A História Secreta da Criatividade
Capítulo 4 | Como enxergamos
4
COMO ENXERGAMOS
1 | ROBIN
O mês de junho de 1979 foi frio e úmido no oeste da Austrália.
O pior dia foi 11 de junho, uma segunda-feira. Uma chuva
soprada por um vento feroz transformava as janelas em
tambores. Atrás de uma janela barulhenta em Perth, um
homem com barba prateada e gravata fininha olhou em seu
microscópio e viu algo que mudaria o mundo.
Robin Warren era patologista do Royal Perth Hospital. E o
que ele viu foram bactérias do estômago de um paciente.
Desde o início da bacteriologia os cientistas sabiam que as
bactérias não podiam crescer no estômago. Estômagos são
ácidos, por isso tinham de ser estéreis. As bactérias que
Warren viu eram curvas como croissants. Elas achatavam a
superfície peluda do revestimento do estômago. Warren podia
vê-las em ampliação de cem vezes, mas seus colegas, não.
Ele mostrou imagens ampliadas mil vezes, depois algumas
feitas com um microscópio eletrônico de alta potência. Eles
acabaram vendo as bactérias, mas não o argumento. Só
Warren achou que a descoberta significava alguma coisa,
ainda que não soubesse o que era.
Ele não se apressou em fazer um julgamento, como Ignaz
Semmelweis, nem desconsiderou as possíveis objeções,
como Franz Reichelt, nem permitiu que seu instinto de
rejeição apagasse o brilho de algo novo. Robin Warren era um
homem mais quieto e tímido do que Judah Folkman, mas sua reação ao ser a única pessoa no laboratório que achava ter
visto algo significativo foi folkmanesca. Ele acreditou no que
viu, acreditou que poderia ser importante e não se deixar
dissuadir. Em seu relatório sobre a biópsia daquele dia,
escreveu: “Contém numerosas bactérias. Elas parecem estar
crescendo ativamente, não parecem ser um contaminante.
Não tenho certeza do significado e da importância dessa
descoberta incomum, mas pode valer a pena investigar mais.”
Ele, então, passou a ver as bactérias frequentemente.
Estavam presentes em um de cada três estômagos. O dogma
do estômago estéril dizia que as bactérias não poderiam viver
nele. Ninguém mais vira bactérias ali. “A aparente ausência de
qualquer relato anterior me foi dada como um dos principais
motivos para elas não poderem estar ali”, disse ele.
Durante dois anos, Warren coletou amostras das
bactérias “que não estavam ali”, até encontrar alguém que
acreditou nele.
Barry Marshall era um gastroenterologista recém-
contratado que precisava de um projeto de pesquisa. Como
todos os patologistas, Warren não via os pacientes.
Trabalhava com amostras que os clínicos lhe davam, na
maioria de úlceras e lesões. Isso tornava mais difícil enxergar
as bactérias: a atividade ao redor dos ferimentos dificultava a
percepção. Marshall concordou em mandar a Warren biópsias
de locais livres de úlceras e os dois começaram um trabalho
de colaboração.
Em um ano Warren e Marshall reuniram cem amostras
limpas. Descobriram que 90% dos pacientes que tinham
bactérias apresentavam úlceras. E todo paciente com úlcera
de duodeno tinha as bactérias.
Os dois tentaram cultivar as bactérias no laboratório do
hospital e não conseguiram. Após seis meses eles haviam
começado com amostras vivas e terminaram com nada.
Então, na Páscoa de 1982, uma superbactéria resistente
a medicamentos contaminou o hospital e sobrecarregou o
laboratório. Com a sobrecarga de trabalho, o pessoal que
fazia o descarte das amostras de dois em dois dias se distraiu e deixou as amostras de Warren e Marshall esquecidas ali por
cinco dias. Nesses três dias extras as bactérias cresceram.
Elas só precisavam de mais tempo!
As bactérias eram novas. Acabaram recebendo o nome
de Helicobacter pylori, ou H. pylori. Em 1984, Warren e
Marshall escreveram uma carta sobre sua descoberta à
revista Lancet, uma das publicações médicas mais influentes
do mundo. Eles concluíram que a bactéria, que “parecia ser
uma nova espécie, estava presente em quase todos os
pacientes com gastrite crônica ativa, úlcera de duodeno ou
úlcera gástrica, e por isso pode ser um fator importante
nessas doenças”.
O editor da Lancet, Ian Munro, não conseguiu encontrar
nenhum resenhista que concordasse com a ideia. Todo mundo
sabia que as bactérias não podiam viver no estômago. Os
resultados tinham de estar errados. Felizmente, para Warren e
Marshall – e para todos nós –, Ian Munro não era um editor
comum. Ele era um pensador radical que, dentre outras
coisas, fazia campanha pelos direitos humanos, pelo
desarmamento nuclear e pela medicina para os pobres.
Apesar das objeções de seus resenhadores, Munro publicou a
carta, acrescentando uma nota que dizia: “Se a hipótese dos
autores se mostrar válida, este trabalho é de fato importante.”
Warren e Marshall prosseguiram e provaram que a H.
pylori causa úlceras. Graças a seu trabalho, outros
aprenderam a curar úlceras matando a H. pylori com
antibióticos. Em 2004, Warren e Marshall ganharam o Prêmio
Nobel “por sua descoberta da bactéria Helicobacter pylori e
seu papel na gastrite e na úlcera péptica”. Agora sabemos que
há centenas de espécies de bactérias no estômago e que,
entre outras coisas, elas representam um papel essencial na
manutenção da estabilidade do sistema digestivo.
Só há uma coisa estranha nessa história.
O que Robin Warren viu naquela segunda-feira úmida e
fria de junho não era algo inédito. Na verdade, todo mundo já
tinha visto antes. A única coisa que ninguém havia feito era
acreditar. Em 1979, fazia 17 anos que Warren vinha tentando dominar a complexa ciência da patologia e se dedicava, em
especial, à análise de biópsias de estômago. Isso se tornou
comum na década de 1970, depois da invenção do
endoscópio flexível – um tubo com uma luz, uma câmera e
uma ferramenta de corte que os médicos podem introduzir na
garganta do paciente e usar para extrair tecidos. Antes disso,
a maioria das amostras era de estômagos inteiros removidos
de cadáveres. Estas eram difíceis de ser processadas.
Informações se perdiam enquanto as amostras eram
preparadas para análise. Foram essas amostras ruins que
levaram cada médico e cientista a aprender que as bactérias
não viviam no estômago. Warren disse: “Isso era considerado
tão óbvio que nem valia a pena ser mencionado.” Suas
biópsias contaram uma história diferente.
“À medida que meu conhecimento da medicina e da
patologia aumentavam, eu descobria que frequentemente
existem exceções para ‘fatos conhecidos’”, disse ele.
Em outra oportunidade, acrescentou: “Eu preferi acreditar
nos meus olhos e não nos livros de medicina ou na
fraternidade médica.”
Ele faz com que isso pareça simples. Os endoscópios
flexíveis estavam sendo usados no mundo inteiro. Milhares de
patologistas observavam biópsias de estômago. A H. pylori
estava na cara de todos eles... Mas eles viam o dogma, e não
as bactérias.
Em junho de 1979, no mês em que Warren notou a H.
pylori pela primeira vez, um grupo de cientistas americanos
publicou um artigo sobre um surto de doença estomacal entre
participantes de uma pesquisa. Os voluntários estavam
saudáveis no início do projeto; então metade deles ficou
doente, com dor de estômago seguida por uma perda de
acidez estomacal. A doença era muito provavelmente
infecciosa. Os cientistas examinaram o sangue e o líquido
estomacal dos pacientes. Procuraram um vírus – porque
sabiam que as bactérias não podiam crescer no estômago – e
não encontraram. Sua conclusão foi: “Não pudemos isolar um
agente infeccioso nem estabelecer uma causa viral ou bacteriana.” Eles não eram iniciantes; eram liderados por um
renomado professor de medicina que também era editor-chefe
da publicação Gastroenterology. Depois que o trabalho de
Warren e Marshall foi publicado, esses cientistas revisaram
suas biópsias. A H. pylori era claramente visível. Eles viram
mas não notaram a bactéria antes. Seus pacientes haviam
sofrido uma infecção aguda. Um dos cientistas disse: “Não
descobrir a H. pylori foi o meu maior erro.”
Em 1967, Susumo Ito, professor da Escola de Medicina
de Harvard, fez uma biópsia do próprio estômago e usou um
microscópio eletrônico para tirar uma foto perfeita da H. pylori.
No Handbook of Physiology, da American Physiological
Society, ela foi classificada como um “espirilo”, porém sem
mais comentários ou tentativas de identificação. Dezenas de
milhares de cientistas viram a foto. Nenhum viu a H. pylori.
Em 1940, o pesquisador Stone Freedberg, de Harvard,
encontrou a H. pylori em mais de um terço dos pacientes de
úlcera. Seu supervisor disse que ele estava errado e o fez
interromper a pesquisa.
Só Robin Warren acreditou e não foi dissuadido. Manteve
uma vigília solitária sobre a H. pylori durante dois anos, até a
chegada de Marshall.
Depois, a H. pylori foi encontrada na literatura médica,
com data de 1875. Quando Robin Warren a descobriu, já fazia
104 anos que ela tinha sido observada e desacreditada.
2 | O QUE VOCÊ VÊ NÃO É O QUE VOCÊ TEM
Os bumerangues minúsculos da H. pylori estavam
“escondidos à vista de todos” por mais de um século por
causa de um problema chamado “cegueira por desatenção”. O
nome vem dos psicólogos dedicados ao estudo da percepção
Arien Mack e Irvin Rock, mas a melhor definição é a do
escritor Douglas Adams:
É uma coisa que não podemos ver, ou não vemos,
ou que nosso cérebro não nos deixa ver porque
pensamos que é problema de outra pessoa. O
cérebro simplesmente a apaga, como um ponto
cego. Se você olhar diretamente para ela, não verá
nada, a menos que tenha certeza do que é.
Adams usa essa definição em seu livro A vida, o universo
e tudo mais, numa cena em que ninguém nota que uma
espaçonave alienígena pousou no meio de um jogo de
críquete. A história é cômica, mas o conceito é real: o cérebro
é o censor secreto dos sentidos. Ele dá passos entre o sentir
e o pensar que nós não notamos.
O caminho do olho até a mente é longo. Cada olho tem
seu próprio nervo óptico. No percurso para o cérebro, os dois
nervos ópticos se encontram e cada um se divide em dois,
criando quatro trajetos. Ao se dividirem, metade das fibras
nervosas de cada olho atravessa para o outro lado, viajando
até uma parte de trás do cérebro chamada córtex visual. Se
você tocar a parte de trás de sua cabeça, sua mão estará
junto da parte do cérebro ligada aos olhos. O córtex visual
comprime o que você vê num fator de dez, em seguida passa
a informação ao centro do cérebro, o striatum. A informação é
comprimida de novo, dessa vez por um fator de trezentos, à
medida que viaja até a próxima parada, os núcleos basais no
centro do striatum. É aí que descobrimos o que os olhos viram
e decidimos o que fazer a respeito. Apenas uma ínfima parte
do que está na retina chega a esse ponto. O cérebro
seleciona o que vai passar acrescentando conhecimentos
anteriores e fazendo suposições sobre o modo como as
coisas se comportam. Ele subtrai o que não importa e o que
não mudou. Determina o que saberemos e o que não
saberemos. Esse reprocessamento é poderoso. O que o
cérebro acrescenta parece real. O que ele subtrai parece não
existir.
É por isso que não é uma boa ideia falar ao celular
enquanto dirigimos. Usar um telefone diminui à metade a
quantidade de informações sensoriais que entram na nossa
mente. Nossos olhos olham para as mesmas coisas pela
mesma quantidade de tempo, mas o cérebro apaga a maior
parte, considerando-as sem relevância. As informações
podem ser importantes para dirigir, mas nosso cérebro as
processa baseado no que é essencial para o telefonema. Isso
não acontece quando estamos ouvindo rádio, porque o rádio
não espera que respondamos a ele. Nosso problema é a
conversa. Aquela criança atravessando a rua
inesperadamente diante de nós passa a ser problema de outra
pessoa. Nosso cérebro não deixa que a vejamos. Como disse
Douglas Adams, nosso cérebro cega a mente para o que é
incomum.
Isso também é verdade quando estamos andando. Num
estudo, pesquisadores colocaram um palhaço num monociclo
no caminho dos pedestres. Os pesquisadores perguntavam às
pessoas que passavam por ele se elas haviam notado alguma
coisa incomum. Todo mundo o via, a não ser que estivesse
falando ao celular. Três em cada quatro indivíduos que
estavam ao celular não enxergaram o palhaço. Olhavam em
volta atônitos, incapazes de acreditar que tinham deixado de
vê-lo. Tinham olhado diretamente para ele, mas sem registrar
sua presença. O palhaço de monociclo atravessava o caminho
das pessoas, mas não a mente delas.
Trafton Drew e Jeremy Wolfe, pesquisadores de Harvard,
fizeram uma experiência semelhante com radiologistas,
acrescentando a imagem de um gorila a raios X de pulmões.
Uma seção de pulmão, nos raios X, parece uma foto em preto
e branco de uma tigela de sopa de missô. Enquanto os
radiologistas vão passando as imagens, veem fatias
progressivas dos pulmões, como se estivessem olhando mais
fundo na sopa. Nas imagens de Drew e Wolfe, um recorte da
foto de um homem com roupa de gorila foi acrescentada ao
canto superior direito de algumas camadas, como se
estivesse flutuando ali. Os radiologistas viram os nódulos minúsculos que indicavam se os pulmões eram cancerosos,
mas quase todos deixaram de ver o gorila, que ocupava um
espaço equivalente a uma caixa de fósforos. Cada radiologista
que não viu o gorila olhou-o durante cerca de meio segundo.
A cegueira por desatenção não é um efeito experimental.
Em 2004, uma mulher de 43 anos entrou na emergência de
um hospital sofrendo de desmaios e outros sintomas. Os
médicos suspeitaram de problemas no coração e nos
pulmões, por isso colocaram um cateter em seu corpo,
usando uma guia que ia da coxa ao peito. Os médicos se
esqueceram de remover a guia. Cinco dias se passaram até
que alguém a encontrasse. A mulher esteve todo o tempo na
UTI, onde passou por três exames de raios X e uma
tomografia a fim de tentar estabilizá-la. Vários médicos
olharam as imagens. A guia no peito – que, felizmente, não
colaborou para seu estado – era óbvia em todas, mas
ninguém notou.
3 | FATOS ÓBVIOS
Quando Robin Warren recebeu o Prêmio Nobel, citou Sherlock
Holmes: “Não há nada mais enganador do que um fato óbvio.”
Era um “fato óbvio” que as bactérias não viviam no
estômago, assim como era um “fato óbvio” que os médicos
das emergências se lembram de retirar as guias de
cateterismo e era um “fato óbvio” que não existem gorilas em
imagens de pulmões.
Os radiologistas são especializados em ver. Anos de
treino e prática tornam o que é invisível para nós óbvio para
eles. São capazes de diagnosticar uma doença observando
uma imagem de raios X do peito por uma fração de segundo,
tempo necessário para fazer um único movimento voluntário
dos olhos. Se você e eu olhássemos uma imagem de pulmão,
examinaríamos a coisa toda, procurando irregularidades.
Também é isso que os radiologistas novatos fazem. Mas, à
medida que ficam mais treinados, movem menos os olhos, até que só precisem fitar alguns poucos locais durante poucos
instantes para encontrar a informação necessária.
Isso se chama “atenção seletiva”. É uma característica da
especialização. No livro Texts and Pretexts (Textos e
pretextos), de 1932, Aldous Huxley diz: “A experiência é uma
questão de sensibilidade e intuição, de ver e ouvir as coisas
significativas, de prestar atenção nos momentos certos, de
entender e coordenar.”
Adriaan de Groot, psicólogo e um mestre do xadrez,
estudou a perícia mostrando uma posição de xadrez para
jogadores de diferentes níveis, entre eles grandes mestres e
campeões mundiais, e pedindo que pensassem em voz alta à
medida que avaliavam a jogada que fariam. De Groot tinha
duas expectativas: (1) que os melhores jogadores fariam as
melhores jogadas e (2) que os melhores jogadores fariam
mais cálculos. O que ele encontrou surpreendeu-o.
A primeira coisa que notou foi a utilização do mesmo ciclo
de problema/solução que os universitários usaram para
resolver o Problema da Vela, que a Apple usou para projetar o
iPhone e que os irmãos Wright usaram para inventar o avião.
O primeiro passo de um perito em xadrez é avaliar o
problema. Um mestre começou assim:
“Difícil: esta é a minha primeira impressão. A segunda é
que, pelos números atuais, eu deveria estar numa situação
ruim, mas é uma posição agradável.”
O segundo passo é pensar numa jogada:
“Posso fazer um monte de coisas. Colocar minha torre
nisso, contra os peões.”
Cada jogada é avaliada depois de ser gerada:
“Não; é um pouco fantasioso. Não vale muito a pena. Não
serve. Talvez não tão louco.”
De Groot descobriu que os problemas desconhecidos são
resolvidos em ciclos lentos que são verbalizados com
facilidade e que todo mundo revisita e reavalia algumas
soluções. E isso não é indecisão: cada avaliação vai mais
fundo que a anterior.
O que surpreendeu De Groot foi como o ciclo de
problema/solução era diferente entre jogadores de diferentes
níveis. Ele esperara que os grandes mestres fizessem as
melhores jogadas, e fizeram. Mas pensara que isso se deveria
a maior análise por parte deles. O que descobriu foi o
contrário. Os grandes mestres avaliavam menos jogadas e as
reavaliavam com menor frequência do que outros jogadores.
Um grande mestre avaliou uma jogada duas vezes, depois
avaliou outra e jogou. Era a melhor jogada possível. Isso
geralmente acontecia: apesar de avaliar menos jogadas
menos vezes, quatro dos cinco grandes mestres que
participaram do estudo fizeram a melhor jogada possível. O
outro grande mestre fez a segunda melhor jogada possível.
Os grandes mestres não consideraram qualquer jogada que
não estivesse entre as cinco melhores. Os jogadores de nível
inferior consideravam jogadas que eram até a 22a melhor.
Quanto menos experiente o jogador, mais opções ele
considerava, mais avaliações fazia e pior era a jogada.
Menos pensamento levava às melhores soluções. Mais
pensamento, às piores. Seria isso prova de genialidade e
epifania? Seria possível que os grandes mestres fizessem
suas jogadas por inspiração?
Não. De Groot notou algo estranho enquanto ouvia os
grandes mestres pensando em voz alta. Eis um típico
pensamento de um grande mestre:
“Primeira impressão: um peão isolado; as brancas têm
mais liberdade de movimento.”
Compare essa ideia com a de um outro mestre, um
jogador hábil apenas um nível abaixo, falando sobre a mesma
posição:
“A primeira coisa que me impressiona é a fraqueza da ala
do rei preto, particularmente a fraqueza na BR6. [Só depois
disso uma imagem geral da posição.] Finalmente as
complicações no centro são bem impressionantes:
possibilidades de troca em conexão com o bispo solto na R7.
[Mais tarde ainda:] Meu peão na CD7 está en prise.”
En prise significa que a peça está vulnerável para ser
comida – esse é o “peão isolado” que o grande mestre
mencionou antes. Não precisamos entender de xadrez para
ver que o grande mestre chegou a uma conclusão instantânea
e o mestre demorou mais tempo. De Groot levantou a
hipótese de que as “observações dos grandes mestres
representam apenas uma fração do que foi percebido na
realidade. A maior parte do que eles ‘veem’ permanece sem
ser dita”.
Os peritos não pensam menos. Pensam com mais
eficiência. O cérebro treinado elimina soluções ruins tão
rapidamente que elas mal atraem a atenção da mente
consciente.
De Groot demonstrou isso com outra experiência. Foi
mostrada ao grande mestre Max Euwe (um campeão
mundial), a um mestre (o próprio De Groot, com sua esposa
atuando como experimentadora), a um jogador de nível expert
e a um jogador de nível classe A uma posição durante cinco
segundos, depois foi pedido que eles a reconstruíssem e
pensassem numa jogada. Para Euwe, o grande mestre, isso
era trivial – ele reconstruiu facilmente o tabuleiro. De Groot, o
mestre, colocou quase todas as peças no lugar certo, mas
discutiu com a esposa porque achou que ela havia cometido
um erro ao arrumar o tabuleiro: “Há mesmo um cavalo preto
em CB2? Isso seria curioso!” O jogador de nível expert
lembrou-se de três quartos do tabuleiro; o jogador de nível
classe A lembrou-se de menos da metade.
O grande mestre Euwe era um gênio? Tinha memória
fotográfica? Não. Como suspeitava De Groot, forçar Euwe a
reconstruir a posição mostrou que ele estava pensando em
ciclos rápidos:
“Primeira impressão: posição horrorosa, ataque forte e
comprimido por parte das brancas. A ordem em que vi as
peças tinha a ver com o Rei em R1, Cavalo em D2, Dama
Branca em BR3, Rainha em R2, Peões em R3 e o dele no R4,
Torre Branca em D8, Cavalo Branco em CD4, Torre em CD5 –
essa Torre engraçada não faz nada –, Cavalo em BR2, Bispo em BR1, Torre em TR1, Peões em TR2 e CR3. Não olhei
muito para o outro lado, mas presumo que haja outro Peão em
TD2. O resto das brancas: Rei em CR8, Torre em BR8, Peões
em BR7, CR7, TR7, TC7 e CD7.”
Nos cinco segundos que teve para olhar o tabuleiro,
Euwe tinha visto as peças em ordem de prioridade, entendido
a lógica da posição e começado a raciocinar sobre sua
jogada. Ele estava tendo pensamentos comuns de modo
extraordinariamente rápido. A velocidade vinha de sua
experiência, que lhe permitia ver semelhanças com outros
jogos e conexões entre as peças. Ele não se lembrava das
posições das peças – ele as deduzia. Por exemplo, ele
reconstruiu, por dedução e sem qualquer dúvida, a posição
que De Groot havia presumido que era um erro: “Outra peça
está em BR2 – o Rei está completamente envolvido –; tem
que ser um Cavalo, então.”
A posição o fazia recordar-se de outro jogo – “no fundo da
minha mente há uma vaga lembrança de um jogo entre Fine e
Flohr” – e todas as semelhanças que via lhe davam “um
sentimento de familiaridade com esse tipo de situação”. A
experiência lhe permitia encontrar uma solução quase que
imediata.
Os grandes mestres não foram grandes mestres desde
sempre. Quando mestres, jogavam como mestres, avaliando
mais jogadas por mais vezes. Quando eram jogadores de
nível expert jogavam de acordo com esse nível – avaliando
mais jogadas mais vezes ainda. Após tantas avaliações e
jogadas, acumulando enorme experiência, os grandes
mestres conseguem ter uma atenção muito seletiva num jogo.
A primeira impressão do perito não é uma primeira impressão.
É a última numa série de milhões.
Criar é pensar. Atenção é aquilo em que nós pensamos.
Quanto mais experimentamos, menos pensamos – seja no
xadrez, na radiografia, na pintura, na ciência ou em qualquer
outra coisa. Perícia é eficiência: os peritos usam menos ciclos
de problema/solução porque não consideram soluções
improváveis.
O que significa que “atenção seletiva” é outro modo de
dizer “fatos óbvios”. Como nos lembram Robin Warren e
Sherlock Holmes, os fatos óbvios podem enganar. Eles são
tudo que veremos com a cegueira da desatenção.
Desenvolver a perícia é essencial, mas ela pode nos impedir
de ver o inesperado.
Tornar-se perito é somente o primeiro passo para ser
criativo. Como vamos descobrir, o segundo passo é
surpreendente, confuso e talvez até mesmo intimidador: é
tornar-se principiante.
4 | SHOSHIN
Em 1960, doze nipo-americanos idosos esperavam num
portão do Aeroporto Internacional de São Francisco. Fazia 19
anos que a Marinha japonesa havia atacado a frota americana
em Pearl Harbor. Após o ataque, esses homens e mulheres
ficaram presos em estábulos numa pista de corrida de cavalos
em San Bruno. Três anos depois, o governo americano
libertou-os e deu a cada um deles 25 dólares e uma
passagem de trem. E então jogou bombas atômicas no Japão.
Eles eram zen-budistas e faziam parte da congregação de
Sokoji, ou Templo de São Francisco, que haviam construído
no local onde ficava uma sinagoga abandonada perto da
ponte Golden Gate, na calmaria antes da guerra. Tinham
continuado a pagar a hipoteca enquanto estavam presos. E se
encontravam no aeroporto para receber seu novo sacerdote.
Enquanto o sol nascia, um avião Pacific Courier da Japan
Air Lines chegou de Honolulu, onde havia parado para
abastecer na viagem de 24 horas desde Tóquio. Os
passageiros começaram a descer a escada atrás da asa
esquerda. Apenas um viajante, um homem pequenino
vestindo manto, sandálias e meias, parecia cheio de energia:
era Shunryu Suzuki, o sacerdote.
Suzuki chegou aos Estados Unidos no auge dos anos
1960. Os filhos da guerra estavam chegando à maioridade, a animosidade contra o Japão se transformava em curiosidade
e os jovens de São Francisco tinham começado a visitar o
Sokoji para perguntar sobre o zen-budismo. Suzuki dava a
mesma resposta a todos: “Eu me sento às 5h45 da manhã.
Por favor, juntem-se a mim.”
Era um convite para a meditação sentada, chamada de
zazen em japonês e dhyāna em sânscrito. Na Índia e no
Extremo Oriente, as pessoas sentam-se em contemplação
silenciosa há milhares de anos, mas a prática era pouco
conhecida nos Estados Unidos. Os poucos americanos que a
experimentavam usavam cadeiras. Suzuki fazia seus alunos
se sentarem no chão com as pernas cruzadas, as costas
eretas e os olhos semiabertos. Se suspeitasse de que
estavam dormindo, batia neles com uma vara chamada
kyōsaku.
A turma aumentou durante os anos 1960. Em 1970, os
alunos americanos de Suzuki publicaram ensinamentos dele
num livro. No ano seguinte, pouco mais de uma década após
sua chegada, ele morreu. O livro, Mente zen, mente de
principiante, era tão pequeno, modesto e inspirador quanto o
sacerdote. Ele foi a primeira voz do budismo na América. O
livro ainda está em catálogo.
Mente de principiante, shoshin em japonês, era a
essência dos ensinamentos de Suzuki. Ele descrevia isso de
modo simples: “Na mente de principiante há muitas
possibilidades, mas na de experiente há poucas.”
No zen, palavras simples podem ter significados
profundos. Mente de principiante não é a mente do
principiante, e sim a do mestre. É uma atenção que vai além
da seletividade e da cegueira da experiência, uma atenção
que nota tudo sem pressuposições. A mente de principiante
não é mística nem espiritual, mas prática. É Edmond Albius
olhando uma flor, Wilbur e Orville Wright olhando um pássaro,
Wassily Kandinsky olhando uma tela, Steve Jobs olhando um
telefone, Judah Folkman olhando um tumor, Robin Warren
olhando uma bactéria. É ver o que está ali em vez de ver o
que pensamos.
Nyogen Sensaki, um dos primeiros monges zen dos
Estados Unidos, explicou a mente de principiante com uma
história, ou kōan:
Nan-in, um mestre japonês, recebeu um professor
universitário que veio perguntar sobre o zen.
Nan-in serviu chá. Encheu totalmente a xícara
do visitante, depois continuou derramando.
O professor olhou o transbordamento até que
não conseguiu mais se conter.
– Está transbordando. Não vai caber mais nada!
– Como esta xícara – disse Nan-in –, você está
cheio de suas próprias opiniões e especulações.
Como posso lhe mostrar o zen, a não ser que você
primeiro esvazie sua xícara?
David Foster Wallace apresentou o mesmo argumento
com uma piada:
Dois peixes jovens estão nadando e encontram, por
acaso, um peixe mais velho nadando em sentido
contrário. Ele os cumprimenta e diz:
– Bom dia, rapazes. Como está a água?
Os dois continuam nadando, até que um deles
olha para o outro e pergunta:
– Que diabo é água?
Criação é atenção. É ver novos problemas, notar o que
não foi percebido, encontrar pontos cegos causados pela
desatenção. Se, em retrospecto, uma descoberta ou uma
invenção parece tão óbvia que sentimos que ela estava na
nossa cara o tempo todo, provavelmente estamos certos. A
resposta à pergunta “Por que não pensei nisso?” é “mente de
principiante”.
Ou, como diz Suzuki em Mente zen, mente de
principiante: “O verdadeiro segredo das artes é ser sempre um
principiante.”
Ver o inesperado, não esperando nada.
5 | ESTRUTURA
Enquanto Shunryu Suzuki ensinava filosofia oriental no Sokoji,
Thomas Kuhn ensinava filosofia ocidental do outro lado da
baía de São Francisco, em Berkeley. Kuhn estava se
recuperando de uma grande decepção. Havia passado 16
anos na Universidade Harvard, obtido três diplomas em física
e se tornado membro da elitista Society of Fellows da
universidade. Mas tinham lhe negado um cargo como
professor titular. Viera para a Califórnia reconstruir a carreira.
O problema de Kuhn era que ele havia mudado de ideia.
Seus diplomas eram na área da física; no entanto, enquanto
trabalhava em seu Ph.D., se interessara pela filosofia, um
tema pelo qual tinha paixão, mas para o qual não tinha
formação. Além disso, dava um curso de história da ciência
para alunos de graduação. Não era cientista, filósofo nem
historiador, e sim uma estranha combinação das três coisas.
Harvard não soubera direito o que fazer com ele, e, como ele
logo descobriria, a Universidade da Califórnia, que o havia
contratado como professor de filosofia e depois mudara seu
cargo para incluir história, também não. Estava claro que ele
não era mais cientista. O resto era névoa.
Essa mudança no caminho de Kuhn começou numa tarde
de verão, quando ele leu pela primeira vez Física, de
Aristóteles. O ponto de vista convencional era o de que o livro
estabelecia uma base para toda a física que veio em seguida.
Kuhn, porém, não conseguia enxergar isso. Por exemplo,
Aristóteles diz:
Tudo que está em locomoção é movido por si mesmo
ou por outra coisa. No caso das coisas que são
movidas por si mesmas, é evidente que o movido e o
movimento estão juntos: porque contêm em si
mesmos seu primeiro movimento, de modo que não
há nada no meio. O movimento das coisas que são
movidas por outras deve acontecer de um entre
quatro modos: puxando, empurrando, carregando e
girando. Todas as formas de locomoção são
redutíveis a essas.
Isto não é uma física newtoniana imprecisa ou uma física
newtoniana incompleta; simplesmente não é física
newtoniana. Quanto mais lia sobre a ciência antiga, mais
Kuhn percebia que ela não estava conectada à ciência que
vinha em seguida. A ciência não é um continuum, concluiu, e
sim outra coisa.
Então, refletiu Kuhn, o que devemos pensar dessas
teorias antigas? Será que elas não eram ciência e as pessoas
que as praticavam não eram cientistas? Será que a física
newtoniana também deixou de ser científica quando a física
de Einstein a substituiu? Como a ciência se move de um
conjunto de teorias para outro, senão construindo
gradualmente a partir da obra do passado?
Em 1962, após 15 anos de pesquisas, Kuhn tinha uma
resposta. Ele a publicou num livro chamado A estrutura das
revoluções científicas. Propunha que a ciência avançava
numa série de revoluções em que os modos de pensar
mudavam completamente. Chamou esses modos de pensar
de “paradigmas”. Um paradigma é estável durante algum
tempo e os cientistas trabalham para provar coisas que o
paradigma prevê. Mas eventualmente surgem exceções. A
princípio, os cientistas tratam as exceções como perguntas
não respondidas; porém, se um número suficiente delas for
descoberto e se as perguntas se mostrarem importantes, seu
paradigma é jogado numa “crise”. A crise continua até que
emerja um novo paradigma. Então o ciclo recomeça. Na visão
de Kuhn, um novo paradigma não é uma versão melhorada de seu predecessor. Os novos paradigmas derrotam por
completo os antigos. Por isso é impossível entender cientistas
como Aristóteles usando-se uma lente moderna: eles estavam
trabalhando num paradigma que foi derrubado pelas
revoluções científicas.
Apesar de seu tópico obscuro, o livro de Kuhn vendeu
mais de um milhão de exemplares e é uma das obras mais
citadas mundo afora. O jornalista e decano da escrita
científica James Gleick chamou-o de “livro de filosofia mais
influente na segunda metade do século XX”.
Os paradigmas são uma forma de atenção seletiva. O
que muda durante uma das “revoluções científicas” de Kuhn é
o que os cientistas veem. Nas palavras de Kuhn: “Durante as
revoluções, os cientistas veem coisas novas e diferentes
quando olham com instrumentos familiares para lugares que
haviam olhado antes. O que eram patos no mundo do cientista
antes da revolução são coelhos depois.”
A “descoberta” da bactéria H. pylori por Robin Warren,
que ocorreu após a publicação do livro de Kuhn, pode ser o
exemplo mais claro de cientistas vendo o que esperam, e não
o que está ali. Depois de Warren, os cientistas olharam para
imagens que já tinham olhado antes e ficaram pasmos ao
enxergar coisas que não tinham visto na ocasião. Sua perícia
– o sistema de crenças, experiências e suposições que Kuhn
chama de paradigma – os havia cegado.
6 | A FRONTEIRA ENTRE OLHO E MENTE
Ver não é o mesmo que olhar. O conhecimento muda o que
vemos tanto quanto o ver muda o que conhecemos – não de
modo metafórico ou metafísico, mas literalmente. As pessoas
que falavam ao celular não viram o palhaço no monociclo. Os
radiologistas não viram o gorila. Gerações de cientistas não
viram o H. pylori. Isso não aconteceu porque a mente faz
truques, e sim porque a mente é um truque. Ver e acreditar
evoluíram porque entender o mundo permitiu que a espécie sobrevivesse e se reproduzisse. Mais tarde ficamos
conscientes e criativos e quisemos mais dos nossos sentidos.
Podemos querer acreditar que habitamos um universo estável
e objetivo e que nossos sentidos e mentes o representam de
modo integral e exato – que o que percebemos é “real” –, e
podemos ter que acreditar nessa ideia a fim de nos sentirmos
suficientemente sãos e em segurança para seguir com nossas
vidas, mas isso não é verdadeiro. Se quisermos entender o
mundo a ponto de mudá-lo, precisamos entender que nossos
sentidos não nos entregam o quadro inteiro. Neil deGrasse
Tyson, falando no Instituto Salk em 2006, disse:
Existem muitos elogios ao olho humano, mas
qualquer um que tenha visto toda a amplitude do
espectro eletromagnético reconhecerá como somos
cegos. Não podemos ver os campos magnéticos, a
radiação ionizante ou o radônio. Não podemos sentir
o cheiro nem o gosto do monóxido de carbono, do
dióxido de carbono ou do metano, mas se os
respirarmos estaremos mortos.
Sabemos que essas coisas existem porque
desenvolvemos instrumentos que as sentem. No entanto, quer
usemos sentidos, sensores ou ambos, nossa percepção será
sempre limitada por aquilo que podemos detectar e por como
podemos entendê-lo. A primeira limitação é óbvia – sabemos
que nossos olhos não podem ver sem luz, por exemplo –, mas
a segunda, o entendimento, não é. Há uma fronteira entre
olho e mente. Nem tudo a atravessa.
Criar significa abrir essa fronteira: reformar nosso
entendimento de modo a notarmos coisas que não tínhamos
pecebido antes. Elas não precisam ser grandes nem
extraordinárias. David Foster Wallace contou sua piada sobre
os peixes para apresentar algo aparentemente corriqueiro:
Depois do trabalho você precisa entrar no carro e ir
até o supermercado. O supermercado está lotado.
Uma iluminação horrenda e uma musiquinha de
elevador capaz de matar a alma tomam conta do
ambiente. É praticamente o último lugar no qual você
gostaria de estar. E quem são todas essas pessoas
no meu caminho? Veja como a maioria delas é
repulsiva – parecem idiotas, como vacas de olhos
mortos – e como é irritante o jeito grosseiro com que
falam alto ao celular. Veja como isso é profunda e
pessoalmente injusto. Pensar desse modo é meu
ajuste natural, é a maneira automática com que
experimento os momentos tediosos e frustrantes da
vida.
Mas há formas diferentes de pensar nesses tipos
de situação. Talvez aquela senhora gorda e muito
maquiada, que fica gritando com o filho na fila do
caixa, não seja sempre assim. Talvez isso seja
reflexo das noites maldormidas que tem enfrentado,
amparando o marido que está morrendo de câncer.
Se você aprender mesmo a prestar atenção, vai ser
capaz de experimentar, em circuntâncias difíceis de
seu dia a dia, algo não apenas significativo, mas
também sagrado. Você precisa decidir
conscientemente o que tem significado e o que não
tem.
Quando mudamos o que tem significado, mudamos o que
vemos. Wallace oferece um paradigma alternativo para a fila
do supermercado. A aparência da mulher permanece a
mesma, mas ele a vê de modo diferente. Sua segunda
interpretação – a de que o marido dela tem câncer – é
especulativa e provavelmente errada, mas não é mais
especulativa nem mais provavelmente errada do que a
primeira. É possível que esteja mais perto da verdade: poucos
de nós somos maus em termos gerais, mas todos temos dias difíceis que nos fazem parecer maus para os estranhos.
Wallace direciona sua atenção seletiva para escolher outra
coisa. Ele pode fazer isso porque reconhece que seu modo de
ver no “ajuste natural” não é o único. É uma escolha. Sua
capacidade de optar por ver eventos comuns de modo
diferente – “e não somente significativo, mas também
sagrado” – fez dele um dos maiores escritores de sua
geração.
Mente de principiante e perícia parecem temas opostos,
mas não são. A filosofia ocidental nos condicionou a ver as
coisas como pares de opostos – preto e branco, esquerda e
direita, bom e mau, yin e yang (em oposição à ideia chinesa
original de yin-yang), principiante e perito –, um paradigma
chamado de “dualismo”. Não precisamos ver as coisas desse
modo. Podemos enxergá-las em conexão, e não em oposição.
A mente de principiante é conectada à, e não oposta à, perícia
porque os maiores peritos têm conhecimento de que estão
trabalhando dentro das restrições de um paradigma e sabem
como essas restrições surgem. Na ciência, por exemplo,
algumas restrições são resultado de instrumentos e técnicas
disponíveis. Robin Warren desenvolvera perícia suficiente
como patologista para saber que o dogma do estômago estéril
era anterior à invenção do endoscópio flexível e portanto, por
falta de tecnologia, essa poderia ser uma suposição errada.
Judah Folkman sabia que as suposições sobre os tumores se
baseavam em espécimes, e não na cirurgia. Os irmãos Wright
sabiam que o coeficiente de Smeaton para calcular a relação
entre tamanho de asa e empuxo vertical era uma suposição
desenvolvida no século XVIII e que poderia estar errada. O
maior teste da nossa perícia é o modo como entendemos
nossas suposições.
Não existem verdadeiros principiantes. Começamos a
construir paradigmas assim que nascemos. Herdamos alguns,
aprendemos alguns e deduzimos alguns. Quando criamos
pela primeira vez, já somos o peixe de David Foster Wallace,
nadando num mar de suposições que ainda não notamos. O
passo final da perícia é o primeiro passo da mente de principiante: saber o que você presume, por que e quando
suspender as suposições.
7 | O MAGO DE MARTE
Há um problema em ver o que mais ninguém vê: como
saberemos que estamos certos? Qual é a diferença entre
confiança necessária e certeza perigosa – entre descoberta e
delírio?
No verão de 1894, Percival Lowell olhou pela primeira vez
através do telescópio de seu novo observatório. Ele já havia
anunciado que estava começando “uma investigação sobre a
condição da vida em outros mundos”, com “fortes motivos
para acreditar que estamos à beira de uma descoberta muito
definitiva nessa questão”.
Lowell observou o gelo no polo sul de Marte derreter no
calor do verão. Outros astrônomos tinham visto linhas retas
cruzando o deserto marciano. À medida que o gelo derretia,
as linhas mudavam de cor, tornando-se mais claras no sul e
mais escuras no norte. Para Lowell, só havia uma explicação
possível: as linhas eram canais artificiais – uma “incrível rede
azul em Marte, sugerindo que um planeta além do nosso é
habitado atualmente”.
Lowell inspirou um século de ficção científica estrelada
por invasores marcianos. Muitos imitaram as descrições feitas
por ele. Por exemplo, em Under the Moons of Mars (Sob as
luas de Marte), Edgar Rice Burroughs escreveu: “As pessoas
tinham achado que era preciso seguir as águas que recuavam
até que a necessidade as obrigou a criar sua salvação
definitiva: os chamados canais marcianos.”
Os cientistas não se convenceram. Um dos opositores de
Lowell foi Alfred Wallace, conhecido por seu trabalho sobre a
evolução. Wallace não questionou os mapas de Lowell. O
Observatório Lowell era um dos melhores do mundo e Wallace
não tinha motivo para duvidar do que Lowell via. Em vez disso, Wallace atacou as conclusões de Lowell com uma lista
de falhas lógicas, tais como:
O suprimento de água totalmente inadequado para
essa irrigação mundial; a extrema irracionalidade de
construir um sistema de canais tão vasto, cujo
desperdício, pela evaporação, chegaria a dez vezes
o tamanho do provável suprimento; como os
marcianos podiam ter vivido antes que esse grande
sistema fosse planejado e executado; por que não
utilizaram e tornaram fértil primeiro o cinturão de terra
adjacente aos limites das neves polares; o fato de
que o único modo inteligente e prático de levar uma
quantidade limitada de água por distâncias tão
grandes seria por um sistema de tubos estanques à
água e ao ar postos no subsolo; e somente uma
densa população com amplos meios de subsistência
poderia ter construído obras tão gigantescas –
mesmo que elas pudessem ter alguma utilidade.
A discussão foi resolvida a favor de Wallace em 1965
quando a espaçonave Mariner 4, da NASA, mostrou, nas
palavras do engenheiro encarregado das imagens da missão,
uma superfície “como a da nossa Lua, com crateras profundas
e inalterada no correr do tempo. Sem água, sem canais, sem
vida”.
Mas ainda havia um mistério. Sempre que outros
astrônomos diziam que não podiam ver canais em Marte,
Lowell observava que tinha um observatório melhor. Isso, de
fato, era verdade. Poucas pessoas tiveram acesso ao
observatório particular de Lowell enquanto ele estava vivo,
mas, após sua morte, astrônomos puderam finalmente usar
seu telescópio. Mesmo assim, ninguém conseguiu ver os
canais. O que Lowell enxergara, afinal?
A resposta estava nos olhos dele. Lowell não era um
astrônomo experiente. Fizera, equivocadamente, a abertura de seu telescópio tão pequena que ela funcionava como um
oftalmoscópio, o instrumento que os médicos usam para
iluminar os olhos dos pacientes. As veias da retina de Lowell
estavam se refletindo nas lentes da ocular do telescópio. Seus
mapas dos canais marcianos são imagens espelhadas dos
três vasos sanguíneos que todos temos no fundo dos olhos –
são os “raios de roda” que ele viu em Vênus, as “rachaduras”
que viu em Mercúrio, as “linhas” que viu nas luas de Júpiter e
os “toros” que viu em Saturno.
Lowell estava olhando para uma projeção de dentro de
sua cabeça. Nenhum telescópio é mais poderoso do que o
preconceito da pessoa que olha através dele. Podemos
enxergar algo que não existe quando desejamos muito, assim
como podemos ignorar o inesperado quando ele existe.
Ver o que esperamos tem a mesma raiz da cegueira por
desatenção. Quando preparamos o olhar com a
preconcepção, não temos a mente de principiante. Lowell
poderia ter evitado seus erros. O assistente dele, A. E.
Douglass, observou o risco de fazer a abertura do telescópio
tão pequena pouco depois de Lowell começar a usá-lo.
“Talvez a imperfeição mais danosa do olho esteja dentro da
lente. Sob condições adequadas, ela mostra círculos
irregulares e linhas radiais que lembram uma teia de aranha.
Isso se torna visível quando o feixe de luz que entra no olho é
extremamente pequeno.”
Douglass testou sua hipótese pendurando globos brancos
a um quilômetro e meio do observatório. Quando olhava para
eles através do telescópio, via as mesmas linhas que Lowell
estava mapeando nos planetas. A reação de Lowell foi demitir
Douglass – que logo se tornaria um astrônomo importante –
por deslealdade.
Podemos mudar de direção quando damos passos, mas
não quando saltamos. Lowell deu um salto ao dizer que
encontraria vida em Marte. Ele se comprometeu com os
canais, mas não com a verdade. Robin Warren deu um passo
quando disse que havia bactérias no estômago. Fez essa
anotação modesta em seu relato no laboratório. “Não tenho certeza do significado e da importância dessa descoberta
incomum, mas pode valer a pena investigar mais.” Em
seguida deu mais passos. E eles o levaram ao Prêmio Nobel.
Warren não carecia de confiança – por exemplo, ele não
foi detido por colegas que diziam que as bactérias não tinham
relevância –, mas carecia de uma coisa que Lowell tinha em
abundância: certeza.
A confiança é a crença em nós mesmos. A certeza é a
crença em nossas convicções. A confiança é uma ponte. A
certeza é uma barricada.
A certeza é ainda mais fácil de criar do que a ilusão. O
sentimento de certeza, como qualquer outro, vem da
eletroquímica em nossa cabeça. Estímulos químicos e
elétricos podem nos fazer experimentar esse sentimento. A
cetamina, a fenciclidina e a metanfetamina criam sentimentos
de certeza, assim como aplicar eletricidade ao córtex
entorrinal, uma parte do cérebro poucos centímetros atrás do
nariz.
A falsa certeza é comum na vida cotidiana. Num estudo
sobre a memória, os psicólogos cognitivos Ulric Neisser e
Nicole Harsch testaram a falsa certeza perguntando a
estudantes como ficaram sabendo sobre a explosão do ônibus
espacial Challenger. A resposta de uma aluna foi: “Eu estava
na aula de religião e algumas pessoas entraram e começaram
a falar sobre isso. Eu não soube de nenhum detalhe, a não
ser que ele havia explodido e que todos os alunos da tal
professora – a única civil entre os tripulantes – estavam
assistindo. Achei triste demais.”
Outra resposta foi: “Eu estava no dormitório com minha
colega de quarto, no primeiro ano de faculdade, e estávamos
assistindo à TV. A notícia passou num boletim especial e
ficamos totalmente chocadas.”
As duas respostas são da mesma aluna. Neisser e
Harsch fizeram a pergunta a ela, pela primeira vez, um dia
após o acontecimento. Dois anos depois a reencontraram e
repetiram a pergunta. Ela tinha “certeza absoluta” quanto à
segunda resposta.
Dos quarenta participantes do estudo sobre o Challenger,
doze estavam errados com relação a tudo que lembravam e a
maioria estava errada com relação à maior parte dos fatos.
Trinta e três tinham certeza de que jamais lhe haviam feito a
pergunta antes. Não existia ligação entre os sentimentos de
certeza dos pesquisados e sua exatidão. Mesmo quando foi
mostrado que estavam errados, não se sentiram convencidos
disso.
Todos continuaram a acreditar em sua segunda memória,
incorreta, mesmo depois de lerem as respostas que eles
próprios haviam escrito à mão no dia seguinte à explosão.
Uma reação foi: “Ainda acho que foi do outro modo.”
Essa certeza inabalável foi estudada pela primeira vez em
1954, na ocasião em que a paranormal e espiritualista Dorothy
Martin revelou ter sido alertada por alienígenas de que o
mundo seria destruído em 21 de dezembro. Os psicólogos
Leon Festinger, Stanley Schachter, Henry Riecken e outros
fingiram acreditar, juntaram-se ao grupo de seguidores da
paranormal e observaram o que aconteceu quando sua
profecia não se realizou.
Dorothy Martin havia feito previsões específicas. Uma
delas, passada através de um transe por um alienígena
chamado “o Criador”, dizia que um “homem do espaço”
chegaria à meia-noite de 20 de dezembro para salvar Dorothy
e seus seguidores num “disco voador”. O grupo fez
preparativos, inclusive aprendendo senhas, cortando os
zíperes das calças e tirando os sutiãs. O livro de Festinger,
Schachter e Riecken sobre a experiência, When Prophecy
Fails (Quando a profecia falha), descreve o que aconteceu
quando o homem do espaço não apareceu:
O grupo começou a reexaminar a mensagem
original, que havia declarado que à meia-noite eles
seriam postos em carros estacionados e levados ao
disco voador. A primeira tentativa de reinterpretação
veio rapidamente. Um membro observou que a
mensagem devia ser simbólica, pois dizia que eles
seriam colocados em carros estacionados, mas
carros estacionados não se movem, portanto não
poderiam levar o grupo a lugar algum. Então o
Criador anunciou que a mensagem era de fato
simbólica, mas que os “carros estacionados” se
referiam aos seus corpos físicos, que obviamente
haviam estado lá à meia-noite. O disco voador,
continuou ele, simbolizava a luz interior que cada
membro do grupo possuía. O grupo estava tão
ansioso por qualquer tipo de explicação que muitos
começaram a aceitar essa.
A grande previsão dos alienígenas havia sido o fim do
mundo. Porém Dorothy Martin recebeu uma nova mensagem
dos alienígenas pouco antes do momento de isso acontecer:
“Da boca da morte fostes libertados. Desde o início dos
tempos nesta Terra jamais houve uma força de bondade e luz
igual à que inunda esta sala.”
O grupo havia salvado o mundo! O cataclismo fora
cancelado. Alguns membros começaram a ligar para os
jornais e anunciar a novidade. Eles nem consideraram a
possibilidade de as profecias de Dorothy serem falsas.
Um dos psiquiatras disfarçados, Leon Festinger, chamou
de “dissonância” essa lacuna entre certeza e realidade.
Quando o que sabemos contradiz aquilo em que acreditamos,
podemos mudar nossa crença para ajustá-la aos fatos ou
podemos mudar os fatos para ajustá-los às nossas crenças.
As pessoas que sofrem de certeza têm mais probabilidade de
alterar os fatos do que suas crenças.
Em seguida, Festinger estudou a dissonância em
pessoas comuns. Numa experiência, ele deu tarefas bem
simples a voluntários, depois perguntou o que acharam delas.
Todos responderam que eram tediosas. Apesar disso, ele os
convenceu a dizer aos novos voluntários que a tarefa era
divertida. Quando eles declaravam aos outros que a tarefa era divertida, sua memória se alterava. Eles se “lembravam” de ter
achado a tarefa divertida. Mudavam o que sabiam para se
encaixar em algo em que inicialmente apenas haviam fingido
acreditar.
À medida que temos certeza, necessitamos que o mundo
se torne coerente e permaneça coerente com o que
afirmamos. Vemos coisas que não existem e ignoramos as
que existem, de modo a manter a vida de acordo com nossas
crenças. Festinger escreve isso em seu livro Teoria da
dissonância cognitiva: “Quando a dissonância está presente, a
pessoa, além de procurar reduzi-la, evitará ativamente
situações e informações que possam aumentá-la.”
Saber que a dissonância existe não ajuda a impedi-la.
Podemos ter dissonância com relação à nossa dissonância.
Dorothy Martin teve uma longa carreira de comunicação com
alienígenas depois que sua profecia falhou e até mesmo
depois de o estudo sobre ela ser publicado. Alguns de seus
seguidores interpretaram a pesquisa dos psicólogos como
prova dos poderes dela. Por exemplo, “Natalina”, uma
“exploradora do sobrenatural” de Tulsa, Oklahoma, escreveu
em seu site Extreme Intelligence: “Os psicólogos
determinaram que, quando as pessoas têm uma fé bastante
forte em alguma coisa, elas com frequência fazem o oposto do
que se espera quando sua fé é testada.”
Como podemos saber que estamos vendo algo real, e
não sendo iludidos pela dissonância? Que somos como Robin
Warren e Judah Folkman, e não como Percival Lowell e
Dorothy Martin?
É fácil: a ilusão consola quando a verdade dói. Quando
você sentir segurança, tenha cautela. Você pode estar
sofrendo de certeza.
O conforto da ilusão vem da certeza. Ela é a estrada fácil
para passar pelas perguntas e pelos problemas. A certeza é
covardia – a fuga da possibilidade de estarmos errados. Se já
sabemos que estamos certos, por que confrontar indagações
ou dúvidas? Simplesmente suba a Torre Eiffel e voe.
A confiança é um ciclo, e não um estado constante; é um
músculo que deve ser reforçado todo os dias, um sentimento
que renovamos e aumentamos suportando a adversidade da
criação. A certeza é constante. A confiança vem e vai.
Torne a certeza uma inimiga e seja amigo da dúvida.
Quando você se permite mudar de ideia, pode mudar qualquer
coisa.