A História Secreta da Criatividade

Kevin Ashton · Capítulo 2 de 16

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A História Secreta da Criatividade

Capítulo 1 | Criar é algo comum

1

 

CRIAR É ALGO COMUM

 

1 | EDMOND

 

No Oceano Índico, 2.400 quilômetros a leste da África e 6.500

quilômetros a oeste da Austrália, fica uma ilha conhecida

pelos portugueses como Santa Apolônia, pelos ingleses como

Bourbon e pelos franceses, durante algum tempo, como Île

Bonaparte. Hoje ela se chama Reunião. Há uma estátua de

bronze em Sainte-Suzanne, uma das cidades mais antigas de

Reunião. Mostra um menino africano em 1841, vestido para ir

à igreja, com um paletó simples, gravata-borboleta e calças

sem pregas arrastando no chão. Ele não usa sapatos. Tem a

mão direita levantada, não para cumprimentar, mas com o

polegar e os dedos dobrados contra a palma, talvez em vias

de jogar uma moeda para o alto. Tem 12 anos, é órfão e

escravo, e seu nome é Edmond.

O mundo tem poucas estátuas de crianças africanas

escravizadas. Para entender por que Edmond está ali, nesse

pontinho solitário do oceano, com a mão levantada daquele

modo, precisamos viajar para oeste e de volta, milhares de

quilômetros e centenas de anos.

No litoral do golfo do México, o povo de Papantla secava

o fruto de uma orquídea trepadeira e o usava como tempero

por mais milênios do que podia lembrar. Em 1400, os astecas

recebiam esse produto como imposto e o chamavam de “flor

preta”. Em 1519, os espanhóis o apresentaram à Europa e chamaram de “vagenzinha”, ou vainilla. Em 1703, o botânico

francês Charles Plumier mudou seu nome para “baunilha”.

É difícil cultivar a baunilha. As orquídeas da baunilha são

grandes plantas trepadeiras, bem diferentes das flores de

Phalaenopsis que colocamos em nossas casas. Elas podem

viver durante séculos e ficar grandes a ponto de cobrir

centenas de metros quadrados e subir até a altura de cinco

andares. Já foi dito que aquelas conhecidas como sapato-de-

vênus, ou cipripédio, são as mais altas e que as tigres são as

mais volumosas; mas a baunilha faz ambas parecerem anãs.

Durante milhares de anos sua flor se manteve um segredo

conhecido apenas pelo povo que a cultivava. Não é preta,

como os astecas foram levados a acreditar, e sim um tubo

claro que floresce uma vez por ano e morre em uma manhã.

Se a flor é polinizada, produz uma cápsula verde e comprida,

como uma vagem, que leva nove meses para amadurecer.

Deve ser colhida na época exata. Se for cedo demais, será

miúda; se muito tarde, vai rachar e estragar. As vagens

colhidas ficam ao sol durante dias, até que parem de

amadurecer. Ainda não têm cheiro de baunilha. O aroma se

desenvolve durante a cura: duas semanas em cobertores de

lã ao ar livre todos os dias antes de serem embrulhadas para

suar durante a noite. Depois as vagens são secas durante

quatro meses e passam por um acabamento à mão, sendo

retificadas e massageadas. O resultado são hastes pretas e

oleosas que valem seu peso em prata ou ouro.

A baunilha cativou os europeus. Ana da Áustria, filha do

rei espanhol Felipe III, bebia-a em chocolate quente. A rainha

Elizabeth I da Inglaterra a comia em pudins. O rei Henrique IV

da França tornou sua adulteração um crime punível com

espancamento. Thomas Jefferson a descobriu em Paris e

escreveu a primeira receita de sorvete de baunilha dos

Estados Unidos.

Mas ninguém fora do México conseguia cultivá-la.

Durante trezentos anos as mudas transportadas para a

Europa não floresciam. Foi somente em 1806 que a baunilha

floresceu pela primeira vez numa estufa em Londres e passaram-se mais três décadas até que uma planta na

Bélgica desse o primeiro fruto na Europa.

O ingrediente que faltava era o agente polinizador da

orquídea em seu ambiente natural. A flor em Londres foi um

acontecimento casual. O fruto na Bélgica surgiu de uma

complicada polinização artificial. Somente no fim do século

XIX Charles Darwin deduziu que um inseto mexicano devia

ser o polinizador da baunilha e apenas no fim do século XX o

inseto foi identificado como uma abelha verde brilhante

chamada Euglossa viridissima. E, sem o polinizador, a Europa

tinha um problema. A demanda pela baunilha crescia, mas o

México produzia apenas uma ou duas toneladas por ano. Os

europeus precisavam de outro fornecedor. Os espanhóis

esperavam que a baunilha prosperasse nas Filipinas. Os

holandeses a plantaram em Java. Os ingleses a mandaram

para a Índia. Todas as tentativas fracassaram.

É aí que entra Edmond. Ele nasceu em Sainte-Suzanne

em 1929. Nessa época, Reunião se chamava Bourbon. Sua

mãe, Mélise, morreu ao dar à luz. Ele não conheceu o pai. Os

escravos não tinham sobrenomes – ele era simplesmente

“Edmond”. Quando Edmond era novinho, sua dona, Elvire

Bellier-Beaumont, deu-o ao seu irmão Ferréol, que vivia na

cidade de Belle-Vue, ali perto. Ferréol era dono de uma

plantação. Edmond cresceu acompanhando Ferréol Bellier-

Beaumont pela propriedade, aprendendo sobre as frutas, os

legumes e as flores, além de uma das curiosidades do local:

um pé de baunilha que Ferréol mantinha desde 1822.

Como toda a baunilha em Reunião, a de Ferréol era

estéril. Os colonos franceses vinham tentando cultivar a planta

na ilha desde 1819. Depois de alguns fracassos iniciais –

algumas orquídeas eram de espécies diferentes, outras

morriam logo –, finalmente existia uma centena de plantas

vivas. Mas Reunião não obteve mais sucesso com a baunilha

do que as outras colônias da Europa. As orquídeas floresciam

raramente e jamais davam frutos.

Então, numa manhã do fim de 1841, enquanto a

primavera no hemisfério sul chegava à ilha, Ferréol deu seu passeio costumeiro com Edmond e ficou surpreso ao

encontrar duas cápsulas verdes pendendo da planta. Sua

orquídea, estéril durante 20 anos, tinha frutos. O que veio em

seguida o surpreendeu mais ainda: Edmond, de 12 anos,

disse que tinha polinizado a planta pessoalmente.

Até hoje há pessoas em Reunião que não acreditam

nisso. Parece impossível para elas que uma criança, escrava

e, acima de tudo, africana, tenha resolvido o problema que

derrotou a Europa durante centenas de anos. Dizem que foi

um acidente – que ele estava tentando danificar as flores após

uma discussão com Ferréol ou que estava ocupado seduzindo

uma menina no jardim quando a coisa aconteceu.

A princípio Ferréol não acreditou no menino. Mas, quando

mais frutos apareceram, dias depois, pediu a ele uma

demonstração. Edmond puxou a borda de uma flor de

baunilha e, usando um pedaço de bambu do tamanho de um

palito de dentes, gentilmente juntou a antera cheia de pólen

ao estigma receptor de pólen. Hoje os franceses chamam isso

de le geste d’Edmond – o gesto de Edmond. Ferréol chamou

os outros donos de plantações e logo Edmond estava viajando

pela ilha, ensinando outros escravos a polinizar as orquídeas

da baunilha. Depois de sete anos, a produção anual de

Reunião era de 45 quilos de vagens de baunilha seca.

Passados dez anos, era de duas toneladas. No fim do século

XIX, era de duzentas toneladas e havia ultrapassado a

produção do México.

Ferréol libertou Edmond em junho de 1848, seis meses

antes da maioria dos outros escravos da ilha. Edmond

recebeu o sobrenome de Albius, palavra latina que significa

“mais branco”. Alguns acreditam que isso era um elogio na

racista Reunião. Outros acham que foi um insulto dado pelo

registro de nomes. Qualquer que tenha sido a intenção, as

coisas deram errado. Edmond trocou o campo pela cidade e

foi preso acusado de roubo. Ferréol não pôde impedir o

encarceramento, mas conseguiu libertar Edmond depois de

três anos, em vez de cinco. Edmond morreu em 1880, aos 51

anos. Uma pequena matéria num jornal de Reunião, Le Moniteur, descreveu o final de sua vida como “miserável e

sofrido”.

A inovação de Edmond se espalhou para as ilhas

Maurício, as Seychelles e a enorme ilha a oeste de Reunião,

Madagascar. Madagascar tem um ambiente perfeito para a

baunilha. No século XX ela produzia a maior parte da baunilha

do mundo, com uma colheita que em alguns anos valia mais

de cem milhões de dólares.

A demanda pela baunilha aumentou junto com a

produção. Hoje é o tempero mais popular do mundo e, depois

do açafrão, o segundo mais caro. Tornou-se ingrediente de

milhares de coisas, algumas óbvias, outras não. Mais de um

terço de todo sorvete produzido tem o sabor original de

Jefferson, baunilha. A baunilha é o principal aromatizante da

Coca-Cola, e dizem que a Coca-Cola Company é a maior

compradora de baunilha do planeta. As finas fragrâncias

Chanel No 5, Opium e Angel usam uma baunilha que custa

vinte mil dólares o quilo. A maior parte dos chocolates contém

baunilha. Assim como muitos produtos de limpeza, cosméticos

e velas. Em 1841, no dia da demonstração de Edmond a

Ferréol, o mundo produziu menos de duas mil vagens de

baunilha, todas no México, todas resultado da polinização por

abelhas. No mesmo dia, em 2010, a produção mundial era de

mais de cinco milhões de vagens de baunilha, em países

como Indonésia, China e Quênia, quase todas – inclusive as

cultivadas no México – um resultado do geste d’Edmond.

 

2 | CONTANDO CRIADORES

 

O incomum na história de Edmond não é um jovem escravo

ter criado algo importante, e sim ele ter recebido o crédito por

isso. Ferréol trabalhou duro para garantir que Edmond fosse

lembrado. Contou aos donos das plantações de Reunião que

foi Edmond quem polinizou a baunilha pela primeira vez. Fez

lobby a favor de Edmond, dizendo: “Este jovem negro merece

o reconhecimento deste país. Esta terra tem uma dívida para com ele, por iniciar um novo ramo de atividade com um

produto fabuloso.” Quando Jean Michel Claude Richard,

diretor do jardim botânico de Reunião, disse que havia

desenvolvido a técnica e mostrado a Edmond, Ferréol

interveio, escrevendo: “Devido à idade, à memória ruim ou a

algum outro motivo, o Sr. Richard agora imagina que

descobriu o segredo de como polinizar a baunilha e acredita

que ensinou a técnica à pessoa que a descobriu! Deixemos

que ele tenha suas fantasias.” Sem o grande esforço de

Ferréol, a verdade teria se perdido.

Na maioria dos casos a verdade foi perdida. Não

sabemos, por exemplo, quem percebeu pela primeira vez que

o fruto de uma orquídea poderia ser curado até ficar com

gosto bom. A baunilha é uma inovação herdada de povos há

muito esquecidos. Isso não é incomum; é normal. A maior

parte do nosso mundo é feito de inovações herdadas de

pessoas que foram esquecidas – e que não eram

excepcionais, e sim comuns.

Antes do Renascimento, conceitos como autoria ou

reivindicação de crédito eram praticamente inexistentes. Até o

início do século XV, “autor” significava “pai”, vindo da palavra

latina para “senhor”, auctor. Autoria implicava autoridade, algo

que, na maior parte do mundo, havia sido o direito divino dos

reis e líderes religiosos desde que Gilgamesh governara Uruk,

quatro mil anos antes. Não era algo a ser compartilhado com

meros mortais. Um “inventor”, palavra derivada de invenire,

“encontrar”, era um descobridor, e não um criador, até a

década de 1550. “Crédito”, que vem de credo, “crer”, não

significava “reconhecimento” até o fim do século XVI.

Esse é um motivo para sabermos tão pouco sobre quem

fez o quê antes do final do século XIV. Não que não

existissem registros – a escrita existia há milênios. Nem que

não houvesse criação – tudo o que usamos hoje tem raízes

que remontam ao início da humanidade. A questão é que até

a Renascença as pessoas que criavam coisas não

importavam muito. A ideia de que pelo menos algumas

pessoas que desenvolviam objetos deveriam ser reconhecidas foi um grande avanço. É por isso que sabemos que Johannes

Gutenberg inventou a imprensa na Alemanha em 1440, mas

não temos informação sobre quem inventou os moinhos de

vento na Inglaterra em 1185; e que temos conhecimento de

que Giunta Pisano pintou o crucifixo na Basílica de São

Domingos em Bolonha em 1250, mas não de quem fez o

mosaico de São Demétrio no Mosteiro da Cúpula Dourada em

Kiev em 1110.

Existem exceções. Sabemos os nomes de centenas de

filósofos gregos antigos, desde Acrion até Zenão, além de uns

poucos engenheiros gregos do mesmo período, como

Eupalinos, Fílon e Ctesíbio. Também conhecemos vários

artistas chineses a partir de 400 d.C., inclusive a calígrafa Wei

Shuo e seu aluno Wang Xizhi. Mas o princípio geral se

sustenta. Em termos amplos, nosso conhecimento de quem

criou o quê começou em meados do século XIII, cresceu

durante a Renascença europeia dos séculos XIV a XVII e vem

aumentando desde então. Os motivos para essa mudança são

complexos e vêm sendo discutidos entre os historiadores –

dentre eles estão as lutas pelo poder dentro das igrejas da

Europa, a ascensão da ciência e a descoberta da filosofia

antiga –, mas poucos discordam de que a maioria dos

criadores começou a receber crédito por suas criações

somente depois do ano 1200.

E isso aconteceu a partir das patentes, que davam crédito

sujeito a restrições rigorosas. As primeiras patentes foram

emitidas na Itália no século XV, na Inglaterra e nos Estados

Unidos no século XVII e na França no século XVIII. O

moderno Escritório de Patentes e Marcas Registradas dos

Estados Unidos concedeu sua primeira patente em 31 de julho

de 1790. E concedeu a patente de número oito milhões em 16

de agosto de 2011. O escritório não mantém registros de

quantas pessoas diferentes receberam patentes, mas o

economista Manuel Trajtenberg desenvolveu um modo de

deduzir isso. Analisou nomes foneticamente e comparou

combinações com códigos de endereçamento, coinventores e

outras informações para identificar cada inventor. Os dados de Trajtenberg sugerem que mais de seis milhões de indivíduos

receberam patentes nos Estados Unidos até o fim de 2011.

O número de inventores não se dá de modo uniforme no

correr dos anos. Ele aumenta. O primeiro milhão de inventores

demorou 130 anos para obter suas patentes; o segundo

milhão, 35 anos; o terceiro, 22 anos; o quarto, 17 anos; o

quinto, 10 anos; e o sexto milhão, 8 anos. Mesmo removendo

os inventores estrangeiros e fazendo os ajustes para o

aumento da população, a tendência é inconfundível. Em 1800,

cerca de um em cada 175 mil americanos recebia uma

primeira patente. Em 2000, um em cada 4 mil americanos

obtinha uma.

Nem todas as criações recebem patente. Livros, músicas,

peças de teatro, filmes e outras obras de arte são protegidos

por direito autoral, que nos Estados Unidos é administrado

pelo Escritório de Direitos Autorais, parte da Biblioteca do

Congresso. Os direitos autorais mostram um crescimento

igual ao das patentes. Em 1870, 5.600 obras foram

registradas para direitos autorais. Em 1886 o número crescera

para mais de 31 mil, e Ainsworth Spofford, bibliotecário do

Congresso, precisou pedir mais espaço. “De novo torna-se

necessário referir-me à dificuldade e ao embaraço de realizar

a numeração anual dos livros e panfletos atingida

recentemente”, escreveu em um relatório ao Congresso.

“Cada ano, e cada mês, faz aumentar o amontoado das

coleções, e, ainda que muitas salas tenham sido preenchidas

com o que transbordava da biblioteca principal, a dificuldade

de lidar com um acúmulo tão grande de livros fora das

prateleiras cresce de maneira constante.” Isso se tornou um

refrão. Em 1946, o responsável pelo registro de direitos

autorais, Sam Bass Warner, informou: “A quantidade de

pedidos de registros de direito autoral chegou a 202.144, o

maior número da história do Escritório de Direitos Autorais; é

um número tão além da capacidade dos funcionários

existentes que o Congresso, respondendo à necessidade,

providenciou generosamente funcionários adicionais.” Em

1991, os registros de direitos autorais passaram de 600 mil. Como aconteceu com as patentes, o aumento foi muito maior

do que o crescimento populacional. Em 1870, havia um

registro de direito autoral para cada 7 mil cidadãos

americanos. Em 1991, existia um registro de direito autoral

para cada 400 cidadãos americanos.

Mais crédito é dado também à criação na área da ciência.

O Science Citation Index rastreia as principais publicações de

ciência e tecnologia do mundo. Em 1955, o índice listou 125

mil novos artigos científicos – cerca de 1 para cada 1.350

cidadãos dos Estados Unidos. Em 2005, listou mais de 1,25

milhão de artigos científicos – um para cada 250 cidadãos

americanos.

Patentes, direitos autorais e publicações científicas são

abordagens imperfeitas. Seu crescimento é impelido tanto

pelo dinheiro quanto pelo conhecimento. Nem todo trabalho

reconhecido por um desses títulos é necessariamente bom. E,

como veremos mais adiante, dar crédito a indivíduos é

enganador. A criação é uma reação em cadeia: milhares de

pessoas colaboram, a maioria delas anônima, todas elas

criativas. Mas, com números tão grandes, mesmo se dermos

os devidos descontos, é difícil não perceber: nos últimos

séculos mais pessoas, de mais áreas, vêm recebendo mais

crédito como criadores.

Mas nós não ficamos mais criativos. Aqueles que

nasceram na Renascença viveram num mundo enriquecido

por dezenas de milhares de anos de invenção humana:

roupas, catedrais, matemática, escrita, arte, agricultura,

navios, estradas, animais de estimação, casas, pão e cerveja,

só para citar uma parte ínfima. A segunda metade do século

XX e as primeiras décadas do século XXI podem parecer um

tempo de inovações sem precedentes, porém há outros

motivos para isso, e iremos discuti-los mais tarde. O que os

números mostram é: quando começamos a contar criadores

descobrimos que muita gente cria. Em 2011, a quantidade de

americanos que receberam sua primeira patente era quase a

mesma dos que iam a uma típica corrida da NASCAR. Criar

não é, nem de longe, coisa de uma pequena elite.

A questão não é se a invenção é terreno de uma minoria,

e sim o contrário: quantos de nós somos criativos? A resposta

é: todos nós. A resistência à possibilidade de que Edmond,

um menino sem estudos formais, pudesse criar algo

importante está baseada no mito de que criar é algo

extraordinário. Criar não é extraordinário, ainda que às vezes

os resultados da criação sejam. A criação é humana. Somos

todos nós. É todo mundo.

 

3 | A ESPÉCIE DO NOVO

 

Mesmo sem recorrer aos números, é fácil ver que a criação

não é domínio exclusivo de gênios raros com inspiração

ocasional. A criação nos rodeia. Tudo que vemos e sentimos é

resultado dela ou foi tocado por ela. Existe criação demais

para que ela seja pouco frequente.

Este livro é criação. Você provavelmente ouviu falar dele

por meio da criação, ou quem lhe falou sobre ele ouviu. A luz

que ilumina você depois que o sol se põe é resultado da

criação. Você é aquecido e, muitas vezes, protegido graças à

criação – de roupas, paredes e janelas. Olhe para o céu sobre

você e ele logo será atravessado por um avião, um satélite ou

a dissolução lenta de um rastro de vapor – tudo isso resultado

de criação. Maçãs, vacas e muitas outras coisas ligadas ao

campo e à agricultura, aparentemente naturais, também são

criação: resultado de dezenas de milhares de anos de

inovação em comércio, cruzamento, alimentação, plantio e – a

não ser que você more na fazenda – preservação e

transporte.

Você é resultado da criação. Ela ajudou seus pais a se

conhecerem. Provavelmente ajudou no seu nascimento, na

sua gestação e talvez na concepção. Antes de seu

nascimento ela erradicou doenças e perigos que poderiam tê-

lo matado. Depois o vacinou e protegeu contra outros males.

Tratou as doenças que você pegou. Promoveu a cura de seus

ferimentos e aliviou sua dor. Fez o mesmo por seus pais e pelos pais deles. Recentemente limpou você, alimentou-o e

saciou sua sede. E por isso você está onde está. Carros,

sapatos, selas ou navios transportaram você, seus pais ou

seus avós para o lugar que você chama de lar, que era menos

habitável antes da criação: quente demais no verão, frio

demais no inverno, pantanoso em excesso, distante de água

potável e de alimento, assolado por predadores, ou todas as

opções acima.

Escute e você ouvirá a criação. Está no som das sirenes

que passam; da música distante; dos sinos da igreja; dos

celulares; dos cortadores de grama; das bolas de basquete e

bicicletas; das ondas no quebra-mar; dos martelos e serras;

dos estalos de cubos de gelo derretendo; até do latido de um

cachorro, um lobo alterado por milênios de reprodução

seletiva feita por seres humanos; ou do ronronar de um gato,

descendente de apenas cinco gatos selvagens africanos que

os humanos vêm reproduzindo seletivamente há dez mil anos.

Qualquer coisa que exista a partir da intervenção humana

consciente é invenção, criação, novidade.

A criação está tão presente dentro e em torno de nós que

não a notamos. Vivemos em simbiose com o novo. Não é algo

que fazemos; é algo que somos. Afeta a expectativa de vida, a

altura, o peso, o andar, o nosso modo de vida, o lugar onde

vivemos e as coisas que pensamos e fazemos. Nós mudamos

a tecnologia e a tecnologia nos muda. Isso é verdade para

todo ser humano neste planeta. Tem sido assim há duas mil

gerações, desde o momento em que nossa espécie começou

a pensar em melhorar suas ferramentas.

Qualquer coisa que criemos – que façamos com um

propósito – é uma ferramenta. Não há nada de excepcional

numa espécie que usa ferramentas. Castores fazem represas.

Pássaros constroem ninhos. Golfinhos usam esponjas para

caçar peixes. Chimpanzés usam gravetos para “pescar”

formigas e martelos de pedra para quebrar nozes. Lontras

usam pedras para abrir caranguejos. Elefantes repelem

moscas usando galhos como espanadores, balançando-os

com as trombas. Sem dúvida, nossas ferramentas são melhores. A Represa Hoover é melhor do que as dos

castores. Mas por quê?

Durante muito tempo nossas ferramentas não eram

melhores. Seis milhões de anos atrás, a evolução se bifurcou.

Um caminho levou aos chimpanzés – parentes distantes,

porém os mais próximos que temos hoje. O segundo caminho,

a nós. Números desconhecidos de espécies humanas

surgiram. Houve o Homo habilis, o Homo heidelbergensis, o

Homo ergaster, o Homo rudolfensis e muitos outros, alguns

cujo status ainda é controverso, outros que ainda serão

descobertos. Todos humanos. Nenhum deles como nós.

Como outras espécies, esses humanos usavam

ferramentas. As primeiras eram pedras pontudas usadas para

cortar nozes, frutos e talvez carne. Mais tarde, determinadas

espécies humanas fizeram machados de dois lados, que

exigiam um trabalho cuidadoso e simetria quase perfeita. Mas,

afora pequenos ajustes, as ferramentas humanas se

mantiveram monótonas e inalteradas durante um milhão de

anos, não importando quando ou onde fossem usadas, sem

sofrer modificações ao longo de 25 mil gerações. Apesar da

concentração mental necessária para fazê-lo, o projeto desse

antigo machado humano, assim como o projeto de uma

represa de castores ou de um ninho de pássaros, veio do

instinto, e não do pensamento.

Humanos parecidos conosco surgiram pela primeira vez

há 200 mil anos. Eram Homo sapiens. Mas num aspecto

importante os membros da espécie Homo sapiens não agiam

como nós: suas ferramentas eram simples e não mudavam.

Não sabemos por quê. O cérebro deles tinha o mesmo

tamanho do nosso. Possuíam nossos polegares opositores,

nossos sentidos e nossa força. Mas durante 150 mil anos,

como as outras espécies humanas de seu tempo, não fizeram

nada de novo.

Então, há 50 mil anos, algo aconteceu. As toscas

ferramentas de pedra que o Homo sapiens vinha usando

começaram a mudar – e rapidamente. Até aquele instante,

essa espécie, como todos os outros animais, não inovava. Suas ferramentas eram as mesmas de seus pais, avós e

bisavós. Eles as faziam, mas não as melhoravam. As

ferramentas eram herdadas, instintivas e imutáveis – produtos

da evolução, e não da criação consciente.

Então chegou o momento mais importante da história

humana: o dia em que um membro da espécie olhou para

uma ferramenta e pensou: “Eu posso melhorar isso.” Os

descendentes desse indivíduo são chamados de Homo

sapiens sapiens. São nossos ancestrais. Somos nós. O que a

raça humana criou foi a própria criação.

A capacidade de modificar qualquer coisa foi o gatilho

que transformou tudo. A ânsia de fazer ferramentas melhores

nos deu uma vantagem gigantesca sobre as outras espécies,

inclusive as espécies humanas rivais. Em poucas dezenas de

milhares de anos, todos os outros humanos estavam extintos,

desalojados por uma espécie anatomicamente semelhante

mas distinta em um único aspecto: tecnologia que sempre

melhorava.

O que torna nossa espécie diferente e dominante é a

inovação. O que existe de especial em nós não é o tamanho

do cérebro, a fala ou o fato de usarmos ferramentas. É que

cada um de nós, a seu modo, é impelido a melhorar as coisas.

Ocupamos o nicho evolucionário do novo. O nicho do novo

não é propriedade de uns poucos privilegiados. É o que nos

torna humanos.

Não sabemos exatamente que fagulha evolucionária deu

início à inovação há 50 mil anos. Ela não deixou traços no

registro fóssil. Sabemos que nossos corpos, inclusive o

tamanho do cérebro, não se modificaram – nosso ancestral

pré-inovação mais imediato, o Homo sapiens, se parecia

exatamente conosco. Isso nos faz suspeitar que o “culpado”

seja nossa mente: o arranjo preciso de nossas células

cerebrais e as conexões entre elas. Algo estrutural parece ter

mudado aí – talvez um resultado de 150 mil anos de sintonia

fina. O que quer que tenha sido, teve implicações profundas e

hoje vive em todos nós. O neurologista comportamental

Richard Caselli diz: “Apesar de grandes diferenças qualitativas e quantitativas entre os indivíduos, os princípios neurológicos

do comportamento criativo são os mesmos, dos menos

criativos até os mais criativos entre nós.” Dito de modo

simples, todos temos mentes criativas.

Esse é um motivo para o mito da criatividade ser tão

errado. Criar não é uma coisa rara. Todos nascemos para

isso. Se parece mágico, é porque é inato. Se por vezes dá a

impressão de que alguns de nós são melhores nisso do que

outros, é porque isso faz parte de ser humano, como falar ou

andar. Nem todos somos igualmente criativos, assim como

nem todos somos oradores brilhantes ou atletas talentosos.

Mas todos podemos criar.

O poder criativo da raça humana é distribuído, e não

concentrado em apenas alguns de nós. Nossas criações são

grandes e numerosas demais para se originarem de poucos

passos de poucas pessoas. Elas devem vir de muitos passos

dados por inúmeros indivíduos. A invenção acontece a partir

de incrementos – uma série de mudanças pequenas e

constantes. Algumas abrem portas para novos mundos de

oportunidades e as chamamos de rupturas. Outras são

marginais. Mas, quando olhamos com atenção, sempre

descobrimos uma pequena mudança que leva a outra – às

vezes dentro de uma única mente, frequentemente em várias,

às vezes atravessando continentes ou gerações; podendo

levar horas, dias ou mesmo séculos, o bastão da inovação é

passado numa interminável transmissão de novidades. A

criação incorpora e combina, e, em consequência, dia a dia,

cada vida humana é tornada possível pela soma de todas as

criações humanas anteriores. Cada objeto que possuímos,

velho ou novo, por mais humilde ou simples que pareça,

guarda as histórias, os pensamentos e a coragem de milhares

de pessoas, algumas vivas, a maioria morta – as novidades

acumuladas de cinquenta mil anos. Nossas ferramentas e

nossa arte são nossa humanidade, nossa herança, o legado

duradouro de nossos ancestrais. As coisas que fazemos são o

testemunho de nossa espécie: histórias de triunfo, coragem,

criação, otimismo, adaptação e esperança; narrativas não de uma pessoa aqui e outra ali, mas de um povo em toda parte,

escritas numa língua comum, que não é africana, americana,

asiática ou europeia, e sim humana.

Existem muitas coisas belas no fato de a criação ser

humana e inata. Uma é que todos criamos mais ou menos do

mesmo modo. Nossas forças e tendências individuais causam

diferenças, claro, mas são pequenas e poucas em relação às

semelhanças, que são grandes e numerosas. Somos mais

parecidos com Da Vinci, Mozart e Einstein do que diferentes

deles.

 

4 | UM FIM PARA O GÊNIO

 

A crença renascentista de que a criação é reservada ao gênio

sobreviveu durante o Iluminismo do século XVII, o

Romantismo do século XVIII e a Revolução Industrial do

século XIX. Somente em meados do século XX, a partir dos

primeiros estudos do cérebro, surgiu a visão alternativa de

que todo mundo é capaz de criar.

Na década de 1940, o cérebro era um enigma. Os

segredos do corpo haviam sido revelados por vários séculos

de medicina, mas o cérebro continuava sendo um quebra-

cabeça. Esse é um motivo para as teorias da criação fazerem

uso da magia: o cérebro, trono da criação, era um quilo e meio

de mistério cinza e impenetrável.

Enquanto o Ocidente se recuperava da Segunda Guerra

Mundial, surgiam novas tecnologias. Uma foi o computador.

Essa mente mecânica fez com que o entendimento do cérebro

parecesse possível pela primeira vez. Em 1952, Ross Ashby

sintetizou a empolgação em um livro chamado Design for a

Brain (Projeto para um cérebro). Ele resumiu com elegância o

novo pensamento:

 

Os fatos mais fundamentais são que a Terra tem

mais de 2 bilhões de anos e que a seleção natural

vem peneirando os organismos vivos de forma

incessante. Como resultado, hoje estes são

altamente especializados nas artes da sobrevivência.

E uma dessas artes é o desenvolvimento do cérebro,

um órgão que foi aprimorado na evolução como um

meio de sobrevivência especializado. O sistema

nervoso, e a matéria viva em geral, será considerado

por essência semelhante a todas as outras matérias.

Nenhum deus ex machina será invocado.

 

Dito de modo simples: os cérebros não precisam de

magia.

Um morador de São Francisco chamado Allen Newell

chegou à idade acadêmica nesse período. Atraído pela

energia da época, abandonou o plano de se tornar guarda

florestal (em parte porque seu primeiro serviço foi o de

alimentar trutas com fígado gangrenoso de bezerro) e se

tornou cientista. E então, na tarde de uma sexta-feira em

novembro de 1954, vivenciou o que mais tarde chamaria de

“experiência de conversão” durante um seminário sobre

reconhecimento de padrões mecânicos. Decidiu dedicar a vida

a uma única pergunta científica: “Como a mente humana

funciona no universo físico?”

“Agora sabemos que o mundo é governado pela física”,

explicou, “e entendemos como a biologia se aninha de modo

confortável nesse mecanismo. A questão é: e como a mente

faz isso? A resposta deve trazer os detalhes. Preciso saber

como as engrenagens rodam, como os pistões se movem e

todo o resto.”

Enquanto embarcava nesse trabalho, Newell se tornou

uma das primeiras pessoas a perceber que a criação não

exigia genialidade. Num artigo de 1959, intitulado “Os

Processos do Pensamento Criativo”, ele revisou os poucos

dados psicológicos existentes sobre o trabalho de criação,

expondo em seguida sua ideia radical: “O pensamento criativo

é simplesmente um tipo especial de comportamento para a

solução de problemas.” Ele argumentou, na linguagem moderada que os acadêmicos usam quando sabem que estão

descobrindo alguma coisa:

 

Os dados hoje disponíveis sobre os processos

envolvidos no pensamento criativo e no não criativo

não mostram diferenças específicas entre os dois. É

impossível distinguir, olhando as estatísticas que

descrevem tais processos, o criador altamente

habilidoso do amador comum. A atividade criativa

parece ser apenas uma classe especial de atividade

para a solução de problemas caracterizada pela

novidade, pelo não convencionalismo, pela

persistência e pela dificuldade na formulação dos

problemas.

 

Era o início do fim do gênio e da criação. Fazer máquinas

inteligentes forçou um novo rigor no estudo do pensamento. A

capacidade de criar estava começando a parecer uma função

inata do cérebro humano – possível com equipamento

comum, sem necessidade da genialidade.

Newell não afirmou que todo mundo era igualmente

criativo. Criar, como qualquer capacidade humana, existe num

espectro de competência. Mas todos estão aptos a fazer isso.

Não existe uma cerca elétrica entre os que podem e os que

não podem criar, com o gênio de um lado e a população em

geral do outro.

O trabalho de Newell, junto com as obras de outros

participantes da comunidade da inteligência artificial,

questionou o mito da criatividade. Como resultado, alguns

membros da geração seguinte de cientistas começaram a

pensar na criação de modo diferente. Um dos mais

importantes foi Robert Weisberg, um psicólogo cognitivo da

Temple University, na Filadélfia.

Weisberg era estudante de graduação nos primeiros anos

da revolução da inteligência artificial e passou o início da

década de 1960 em Nova York, antes de obter seu Ph.D. em Princeton e entrar para o corpo docente da Temple em 1967.

Passou a carreira provando que a criatividade é inata, comum

e presente em todos.

O ponto de vista de Weisberg é simples. Ele parte da

afirmação de Newell, de que o pensamento criativo é a

mesma coisa que a solução de problemas, depois a amplia

dizendo que o pensamento criativo é o mesmo que o

pensamento em geral, mas com um resultado criativo. Nas

palavras de Weisberg, “quando alguém diz que uma pessoa

está ‘pensando criativamente’, está comentando sobre o

resultado do processo, e não sobre o processo em si. Ainda

que algumas vezes o impacto das ideias criativas e de seus

produtos possam ser profundos, os mecanismos pelos quais

uma inovação aparece podem ser bastante comuns”.

Dito de outro modo, o pensamento normal é rico e

complexo; tão rico e complexo que às vezes produz

resultados extraordinários – ou “criativos”. Não precisamos de

outros processos. Weisberg mostra isso de dois modos: com

experiências cuidadosamente projetadas e detalhados

estudos de casos de atos criativos – desde Picasso pintando

Guernica até a descoberta do DNA e a música de Billie

Holiday. Em cada exemplo, usando uma combinação de

experimentos e história, Weisberg demonstra como a criação

pode ser explicada sem recorrer ao gênio e a grandes saltos

da imaginação.

Weisberg não escreveu sobre Edmond, mas sua teoria

funciona para a história dele. A princípio a descoberta de

Edmond sobre como polinizar a baunilha veio de lugar

nenhum e pareceu milagrosa. Mas, perto do fim da vida,

Ferréol Bellier-Beaumont revelou como o jovem escravo

solucionara o mistério da flor preta.

Ferréol começou sua história em 1793, quando o

naturalista alemão Konrad Sprengel descobriu que as plantas

se reproduziam sexualmente. Sprengel chamou isso de “o

segredo da natureza”. O segredo não foi bem recebido. Os

colegas de Sprengel não queriam saber que as flores tinham

vida sexual. Mesmo assim suas descobertas se espalharam, em especial entre os botânicos e agricultores, que estavam

mais interessados em cultivar boas plantas do que em julgar a

moralidade floral. E assim Ferréol sabia como fertilizar

manualmente as melancias, “casando as partes masculinas

com as femininas”. Ele mostrou isso a Edmond, que, como

Ferréol descreveu, mais tarde “percebeu que a flor da

baunilha também tinha elementos masculinos e femininos, e

deduziu sozinho como juntá-los”. A descoberta de Edmond,

apesar de seu enorme impacto econômico, foi um passo a

mais. Isso não é menos criativo, como resultado. Todas as

grandes descobertas, até as que parecem saltos

transformadores, são apenas pulinhos.

A obra de Weisberg, com títulos como Genius and Other

Myths (O gênio e outros mitos) e Beyond the Myth of Genius

(Para além do mito do gênio), não eliminou a visão mágica da

criação nem a ideia de que as pessoas que criam são um

grupo à parte. É mais fácil vender segredos. Dentre os títulos

disponíveis nas livrarias atualmente estão 10 Things Nobody

Told You About Being Creative (10 coisas que ninguém lhe

contou sobre ser criativo), 39 Keys to Creativity (39 chaves

para a criatividade), 52 Ways to Get and Keep Your Creativity

Flowing (52 modos de obter e manter sua criatividade fluindo),

62 Exercises to Unlock Your Most Creative Ideas (62

exercícios para liberar suas ideias mais criativas), 100 What-

Ifs of Creativity (100 “E Se” da criatividade) e 250 Exercises to

Wake Up Your Brain (250 exercícios para acordar seu

cérebro). Os livros de Weisberg estão fora de catálogo. O mito

da criatividade não morre com facilidade.

Mas já está ficando fora de moda. E Weisberg não é o

único especialista que defende uma teoria da criação

desprovida de epifanias, disponível para todo mundo. Ken

Robinson recebeu o título de cavaleiro por sua obra sobre

criação e educação e é conhecido pelas palestras comoventes

e divertidas que faz numa convenção anual na Califórnia

chamada TED (sigla em inglês para tecnologia,

entretenimento e design). Um dos temas é como a educação

suprime a criação. Ele descreve a “capacidade extraordinária de inovação que as crianças têm” e diz que “todas as crianças

têm enormes talentos, e nós os desperdiçamos de modo

brutal”. A conclusão de Robinson é que “hoje em dia a

criatividade é tão importante na educação quanto a

alfabetização e deveríamos tratá-la com o mesmo status”. O

cartunista Hugh MacLeod levanta o mesmo argumento de

modo mais pitoresco: “Todo mundo nasce criativo; todo mundo

ganha uma caixa de lápis de cera no jardim de infância. Ser

subitamente contaminado, anos mais tarde, pelo ‘vírus da

criatividade’ é apenas uma vozinha dizendo: ‘Quero meus

lápis de cera de volta, por favor.’”

 

5 | TERMITES

 

Se a genialidade é um pré-requisito para criar, deveria ser

possível identificar a capacidade criativa antecipadamente.

Essa experiência foi tentada muitas vezes. A versão mais

conhecida foi iniciada em 1921 por Lewis Terman e ainda

continua. Terman, um psicólogo cognitivo nascido no século

XIX, era um eugenista que acreditava que a raça humana

poderia ser melhorada via reprodução seletiva, um

classificador de indivíduos de acordo com suas capacidades,

pelo modo como ele as percebia. Seu sistema de classificação

mais famoso foi o teste de QI Stanford-Binet, que colocava as

crianças numa escala “que ia da idiotice, de um lado, à

genialidade, de outro”, com classificações intermediárias que

incluíam “retardada”, “mente frágil”, “delinquente”, “normal

monótona”, “mediana”, “superior” e “muito superior”. Terman

tinha tanta certeza da exatidão de seu teste que chegou ao

ponto de achar que os resultados revelavam um destino

imutável. Também acreditava, como todos os eugenistas, que

os afro-americanos, os mexicanos e outros eram

geneticamente inferiores aos brancos de fala inglesa.

Descrevia-os como “os rachadores de lenha e carregadores

de água do mundo”, que careciam da capacidade de ser

“eleitores inteligentes ou cidadãos capazes”. As crianças, segundo ele, “deveriam ser segregadas em classes

especiais”. Os adultos “não deveriam ter permissão de se

reproduzir”. Diferentemente da maioria dos eugenistas,

Terman decidiu provar seus preconceitos.

Sua experiência foi chamada de Estudo Genético do

Gênio. Era um estudo longitudinal, ou seja, acompanharia os

indivíduos durante um longo período de tempo. Quase todos

os participantes eram brancos e de famílias de classe alta ou

média. A maioria era do sexo masculino. Isso não é

surpreendente: das 168 mil crianças consideradas para a

pesquisa, da qual 1.500 participariam, havia apenas uma

negra, uma índia, uma mexicana e quatro japonesas. Os

escolhidos, que tinham um QI médio de 151, foram chamados

de “Termites” (palavra derivada de “Terman”, mas que pode

ser traduzida como “cupins”, em português, térmites). Os

dados sobre sua vida eram coletados a cada cinco anos.

Depois da morte de Terman, em 1956, outros continuaram sua

pesquisa, objetivando prosseguir com o trabalho até que o

último participante se retirasse ou morresse.

Trinta e cinco anos depois do início da experiência,

Terman enumerou com orgulho o sucesso de “suas crianças”:

 

Quase 2 mil ensaios e artigos científicos e técnicos e

cerca de 60 livros e monografias nas áreas de

ciência, literatura, arte e humanas. Patentes

concedidas a pelo menos 230. Dentre outros

escritos, estão 33 romances, cerca de 375 contos,

novelas e peças de teatro, 60 ou mais ensaios,

críticas e esquetes e 265 artigos variados. Centenas

de publicações feitas por jornalistas classificadas

como notícias, editoriais ou colunas. Centenas, ou

até mesmo milhares, de roteiros para rádio, televisão

ou cinema.

 

A identidade da maioria dos Termites é confidencial.

Cerca de trinta revelaram sua participação. Alguns foram criadores notáveis. Jess Oppenheimer trabalhou em televisão

e foi um dos principais desenvolvedores de um seriado

famoso, ganhador do Emmy, chamado I Love Lucy. Edward

Dmytryk foi diretor de cinema, fazendo mais de cinquenta

filmes em Hollywood, entre eles A nave da revolta – indicado a

vários Oscar e estrelado por Humphrey Bogart, foi o segundo

filme mais assistido em 1954.

Outros participantes não se destacaram tanto. Seguiram

carreiras mais comuns como policiais, técnicos, motoristas de

caminhão e secretárias. Um deles se tornou ceramista e

acabou internado num hospício; outro ganhava a vida

limpando piscinas; vários viviam da previdência social. Em

1947, Terman foi obrigado a concluir: “Vimos que intelecto e

realização estão longe de se correlacionar perfeitamente.”

Isso apesar de Terman sempre ajudar seus participantes

escrevendo cartas de recomendação, oferecendo orientação e

referências. O diretor de cinema Dmytryk se beneficiou de

uma carta aos 14 anos, depois de fugir de seu pai violento.

Terman explicou ao juizado de menores que Dmytryk era

“talentoso” e que seu caso merecia uma consideração

especial. Ele foi salvo da infância abusiva e colocado num

bom lar adotivo. O produtor de TV Oppenheimer era vendedor

de casacos até que Terman o ajudou a entrar para a

Universidade de Stanford. Alguns Termites fizeram carreira no

campo de Terman, a psicologia educacional, e muitos foram

admitidos em Stanford, onde ele era professor emérito. Um

Termite assumiu o estudo depois da morte de Terman.

Mas as falhas e os preconceitos do estudo não são a

questão. O que importa de verdade é o que aconteceu com as

crianças que Terman excluiu. A teoria da criação pelo gênio

previa que os únicos criadores entre as crianças seriam as

que Terman considerava geniais. Nenhuma das excluídas

deveria ter feito qualquer coisa criativa: afinal de contas, não

eram gênios.

É aí que o estudo de Terman vai por água abaixo. Ele não

criou um grupo de controle de não gênios, para comparação.

Sabemos muita coisa sobre as centenas de crianças escolhidas e só um pouco sobre as dezenas de milhares que

não foram. Mas o que sabemos é suficiente para derrubar a

teoria do gênio. Duas crianças que Terman chegou a

considerar e acabou rejeitando foram William Shockley e Luiz

Alvarez. Ambos receberam prêmios Nobel de física –

Shockley por coinventar o transistor, Alvarez por seu trabalho

sobre ressonância magnética nuclear. Shockley fundou a

Shockley Semiconductor, uma das primeiras empresas de

eletrônica no Vale do Silício. Empregados de Shockley

fundaram a Fairchild Semiconductor, a Intel e a Advanced

Micro Devices. Trabalhando com o filho Walter, Alvarez foi o

primeiro pesquisador a propor que a queda de um asteroide

levara à extinção dos dinossauros – a “hipótese Alvarez”. E,

depois de décadas de controvérsia, ela é agora aceita como

fato pelos cientistas.

O fracasso de Terman em identificar esses inovadores

não fecha o caixão da hipótese do gênio. Talvez sua definição

de gênio fosse insuficiente ou os testes de Shockley e Alvarez

tenham sido mal ministrados. Mas a magnitude dos feitos

deles pede que consideremos outra conclusão: o gênio não

prevê a capacidade criativa porque não é um pré-requisito.

Estudos posteriores tentaram corrigir isso medindo

especificamente a capacidade criativa. A partir de 1958 o

psicólogo Ellis Paul Torrance aplicou uma série de testes,

mais tarde conhecidos como os Testes de Pensamento

Criativo de Torrance, em escolares de Minnesota. Dentre as

tarefas estavam descobrir modos incomuns de usar um tijolo,

ter ideias para melhorar um brinquedo e improvisar um

desenho baseado numa forma dada, como um triângulo, por

exemplo. Os pesquisadores avaliaram a capacidade criativa

de cada criança a partir da quantidade de ideias que ela

gerava, de como as ideias eram diferentes entre si, de quão

incomuns e de quantos detalhes incluíam. A diferença no

pensar sobre o pensamento, que caracterizou a psicologia

depois da Segunda Guerra Mundial, é evidente no trabalho de

Torrance. Torrance suspeitava de que a criatividade estava “ao

alcance de pessoas comuns na vida comum” e tentou modificar seus testes para eliminar preconceitos raciais e

socioeconômicos. Diferentemente de Terman, Torrance não

esperava que seu método previsse de modo confiável os

resultados futuros. “Um alto grau dessas capacidades não

garante que o possuidor irá se comportar de modo

supercriativo”, escreveu ele. “No entanto, um alto nível dessas

capacidades aumenta as chances de a pessoa se comportar

criativamente.”

Qual foi o resultado dessas expectativas mais modestas

para as crianças de Torrance em Minnesota? A primeira

pesquisa posterior foi publicada em 1966, usando crianças

que tinham sido testadas em 1959. Pediu-se que elas

escolhessem os três colegas de turma que tinham tido as

melhores ideias e que em seguida respondessem a um

questionário sobre o próprio trabalho criativo. A correlação

não foi ruim. Certamente foi melhor do que a de Terman. Os

resultados foram praticamente os mesmos quando um

segundo teste foi feito em 1971. Os Testes Torrance pareciam

um modo razoável de prever a capacidade criativa.

O momento da verdade chegou cinquenta anos depois,

quando os participantes estavam encerrando suas carreiras e

já tinham demonstrado quaisquer capacidades criativas que

possuíssem. Os resultados foram simples. Sessenta

participantes responderam. Nenhum dos indivíduos com altas

notas havia criado algo que tivesse alcançado reconhecimento

público. Muitos tinham feito coisas que Torrance e seus

seguidores chamaram de “realizações pessoais” de criação,

como formar um grupo de ação, construir uma casa ou ter um

hobby criativo. Os testes de Torrance haviam alcançado o

objetivo modesto de prever quem teria uma vida um tanto

criativa, mas não possibilitaram prever quem poderia ter uma

carreira criativa.

Sem querer, Torrance reforçara o que os resultados de

Terman mostraram, mas que Terman teimara em ignorar: que

a genialidade não tem nada a ver com a capacidade criativa,

mesmo quando a capacidade criativa é definida de modo

amplo e avaliada com generosidade. Torrance registrou o QI de todos os participantes. Seus resultados não mostravam

conexão entre capacidade criativa e inteligência geral. O que

quer que Terman houvesse medido não tinha nada a ver com

criatividade, motivo pelo qual deixou de lado Shockley e

Alvarez, os premiados com o Nobel. Hoje podemos chamá-los

de gênios criativos; mas, se o gênio criativo só é aparente

depois da criação, esse é apenas outro modo de dizer

“criativo”.

 

6 | ATOS COMUNS

 

O argumento contra o gênio é claro: há criadores demais,

criações demais e muito pouca predeterminação. Então como

a criação acontece?

A resposta está nas histórias das pessoas que criaram

coisas. As histórias de criação seguem um caminho. A criação

é destino final, consequência de atos que parecem sem

importância mas que, quando acumulados, mudam o mundo.

Criar é um ato comum; a criação é seu resultado

extraordinário.

A história de Edmond foi comum ou extraordinária? Se

pudéssemos viajar de volta à propriedade de Ferréol na ilha

Reunião em 1841, veríamos atos comuns: um menino

acompanhando um velho por uma horta, uma conversa sobre

melancias, o menino cutucando dentro de uma flor. Se

retornássemos a 1899, veríamos um resultado extraordinário:

a ilha transformada, o mundo se transformando. Conhecer o

resultado nos incita a atribuir características extraordinárias

aos atos – visualizamos Edmond acordado a noite toda,

lutando com o problema da polinização, tendo um momento

de epifania ao luar e, finalmente, o órfão escravo de 12 anos

revolucionando a ilha Reunião e o mundo.

Mas a criação vem de atos comuns. Edmond aprendeu

sobre botânica graças à curiosidade infantil e às caminhadas

diárias com Ferréol. Ferréol se mantinha a par das novidades

na ciência das plantas, incluindo o trabalho de Charles Darwin e Konrad Sprengel. Edmond aplicou esse conhecimento à

baunilha, com a ajuda de uma ferramenta de bambu e os

dedos pequenos de criança. Quando olhamos por trás da

cortina da criação, encontramos gente como a gente fazendo

coisas que podemos fazer.

Isso não torna fácil criar. A magia é instantânea, o gênio é

um acidente do nascimento. Tire-os e o que sobra é o

trabalho.

O trabalho é a alma da criação. Trabalho é acordar cedo

e voltar para casa tarde, recusar encontros de namoro e abrir

mão dos fins de semana, escrever e reescrever, rever e

corrigir, repetir e praticar, encarar a dúvida da página em

branco, começar quando não sabemos onde é o ponto de

partida e não parar quando achamos que não podemos

continuar. Não é divertido, romântico nem, na maior parte do

tempo, interessante. Se quisermos criar, devemos, nas

palavras de Paul Gallico, abrir as veias e sangrar.

Não há segredos. Quando perguntamos aos escritores

sobre seu processo, aos cientistas sobre seus métodos ou

aos inventores onde eles encontram suas ideias, estamos

esperando um truque, uma receita ou um ritual para invocar a

magia – uma alternativa ao trabalho. Isso não existe. Criar é

trabalhar. É fácil assim e difícil assim.

Sem o mito, temos uma escolha. Se podemos criar sem o

gênio ou a epifania, a única coisa que nos impede de criar

somos nós mesmos. Existe um arsenal de modos para dizer

não à criação. Um deles – o não é fácil – já foi abordado. Não

é fácil. É trabalho.

Outro é não tenho tempo. Mas o tempo é o grande

equalizador, é o mesmo para todo mundo: 24 horas por dia,

sete dias por semana; cada vida tem um tamanho

desconhecido tanto para os mais ricos quanto para os mais

pobres e os intermediários. Na realidade, queremos dizer não

temos tempo sobrando. Mas isso é uma desculpa esfarrapada

num mundo cuja série literária de maior venda foi iniciada por

uma mãe solteira que escrevia nos cafés de Edimburgo

enquanto sua filhinha dormia; num mundo em que uma carreira de mais de cinquenta romances foi iniciada por um

funcionário de lavanderia no cômodo da fornalha de um trailer

no Maine, Estados Unidos; onde uma filosofia capaz de mudar

o mundo foi composta numa cadeia parisiense por um

prisioneiro que esperava a guilhotina; e onde três séculos de

física foram derrubados por um homem que trabalhava como

examinador de patentes. Existe tempo.

O terceiro “não” é o maior, é o demolidor dos nossos

sonhos. Suas variações intermináveis dizem a mesma coisa:

não consigo. Esse é o fruto amargo do mito de que só as

pessoas especiais podem criar. Nenhum de nós se acha

excepcional, não no meio da noite, quando nosso rosto

fluoresce no espelho do banheiro. Não consigo. Não consigo

porque não sou especial.

Nós somos especiais. Mas no momento isso não importa.

O que importa é que não precisamos ser. O mito da

criatividade é um erro nascido da necessidade de explicar

resultados extraordinários através de atos extraordinários e

personagens extraordinários, uma compreensão errada da

verdade de que a criação vem de pessoas comuns e de

trabalho comum. Não requer nada de especial.

Só é necessário começar. Não posso se torna uma

inverdade assim que principiamos. Nosso primeiro passo

criativo provavelmente não será bom. A imaginação carece de

repetição. As coisas novas não fluem acabadas para o

mundo. Ideias que parecem poderosas na privacidade de

nossa mente oscilam de modo frágil quando as colocamos na

mesa. Mas todo início é belo. A virtude de um primeiro esboço

é que ele rompe a página em branco. É a fagulha da vida no

pântano. Sua qualidade não é importante. O único esboço

ruim é o que não escrevemos.

Como criar? Por que criar? O resto do livro é sobre como

e por que fazê-lo. O que criar? Só você pode decidir. Você

deve saber. Pode ter uma ideia que parece uma coceira. Mas,

se não tiver, não se preocupe. “Como” e “por que” estão

conectados: um leva ao outro.