A Hora do Lobisomem

Stephen King · Capítulo 3 de 12

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A Hora do Lobisomem

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A última nevasca verdadeira do ano - neve pesada, úmida, tornando-se granizo enquanto o crepúsculo avança e a noite se aproxima - espalhou ramos de árvores partidas por toda Tarker's Mills e os estalidos da madeira podre ressoam como disparos. É a Mãe-Natureza enterrando suas árvores mortas, diz Milt Sturmfuller, o bibliotecário da cidade, a sua esposa na hora do café. Ele é um homem franzino de cabeça estreita e olhos de um azul-pálido, e tem mantido sua bela e silenciosa esposa numa escravidão de terror por doze anos. Poucas pessoas desconfiam da verdade - a mulher do comissário Neary, joan, é uma -, mas a cidade pode ser um poço de escuridão e ninguém mais sabe além delas. A cidade guarda seus segredos.

Milt gosta tanto da frase que a repete: Sim, a Mãe-Natureza enterrando suas árvores mortas... então as luzes se apagam e Dorna Lee Sturmfuller solta um gritinho sufocado. Ela derrama seu café também.

Limpe isso, o marido lhe diz friamente. ,impe isso... já.

Sim, querido. Certo.

No escuro, ela cata um pano de prato para limpar o café derramado e arranha a canela contra uma banqueta. Grita. No escuro, seu marido ri com vontade. Ele acha a dor de sua mulher mais divertida que qualquer coisa, com exceção, talvez, das piadas da Reader's Digest. Aquelas piadas - Piadas de Caserna, Rir é o Melhor Remédio -realmente mexem com sua veia humorística.

Assim como as árvores mortas, a Mãe-Natureza também enterrou algumas linhas de força em Tarker Brook nesta agitada noite de março; a neve cobriu os fios grossos, se acumulando até que eles se partissem e caíssem na estrada como um ninho de serpentes, se remexendo e cuspindo faíscas azuis.

Toda Tarker's Mills ficou no escuro.

Como se finalmente satisfeita, a tempestade começou a amainar e não muito depois da meia-noite a temperatura caiu de 0,5 para 9 graus negativos. A lama se solidificou em estranhas esculturas. O campo de feno do velho Hague - conhecido também como o Campo dos Quarenta Acres - se parece com vidro partido. As casas continuam no escuro; as caldeiras, frias. Nenhum funcionário da companhia de força é capaz de ultrapassar as estradas derrapantes.

As nuvens se desfazem. Uma lua cheia brinca de esconder entre as remanescentes. O gelo que cobre a rua principal refulge como os ossos de uma carcaça.

Na noite, começam os uivos.

Mais tarde, ninguém será capaz de dizer de onde eles vieram; estavam em toda parte e em nenhum lugar enquanto a lua cheia tingia as casas sombrias da cidadezinha, em toda parte e nenhum lugar enquanto o vento de março começou a uivar como o lamento de uma divindade nórdica soprando seu instrumento, perdida no vento, solitário e selvagem

Dorna Lee o escuta enquanto seu desagradável marido dorme o sono dos justos a seu lado; o comissário Neary o escuta de pé em frente à janela do quarto no seu apartamento da rua Laurel; Ollie Parker, o gordo e inexpressivo diretor da escola primária, o escuta em seu quarto; outros o escutam também. Um deles é um garoto numa cadeira de rodas.

Ninguém o vê. E ninguém sabe o nome do operário encontrado pela manhã que tinha conseguido chegar a Tarker Brook para consertar os cabos derrubados. O operário estava coberto de gelo, a cabeça jogada para trás num grito sem som, o velho casaco e a camisa por baixo dele rasgados. O operário sentava em uma poça congelada do seu próprio sangue, os olhos fixos nos fios derrubados, as mãos erguidas num gesto de defesa com gelo entre os dedos.

E tudo ao redor dele eram pegadas.

Pegadas de lobo.