracassando é um tempo bem gasto. O tortuoso labirinto da criação jamais é perda de tempo. Apenas abandoná-lo é que
é.
Certa vez um professor de psicologia húngaro escreveu
para criadores famosos pedindo que dessem entrevistas para
um livro que ele estava escrevendo. Uma das coisas mais
interessantes em seu projeto foi o número de pessoas que
disse “não”.
O escritor e pai da administração moderna Peter Drucker:
“Um dos segredos da produtividade (em que acredito, apesar
de não acreditar na criatividade) é ter um cesto de lixo de
papel MUITO GRANDE para guardar TODOS os convites
como o seu – na minha experiência a produtividade consiste
em NÃO fazer nada que ajude o trabalho de outras pessoas, e
sim passar todo o nosso tempo na obra que o Senhor nos
chamou para fazer, e fazê-la bem.”
A secretária do romancista Saul Bellow: “O Sr. Bellow me
informou que permanece criativo na segunda metade da vida,
pelo menos em parte, porque não se permite fazer parte dos
‘estudos’ de outras pessoas.”
O fotógrafo Richard Avedon: “Desculpe, me sobra muito
pouco tempo.”
A secretária do compositor György Ligeti: “Ele é criativo e,
por causa disso, totalmente tomado pelo trabalho. Portanto o
próprio motivo de o senhor desejar estudar o processo criativo
dele é também o motivo de ele (infelizmente) não ter tempo
para ajudá-lo nesse estudo. E o Sr. Ligeti gostaria de
acrescentar que não pode responder pessoalmente à sua
carta porque está tentando desesperadamente terminar um
concerto para violino que irá estrear no outono.”
O professor contatou 275 pessoas criativas. Um terço
recusou. O motivo era falta de tempo. Um terço não disse
nada. Podemos presumir que o motivo de elas nem se
pronunciarem tenha sido, também, a falta de tempo ou talvez
a falta de uma secretária.
O tempo é a matéria-prima da criação. Tire a magia e o
mito da criação e tudo que resta é trabalho: o trabalho de se
tornar hábil por meio do estudo e do treino, o trabalho de encontrar soluções para problemas e depois problemas dentro
dessas soluções, o trabalho de tentativa e erro, o trabalho de
pensar e aperfeiçoar, o trabalho de criar. Criar consome. É o
dia inteiro, todo dia. O ato de criar não conhece fins de
semana nem férias. Não é quando sentimos vontade. É
hábito, compulsão, obsessão e vocação. O fio comum que liga
os criadores é o modo como eles passam o tempo. E quase
todos os criadores passam quase todo o tempo no trabalho de
criação. São raros os sucessos que acontecem do dia para a
noite, e muitos os que dependem de noites e noites de vigília.
Dizer “não” tem mais poder criativo do que ideias, insights
e talento combinados. Dizer “não” poupa tempo, o fio com o
qual tecemos nossas criações. A matemática do tempo é
simples: você tem menos do que imagina e precisa de mais
do que acredita.
Não somos ensinados a dizer não. Somos ensinados a
não dizer não. O “não” é grosseiro. É uma rejeição, uma
recusa, um pequeno ato de violência verbal. O “não” é para as
drogas e os estranhos que nos oferecem doces.
Mas pense no professor húngaro: famoso, distinto,
pedindo educada e pessoalmente uma pequena quantidade
de tempo de pessoas que já encontraram o sucesso criativo.
E dois terços recusaram, na maioria dos casos sem dizer
nada ou mandando outra pessoa dizer “não” por eles, sem
desperdiçar ao menos um minuto para responder.
Os criadores não perguntam quanto tempo uma coisa
demora, mas quanta criação ela custa. Essa entrevista, essa
carta, essa ida ao cinema, esse jantar com amigos, essa
festa, esse último dia do verão. Quanto vou deixar de criar se
não disser “não”? Um esboço? Uma estrofe? Um parágrafo?
Um experimento? Vinte linhas de código? A resposta é
sempre a mesma: o “sim” me fará realizar menos. Já não
temos tempo suficiente. Há compras para fazer, tanques de
gasolina para encher, famílias para amar e trabalhos diurnos
para executar.
As pessoas que criam sabem disso. Sabem que o mundo
é todo feito de estranhos oferecendo doces. Sabem dizer não e sabem sofrer as consequências. Charles Dickens, rejeitando
um convite de uma amiga:
“É só meia hora”, “É só uma tarde”, “É só uma noite”,
dizem-me as pessoas com frequência. Mas elas não
sabem que a mera consciência de um compromisso
pode atrapalhar um dia inteiro. Quem se dedica a
uma arte deve se contentar em se entregar
totalmente a ela e em encontrar sua recompensa
nela. Lamento se você suspeita de que não desejo
vê-la, mas não posso evitar; preciso seguir o meu
caminho desse jeito.
O “não” nos deixa distantes, chatos, mal-educados,
inamistosos, egoístas, antissociais, desatentos, solitários e um
arsenal de outros insultos. No entanto, ele é o botão que nos
mantém ligados, seguindo adiante.
4 | AGORA, LAVE AS MÃOS
O fracasso costuma ser seguido pela rejeição.
Em 1846, um grande número de mulheres e bebês morria
durante o parto em Viena. A causa dos óbitos era a febre
puerperal, uma doença que faz inchar e depois mata as
vítimas. O Hospital Geral de Viena tinha duas maternidades.
Em uma delas os partos eram feitos por médicos; na outra,
por parteiras. Todas as mortes aconteciam nas mãos dos
médicos. Mulheres grávidas esperavam do lado de fora do
hospital, implorando para não serem conduzidas àquela onde
se davam as mortes, e frequentemente preferiam dar à luz na
rua. E o número de mães e recém-nascidos que sobrevivia ao
parto era maior na rua do que na maternidade em questão.
O Geral de Viena era um hospital-escola onde os
médicos aprendiam a profissão cortando cadáveres. Eles
costumavam fazer os partos após dissecar os corpos. Um dos médicos, um húngaro chamado Ignaz Semmelweis, começou
a se perguntar se a febre puerperal seria causada por algo
que era levado dos cadáveres para as mulheres em trabalho
de parto. A maioria de seus colegas achava o questionamento
absurdo. Carl Edvard Marius Levy, um obstetra dinamarquês,
por exemplo, escreveu que “as crenças de Semmelweis são
muito pouco claras, suas observações são voláteis e suas
experiências incertas demais para a dedução de resultados
científicos”. Levy ficou ofendido com a falta de teoria por trás
do trabalho de Semmelweis. Semmelweis especulava que
algum tipo de matéria orgânica estava sendo transferida do
necrotério para as mães, mas não sabia o que era. Levy disse
que isso tornava toda a ideia insatisfatória do “ponto de vista
científico”.
Mas, do ponto de vista clínico, Semmelweis tinha dados
convincentes para sustentar sua hipótese. Numa época em
que os médicos não lavavam as mãos ao entrar ou sair de
uma sala de cirurgia e tinham tanto orgulho do sangue nos
jalecos, Semmelweis convenceu os médicos de Viena a lavar
as mãos antes de fazer os partos, e os resultados foram
imediatos. Em abril de 1847, 57 mulheres morreram dando à
luz na Primeira Clínica do Geral de Viena – 18% de todas as
pacientes. Em meados de maio, Semmelweis introduziu a
lavagem das mãos. Em junho, 6 mulheres morreram – uma
taxa de 6%, a mesma da Segunda Clínica, onde não havia
problemas. A taxa de mortes permaneceu baixa e em alguns
meses caiu a zero. Nos dois anos seguintes, Semmelweis
salvou a vida de cerca de 500 mulheres e de um número
desconhecido de crianças.
Isso não bastou para superar o ceticismo. Charles
Delucena Meigs, um obstetra americano, tipificou o ultraje.
Disse aos seus alunos que as mãos de um médico não
poderiam levar doenças porque os médicos são cavalheiros e
“as mãos de um cavalheiro são limpas”.
Semmelweis não entendia por que lavar as mãos antes
do parto salvava vidas – só sabia que salvava. E, se você não
sabe por que algo salva vidas, por que fazê-lo? Para Levy, Meigs e os outros “cavalheiros”, impedir a morte de milhares
de mulheres e seus bebês não era motivo suficiente.
À medida que a comunidade médica rejeitava as ideias
de Semmelweis, seu moral e seu comportamento decaíam.
Ele fora uma estrela em ascensão no hospital até sua
proposta de lavar as mãos. Depois de alguns anos perdeu o
emprego e começou a dar sinais de doença mental. Foi
levado para um hospício, colocado numa camisa de força e
espancado. Morreu duas semanas depois. Poucos
compareceram ao seu enterro. Sem a supervisão de
Semmelweis, os médicos do Hospital Geral de Viena pararam
de lavar as mãos. A taxa de mortalidade de mulheres e bebês
na clínica da maternidade aumentou em 600%.
Mesmo num campo tão empírico e científico como a
medicina – quando os resultados são tão fundamentais como
a vida e a morte e quando a criação é simplesmente pedir que
as pessoas lavem as mãos –, os criadores podem não ser
bem-vindos.
Por quê? Porque os poderosos anticorpos do status quo
se unem contra a mudança. Quando você apresentar algo
novo de verdade ao mundo, prepare-se. Causar impacto, em
geral, não é uma experiência agradável. Às vezes a parte
mais difícil de criar não é ter uma ideia, e sim salvá-la – de
preferência ao mesmo tempo que você também se salva.
A ideia de Semmelweis desafiou dois milênios de dogma
médico. Desde a época de Hipócrates os médicos eram
treinados no humorismo: a crença de que o corpo é composto
de quatro fluidos ou humores – a bile preta, a bile amarela, a
flegma e o sangue. O humorismo sobrevive em nossa
linguagem até hoje. Em latim, bile preta é melan chole. Os
indivíduos que a possuíam em grande quantidade
supostamente sofriam de melancolia. A bile amarela, chole,
em quantidade demasiada, deixava as pessoas irritadiças ou
coléricas. Um excesso de sangue, sanguis, as deixava
otimistas ou sanguíneas. A flegma as deixava estoicas ou
fleumáticas. A boa saúde implicava o equilíbrio desses
humores. A doença e a incapacidade resultavam de desequilíbrios provocados pela inalação de vapores ou “ar
ruim”, uma ideia conhecida como “teoria miasmática”. As
doenças eram tratadas com a remoção de sangue. No século
XIX, os médicos retiravam o sangue colocando sanguessugas
no corpo dos doentes, um tratamento chamado de
“hirudoterapia”. As sanguessugas se grudavam à pele do
paciente usando um sugador, por trás do qual ficava uma
mandíbula de três lâminas em forma de hélice. Assim que o
sugador estava no lugar, a sanguessuga se grudava
mordendo, injetava um anestésico e afinadores de sangue no
paciente e depois sugava seu sangue. Uma vez satisfeita, ela
caía para começar a digestão. O processo demorava até duas
horas. Era importante esperar. Se a sanguessuga fosse
retirada prematuramente, vomitaria no ferimento aberto do
paciente.
A ideia de Semmelweis, de que a febre puerperal podia
ser transportada dos cadáveres às pacientes pelos médicos e
que, portanto, podia ser prevenida com a lavagem das mãos,
contradizia a trindade ancestral formada pelo humorismo, o
miasma e a hirudoterapia. Como a higiene poderia ter impacto
na saúde quando a doença era gerada de modo espontâneo
dentro do corpo?
Ao mesmo tempo que Semmelweis morria, Louis Pasteur
respondia a essa pergunta. Enquanto Semmelweis apontava
para o número de mulheres que não morriam e esperava que
o bom senso prevalecesse, Pasteur usava experiências
projetadas cuidadosamente para levar adiante o que se tornou
conhecido como a “teoria dos germes”. Ele produziu provas
incontestáveis para demonstrar que microrganismos vivos
causavam muitas doenças. Pasteur tinha plena consciência
da natureza controvertida de sua teoria e também da enorme
rejeição que proponentes como Semmelweis haviam sofrido.
Os verdadeiros crentes no humorismo lutavam havia séculos
contra os rumores a respeito de germes. Pasteur foi
meticuloso em suas provas, persistente em suas afirmações e
convenceu a maior parte da Europa. Os resultados clínicos de
Semmelweis sugeriam a verdade, mas não bastaram para superar dois mil anos de crença em outra coisa. Uma ideia
nova precisa de provas muito melhores do que uma ideia
antiga, como alguns dos nossos melhores pensadores
observaram.
David Hume: “Um sábio ajusta sua crença à prova.”
Pierre-Simon Laplace: “O peso da evidência de uma
afirmação extraordinária deve ser proporcional à sua
estranheza.”
Marcello Truzzi: “Uma afirmação extraordinária exige uma
prova extraordinária.”
Carl Sagan: “Afirmações extraordinárias exigem provas
extraordinárias.”
As ideias prevalecentes são fortalecidas pela
permanência e pela familiaridade, não importando quanto
possam parecer ridículas mais tarde. Só conseguem ser
mudadas por pessoas preparadas para enfrentar a rejeição
utilizando provas, paciência e energia. Semmelweis acreditava
que bastava salvar centenas de mulheres.
O colapso de Semmelweis aconteceu porque ele não
esperava que uma ideia tão boa pudesse ser tão
completamente rejeitada, ficando chocado com os ataques
maldosos e às vezes pessoais. Mas criar é infiltrar o novo no
velho, uma pedra no sapato do status quo, e isso torna os
criadores uma ameaça, pelo menos para algumas pessoas.
Em consequência, a criação raramente é bem-vinda.
Ainda assim, a surpresa de Semmelweis é típica. A teoria
mais comum e errônea sobre a criação é a de que as boas
ideias são celebradas – em parte por causa de algo que
aconteceu em Concord, Massachusetts, em 1855.
5 | RATOEIRAS MELHORES
Numa escrita longa e fluida, Ralph Waldo Emerson escreveu
em seu diário: “Se um homem tem bom milho, madeira,
tábuas ou porcos para vender, ou se sabe fazer cadeiras,
facas, cadinhos ou órgãos de igreja melhores do que qualquer outra pessoa, você encontrará uma estrada ampla e muito
batida até a casa dele, ainda que seja no meio da floresta.”
Em 1889, vários anos depois da morte de Emerson, a frase
era citada de modo errado: “Se um homem puder escrever um
livro melhor, pregar um sermão melhor ou fazer uma ratoeira
melhor do que seu vizinho, ainda que ele construa sua casa
na floresta, o mundo fará um caminho bem batido até sua
porta.” Mais tarde o texto foi mudado de novo para “Construa
uma ratoeira melhor e o mundo fará um caminho até sua
porta” e ficou famoso.
Essas palavras fizeram mais do que provocar um mal-
entendido com relação à popularidade das coisas novas em
geral. Muitos indivíduos as compreenderam literalmente; como
resultado a ratoeira se tornou um dos artigos patenteados e
reinventados com mais frequência nos Estados Unidos. Cerca
de quatrocentos pedidos de patente de ratoeiras são feitos a
cada ano. Algo em torno de quarenta são concedidas. Mais de
cinco mil patentes de ratoeiras foram emitidas no total – tantas
que o Escritório de Patentes e Marcas Registradas dos
Estados Unidos tem 39 subclasses para ratoeiras, inclusive
“Empalação”, “Sufocação ou Compressão” e “Eletrocussão e
Explosão”. Inventores independentes são donos de quase
todas as patentes de ratoeiras e usam a citação que
acreditam ser de Emerson. Mas o mundo não faz um caminho
até a porta deles. Menos de vinte dessas cinco mil patentes
ganharam algum dinheiro.
A frase não pretendia inspirar melhores ratoeiras. Pelo
contrário, uma ratoeira melhor a inspirou. Emerson não
poderia tê-la escrito: ele morreu antes que as ratoeiras
comerciais fossem inventadas. Conheço bem a história
porque meu bisavô, que viveu na mesma época de Emerson,
ganhava a vida como caçador de ratos. Suas principais
ferramentas eram os cães, como Jack Russell terrier, uma
raça relativamente nova naqueles dias e desenvolvida
especificamente para caçar bichos pequenos. Dentre outras
técnicas usadas para pegar ratos estavam os gatos – na
verdade, menos eficazes do que os cães, apesar da reputação –, as jaulas e o afogamento. Isso mudou no fim da
década de 1880, quando um inventor de Illinois chamado
William C. Hooker criou a primeira ratoeira produzida em
massa. E pouco depois disso a profissão da minha família
mudou também. Havia pouca demanda para os caçadores de
ratos, já que as pessoas podiam comprar ratoeiras baratas. A
ratoeira de Hooker é aquela que conhecemos hoje: uma barra
acionada por mola que é liberada por um gatilho quando um
rato pega a isca. Essa é a “ratoeira melhor” citada na revisão
de 1889 das palavras de Emerson. Ela não precisa ser
construída: William Hooker já a construiu.
A “armadilha de mola” de Hooker foi aperfeiçoada em
poucos anos. Era barata, fácil e eficaz. Continua sendo o
projeto dominante até hoje. Pega um quarto de bilhão de ratos
por ano, vende mais do que todas as concorrentes
combinadas num fator de dois para um e custa menos de um
dólar. Quase todas as cinco mil ratoeiras criadas desde
Hooker foram rejeitadas.
A ideia de que os criadores são saudados como heróis é
tão errada na atualidade quanto era quando Emerson não a
escreveu. O argumento real de Emerson tinha a ver com o
que ele chamava de “fama comum” – o sucesso que a pessoa
tem em sua comunidade quando oferece bens ou serviços
valiosos. Se escrevesse hoje, Emerson poderia dizer: “Abra o
melhor café da cidade e seus vizinhos vão ficar na fila para
tomar uma xícara.” Ele não está nos exortando a inventar um
café alternativo.
A crença equivocada de que o mundo espera por
ratoeiras melhores produziu mais do que ratoeiras. Deu
origem a uma indústria de predadores. Empresas chamadas
“companhias de promoção de invenções” fazem anúncios na
televisão e no rádio, em jornais e revistas prometendo avaliar
as ideias das pessoas, patenteá-las e vendê-las a fabricantes
e varejistas. Eles cobram uma taxa inicial de centenas de
dólares pela “avaliação”. A avaliação quase sempre classifica
a ideia de valiosa e patenteável. Então as empresas exigem
milhares de dólares para serviços jurídicos e marketing. Os inventores são levados a sentir que sua ideia foi
especialmente escolhida. Ficam com a impressão de que a
empresa de promoção investirá o próprio tempo, e dinheiro,
em sua ideia para ganhar direitos de exploração da patente.
Na verdade essas companhias ganham todo o dinheiro com
as taxas de adiantamento. Elas têm pouco sucesso em
colocar as invenções no mercado ou ajudar os inventores.
Em 1999, o governo federal dos Estados Unidos interveio
para proteger o “recurso natural mais precioso da nação: o
inventor independente”. A Lei de Proteção ao Inventor
Americano foi assinada pelo presidente Clinton e a Comissão
Federal de Comércio (CFC) abriu processos contra as
companhias de promoção de invenções que atuavam com
nomes como National Idea Center (Centro Nacional de
Ideias), American Invention Associates (Invenção Americana
Associados) e Eureka Solutions International (Eureka
Soluções Internacional). Num momento de sábia poesia, a
CFC chamou seu programa de Projeto Ratoeira.
Uma companhia, Davison & Associados, fez acordo com
a CFC, pagando 11 milhões de dólares e prometendo não
adulterar ou ocultar seus serviços. Desde então a empresa
mudou seu nome para Davison Design. Ela tem uma “fábrica”
parecida com um parque de diversões chamada Inventionland
(Inventolândia), onde há até mesmo um castelo, um navio
pirata e uma casa na árvore escondida atrás de uma estante
falsa em seus escritórios em O’Hara, Pensilvânia. Os
empregados da Inventionland são chamados de
“inventionmen”. Dentre suas criações estão uma panela para
fazer almôndegas, um cabide para guardar sandálias de
plástico e roupas para cães. Muitas de suas invenções são
baseadas nas próprias ideias de Davison, ainda que sejam
vendidas como “produtos de clientes”.
É na Inventionland que encontramos a verdade sobre
ratoeiras melhores. O acordo com a CFC obrigou Davison a
revelar quantos de seus clientes ganharam dinheiro. Segundo
o relatório apresentado pela empresa em novembro de 2012,
uma média de onze mil pessoas por ano assinam contratos. Dessas, três têm lucros. Nos 23 anos entre a fundação da
Davison e 2012, 27 indivíduos ganharam dinheiro usando os
serviços da empresa, pouco mais de uma por ano. Quanto
dinheiro? A Davison teve que revelar seus preços. O número
de seus clientes multiplicado por seus preços equivale a
vendas de 45 milhões de dólares por ano. A Davison diz que o
dinheiro que ganha com as vendas dos produtos dos clientes
equivale a 0,001% de seus rendimentos brutos e que isso
representa 10% de royalties sobre o que os clientes ganham.
Se os números estiverem corretos, Davison ganha 450
dólares por ano de royalties e todos os clientes da Davison
juntos recebem um total de 4.050 dólares por ano para os 45
milhões anuais que gastam com os serviços da empresa –
menos de um dólar devolvido por cada dez mil investidos.
A Davison oferece apoio para mais de sessenta mil ideias
por ano. Isso, por si só, já deveria deixar o inventor com
suspeitas – e deixaria, não fosse o mito da ratoeira melhor.
Infelizmente, qualquer pessoa que adore sua ideia logo de
cara ou ama você, ou quer alguma coisa. Em geral, rejeição é
o que mais acontece quando você está inventando algo.
Construa uma ratoeira melhor e o mundo não fará um
caminho até sua porta. Você é que deve abrir um caminho
para o mundo.
6 | AS NEGATIVAS MAIS DECISIVAS
A rejeição dói, mas não é o pior que pode acontecer. Em 22
de fevereiro de 1911, Gaston Hervieu segurou o corrimão da
primeira plataforma da Torre Eiffel e olhou para baixo. Estava
quase 60 metros acima de Paris. As pessoas que o olhavam
do chão pareciam menores do que suas unhas.
Hervieu era um inventor de paraquedas e dirigíveis. Em
1906, fez parte de uma equipe que tentou chegar ao Polo
Norte de dirigível; em 1909, desenvolveu um paraquedas para
reduzir a velocidade de descida das aeronaves. Hervieu
subira na Torre Eiffel para testar um novo paraquedas de emergência para pilotos. Verificou o vento, respirou com
nervosismo e começou o teste. Seu paraquedas se abriu
assim que se afastou da plataforma. A seda se encheu de ar,
criando um hemisfério no céu, depois planou em segurança
até o chão. Um fotógrafo do semanário holandês Het Leven
capturou o momento: uma figura descendo graciosamente sob
o arco noroeste da torre, com a multidão olhando e o Palais
du Trocadéro ao fundo.
Mas havia um ardil: Hervieu não fez o salto
pessoalmente; usou um boneco de teste que pesava 72
quilos. Para a maioria das pessoas isso pareceu prudente,
mas para pelo menos um homem foi um ultraje. Franz
Reichelt era um alfaiate austríaco que estava desenvolvendo
um paraquedas. Ele denunciou o uso do boneco por Hervieu
como uma “fraude” e, quase um ano depois, na manhã de
domingo de 4 de fevereiro de 1912, chegou à Torre Eiffel para
realizar sua experiência.
Reichelt havia se certificado de que seu teste seria
divulgado. Fotógrafos, jornalistas e um cinegrafista do serviço
de notícias Pathé estavam esperando para recebê-lo. Ele
posou para fotos, tirou sua boina preta e em seguida fez um
anúncio que pegou de surpresa a maioria das pessoas. Ele
não usaria um boneco nem equipamento de segurança. Disse:
“Estou tão convencido de que meu dispositivo irá funcionar
que eu mesmo saltarei.”
Gaston Hervieu, que fora à Torre Eiffel para assistir ao
teste de Reichelt, tentou impedi-lo. Hervieu afirmou que havia
motivos técnicos para o paraquedas de Reichelt não
funcionar. Os dois tiveram uma discussão acalorada até que,
finalmente, Reichelt lhe deu as costas e foi até a escada da
torre. Ao começar a subir, olhou para trás e disse: “Meu
paraquedas vai dar a negativa mais decisiva aos seus
argumentos.”
Hervieu havia carregado um paraquedas e um boneco
enquanto subia os 360 degraus até o primeiro andar da torre,
mas Reichelt não carregava nada. Ele usava seu paraquedas,
como um piloto faria se fosse saltar de um avião em queda. A descrição de Reichelt sobre o conceito foi publicada nas
matérias dos jornais do dia seguinte: “Minha invenção não tem
nada em comum com dispositivos semelhantes. É em parte
feita de tecido à prova d’água e em parte de seda pura. A
primeira serve como roupa e se adapta ao corpo como vestes
comuns; a segunda consiste em um paraquedas que é
dobrado nas costas do piloto como uma mochila.”
Dois ajudantes o esperavam quando ele chegou ao topo
da escada. Eles colocaram uma cadeira em cima de uma
mesa de modo que Reichelt ficasse acima do corrimão e
pulasse. Por mais de um minuto ele ficou com um dos pés na
cadeira e o outro no corrimão, olhando para baixo, verificando
o vento e fazendo ajustes de última hora. A temperatura
estava abaixo de zero em Paris e sua respiração saía em
nuvens de vapor. Então ele saltou do corrimão para o vazio.
Um fotógrafo do Het Leven esperava abaixo do arco norte
da torre, pronto para fazer uma foto exatamente igual à do
teste de Hervieu, só que mostrando um homem vivo, e não
um boneco.
Essa foto mostra mesmo um homem vivo, mas é diferente
da que tinha sido tirada um ano antes em outro sentido. Onde
a foto do teste de Hervieu mostra um paraquedas perfeito, a
do teste de Reichelt mostra um borrão, como um guarda-
chuva quebrado. O guarda-chuva quebrado é Reichelt. Seu
“paraquedas” não funcionou. Era uma roupa que pretendia
transformar a pessoa que a usava numa espécie de esquilo
voador. Grandes pedaços de seda ligavam os braços de
Reichelt a seus tornozelos e ele tinha um capuz acima da
cabeça. Reichelt caiu durante quatro segundos, acelerando
constantemente, até bater no chão a 100 quilômetros por
hora, criando uma nuvem de gelo e poeira e uma depressão
de 15 centímetros. Ele morreu no impacto.
Os paraquedas modernos usam 65 metros quadrados de
tecido e só devem ser abertos acima de 76 metros; o de
Reichelt usava menos de 30 metros quadrados e foi usado a
56 metros de altura. Ele não tinha a área de superfície nem a altitude necessárias para dar um salto bem-sucedido; por isso
Hervieu tentara impedi-lo de pular.
Hervieu não fora o único a dizer a Reichelt que sua roupa
paraquedas não iria funcionar. Ela também tinha sido rejeitada
por especialistas do Aéro-Club de France, que escreveram: “A
superfície de seu dispositivo é pequena demais. Você vai
quebrar o pescoço.”
Reichelt ignorou todas essas rejeições, até que a única
coisa que restou para rejeitar foi a realidade. E, como o físico
Richard Feynman disse 74 anos depois: “Para uma tecnologia
bem-sucedida, a realidade deve ter precedência sobre as
relações públicas, porque a natureza não pode ser enganada.”
Deixando de lado o final dramático, a história de Reichelt
é a mesma da maioria dos pretensos criadores. Ouvimos falar
das poucas vitórias da criação, mas raramente sabemos de
suas muitas derrotas. Histórias como a de Ignaz Semmelweis
foram cuidadosamente escolhidas. A maior parte de sua força
vem da ironia dramática: sabemos que no fim o criador será
vingado. Isso pode fazer com que os criadores pareçam
heróis e aqueles que os rejeitam se assemelhem a vilões. Mas
quase sempre os que rejeitam são sinceros. Eles querem
impedir o pensamento errado e perigoso. Acreditam que estão
certos, e em geral estão. Se Reichelt tivesse pousado em
segurança, leríamos sua história de modo diferente. Reichelt
pareceria um herói; Hervieu, um rival ciumento; e o Aéro-Club
de France, um grupo de obstrucionistas sem noção. Mas
somente o resultado seria diferente. Os motivos dos que
rejeitaram Reichelt não teriam mudado.
A rejeição tem valor.
7 | O REFLEXO DA REJEIÇÃO
Judah Folkman foi rejeitado durante décadas. Suas verbas de
pesquisa foram negadas, seus artigos, devolvidos, suas
plateias eram hostis. Ele suportou processos jurídicos,
rebaixamento, insinuações e insultos. Mas era um homem fascinante. Inspirava seus pesquisadores, estava sempre
disponível para os pacientes e todo dia dizia à esposa que a
amava. Folkman não foi rejeitado porque era mau ou porque
tinha ideias ruins, e sim porque a rejeição é uma
consequência natural do novo.
Por quê? Porque tememos o novo tanto quanto
precisamos dele.
Na década de 1950, dois psicólogos, Jacob Getzels e
Phillip Jackson, estudavam um grupo de alunos do ensino
médio. Todos os estudantes tinham QI acima da média, mas
Getzels e Jackson descobriram que os mais criativos
costumavam ter QI mais baixo do que os menos criativos.
Como parte do estudo os participantes deviam escrever
pequenas autobiografias. Um aluno de QI alto escreveu:
Minha autobiografia não é interessante nem
empolgante e vejo muito pouco motivo para escrevê-
la. Mas tentarei escrever certa quantidade de
material que seja construtivo. Nasci em 8 de maio de
1943 em Atlanta, Geórgia, Estados Unidos.
Descendo de uma longa linhagem de escoceses e
ingleses, com umas poucas exceções aqui e ali. A
maioria dos meus ancestrais recentes viveu no Sul
dos Estados Unidos durante um bom tempo, mas
alguns são de Nova York. Após meu nascimento,
permaneci seis semanas na Geórgia e então me
mudei para Fairfax, na Virgínia. Durante minha
estada de quatro anos lá tive poucas aventuras de
qualquer tipo.
Um aluno altamente criativo escreveu:
Eu nasci em 1943. Vivo sem interrupção desde
então. Meus genitores são meu pai e minha mãe –
um arranjo que considerei cada vez mais
conveniente no correr dos anos. Meu pai é médico e
cirurgião – pelo menos é o que está escrito na porta
de seu consultório. Claro, ele não é mais porque
papai passou da idade em que os homens deveriam
desfrutar do resto da vida. Aposentou-se do Mercy
Hospital no Natal do ano retrasado. Ganhou uma
caneta-tinteiro pelos 27 anos de serviço.
A diferença entre essas duas passagens é típica da
diferença que o estudo encontrou entre as crianças de QI alto
e as altamente criativas. As crianças altamente criativas eram
mais divertidas, mais brincalhonas, menos previsíveis e
menos convencionais do que as de QI elevado. Isso não era
surpresa. A surpresa veio dos professores: eles gostavam das
crianças de QI alto, mas não gostavam das criativas. Getzels
e Jackson ficaram pasmos. Haviam esperado o oposto, pois
seu experimento revelara outra coisa: as crianças altamente
criativas produziam resultados acadêmicos tão bons ou
melhores do que as de QI alto – um desempenho muito
melhor do que o déficit de 23 pontos que os números de QI
poderiam prever. Se você acreditasse em pontuações de QI –
como todos os professores daquela escola –, as crianças
altamente criativas estariam violando as probabilidades. Mas,
ainda que as crianças altamente criativas fossem astros do
desempenho e ultrapassassem as expectativas, os
professores não gostavam delas. Preferiam as menos
criativas com rendimento dentro do esperado.
Esse resultado era comum na época e se mantém na
atualidade. Ainda hoje, a vasta maioria – 98% – dos
professores diz que criar é tão importante que deveria ser
ensinado diariamente. No entanto, quando são testados, eles
quase sempre preferem as crianças menos criativas às mais
criativas.
O efeito Getzels-Jackson não está restrito às escolas e
persiste na vida adulta. Os tomadores de decisão e as figuras
de autoridade nas empresas, na ciência e no governo dizem que valorizam a criação, mas, quando são testados, eles não
valorizam os criadores.
Por quê? Porque as pessoas mais criativas também
tendem a ser mais divertidas, pouco convencionais e
imprevisíveis, e tudo isso as torna mais difíceis de controlar.
Embora a maioria de nós afirme que valoriza a criação, na
verdade damos mais valor ao controle. E assim tememos a
mudança e favorecemos a familiaridade. Rejeitar é um reflexo.
Não apenas rejeitamos os instintos criativos dos outros
como frequentemente rejeitamos os nossos também.
Num experimento, o psicólogo holandês Eric Rietzschel
pediu que os participantes dessem notas a ideias com base
no quanto elas eram “viáveis”, “originais” e “criativas”, e depois
perguntou quais eram “as melhores”. As ideias que as
pessoas selecionaram como “as melhores” eram quase
sempre as que elas haviam marcado como menos “criativas”.
Quando Rietzschel pediu que elas avaliassem os próprios
trabalhos, obteve os mesmos resultados: quase todo mundo
achava que suas ideias menos “criativas” eram as “melhores”.
Esses resultados se repetem. Décadas de dados
mostram a mesma coisa: mesmo dizendo que queremos a
criação, tendemos a rejeitá-la.
8 | A NATUREZA DO NÃO
A tendência de em princípio acolher as novas ideias e na
prática rejeitá-las é uma característica, e não um defeito. Toda
espécie tem seu nicho, e todo nicho tem seu risco e sua
recompensa. O nicho da raça humana é o nicho do novo.
Nossa recompensa é a adaptação rápida: podemos mudar
nossas ferramentas mais rápido do que a evolução pode
mudar nosso corpo. Nosso risco é que os passos do novo
levem à escuridão. Criar algo novo pode nos matar; não criar
nada novo certamente vai nos matar. Isso nos torna criaturas
da contradição: precisamos da mudança e ao mesmo tempo a
tememos. Ninguém é apenas progressista ou conservador. Cada um de nós é as duas coisas. Assim, dizemos que
queremos o novo e depois escolhemos o antigo.
Nosso impulso inato para o novo nos extinguiria se não
fosse contido. Todo mundo morreria tentando tudo. O instinto
de rejeitar é a solução evolutiva para nosso problema de
precisar fazer o novo e ao mesmo tempo precisar tomar
cuidado.
Somos criados para rejeitar coisas novas, ou pelo menos
para suspeitar delas. Quando estamos diante de situações
familiares, células no nosso cérebro, no hipocampo, disparam
centenas de vezes mais rápido do que quando nos
encontramos perante situações novas. O hipocampo é
conectado a duas minúsculas bolas de neurônios chamadas
amígdalas, que impulsionam nossas emoções. A conexão
entre o hipocampo e as amígdalas é um dos motivos para que
o antigo pareça bom e o novo talvez não.
Nós reagimos como nosso cérebro. Oscilamos entre o
que parece ruim e o que parece melhor. Se algo é novo,
nosso hipocampo encontra poucas lembranças que combinem
com aquilo. Sinaliza ausência de familiaridade para as
amígdalas, o que nos dá um sentimento de incerteza. A
incerteza é um estado adverso: tendemos a evitá-la. Os
psicólogos conseguem mostrar isso em experiências. Os
sentimentos de incerteza nos levam a preferir a familiaridade e
nos impedem de reconhecer as ideias criativas. Isso acontece
mesmo quando avaliamos a criação ou achamos que somos
bons em criar.
Para piorar as coisas, também tememos a rejeição. Como
qualquer pessoa que perdeu um amor já sabe, a rejeição dói.
Usamos expressões como “coração partido” e “sentimentos
feridos” porque sentimos dor física quando somos rejeitados.
Em 1958, o psicólogo Harry Harlow provou algo que
Aristóteles havia proposto 2.500 anos antes: precisamos do
amor como precisamos do ar. Em experiências que nenhum
comitê de ética permitiria nos dias de hoje, Harlow separou
macacos recém-nascidos de suas mães. Os bebês preferiram
como mãe substituta uma boneca macia, feita de pano, a uma feita de arame, ainda que a de arame lhes entregasse comida.
A maioria dos macacos privados de uma mãe substituta macia
morreu, apesar de terem comida e água suficientes. Harlow
chamou seu artigo de “A Natureza do Amor” e concluiu que o
contato físico é mais importante do que as calorias. Suas
descobertas se estendem aos humanos. Preferiríamos morrer
de fome a morrer de solidão.
Nossa necessidade primal de conexão duplica o dilema
da novidade. Temos preconceito contra as novas
experiências, mas é difícil admitir que sentimos isso, mesmo
para nós mesmos, pois também enfrentamos pressão social
para fazer declarações positivas sobre as ideias criativas.
Sabemos que não devemos sugerir que ser criativo é ruim. O
preconceito contra o novo é um pouco como o sexismo e o
racismo: sabemos que é socialmente inaceitável “desgostar”
da criação, acreditamos do fundo do coração que “gostamos”
da criação, mas quando somos apresentados a uma ideia
criativa específica temos mais probabilidade de rejeitá-la do
que imaginamos ou percebemos. E, quando apresentamos
uma ideia criativa aos outros, eles têm muito mais
probabilidade de rejeitá-la do que percebem. É da natureza
humana dizer não ao novo.
O sexismo e o racismo são preconceitos famosos. A
tendência a recusar o novo não é. Ninguém fala do novismo.
“Ludismo”, a palavra mais próxima, é um equívoco. Os luditas
– sobre quem falarei em outro ponto do livro – eram tecelões
ingleses que, temendo o desemprego, destruíam os teares
automáticos no fim do século XVIII e início do XIX. Ainda que
o ludismo fosse, nas palavras de Thomas Pynchon, um
esforço para “negar a máquina”, o ataque contra a nova
tecnologia foi incidental. Os luditas não estavam lutando
contra o novo. Estavam lutando por seu meio de vida. Mas o
nome deles preenche o vácuo no vocabulário, onde há um
medo sem um nome.
O preconceito contra o novo não é menos real por não ter
nome; no mínimo seu anonimato o torna pior. Os rótulos
fazem as coisas ficarem visíveis. As mulheres e as minorias raciais não são surpreendidas pelo preconceito contra elas. As
palavras “sexismo” e “racismo” sinalizam que essas
discriminações existem. O novismo surge sem esse tipo de
aviso. Quando as empresas, as academias e as sociedades
reverenciam a criação em público e depois a rejeitam em
particular, os criadores ficam surpresos e se perguntam o que
fizeram de errado.
A rejeição de Judah Folkman pelo Hospital Infantil de
Boston é típica. Esse é um dos hospitais mais bem avaliados
dos Estados Unidos e faz parte da Universidade Harvard, a
mais antiga instituição de ensino superior do país. A instituição
abriga mais de mil cientistas e produziu vencedores dos
prêmios Nobel e Lasker. É um lugar onde as novas ideias
deveriam ser acolhidas. Mas o Hospital Infantil castigou
Folkman por ter uma teoria sobre o câncer que seus
contemporâneos acharam controvertida. Hoje em dia o
hospital sente orgulho dele. Mas em 1981, quando o impediu
de ser cirurgião e reduziu seu salário, não sentia. Escolhi a
história de Folkman porque mostra como às vezes as flores
são confundidas com ervas daninhas. A questão é que esse
hospital não fez algo errado. Ele fez algo normal.
O que não é normal na história de Folkman é sua
tenacidade. É difícil suportar a rejeição repetida. Mas não
podemos criar a não ser que saibamos o que fazer com o não.
9 | ESCAPANDO DO LABIRINTO
Como escapar desse labirinto de rejeição, fracasso e
distração?
A rejeição é um reflexo que evoluiu para nos proteger.
Nossas primeiras reações ao novo são suspeita, ceticismo e
medo. E, na verdade, isso é o correto, pois a maioria das
ideias é ruim. Segundo Stephen Jay Gould: “Um homem não
alcança o status de Galileu meramente porque é perseguido;
ele também precisa estar certo.”
Os criadores devem esperar a rejeição. Mas não podem
desistir. E precisam ter a consciência de que isso não significa
que o trabalho é ruim ou que eles são ruins.
Na melhor das hipóteses a rejeição é informação. Mostra-
nos o que fazer em seguida. Quando os primeiros críticos de
Judah Folkman argumentaram que ele estava vendo
inflamação, e não vasos sanguíneos, ele projetou
experiências para excluir a inflamação. Rejeição não é
perseguição. Tire o seu veneno e o que resta pode ser útil.
Franz Reichelt, o paraquedista que saltou para a morte,
não ouviu as lições da rejeição ou do fracasso. Não somente
ignorou especialistas que apontaram as falhas de seu projeto
como ignorou também os próprios dados. Ele testou o
paraquedas usando bonecos, e eles despencaram. Testou o
paraquedas saltando de 10 metros sobre um monte de feno e
ele despencou. Testou o paraquedas saltando de 6 metros de
altura sem um monte de feno e despencou e quebrou a perna.
Em vez de mudar a invenção repetidamente até que ela
funcionasse, Reichelt se agarrou à má ideia diante de todas
as evidências e parou de pensar depois da primeira solução
que havia encontrado.
A criação não é o criador. Os grandes criadores não
estendem a crença em si mesmos à crença em seu trabalho.
Uma criação pode ser mudada. O ciclo de problema/solução
jamais termina. O ciclo de Reichelt terminou logo depois de
começar. Sua tragédia é uma metáfora do problema dos
saltos. Ele viu um problema e tentou resolvê-lo não com uma
série de passos, mas com um salto ao mesmo tempo
figurativo e literal. Ele não foi um artista do novo, e sim um
mártir do antigo.
Ignaz Semmelweis, o obstetra lavador de mãos tão
atormentado pela rejeição que perdeu o emprego e depois a
vida, desperdiçou uma oportunidade enorme. Semmelweis
havia encontrado algo cuja importância mudaria o mundo: um
elo entre cadáveres e doença. Seus críticos o censuraram por
ele não saber qual era esse elo. E ele acreditou que salvar
vidas era suficiente para convencê-los. Mas não era. Se tivesse levado a rejeição menos para o lado pessoal, lutando
e se dedicando a entender a questão mais a fundo, ele
próprio, e não Louis Pasteur, poderia ter descoberto os
germes – e sua contribuição poderia ter salvado vidas em toda
parte para sempre em vez de apenas num lugar durante
alguns anos.
O fracasso é um tipo de rejeição que é melhor acontecer
em particular. Os maiores criadores são os maiores críticos de
si mesmos. Eles olham para seu trabalho com mais
profundidade do que as outras pessoas e o testam com
padrões mais exigentes. Rejeitam muitas vezes a maior parte
do que fazem, parcialmente (como Stephen King quando
jogou fora dois terços de suas palavras) ou no todo (como
James Dyson fez ao condenar mais um protótipo), antes que
outra pessoa tenha a chance de fazer isso. O mundo já está
inclinado a rejeitar você. Não lhe dê mais motivos do que os
necessários. Jamais tenha em público um fracasso que você
pode ter em particular. Os fracassos particulares são mais
rápidos, mais baratos e menos dolorosos.
Nossa natureza não nos ajuda. Além do desconforto com
a ambiguidade que nos pressiona a querer encontrar soluções
rapidamente, também há o problema do orgulho. O orgulho e
seu oposto, a vergonha, podem nos deixar com medo do
fracasso e ressentidos com a rejeição. Nosso ego não quer
ouvir o não. Queremos estar certos na primeira vez, ganhar
uma grana rápido e fazer sucesso do dia para a noite. O mito
da criatividade, com suas raízes no gênio, nos momentos
eureca! e em outras magias, apela à parte de nós que quer
vencer sem ter trabalho, ganhar sem suar e não cometer
erros. Nenhuma dessas coisas é possível. Faça por merecer o
orgulho que tem de seu trabalho.
Podemos aprender muito ao investigar o que as pessoas
fazem quando se perdem em labirintos reais: em trilhas no
campo, por exemplo, ou em quaisquer lugares onde se afastar
do rumo possa ser mortal. Andar na direção de um lugar
específico aonde desejamos chegar, mas sem conhecer o caminho certo a seguir, nos obriga a dar atenção a cada
passo e a fazer escolhas.
William Syrotuck analisou 229 casos de indivíduos que se
perderam, 25 dos quais morreram. Ele descobriu que, quando
estamos perdidos, a maioria de nós age do mesmo modo.
Primeiro, negamos que estamos indo na direção errada.
Depois, à medida que a percepção de que estamos com
problemas se estabelece, continuamos em frente, com
esperança de que a sorte nos guie. É menos provável que
façamos aquilo que talvez nos salve: dar meia-volta. Sabemos
que o caminho está errado, mas insistimos nele, impelidos a
salvar o moral, a resolver a ambiguidade, a alcançar o
objetivo. O orgulho nos impulsiona. A vergonha nos impede de
nos salvarmos.
Os grandes criadores sabem que, com frequência, o
melhor passo à frente é um passo atrás: examinar, analisar e
avaliar, encontrar defeitos e falhas, desafiar e mudar. Não é
possível escapar de um labirinto se só andarmos para a
frente. Às vezes o caminho para a frente está atrás.
A rejeição educa. O fracasso ensina. Os dois doem. Só a
distração conforta. E, dos três, só a distração pode levar à
destruição. A rejeição e o fracasso podem nos alimentar, mas
o tempo desperdiçado é uma pequena morte. O que
determina se teremos sucesso como criadores não é quão
inteligentes e talentosos somos ou quão arduamente
trabalhamos, e sim como reagimos à adversidade da criação.
Por que é tão difícil mudar o mundo? Porque o mundo
não quer mudar.