A Metamorfose

Franz Kafka · Capítulo 3 de 16

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A Metamorfose

Quando Gregor já estava pela metade fora…

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Quando Gregor já estava pela metade fora da cama — o novo método era mais um jogo que um esforço, ele só tinha de se balançar empurrando o corpo — ocorreu-lhe como seria simples se alguém viesse ajuda-lo. Duas pessoas fortes — pensou no pai e na empregada — bastariam plenamente; precisariam apenas enfiar os braços debaixo de suas costas abauladas, destacando-o assim da cama, inclinar-se com o fardo e depois simplesmente permitir que ele efetuasse com cuidado a virada do corpo sobre o assoalho, onde então as perninhas, como era de se esperar, adquiriam um sentido.

Bem, desconsiderando inteiramente que as portas estavam fechadas, deveria mesmo chamar por socorro? Apesar de toda a sua aflição, não pôde reprimir um sorriso a esse pensamento.

Já tinha alcançado um ponto em que, a um balanço mais forte, quase não poderia manter o equilíbrio, tendo então de se decidir de uma vez, pois em cinco minutos seriam sete e quinze —

quando soou a campainha na porta do apartamento.

— É alguém da firma — disse a si mesmo e quase gelou, enquanto as perninhas dançavam mais rápidas por causa disso.

Durante um momento ficou tudo silencioso.

— Eles não vão abrir — disse Gregor consigo mesmo, preso a alguma esperança absurda.

Ma aí a empregada, natural como sempre, caminhou com passos firmes até a porta e abriu. Gregor só precisou ouvir a primeira palavra de saudação do visitante para saber quem era — o gerente em pessoa. Por que Gregor estava condenado a servir numa firma em que à mínima omissão se levantava logo a máxima suspeita? Será que todos os funcionários eram sem exceção vagabundos? Não havia, pois, entre eles nenhum homem leal e dedicado que, embora deixando de aproveitar algumas horas da manhã em prol da firma, tenha ficado louco de remorso e literalmente impossibilitado de abandonar a cama? Não bastava realmente mandar um aprendiz ir perguntar — se é que havia necessidade desse interrogatório? Tinha de vir o próprio gerente, era preciso mostrar com isso à família inteira — inocente — que a investigação desse caso suspeito só podia ser confiada à razão do gerente? E mais por causa da excitação a que foi levado por essas reflexões do que em conseqüência de uma decisão de verdade, Gregor se atirou com toda a força para fora da cama. Houve uma pancada alta, mas não propriamente um estrondo. A queda foi um pouco atenuada pelo tapete, mas as costas também eram mais elásticas do que Gregor havia pensado — daí o som surdo que não 11

chamava tanto a atenção. Ele só não tinha sustentado a cabeça com cuidado suficiente e por isso havia batido com ela; de raiva e dor, virou-a e esfregou-a no tapete.

— Caiu alguma coisa lá dentro — disse o gerente no aposento vizinho da esquerda.

Gregor tentou imaginar se não podia acontecer também ao gerente algo semelhante ao que havia sucedido hoje com ele; de fato era necessário admitir essa possibilidade. Mas como se fosse uma rude resposta a essa pergunta, o gerente deu alguns passos definidos no quarto contíguo, fazendo suas botas de verniz rangerem. Do cômodo vizinho da direita a irmã sussurrou para comunicar a Gregor:

— Gregor, o gerente está aí.

— Eu sei — disse Gregor a si mesmo, mas não ousou erguer a voz a um ponto que a irmã pudesse ouvi-lo.

— Gregor — falou então o pai, do aposento à esquerda, — o senhor gerente chegou e quer saber por que você não partiu no trem de hoje cedo. Não sabemos o que devemos dizer a ele. Aliás, ele também quer falar pessoalmente com você. Faça, portanto o favor de abrir a porta. Ele terá a bondade de desculpar a desarrumação do quarto.

— Bom dia, senhor Samsa — bradou em meio o gerente, num tom amigável.

— Ele não está bem — disse a mãe ao gerente quando o pai ainda falava junto à porta. — Ele não está bem, acredite em mim, senhor gerente. Senão como Gregor perderia um trem? Esse moço não tem outra coisa na cabeça a não ser a firma. Eu quase me irrito por ele nunca sair à noite; agora esteve oito dias na cidade, mas passou todas as noites em casa. Fica sentado à mesa conosco e lê em silencio o jornal ou estuda horários de viagem. É uma distração para ele ocupar-se de trabalhos de carpintaria. Por exemplo, durante duas ou três noites entalhou uma pequena moldura: o senhor vai ficar admirado de ver como ela é bonita; está pendurada lá dentro do quarto; o senhor vai enxerga-la assim que ele abrir.

Aliás, eu estou feliz, senhor gerente, pelo fato de o senhor estar aqui; sozinhos não iríamos conseguir que Gregor abrisse a porta; ele é tão teimoso; e certamente não está bem, embora tenha negado isso de manhã.

— Já vou — disse Gregor lenta e cautelosamente, e não se moveu para não perder uma palavra da conversa.