A Hora do Lobisomem

Stephen King · Capítulo 10 de 12

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A Hora do Lobisomem

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Quando Marty Coslaw volta para casa depois dos festejos do Dia das Bruxas com as baterias de sua cadeira de rodas totalmente gastas, vai direto para a cama, onde rola desperto até que uma meia luz ascenda num céu fio inundado de estrelas que brilham como cacos de diamantes. Lá fora, na varanda onde sua vida foi salva pelos fogos do Quatro de julho, um vento arrepiante sopra as folhas escuras num redemoinho, um saca-rolhas sem alvo sobre as lajes. Elas chacoalham como velhos ossos. A lua cheia de outubro veio e se foi de Tarker's Mills sem nenhum novo assassinato, o segundo mês seguido que isso acontece. Alguns moradores Stan Pelky, o barbeiro, é um, e Cal Blodwin, dono da concessionária Chevrolet, única loja de carros da cidade, é outro -acreditam que o terror acabou; o assassino era um sem-rumo, um vagabundo vivendo nos bosques, e agora se foi, como eles disseram que ele faria. Outros, no entanto, não têm tanta certeza. São aqueles que sabem sobre os quatro veados encontrados aos pedaços próximo ao trevo um dia após a lua cheia de outubro, e sobre os onze porcos de Elmer Zinneman, mortos na lua cheia de setembro. A discussão recrudesce entre cervejas no The Pub durante as longas noites do outono.

Mas Marty Coslaw sabe.

Esta noite ele saiu para as travessuras ou gostosuras com seu pai (seu pai gosta do Dia das Bruxas, gosta do frio áspero, gosta de rir sua barulhenta risada de "amigão" e bramir coisas idiotas como "Ei, ei!" e 'Trrrimmm!" quando as portas se abrem e os rostos familiares de Tarker's Mills espiam para fora). Marty foi de Yoda, uma grande máscara de borracha enfiada na cabeça e um volumoso robe com o qual cobria suas pernas aleijadas. "Você sempre consegue tudo o que quer", Kade diz com uma virada de cabeça quando vê a máscara... mas ele sabe que ela não está realmente zangada (e, como para provar isso, ela lhe faz um artístico bastão curvado igual ao de Yoda para completar o disfarce), mas talvez triste porque agora ela é considerada muito velha para participar das brincadeiras. Em vez disso, ela irá a uma festa com seus colegas de escola. Dançará músicas de Donna Summer, mordiscará maçãs penduradas e, mais tarde, as luzes serão diminuídas para um jogo de girar a garrafa e ela provavelmente beijará algum garoto, não porque queira, mas porque será divertido troçar a respeito com suas amiguinhas de sala de aula no dia seguinte.

O pai de Marty o leva no furgão porque o furgão tem uma rampa escamoteável pela qual ele sobe e desce Marty. Marty rola rampa abaixo e então zune pelas ruas para cima e para baixo com sua cadeira. Carrega o saco no colo e eles vão a todas as casas na sua rua e a algumas no centro da cidade: os Collins, os MacInnes, os Manchesters, os Millikens, os Eastons. Há uma travessa cheia de cereais doces no The Pub. Chocolates na paroquia da Igreja Congregacional e mais doces na paróquia batista. Então, em frente, para os Randolphs, os Quinns, e uma dúzia, duas dúzias mais. Marty volta para casa com o saco de doces estourando... e uma ponta de pavor, um conhecimento quase inacreditável.

Ele sabe.

Ele sabe quem é o lobisomem.

A certa altura da peregrinação de Marty, a própria Besta, então segura entre as luas da insanidade, jogou chocolate em seu saco, sem saber que a face de Marty ficou mortalmente pálida sob sua máscara de Yoda, ou que, debaixo das luvas, seus dedos estão agarrando o bastão de Yoda com tanta força que a parte de baixo das unhas está branca. O lobisomem sorri para Marty, e afaga sua cabeça de borracha.

Mas é o lobisomem. Marty sabe, e não apenas porque o homem está usando um tapa-olho. Há algo mais - alguma semelhança vital entre o rosto humano deste homem e a cara rosnante do animal que ele viu naquela noite de verão prateada quase quatro meses atrás.

Desde que voltara de Vermont para Tarker's Mills um dia depois do Dia do Trabalho, Marty tem se mantido atento, certo de que verá o lobisomem cedo ou tarde, e certo de que o reconhecerá quando o vir porque o lobisomem será um homem caolho. Entretanto, os policiais sacudiram a cabeça e disseram que eles iriam checar, quando ele lhes disse que tinha quase certeza de ter arrancado um dos olhos do lobisomem. Marty podia dizer que eles realmente não acreditaram nele. Talvez fosse porque ele é apenas um garoto, ou talvez porque eles não estavam lá naquela noite de julho quando a confrontação se deu. De qualquer forma, não importa. Ele sabia que seria assim.

Tarker's Mills é uma cidade pequena, mas espalhada, e até esta noite Marty não tinha visto nenhum caolho e nem tinha ousado fazer perguntas; sua mãe já está bastante preocupada que o episódio de julho pudesse tê-lo marcado para sempre. Ele teme que se tentar qualquer investigação por conta própria ela eventualmente acabará sabendo. Além disso - Tarker's Mills é uma cidade pequena. Cedo ou tarde ele verá a Besta com seu rosto humano.

Voltando para casa, o sr. Coslaw (preceptor Coslaw, para suas centenas de alunos, antigos e atuais) pensa que Marty está tão quieto porque a noite e as andanças o deixaram cansado. Na verdade, não é isso. Marty nunca - a não ser na noite do maravilhoso saco de fogos - se sentiu tão desperto e vivo. E seu principal pensamento é este: foram precisos quase sessenta dias depois de voltar para casa até descobrir a identidade do lobisomem porque ele, Marty, é um católico e freqüenta a igreja de Santa Maria nos limites da cidade.

O homem com o tapa-olho, o homem que colocou uma barra de chocolate em seu saco e então sorriu e afagou sua cabeça de borracha, não é um católico. Longe disso. A Besta é o reverendo Lester Lowe, da Igreja Batista da Graça.

Inclinado para fora da porta, sorrindo, Marty vê o tapa-olho claramente na luz amarela da lâmpada que cruza pela porta; ele dá ao miúdo reverendo um ar quase de pirata.

- Lamento sobre seu olho, reverendo Lowe - o sr. Coslaw disse com sua estrondosa voz de "amigão". - Espero que não seja nada sério.

O reverendo Lowe dá um sorriso sofrido. Na verdade, ele disse, tinha perdido o olho. Um tumor benigno; tinha sido necessário remover o olho para se chegar ao tumor. Mas era a vontade do Senhor e ele estava se adaptando bem. Ele tinha afagado a máscara de Marty novamente e dito que conhecia alguns que tinham cruzes mais pesadas para carregar.

E agora Marty rola na cama, ouvindo o vento de outubro cantar lá fora, sacolejando as últimas folhas da estação, assobiando levemente através dos olhos escavados nas abóboras que flanqueiam o passeio dos Coslaws, observando a meia-lua atravessar o céu estrelado. A questão é: O que ele faz agora?

Ele não sabe, mas tem absoluta certeza de que, na hora, a resposta virá.

Ele dorme o profundo e sem sonhos sono dos muito jovens, enquanto, do lado de fora, o rio de vento sopra sobre Tarker's Mills, levando outubro e trazendo um gelado novembro pontuado de estrelas, um mês de outono férreo.