A Magia de Holy Wood
Ela Se Virou e o Encarou.
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
— Olha, agora não e o m om ento para com eçar a agir com o...
Um a m ão pesada pousou sobre o om bro de Victor. Ele se virou e viu o contorno de Detritus eclipsando o m undo.
— O seu Dibbler não quer ninguém fugindo. Todo m undo tem que ficar aqui até quando o seu Dibbler m andar.
— Você e um pé no saco m esm o, sabia? — disse Victor. Detritus deu um grande sorriso para ele, cravej ado de pedras preciosas. (Os dentes dos trolls são feitos de diamantes.)
— O seu Dibbler disse que eu posso ser um vice-presidente — Ele disse com orgulho.
— Encarregado de quê? — perguntou Victor.
— Dos vice-presidentes — respondeu Detritus.
Gaspode, o Cão Maravilha fez um leve som de rosnado no fundo da garganta. O cam elo, que ficara ociosam ente olhando para o céu, se aproxim ou em silêncio e, de repente, deu um coice que acertou o troll na lom bar. Detritus uivou. Gaspode deu ao m undo um olhar de satisfação inocente.
— Vam os lá — disse Victor num tom rígido. — Enquanto ele procura algum a coisa pra j ogar no cam elo.
Eles se sentaram na som bra atrás da tenda.
— Só quero que você saiba — com eçou Ginger friam ente — que nunca na m inha vida tentei parecer lânguida.
— Poderia valer a pena tentar — disse Victor distraidam ente.
— O quê? — Desculpe. Olha, algo nos fez agir daquele j eito. Eu não sei usar um a espada. Eu sem pre m exia ela só de um lado pro outro. Com o você se sentiu? — Sabe com o você se sente quando ouve alguém dizer algo e percebe que estava sonhando acordado? — Era com o se a m inha própria vida ficasse distante e algum a outra coisa preenchesse o seu espaço.
Eles refletiram sobre isso em silêncio.
— Você acha que isso tem algo a ver com Holy Wood? — Ela perguntou. Victor concordou com a cabeça. Depois, se j ogou de lado e caiu em cim a de Gaspode, que ouvia tudo com atenção.
— Caim — disse Gaspode.
— Agora ouça — Victor sussurrou na sua orelha. — Chega de ficar falando indiretam ente. O que foi que você notou em nós? Se não responder, vai pro Detritus. Com m ostarda.
O cachorro se contorceu entre as m ãos dele.
— Ou poderíam os fazer você usar um a focinheira — sugeriu Ginger.
— Eu num sou perigoso! — reclam ou Gaspode, raspando as patas na areia.
— Um cachorro falante parece bastante perigoso pra m im —observou Victor.
— Terrivelm ente — concordou Ginger. — Você nunca sabe o que ele pode dizer.
— Tá vendo? Tá vendo? — disse Gaspode, pesaroso. — Sabia que só ia dar problem a m ostrar que consigo falar. Isso não deveria acontecer com um cachorro.
— Mas vai — insistiu Victor.
— Ah, tá bom . Tá bom . Se é que vai adiantar algum a coisa — m urm urou Gaspode.
Victor relaxou. O cachorro ficou em pé e sacudiu a poeira do corpo.
— Vocês não vão entender m esm o — resm ungou. — Outro cachorro entenderia, m as vocês não. É um a questão de experiência da espécie, sabe. É com o o beij o. Vocês sabem com o é, m as eu não. Não é um a experiência canina. — Ele notou a expressão de advertência no rosto de Victor e se apressou. — é o j eito que cês ficam , com o se seu lugar fosse aqui. — Ele os observou por um m om ento. — Tá vendo? Tá vendo? Eu falei que cês num iam entender. E... é território, entendem ? Vocês têm todos os sinais de estar exatam ente onde deveriam estar. Quase todo m undo aqui é de fora, m enos vocês. EÉ... Tipo, cês j á devem ter notado com o os cachorros latem pra você quando cê é novo num lugar. Não é só olfato, a gente tem um senso de deslocam ento incrível. Tipo... não tem hum ano que se sente desconfortável quando vê um quadro pendurado torto? É tipo isso, só que pior. É com o se o único lugar em que cê deveria estar agora fosse aqui. — Ele olhou para eles m ais um a vez e, em seguida, cocou a orelha com penetradam ente.
— Que diabo! O problem a é que eu consigo explicar em língua de cachorro, m as cês só entendem a língua dos hum anos.
— Pra m im , isso soa m eio m ístico — disse Ginger.
— Você disse algum a coisa em relação ao m eu olhar — lem brou Victor.
— É, pois é. Cê j á viu o seu olhar? — Gaspode balançou a cabeça afirm ativam ente para Ginger. — O seu tam bém , m oça.
— Não sej a idiota — reclam ou Victor. — Com o é que podem os ver o nosso próprio olhar? Gaspode encolheu os om bros.
— Cês poderiam olhar um prós olhos do outro — sugeriu. Eles autom aticam ente se viraram e encararam um ao outro.
Houve um m om ento m uito prolongado. Gaspode o utilizou para urinar ruidosam ente sobre um a estaca da tenda. Finalm ente Victor disse: — Uau! Ginger disse: — O m eu tam bém ? — Sim .
Dói? — Você deveria saber.
— Aí está, então — disse Gaspode. — E olhem para o Dibbler na próxim a vez que o virem . Quero dizer, olhem m esm o.
Victor esfregou os olhos, que com eçavam a lacrim ej ar.
— Era com o se Holy Wood tivesse nos cham ado aqui, feito algum a coisa conosco agora e tivesse, tivesse...
— ... nos m arcado — com pletou Ginger num tom am argo.
— Foi isso o que ela fez.
— Fica... é... fica bastante atraente, na verdade — observou Victor num tom gentil. — Dá um a espécie de brilho.
Um a som bra surgiu sobre a areia.
— Ah, aqui estão vocês — disse Dibbler. Ele pôs o braço sobre o om bro deles quando se levantaram e deu um a espécie de abraço. — Vocês, j ovens, sem pre saindo de perto para ficar j untos — observou num tom m alicioso. — Grande lance. Grande lance. Muito rom ântico. Mas tem os um clique a fazer, e estou com um m onte de gente esperando por vocês. Então vam os lá.
— Entenderam o que eu quis dizer? — m urm urou Gaspode calm am ente. Quando você sabe o que está procurando, não dá para não encontrar. No centro de cada olho de Dibbler havia um a estrelinha dourada. Na região central do grande e obscuro continente de Klatch, o ar estava pesado e im pregnado da prom essa da próxim a m onção.
Sapos-bois coaxavam entre os j uncos (Mas foram cortados na edição final da produção.) perto do rio lento e m arrom . Crocodilos cochilavam no terreno alagadiço.
A natureza prendia a respiração.
Um gem ido irrom peu no pom bal de Azhural Nchoate, criador de anim ais. Ele despertou do cochilo na varanda e foi até lá para descobrir o que causara a agitação. Nos am plos currais atrás da choupana, alguns anim ais silvestres m altratados — m ais baratos para vender m ais depressa —, bocej ando e rum inando no calor, olharam assustados quando N'choate pulou os degraus da varanda num único salto e correu em direção a eles.
Ele contornou o cercado das zebras e viu seu assistente M'Bu, que lim pava calm am ente o estábulo dos avestruzes.
— Quantos... — Ele parou e com eçou a ofegar.
M'Bu, que tinha 12 anos, largou a pá e deu um tapa forte nas costas dele.
— Quantos... — tentou m ais um a vez.
— Tá exagerando de novo, chefe? — perguntou M'Bu com um a voz preocupada.
— Quantos elefantes nós tem os? — Acabei de vir de lá. Tem os três.
— Tem certeza? — Sim , chefe — respondeu M'Bu calm am ente. — E fácil ter certeza com elefantes.
Azhural se agachou na poeira verm elha e com eçou a rabiscar apressadam ente alguns núm eros com um graveto.
— O velho Muluccai deve ter m eia dúzia — m urm urou. — E Tazikel geralm ente tem uns 20 ou m ais. E tem o pessoal do delta, que geralm ente tem uns...
— Alguém tá precisando de elefantes, chefe? — ... tem 15 cabeças, ele m e contou. E tam bém tem um m onte no serviço de corte e transporte de árvores, que provavelm ente vai ficar barato, digam os duas dúzias...
— Alguém tá precisando de m uitos elefantes, chefe?— ... Estava dizendo que tem um a m anada lá prós lados de Tetse, não deve ser problem a. Depois tem todos os vales na direção de... M'Bu se debruçou na cerca e esperou.
— Talvez 200, no m áxim o dez a m ais ou a m enos que isso — disse Azhural, j ogando o graveto no chão. — Nem chega perto.
— Não dá pra aproxim ar dez elefantes, chefe — com entou M'Bu com firm eza. Ele sabia que contar elefantes era um trabalho de precisão. Um hom em poderia não ter certeza de quantas esposas possuía, m as nunca em relação a elefantes. Ou você tinha ou você não tinha.
— Nosso agente em Klatch tem um pedido de — Azhural engoliu seco — m il elefantes. Mil! Im ediatam ente! Pagam ento no ato da entrega. Azhural deixou o papel cair no chão.
— Para um lugar cham ado Ankh-Morpork — disse, desanim ado. Ele suspirou. — Teria sido bom .
M'Bu cocou a cabeça e olhou fixam ente para as nuvens em form ato de cabeça de m artelo que se am ontoavam sobre o m onte FWangi. A estepe seca logo estrem eceria ao som do trovão das chuvas.
Ele se abaixou e pegou o graveto.
— O que você está fazendo? — perguntou Azhural.
— Desenhando um m apa, chefe.
Azhural balançou a cabeça.
— Não adianta, garoto. São m ais de 4 m il quilôm etros até Ankh, acho. Eu m e em polgo, às vezes. Muitos quilôm etros, sem elefantes suficientes.
— Poderíam os atravessar a cam pina, chefe — sugeriu M'Bu. — Tem m uitos elefantes nas cam pinas. Manda os m ensageiros na frente. Poderíam os conseguir m uito m ais elefantes no cam inho, sem problem as. Aquela cam pina e quase toda coberta de m alditos elefantes.
— Não, nós teríam os que dar a volta pela costa — disse o criador, desenhando um a linha longa e curva na areia — porque existe um a floresta bem aqui — Ele bateu no solo ressecado — E aqui — bateu novam ente, fazendo sacudir de leve um broto de árvore que com eçava a se desenvolver e havia confundido, por otim ism o, a prim eira batida com o início das chuvas. — Não tem estrada na floresta. M'Bu pegou o graveto e desenhou um a linha reta atravessando a floresta.
— No cam inho por onde m il elefantes querem ir, chefe, não precisa de estrada nenhum a.
Azhural pensou nisso. Depois pegou o graveto e desenhou um a linha recortada ao lado da floresta.
— Mas tem as Montanhas do Sol. Muito altas. Muitos desfiladeiros profundos. E nenhum a ponte.
M'Bu pegou o graveto, m arcou a floresta e sorriu.
— Eu sei onde tem m uita m adeira de qualidade que acabou de ser arrancada, chefe.
— É? Ok, garoto, m as ainda tem os que passar pelas m ontanhas.
— Acontece que m il elefantes realm ente fortes irão nessa direção, chefe. M'Bu sorriu novam ente. Sua tribo havia com eçado a afiar as pontas dos dentes. (Não por algum motivo religioso em particular. Eles apenas gostavam bastante do efeito quando sorriam.)
Ele devolveu o graveto. Azhural abriu a boca devagar.
— Pelas sete luas de Nasreem — sussurrou. — Nós poderíam os fazer isso, sim . São apenas... ah!... 2 m il... 2 m il e cem quilôm etros por esse cam inho. Talvez m enos até. Sim . Poderíam os realm ente fazer isso.
— Sim , chefe.
— Sabe, eu sem pre quis fazer um a coisa grandiosa na m inha vida. Algum a coisa de verdade — disse Azhural. — Sabe com o e, um avestruz aqui, um a girafa ali... Não e o tipo de coisa que faz as pessoas se lem brarem de você... — Ele olhou fixam ente para o horizonte roxo acinzentado. — Nós poderíam os fazer isso, não? — Claro, chefe.
— Atravessando as m ontanhas! — Claro, chefe.
Se você olhasse com bastante atenção, daria para ver que o roxo acinzentado estava coberto de branco.
— São m ontanhas bem altas — insistiu Azhural, com um a ponta de dúvida na voz.
— A ladeira que sobe tam bém desce — disse M'Bu, com o se estivesse dizendo um provérbio — é verdade. Tipo assim ... na m édia, e tudo plano. Ele olhou bem para as m ontanhas novam ente.
— Mil elefantes — m urm urou. — Você sabia, garoto, que, quando construíram o túm ulo do rei Leonid de Ephebe, usaram 100 elefantes para transportar as pedras? E 200 elefantes, segundo diz a história, foram em pregados na construção do Rhoxie, o palácio do im pério de Klatch.
Um trovão foi ouvido à distância.
— Mil elefantes — repetiu Azhural. — Mil elefantes. Pra que será que eles querem tudo isso? Victor passou o resto do dia num estado de transe.
Houve m ais galopes e lutas, e m ais reorganização do tem po. Ele ainda achava isso difícil de entender. Notou que o film e podia ser cortado e depois grudado novam ente m ais tarde, para que as coisas acontecessem na ordem certa. E algum as coisas nem precisavam acontecer. Ele viu o artista desenhar um cartaz que dizia: "No Palácio do Rei, Um a Hora Depois".
Um a hora do Tem po havia desaparecido, do nada. E claro que ele sabia que ela não havia sido rem ovida cirurgicam ente de sua vida. Era o tipo de coisa que acontecia o tem po todo nos livros. E no palco tam bém . Ele viu um grupo de artistas de rua um a vez, e a apresentação pulou com o num passe de m ágica da "Batalha em Tsort" para "A Fortaleza de ephebe, Na Mesm a Noite" sem nada alem de um a breve descida da cortina de pano de saco e m uitas colisões e palavrões abafados enquanto o cenário era trocado.
Mas isso era diferente. Dez m inutos depois de fazerem um a cena, faziam outra que acontecia um dia antes, em outro lugar, porque Dibbler havia alugado as tendas para as duas cenas e não queria pagar m ais aluguel do que o necessário. Só era preciso esquecer tudo o que não fosse o Agora, e isso era difícil quando se esperava a cada m om ento por aquela sensação de desaparecim ento gradual... Mas ela não veio. Logo após m ais um a cena de luta sem entusiasm o, Dibbler anunciou que estava tudo term inado.
— Não vam os fazer o final? — perguntou Ginger.
— Vocês fizeram hoj e de m anhã — respondeu Soll. — Ah.
Houve um burburinho quando os dem ônios foram soltos de sua caixa e se sentaram , balançando as perninhas na beira da tam pa e passando um cigarrinho de m ão em m ão. Os figurantes form aram fila para receber o pagam ento. O cam elo deu um coice no Vice-Presidente encarregado dos Cam elos. O operador de m anivelas desenrolou os enorm es rolos de film es para fora das caixas e partiu para qualquer que fosse a atividade enigm ática de corte e colagem em que o operador de m anivela se envolvia durante a m adrugada. A senhora Cosm opilite, Vice-Presidente encarregada do Guarda—Roupa, j untou todos os figurinos e saiu logo dali, provavelm ente para colocá-los de volta sobre as cam as.
Alguns hectares de terreno com vegetação atrofiada deixaram de ser as dunas onduladas do deserto do Grande Nef e voltaram a ser terreno com vegetação atrofiada. Victor sentiu que a m esm a coisa acontecia com ele. Sozinhos ou aos pares, os artífices da m agia das cenas anim adas iam em bora, rindo, brincando e com binando de se encontrar no Borgle m ais tarde. Ginger e Victor foram deixados a sós num círculo vazio e cada vez m ais am plo.
— Eu m e senti assim na prim eira vez em que o circo foi em bora — lem brou-se Ginger.
— O senhor Dibbler disse que farem os m ais um am anhã — disse Victor.
— Tenho certeza de que ele vai inventando tudo enquanto faz. Ainda assim , tem os dez dólares cada um . Menos o que devem os a Gaspode — acrescentou de form a conscienciosa. Ele deu um sorriso bobo para ela. — Anim e-se. Você está fazendo o que sem pre quis fazer.
— Não sej a bobo. Eu nem sabia que as im agens anim adas existiam até poucos m eses atrás. Aliás elas nem existiam . Eles cam inharam sem saber aonde ir, em direção à cidade.
— O que você queria ser? — Ele arriscou perguntar. Ela deu de om bros.
— Eu não sabia. Só sabia que não queria ser ordenhadora. Havia ordenhadoras em sua fam ília. Victor tentou se lem brar de algum a coisa em relação a elas.
— Sem pre m e pareceu um trabalho m uito interessante, ordenhar vacas — observou num tom vago. — Tem aquelas florzinhas, os ranúnculos, sabe. E o ar puro.
— E frio e úm ido, e quando você acaba o serviço a m aldita vaca chuta o balde e derram a tudo. Não m e venha falar sobre ordenha. Ou sobre ser pastora. Ou pastora de gansos. Eu realm ente odiava a nossa fazenda.
— Oh.
— E eles queriam que eu m e casasse com o m eu prim o quando eu tinha 15 anos.
— Isso é perm itido? — Ah, sim . Todo m undo se casa com um prim o no lugar de onde venho.
— Por quê? — Acho que elim ina a preocupação sobre o que fazer no sábado à noite.
—Ah.
— E você, não queria ser algum a coisa? — perguntou Ginger, colocando todo o desprezo de um a frase em m eras quatro letras.
— Sinceram ente não. Tudo parece interessante até a hora em que você faz. Aí você descobre que não passa de m ais um em prego. Aposto que até pessoas com o Cohen o Bárbaro acordam de m anhã pensando: "Oh, não, m ais um dia esm agando os tronos cravej ados de j oias pelo m undo com sandálias nos pés".
— É isso o que ele faz? — perguntou Ginger, sem conseguir conter o interesse.
— De acordo com as histórias, sim .
— Por quê? — Sei lá. É só um em prego, acho.
Ginger pegou um punhado de areia. Havia conchinhas brancas no m eio, que ficaram em sua m ão quando a areia escorreu entre seus dedos.
— Eu m e lem bro quando o circo veio para a nossa aldeia. Eu tinha 10 anos. Tinha um a m enina com um a m alha de ginástica cheia de lantej oulas. Ela andava na corda bam ba. Dava cam balhotas em cim a da corda. Todo m undo aplaudia e gritava. Não deixavam que eu subisse num a árvore, m as ela eles aplaudiam . Foi quando eu decidi.
— Ah — com eçou Victor, tentando acom panhar a psicologia da coisa. — Você decidiu que queria ser alguém ? — Não sej a bobo. Foi quando decidi que seria m uito m ais do que sim plesm ente alguém .
Ela atirou as conchas na direção do pôr do sol e riu.
— Serei a pessoa m ais fam osa do m undo. Todos se apaixonarão por m im , e viverei para sem pre.
— É sem pre bom saber o que quer — com entou Victor num tom diplom ático.
— Sabe qual e a m aior tragédia no m undo todo? — perguntou Ginger, sem prestar a m ínim a atenção a ele. — São todas essas pessoas que nunca descobrem o que realm ente querem fazer ou no que são realm ente boas. São todos os filhos que se tornam ferreiros porque seus pais eram ferreiros. Todas as pessoas que poderiam ter sido flautistas fantásticas, m as envelhecem sem nunca ter visto um instrum ento m usical e acabam se tornando péssim as agricultoras. Todas as pessoas com talentos que nem sequer descobrem que os têm . Talvez nunca nasçam num a época em que sej a possível descobrir.
Ela respirou fundo.
— São todas as pessoas que nunca chegam a saber o que realm ente podem ser. São todas as chances desperdiçadas. Bom , Holy Wood e a m inha chance, entende? Esta é a m inha hora! Victor concordou com a cabeça.
— Sim . Magia para pessoas com uns, segundo Silverfish. Um hom em gira um a m anivela, e a sua vida é transform ada.
— E não apenas para m im — continuou Ginger. — É um a chance para todos nós. Para quem não é m ago, rei ou herói. Holy Wood e com o um grande cozido borbulhante, m as desta vez ingredientes diferentes sobem à tona. De repente, existem todas essas coisas novas para as pessoas fazerem . Você sabia que os teatros não perm item que as m ulheres trabalhem com o atrizes? Mas Holy Wood perm ite. E em Holy Wood há em pregos para trolls que não envolvem apenas bater nas pessoas. E o que os operadores de m anivela faziam quando não tinham m anivelas para girar? — Ela acenou vagam ente na direção do brilho distante de Ankh-Morpork.
— Agora estão procurando um j eito de acrescentar som às im agens anim adas, e lá fora existem pessoas que serão extrem am ente boas para fazer, fazer... fazer sonzinhos. Elas ainda nem sabem disso, m as estão lá. Consigo até senti-las. Estão lá.
Os olhos dela brilhavam feito ouro. "Pode ser apenas o pôr do sol", pensou Victor, "m as..." — Graças a Holy Wood, centenas de pessoas estão descobrindo o que realm ente querem ser — continuou Ginger. — E m ilhares e m ilhares têm a chance de esquecer quem são durante um a hora ou m ais. Toda esta droga de m undo está sendo sacudida.
— É isso... — com eçou Victor — É isso o que m e preocupa. É com o se fôssem os encaixados nisso tudo. Você acha que estam os usando Holy Wood, m as Holy Wood está nos usando. Todos nós.
— Com o? Por quê? — Não sei, m as...
— Olhe para os m agos — continuou Ginger, vibrando de indignação. — Que bem a m agia deles j á fez para alguém ? — Acho que ela m eio que m antém o m undo unido... — com eçou Victor.
— Eles são m uito bons em cham as m ágicas e coisas do tipo, m as sabem fazer pão? — Ginger não estava disposta a ouvir ninguém .
— Não por m uito tem po — respondeu Victor, tentando aj udar.
— Com o assim ? — Algo real com o o pão contém m uita... bem ... acho que cham am isso de energia. É necessária um a quantidade de força trem enda para criar essa energia. Teria que ser um m ago m uito bom para fazer um pão que durasse neste m undo m ais do que um a m ínim a fração de segundo. Mas, na verdade, não e para isso que serve a m agia, sabe — acrescentou rapidam ente —, porque o m undo é...
— Quem se im porta? — interrom peu Ginger. — Holy Wood está realm ente aj udando as pessoas com uns. É a m agia da tela grande.
— O que deu em você? Ontem à noite...
— Aquilo foi naquela hora — disse Ginger, im paciente. — Não está vendo? Poderíam os chegar a algum lugar. Poderíam os nos tornar alguém . Graças a Holy Wood. O m undo é a nossa...
— Carroça — com pletou Victor.
Ela balançou a m ão num gesto de irritação.
— Que sej a. Eu estava pensando em casa, na verdade.
— Sério? Eu estava pensando em carroça.
— Tesoureiro! "Eu não deveria ter que correr de um lado para o outro desse j eito na m inha idade", pensou o tesoureiro, passando com pressa pelo corredor para atender ao grito do arquirreitor. Por que será que ele está tão interessado naquela porcaria? Vaso infeliz!”
— Estou indo, m estre — respondeu com a voz trêm ula.
A m esa do arquirreitor estava coberta de docum entos antigos. Quando um m ago m orria, todos os seus docum entos eram guardados num a das áreas m ais afastadas da Biblioteca. Prateleiras e m ais prateleiras de papeis que se deterioravam em silêncio — servindo de retiro para besouros m isteriosos e traças secas — E se estendiam por um a distância incalculável. Todo m undo dizia para todo m undo que ali havia um a riqueza de m aterial para Pesquisadores, se alguém conseguisse encontrar tem po para se dedicar àquilo. O tesoureiro estava irritado. Ele não conseguia encontrar o bibliotecário em lugar nenhum . O sím io nunca parecia estar por perto ultim am ente. Ele teve que m exer nas coisas sozinho.
— Acho que estes são os últim os, arquirreitor — disse, tom bando um a avalanche de docum entos em poeirados sobre a m esa. Ridcully abanou as m ãos num a nuvem de traças.
— Papéis, papéis, papéis — resm ungou. — Quantos papéis entre as coisas dele, hein? — É... 23.813, arquirreitor. Ele contava e registrava.
— Olhe para isso — com eçou o arquirreitor. — "enum erador de estrelas"...
"Contador de Reverendos para uso em Áreas eclesiásticas"... "Medidor de Pântanos"... Medidor de Pântanos! O hom em era louco! — Ele tinha um a m ente m uito organizada.
— Dá no m esm o.
— Isso e... E... realm ente im portante, arquirreitor? — arriscou o tesoureiro.
— O m aldito negócio atirou bolas de chum bo em m im — disse Ridcully. — Duas vezes! — Tenho certeza de que não foi... E... de propósito...
— Quero saber com o ele foi feito, hom em ! Já im aginou as possibilidades esportivas? O tesoureiro tentou pensar nas possibilidades.
— Tenho certeza de que Riktor não teve a intenção de fazer nenhum tipo de invenção agressiva — arriscou, sem esperanças.
— Quem está preocupado com á intenção dele? Onde está o troço? — Pedi para alguns em pregados que colocassem sacos de areia em volta dele.
— Boa ideia. E...
... whum m ... whum m ...
era um som abafado que vinha do corredor. Os dois m agos trocaram um olhar significativo. ... whum m ... whum m WHUMM. O Tesoureiro prendeu a respiração. Plib. Plib. Plib.
O arquirreitor olhou para a am pulheta acim a da lareira.
— Ele está fazendo isso a cada cinco m inutos agora.
— E chega a dar três tiros — Em endou o tesoureiro. — Terei que m andar trazer m ais sacos de areia.
ele folheou um m onte de papel. Um a palavra cham ou sua atenção. Realidade.
Passou os olhos pela caligrafia que fluía sobre a página. Parecia m uito pequena, apertada e cautelosa. Alguém havia lhe dito que isso ocorria porque Riktor Núm eros tinha retenção anal. O tesoureiro não sabia o que aquilo significava e esperava nunca descobrir.
Outra palavra era: Medição. Seu olhar deslizou para cim a e percebeu o título sublinhado: Algum as Anotações Sobre a Medição Obj etiva da Realidade. No alto da página havia um diagram a. O tesoureiro o observou com atenção.
— Encontrou algum a coisa? — perguntou o arquirreitor, sem erguer a cabeça.
O tesoureiro enfiou o papel na m anga do m anto.
— Nada im portante.
Lá em baixo, a espum a das ondas estourava na areia. (... E, abaixo da superfície, as lagostas andavam para trás em ruas profundas e subm ersas...) Victor atirou m ais um pedaço de m adeira na fogueira. Ela ficou azul ao queim ar o sal.
— Eu não entendo ela — disse. Ontem parecia m uito norm al. Hoj e todas essas coisas tom aram conta dela.
— Cadelas! — com entou Gaspode num tom solidário.
— Ah, eu não chegaria a dizer isso dela. Ela só é desinteressada.
— Desinteressadas! — E isso o que a inteligência faz com a sua vida sexual — observou Não-Me-Cham e-de-Seu-Tam pinha. — Os coelhos nunca tem esse tipo de problem a. O negócio e "Vai, sem eia e agradece à colheita".
— Você poderia oferecer um a ratashana pra ela — sugeriu o gato. — Eshetuando-se os preshentes, é claro — acrescentou com sentim ento de culpa, evitando o olhar de Definitivam ente-Não-Guincho.
— Ser inteligente não trouxe nenhum a m elhora para a m inha vida social tam bém — disse Seu Tam pinha num tom am argo.
— Um a sem ana atrás, tudo bem . Agora, sem m ais nem m enos, eu quero conversar, e tudo o que eles fazem e sentar ali, franzindo o focinho pra m im . Eu m e sinto um verdadeiro idiota.
eles ouviram um grasnido sufocado.
— O pato está dizendo: "Vocês fizeram algum a coisa em relação ao livro?" — traduziu Gaspode.
— Eu dei um a olhada nele quando fizem os a pausa pro alm oço — disse Victor.
Houve m ais um grasnido im paciente.
— O pato disse: "É, m as o que você fez em relação a isso?" — Olha, não posso ir até Ankh-Morpork de um a hora pra outra — defendeu—se Victor, irritado. — Leva horas! Alem disso, nós film am os o dia todo! — Peça um dia de folga — sugeriu Seu Tam pinha — Ninguém pede um dia de folga em Holy Wood! Já fui dem itido um a vez, obrigado.
— E ele te aceitou de volta pagando m ais — lem brou Gaspode.
— Engraçado, isso. — Ele cocou a orelha. — Diga a ele que o seu contrato prevê que você pode ter um dia de folga.
— Eu não tenho contrato. Você sabe disso. A gente trabalha, a gente recebe. Sim ples.
— E. E. E? Contrato verbal. E sim ples. Gostei.
Quando a noite estava acabando, Detritus, o troll, espreitava com m ovim entos desaj eitados nas som bras perto da porta dos fundos do Calcário Azul. Estranhas em oções haviam acabado com seu corpo durante todo o dia. Toda vez que fechava os olhos, via um a figura no form ato de um m orrinho. Ele tinha que enfrentar a situação com coragem .
Detritus estava apaixonado.
Sim , havia passado m uitos anos em Ankh-Morpork batendo nas pessoas por dinheiro. Sim , era um a vida em brutecida e sem am igos. E solitária tam bém . Ele havia se conform ado com um a velhice em que estaria solteiro, am argo. E agora, sem m ais nem m enos, Holy Wood lhe dava um a chance com a qual nunca sonhara. Ele tinha sido criado com rigidez e se lem brava vagam ente do serm ão que seu pai lhe deu quando era um j ovem troll. "Se você vir um a garota e gostar dela, não vá logo para cim a. Existem m aneiras apropriadas para fazer as coisas." Havia ido até a praia e encontrado um a rocha. Não um a rocha qualquer. Ele havia procurado com cuidado e encontrado um a rocha grande e alisada pelo m ar, com traços de quartzo rosa e branco. Garotas gostam dessas coisas. Naquele m om ento esperava, tim idam ente, que ela term inasse seu trabalho. Tentava pensar no que dizer. Ninguém j am ais havia lhe dito o que dizer. Ele não era um troll esperto, com o Rock ou Morry, que levavam j eito com as palavras. Basicam ente nunca precisou m uito do que se pode cham ar de vocabulário. Chutou a areia com desânim o. Que chances teria com um a m oça fina com o ela? Houve um baque surdo de pés pesados, e a porta se abriu. O obj eto de seu desej o saiu no m eio da noite e respirou fundo, o que teve em Detritus o m esm o efeito de um a pedra de gelo descendo pela nuca.
Ele olhou em pânico para sua rocha. Estava longe de parecer grande o suficiente, agora que via o tam anho dela. Mas talvez o que im portaria era o que ele fizesse com a rocha.
Bem , o m om ento era aquele. Dizem que a gente nunca esquece a prim eira vez...
Ele ergueu o braço com a rocha na m ão e a acertou em cheio entre os olhos. Foi então que tudo com eçou a dar errado.
A tradição dizia que a garota, quando fosse capaz de focalizar a visão novam ente, e se a rocha fosse de um padrão aceitável, ficaria im ediatam ente subm issa a tudo o que o troll sugerisse — por exem plo, um hum ano a luz de velas para dois, em bora não se fizesse m ais esse tipo de coisa, e claro, pelo m enos se houvesse qualquer chance de ser flagrado.
Ela não deveria apertar os olhos e dar um a paulada na orelha dele, fazendo seus globos oculares chacoalharem .
— Seu troll idiota! — Ela gritou, enquanto Detritus cam baleava em círculos. — Pra que cê fez isso? Cê acha que eu sou um a garota qualquer que veio da m ontanha? Por que não faz direito? — Mas, m as... — com eçou Detritus, aterrorizado com a dem onstração de fúria — Eu não poder pedir pai perm issão para bater em você, não saber onde ele m orar...
Ruby se recom pôs com orgulho.
— Toda essa coisa antiga m uito bruta agora — Ela desdenhou.
— Não é o j eito m oderno. Eu não interessada em troll nenhum — acrescentou — que não atualizado. Um a rocha na cabeça pode m uito sentim ental — continuou, com a certeza escapando de sua voz enquanto avaliava a frase que vinha pela frente —, m as os diam antes são os m elhores am igos de um a garota. — Ela hesitou. Aquilo não tinha soado bem , nem para ela.
Detritus com certeza ficou confuso.
— O quê? Você quer eu arranque m eus dentes? — Bom , está bem , não diam antes — adm itiu Ruby. — Mas tem m aneiras m odernas adequadas agora. Você tem que cortej ar a garota.
Detritus se anim ou.
— Ah, m as eu... — com eçou.
— E cortej ar, não apedrej ar — interrom peu Ruby, dem onstrando cansaço.
— Você tem que, que, que... — Ela fez um a pausa.
Ela não tinha tanta certeza do que era preciso fazer. Mas Ruby havia passado algum as sem anas em Holy Wood e, se havia um a coisa que Holy Wood fazia, era m udar as coisas. Em Holy Wood, ela se enturm ou com um a vasta com unidade de fêm eas de diferentes espécies, de cuj a existência nem sequer suspeitava. E estava aprendendo rápido. Teve longas conversas com garotas hum anas solidárias. E anãs. Até os anões tinham rituais de conquista m elhores, pelo am or dos deuses.17 e o que os hum anos inventavam era im pressionante. 17. Todos os anões têm barba e usam m uitas cam adas de roupas. Seus rituais de conquista têm com o preocupação principal descobrir, de m aneira delicada e discreta, qual e o sexo do outro anão.
Por sua vez, tudo o que um a troll fêm ea podia esperar era um a pancada rápida na cabeça e o resto da vida dom esticando e cozinhando tudo o que o m acho arrastava para dentro da caverna.
Bem , as coisas iam m udar. Da próxim a vez que Ruby fosse para casa, as m ontanhas dos trolls sentiriam o m aior trem or desde a últim a colisão continental. Enquanto isso, com eçaria pela própria vida.
Ela levantou a m ão gigantesca num gesto vago.
— Você tem que... que cantar em baixo da j anela da garota e... E você tem que dar a ela oograah.
— Oograah? — Sim . Oograah bonito! Detritus cocou a cabeça. ("Oograah" significa desde musgo até sequoia gigante. Do ponto de vista dos trolls, se não dá para comer, não vale a pena dar um nome.)
— Por quê? Ruby pareceu entrar em pânico por um m om ento. Ela tam bém não podia, por nada no m undo, im aginar por que a entrega de vegetais não com estíveis seria tão im portante, m as não estava disposta a adm itir isso. (Os trolls possuem 5.400 palavras para rochas e uma para vegetais.)
— Estranho você não saber — disse, sarcástica.
Detritus não percebeu a crítica. Ele não percebia a m aior parte das coisas.
— Certo. Eu não tão bruto quanto você pensa — acrescentou.
— Eu dou pancada m oderna. Espere pra ver.
O som de m arteladas enchia o ar. Prédios se espalhavam para trás da rua principal sem nom e até as dunas. Ninguém era dono de nenhum terreno em Holy Wood. Se estivesse vazio, construía-se nele.
Dibbler tinha dois escritórios agora. Um em que gritava com as pessoas, e outro, m aior, bem em frente ao prim eiro, onde as pessoas gritavam um as com as outras. Soll gritava com os operadores de m anivela. Os operadores de m anivela gritavam com os alquim istas. Os dem ônios peram bulavam sobre toda a superfície plana, m ergulhavam nas xícaras de café e gritavam uns com os outros. Alguns papagaios com os quais se faziam algum as experiências gritavam consigo m esm os. Pessoas usando partes esquisitas de figurinos entravam apenas para gritar. Silverfish gritava porque não conseguia entender por que ele agora tinha um a m esa no escritório externo, em bora fosse o dono do estúdio. Gaspode perm anecia sentado, im passível, ao lado da porta do escritório interno. Durante os últim os cinco m inutos, havia atraído um chute desanim ado, um biscoito m urcho e um tapinha na cabeça. Considerava que estava ganhando o j ogo, do ponto de vista dos cachorros.
Ele tentava ouvir todas as conversas ao m esm o tem po. Foi extrem am ente instrutivo. Para com eçar, algum as das pessoas que entravam e gritavam carregavam sacolas de dinheiro...
— Você o quê? O grito vinha do escritório interno. Gaspode em pinou a outra orelha.
— Eu... É... quero um dia de folga, senhor Dibbler — disse Victor.
— Um dia de folga? Você não quer trabalhar? — Só um dia, senhor Dibbler.
— Mas você não acha que eu vou sair por aí pagando as pessoas para tirarem dias de folga, acha? Eu não sou feito de dinheiro, sabe. A gente nem está lucrando. Por que não aponta um a besta pra m inha cabeça logo de um a vez? Gaspode olhou para as sacolas na frente de Soll, que estava furioso, som ando pilhas de m oedas. Ele ergueu um a sobrancelha com cinism o. Houve um a pausa. "Oh, não", pensou Gaspode. "O j ovem idiota está esquecendo suas falas." — Eu não quero pagam ento, senhor Dibbler. Gaspode relaxou.
— Você não quer pagam ento? — Não, senhor Dibbler.
— Mas vai querer trabalho quando voltar, im agino — disse Dibbler com sarcasm o.
Gaspode ficou tenso. Victor havia recebido m uitas instruções.
— Bom , espero que sim , senhor Dibbler. Mas estava pensando em ver o que a Alquim istas Desatados tinha a oferecer.
Houve um som sim ilar ao do encosto de um a cadeira batendo na parede. Gaspode deu um sorriso m aldoso.
Mais um a sacola de dinheiro foi largada na frente de Soll.
— Alquim istas Desatados! — Parece que eles realm ente estão tendo progressos com os sonzinhos, senhor Dibbler — disse Victor num tom hum ilde.
— Mas são am adores! E trapaceiros! Gaspode franziu a sobrancelha. Ele não conseguira treinar Victor a partir daquele estágio.
— Bem , isso e um alívio, senhor Dibbler.
— E por quê? — Seria horrível se eles fossem trapaceiros e profissionais. Gaspode concordou com a cabeça. "Boa. Boa." Houve o som de passos correndo ao redor de um a m esa. Quando Dibbler falou de novo, daria para cavar um poço na sua voz e vendê-la a dez dólares o barril.
— Victor! Vic! Não tenho sido com o um tio para você? "Ah, sim ", pensou Gaspode. “ele é com o um tio para a m aioria das pessoas aqui.” “Isso porque são seus sobrinhos.” Ele parou de escutar, em parte porque Victor tiraria o seu dia de folga e m uito provavelm ente receberia por ele tam bém , m as principalm ente porque outro cachorro havia sido levado para dentro do escritório.
Era enorm e e tinha o pelo lustroso. Brilhava feito m el.
Gaspode notou que era um cão de caça Ram top puro-sangue. Quando ele se sentou ao seu lado, foi com o se um belo e im ponente iate tivesse atracado ao lado de um velho barco de pesca.
Ele ouviu Soll dizer: — Então essa e a últim a ideia do Tio, é? Com o se cham a? — Laddie — respondeu o treinador.
— Quanto custa? — Sessenta dólares.
— Por um cachorro? Estam os no ram o errado.
— Ele sabe fazer todos os tipos de truques — argum entou o criador. — Esperto com o um a raposa. Exatam ente o que o senhor Dibbler está procurando.
— Bem , am arra ele lá. E, se esse outro vira-lata com eçar a brigar, chuta ele pra fora.
Gaspode exam inou Soll prestando atenção aos detalhes. Depois, quando a atenção não estava m ais sobre eles, aproxim ou-se em silêncio do recém -chegado, olhou para cim a e para baixo e falou com calm a, pelo canto da boca.
— Pra que cê tá aqui? — O cachorro olhou para ele com um a expressão de am pla incom preensão. — Assim ... cê pertence a alguém ou o quê? O cachorro gem eu de leve.
Gaspode tentou o caninês básico, que é um a com binação de gem idos e fungadas.
— Alô? — arriscou. — Tem alguém aí? — O rabo do cachorro bateu no chão de m odo incerto. — O rango aqui éum a coisa horrorosa — disse Gaspode. O cachorro ergueu seu focinho com pedigree.
— Que lugar é este? — perguntou.
— Aqui é Holy Wood — respondeu Gaspode num tom sociável. — Eu sou Gaspode. Em hom enagem ao fam oso Gaspode, sabe. Qualquer coisa que quiser saber, é só...
— Todos esses duas-pernas aqui. Grr... Que lugar é este? Gaspode olhou com os olhos arregalados.
Naquele m om ento, a porta de Dibbler se abriu. Victor surgiu, tossindo, na ponta de um charuto.
— Ótim o, ótim o — disse Dibbler atrás dele. — Sabia que dava para resolverm os. Não desperdice, garoto, não desperdice. Eles custam um dólar a caixa. Ah, estou vendo que trouxe o seu cachorrinho.
— Au — disse Gaspode, irritado.
O outro cachorro deu um latido curto e agudo e se sentou com um a vigilância obediente que irradiava de todos os pelos.
— Ah — com eçou Dibbler —, e estou vendo que conseguim os o nosso cão prodígio.
O arrem edo de cauda de Gaspode se contraiu um a ou duas vezes. Então a verdade se revelou.
Ele olhou fixam ente para o cachorro m aior e abriu a boca para falar, m as conseguiu se segurar em cim a da hora e transform ar a fala num : — Late? — Eu tive a ideia naquela noite, quando vi o seu cachorro — disse Dibbler. — Pensei: "As pessoas gostam de anim ais. Eu, eu gosto de cachorro. Boa im agem , o cachorro. Salva vidas, o m elhor am igo do hom em , esse tipo de coisa". Victor olhou para a expressão furiosa de Gaspode.
— Gaspode é bastante inteligente.
— Ah, im agino que você pense que sim — disse Dibbler. — Mas é só olhar para os dois. De um lado está esse anim al elegante, alerta, inteligente e, do outro, esta bola de pelo de ressaca. Quer dizer, não dá pra com parar, estou certo? O cão prodígio deu um latido forte.
— Que lugar é este? Bom garoto Laddie! Gaspode revirou os olhos.
— Está vendo o que quero dizer? — continuou Dibbler. — Dê a ele o nom e certo, um pouco de treino, e nasce um a estrela. — Ele deu m ais um tapa nas costas de Victor. — Bom te ver, bom te ver, apareça de novo qualquer hora, m as não sem pre. Vam os alm oçar j untos qualquer dia. Agora pode sair. Soll.
— Tô indo, tio.
Victor ficou sozinho de repente, sem contar os cachorros e o escritório cheio de gente. Ele tirou o charuto da boca, cuspiu na ponta incandescente e o escondeu com cuidado num vaso de plantas.
— Deram cria a um a estrela — disse um a voz curta e seca, vinda de baixo.
— O que ele disse? Que lugar é este? — Não olhe para m im — disse Victor. — Não tenho nada com isso.
— Olha só pra ele! Isso aqui é a Cidade dos Im becis por acaso? — perguntou Gaspode com desprezo.
— Bom garoto Laddie! — Vam os — disse Victor. — Eu tenho que estar no set em cinco m inutos. Gaspode foi atrás dele, resm ungando baixinho. Victor entendeu um "tapete velho", "m elhor am igo do hom em " e "m aldito cão prodígio m aldito" aqui e ali. Por fim , não conseguiu m ais suportar.
— Você só está com ciúm e.
— O quê, de um filhote gigante com Q.I. de um dígito? — disse Gaspode com desprezo.
— E pelos brilhantes, focinho gelado e provavelm ente um pedigree tão longo quanto o seu br... quanto o m eu braço.
— Pedigree? Pedigree? O que é pedigree? É só a criação. Eu tive um pai tam bém , sabe. E dois avós. E quatro tataravôs. Muitos deles eram o m esm o cachorro, até. Então não venha m e dizer que não tenho nenhum pedigree. Ele parou para erguer um a pata na frente de um dos suportes da placa de "Lar das Im agens Anim adas do Século do Morcego-de-Frutas". Isso era outra coisa que havia deixado Thom as Silverfish perplexo. Quando chegou, de m anhã, a placa pintada à m ão em que estava escrito "Film es Interessantes e Instrutivos" havia desaparecido e sido substituída por aquele outdoor enorm e. Ele perm anecia sentado no seu escritório, recostado para trás, com a cabeça nas m ãos, tentando se convencer de que a ideia tinha sido sua.
— Fui eu que fui cham ado por Holy Wood — m urm urou Gaspode, num tom de autopiedade. — Eu vim até aqui, e aí eles escolhem aquela coisa peluda enorm e. Ele provavelm ente vai trabalhar por um prato de carne por dia tam bém .
— Bem , olha, talvez você não tenha sido cham ado para Holy Wood para ser um cão prodígio — sugeriu Victor. — Talvez ela tenha outra coisa em m ente para você.
"Isto e ridículo", pensou. "Por que estam os falando dela desse j eito? Os lugares não têm m ente. Eles não podem cham ar as pessoas para virem até eles... Bem , a m enos que se considere coisas com o a saudade da sua terra natal. Mas ninguém pode ter saudade de um lugar em que nunca esteve. A últim a vez em que pessoas estiveram aqui deve ter sido há m ilhares de anos." Gaspode cheirou um m uro.
— Você disse ao Dibbler tudo o que eu te disse? — perguntou.
— Sim . Ele ficou m uito perturbado quando eu disse que ia para a Alquim istas Desatados.
Gaspode deu um risinho preso na garganta.
— E cê disse pra ele o que eu te falei sobre um contrato verbal não valer o papel em que é im presso? — Sim . E ele disse que não entendeu o que eu quis dizer. Mas m e deu um charuto. E disse que pagaria para eu e a Ginger irm os a Ankh-Morpork em breve. Ele disse que tem planos para um a cena m uito grande.
— Qual? — disse Gaspode, desconfiado.
— Ele não disse.
— Ouça, rapaz, Dibbler está fazendo fortuna. Eu contei. Tinha 5.273,52 dólares na m esa do Soll. E você ganhou esse dinheiro. Bom , você e a Ginger ganharam .
— Nossa! — Agora tem um as palavras novas que eu quero que você aprenda — disse Gaspode. —Acha que consegue? — Espero que sim .
— “Por-cen-ta-gem do bruto." Isso. Acha que dá pra lem brar disso? — “Por-cen-ta-gem do bruto" — repetiu Victor.
— Bom m enino.