A Metamorfose

Franz Kafka · Capítulo 6 de 16

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A Metamorfose

Mas infelizmente a irmã não estava aqui,…

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Mas infelizmente a irmã não estava aqui, era o próprio Gregor quem precisava agir. E sem pensar que ainda não conhecia suas atuais faculdades para se mover, sem cogitar também que seu discurso possivelmente — na verdade, provavelmente — não tinha sido entendido mais uma vez, ele largou a folha da porta e se enfiou pela abertura; queria caminhar até o gerente, que já segurava ridiculamente com as duas mãos o corrimão do vestíbulo; mas logo caiu — buscando apoio e com um pequeno grito — sobre suas inúmeras perninhas. Mal isso tinha acontecido, sentiu pela primeira vez nessa manhã um bem-estar físico; como, para sua alegria, ele notou, elas obedeciam perfeitamente; esforçavam-se até para transporta-lo aonde ele queria; e Gregor já acreditava ter diante de si a melhora definitiva de todo o sofrimento. Mas no instante mesmo em que estava no chão, balançando por causa do movimento reprimido, não muito distante da mãe, na verdade bem à sua frente, ela — que parecia completamente mergulhada em si mesma —

saltou de um só golpe para o alto, com os braços bem estendidos e o dedo apontando, bradando:

— Socorro! Pelo amor de Deus, socorro!

Conservava a cabeça inclinada, como se quisesse ver gregor melhor, mas em contradição com isso retrocedia de maneira impensada; tinha esquecido que atrás dela estava a mesa ainda posta e quando a alcançou sentou-se, como que por distração, rapidamente em cima; e parecia não notar absolutamente que ao seu lado o café escorria em abundancia da grande jarra virada sobre o tapete.

— Mamãe! Mamãe! — disse Gregor baixinho e olhou para ela de baixo para cima.

Por um instante o gerente sumiu do seu pensamento; por outro lado não pôde se impedir, à vista do café que escorria, de bater no vazio várias vezes com as mandíbulas. Diante a mãe recomeçou a gritar, escapou da mesa e caiu nos braços do pai que corria ao seu encontro. Mas agora Gregor não tinha tempo para seus pais; o gerente já estava na escada; com o queixo em cima do corrimão ele ainda olhou para trás uma última vez. Gregor tomou impulso para alcança-lo com a maior certeza possível; o gerente deve ter pressentido alguma coisa, pois deu um salto sobre vários degraus e desapareceu; ainda gritou “ui!” e o grito ressoou por toda a escadaria. Infelizmente a fuga do gerente pareceu perturbar por completo o pai, que até então estado relativamente sereno; pois ao invés de correr, ele próprio, atrás do gerente, ou pelo menos não 19

impedir Gregor de persegui-lo, agarrou com a mão direita a bengala do gerente, que este havia deixado com o chapéu e o, sobretudo em cima de uma cadeira, pegou com a esquerda um grande jornal da mesa e, batendo os pés, brandindo a bengala e o jornal, pôs-se a tocar Gregor de volta ao seu quarto. Nenhum pedido de Gregor adiantou, nenhum pedido também foi entendido; por mais humilde que inclinasse a cabeça, com tanto mais força o pai batia os pés. Do outro lado a mãe, apesar do tempo frio, tinha aberto uma vidraça e, curvada para fora, bem distante da janela, comprimia o rosto nas mãos. Entre a rua e a escadaria formou-se uma forte corrente de ar, as cortinas inflaram, os jornais sobre a mesa começaram a rumorejar, algumas folhas voavam para o chão. Implacável, o pai pressionava, emitindo silvos como um selvagem. Mas Gregor ainda não tinha prática de andar para trás, as coisas iam realmente muito devagar. Se pudesse apenas girar o corpo, logo estaria no seu quarto, mas temia tornar o pai impaciente com essa operação que demandava tempo — e a todo instante a bengala na mão dele o ameaçava com um golpe mortal nas costas ou na cabeça. Mas no fim não restou a Gregor outra coisa senão isso, pois ele notou com horror que, andando para trás, não sabia nem mesmo manter a direção; e assim, lançando olhares incessantes e angustiados para o lado do pai, começou a dar a volta, tão rápido quanto possível, na realidade, porém muito lentamente. Talvez o pai tenha percebido sua boa vontade, pois nesse lance não o perturbou, mas até dirigiu, aqui e ali, à distância, o movimento giratório com a ponta da bengala. Se apenas não houvesse esse sibilo insuportável do pai!

Gregor perdia completamente a cabeça por causa disso. Já tinha feito a volta quase por completo quando, sempre ouvindo o silvo, se enganou e retrocedeu outra vez um pouco para a posição original.

Mas quando enfim estava com a cabeça diante da abertura da porta, feliz, verificou que seu corpo era demasiado largo para passar sem mais por ela. Ao pai, naturalmente, na sua condição atual, não ocorreu nem mesmo remotamente abrir a outra folha da porta, para oferecer a Gregor passagem suficiente. Sua idéia fixa era simplesmente que Gregor voltasse o mais rápido possível para o quarto. Jamais teria permitido os preparativos minuciosos de que Gregor necessitava para levantar-se e, talvez desse modo, passar pela porta. Ao invés disso, impelia agora Gregor com um ruído excepcional, como se não existisse nenhum obstáculo; a voz atrás dele já não soava como a de um pai apenas; realmente já não era uma brincadeira e Gregor forçou — acontecesse o que quisesse — a 20

entrada pela porta. Um lado do seu corpo se ergueu, permaneceu torto na abertura da porta, um dos seus flancos se esfolou inteiro, na porta branca ficaram manchas feias, ele logo se entalou e não poderia mais mover-se sozinho — as perninhas de um lado pendiam trêmulas no ar, as do outro comprimiam-se doloridas no chão —

quando o pai desferiu, por trás, um golpe agora de fato possante e liberador e ele voou, sangrando violentamente, bem para dentro do seu quarto. A porta foi fechada ainda com a bengala, depois houve por fim silêncio.