A Metamorfose
— Que vida tranqüila a família levava!…
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— Que vida tranqüila a família levava! — disse Gregor a si mesmo e sentiu, enquanto fitava o escuro diante dele, um grande orgulho por ter podido proporcionar aos seus pais e à irmã uma vida assim, num apartamento tão bonito. Mas como seria agora, se todo o sossego, todos o bem-estar, toda a satisfação chegasse assustadoramente ao fim? Para não se perder nesses pensamentos, Gregor preferiu pôr-se em movimento, rastejando de cá para lá no quarto.
Uma vez durante a longa noite foi aberta uma porta lateral, depois a outra, até uma pequena fresta, mas foram rapidamente fechadas de novo. Decerto alguém sentira necessidade de entrar, mas logo tivera também muitas dúvidas. Gregor postou-se então bem junto à porta que dava para a sala de estar, disposto a fazer de alguma forma visitante indeciso entrar, ou pelo menos ficar sabendo quem era; mas aí a porta não foi mais aberta e ele esperou em vão.
Antes, quando as portas estavam fechadas, todos queriam entrar para vê-lo, agora que ele havia aberto uma porta e as outras evidentemente tinham sido abertas durante o dia, ninguém mais vinha e as chaves estavam na fechadura também do lado de fora.
Só tarde da noite se apagou a luz da sala de estar e então foi fácil verificar que os pais e a irmã tinham ficado acordados todo esse tempo, pois — como se podia ouvir nitidamente — os três agora se afastavam na ponta dos pés. Sem dúvida ninguém mais entraria para ver o Gregor até à manhã do dia seguinte; tinha, portanto um tempo longo para refletir sem ser perturbado sobre a maneira como deveria agora reorganizar a sua vida. Mas o quarto alto e vazio, no qual era forçado a permanecer de bruços no chão, o angustiava, sem que pudesse descobrir a causa, pois afinal era o quarto habitado há cinco anos por ele — e com uma virada semi-inconsciente e não sem uma ligeira vergonha, precipitou-se para debaixo do canapé onde, embora as costas ficassem um pouco prensadas e não pudesse mais erguer a cabeça, ele logo se sentiu aconchegado, lamentando apenas que seu corpo fosse largo demais para se abrigar inteiramente sob o canapé.
Ali passou a noite inteira, em parte num semi-sono do qual a fome continuamente o acordava com um sobressalto, em parte às voltas com preocupações e esperanças imprecisas que levavam à 23
conclusão de que no momento precisava manter-se calmo e tornar suportáveis, pela paciência e pela máxima consideração com a família, as inconveniências que estava simplesmente compelido a lhe causar no seu estado atual.
Já de madrugada — ainda era quase noite — Gregor teve oportunidade de testar a força das decisões que acabava de tomar, pois a irmã, já quase completamente vestida, abriu a porta do seu quarto que dava para a ante-sala, e olhou ansiosa para dentro do quarto. Não o descobriu logo, mas, ao percebê-lo embaixo do sofá —
santo Deus, em algum lugar de havia de estar, não podia ter voado embora! — ela se assustou tanto que, incapaz de se dominar, fechou a porta outra vez por fora. Mas, como se se arrependesse do seu comportamento, abriu-a de novo e entrou na ponta dos pés, como se fosse o quarto de um doente grave ou mesmo de um estranho. Gregor tinha esticado a cabeça até a beira do sofá e a observava. Será que ela notaria que ele nem tinha tocado no leite —
e não, de forma alguma, por falta de fome? E será que traria outra comida
mais
adequada
para
ele?
Se
o
não
o
fizesse
espontaneamente, ele preferiria morrer de fome a chamar sua atenção para isso, embora na verdade sentisse uma pressão medonha para disparar de debaixo do sofá, atirar-se aos pés da irmã e pedir-lhe alguma coisa de comer. Mas a irmã percebeu de pronto, com espanto, que a tigela estava ainda cheia, em volta da qual estava esparramado um pouco de leite, ergueu logo a tigela do chão — na realidade, não com as mãos nuas, mas com um trapo —
e levou-a para fora. Gregor estava extremamente curioso para saber o que ela traria em substituição ao leite, fazendo as mais variadas conjecturas a esse respeito. Mas jamais teria podido adivinhar o que, na sua bondade, a irmã de fato fez. Ela trouxe, para testar o seu gosto, todo um sortimento, espalhado sobre um jornal velho.
Havia ali legumes já passados, meio apodrecidos, ossos do jantar da noite anterior, rodeados por um molho branco já endurecido; algumas passas e amêndoas; um queijo que, dois dias antes, Gregor tinha declarado intragável; um pão seco, um pão com manteiga sem sal e outro com manteiga salgada. Além de tudo ela ainda acrescentou a tigela — provavelmente destinada de uma vez por todas a Gregor — na qual havia despejado água. E por delicadeza, 24
pois sabia que ele não comeria na sua frente, afastou-se o mais rápido possível e até girou a chave na fechadura, para que ele fosse capaz de perceber que poderia ficar tão à vontade quanto quisesse. As perninhas de Gregor zuniam quando ele foi comer. De resto os seus ferimentos deviam estar completamente curadas: não sentia mais nenhum impedimento, admirou-se com isso e ficou pensando como, mais de um mês antes, tinha cortado um pouco o dedo com uma faca e como, ainda anteontem, esse ferimento causava bastante dor.
— Será que agora eu tenho menos sensibilidade? — pensou e chupou vorazmente o queijo, que o atraíra de maneira imediata e enérgica acima de todos os outros alimentos.
Rapidamente, um atrás do outro, com lágrimas de satisfação nos olhos, ele devorou o queijo, os legumes e o molho; a comida fresca, ao contrário, não o agradava, nem mesmo o seu cheiro ele conseguia suportar, chegou até a arrastar um pouco para longe as coisas que queria comer. Tinha terminado tudo fazia tempo, e já estava deitado preguiçosamente no mesmo lugar, quando a irmã, para mostrar que ia voltar, virou lentamente a chave. Isso o sobressaltou de imediato, embora já quase cochilando, e ele correu novamente para debaixo do sofá. Mas custou-lhe grande esforço de autodomínio para permanecer sob o canapé, mesmo pelo breve tempo em que a irmã esteve no quarto, pois com a refeição copiosa seu corpo tinha se arredondado um pouco e ali no aperto ele mal conseguia respirar. Em meio a pequenos acessos de asfixia, ficou observando, com os olhos um tanto fora das órbitas, a irmã, que não suspeitava de nada, juntar com uma vassoura não só os restos, mas também os alimentos que não tinham sido tocados por Gregor
— como se estes também não pudessem mais ser aproveitados, —
despejar tudo às pressas num balde, que ela fechou com uma tampa de madeira e depois carregou para fora. Mal a irmã tinha virado as costas, Gregor saiu de debaixo do sofá, distendeu o corpo e se encheu de ar.
Agora era dessa maneira que recebia diariamente sua alimentação, uma vez pela manhã, quando os pais e a empregada ainda dormiam, e a segunda depois do almoço, pois os pais dormiam igualmente um pouquinho e a empregada era despachada 25
pela irmã com alguma incumbência. Certamente os pais também não queriam que Gregor morresse de fome, mas talvez não suportassem tomar conhecimento da sua alimentação mais do que por ouvir dizer; talvez fosse possível também que a irmã quisesse poupa-los de uma pequena tristeza, uma vez que de fato eles já sofriam bastante.
Com que desculpas o médico e o serralheiro foram mandados embora da casa, naquela manhã, Gregor não pôde ficar sabendo: visto que não era entendido, ninguém, nem mesmo a irmã, pensava que ele podia entender os outros; e assim, quando a irmã estava no seu quarto, ele tinha de se contentar em ouvir, aqui e ali, seus suspiros e invocações aos santos. Só mais tarde, quando ela havia se habituado um pouco a tudo — naturalmente não se podia nunca falar em hábito completo, — Gregor às vezes apreendia uma observação amigável ou que podia ser interpretada como tal:
— Hoje, sim, ele gostou do jantar — ela dizia, quando Gregor tinha limpado para valer toda a comida; ao passo que, no caso contrário —que aos poucos se repetia numa freqüência cada vez maior, — costumava dizer quase com tristeza:
— Deixou tudo outra vez.
Mas ao passo que não podia tomar conhecimento imediato de qualquer novidade, Gregor escutava muita coisa vinda dos quartos vizinhos, e onde quer que ouvisse vozes corria logo à respectiva porta e se espremia nela com o corpo todo. Especialmente nos primeiros tempos não havia conversa que de algum modo não tratasse dele, mesmo em segredo. Durante dois dias, em todas as refeições, podiam se ouvir confabulações sobre como agora deviam se comportar; mas também entre refeições se falava do mesmo tema, pois em casa estavam sempre pelo menos dois membros da família, já que ninguém queria ficar sozinho em casa e não se podia de maneira alguma abandonar totalmente o apartamento. Logo no primeiro dia a empregada — não estava muito claro o que e o quanto sabia do sucedido — pediu de joelhos à mãe que a dispensasse imediatamente do emprego, e quando, um quarto de hora mais tarde, se despediu, agradeceu em lágrimas pela dispensa, bem como pelo grande favor que ali lhe faziam, prestando — sem 26
que se exigisse isso dela — o solene juramento de não revelar a ninguém o mínimo que fosse.
A irmã então teve também de cozinhar junto com a mãe; no entanto isso não exigia muito esforço, pois não se comia quase nada. Constantemente Gregor ouvia como um exortava o outro inutilmente a comer, sem receber outra resposta senão “obrigado, estou satisfeito” ou coisa semelhante. Talvez também não se bebesse nada. Muitas vezes a irmã perguntava ao pai se ele queria cerveja, oferecendo-se cordialmente a ir busca-la ela mesma e, quando o pai silenciava, dizia, para desfazer qualquer escrúpulo da parte dele, que podia também mandar a zeladora do prédio buscar; mas então o pai dizia finalmente em grande “não” e não se falava mais nisso.
Já no decorrer do primeiro dia o pai expôs toda a situação financeira e as perspectivas da família a mãe e a irmã. De quando em quando ele se levantava da mesa e pegava, no pequeno cofre-forte que tinha resgatado da falência do seu negócio, ocorrida cinco anos antes, algum documento ou livro de notas. Ouvia-se como ele destravava a complicada fechadura e a fechava outra vez, depois de apanhar o que procurava. Essas explicações do pai foram em parte a primeira coisa agradável que Gregor escutou desde a sua reclusão. Ele achava que daquele negócio não havia sobrado absolutamente nada para o pai — pelo menos o pai não lhe dissera nada em sentido contrário e, seja como for, Gregor também não o havia interrogado a esse respeito. A preocupação de Gregor na época tinha sido apenas fazer tudo para a família esquecer o mais rápido possível a desgraça comercial, que havia levado todos a um estado de completa desesperança. E assim começara a trabalhar com um fogo muito especial e, quase da noite para o dia, passara de simples
empregado
de
escritório
a
caixeiro-viajante,
que
naturalmente tinha possibilidades bem diversas de ganhar dinheiro e cujos êxitos no trabalho se transformaram imediatamente, na forma de provisões, em dinheiro sonante que podia ser posto na mesa diante da família espantada e feliz. Tinham sido bons tempos e nunca se repetiram, pelo menos não com esse brilho embora mais tarde Gregor ganhasse tanto dinheiro que era capaz de assumir — e de fato assumiu — as despesas de toda a família. Tanto a família 27
como Gregor acostumaram-se a isso: aceitava-se com gratidão o dinheiro, ele o entregava com prazer, mas disso não resultou mais nenhum calor especial. Só a irmã ainda havia permanecido próximo a Gregor e o plano secreto dele era mandá-la no próximo ano ao Conservatório, sem pensar nos altos custos que isso representava, os quais seriam ressarcidos de outro modo; pois ela, diferentemente de Gregor, gostava muito de música e sabia tocar violino de forma comovente. Várias vezes durante as curtas estadas de Gregor na cidade mencionou-se o Conservatório nas conversas com a irmã, mas sempre apenas como um belo sonho, em cuja realização não se podia pensar, e os pais não gostavam de escutar nem mesmo essas menções inocentes; Gregor, porém pensava nisso de maneira muito definida e tinha a intenção de anunciar solenemente na noite de Natal.
Esses pensamentos, completamente inúteis no seu estado atual, passaram-lhe pela cabeça quando ele, de pé, estava colado à porta escutando. Às vezes, em virtude do cansaço geral, não conseguia de modo algum continuar ouvindo — e por descuido deixou a cabeça bater na porta; segurou-a, porém imediatamente outra vez, pois mesmo o pequeno ruído que assim havia provocado tinha sido escutado do outro lado, e feito com que todos silenciassem.
— O que é que ele está outra vez fazendo? — disse o pai depois de um intervalo, evidentemente voltado para a porta; e só aí a conversa interrompida foi aos poucos retomada.
Gregor tomou então pelo conhecimento — pois o pai costumava se repetir muitas vezes nas suas explicações, em parte porque ele mesmo não se ocupava havia muito tempo das coisas, em parte também a mãe não entendia tudo na primeira vez — de que, apesar de toda a desgraça, ainda restava dos velhos tempos um pecúlio, de qualquer modo bem pequeno, que os juros não tocados nesse tinham feito crescer alguma coisa. Mas, além disso, o dinheiro que Gregor trouxera todos os meses para casa — ele só reservava alguns florins para si mesmo — não tinha sido gasto e formara um pequeno capital. Atrás da sua porta, Gregor meneou vivamente a cabeça, satisfeito com a inesperada previdência e senso de economia. Na verdade poderia ter pago, com essa sobra de 28
dinheiro, mais uma parte da dívida do pai ao chefe, e com isso estaria muito mais próximo o dia em que poderia se livrar do emprego; mas agora era indubitavelmente melhor assim do modo como o pai havia arranjado as coisas.
Entretanto esse dinheiro não bastava de maneira alguma para permitir que a família vivesse de renda; talvez fosse suficiente para sustenta-la um no máximo dois anos, não mais que isso. Era, portanto meramente uma soma que não se poderia tocar e que precisava ser reservada para uma emergência; mas o dinheiro para viver tinha de ser ganho. Ora, o pai era na verdade um homem saudável, porém velho, que não trabalhava fazia cinco anos e que, seja como for, não podia se exceder; nesses cinco anos, que foram as primeiras férias da sua vida estafante e, no entanto malograda, ele havia engordado muito e com isso se tornado bastante moroso. E a velha mãe, que sofria de asma, a quem uma caminhada pelo apartamento já era um esforço, e que, dia sim dia não, passava o dia no sofá, junto à janela aberta, com dificuldades de respiração — deveria ela agora, por acaso, ganhar dinheiro? E deveria ganhar dinheiro à irmã, que dezessete anos era ainda uma criança e cujo estilo de vida até agora dava gosto de ver, consistindo em vestir roupas bonitas, dormir bastante, ajudar a cuidar da casa, participar de algumas diversões modestas e, acima de tudo tocar violino?
Quando a conversa chegava a essa necessidade de ganhar dinheiro, Gregor se soltava da porta e se atirava sobre o frio sofá de couro que se encontrava ao lado, pois ficava ardendo de vergonha e tristeza.
Freqüentemente passava noites inteiras deitado ali, sem dormir um instante, apenas arranhando o couro durante horas. Ou então não fugia ao grande esforço de empurrar uma cadeira até a janela, para depois rastejar rumo ao peitoril e, escorado na cadeira, inclinar-se sobre a janela — evidentemente em nome de alguma lembrança do sentimento de liberdade que outrora lhe dava olhar pela janela. Pois efetivamente ele enxergava dia a dia com menos acuidade as coisas mesmo pouco distantes; o hospital defronte, cuja visão freqüente demais ele antes amaldiçoava, já não estava mais ao alcance da sua vista; e se ele não soubesse exatamente que morava na calma — embora inteiramente urbana — rua Charlotte, poderia acreditar que da sua janela estava olhando para um deserto, no qual o céu cinzento e a terra cinzenta se uniam sem se distinguirem um do outro. A atenta irmã precisou ver só duas vezes que a cadeira estava junto à janela para, assim que arrumava o quarto, empurra-la de novo precisamente para o mesmo lugar, daí por diante deixou aberta até a folha interna da janela.
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Se ao menos tivesse podido conversar com a irmã e agradecer tudo o que ela precisava fazer por ele, Gregor teria aceitado mais facilmente os seus serviços; assim, porém, eles o faziam sofrer.
Certamente a irmã procurava apagar ao máximo o que havia de penoso em tudo isso, e quanto mais o tempo passava, tanto mais, naturalmente, ela o conseguia, mas Gregor também devassava tudo com muito maior clareza. Já a entrada dela era terrível para ele. Mal havia entrado, sem se dar tempo para fechar a porta, por mais que de resto cuidasse em poupar a qualquer um a visão do quarto de Gregor, ela corria direto à janela e a escancarava com mãos apressadas, quase como se sufocasse, ali permanecendo um pouquinho — mesmo que o tempo ainda estivesse muito frio —
enquanto respirava profundamente. Com essa corrida e esse barulho ela assustava Gregor duas vezes por dia; durante todo esse tempo ele tremia debaixo do sofá, sabendo muito bem que ela sem dúvida gostaria de poupa-lo disso, caso lhe fosse possível ficar num quarto com janelas fechadas onde Gregor se encontrava.
Certa vez — já havia passado bem um mês desde a metamorfose de Gregor, não existindo, pois, mais nenhum motivo especial para a irmã se espantar à vista dele — ela veio um pouco mais cedo que de costume e o encontrou quando ele ainda olhava pela janela, imóvel e, portanto numa posição propícia para assustar.
Se ela não houvesse entrado, não teria sido uma surpresa para Gregor, uma vez que a posição dele a impedia de abrir imediatamente a janela; mas não só ela não entrou, como também recuou e fechou a porta; um estranho poderia ter pensado que ele estivera à sua espreita porque queria morde-la. Naturalmente ele se escondeu logo debaixo do sofá, mas teve de esperar até o meio-dia antes que a irmã voltasse, e ela parecia muito mais inquieta que de hábito. Por aí Gregor reconheceu que a visão dele continuava sendo insuportável para ela — e assim haveria de permanecer — e que seguramente ela precisava fazer um grande esforço para não sair correndo à vista mesmo da pequena parte do seu corpo que sobressaía sob o sofá. Para poupar-lhe também essa visão, um dia ele arrastou o lençol nas costas até o sofá — levou quatro horas para realizar esse trabalho — e o dispôs de tal maneira que agora ficava inteiramente coberto e a irmã não podia vê-lo nem que se 30
agachasse. Se na opinião dela esse lençol tivesse sido desnecessário, então ela poderia tê-lo retirado, pois estava suficientemente claro que não fora por prazer que Gregor havia se isolado de modo tão completo; mas ela deixou o lençol como estava e Gregor acreditou até mesmo ter apreendido um olhar de gratidão, quando uma vez levantou o lençol cautelosamente com a cabeça, para ver como a irmã acolhia a nova instalação.
Nas duas primeiras semanas os pais não conseguiram vencer a própria resistência para entrar no quarto de Gregor e vê-lo, e com freqüência ele ouvia como reconheciam plenamente o trabalho da irmã, ao passo que até então tinham muitas vezes se irritado com ela, porque lhes parecera uma moça algo inútil. Mas agora ambos, pai e mãe, aguardavam diante do quarto Gregor enquanto a irmã fazia a arrumação, e mal ela tinha saído, precisava contar exatamente como estavam as coisas no quarto, o que Gregor havia comido, como se comportara desta vez e se por acaso era possível notar uma pequena melhora. A mãe, aliás, quis visitar Gregor relativamente cedo, mas o pai e a irmã a impediram, a principio com argumentos racionais, que Gregor escutou com muita atenção e aprovou inteiramente. Mais tarde, porém, foi necessário que a contivessem a força, quando então ela exclamou:
— Deixem-me ver Gregor, ele é o meu pobre filho! Vocês não entendem que eu preciso vê-lo?
Gregor pensou então que talvez fosse bom se a mãe entrasse, naturalmente não todos os dias, mas quem sabe uma vez por semana; ela sabia das coisas muito melhor que a irmã, a qual, apesar de toda a sua coragem, era apenas uma criança e em última análise talvez só tivesse assumido uma tarefa tão pesada por leviandade infantil.
O desejo de Gregor de ver a mãe se realizou logo. Em consideração pelos pais, durante o dia ele não queria mostrar-se à janela; mas nos poucos de chão também não podia se arrastar muito; já durante a noite suportava mal ficar deitado quieto; a comida logo não lhe oferecia o menor prazer; e assim, para se distrair, ele adotou o hábito de ziguezaguear pelas paredes e pelo teto. Gostava particularmente de ficar pendurado no teto; era muito diferente de permanecer deitado no chão; respirava-se com mais 31
liberdade; uma ligeira vibração atravessava seu corpo; e, na distração quase feliz em que Gregor lá se encontrava, podia acontecer que, para sua própria surpresa, ele se soltasse e estatelasse no chão. Naturalmente tinha agora sobre o corpo um poder muito diverso do que antes e mesmo com uma queda tão grande como essa não infligia danos a si mesmo. A irmã notou logo a nova diversão que Gregor havia descoberto — ao rastejar ele deixava aqui e ali vestígios da sua substância adesiva — e então ela pôs na cabeça que devia dar a George a possibilidade de rastejar na extensão máxima do quarto, retirando os móveis que o obstavam, sobretudo o armário e a escrivaninha. Mas não era capaz de fazer tudo sozinha; o auxílio do pai ela não ousava pedir; com toda a certeza a empregada não a teria ajudado, pois essa jovem, de cerca de dezesseis anos, resistia, na verdade bravamente, desde a dispensa da antiga cozinheira, mas tinha pedido o favor de poder conservar cozinha constantemente fechada, só precisando abri-la a um chamado especial; assim, não restou à irmã outra coisa senão ir buscar a mãe, certa vez que o pai estava ausente. A mãe veio com exclamações de excitada alegria, mas silenciou junto à porta do quarto de Gregor. Naturalmente a irmã verificou primeiro se no quarto estava tudo em ordem; só depois deixou a mãe entrar. Na maior pressa, Gregor havia puxado o lençol mais fundo e com mais dobras, o conjunto parecia de fato um lençol atirado ao acaso sobre o sofá. Também desta vez Gregor deixou de espionar de debaixo do lençol; renunciou a ver a mãe por enquanto, e ficou contente por ela ter vindo.
— Venha, não dá para vê-lo — disse a irmã e evidentemente conduziu a mãe pela mão.
Gregor então ouviu como as duas frágeis mulheres removeram do lugar o armário velho e pesado e como a irmã sempre insistia em assumir a parte maior do trabalho, sem dar ouvidos às advertências da mãe, que temia que ela se esforçasse demais. Isso durou muito tempo. Já ao fim de um quarto de hora de trabalho a mãe disse que era melhor deixar o armário ali, pois em primeiro lugar ele era pesado demais, elas não terminariam antes da chegada do pai e atravancariam qualquer passagem de Gregor com o armário no meio do quarto; em segundo, não era nada certo que se fizesse um favor a 32
Gregor com a retirada dos móveis. A ela parecia que se dava justamente o contrário; a visão da parede nua oprimia-lhe francamente o coração; e por que Gregor não devia ter esse mesmo sentimento, uma vez que estava acostumado há tanto tempo aos móveis e iria, portanto se sentir abandonado no quarto vazio? E
numa voz bem baixa, quase sussurrando, como se quisesse evitar que Gregor — cuja localização exata não conhecia — ouvisse até mesmo o som da voz, pois estava convencida de que ele não entendia as palavras, a mãe concluiu:
— Não é como se nós mostrássemos, retirando os móveis, que renunciamos a qualquer esperança de melhora e o abandonamos a própria sorte, sem nenhuma consideração? Creio que o melhor seria tentarmos conservar o quarto exatamente no mesmo estado em que estava antes, a fim de que Gregor, ao voltar outra vez para nós, encontre tudo como era e possa desse esquecer mais facilmente o que aconteceu no meio tempo.
Ao ouvir essas palavras da mãe, Gregor reconheceu que a falta de qualquer comunicação humana imediata, ligada à vida uniforme da família, devia ter confundido o seu juízo no decorrer desses dois meses, pois não podia explicar de outro modo que tivesse podido exigir a sério que seu quarto fosse esvaziado. Tinha realmente vontade de mandar que seu quarto — confortavelmente instalado com móveis herdados — se transformasse numa toca em que pudesse então certamente se arrastar imperturbado em todas as direções, ao preço, contudo do esquecimento simultâneo, rápido e total do seu passado humano? De fato agora já estava próximo de esquecer, e só a voz da mãe, que havia muito tempo não escutava, o havia sacudido. Nada deveria ser afastado; tudo deveria permanecer, não podia se privar dos bons influxos dos móveis sobre o seu estado; e se os móveis o impediam de rastejar em roda sem objetivo, então isso não era um prejuízo, mas sim uma grande vantagem.
Mas infelizmente a irmã tinha outra opinião; ela havia se habituado — seja como for, de uma maneira inteiramente justificada — a se apresentar diante dos pais, nas conversas sobre as questões de Gregor, como perita, e assim, também agora, o conselho da mãe foi motivo suficiente para a irmã insistir na retirada não apenas do armário e da escrivaninha — na qual ela no 33
início tinha pensado — mas também na de todos os móveis, com exceção do indispensável sofá. Naturalmente não era apenas a teimosia infantil a autoconfiança, adquirira nos últimos tempos que a levara a essa experiência, de um modo tão inesperado e difícil; ela tinha também observado efetivamente que Gregor precisava de muito espaço para rastejar, ao passo que — até onde podia ver —
não usava o mínimo que fosse os móveis.
Mas talvez também desempenhasse aí um papel aquele espírito entusiasta das jovens de sua idade, que busca se satisfazer em qualquer ocasião, e através do qual Grete agora se deixava atrair ao querer tornar a situação de Gregor mais assustadora, a fim de poder então realizar por ele mais ainda do que até agora. Pois num espaço em que Gregor dominasse inteiramente só as paredes vazias, com certeza ninguém, a não ser Grete, jamais se atreveria a penetrar.
E assim ela não se deixou desviar da sua decisão pela mãe, que também parecia insegura, naquele quarto, com tanta inquietação; logo emudeceu e ajudou a filha, na medida das suas forças, a transportar o armário para fora. Bem, no caso de necessidade Gregor ainda podia se privar do armário, mas a escrivaninha tinha de ficar. E mal as mulheres tinham deixado o quarto com o armário, de encontro ao qual se comprimiam gemendo, Gregor pôs a cabeça para fora, de sob o sofá, para ver como poderia intervir com cuidado e o máximo de consideração.
Mas por infelicidade foi justamente à mãe a primeira a voltar, enquanto Grete, no quarto vizinho, abraçava o armário e sozinha o jogava de lá para cá, naturalmente sem tira-lo do lugar. Mas a mãe não estava acostumada à visão de Gregor; poderia faze-la ficar doente; e por isso ele foi de marcha à ré, assustado, até a outra extremidade do sofá, mas sem poder mais impedir que o lençol à frente se mexesse um pouco. Isso bastou para chamar a atenção da mãe. Ela parou de repente, ficou um instante quieta e depois voltou para a companhia de Grete.
Embora Gregor dissesse continuamente a si mesmo que não estava acontecendo nada de extraordinário, que apenas alguns móveis seriam trocados de lugar, aquele ir-e-vir das mulheres, seus curtos chamados, o arrastar de móveis no chão, produziam nele —
como logo teve de admitir — o efeito de um grande tumulto alimentado por todos os lados, e ele precisou dizer consigo mesmo, 34
por mais que encolhesse a cabeça e as pernas, e espremesse o corpo no chão, que não ia agüentar tudo aquilo por muito tempo. Elas lhe esvaziaram o quarto, privavam-no de tudo o que lhe era caro; já tinham carregado para fora o armário em que se achavam a serra e outras ferramentas; soltavam agora a escrivaninha fortemente cravada no chão, na qual havia escrito suas lições como estudante de comércio, ginasiano e até como escolar — então realmente não tinha mais tempo para testar as boas intenções das duas mulheres, cuja existência, aliás, já havia quase esquecido, pois elas trabalhavam mudas de cansaço e só ouvia a pesada batida dos seus pés.
E com isso ele irrompeu para fora — nesse exato momento as mulheres estavam no quarto vizinho, apoiadas na escrivaninha para tomar um pouco de fôlego, — mudou de direção quatro vezes, realmente não sabia o que salvar primeiro então viu, saliente na parede de resto vazia, a imagem pendurada da dama toda vestida de peles, rastejou as pressas para o alto e comprimiu-se contra o vidro, que o reteve e fez bem à sua barriga quente. Pelo menos essa imagem, que Gregor agora cobria pó completo, ninguém certamente levaria embora. Ele torceu a cabeça em direção à porta da sala de estar, para observar o retorno das mulheres.
Elas não tinham se concedido muito descanso e já estavam voltando; Grete havia colocado o braço em torno da mãe e quase a arrastava.
— Bem, o que vamos levar agora? — disse Grete e olhou em volta.
Então os olhares dela cruzaram-se com os de Gregor na parede. Sem dúvida só por causa da presença da mãe ela manteve a compostura; inclinou o rosto para a mãe a fim de evitar que esta olhasse ao seu redor e disse — seja como for, trêmula e sem refletir:
— Venha, é melhor voltarmos um instante para a sala de estar.
Para Gregor a intenção de Grete era clara, ela queria pôr a mãe a salvo e depois enxotá-lo parede abaixo. Bem ela que tentasse! Ele estava sentado em cima da sua imagem e não ia entrega-la. Preferia antes saltar no rosto de Grete.
Mas as palavras de Grete haviam na verdade intranqüilizado a mãe; ela deu um passo para o lado, divisou a gigantesca mancha 35 marrom no papel da parede florido e, antes que realmente chegasse à sua consciência que o que ela via era Gregor, exclamou com voz esganiçada e áspera:
— Ai, meu Deus! Ai, meu Deus!
Como se desistisse de tudo, ela caiu de braços abertos sobre o sofá, não se móvel.
— Você, Gregor! — gritou a irmã com um punho cerrado erguido na sua direção e olhos penetrantes.
Eram as primeiras palavras que endereçava diretamente a ele desde a metamorfose. Correu ao quarto vizinho para pegar alguma essência com que pudesse despertar a mãe do desmaio; Gregor queria também ajudar — para salvar o quadro ainda havia tempo —
mas estava firmemente colado ao vidro e precisava se soltar à força; depois correu também para o quarto vizinho, como se pudesse, à maneira de antigamente, dar algum conselho à irmã; mas aí teve de ficar bem atrás dela sem fazer nada; enquanto vasculhava em diversos frascos ela, ao girar o corpo, ainda levou um susto; uma garrafa caiu no chão e se quebrou; um estilhaço feriu Gregor na cara, algum remédio corrosivo escorreu por ele; Grete então pegou, sem mais de deter, quantos frascos podia segurar e disparou com eles em direção à mãe; a porta ela bateu com o pé. Gregor ficou então isolado da mãe, que por culpa sua talvez estivesse perto da morte; não podia abrir a porta, se não quisesse afugentar a irmã que precisava permanecer junto à mãe; agora não tinha outra coisa a fazer senão esperar; e oprimido por autocensuras e apreensão começou a rastejar — rastejou por cima de tudo, paredes, móveis, teto, e no seu desespero, quando todo o quarto começou a virar ao seu redor, caiu finalmente em cima da grande mesa.
Finalmente, acossado pelo desespero, viu a sala a andar a roda e caiu no meio da grande mesa.
Passou um pouco de tempo; Gregor jazia ali, extenuado, em torno estava silencioso, talvez isso fosse um bom sinal. Então soou a campainha da porta. A empregada, naturalmente, estava encerrada na sua cozinha e por isso Grete precisava ir abrir a porta.
O pai tinha chegado.
— O que aconteceu? — foram suas primeiras palavras; a aparência de Grete sem dúvida havia denunciado tudo.