A Hora do Lobisomem

Stephen King · Capítulo 8 de 12

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A Hora do Lobisomem

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- Claro, eu penso que é um lobisomem - diz o comissário Neary. Ele fala muito alto -talvez acidentalmente, mais acidentalmente do que pretende - e toda a conversa na barbearia de Stan se extingue. Agosto já vai pela metade, o agosto mais quente que alguém pode lembrarem Tarker s Mills em anos, e esta noite a lua estará cheia pelo segundo dia. Então a cidade prende a respiração, esperando.

O comissário Neary dá uma olhada na audiência e prossegue de seu lugar, a cadeira do meio de Stan Pelky, falando consistentemente, falando judicialmente, falando psicologicamente, do fundo de sua educação de segundo grau (Neary é um sujeito grande e musculoso e na escola ele mais fez pontos para os Tigres de Tarker's Mills do que outra coisa; seus trabalhos escolares lhe deram alguns conceitos C e não poucos D).

- Há caras que são como duas pessoas - ele lhes diz. - Uma espécie de dupla personalidade. Eles são o que eu chamo de esquizofrênicos de merda.

Ele faz uma pausa para apreciar o respeitoso silêncio que saúda sua declaração e continua:

- Esse cara, eu acho que ele é assim. Acho que ele não sabe o que está fazendo quando a lua está cheia e ele sai para matar alguém. Ele pode ser qualquer um - um caixa do banco, um frentista de um daqueles postos de gasolina lá da estrada municipal, talvez alguém que esteja aqui neste momento. Quanto a ser um animal por dentro e parecer perfeitamente normal por fora, sim, podem apostar que é isso. Mas se vocês querem saber se eu acho que é um cara que tem pêlos e uiva para a lua... não. Isso é conversa de garotos.

- E sobre o garoto dos Coslaw, Neary? - Stan pergunta, continuando o trabalho cuidadosamente na parte mais carnuda do pescoço de Neary. Sua longa e afiada tesoura fazendo clic... clic... clic.

- Apenas prova o que eu disse - responde Neary um tanto exasperado. - Conversa de garotos.

Na verdade, ele se sente exasperado por causa do que aconteceu com Marty Coslaw. Ali, naquele garoto, está a primeira testemunha ocular do pervertido que matou seis pessoas em sua cidade, incluindo o grande amigo de Neary, Alfie Knopfler. E deixaram que ele interrogasse o garoto? Não. Ele ao menos sabe onde está o garoto? Não. Ele tem que se virar com uma cópia de depoimento que a Policia Estadual lhe forneceu e tem que se curvar e quase implorar para conseguir isso. Tudo porque ele é um policial de cidade pequena e a Policia Estadual pensa nele como um policial mirim, incapaz de amarrar seus próprios sapatos. Tudo porque ele não usa um daqueles fodidos chapéus de guarda florestal. E o depoimento! Ele podia muito bem usá-lo para limpar a bunda. Conforme o garoto dos Coslaw, a "besta" media uns dois metros e dez centímetros, estava despida e coberta de pêlos escuros por todo o corpo. Tinha grandes dentes e olhos verdes e fedia como um monte de merda de pantera. Tinha patas, mas as patas pareciam mãos. Ele achava que tinha um rabo. Um rabo, Jesus Cristo.

- Talvez - diz Kenny Franklin sentado em uma das cadeiras enfileiradas junto à parede -,talvez seja alguma espécie de disfarce que esse camarada coloque. Como uma máscara ou coisa assim, vocês sabem.

- Eu não acredito nisto - diz Neary enfaticamente, sacudindo a cabeça para enfatizar sua opinião. Stan tem de afastar a tesoura apressadamente para evitar que uma das lâminas atinja aquela massa carnuda na nuca de Neary. - Não, senhor! Eu não acredito nisso! O garoto ouviu um monte dessas histórias de lobisomens na escola antes das férias - ele admitiu - e então ficou pensando naquilo... remoendo em sua cabeça. É tudo psicológico, podem ver. Porque se tivesse sido você que tivesse saído dos arbustos ao luar, ele pensaria que você era um lobo, Kenny.

Kenny ri com dificuldade.

- Não - Neary diz sombriamente. - O testemunho do garoto não serve para nada.

Em sua aversão e desapontamento pelo depoimento tomado de Marty Coslaw na casa de seus tios em Stowe, o comissário Neary tinha também dado uma olhada nesse trecho: "Quatro delas estouraram ao lado de sua face - eu acho que você chamaria aquilo de face ao mesmo tempo, e eu acho que arrancaram seu olho. Seu olho esquerdo".

Se o comissário Neary tivesse prestado mais atenção nesse detalhe - e ele não tinha -teria rido mais contidamente, pois, naquele quente e inanimado agosto de 1984, havia apenas uma pessoa na cidade usando um tapa-olho, e era simplesmente impossível pensar naquela pessoa, entre todas as outras, como sendo o assassino. Neary acreditaria que sua mãe era o assassino antes deter acreditado nisto.

- Somente uma coisa pode resolver este caso diz o comissário Neary, apontando seu dedo para os quatro ou cinco homens sentados em cadeiras encostadas à parede, esperando para o corte de cabelo do sábado de manhã - e é um bom trabalho policial. E eu pretendo ser o cara que vai fazê-lo. Aqueles estaduais de chapelão vão rir amarelo quando eu prender o sujeito. - O rosto de Neary fica sonhador. - Qualquer um - ele diz. Um caixa do banco... um bombeiro... algum sujeito com quem você bebe no bar. Mas um bom trabalho policial vai resolver. Guardem minhas palavras.

Mas o bom trabalho policial do comissário Neary chega ao fim naquela noite quando um braço peludo, prateado pela lua, entra pela janela aberta de sua pickup Dodge enquanto ele está estacionado no cruzamento de duas estradinhas a oeste de Tarker's Mills. Há um grunhido em tom grave, bufante, e um odor selvagem, horripilante - como aquele cheiro que a gente percebe na jaula dos leões, no zoológico.

Seu rosto é puxado para o lado e ele se depara com um olho verde. Vê a pelugem, o negro e sombrio focinho. E quando o focinho é arreganhado, ele vê os dentes. A besta mete a pata como se brincasse e uma das bochechas é arrancada em um golpe, deixando à mostra os dentes do lado direito. O sangue espirra por toda parte. Ele pode senti-lo correndo pelo ombro da camisa, morno. Ele grita, ele grita sem boca e sem bochecha. Sobre o ombro poderoso da besta ele pode ver a lua, inundando tudo com uma luz branca.

Ele esquece tudo sobre seu rifle e o 45 no seu cinturão. Esquece tudo sobre como esta porra de coisa é psicológica. Esquece tudo sobre bom trabalho policial. Sua mente se fixa em algo que Kenny Franklin disse na barbearia naquela manhã. Talvez seja alguma espécie de disfarce que esse camarada coloque. Como uma máscara ou algo assim, vocês sabem.

E assim, enquanto o lobisomem procura pela garganta de Neary, Neary procura seu rosto, as duas mãos grudam no pêlo áspero e puxam, esperando desesperadamente que a máscara escorregue e caia - haverá o estalo de um elástico arrebentado, o som da rasgadura do látex, e ele verá o assassino.

Mas nada acontece - nada exceto o rugido de dor e raiva da besta. Ela o atinge com as garras da mão sim, ele pode ver que é uma mão, mesmo cuidadosamente disfarçada, uma mão, o garoto estava certo - e escancara sua garganta. O sangue se espalha em jatos sobre o pára-brisa e o painel da camioneta; respinga para dentro da garrafa de cerveja entre as pernas do comissário Neary.

A outra mão do lobisomem se atraca no recente corte de cabelo de Neary e puxa metade do seu corpo para fora da cabine da pick-up. A besta uiva em triunfo e então enterra seu focinho no pescoço de Neary. Se alimenta enquanto a cerveja verte da garrafa virada e borbulha pelo chão entre os pedais da camioneta.

É demais para a psicologia.

É demais para um bom trabalho policial.