A Metamorfose
Grete respondeu com voz abafada, obviamente comprimia…
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Grete respondeu com voz abafada, obviamente comprimia o rosto no peito do pai.
— A mãe desmaiou, mas agora já está melhor. Gregor escapou.
— Eu já esperava — disse o pai. — Eu sempre disse isso a vocês, mas vocês as mulheres não quiseram me ouvir.
Para Gregor era evidente que o pai havia interpretado mal a comunicação demasiado breve de Grete e assumido que Gregor era culpado de algum ato de violência. Por isso ele agora precisava aplacar o pai, pois não tinha tempo nem possibilidade de esclarece-lo. E assim se refugiou junto à porta do seu quarto, apertando-se contra ela, para que o pai, ao entrar — vindo da ante-sala, —
pudesse logo ver que Gregor tinha melhor intenção de voltar imediatamente ao seu quarto, e que não era necessário toca-lo para lá, mas apenas abrir a porta para que lê num instante desaparecesse.
Mas o pai não estava num estado de ânimo capaz de notar essas sutilezas.
— Ah! — exclamou logo à entrada, num tom de quem está ao mesmo tempo furioso e contente.
Gregor recuou a cabeça da porta e ergueu-a na direção do pai.
Realmente não o tinha imaginado assim como ele ali estava; seja como for, absorvido nos últimos tempos pela novidade de rastejar, deixara de se ocupar como antes com os acontecimentos no resto da casa e na verdade precisaria estar preparado para encontrar as coisas mudadas. Apesar disso, apesar disso — era aquele ainda o seu pai? O mesmo homem que costumava ficar enterrado na cama exausto, quando Gregor partia para uma viagem de negócios; que nas noites de regresso o recebia de roupão na cadeira de braços; que era absolutamente incapaz de se levantar, apenas erguendo os braços em sinal de alegria, e que nos raros passeios de família, em alguns domingos do ano e nos feriados principais, caminhava com esforço entre Gregor e a mãe — que por si sós já andavam devagar
— um pouco mais devagar ainda, embrulhado no seu velho casaco, apoiando-se sempre com cuidado na muleta e que, quando queria dizer alguma coisa, quase sempre parava e reunia em torno de si os acompanhantes? Agora, porém ele estava muito ereto, vestido com um uniforme azul justo, de botões dourados, como usam os contínuos de instituições bancárias; sobre o colarinho alto e duro do casaco se desdobrava o forte queixo duplo; sob as sobrancelhas 37
cerradas os olhos escuros emitiam olhares vívidos e atentos; o cabelo branco, outrora desgrenhado, estava penteado com uma risca escrupulosamente exata e luzidia.
Atirou o quepe — no qual estava gravado um monograma dourado, provavelmente de um banco — até o sofá, descrevendo um arco por todo o quarto, e caminhou para Gregor, o rosto irascível, as mãos nos bolsos das calças, as abas do comprido casaco do uniforme atiradas para trás. Certamente ele mesmo não sabia o que estava querendo, de qualquer modo, levantava os pés a uma altura pouco incomum e Gregor ficou espantado com o tamanho gigantesco das solas das botas. Mas não ficou nisso, já sabia desde o primeiro dia da sua nova vida que diante dele, o pai só considerava adequada a severidade extrema. E assim correu na frente do pai, parando quando ele se detinha e se apressando de novo apenas o pai se movia. Deram assim várias voltas pelo quarto, sem que nada de decisivo acontecesse, na realidade sem que tudo aquilo tivesse a aparência uma perseguição, em vista da velocidade lenta. Por causa disso Gregor permaneceu provisoriamente no chão, sobretudo temendo que o pai pudesse considerar uma maldade especial uma fuga pelas paredes ou pelo teto. Seja como for, precisou admitir a si próprio que não poderia agüentar essa corrida por muito tempo, pois enquanto o pai dava um passo, ele tinha de realizar inúmeros movimentos. A falta de fôlego começou a se fazer notar, uma vez que, mesmo nos velhos tempos, não tinha um pulmão inteiramente confiável. Enquanto cambaleava de cá para lá, quase não mantinha os olhos abertos, a fim de reunir todas as forças para a corrida; no seu torpor não pensava em outra maneira de se salvar senão correndo; e tinha esquecido que as paredes estavam à sua disposição, embora aqui elas permanecessem obstruídas por móveis cuidadosamente talhados, cheios de recortes e pontas — quando nesse momento alguma coisa, atirada de leve, voou bem ao seu lado e rolou diante dele. Era uma maçã; a segunda passou voando logo em seguida por ele; Gregor ficou paralisado de susto; continuar correndo era inútil, pois o pai tinha decidido bombardeá-lo. Da fruteira em cima do bufê ele havia enchido os bolsos de maçãs e, por enquanto sem mirar direito, as atirava uma a uma. As pequenas maçãs vermelhas rolavam como que eletrizadas pelo chão e batiam umas nas outras. Uma maçã atirada sem força, raspou as costas de Gregor, mas escorregou sem causar danos.
Uma que logo se seguiu, pelo contrário, literalmente penetrou nas costas dele; Gregor quis continuar se arrastando, como se a dor 38
surpreendente e inacreditável pudesse passar com a mudança de lugar, mas ele se sentia como se estivesse pregado no chão e esticou o corpo numa total confusão de todos os sentidos. Com o último olhar ainda viu a porta do seu quarto ser escancarado e a mãe se precipitar de combinação à frente da filha que gritava; pois Grete a tinha aliviado das roupas para permitir que ela respirasse com liberdade enquanto estava desacordada; viu-a correr ao encontro do pai e no caminho caírem ao chão, uma a uma, as saias desapertadas; e viu quando ela tropeçando nas saias chegou até o lugar onde o pai, estava e, abraçando-o, em completa união com ele
— mas nesse momento a vista de Gregor já falhava, — pedir, com as mãos na nuca do pai, que ele poupasse a vida de Gregor.
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Capítulo III
O grave ferimento de Gregor, que o fez sofrer mais de um mês
— a maçã ficou alojada na carne como uma recordação visível, já que ninguém ousou remove-la, — parecia ter lembrado ao pai que Gregor, a despeito de sua atual figura triste e repulsiva, era um membro da família que não podia ser tratado como um inimigo, mas diante do qual o mandamento do dever familiar impunha engolir a repugnância e suportar, suportar e nada mais.
E embora por causa da ferida Gregor agora tivesse perdido, provavelmente para sempre, algo da sua mobilidade e no momento precisasse de longos, longos minutos para atravessar o quarto, como um velho inválido de guerra — rastejar pelo alto estava fora de cogitação, — ele recebeu, por essa deterioração do seu estado, uma compensação a seu ver inteiramente satisfatória, no sentido de que todos os dias ao anoitecer a porta para a sala de estar, que uma ou duas horas antes costumava observar atentamente, era aberta de tal forma que, deitado na escuridão do seu quarto, invisível da sala de estar, ele podia ver a família toda à mesa iluminada e escutar suas conversas, de certo modo com a permissão geral, ou seja, se uma maneira totalmente diversa da anterior.
Sem dúvida não eram mais as conversas animadas dos velhos tempos, nas quais Gregor sempre pensava com alguma nostalgia quando, nos pequenos quartos de hotel, tinha de se atirar cansado à cama úmida. Agora as coisas só aconteciam na maioria das vezes com muita quietude. Logo depois do jantar o pai adormecia na sua cadeira de braços; a mãe e a irmã concitavam uma a outra ao silêncio; a mãe, muito curvada sob a luz, costurava finas roupas de baixo para uma loja de modas; a irmã, que tinha aceito um emprego como vendedora, à noite estudava estenografia e francês para conseguir talvez mais tarde um posto melhor. Às vezes o pai acordava e como se não soubesse absolutamente que tinha dormido, dizia para a mãe:
— Quanto tempo você está costurando outra vez!
E adormecia de novo, enquanto mãe e filha sorriam cansadas uma a outra.