A Hora do Lobisomem

Stephen King · Capítulo 2 de 12

Páginas do PDF

A Hora do Lobisomem

Janeiro

FEVEREIRO

MARÇO

ABRIL

MAIO

JUNHO

JULHO

AGOSTO

SETEMBRO

OUTUBRO

NOVEMBRO

DEZEMBRO

Amor, pensa Stella Randolph, deitada em sua estreita cama virginal, e através de sua janela penetra a luz fria e azulada de uma lua cheia do Dia dos Namorados.

Oh, amor, amor, amor, amor seria como...

Este ano Stella Randolph, que é dona de um armarinho em Tarker's Mills, recebeu vinte cartões de namorados - um de Paul Newman, um de Robert Redford, um de John Travolta... e até um de Ace Frehley, do grupo de rock Kiss. Eles estão abertos sobre a escrivaninha do outro lado do quarto, iluminados pelo luar. Ela os enviou todos para si mesma, neste como em todos os outros anos.

O amor seria como um beijo ao amanhecer... ou o último beijo, o verdadeiro, ao final das histórias românticas de Arlequim... o amor seria como rosas ao crepúsculo...

Eles riem dela em Tarker's Mills, sim, você pode apostar. Os garotinhos dizem piadas e riem escondendo os rostos com as mãos (e algumas vezes, se eles estão em segurança e o comissário Neary não está por perto, cantam canções jocosas com suas suaves e debochadas vozes de sopranos), mas ele conhece o amor e a lua. Sua loja vai mal, ela está gorda demais, mas, agora, nessa noite de sonhos, com a lua de uma tristeza amarga que escorre pelas vidraças frisadas de gelo, parece-lhe que o amor é ainda uma possibilidade, o amor e o cheiro do verão, porque ele se aproxima...

O amor seria como o toque áspero do rosto de um homem, que roça e arranha...

E, subitamente, uma arranhadela na vidraça.

Ela se apóia nos cotovelos, as cobertas escorregando de seu grande busto. O luar foi encoberto por uma silhueta escura - amorfa mas claramente masculina, e ela pensa: Eu estou sonhando... e em meus sonhos eu o deixarei vir... em meus sonhos eu deixarei a mim mesma vir. Eles usam a palavra "sujeira", mas a palavra correta é "limpo ", a palavra é "certo "; o amor seria como uma vinda.

Ela levanta, convencida de que é um sonho, pois há um homem curvado lá fora, um homem que ela conhece, um homem que ela encontra na rua quase todos os dias. É...

(O amor, o amor está chegando, o amor veio)

Mas quando seus dedos gorduchos se apóiam na moldura gelada da janela, ela nota que não é um homem; é um animal, um imenso e peludo lobo, suas patas dianteiras na beirada exterior da janela, as patas traseiras enterradas até as ancas na neve que recobre o lado oeste da casa, nos limites da cidade.

Mas é Dia dos Namorados e haverá amor, ela pensa; seus olhos a enganaram mesmo em seu sonho. E um homem, aquele homem, e ele está tão pecaminosamente disponível.

(ausência de pecado, sim, o amor seria como a ausência de pecado)

e ele chegou nessa noite enluarada e irá possuí-la. Ele irá...

Ela escancara a janela e é o golpe de ar gelado ondulando sua camisola azul que lhe diz que isto não é nenhum sonho. O homem se foi e, atônita, ela percebe que ele nunca esteve ali. Ela encolhe os ombros, recuando, e o lobo salta livremente para dentro do quarto e se sacode, espalhando uma onírica nuvem de neve como açúcar na escuridão.

Mas, o amor. O amor é como... é como... como um grito...

Tarde demais ela lembra de Arnie Westrum, despedaçado na cabana da ferrovia a oeste da cidade, apenas um mês atrás. Tarde demais...

O lobo avança em sua direção, os olhos amarelos faiscando com fria luxúria. Stella Randolph recua para sua estreita cama virginal, caindo sobre ela.

O luar divide a pelugem da besta em listras prateadas.

Sobre a escrivaninha, os cartões do Dia dos Namorados se agitam momentaneamente com a brisa que sopra da janela aberta; um deles cai e ziguezagueia preguiçosamente até o chão, cortando o arem grandes arcos silenciosos.

O lobo põe suas patas sobre a cama, uma de cada lado de seu rosto, e ela pode sentir sua respiração... quente, mas, mesmo assim, não desagradável. Seus olhos amarelos se fixam nela.

"Amado", ela sussurra, e fecha os olhos.

Ele cai sobre ela.

O amor é como morrer.