A Metamorfose

Franz Kafka · Capítulo 14 de 16

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A Metamorfose

— E agora? — pensou Gregor consigo…

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— E agora? — pensou Gregor consigo mesmo e olhou ao redor na escuridão.

Logo descobriu que não podia absolutamente mais se mexer.

Não se admirou com esse fato, pareceu-lhe antes pouco natural que até agora tivesse conseguido se movimentar com aquela perninhas finas. No restante sentia-se relativamente confortável. Na realidade tinha dores no corpo todo, mas para ele era como se elas fossem ficar cada vez mais fracas e finalmente desaparecer por completo. A maçã apodrecida nas suas costas e a região inflamada em volta, inteiramente cobertas por uma poeira mole, quase não o incomodavam. Recordava-se da família com emoção e amor. Sua opinião de que precisava desaparecer era, se possível, ainda mais decidida que a da irmã. Permaneceu nesse estado de meditação vazia e pacífica até que o relógio da torre bateu a terceira hora da manhã. Ele ainda vivenciou o início do clarear geral do dia lá do lado de fora da janela. Depois, sem intervenção da sua vontade, a cabeça afundou completamente e das suas ventas fluiu fraco e último fôlego.

Quando a faxineira chegou de manhã cedo — a partir da sua chegada não era mais possível nenhum sono tranqüilo na casa inteira, tal a força e a pressa com que batia todas as portas, por mais que lhe tivessem pedido que evitasse fazer isso, — ela não descobriu, a principio, nada de especial na curta e costumeira visita a Gregor. Pensou que ele estava deitado ali premeditadamente imóvel e que fazia o papel de ofendido, pois lhe creditava todo o entendimento possível. Por estar casualmente segurando na mão a vassoura de cabo comprido, tentou, da porta, fazer cócegas com ela em Gregor. Quando isso também não deu resultado, ficou irritada, espetou Gregor um pouco e só depois que o havia empurrado do lugar sem achar resistência é que prestou mais atenção. Ao reconhecer a verdade dos fatos arregalou os olhos, deu um assobio, mas não se deteve muito tempo: escancarou a porta do quarto de dormir e bradou em voz alta para dentro do escuro:

— Venham só ver uma coisa: ele empacotou! Está lá empacotado de uma vez!

O casal Samsa ficou sentado no leito conjugal fazendo um esforço para superar o susto com a faxineira antes que chegassem a 53

entender o que ela comunicava. Mas depois o senhor e senhora Samsa, cada um do seu lado, desceram da cama o mais rápido possível; o senhor Samsa atirou sobre os ombros o cobertor, a senhora Samsa saiu só de camisola e assim entraram no quarto de Gregor. Nesse meio tempo tinha sido também a porta da sala de estar, na qual Grete dormia desde a entrada dos inquilinos; estava completamente vestida, como se não tivesse dormido nada; o rosto pálido parecia comprova-lo.

— Morto? — disse a Senhora Samsa, e ergueu os olhos interrogativamente para a faxineira, embora pudesse verificar por si mesma e até reconhecer tudo sem verificação.

— É o que estou tentando dizer — disse a faxineira e para provar empurrou o cadáver de Gregor com a vassoura mais um longo trecho para o lado.

A Senhora Samsa esboçou um movimento, como se quisesse deter a vassoura, mas não o fez.

— Bem — disse o Senhor Samsa, — agora podemos agradecer a Deus.

Fez o sinal-da-cruz e as três mulheres seguiram o seu exemplo. Grete, que não desviava os olhos do cadáver, disse:

— Vejam só como ele estava magro. Também já fazia muito tempo que não comia nada! Assim como entrava, a comida saía de novo. De fato o corpo de Gregor estava completamente plano e seco, na verdade só agora se reconhecia isso, uma vez que ele já não estava erguido sobre as perninhas e nada mais distraia o olhar.

— Grete, entre um instantinho conosco — disse à senhora Samsa com um sorriso melancólico e Grete, não sem olhar para trás, na direção do cadáver, seguiu os pais até o quarto de dormir. A faxineira fechou a porta e abriu completamente a janela. Embora fosse de manhã cedo já se misturava ao ar fresco um pouco de mornidão. Afinal já era fim de março.

Os três inquilinos saíram do seu quarto e olharam perplexos ao redor, à procura do seu café da manhã; tinham-nos esquecidos.

— Onde está o café da manhã? — perguntou rabugentamente à faxineira o inquilino do meio.