A História Secreta da Criatividade

Kevin Ashton · Capítulo 3 de 16

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A História Secreta da Criatividade

Capítulo 2 | Pensar é igual a andar

2

 

PENSAR É IGUAL A ANDAR

 

1 | KARL

 

Berlim já foi, um dia, o centro criativo do mundo. Os teatros da

cidade reverberavam com estreias de Max Reinhardt e Bertolt

Brecht. Suas boates abrigavam os shows de Kabaret

burlescos e lascivos. Albert Einstein ascendia à Academia de

Ciências. Thomas Mann profetizava os perigos do nacional-

socialismo. Os filmes Metrópolis e Nosferatu estreavam para

plateias lotadas. Os berlinenses chamam isso de Era de Ouro:

os anos de Marlene Dietrich, Greta Garbo, Joseph Pilates,

Rudolf Steiner e Fritz Lang.

Era uma época e um local apropriados para refletir sobre

o pensamento. Em Berlim, os psicólogos alemães tinham

ideias radicais sobre como a mente humana funciona. Mais

distante dali, Otto Selz, professor em Mannheim, no sudoeste

da Alemanha, plantou a semente: estava entre os primeiros a

propor que o pensamento era um processo que poderia ser

examinado e descrito. Para a maioria de seus

contemporâneos, a mente era magia e mistério. Para Selz, era

mecanismo.

Mas, no começo da década de 1930, Otto Selz ouviu as

botas da perdição se aproximando. Ele era judeu. Hitler

ascendia. A celebração da criatividade em Berlim estava

ficando apocalíptica. A destruição se aproximava.

Selz estivera fazendo perguntas psicológicas: Como a

mente funciona? Seria possível medi-la? O que poderia provar? E passou a fazer perguntas práticas: O que iria

acontecer com ele? Poderia escapar disso? Quanto tempo lhe

restava?

E – igualmente importante para ele – seus pensamentos

sobreviveriam, caso ele não sobrevivesse? Sua chance de

passá-los adiante foi breve. Em 1933, os nazistas o impediram

de trabalhar e proibiram outras pessoas de citá-lo. Seu nome

desapareceu da literatura.

Mas pelo menos um berlinense conhecia a obra de Selz.

Karl Duncker tinha 30 anos quando os nazistas baniram Otto

Selz. Duncker não era judeu. Sua aparência era ariana: pele

clara, cabelo cor de linho e maxilar facetado. No entanto, não

estava mais seguro por causa disso. Sua ex-mulher era judia

e seus pais, comunistas. Ele se candidatou duas vezes a

professor da Universidade de Berlim e, apesar da excelente

trajetória acadêmica, foi rejeitado em ambas. Em 1935 a

escola o demitiu do trabalho de pesquisador. Ele publicou sua

obra-prima, On Problem Solving (Sobre a Solução de

Problemas) – em que desafiava os nazistas citando Selz dez

vezes –, e fugiu para os Estados Unidos.

A Era de Ouro havia terminado. O romancista Christopher

Isherwood, que ensinava inglês em Berlim, registrou seu final:

 

Hoje o sol está brilhando; é um dia ameno e quente.

Saí para meu último passeio matinal sem casaco

nem chapéu. O sol brilha e Hitler é senhor desta

cidade. O sol brilha e dezenas dos meus amigos –

meus alunos na Workers’ School e homens e

mulheres que conheço – estão na prisão, talvez

mortos ou sendo torturados até a morte. Vejo meu

rosto no espelho de uma loja e fico horrorizado ao

perceber que sorrio. É impossível não sorrir com um

tempo tão lindo. Os bondes vão e vêm pela

Kleiststrasse, como sempre. Eles, as pessoas na

calçada e a cúpula acolhedora da estação da

Nollendorfplatz têm um ar de curiosa familiaridade,

de uma notável semelhança com algo que

lembramos como normal e agradável no passado.

 

Duncker assumiu um cargo no departamento de

psicologia do Swarthmore College, na Pensilvânia. Em 1939,

produziu seu primeiro artigo desde a chegada aos Estados

Unidos, em coautoria com Isadore Krechevsky, um imigrante

que havia deixado a minúscula aldeia de Sventijánskas, na

Lituânia, quando era pequeno, para escapar do

antissemitismo russo. Krechevsky, cujo preconceito sofrido

nos Estados Unidos quase o levou a abandonar a carreira

acadêmica, foi o primeiro americano que Duncker inspirou.

O artigo escrito a quatro mãos, “On Solution-

Achievement” (Sobre a obtenção de soluções), publicado na

Psychological Review, marca o momento na história da mente

em que os Estados Unidos conheceram Berlim. Krechevsky,

no estilo americano da época, estudava o aprendizado em

ratos. Duncker estudava o pensamento nos seres humanos.

Isso era tão incomum que Duncker precisou esclarecer o que

significava pensamento: “O sentido funcional da solução de

problemas, e não um tipo de representação especial, ou seja,

sem imagem.”

No artigo os dois concordavam que a solução de

problemas exigia “um número de passos intermediários”, mas

Krechevsky notava uma diferença crucial entre as ideias de

Duncker e as que prevaleciam nos Estados Unidos: “Existe na

análise de Duncker um conceito importante que não encontra

um paralelo na psicologia americana: nas experiências dele, a

solução de problemas é uma solução significativa. O

organismo pode trazer experiências de outras ocasiões, e um

número comparativamente pequeno de experiências gerais

pode ser utilizado para solucionar problemas.”

Duncker deixara sua primeira marca. Os psicólogos

americanos faziam experiências com animais e falavam sobre

organismos: psicologia do tipo “treine seu rato”. Duncker se

importava com as mentes humanas e com problemas significativos. Cravou uma pá e rompeu o solo para uma

revolução cognitiva que levaria vinte anos para se formar.

Na Alemanha os nazistas prenderam Otto Selz e o

levaram para Dachau, seu primeiro campo de concentração.

Mantiveram-no ali durante cinco semanas.

Duncker publicou seu segundo artigo, sobre o

relacionamento entre familiaridade e percepção, no American

Journal of Psychology.

Na Rússia, seu irmão Wolfgang foi capturado no Grande

Expurgo de Stalin e assassinado no gulag.

O terceiro artigo de Duncker no ano foi publicado na

pioneira revista de filosofia e psicologia Mind. O tema era a

psicologia da ética. Duncker desejava entender por que os

valores morais das pessoas variavam tanto. O artigo era

amplo, pungente e cheio de nuances. Um homem dedicado a

descobrir como os seres humanos pensam estava tentando

entender o fim de Berlim:

 

O motivo “para o bem do Estado” depende de se o

Estado é percebido como a corporificação dos

valores mais altos da vida ou meramente como uma

espécie de delegacia de polícia. No todo, os

julgamentos morais se baseiam em significados-

padrão da sociedade em questão. Seu principal

objetivo não é ser “justo”, e sim instigar e reforçar

seus significados e condutas-padrão. É essa função

que interfere com uma conduta puramente ética.

 

Aqui estava sua resposta. Os Estados podem

substituir a ética por éditos.

No fim de fevereiro de 1940, Karl Duncker escreveu

outra coisa:

 

Querida mamãe,

Você foi boa comigo.

Não me condene.

 

Ele foi até a cidade de Fullerton, ali perto, e, sentado em

seu carro, deu um tiro na própria cabeça com uma pistola.

Tinha 37 anos.

Em Amsterdã os nazistas capturaram Otto Selz, levaram-

no para Auschwitz e o assassinaram.

Em Berkeley, a Universidade da Califórnia concedeu o

título de professor de psicologia a um homem chamado David

Krech. Ele havia mudado seu nome, que antes era Isadore

Krechevsky. Era o primeiro americano coautor de Duncker. Ao

longo de trinta anos de uma carreira notável, ele se

especializou na mecânica da memória e da estimulação.

Krech foi uma das muitas pessoas que Duncker influenciou.

Duncker levou para os Estados Unidos as melhores e mais

radicais ideias da Alemanha sobre o pensamento e iniciou

uma revolução que, infelizmente, não viveu para ver. Ele foi

uma mensagem numa garrafa, lançada das margens de uma

Berlim agonizante. A garrafa se quebrou, mas não antes de

entregar a mensagem.

 

2 | A QUESTÃO DE ENCONTRAR

 

A monografia de Duncker On Problem Solving, que ele

publicou em 1935 ao fugir da Alemanha, levou a uma

transformação na ciência do cérebro e da mente conhecida

como “revolução cognitiva”, que estabeleceu as bases para

nossa compreensão de como as pessoas criam. Por muitos

motivos, inclusive as referências a Otto Selz, a obra foi

proibida na nação de Hitler. A guerra chegou. Berlim pegou

fogo. Os exemplares ficaram raros.

Até que, cinco anos depois do suicídio de Duncker, um de

seus ex-alunos, Lynne Lees, reviveu a monografia traduzindo-

a para o inglês e apresentando ao mundo seu objetivo ousado

– “estudar o pensamento produtivo”.

Duncker rejeitou estudos de grandes pensadores.

Comparava-os com relâmpagos – uma demonstração

dramática de algo que seria “mais bem investigado em

pequenas fagulhas dentro do laboratório”. Usava “problemas

práticos e matemáticos porque esse material é mais adequado

à experimentação”, mas deixava claro que estava estudando o

pensamento, e não charadas ou matemática. Não importava

em que a pessoa estava pensando – as “características

essenciais da solução de problemas são independentes do

material que é pensado”.

Durante milênios as pessoas foram reunidas em

categorias: civilizados e selvagens, caucasianos e negros,

homens e mulheres, judeus e não judeus, ricos e pobres,

capitalistas e comunistas, gênios e imbecis, talentosos e não

talentosos. A categoria determinava a capacidade. Na década

de 1940 essas divisões tinham sido reforçadas por “cientistas”

que evocavam o potencial inato de organizar a raça humana

como um zoológico e trancar pessoas “diferentes” em jaulas,

às vezes literais.

Então um homem – um não judeu que se casou com uma

judia, um filho de comunistas que emigrou para viver entre

capitalistas, que colaborou com judeus e com mulheres e que

testemunhou os horrores causados pela fraude de medir a

humanidade – mostrou que o pensamento humano tem uma

essência que não é afetada pela escala, pelo tema ou pelo

pensador. Ele evidenciou que as nossas mentes funcionam

todas do mesmo modo.

Foi algo radical e controvertido e mudou o aspecto da

psicologia. A abordagem de Duncker era simples. Ele dava

problemas às pessoas e pedia que elas pensassem em voz

alta enquanto tentavam solucioná-los. Desse modo ele via a

estrutura do pensamento.

Pensar é encontrar um modo de chegar a um objetivo que

não pode ser alcançado por meio de uma ação óbvia.

Queremos realizar alguma coisa, mas não sabemos como;

assim, antes de agir precisamos pensar. Mas como

pensamos? Ou, como disse Duncker, qual é a resposta para a “pergunta específica do encontrar: de que modo uma solução

significativa pode ser encontrada?”.

Todos nós usamos o mesmo processo para pensar, assim

como todos usamos o mesmo processo para andar. Seja o

problema grande ou pequeno, seja a solução algo novo ou

lógico, seja o pensador um vencedor do prêmio Nobel ou uma

criança, o processo é o mesmo. Não existe “pensamento

criativo”, assim como não existe “caminhar criativo”. A criação

é um resultado – um lugar aonde o pensamento pode nos

levar. Antes de saber como criar precisamos aprender como

pensar.

Duncker estabeleceu uma variedade de experimentos.

Dentre eles estava o Problema Abcabc, que pedia a alunos do

ensino médio para deduzir por que os números na forma

123.123 e 234.234 são sempre divisíveis por 13; o Problema

da Vara, em que bebês de oito meses recebiam uma vara que

lhes permitia alcançar um brinquedo distante; o Problema da

Rolha, no qual um pedaço de madeira precisava ser inserido

num portal mesmo que seu tamanho não fosse igual à largura

da porta; e o Problema da Caixa, em que velas precisavam

ser presas numa parede utilizando-se objetos que incluíam

tachinhas e várias caixas. Duncker variava suas experiências

muitas vezes até entender como as pessoas pensam – o que

ajuda e o que atrapalha.

Uma de suas conclusões: “Se uma situação é introduzida

em certa estrutura perceptiva, o pensamento alcança uma

estrutura contrária somente vencendo a resistência da

estrutura anterior.”

Ou: ideias antigas obstruem as novas.

E foi assim com o trabalho de Duncker. Poucos

psicólogos leram ou entenderam inteiramente On Problem

Solving – não porque fosse complicado, e sim porque ideias

antigas os levavam a resistir a ele. Hoje a monografia é

conhecida principalmente pelo Problema da Caixa, que era

chamado equivocadamente de Problema da Vela e também

foi reprojetado. Ele atraiu mais a atenção do que todos os

outros. Psicólogos e pessoas que escrevem sobre criação o discutem há mais de cinquenta anos. Eis sua encarnação

moderna:

Imagine-se numa sala com uma porta de madeira. A sala

contém uma vela, uma cartela de fósforos e uma caixa de

tachinhas. Usando somente essas coisas, como você

prenderia a vela à porta, de modo que possa acendê-la, fazê-

la queimar normalmente e criar uma luz que sirva para ler?

Em geral, as pessoas pensam em três soluções. Uma é

derreter parte da vela e usar a cera derretida para grudar a

vela à porta. Outra é prender a vela à porta com a tacha.

Ambas funcionam, mas não muito bem. A terceira solução,

que só ocorre para uma minoria, é esvaziar a caixa de

tachinhas, prendê-la na porta com a tacha e usá-la para

sustentar a vela.

Essa última solução tem uma característica que as outras

não têm: um dos itens, a caixa, é usado para um propósito

diferente de seu objetivo inicial. Em algum momento o

indivíduo que soluciona o problema deixa de vê-la como um

objeto para guardar as tachas e começa a vê-la como algo

para segurar a vela.

Essa mudança, às vezes chamada de insigth, é

considerada importante por algumas pessoas que pensam

sobre a criatividade. Elas suspeitam de que há alguma coisa

de notável em ver a caixa de modo diferente; que a mudança

é um salto igual ao que experimentamos quando vemos que a

imagem de um vaso pode ser dois rostos ou a velha que pode

ser uma jovem ou o pato que pode ser um coelho. Quando

damos esse “salto”, o problema está resolvido.

Seguindo o pioneirismo de Duncker, psicólogos criaram

muitos problemas semelhantes. Dentre os exemplos está o

Problema de Charlie:

Dan chega em casa certa noite depois do trabalho. Abre a

porta e entra na sala. Vê Charlie morto no chão. Existe água

no chão, além de alguns pedaços de vidro. Tom também está

na sala. Dan olha rapidamente a cena e sabe de imediato o

que aconteceu. Como Charlie morreu?

E o Problema do Prisioneiro e a Corda:

Um prisioneiro tentava escapar de uma torre. Encontrou

na cela uma corda que tinha metade do tamanho para chegar

ao chão em segurança. Dividiu a corda ao meio, amarrou as

duas partes e escapou. Como pode ter feito isso?

E o Problema dos Nove Pontos:

Visualize três fileiras de três pontos, espaçados

igualmente, lembrando um quadrado. Junte os pontos usando

apenas quatro linhas retas sem tirar o lápis ou a caneta do

papel.

Todos são resolvidos do mesmo modo: com o equivalente

de perceber que os rostos também são um vaso. Charlie não

é uma pessoa, e sim um peixe. Tom não é uma pessoa, e sim

um gato. Tom derrubou o aquário de Charlie e Charlie morreu.

O prisioneiro não “dividiu” a corda ao meio no sentido da

largura, como imaginamos naturalmente, e sim do

comprimento. Os nove pontos são unidos desenhando-se

linhas que se estendem para além do “quadrado” criado pelos

pontos. Essa é a fonte do clichê “pensar fora da caixa”.

Isso significa que as mentes saltam? Podemos responder

a essa pergunta com mais um problema, o da Faixa Malhada:

Julia dorme num quarto trancado. Ao lado da cama há

uma corda conectada a um sino, puxado para chamar a

empregada. Acima da corda há uma abertura de ventilação

que se liga ao cômodo vizinho. Esse cômodo contém um

cofre, uma guia de cachorro e um prato de leite. Certa noite

Julia grita. Há um assobio e um estalo metálico. Ela é

encontrada agonizante com um fósforo queimado na mão.

Não há sinais de violência. Não há bichos de estimação na

casa. Seu quarto permaneceu trancado. Suas últimas

palavras são “a faixa malhada”. Como Julia morreu?

Isso não é um problema de psicologia. É o resumo de

uma história de Sherlock Holmes, escrita por Arthur Conan

Doyle em 1892. Julia morreu por causa da picada de uma

cobra venenosa treinada para atravessar a abertura de

ventilação e descer pela faixa de puxar o sino, depois voltar

quando seu assassino assobiasse. Ele mantinha a cobra

presa numa guia e a alimentava com leite. O estalo metálico é o som do cofre – onde ele escondeu a cobra depois do

assassinato – se fechando. Após ser picada, Julia acendeu

um fósforo para enxergar e vislumbrou a cobra, que lhe

pareceu uma “faixa malhada”.

Holmes deduz isso observando que o único modo de

entrar no quarto trancado seria pela abertura de ventilação.

Conclui que, como Julia morreu rápido e sem sinais óbvios de

violência, foi provavelmente envenenada. Algo pequeno e

venenoso, portanto, tinha passado pela abertura de

ventilação. A guia de cachorro sugere um animal, e não um

gás, e o prato de leite descarta um inseto, como uma aranha.

As palavras de Julia enquanto morria – uma faixa malhada –,

que inicialmente pareciam enigmáticas, agora parecem a

descrição da solução mais provável: uma cobra treinada para

reagir ao assobio do dono. O estalo metálico mostra que a

cobra está no cofre.

Holmes é um personagem fictício famoso pela detecção,

e não pela criatividade. Ele descreve seu processo como

“observação e dedução: elimine todos os outros fatores e o

que restar deve ser a verdade”. Ele não soluciona o

assassinato de Julia com um salto criativo. O insight que dá

início ao seu processo dedutivo – o único modo de entrar no

quarto trancado é através da abertura de ventilação – é uma

observação. A solução surpreendente de que uma cobra a

matou vem em seguida.

As mentes não saltam. Observação, avaliação e

repetição, e não mudanças súbitas de percepção, resolvem

problemas e nos levam a criar. Podemos ver isso usando a

técnica de Duncker: observar pessoas resolvendo seu

problema mais famoso.

 

3 | PASSOS, E NÃO SALTOS

 

Muitos indivíduos não pensam usando palavras, mas todos

podemos verbalizar nossos pensamentos sem afetar a

capacidade de resolver problemas. Ouvir a mente mostra como o pensamento funciona. Robert Weisberg pedia que os

participantes pensassem em voz alta enquanto trabalhavam

no Problema da Caixa de Duncker. Ele mudou o problema

acrescentando pregos, além de tachinhas, e substituindo a

porta de madeira por um pedaço de papelão. Aqueles com

quem trabalhava tinham os objetos à frente. Era pedido que

imaginassem soluções, mas não que as construíssem.

Aqui estão as ideias de três pessoas que não pensaram

em usar a caixa de tachinhas como suporte para a vela.

 

pessoa 1: “Posso derreter a vela e tentar grudá-la. Se

a vela sair para fora verticalmente num prego, irá se

quebrar. Talvez colocar a vela de lado e pregá-la. A

vela parece pesada. Colocar um prego, ou dois, na

lateral da vela, mas ela pode não ficar de pé. Eu

poderia... não, não poderia fazer isso.”

pessoa 2: “Estou olhando os pregos, mas eles não

vão penetrar. De que outro modo a vela vai ficar

presa? Atravessar a vela na vertical com um prego.

Atravessar um prego na vela na horizontal. Não

posso usar os fósforos. Colocar pregos no pavio e

embaixo da vela...”

pessoa 3: “Eu estava pensando que seria possível

pegar um prego e bater nele, mas isso racharia a

vela. Ou então usar os fósforos para derreter cera

suficiente, depois usar os pregos... Não serve. Pregar

os pregos um perto do outro e colocar a vela em

cima deles...”

 

E aqui estão as ideias de três pessoas que pensaram em

usar a caixa de tachinhas para segurar a vela:

 

pessoa 4: “A vela precisa queimar na vertical, então

se eu atravessar a vela e o papelão com um prego...

[pausa de 10 segundos] Se eu pegar vários pregos,

os enfileirar e colocar a vela em cima. Se eu tirar os

pregos da caixa e prender a caixa no papelão.”

pessoa 5: “Posso derreter a cera e usá-la para grudar

a vela. Pegar um prego... o prego não vai atravessar

a vela. Posso colocar pregos em volta da vela, ou

embaixo dela, para segurá-la. Ou colocar a vela na

caixa de pregos – não daria certo, a caixa iria se

rasgar.”

pessoa 6: “Vou acender um fósforo e ver se consigo

colocar cera em cima do papelão. Ou pregar um

prego através da vela e do papelão. Estou olhando

os fósforos para ver se a ideia daria certo. Estou

tentando obter mais combinações com os pregos.

Montar uma base para a vela com os pregos, como

um retângulo. Melhor ainda, usar a caixa. Colocar

dois pregos no papelão, colocar a caixa em cima,

derreter um pouco de cera, colocar a vela em cima

da caixa com a cera, e ela vai ficar de pé.”

 

É assim que pensamos. Todo mundo que pensa em usar

a caixa de tachinhas chega lá do mesmo modo. Depois de

eliminar outras ideias pensamos em montar uma plataforma

sobre pregos, depois em fazer da caixa de tachinhas uma

plataforma. Não existe uma mudança súbita de percepção.

Vamos do conhecido para o novo em pequenos passos. Em

cada caso o padrão é o mesmo: começar com algo familiar,

avaliá-lo, resolver qualquer problema e repetir até que uma

solução satisfatória seja encontrada. Duncker descobriu isso

na década de 1930: “Pessoas bem-sucedidas chegaram à

solução do seguinte modo: começaram com as tachas e

procuraram uma ‘plataforma que fosse presa à porta com as

tachas’.”

A avaliação direciona a repetição. A Pessoa 3 decide

“pregar os pregos um perto do outro e colocar a vela em cima

deles...” e avalia isso como satisfatório. A Pessoa 4 avalia isso

como insatisfatório e dá mais um passo: usar a caixa de tachinhas. A Pessoa 5 também dá esse passo, a solução que

Duncker encontrou para o problema, mas faz a avaliação

oposta: não vai dar certo. A Pessoa 6 é quem dá mais passos

e, como resultado, melhora a solução de Duncker, usando

cera derretida para estabilizar a vela.

Criar é dar passos, e não saltos: encontrar um problema,

resolvê-lo e repetir. A continuação dos passos vence. Os

melhores artistas, cientistas, engenheiros, inventores,

empreendedores e outros criadores são os que continuam

avançando ao deparar com novos problemas, novas soluções,

e novos problemas mais uma vez. A raiz da inovação é

exatamente a mesma de quando nossa espécie nasceu: olhar

para alguma coisa e pensar “Posso melhorar isso”.

Seis universitários falando enquanto resolvem um quebra-

cabeça não representam uma quantidade suficiente para uma

generalização. Vinte e cinco também não – foi esse o número

de estudantes a quem Weisberg pediu que falassem em voz

alta. E nem mesmo 376, o número dos que enfrentaram o

Problema da Caixa em sua experiência. Mas esses resultados

abalam uma premissa vital do mito da criatividade: de que

criar exige saltos de pensamento extraordinário. Não exige. O

pensamento comum funciona.

 

4 | EURECA!

 

Há uma alternativa à teoria de que a criação vem do

pensamento comum. A ideia – proposta pelos psicólogos

Pamela Auble, Jeffrey Franks e Salvatore Soraci, o escritor

Jonah Lehrer e muitos outros – é que a maioria das melhores

criações vem de um instante extraordinário de inspiração

súbita, às vezes chamado de “momento eureca!” ou “momento

aha!”. As ideias começam como lagartas da mente consciente,

transformam-se em casulos no inconsciente e depois voam

como borboletas. Esse instante resulta em empolgação e

possivelmente numa exclamação. A chave para criar é cultivar

mais desses momentos.

As pessoas que acreditam nisso terão muitas objeções

razoáveis à proposta de que a criação vem do pensamento

comum. Há registros de grandes criadores tendo o momento

eureca!. Existem muitos casos de indivíduos que se frustaram

com um problema e, quando decidiram deixá-lo de lado,

imediatamente lhes veio a solução. Neurologistas que

procuram a fonte de momentos assim estão descobrindo

coisas interessantes. O momento eureca! faz parte do nosso

mundo. Oprah Winfrey o usa como marca registrada. Como o

pensamento comum pode explicar isso?

A história mais citada de um momento eureca! ficou

famosa a partir de um arquiteto romano chamado Vitrúvio.

Vitrúvio diz que, quando o general grego Hiero foi

coroado rei de Siracusa, na Sicília, 2.300 anos atrás,

comemorou entregando determinada quantidade de ouro a um

artesão e pedindo que ele criasse uma coroa. O artesão

entregou uma coroa com o mesmo peso em ouro dado por

Hiero, mas o rei suspeitou de que havia sido enganado e que

a maior parte dela fosse de prata. Hiero pediu ao maior

pensador de Siracusa, um rapaz de 22 anos chamado

Arquimedes, que descobrisse a verdade: a coroa era de ouro

puro ou uma mistura de ouro e prata? Segundo Vitrúvio,

Arquimedes foi tomar um banho de banheira. Quanto mais

afundava, mais a água transbordava. Isso lhe deu uma ideia.

Animado, Arquimedes saiu correndo nu, gritando: “Eureca,

eureca!” – “Descobri, descobri!” Em seguida fez dois objetos

com o mesmo peso da coroa, um de ouro e um de prata,

submergiu-os e mediu quanta água transbordava. O objeto de

prata deslocava mais água do que o de ouro. Então

Arquimedes mergulhou a coroa de “ouro” de Hiero na água.

Ela deslocou mais água do que o mesmo peso de ouro puro,

provando que tinha sido adulterada com prata ou alguma

outra substância.

É muito provável que essa história sobre Arquimedes,

contada por Vitrúvio dois séculos depois do fato, não seja

verdadeira. O método que Vitrúvio descreveu não funciona,

como Arquimedes certamente saberia. Galileu observou isso num texto chamado “La Bilancetta” (A balancinha), que chama

o método de comparar ouro e prata descrito por Vitrúvio como

“absolutamente falso”. As diferenças minúsculas na

quantidade de água deslocada pelo ouro, pela prata e pela

coroa seriam muito difíceis de medir. A tensão superficial e as

gotas de água que permanecessem na coroa provocariam

outros problemas. O texto de Galileu mostra o método que

Arquimedes deve ter usado, baseado na obra do próprio

Arquimedes: pesando a coroa embaixo d’água. A

flutuabilidade, e não o deslocamento da água, é a chave para

solucionar o problema. Dificilmente fazer transbordar uma

banheira inspiraria isso.

Mas vamos aceitar a história de Vitrúvio. Ele diz:

“Enquanto o problema estava em sua mente, por acaso

Arquimedes foi tomar banho. E, ao entrar na banheira,

observou que quanto mais seu corpo afundava nela, mais

água escorria. Como isso indicava o modo de explicar o

problema, ele saltou da banheira imediatamente e, levado

pelo empolgação, saiu correndo nu, gritando a plenos

pulmões que havia encontrado o que procurava; e, enquanto

corria, berrava em grego: ‘Eureca, eureca!’”

Ou seja, o momento eureca! de Arquimedes veio de uma

observação que fez enquanto pensava no problema. Na

melhor das hipóteses, a banheira é como a plataforma de

pregos nas experiências de Weisberg: é a coisa que leva a

outra. Se isso aconteceu, o lendário grito de “Eureca!” não

veio de um momento eureca!, e sim do simples contentamento

por solucionar um problema com o pensamento comum.

Outro exemplo famoso de um momento eureca! é de

Samuel Taylor Coleridge, que afirmou que seu poema “Kubla

Khan” foi escrito durante um sonho. Segundo o prefácio de

Coleridge:

 

No verão do ano de 1797, o autor, então doente,

havia se retirado para uma fazenda distante. Sob o

efeito de um anódino que lhe fora prescrito, ele caiu

no sono em sua poltrona no momento em que estava

lendo “Aqui o Kublai Cã ordenou que um palácio

fosse construído, e também um jardim suntuoso. E

assim 16 quilômetros de solo fértil foram cercados

por um muro”. O autor continuou durante três horas

em sono profundo, tempo em que não pôde ter

composto menos de duzentos a trezentos versos

sem qualquer sensação ou consciência de esforço.

Ao acordar ele anotou com avidez os versos; nesse

momento, infelizmente, foi chamado por uma pessoa

que vinha a negócios de Porlock e, ao retornar à

sala, descobriu que todo o resto havia sumido.

 

Isso deu ao poema – cujo subtítulo é “A Vision in a

Dream” (Uma visão num sonho) – uma aura de mistério e

romance que continua até hoje. Mas Coleridge está nos

levando ao equívoco. O anódino, ou analgésico, que segundo

ele foi receitado era ópio dissolvido em álcool – substância em

que Coleridge era viciado. Um transe de três a quatro horas é

um clássico estado induzido pelo ópio, que pode ser eufórico

e alucinógeno. Os movimentos de Coleridge no verão de 1797

são bem conhecidos. Ele não teve tempo para se retirar para

uma fazenda distante. A pessoa vinda de Porlock pode ter

sido fictícia, uma desculpa para não terminar o poema.

Coleridge usou um ardil semelhante – uma carta falsa de um

amigo – como desculpa para outra obra que ficou inacabada,

sua Biographia Literaria. O prefácio diz que o poema foi

composto durante o sono, depois escrito automaticamente.

Mas em 1934 foi descoberto um manuscrito anterior de “Kubla

Khan” que difere do poema publicado. Dentre muitas

mudanças, “Deste abismo com hediondo tumulto fervilhando”

tornou-se “E deste abismo, com interminável tumulto

fervilhando”; “Assim, duas vezes seis milhas de terreno fértil /

Com Muralhas e Torres foram contornadas” foi mudado para

“Assim, duas vezes cinco milhas de terreno fértil / Com

Muralhas e Torres foram circundadas”; “monte Amora” foi reescrito como “monte Amara” – referência ao Paraíso

Perdido, de Milton – e depois, finalmente, “monte Abora”. A

história da origem também mudou. Coleridge diz que o poema

“foi composto numa espécie de devaneio provocado por dois

grãos de ópio” no outono, em vez de surgir completo durante

um sonho no verão.

Embora essas mudanças sejam pequenas, demonstram

pensamento consciente, e não automação inconsciente.

“Kubla Khan” pode ter se iniciado ou não durante um sonho,

mas o pensamento comum o terminou.

Uma terceira história contada com frequência sobre um

momento eureca! remonta a 1865, quando o químico August

Kekulé descobriu a estrutura de anel do benzeno. Vinte e

cinco anos depois dessa descoberta, Kekulé disse, num

discurso para a Sociedade Alemã de Química:

 

Eu estava escrevendo em meu caderno, mas o

trabalho não progredia; meus pensamentos se

encontravam em outro lugar. Virei a cadeira em que

estava sentado para a lareira e cochilei. De novo os

átomos bailaram diante dos meus olhos. Dessa vez

os grupos menores ficavam discretamente ao fundo.

Minha visão mental, mais aguçada devido a repetidas

visões desse tipo, podia agora distinguir estruturas

maiores com conformações variadas: longas fileiras,

às vezes mais próximas umas das outras, todas

girando e se retorcendo num movimento parecido

com o de cobras. Mas olhe! O que foi aquilo? Uma

das cobras tinha agarrado a própria cauda, e a forma

girava zombeteira diante dos meus olhos. Como se

tivesse sido acertado por um raio, acordei, e dessa

vez também passei o resto da noite deduzindo as

consequências daquela hipótese.

 

Robert Weisberg observa que a palavra usada por Kekulé

foi halbschlaf, ou “semissono”, frequentemente traduzida como “devaneio”. Kekulé não estava dormindo. Estava

devaneando. Seu sonho costuma ser descrito como a visão

de uma cobra mordendo a própria cauda. Mas Kekulé diz que

viu átomos se retorcendo num movimento parecido com o de

cobras. Quando mais tarde descreve uma das cobras

pegando o próprio rabo, está se referindo a essa analogia.

Não está vendo uma cobra. Esse é um caso de imaginação

visual ajudando a solucionar um problema, e não um

momento eureca! acontecendo num sonho.

Um caso de revelação súbita também tem sido atribuído a

Einstein. Durante algum tempo, enquanto desenvolvia a teoria

especial da relatividade, ficou empacado e procurou a ajuda

de um amigo. “O dia estava lindo quando o visitei com essa

questão”, disse ele. “Comecei a conversa do seguinte modo:

‘Ando trabalhando num problema difícil. Hoje venho aqui para

batalhar contra ele com você.’ Nós o discutimos sob todos os

aspectos. Então, de repente, entendi onde estava a chave

para resolvê-lo. No dia seguinte voltei lá e disse, antes mesmo

de cumprimentá-lo: ‘Obrigado. Solucionei completamente o

problema.’”

Isso foi um lampejo de inspiração? Não. Nas palavras de

Einstein: “Fui levado a ele passo a passo.” Todas as histórias

de momentos eureca! – e, de forma surpreendente, elas são

poucas – são assim: engraçadas, em geral apócrifas e

incapazes de sobreviver a qualquer análise minuciosa.

E tem havido muitas análises. Nas últimas décadas do

século XX muitos psicólogos acreditavam que a criação surge

de um período de inconsciência que eles chamaram de

“incubação”, seguido por uma emoção que denominaram “a

sensação de saber”, sucedido por um momento eureca! ou

“insight”. Esses psicólogos fizeram centenas de experiências

destinadas a validar suas hipóteses.

Por exemplo, em 1982 dois pesquisadores da

Universidade do Colorado testaram a sensação de saber com

trinta pessoas numa experiência que durou dezenove dias.

Eles mostravam aos participantes fotos de artistas e pediam

que lembrassem seus nomes. Apenas 4% se recordaram espontaneamente. Todos os outros seguiram o caminho de

recuperar a memória por pensamento comum: trabalhar

gradualmente o problema de recordar, por exemplo, que o

artista foi um astro do cinema na década de 1950, que havia

aparecido num filme de Alfred Hitchcock em que era

perseguido por um avião pulverizador de plantações, que o

filme se chamava Intriga internacional e, enfim, que o nome

dele era Cary Grant. A conclusão do estudo? Até mesmo as

memórias “espontâneas” provavelmente tinham vindo do

pensamento comum, e não havia sustentação para evidenciar

o processo mental inconsciente como um modo de recuperar

memórias. Outros estudos sobre a sensação de saber tiveram

resultados semelhantes.

E quanto à incubação? Um acadêmico chamado Robert

Olton passou muitos anos na Universidade da Califórnia, em

Berkeley, tentando provar que a incubação existe. Numa

experiência, ele distribuiu 160 pessoas por dez grupos e pediu

que resolvessem um problema de insight chamado Problema

da Fazenda, que implicava dividir uma “fazenda” em forma de

L em quatro partes do mesmo tamanho e da mesma forma. A

solução é insólita – é preciso fazer quatro formas de L

menores em várias posições. Cada participante foi testado

individualmente e tinha trinta minutos para resolver o

problema. Para ver se uma pausa no pensamento – isto é,

incubar – fazia diferença, alguns deles tiveram um intervalo de

quinze minutos. Durante esse tempo, alguns indivíduos

podiam fazer o que quisessem; outros recebiam uma tarefa

mental como contar de trás para a frente de três em três; ou

eram estimulados a falar sobre o problema em voz alta; ou

deviam relaxar numa sala com luzes fracas, música suave e

poltrona confortável. Cada atividade testava uma ideia

diferente sobre como a incubação funciona.

Mas os resultados foram os mesmos para todos os

grupos. As pessoas que dispuseram de um período de

incubação, independentemente do que fizeram durante a

pausa, se saíram tão bem quanto as outras, que trabalharam

de modo contínuo. Olton dividiu os dados de muitos modos, procurando provas de que a incubação funcionava, mas foi

obrigado a concluir: “A principal descoberta deste estudo é

que não se observou qualquer evidência de incubação sob

qualquer condição, nem mesmo naquelas em que seu

surgimento pareceria mais provável.” Ele chamou isso de

“descoberta inexoravelmente negativa”. Também não pôde

replicar os resultados positivos que outros pesquisadores

haviam reportado. “Pelo que sabemos”, escreveu ele,

“nenhum estudo informando provas de incubação na solução

de problemas sobreviveu à replicação por parte de um

investigador independente.”

Olton sugeriu que uma explicação para a falta de provas

que sustentassem a incubação eram experimentos falsos.

Mas acrescentou: “Uma segunda explicação, mais radical,

para nossos resultados é aceitá-los pelo que são e questionar

a existência da incubação como um fenômeno demonstrável.

Isto é, a incubação pode ser uma espécie de ilusão, talvez

tornada impressionante pela lembrança seletiva das poucas,

mas vívidas, ocasiões em que um grande progresso seguiu-se

ao afastamento de um problema e o esquecimento das muitas

ocasiões em que isso não aconteceu.”

No entanto, Robert Olton não desistiu. Projetou um

estudo diferente, em que especialistas tentavam resolver uma

questão em sua área de conhecimento – jogadores de xadrez

e um problema de xadrez – na esperança de que isso

trouxesse resultados melhores do que aquele de estudantes

universitários com um problema de insight. Metade dos

pesquisados trabalhou de forma contínua e metade pôde ter

uma pausa, tempo em que foi pedido para não pensarem no

problema. De novo a pausa não fez diferença. Os dois grupos

se saíram igualmente bem. Olton, que no início acreditava na

incubação, foi obrigado a duvidar de sua existência. Seu

desânimo foi evidente no subtítulo do artigo que escreveu

sobre o estudo: “Procurando o Impalpável”. O artigo concluía:

“Simplesmente não encontramos a incubação.”

Hoje, a maioria dos pesquisadores considera a incubação

uma psicologia folclórica – uma crença popular, porém errônea. Quase todas as evidências sugerem a mesma coisa:

as lagartas não fazem casulos na mente inconsciente. As

borboletas da criação vêm do pensamento consciente.

 

5 | O SEGREDO DE STEVE

 

Karl Duncker escreveu que o ato da criação começa com uma

de duas perguntas: “‘Por que isso não funciona?’ ou ‘O que eu

deveria mudar para fazer com que isso funcione?’”

Responder a essas perguntas pode levar a resultados

realmente extraordinários. Um dos melhores exemplos vem de

Steve Jobs, cofundador e CEO da Apple Inc. Quando Jobs

anunciou o primeiro iPhone, em 2007, ele disse:

 

Os telefones mais avançados são chamados de

smartphones (telefones inteligentes). Eles são de fato

um pouco mais inteligentes, e também são, na

verdade, mais difíceis de usar. Todos têm teclados

que permanecem lá, quer você precise utilizá-los,

quer não. Como se resolve isso? Nós solucionamos

esse problema em computadores há 20 anos.

Resolvemos com uma tela que podia mostrar

qualquer coisa. O que vamos fazer é nos livrar de

todos esses botões e criar uma tela gigante. Não

queremos carregar um mouse por aí. Vamos usar

uma caneta? Não. Seria preciso pegá-la e depois

guardá-la, e acabaríamos por perdê-la. Vamos usar

nossos dedos.

 

Não é coincidência que Jobs se pareça com um dos

investigados de Duncker, pensando em voz alta enquanto

tenta prender uma vela a uma porta. O processo, passo a

passo, é o mesmo. Problema: telefones mais inteligentes são

mais difíceis de usar porque têm teclados permanentes.

Solução: uma tela grande e um apontador. Problema: que tipo de apontador? Solução: um mouse. Problema: Não queremos

carregar um mouse por aí. Solução: uma caneta. Problema:

Uma caneta especial pode ser perdida. Solução: usar os

dedos.

A Apple vendeu 4 milhões de telefones em 2007, 14

milhões em 2008, 29 milhões em 2009, 40 milhões em 2010 e

82 milhões em 2011, um total de 169 milhões nos cinco

primeiros anos no ramo da telefonia, apesar de cobrar um

preço mais alto do que os concorrentes. Como?

Durante anos, a partir de 2002, fiz parte do conselho de

pesquisas de uma empresa que fabricava celulares. Todo ano

ela me dava o telefone mais recente. E eu sempre achava o

último aparelho mais difícil de usar do que o anterior, assim

como outros membros do conselho. Não era segredo que a

Apple poderia entrar no mercado de celulares, mas não se

considerava sua entrada um risco, já que ela nunca havia feito

um telefone antes. Alguns meses após o iPhone ser lançado,

o conselho se reuniu e eu perguntei o que a companhia

pensava dele. O engenheiro-chefe disse: “Ele tem um

microfone muito ruim.”

Isso era verdadeiro, irrelevante e revelador. Essa

companhia achava que os smartphones eram telefones,

apenas mais inteligentes. Ela havia feito alguns dos primeiros

celulares, que, claro, possuíam botões. Eles obtiveram

sucesso. Assim, à medida que acrescentavam inteligência ao

aparelho, acrescentavam botões. Achavam que um bom

telefone fornecia uma chamada telefônica de qualidade e que

as coisas inteligentes eram um bônus.

A Apple fazia computadores. Para ela, como o anúncio de

Jobs deixou claro, um smartphone não era um telefone. Era

um computador de bolso que, dentre outras coisas,

telefonava. Fazer computadores era um problema que a

Apple, como Jobs descreveu, havia “solucionado” 20 anos

antes. Pouco importava que a Apple jamais tivesse feito um

telefone. Importava era que os fabricantes de telefones nunca

haviam feito um computador. A companhia em que eu era

consultor, que já fora um dos principais fabricantes de telefones, perdeu uma quantidade enorme de dinheiro em

2007, viu sua fatia de mercado despencar e acabou sendo

vendida.

A questão “Por que isso não funciona?” nos engana com

sua simplicidade. O primeiro desafio é fazer a pergunta. O

engenheiro-chefe não se questionou sobre seus telefones. Viu

as vendas crescentes, os clientes felizes e presumiu que,

como nada estava quebrado, não havia o que consertar.

Porém a fórmula “Vendas + Clientes = Nada Quebrado” é

um veneno para as empresas. A maior parte das grandes

companhias se mata ao bebê-lo. A complacência é inimiga.

“Se não está quebrado, não conserte” é uma expressão

intolerável. Não importam as vendas e a satisfação dos

clientes, sempre há algo a consertar. Perguntar-se “Por que

não funciona?” é a criação inalando. Responder é a criação

exalando. Sem isso a inovação esmorece.

Questionar “Por que isso não funciona?” é como buscar o

rumo. Estabelece a direção da criação. Para Jobs e o iPhone,

o ponto de partida não foi encontrar uma solução, e sim

enxergar um problema: o problema dos teclados tornando os

smartphones mais difíceis de se utilizar. Todo o resto veio em

seguida.

É importante chamar a atenção para o fato de que, antes

da Apple anunciar o iPhone, a gigante coreana dos eletrônicos

LG lançou um produto muito parecido com ele. O LG Prada

tinha uma tela sensível ao toque de grande tamanho, ganhou

prêmios de design e vendeu um milhão de unidades. Quando

a solução muito semelhante da Apple – uma grande tela

sensível ao toque – foi revelada, os concorrentes construíram

em meses aparelhos que eram quase réplicas. Essas outras

empresas poderiam ter feito um iPhone, mas não puderam

concebê-lo. Não conseguiam olhar para seus produtos já

existentes e perguntar: “Por que isso não funciona?”

O segredo de Steve ficou evidente em 1983, durante o

alvorecer do computador pessoal, quando ele falou numa

convenção sobre design em Aspen, Colorado. Não havia

palco nem recursos visuais. Jobs se posicionou atrás de um pódio, com o cabelo arrumado, camisa branca de tecido fino

com mangas dobradas na altura do cotovelo e – “Eles me

pagaram 60 dólares, por isso usei gravata” – uma gravata

borboleta verde e rosa. A plateia era pequena. Ele fazia

gestos amplos enquanto imaginava “computadores portáteis

com conexão por rádio”, “caixas postais eletrônicas” e “mapas

eletrônicos”. A Apple Computer, da qual Jobs era cofundador

e diretor, era uma empresa com apenas seis anos de

existência que bancava o Davi contra o Golias da IBM. A arma

da Apple eram as vendas: ela vendera mais computadores

pessoais do que qualquer outra empresa em 1981 e 1982.

Mas, apesar do otimismo, Job estava insatisfeito:

 

Se a gente olhar os computadores, eles parecem

lixo. Todos os grandes designers de produtos

projetam automóveis e prédios, mas praticamente

nenhum projeta computadores. Vamos vender dez

milhões de computadores em 1986. Quer eles

pareçam uma porcaria, quer pareçam fantásticos.

Esses novos objetos logo estarão no ambiente de

casa e de trabalho de todo mundo. E temos a chance

de colocar uma peça fantástica aí. Se não fizermos

isso, vamos pôr mais um bocado de lixo nesses

espaços. Em 1986 ou 1987 as pessoas vão passar

mais tempo interagindo com essas máquinas do que

dentro de um carro. E, então, o design industrial, o

design de programas e o modo de interação das

pessoas com essas coisas receberão tanta

consideração quanto os automóveis hoje em dia;

talvez até mais.

 

Vinte e oito anos depois, Walt Mossberg, colunista de

tecnologia do Wall Street Journal, descreveu uma discussão

semelhante que acontecera perto do fim da vida de Jobs:

“Num minuto ele estava falando sobre ideias incríveis para a

revolução digital. No outro, explicando o motivo que levava os produtos atuais da Apple a serem medonhos e sobre como

uma cor, um ângulo, uma curva ou um ícone era

embaraçoso.”

Um grande vendedor vende para todo mundo. Um grande

vendedor vende para todo mundo menos para si mesmo. O

que fazia Steve Jobs pensar de modo diferente não era o

gênio, a paixão ou a visão. Era sua recusa em acreditar que

vendas e clientes significavam que nada estava quebrado. Ele

cultuou isso no nome da rua que cercava o campus da Apple:

Arco Infinito. O segredo de Steve era jamais ficar satisfeito.

Ele dedicou a vida a pensar “Por que isso não funciona?” e “O

que eu deveria mudar para fazer com que isso funcione?”.

 

6 | CHUVA DE LÂMPADAS

 

Mas espere aí. Certamente há uma alternativa à proposta de

começar pensando: “Por que isso não funciona?” E se você

começar simplesmente com uma boa ideia?

As ideias são a base dos mitos sobre a criação; elas têm

até mesmo o próprio símbolo, a lâmpada elétrica. Isso vem de

1919, da era dos filmes mudos, uma década antes do Mickey

Mouse, quando o animal de animação predileto do mundo era

o Gato Félix. Félix era preto, branco e malicioso. Símbolos e

números apareciam em cima da sua cabeça e, às vezes, ele

os agarrava e os utilizava como objetos de cena. Pontos de

interrogação viravam escadas, notas musicais se tornavam

veículos, pontos de exclamação se transformavam em

bastões de beisebol e o número 3 virava um par de chifres

que ele usava para enfrentar um touro. Mas um símbolo

perdurou por mais tempo do que o gato: quando Félix tinha

uma ideia, uma lâmpada aparecia sobre sua cabeça. Desde

então as lâmpadas representam as ideias. Os psicólogos

adotaram a imagem e, depois de 1926, eles chamaram o ato

de ter uma ideia de iluminação.

O mito da criatividade confunde ter ideias com o real

trabalho de criar. Livros com títulos como A ideia é boa. E agora?, Como ter novas ideias, The Idea Hunter (O caçador

de ideias) e IdeaSpotting (Descobrir ideias) enfatizam a

geração de ideias, e as técnicas para gerá-las são

abundantes. A mais famosa é o brainstorming, inventado pelo

executivo de publicidade Alex Osborn em 1939 e apresentado

pela primeira vez em seu livro How to Think Up (Como

inventar), de 1942. Esta é uma descrição típica, feita por

James Manktelow, fundador e CEO da MindTools, uma

empresa que promove o brainstorming como um modo de

“desenvolver soluções criativas para problemas empresariais”:

 

O brainstorming costuma ser usado num ambiente

empresarial para encorajar as equipes a terem ideias

originais. É um formato de reunião descontraído em

que o líder apresenta o problema que precisa ser

solucionado. Os participantes, então, sugerem ideias

para resolvê-lo e também podem desenvolver as

ideias propostas pelos outros. A regra é não criticar –

pode-se dizer coisas completamente loucas e

disparatadas. Isso permite que as pessoas explorem

ideias de modo criativo e rompam os padrões de

pensamento estabelecidos. Além de gerar algumas

ótimas soluções para problemas específicos, o

brainstorming pode ser muito divertido.

 

Como um exemplo da eficácia dessa técnica, Osborn

citou um grupo de empregados do Tesouro dos Estados

Unidos que teve, em quarenta minutos, 103 ideias para

vender bônus de poupança. Corporações e instituições, dentre

as quais a DuPont, a IBM e o governo americano, logo

adotaram o brainstorming. No fim do século XX, tendo suas

origens esquecidas, o brainstorming havia se tornado uma

abordagem reflexa à criatividade em muitas organizações e

entrado no jargão empresarial ao mesmo tempo como

substantivo e como verbo. Hoje em dia ele é tão comum que poucas pessoas o questionam. Todo mundo “faz brainstorm”;

portanto o brainstorming é bom.

Mas será que ele realmente funciona?

Uma suposição é que os grupos produzem mais ideias do

que os indivíduos. Pesquisadores em Minnesota testaram isso

com cientistas e executivos de publicidade da companhia 3M.

Metade dos participantes trabalhou em grupos de quatro; a

outra metade trabalhou sozinha. Em seguida seus resultados

foram combinados aleatoriamente como se tivessem

trabalhado num grupo, sendo as ideias duplicadas contadas

apenas uma vez. Em todos os casos, quatro pessoas que

trabalharam individualmente geraram de 30 a 40% mais ideias

do que quatro pessoas que trabalharam em grupo. E seus

resultados tinham maior qualidade também: avaliadores

independentes julgaram o trabalho e descobriram que os

indivíduos produziram ideias melhores do que os grupos.

Pesquisas posteriores testaram se grupos maiores se

saíam melhor. Num estudo, 168 pessoas foram divididas em

equipes de cinco, sete ou nove, ou trabalharam sozinhas. A

pesquisa confirmou que trabalhar individualmente é mais

produtivo do que trabalhar em grupo. Também mostrou que a

produtividade diminui à medida que o tamanho do grupo

aumenta. A conclusão: “O brainstorming em grupo, numa

grande variedade de tamanhos de grupo, mais inibe do que

facilita o pensamento criativo.” Os grupos produziam menos e

piores resultados porque tinham mais probabilidade de se fixar

numa ideia e porque, apesar de todas as exortações em

contrário, alguns membros sentiam-se inibidos e não

participavam plenamente.

Outra suposição do brainstorming é que suspender o

julgamento é melhor do que avaliar as ideias à medida que

elas aparecem. Pesquisadores em Indiana testaram isso

pedindo que grupos de estudantes pensassem em nomes

para três produtos diferentes. Metade dos grupos deveria se

abster de criticar e metade deveria criticar à medida que o

processo acontecia. De novo, avaliadores independentes

julgaram a qualidade de cada ideia. Os grupos que não pararam para criticar tiveram mais ideias, mas os dois grupos

produziram o mesmo número de boas ideias. Evitar as críticas

só acrescentou ideias ruins. Estudos posteriores reforçaram

isso.

As pesquisas sobre o brainstorming têm uma conclusão

clara: o melhor modo de criar é trabalhar sozinho e avaliar as

soluções à medida que elas acontecem; o pior modo de criar é

trabalhar em grupos grandes e evitar a crítica. Steve Wozniak,

cofundador da Apple com Steve Jobs e inventor do primeiro

computador da empresa, dá o mesmo conselho: “Trabalhe

sozinho. Você vai ser melhor em projetar produtos

revolucionários se trabalhar por conta própria. Não num

comitê. Não numa equipe.”

O brainstorming fracassa porque é uma rejeição explícita

do pensamento comum – todo feito de saltos, sem passos – e

por causa de sua suposição, não declarada, de que ter ideias

é o mesmo que criar. Parcialmente por conta disso, quase

todo mundo tem o pensamento de que as ideias são

importantes. Segundo o romancista Stephen King, a pergunta

que os escritores mais ouvem nas sessões de autógrafos – e

a menos possível de ser respondida – é: “Onde você arranja

suas ideias?”

As ideias são como sementes: são abundantes, mas a

maioria jamais floresce. Além disso, raramente são originais.

Peça a vários grupos independentes que façam brainstorming

sobre o mesmo tema simultaneamente e é provável que você

receba muitas ideias iguais. Isso não é uma limitação dessa

técnica; acontece com toda criação. Como tudo resulta de

passos, e não de saltos, a maioria das coisas é inventada em

vários lugares ao mesmo tempo, quando pessoas distintas

percorrem o mesmo caminho, cada qual sem saber dos

outros. Por exemplo, quatro pessoas diferentes descobriram

manchas solares em 1611; cinco indivíduos inventaram o

barco a vapor entre 1802 e 1807; e dois inventaram o chip de

silício em 1957. Quando os cientistas políticos William Ogburn

e Dorothy Thomas estudaram esse fenômeno, descobriram

148 casos de grandes ideias vindo a muitas pessoas na mesma época e concluíram que sua lista aumentaria se mais

pesquisas fossem feitas.

Ter ideias não é o mesmo que ser criativo. Criação é

execução, e não inspiração. Muitos têm ideias; poucos dão os

passos necessários para concretizar aquilo que imaginam. Um

dos melhores exemplos disso é o avião. Os irmãos Orville e

Wilbur Wright não foram os primeiros indivíduos a ter a ideia

de fazer uma máquina voadora nem foram os primeiros a

começar a construção de uma – mas foram as primeiras

pessoas a voar.

 

7 | COMO FAZER UM CAVALO VOAR

 

A história dos irmãos Wright começa nas Montanhas Rhinow,

na Alemanha, no domingo, 9 de agosto de 1896. O céu se

estendia limpo feito um lençol, a lua mastigava o sol num

eclipse solar parcial e uma forma branca subia entre os picos.

Tinha as asas raiadas de um morcego e uma cauda em forma

de crescente. Um homem barbudo pendia embaixo: Otto

Lilienthal. Ele pilotava um planador, manobrado a partir do

deslocamento do peso do seu corpo, e tinha como objetivo

criar uma máquina voadora impelida por motor. Um sopro de

vento pegou o planador e o inclinou para cima. Lilienthal

moveu o corpo, mas não conseguiu ajeitá-lo. Seu grande

morcego branco caiu de uma altura de 15 metros. Sua coluna

se partiu e ele morreu no dia seguinte. Suas últimas palavras

foram: “Sacrifícios precisam ser feitos.”

Orville e Wilbur Wright leram a notícia em sua loja Wright

Cycle Company, em Dayton, Ohio. O sacrifício de Lilienthal

pareceu sem sentido para eles. Ninguém deveria andar num

veículo que não pudesse ser dirigido, especialmente no céu.

Andar de bicicleta era uma nova moda na década de

1890. As bicicletas são milagres de equilíbrio. Ela não são

fáceis de construir nem de conduzir. Quando andamos de

bicicleta fazemos ajustes constantes para nos manter

equilibrados. Ao entrarmos numa curva, abandonamos esse equilíbrio, virando o volante e nos inclinando, e o recuperamos

assim que a curva termina. O problema da bicicleta não é o

movimento; é o equilíbrio. A morte de Lilienthal mostrou aos

Wright que o mesmo era verdadeiro para uma aeronave. Em

seu livro The Early History of the Airplane (Os primórdios da

história do avião), os irmãos escreveram:

 

O equilíbrio de um aparelho voador pode parecer, à

primeira vista, uma questão muito simples, porém, a

maioria dos desenvolvedores descobriu que esse era

um ponto que não se conseguia dominar de modo

satisfatório. Alguns colocaram o centro de gravidade

muito abaixo das asas. Como o pêndulo, ele tendia a

buscar o ponto mais baixo, mas, além disso, também

como o pêndulo, ele tendia a oscilar de um modo que

destruía toda a estabilidade. Um sistema melhor

seria o de arranjar as asas na forma de um grande V.

Na prática, no entanto, isso tinha dois defeitos sérios:

primeiro tendia a manter a máquina oscilando;

segundo, sua utilidade se restringia ao ar calmo. A

despeito das limitações conhecidas desse princípio,

ele foi incorporado em quase todas as importantes

máquinas voadoras construídas. Nós chegamos à

conclusão de que um aparelho voador baseado nisso

poderia ser interessante de um ponto de vista

científico, mas não teria valor prático.

 

No mesmo livro, Wilbur acrescentou: “Quando essa

questão for resolvida, a era das máquinas voadoras terá

chegado, pois todas as outras dificuldades são de menor

importância.”

Essa observação colocou os irmãos Wright no caminho

do primeiro voo do mundo. Eles viam um avião como “uma

bicicleta com asas”. O problema do avião não é voar: é, como

a bicicleta, se equilibrar. Otto Lilienthal morreu porque teve

sucesso no primeiro quesito e fracassou no segundo.

Os irmãos resolveram o problema estudando os

pássaros. Um pássaro é golpeado pelo vento quando plana.

Ele se equilibra levantando a ponta de uma asa e baixando a

outra. O vento gira as asas como as pás de um moinho de

vento até que o pássaro recupera o equilíbrio. De novo Wilbur:

 

Mencionar todas as coisas que o pássaro deve ter

em mente o tempo todo para voar em segurança

exigiria um grande tratado. Se eu pegar um pedaço

de papel e, depois de colocá-lo paralelo ao chão,

deixá-lo cair rapidamente, ele não vai descer de

forma correta, como um pedaço de papel sério e

sensato deveria fazer. Em vez disso, ele insistirá em

se contrapor a todas as regras conhecidas do decoro

e vai se virar e saltar para um lado e para outro do

modo mais errático, como um cavalo xucro. Mas

esse é o estilo de corcel que os homens precisam

aprender a controlar para que o voo se torne um

esporte cotidiano. O pássaro aprendeu essa arte do

equilíbrio; e aprendeu-a tão completamente que sua

habilidade não é visível aos nossos olhos. Só

aprendemos a apreciá-la quando tentamos imitá-la.

 

Isto é, quando tentamos fazer um cavalo voar.

Esses foram os primeiros passos mentais dos Wright.

Problema: Equilibrar um avião xucro. Solução: Imitar os

pássaros planando.

O problema seguinte era como reproduzir, em termos

mecânicos, o equilíbrio de um pássaro. A primeira solução

deles exigia hastes de metal e engrenagens. Isso causou

outro problema: era pesado demais para voar. Wilbur

descobriu a solução em sua oficina de bicicletas enquanto

brincava com uma caixa de tubos – algo mais ou menos do

mesmo tamanho e forma de uma caixa de rolo de papel-

alumínio. Quando Wilbur torcia a caixa, um canto se abaixava

ligeiramente e o outro subia na mesma proporção. Era um movimento semelhante às pontas das asas de um pássaro

planando, mas usava tão pouca força que poderia ser

alcançado com cabos. As características asas duplas dos

aviões dos irmãos foram baseadas nessa caixa; eles

chamavam a torção que faziam as pontas subirem e

descerem de “deformar a asa”.

Quando meninos, os irmãos Wright adoravam fazer e

soltar pipas – “um esporte ao qual havíamos dedicado tanta

atenção que éramos considerados especialistas”. Apesar de

seu fascínio, eles pararam de praticar a atividade na

adolescência porque aquilo “não era adequado para rapazes

da nossa idade”. E, no entanto, 20 anos mais tarde, Wilbur se

pegou andando de bicicleta por toda Dayton, em alta

velocidade, com uma pipa de um metro e meio atravessada

no guidom. Ele estava correndo para mostrá-la a Orville. Os

irmãos tinham concluído seu segundo passo.

O grande salto inventivo dos irmãos Wright não foi um

grande salto mental. Apesar do resultado extraordinário, a

história deles é uma enorme sequência de pequenos passos.

Por exemplo, eles passaram dois anos tentando fazer a

pipa de Wilbur suficientemente grande para carregar um

piloto, até descobrirem que os dados de aerodinâmica que

usavam eram inúteis.

“Começamos com fé absoluta nos dados científicos

existentes”, escreveram, “mas fomos levados a duvidar de

uma coisa depois da outra, até que, após dois anos de

experimentos, pusemos tudo de lado e decidimos nos basear

apenas em nossas investigações.”

Os Wrights tinham começado a experimentar o voo como

um passatempo, sem muito interesse pelo “lado científico”.

Mas eram engenhosos e se intrigavam com facilidade.

Quando perceberam que todos os dados publicados estavam

errados – “eram pouco mais do que suposições” –,

descobriram também o conhecimento necessário para projetar

asas capazes de voar. Em 1901 construíram uma plataforma

de teste, montada numa bicicleta para simular os aviões em

voo, depois um túnel de vento, que usaram para criar os próprios dados. Muitos resultados os surpreenderam – as

descobertas eram “tão fora do padrão que estávamos quase

preparados para duvidar de nossas medições”.

Mas acabaram concluindo que as medidas de todas as

outras pessoas estavam erradas. Uma das maiores fontes de

erro era o coeficiente de Smeaton, um número desenvolvido

pelo engenheiro do século XVIII John Smeaton para

determinar a relação entre tamanho de asa e empuxo vertical.

O número de Smeaton era 0,005. Os Wrights calcularam que

o número correto, na verdade, era 0,0033. Para que um

aeroplano voasse, as asas precisavam ser muito maiores do

que qualquer pessoa havia percebido.

Wilbur e Orville usaram os mesmos dados para projetar

hélices. As hélices tinham sido projetadas para barcos, mas

jamais para um avião. Assim como os irmãos pensaram no

aeroplano como uma bicicleta voadora, pensaram nas hélices

como uma asa que girava. As lições de seu túnel de vento

lhes permitiram desenhar uma hélice quase perfeita na

primeira tentativa. As hélices modernas são apenas um

pouquinho melhores.

O avião dos Wrights é a melhor prova de que eles deram

passos, e não saltos. Seu planador de 1900 é parecido com

sua pipa de 1899. Seu planador de 1901 se parecia com o

planador de 1900, mas com alguns elementos novos. O

planador de 1902 era o planador de 1901 maior e com um

leme. O Flyer de 1903 – a aeronave que voou das areias de

Kitty Hawk – era o planador de 1902 aumentado de novo, com

hélices e um motor. Orville e Wilbur Wright não saltaram para

o céu. Andaram nele, um passo depois do outro.

 

8 | VINTE E UM PASSOS

 

Os passos mentais de Karl Duncker podem se aplicar aos

cálculos da engenharia, mas será que também descrevem a

majestade da arte? Para responder a essa pergunta voltamos

a uma Berlim de pouco antes da guerra.

Em 1o de novembro de 1913, Franz Kluxen entrou na

Galerie Der Sturm para comprar um quadro. Kluxen era um

dos principais colecionadores de arte moderna da Alemanha.

Tinha obras de Marc Chagall, August Macke, Franz Marc e

uma dúzia de Picassos. Nesse dia, outro artista atraiu seu

olhar: Wassily Kandinsky. A pintura que Kluxen comprou era

uma obra abstrata feita de formas contorcidas e linhas

penetrantes dominada por azuis, marrons, vermelhos e

verdes, chamada Bild mit weißem Rand ou Pintura com borda

branca.

Alguns meses antes de Kluxen escolher o quadro em

Berlim, Kandinsky se encontrava diante da sua tela em

branco, em Munique, segurando um pedaço de carvão. A tela

estava coberta com tinta branca feita de cinco camadas de

zinco, cal e chumbo. Kandinsky havia especificado

precisamente a tinta. Ele vetava a cal artificial feita de gipsita e

exigia a cal natural, mais cara, feita de células fossilizadas de

um milhão de anos

Kandinsky desenhou uma imagem com o carvão. Depois

misturou tintas usando até dez pigmentos para cada cor – seu

roxo, por exemplo, era feito de branco, vemelhão, preto,

verde, dois amarelos e três azuis – e pincelou-as em

camadas, da mais clara até a mais escura, sem parar nem

errar uma pincelada. O quadro tinha 2,8 metros quadrados,

mas Kandinsky terminou-o rapidamente. Essa velocidade e

essa certeza criaram uma impressão de espontaneidade. Era

como se ele tivesse acordado de manhã e corrido para

registrar um fragmento de sonho que se desfazia.

A arte é o domínio de fazer a aparência enganar.

Kandinsky passou cinco meses planejando cada pincelada

dessa pintura aparentemente espontânea e anos

desenvolvendo o método e a teoria que o levaram até ela. Ele

era um imigrante russo morando na Alemanha. Visitou sua

Moscou natal no outono de 1912, justo quando começava a

Primeira Guerra dos Bálcãs. Ao sul da Rússia, a Liga

Balcânica de Sérvia, Grécia, Bulgária e Montenegro atacava a

Turquia, na época chamada de Império Otomano. Foi uma guerra breve e sangrenta, que começou na época da viagem

de Kandinsky e acabou enquanto ele terminava a Pintura com

borda branca, em maio de 1913. Ele voltou à Alemanha com

um problema: pintar a emoção do momento, ou seja, as

“impressões extremamente poderosas que eu havia

experimentado em Moscou – ou, mais corretamente, a própria

Moscou”.

Começou pintando um esboço a óleo que chamou de

Mascau e mais tarde mudou o nome para Esboço 1 para

Pintura com borda branca. Era um denso emaranhado de

verde aveludado com toques de vermelho de cádmio e

debruado por linhas escuras. Um trio de curvas pretas

deslizava na direção do canto superior esquerdo, evocando o

trenó puxado por três cavalos chamado de troica, um tema

comum para Kandinsky e símbolo usado por outros russos,

como Nikolai Gogol, para representar a divindade de sua

nação.

O segundo esboço, pouco diferente, espalhava as linhas

até se tornarem mais manchas do que pinceladas – em suas

palavras, “dissolvendo as cores e as formas”. Mais esboços

vieram em seguida. Kandinski poliu a pintura em papel, cartão

e tela. Desenhou-a a lápis, mapeando que cores ficariam

onde, usando letras e palavras. Fez alguns estudos em

aquarela, outros com guache – uma mistura de goma e

pigmento, a meio caminho entre a aquarela e o óleo – e

nanquim. Usou crayon. Fez vinte esboços, cada qual tendo no

máximo um ou dois passos de diferença do anterior. O

processo demorou cinco meses. A 21 a pintura – a obra

terminada – é muito semelhante à primeira. Pintura com borda

branca é o velho amigo que você encontra depois de alguns

anos. O Esboço 1 é a aparência antiga do amigo. Mas

enormes diferenças se escondem sob a superfície de cada

peça. Elas contam a verdadeira história da criação artística.

O fundo verde do Esboço 1 é uma mistura de sete cores:

verde, marrom-avermelhado, ocre, preto, amarelo, azul e

branco. No centro da pintura, Kandinsky aplicou primeiro um

amarelo feito de cinco cores: amarelo de cádmio, amarelo ocre, vermelho ocre, amarelo laca e branco giz. Então,

quando o amarelo estava seco, pintou por cima com verde.

Esses passos não eram artísticos: a tela em Esboço 1 já havia

sido usada e Kandinsky precisava cobrir uma pintura

existente. Fez um trabalho tão bom que só quase cem anos

depois, após o advento das imagens por infravermelho, uma

equipe de curadores trabalhando para o Museu Guggenheim

de Nova York, dono da Pintura com borda branca, e para a

Phillips Collection de Washington, D. C., dona do Esboço 1,

descobriu que havia uma pintura por baixo da pintura.

Assim que preparou a tela, Kandinsky continuou com o

Esboço 1, colocando camadas de cor que iam do escuro para

o claro, rearrumando e repintando o quadro muitas vezes

enquanto trabalhava. Isso é parcialmente visível a partir de

uma inspeção detalhada de suas pinceladas e foi totalmente

exposto por raios X, que despem a pintura camada por

camada. Imagens de raios X do Esboço 1 mostram um borrão:

Kandinsky retrabalhou a imagem tantas vezes que somente

uns poucos elementos da obra terminada podem ser vistos.

Ele pintou por cima de quase tudo que havia na tela, em

surtos de repetição que duraram até resolver seu primeiro

problema, que era como capturar “as impressões

extremamente poderosas que eu havia experimentado em

Moscou”.

Quando o Esboço 1 ficou pronto, Kandinsky identificou os

problemas que restavam um de cada vez. Ele girou a imagem

de retrato (vertical) para paisagem (horizontal), suavizou as

cores e mudou o fundo de verde-escuro para um branco

luminoso. Um esboço mostra vinte variações da troica,

enquanto Kandinsky afinava as curvas como as cordas de um

violoncelo. E então veio a borda branca que dá nome ao

quadro:

 

Fiz um progresso lento com a borda branca. Meus

esboços ajudaram pouco. As formas individuais

ficaram claras dentro de mim e, no entanto, eu ainda

não conseguia me obrigar a pintar o quadro. Ele me

atormentava. Após várias semanas, pegava os

esboços outra vez e ainda me sentia despreparado.

Apenas com o correr dos anos aprendi a exercer a

paciência nesses momentos e não arrebentar o

quadro sobre o joelho.

 

Assim, somente quase cinco meses depois, eu

estava sentado ao crepúsculo olhando o segundo

estudo em grande escala quando, de repente,

percebi o que faltava – a borda branca. Como essa

borda branca acabou sendo a solução para a pintura,

dei o nome do quadro a ela.

 

Com esse último problema solucionado, Kandinksy

encomendou a tela. Quando tocou-a pela primeira vez com

seu carvão, sabia exatamente o que iria fazer. Enquanto as

investigações com raios X no Esboço 1 revelam um borrão de

trabalho e retrabalho, na Pintura com borda branca mostram

apenas a própria pintura. É por isso que sabemos que ele não

hesitou. Depois de cinco meses e vinte passos, Kandinsky

estava preparado para realizá-la.

Os vinte passos são apenas parte da história. A jornada

de Kandinsky não começou com o Esboço 1 nem terminou

com Pintura com borda branca. Suas primeiras obras, feitas

em 1904, eram paisagens coloridas e realísticas. As últimas,

de 1944, eram abstrações atonais, geométricas. Suas

primeiras e últimas pinturas parecem totalmente diferentes,

mas tudo que Kandinsky pintou nos anos intermediários era

um pequeno passo na estrada que as une. Pintura com borda

branca marca um ligeiro movimento em direção a imagens

mais abstratas e faz parte da transição do artista da escuridão

para a luz. Mesmo numa vida inteira de arte, a criação é um

continuum.

Como demonstrou Karl Duncker, toda criação, seja uma

pintura, o avião ou o telefone, tem a mesma base: passos graduais em que um problema leva a uma solução que leva a

outro problema. Criar é o resultado de pensar. Do mesmo

modo como andamos. Pé esquerdo, problema. Pé direito,

solução. Repita até chegar. Não é o tamanho dos passos que

determina o sucesso, e sim quantos passos você dá.