A Hora do Lobisomem

Stephen King · Capítulo 1 de 12

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A Hora do Lobisomem

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Em algum lugar, lá no alto, a lua brilha, gorda e cheia - mas, aqui, em Tarker's Mills, uma nevasca de janeiro entulhou o céu de neve. O vento sopra forte pela avenida Central deserta; as patrolas alaranjadas da cidade há muito se renderam.

Arnie Westrum, sinalizador ferroviário da GS&WM Railroad, foi apanhado na pequena cabana de ferramentas e sinais a nove milhas da cidade; com seu vagonete movido a gasolina bloqueado pela enxurrada, ele espera a tempestade passar jogando paciência com um maço de cartas sebosas. Lá fora, o vento se transforma num lamento contínuo. Westrum ergue a cabeça com desconforto e então volta a olhar para seu jogo. É apenas o vento, afinal de contas...

Mas o vento não arranha portas... tentando entrar.

Ele se levanta; é um homem alto e desengonçado metido numa jaqueta de lã e com o uniforme da ferrovia, um cigarro Camel pendurado num canto da boca, seu enrugado rosto da Nova Inglaterra iluminado por tons alaranjados da lanterna de querosene pendurada na parede.

As arranhadelas recomeçam. O cachorro de alguém, ele pensa, perdido e procurando abrigo. Isso é tudo... mas permanece imóvel. Seria desumano deixá-lo lá fora no frio, ele pensa (não que seja muito mais quente ali dentro; contra o aquecedor a bateria ele pode ver a nuvem fria criada por sua respiração) - mas ainda hesita. O dedo gelado do medo espeta-o abaixo do coração. Tem sido uma época ruim em Tarker's Mills; a região está repleta de presságios. Arnie tem o sangue forte dos Welsh em suas veias e não gosta dessas coisas.

Antes que ele possa decidir o que fazer com relação ao visitante, o incipiente lamento se transforma em urro. Há um ruído forte, como se algo incrivelmente pesado atingisse a porta... recuasse... e atacasse novamente. A porta trepida em seu umbral e um punhado de neve cai do alto.

Arnie Westrum olha ao redor procurando algo para reforçar a porta, mas, antes mesmo que ele se aproxime da cadeira frágil onde estava sentado, o ser uivante ataca a porta outra vez com uma força inacreditável, rachando-a de cima a baixo.

Pára por um longo momento, arqueado numa linha vertical, e, penetrando na cabana, chutando e bufando, seu focinho retorcido num grunhido, seus olhos amarelos faiscantes, é o maior lobo que Arnie já viu...

E seus grunhidos soam terrivelmente semelhantes a palavras humanas.

A porta racha, ringe, cede. Num instante o ser estará ali dentro.

No canto, entre as ferramentas, há uma picareta encostada à parede. Arnie se apressa em apanhá-la enquanto o lobo abre caminho e se agacha, os olhos amarelos faiscando na direção do homem encurralado. Suas orelhas estão eriçadas, como triângulos peludos. Sua língua drapeja. Atrás dele, a neve chicoteia através da porta rachada ao meio.

Com um grunhido ele se lança, Arnie Westrum levanta a picareta.

Uma única vez.

Lá fora, através da porta arrombada, a lâmpada fraca brilha imperfeita sobre a neve.

O vento ronca e uiva.

Os gritos começam.

Algo inumano chegou a Tarker's Mills, tão sorrateiro quanto a lua cheia no céu noturno, lá no alto. É o lobisomem, e não há nenhuma razão a mais para sua chegada do que haveria para o surgimento do câncer ou de um psicótico com crimes em mente, ou um furacão assassino. Seu tempo é agora, seu lugar é aqui, nesta pequena cidade do Maine onde as ceias de feijão cozido na igreja são um evento semanal, onde garotinhos e garotinhas ainda levam maçãs para suas professoras, onde os passeios ecológicos do Clube dos Cidadãos são religiosamente noticiados no jornal semanal. Na próxima semana haverá notícias de uma variedade mais sombria.

Lá fora, suas pegadas começam a ser cobertas pela neve e o gemido do vento tem algo de selvagem e prazeroso. Não há nada de Deus ou Luz naquele som desalmado - é tudo inverno negro e gelo sombrio.

O ciclo do lobisomem começou.