A Metamorfose

Franz Kafka · Capítulo 10 de 16

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A Metamorfose

Com uma espécie de obstinação, o pai…

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Com uma espécie de obstinação, o pai se recusava a tirar mesmo em casa o uniforme de funcionário; e, enquanto o roupão pendia inútil do cabide ele cochilava na sua cadeira inteiramente vestido, como se estivesse sempre pronto para o serviço e aguardasse também aqui a voz do superior. Em vista disso o uniforme, que desde o início não era novo, perdeu o asseio, apesar de todo o cuidado da mãe e a irmã; e freqüentemente Gregor olhava durante serões inteiros para aquela roupa coberta de manchas e lustrosa nos seus botões dourados sempre polidos, com o qual o velho dormia de um jeito extremamente incômodo, mas apesar disso tranqüilo.

Assim que o relógio batia às dez horas a mãe, com leves exortações, tentava acordar e depois persuadir o pai a ir para a cama, pois ali não era lugar para o sono certo de que ele tinha extrema necessidade, pois precisava entrar no serviço as seis da manhã. Mas, na obstinação que o havia tomado desde funcionário, insistia sempre em ficar à mesa mais tempo, embora adormecesse regularmente e, além disso, só com o maior esforço pudesse depois ser convencido a trocar a cadeira pela cama. Então, por mais que mãe e a filha, com pequenas admoestações, o forçassem, ele sacudia a cabeça devagar, durante um quarto de hora, conservava os olhos fechados e não se levantava. A mãe o puxava pela manga, dizia-lhe palavras de carinho ao ouvido, a irmã punha de lado a lição para ajudar a mãe, mas isso não adiantava. Ele afundava ainda mais na sua cadeira. Só quando as mulheres o agarravam por baixo dos braços é que ele abria os olhos e fitava alternadamente a mãe e a irmã, momento em que costumava dizer:

— Isto sim é que é vida. Este é o descanso dos meus dias de velhice.

E apoiado nas duas mulheres erguia-se penosamente, como se para si mesmo fosse o fardo maior de todos, deixando-se levar por elas até a porta, onde as despachava com um aceno e prosseguia sozinho, enquanto a mãe depunha o mais rápido possível seus instrumentos de costura e a irmã possível seus instrumentos de costura e a irmã sua caneta para correrem atrás dele e continuarem a servi-lo.

Quem nessa família sobrecarregada e exausta tinha tempo para se ocupar de Gregor mais que o absolutamente necessário? A 41

economia doméstica tornou-se cada vez mais restrita; a empregada foi afinal despedida; uma faxineira imensa, ossuda, de cabelo branco esvoaçando em volta da cabeça, vinha de manhã e à noitinha para fazer o trabalho mais pesado; a mãe cuidava do resto, além de toda a costura. Aconteceu até que diversas jóias da família, que a mãe e a irmã antes tinham usado com o maior dos júbilos em festas e solenidades, foram vendidas, como Gregor ficou sabendo uma noite ao ouvir a discussão geral sobre os preços alcançados.

Mas a maior de todas as queixas era sempre o fato de que não se podia deixar o apartamento — grande demais para as atuais necessidades — uma vez que não era possível imaginar como Gregor seria removido. Gregor, porém logo compreendeu que não era apenas a consideração para com ele que impedia uma mudança, já que poderia ser facilmente transportado numa caixa adequada com alguns furos de ventilação; o que detinha a família de uma troca de casa era principalmente a total falta de esperança e o pensamento de que tinha sido atingida por uma desgraça como mais ninguém em todo o círculo de parentes e conhecidos. O que o mundo exigia de gente pobre, eles cumpriam até o ponto extremo: o pai ia buscar o café da manhã para os pequenos funcionários do banco, a mãe se sacrificava pelas roupas de baixo de pessoas estranhas, a irmã corria de lá para cá atrás do balcão ao comando dos fregueses, mas as energias da família não iam mais longe que isso. E a ferida nas costas de Gregor começou a doer de novo, como se fosse recente, quando, depois de terem ido levar o pai para a cama, mãe e irmã voltaram, puseram de lado o trabalho, aproximaram suas cadeiras e ficaram sentadas já de rosto colado — instante em que a mãe, apontando para o quarto de Gregor, disse:

— Feche aquela porta, Grete.

Aí Gregor ficou outra vez no escuro, enquanto do outro lado da porta as mulheres misturavam suas lágrimas ou fitavam a mesa com os olhos secos.

Gregor passava as noites e os dias quase completamente sem sono. Às vezes pensava em reassumir os assuntos da família, exatamente como antes, na próxima vez em que a porta se abrisse; nos seus pensamentos apareceram de novo, depois de muito tempo, o chefe e o gerente, os caixeiros e os aprendizes, o contínuo tão obtuso, dois, três amigos de outras firmas, uma arrumadeira de um hotel no interior — recordação agradável e passageira, — uma moça que trabalhava na caixa de uma loja de chapéus que ele tinha cortejado seriamente, mas devagar demais; todos eles surgiram 42

entremeados com estranhos ou pessoas já esquecidas, mas ao invés de o ajudarem e à família, estavam sem exceção inacessíveis, e ele ficou feliz quando desapareceram. Mas depois ele já não estava mais com ânimo nenhum para cuidar da família, sentia-se simplesmente cheio de ódio pelo mau tratamento e embora não pudesse imaginar nada que lhe despertasse o apetite, fazia, no entanto planos sobre como poderia chegar à despensa para ali pegar tudo o que lhe era devido, mesmo que não tivesse fome. Agora, sem pensar mais no que pudesse agradar a Gregor, a irmã, antes de correr de manhã e ao meio-dia rumo à loja, empurrava com o pé para dentro do quarto, na maior pressa, uma comida qualquer, para ao anoitecer, não importa se esta tinha sido apreciada ou — caso mais freqüente

— sequer tocada, arrasta-la para fora com uma vassourada. A arrumação do quarto, que ela agora providenciava sempre à noite, não podia ser feita com maior rapidez. Estrias de sujeira percorriam as paredes, aqui e ali havia novelos de pó e lixo. Nos primeiros tempos, à chegada da irmã, Gregor se colocava em cantos que indicavam isso de modo especial, para com essa posição de certa maneira censura-la. Mas teria certamente podido ficar ali semanas inteiras sem que ela tivesse se corrigido; Grete via a sujeira exatamente como ele, mas havia decidido deixa-la. Ao mesmo tempo, com uma suscetibilidade que nela era totalmente nova, e que na verdade acometera a família toda, velava para que lhe ficasse reservada a arrumação do quarto de Gregor. Certa vez a mãe submeteu o quarto a uma grande limpeza, que só conseguiu fazer depois de usar alguns baldes de água — de qualquer modo o excesso de umidade molestou Gregor também, que ficou deitado no sofá, largo, amargurado, imóvel, — mas o castigo da mãe não demorou. Pois ao anoitecer, mal tinha notado a alteração no quarto de Gregor, a irmã, ofendida ao extremo, correu até a sala de estar e, a despeito das mãos da mãe erguidas em súplica, rompeu num acesso de choro, ao qual no início os pais — naturalmente o pai tinha pulado de susto de sua cadeira — assistiram perplexos e sem saber o que fazer; até que também começaram a se tocar; o pai censurava, à direita, a mãe por não ter deixado a limpeza para a irmã; à esquerda, pelo contrário, vociferava que a irmã nunca mais podia limpar o quarto de Gregor; ao passo que a mãe tentava arrastar o pai, que já não sabia onde estava de tanta excitação, para o quarto de dormir, a irmã, sacudida por soluços, batia os pequenos punhos na mesa; e Gregor, cheio de raiva, sibilava alto, porque não 43

tinha ocorrido a ninguém fechar a porta e poupa-lo desse espetáculo e desse barulho.

Mas ainda que a irmã, exausta do trabalho profissional, estivesse saturada de cuidar de Gregor como antigamente, de modo algum teria sido necessário que a mãe ficasse no seu lugar e Gregor não precisava ser negligenciado. Pois agora havia a faxineira. Essa velha viúva, que na sua longa vida devia ter suportado as piores coisas com a ajuda de uma forte construção óssea, não tinha propriamente repulsa por Gregor. Sem que fosse de algum modo curiosa, uma vez ela havia aberto casualmente a porta do quarto de Gregor e, à vista dele — que tomado de total surpresa, embora ninguém o perseguisse, começou a correr de lá para cá, — ficou parada, admirando, com as mãos cruzadas no colo. Desde então, de manhã e à noitinha nunca perdia a oportunidade de abrir um pouco a porta e espiar rapidamente Gregor. No começo ela também o chamava ao seu encontro, com palavras que provavelmente considerava amistosas, como “venha um pouco aqui velho bicho sujo!” ou “vejam só o velho bicho sujo!”. A chamados desse tipo Gregor não respondia nada, mas ficava imóvel no seu lugar, como se a porta não tivesse sido aberta. Se ao invés de deixar a faxineira perturba-lo inutilmente, segundo o capricho do momento, eles tivessem ordenado que ela limpasse todos os dias o seu quarto!

Certa vez, de manhã cedo — uma chuva violenta batia nas vidraças, talvez já um sinal da Primavera que chegava, — quando a faxineira começou de novo a usar suas expressões, Gregor ficou tão exasperado que, embora lento e débil, se voltou para ela, como que preparado para o ataque. Mas a faxineira, ao invés de sentir medo, simplesmente ergueu para o alto uma cadeira que se achava perto da porta e, pela maneira como ficou ali, a boca bem aberta, mostrou claramente a intenção de só fecha-la quando a cadeira na sua mão tivesse desabado sobre as costas Gregor.

— E então, não vai continuar? — perguntou, enquanto Gregor se virava outra vez e ela recolocava a cadeira calmamente no canto.

Agora Gregor não comia quase mais nada. Só quando por acaso passava pela comida posta para ele é que mordia por brincadeira um bocado, conservava a porção na boca durante horas e depois, na maioria das vezes, a cuspia fora. Pensou a principio 44

que era a tristeza pelo estado do seu quarto que o impedia de comer, mas foi justamente com as mudanças ocorridas nele que se reconciliou bem cedo. Haviam se habituado a introduzir naquele quarto as coisas que não se podia colocar em outro lugar, e existia um monte delas ali, já que um quarto do apartamento fora alugado a três inquilinos. Estes senhores sisudos — os três tinham barba cheia, como uma vez Gregor verificou por uma fresta da porta — eram obcecados pela ordem não só no seu quarto, mas também —

uma vez que haviam se mudado para lá — na casa inteira, principalmente na cozinha. Não suportavam tralha inútil, muito menos suja. Além disso, haviam trazido, em sua maior parte, o próprio mobiliário. Por esse motivo tinham se tornado supérfluas muitas coisas que na verdade não se podia vender, mas que também não se queria jogar fora. Todas elas migraram para o quarto de Gregor — mesmo a lata de cinza e a lata do lixo da cozinha. Agora a faxineira, que estava sempre com muita pressa, simplesmente arremessava ao quarto de Gregor o que não era usado no momento; felizmente Gregor via, na maioria dos casos, o objeto em questão e a mão que o segurava. Talvez a faxineira tivesse a intenção de pegar as coisas de novo, conforme o tempo e a ocasião, ou então atirar todas elas fora de uma só vez; mas o fato é que elas permaneciam no lugar onde tinham sido atiradas — isso quando Gregor não se locomovia no meio do entulho e as punha em movimento, a princípio forçado, porque não havia nenhum outro espaço para rastejar, mais tarde, porém com satisfação crescente, embora depois dessas caminhadas, triste e morto de cansaço, não se movesse novamente durante horas.

Visto que os inquilinos jantavam às vezes em casa, na sala de estar comum, a porta desta ficava fechada várias noites, mas Gregor renunciou com grande facilidade à porta aberta; ele não a tinha usado já diversas noites em que ela havia permanecido assim, pois, sem que a família percebesse, ficara deitado no canto mais escuro do seu quarto. Uma vez, no entanto a faxineira deixara a porta para a sala de estar entreaberta — e assim ela continuou mesmo quando os inquilinos entraram à noite e a luz foi acesa. Eles sentaram-se à cabeceira da mesa, onde antigamente o pai, a mãe e Gregor comiam, desdobraram os guardanapos e empunharam o garfo e a 45

faca. Imediatamente a mãe apareceu à porta com uma travessa de carne e logo atrás dela a filha com uma travessa de batatas empulhadas alto. A comida soltava um vapor forte. Os inquilinos inclinaram-se sobre as travessas colocadas à sua frente, como se quisessem examiná-la antes de comer, e efetivamente o senhor que estava sentado no meio e parecia valer como autoridade para os outros dois cortou um pedaço de carne ainda na travessa, sem dúvida para verificar se ela estava suficientemente mole ou se acaso não devia ser mandada de volta à cozinha. Ficou satisfeito e a mãe e a irmã, que haviam observado ansiosas, começaram a sorrir, respirando com alívio.

A família mesmo ia comer na cozinha. Apesar disso o pai, antes de se dirigir à cozinha, entrou na sala de estar, fez uma única inclinação de corpo e deu uma volta em torno da mesa com o quepe na mão. Os inquilinos levantavam-se todos ao mesmo tempo e murmuravam alguma coisa dentro das suas barbas. Quando depois ficaram a sós, comeram num silêncio quase total. Pareceu estranho a Gregor que, em meio a todos os múltiplos ruídos do ato de comer, se destacasse continuamente o som dos dentes mastigando, como se com isso quisessem mostrar a ele que era preciso ter dentes para comer e que mesmo com as mais belas mandíbulas sem dentes não se podia fazer nada.

— Eu tenho apetite, sim — disse Gregor a si mesmo, preocupado, — mas não por essas coisas. Como se alimentam esses inquilinos, e eu aqui morrendo!

Exatamente nesta noite — Gregor não se lembrava de tê-lo ouvido durante todo aquele tempo — o violino soou na cozinha. Os inquilinos já tinham terminado o jantar, o senhor do meio havia puxado um jornal, e os três liam e fumavam recostados nas cadeiras. Quando o violino começou a tocar, eles prestaram atenção, se levantaram e foram na ponta dos pés até à porta da ante-sala, junto à qual pararam espremidos um contra o outro.

Deviam tê-los ouvido da cozinha, pois o bradou:

— Por acaso a música incomoda os senhores? Ela pode ser imediatamente interrompida.

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— Pelo contrário — disse o senhor do meio. — Será que a senhorita não gostaria de vir até nós e tocar aqui na sala, onde é muito mais cômodo e confortável?

— Oh, pois não — exclamou o pai de Gregor, como se fosse ele o violinista.

Os inquilinos voltaram para a sala de estar, e ficaram esperando. Logo chegou o pai de Gregor com a estante da partitura e a irmã com o violino. Grete preparou tudo tranqüilamente para tocar; os pais, que nunca antes haviam alugado quartos e por isso exageravam na gentileza com os inquilinos, não ousaram sentar-se nas próprias cadeiras; o pai se inclinou sobre a porta, com a mão direita enfiada entre dois botões do casaco do uniforme, que ele conservava fechado; mas um dos senhores ofereceu à mãe uma cadeira e ela ficou sentada à parte, num canto da sala, por ter deixado a cadeira no lugar onde o senhor a havia posto.

A irmã começou a tocar, o pai e a mãe, cada um do seu lado, acompanharam atentamente os movimentos das suas mãos. Atraído pela música, Gregor tinha ousado avançar um pouco e já estava com a cabeça dentro da sala de estar. Dificilmente o surpreendia o fato de que nos últimos tempos levava os outros tão pouco em conta; essa consideração tinha sido, antes, o seu orgulho. E, no entanto justamente agora ele deveria ter mais motivo para se esconder, pois por causa do pó, que se depositava em toda parte no seu quarto, e que ao menor movimento voava em volta, ele também estava todo coberto de poeira; sobre as costas e pelos lados arrastava consigo fios, cabelos, restos de comida; sua indiferença diante de tudo era grande demais para que, como antes, tivesse ficado de costas e se esfregado no tapete várias vezes durante o dia.

E a despeito desse estado não teve pejo de se adiantar um pouco sobre o assoalho imaculado da sala.

Seja como for ninguém prestava atenção nele. A família estava completamente absorvida pelo violino; os inquilinos, ao contrário, que a principio haviam se colocado, as mãos nos bolsos das calças, perto demais da irmã, atrás da estante da partitura, de tal modo que todos eles poderiam ver as notas, o que certamente devia perturbar a irmã, logo retrocederam até a janela, as cabeças baixas, conversando a meia voz, e ali permaneceram, ansiosamente 47

observados pelo pai. Realmente isso agora tinha a aparência mais que nítida de que estavam decepcionados na sua expectativa de ouvir uma música de violino bonita ou capaz de entreter — de que estavam saturados de toda a apresentação e só por polidez ainda se deixavam perturbar no seu sossego. Especialmente o modo como sopravam para o alto a fumaça dos seus charutos pelo nariz e pela boca permitia deduzir o grande nervosismo deles. E, no entanto a irmã tocava com tanta beleza! O rosto dela estava inclinado para o lado, seus olhares seguiam perscrutadores e tristes as linhas da partitura. Gregor rastejou mais um trecho à frente, mantendo o corpo rente ao chão, para se possível captar os seus olhos. Era ele um animal, já que a música o comovia tanto? Era como se lhe abrisse o caminho para o alimento almejado e desconhecido. Estava decidido a chegar até a irmã, puxa-la pela saia e com isso indicar que ela devia ir ao seu quarto com o violino, pois ninguém aqui apreciava sua música como ele desejava fazer. Não queria mais deixa-la sair do quarto, pelo menos não enquanto ele vivesse; pela primeira vez sua figura assustadora deveria tornar-se útil; queria estar em todas as portas do seu quarto ao mesmo tempo e bufar contra os agressores; mas a irmã não deveria ficar com ele coagida, e sim voluntariamente; deveria permanecer ao seu lado, sentada no sofá, baixar o ouvido até ele, quando então ele confiaria a ela que tivera a firme intenção de manda-la ao conservatório e que, se nesse meio tempo não houvesse acontecido à desgraça, teria contado isso a todos no Natal passado — será mesmo que o Natal já tinha passado? — sem se preocupar com quaisquer objeções. Depois dessa explicação, a irmã romperia em lágrimas de comoção e Gregor se levantaria até o seu ombro e beijaria o seu pescoço, que ela conservava sem fita ou colar desde que entrara na loja.

— Senhor Samsa! — bradou para o pai o inquilino do meio e com o indicador, sem perder mais palavras, mostrou Gregor, que se movia lentamente para frente.

O violino emudeceu, o inquilino do meio primeiro sorriu para seus amigos, balançando a cabeça, e depois olhou para Gregor outra vez. O pai parecia ter considerado mais urgente acalmar os inquilinos do que expulsar Gregor; estes, entretanto não estavam nem um pouco agitados e davam a impressão de que Gregor os 48

entretinha mais que o violino Correu até eles e procurou, com os braços esticados, forçá-los a ir para o quarto, ao mesmo tempo em que tentava com o corpo tirar-lhes a visão de Gregor. Então eles ficaram de fato um pouco bravos, não se sabia mais se com o comportamento do pai ou o conhecimento — que agora lhes vinha à consciência — de terem, sem saber, possuído um vizinho de quarto como Gregor. Exigiram explicações do pai, ergueram por seu turno os braços, puxaram a barba intranqüilos e só lentamente recuaram na direção do seu quarto. Nesse ínterim a irmã tinha superado o desligamento em que havia caído após a apresentação bruscamente interrompida; depois de ter ficado algum tempo com o violino e o arco nas mãos que pendiam lassas, e de ter olhado para a partitura como se ainda estivesse tocando, ela havia se recomposto de um só golpe, colocado o instrumento no colo da mãe, que ainda estava sentada na sua cadeira com dificuldades de respiração e os pulmões trabalhando freneticamente, e correra para o quarto ao lado, do qual os inquilinos, sob a pressão do pai, já se aproximavam mais rapidamente que antes. Podia-se ver como, sob as mãos experientes da irmã, voavam para o alto e se ordenavam os cobertores e travesseiros nas camas. Antes ainda que os inquilinos tivessem chegado ao quarto, ela havia terminado a arrumação das camas e se esgueirado para fora. O pai parecia outra vez acometido de tal modo da sua obstinação que esqueceu todo o respeito que ainda devia aos seus inquilinos. Pressionou, pressionou, até que, já na porta do quarto, o inquilino do meio bateu atroadoramente o pé no chão e dessa maneira fez o pai parar.

— Declaro por este meio — disse ele, erguendo a mão e procurando também a mãe e a irmã com o olhar — que eu, levando em conta as condições repulsivas reinantes nesta casa e nesta família — aqui ele cuspiu no chão, rápido e decidido, — rescindo neste momento a locação do meu quarto. Naturalmente não vou pagar o mínimo que seja nem pelos dias que aqui passei; pelo contrário, vou ainda refletir se não movo contra o senhor alguma ação com reivindicações que serão — acredite-me — muito fáceis de fundamentar.